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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Grande Muralha e o legado de Tiananmen]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This essay has the goal of reflecting upon the debate that has taken place in China on the issues of human rights and liberal democracy, twenty years since the 4th of June massacre in Tiananmen Square. We will analyse the legacy of Tiananmen and the liveliness of the internal discussion concerning the political as well as economical options of Beijing and, in particular, "Charter 08", a document that was the outcome of a concerted effort by a varied group of Chinese citizens. A theme that is even more pressing by the multiple analyses that point towards a truly multipolar 21st Century.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A Grande Muralha e o legado de Tiananmen</b></p>      <p><b>Raquel Vaz-Pinto <a href="#a1">*</a><a name="topa1"></a></b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Este ensaio tem como objectivo reflectir sobre o debate levado a cabo na China sobre a questão dos direitos humanos e democracia liberal,  vinte anos passados do massacre de 4 de Junho na Praça Tiananmen. Iremos analisar o legado de Tiananmen e a vitalidade da discussão interna sobre  as opções políticas e também económicas de Pequim e, em especial, a "Carta 08", um documento que resultou do esforço concertado de um grupo  diverso de cidadãos chineses. Um tema tornado ainda mais premente pelas múltiplas análises que apontam para um século XXI verdadeiramente multipolar.</p>      <p><i>Palavras-chave:</i> China, Tiananmen, direitos humanos, democracia</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>The Great Hall and Tiananmen Legacy</b></p>      <p>This essay has the goal of reflecting upon the debate that has taken place in China on the issues of human rights and liberal democracy,  twenty years since the 4th of June massacre in Tiananmen Square. We will analyse the legacy of Tiananmen and the liveliness of the internal  discussion concerning the political as well as economical options of Beijing and, in particular, "Charter 08", a document that was the outcome of  a concerted effort by a varied group of Chinese citizens. A theme that is even more pressing by the multiple analyses that point towards a truly  multipolar 21st Century.</p>      <p><i>Keywords:</i> China, Tiananmen, Human rights, democracy</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mais cedo ou mais tarde, a questão da reavaliação do 4 de Junho terá que ser resolvida. Mesmo que seja adiada durante muito tempo, as pessoas não a vão esquecer. É melhor resolvê-la mais cedo do que mais tarde, de forma proactiva em vez de passiva e em tempos estáveis ao invés de conturbados.</p>      <p align="right">Zhao Ziyang<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup></p>      <p>Todos nos lembramos da fotografia que correu mundo há vinte anos: um homem solitário  frente aos tanques do poderoso Exército chinês na Praça de Tiananmen.</p>      <p>Nunca foi  possível saber a sua identidade. E, ainda hoje, não sabemos quantas pessoas foram  massacradas em prol da manutenção da ordem, pois números fidedignos, sobretudo  em matéria de violações de direitos do homem, não são o ponto forte das ditaduras.</p>      <p>Sem dúvida que, na história recente da China, tiveram lugar outros massacres    e bem mais devastadores - basta pensarmos na loucura da Revolução Cultural -,    mas estes não foram transmitidos em directo na televisão. Esta tornou quase    impossível a tradicional memória selectiva das ditaduras e a manutenção da reacção    inicial de Pequim de negação da matança. Vinte anos depois, a China continua    uma ditadura de pedra e cal e, de acordo com o último relatório da Freedom House,    um dos países menos livres do mundo<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></sup>.</p>     <p>A história de como Pequim se adaptou ao "factor Tiananmen" está muito bem documentada    e trabalhada<sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></sup>. Desde então, o    Governo chinês tem desenvolvido uma política externa centrada em seis pilares    interligados em que é possível reconhecer elementos acomodatícios, afirmativos    e agressivos: o reforço dos direitos humanos como uma questão interna de um    Estado soberano; a "aceitação" da validade da Declaração Universal dos Direitos    do Homem, a ratificação, em 2001, do Pacto Internacional Direitos Económicos,    Sociais e Culturais, embora com reservas (<i>e.g.</i>, liberdade de formar e escolher    sindicatos) e a assinatura do Pacto Internacional Direitos Civis e Políticos    em 1998; a primazia dada aos direitos económicos, sociais e culturais; a defesa    de uma abordagem baseada num relativismo cultural (os "Valores Asiáticos") sobretudo    nos anos de 1990; a afirmação da política de "dois pesos e duas medidas" dos    seus críticos; e a inserção da questão dos direitos humanos no debate Norte/Sul<sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></sup>.    Para tornar mais eficaz a sua mensagem, Pequim passou a divulgar na internet    e em inglês os <i>White Papers on Human Rights</i><sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></sup>.</p>      <p>Em nosso entender, a adaptação chinesa das famosas palavras de Abraham Lincoln    proferidas em Gettysburg - "desenvolvimento é para o povo, pelo povo e com o    povo" -, que consta do 1.º Plano Nacional de Acção Direitos Humanos para 2009-2010,    exprime de forma clara aquela que é a prioridade máxima de Pequim: a supremacia    do direito ao desenvolvimento<sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>.    Esta também é facilmente constatada pelo facto de cerca de um terço ser dedicado    aos direitos económicos, sociais e culturais<sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></sup>.    Este documento, divulgado a 13 de Abril, reitera a abordagem defendida no relatório    apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em Novembro de 2008<sup><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></sup>.</p>      <p>Talvez nunca saberemos o que realmente se passou em Tiananmen em 1989, mas    sabemos que, apesar da repressão levada a cabo pelo Governo chinês, há sinais    claros de um debate interno sobre as opções não só políticas, mas também económicas    de Pequim. Um exemplo claro deste legado de Tiananmen é a Carta 08, uma iniciativa    concertada de 303 pessoas que a 10 de Dezembro, dia mundial dos direitos humanos    e 60.º aniversário da aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem,    foi divulgada online<sup><a href="#9">9</a><a name="top9"></a></sup>. Este documento    surpreendeu Pequim e foi capaz de escapar ao forte controlo da circulação de    informação sensível e à censura activa e sistemática da internet pelas autoridades    chinesas<sup><a href="#10">10</a><a name="top10"></a></sup>.</p>     <p>O objectivo deste ensaio é reflectir sobre o debate interno à volta dos direitos    humanos e democracia liberal na China nos últimos vinte anos. Esta reflexão    torna-se ainda mais premente se tivermos em conta as muitas análises sobre a    evolução do século XXI que apontam para uma sociedade internacional multipolar,    sendo a China uma das grandes potências<sup><a href="#11">11</a><a name="top11"></a></sup>.    Nesse mundo multipolar (embora não saibamos o poder dos vários pólos e as preferências    entre si), a ascendência da China poderá consagrar a possibilidade de um blueprint    não democrático economicamente próspero, uma "Singapura à escala de 1,3 mil    milhões"<sup><a href="#12">12</a><a name="top12"></a></sup>. O futuro de um    quinto da população mundial e as suas "opções" em matéria de direitos do homem    e democracia liberal terão, como em muitas outras áreas, consequências globais.</p>       <p><b>A 5.ª MODERNIZAÇÃO E OS DIREITOS HUMANOS: TRÊS ETAPAS</b></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para compreendermos o legado de Tiananmen temos que recuar um pouco no tempo    e, sobretudo, a Wei Jingsheng. Em 1978, este electricista do Jardim Zoológico    de Pequim cometeu a ousadia de pedir a democracia como a modernização que faltava    ao plano de abertura gradual de Deng Xiaoping. Foi preso e sentenciado, em 1979,    a quinze anos de prisão e, em 1993, foi libertado nas vésperas da decisão do    Comité Olímpico Internacional (COI) sobre a localização dos Jogos Olímpicos.    Voltou a ser preso e, em 1997, exilado para os Estados Unidos da América. Prémio    Sakharov em 1996, Wei simboliza o primeiro momento de visibilidade das questões    de direitos humanos na China numa época em que estas não eram de todo discutidas    internacionalmente. A China era, nas palavras de Roberta Cohen, a "excepção    dos direitos humanos"<sup><a href="#13">13</a><a name="top13"></a></sup>. Wei,    através dos seus esforços individuais, foi o precursor do debate.</p>      <p>A segunda etapa tem o seu início nas manifestações estudantis de Maio e Junho    de 1989 que culminaram num banho de sangue. Um movimento estudantil com vários    líderes e cujos protestos se iniciaram com a morte e as cerimónias fúnebres    de Hu Yaobang, um reformista convicto que tinha sido afastado pela linha dura    do regime em 1987. O que começou por ser uma manifestação de estudantes foi-se    alargando a outros sectores da sociedade chinesa, pois o que estava verdadeiramente    em causa era o caminho a seguir em matéria das reformas económicas e políticas.    Neste sentido, Zhao Ziyang, que preconizava a abordagem reformista, perdeu a    luta pelo leme da China, pois recusou-se a ser o secretário-geral que tinha    enviado o Exército para esmagar os estudantes<sup><a href="#14">14</a><a name="top14"></a></sup>.</p>      <p>Dos vários intervenientes gostaríamos  de destacar Wang Dan e Liu Xiaobo. Ambos foram presos mas tiveram sortes diferentes.  Wang, tal como Wei Jingsheng, foi transformado numa útil moeda de troca da política  externa de Pequim nas suas relações difíceis com o COI e Washington. Foi libertado  em 1993, novamente preso e, em 1998, pouco tempo antes da primeira visita pós-Tiananmen  de um Presidente norte-americano, exilado para os Estados Unidos. O intelectual  que se juntou aos protestos em Tiananmen, Liu Xiaobo, apesar das detenções e contínuo  assédio policial, continuou na China. Manteve a sua abordagem crítica e foi o  principal organizador da Carta 08. Esta segunda etapa, a "geração Tiananmen",  começou de modo pouco organizado, mas foi crescendo em termos de reivindicações  e de concertação de abordagens. O 4 de Junho foi um momento incontornável nas  relações da China com o mundo e fundamental para tornar visível a tensão entre  aqueles que defendem a concepção dos direitos do homem como direitos do cidadão  e, como tal, concedidos pelo Estado, e os que consideram os direitos do homem  como intrínsecos à natureza do ser humano.</p>      <p>Ao longo destes vinte anos também temos  vindo a assistir a manifestações cada vez mais organizadas em várias dimensões  da vida pública chinesa: desde as questões ambientais, religiosas, étnicas e laborais  à resistência organizada aos despejos forçados em nome dos Jogos Olímpicos ou  do progresso em geral. Os esforços de advogados como Gao Zhisheng, Ye Guozhu ou  Ni Yulan, dois activistas que lutam pelos direitos daqueles que foram forçados  a abandonar suas casas em Pequim devido aos Jogos Olímpicos, são apenas três exemplos  entre muitos.</p>      <p>Também em matéria de liberdade de expressão encontramos cada vez  mais cidadãos chineses dispostos a correr riscos e, talvez mais importante, sendo  a sua luta conhecida além-fronteiras. O mais famoso é Hu Jia, acusado de "subversão"  depois de ter participado numa videoconferência organizada pelo Parlamento Europeu  sobre direitos do homem na China. Foi preso em Novembro de 2007 e sentenciado  a três anos e meio de prisão em Abril de 2008, tendo recebido in absentia o Prémio  Sakharov 2008. Também ficou célebre o caso de Shi Tao, um jornalista acusado de  revelar segredos de Estado - uma acusação que impossibilita que os julgamentos  sejam públicos - e cuja detenção foi possível com a ajuda da Yahoo! O seu crime  foi o de ter divulgado um <i>e-mail</i> do Departamento de Propaganda com as directrizes  partidárias para a cobertura noticiosa do aniversário do massacre de Tiananmen.  Foi galardoado com a Pena de Ouro da Associação Mundial de Jornais em 2007 e,  em 2008, este prémio foi atribuído a outro cidadão chinês, desta feita Li Changqing,  ex-director adjunto do diário <i>Fuzhau</i>. O seu crime foi o de ter divulgado um surto  de febre de dengue sem consultar previamente as autoridades.</p>      <p>Os desafios internos são muitos e complexos mas pensamos que talvez o mais    explosivo será a tensão entre o crescimento/desenvolvimento económico, crucial    para a China de hoje e para o próprio Partido Comunista Chinês (PCC), e a crescente    consciência do preço ambiental a pagar pela sociedade chinesa. Questões como    a erosão dos solos, água potável, consumo energético e poluição têm-se tornado    motivos de enorme conflito social e, literalmente, questões de vida ou de morte<sup><a href="#15">15</a><a name="top15"></a></sup>.</p>      <p><b>LIU XIAOBO: "A INTERNET É O PRESENTE DE DEUS À CHINA"<sup><a href="#16">16</a><a name="top16"></a></sup></b></p>       <p>Foram estas as palavras  de Liu Xiaobo publicadas pelo <i>The Times</i> a 28 de Abril, no dia em que lhe foi atribuído,  pela sua defesa da liberdade de expressão, o Prémio PEN/Barbara Goldsmith Freedom  to Write 2009. Para Liu, a internet é um meio que permitiu a uma nova geração  de intelectuais emergir e, sobretudo, disseminar as suas ideias. Isto é evidente  na divulgação da Carta 08, um documento que preconiza uma terceira etapa na evolução  da questão dos direitos humanos na China. Um texto simples, curto e dividido em  três partes: prólogo, princípios e propostas.  Esta Carta, tal como a Carta 77  assinada por dissidentes checoslovacos, é um documento absolutamente surpreendente  a três níveis: coordenação, diversidade de apoiantes e natureza das suas propostas.</p>      <p>Primeiro, porque foi assinada por cidadãos <i>residentes</i> na China que tinham consciência  de que ao tornarem público o seu envolvimento seriam alvo de repressão policial.</p>      <p>Liu Xiaobo não foi excepção tendo sido detido em Dezembro e levado para um lugar  não revelado pelas autoridades. A 25 de Junho de 2009 foi formalmente acusado  de incitamento à subversão, uma acusação clássica do regime chinês em casos de  dissidência, e que também deve ser entendida à luz de dois aniversários importantes  em 2009. O primeiro, o aniversário incómodo para Pequim dos vinte anos do 4 de  Junho de Tiananmen e, o segundo, os sessenta anos da fundação da República Popular  da China a 1 de Outubro, cujas comemorações, tal como os Jogos Olímpicos, têm  de reflectir e reafirmar a liderança do PCC como a <i>única</i> possível e capaz.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>"O GOVERNO EXISTE PARA A PROTECÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DOS SEUS CIDADÃOS"</p>       <p>Em segundo, os signatários deste documento formam um grupo muito diverso: incluem    desde Bao Tong, antigo assessor de Zhao Ziyang e que cumpriu dez anos de pena    de prisão, a Ding Zilin, uma professora reformada que, após a morte do filho    em 1989, ajudou a fundar o grupo "As Mães de Tiananmen". Em terceiro, porque    as suas reivindicações não são meros paliativos ou reformas do regime actual,    antes constituem um repto por uma China democrática ao estilo de Lincoln: "do    povo, pelo povo e para o povo"<sup><a href="#17">17</a><a name="top17"></a></sup>.</p>      <p>Há um apelo para que direitos já existentes na Constituição sejam de facto    aplicados e uma constatação de que "a China tem muitas leis, mas não um Estado    de Direito; uma Constituição, mas não um governo constitucional"<sup><a href="#18">18</a><a name="top18"></a></sup>.    Um exemplo claro foi o aditamento constitucional de 2004 ao artigo 33.º em que,    pela primeira vez, se afirma que "o Estado respeita e protege os direitos humanos".    Na prática, a supremacia dos interesses do Estado, sociedade ou colectivo, como    consta do artigo 51.º, mantém-se. À dicotomia entre direitos do homem e direitos    do cidadão, os signatários da Carta respondem de forma explícita: "Os direitos    humanos não são concedidos pelos estados. Todos nascem com direitos inerentes    à sua dignidade e liberdade.</p>     <p>O governo existe para a protecção dos direitos humanos dos seus cidadãos. O    exercício do poder estatal tem que ser autorizado pelo povo."<sup><a href="#19">19</a><a name="top19"></a></sup>    Com este propósito é avançada a criação de um Comité de Direitos Humanos de    modo a impedir abusos de poder sendo dada especial atenção à abolição do sistema    de "reeducação através do trabalho"<sup><a href="#20">20</a><a name="top20"></a></sup>.</p>      <p>Mas igualmente interessante é o diagnóstico efectuado dos problemas da sociedade    chinesa: a corrupção endémica dos membros do PCC e dos burocratas; o declínio    de uma ética pública; um capitalismo selvagem e oligárquico; o crescente fosso    entre os ricos e os pobres e, mais importante, entre os membros do partido e    os cidadãos comuns<sup><a href="#21">21</a><a name="top21"></a></sup>. Estas    são queixas cada vez mais frequentes dos cidadãos chineses e se há lição que    o PCC pode retirar da longa história da China é a de que a corrupção é mortal    para a legitimidade governativa.</p>       <p>"UM NOVO CAPÍTULO DA CIVILIZAÇÃO CHINESA"</p>      <p>Há nesta Carta muitos elementos interessantes e que versam sobre diversas áreas  da sociedade - desde a protecção do meio ambiente ao alargamento de um sistema  de segurança social a <i>todos</i> os chineses -, mas gostaríamos de destacar duas ideias.</p>      <p>A primeira prende-se com a importância de conciliar os valores da ordem e da    justiça, não deixando cair no esquecimento da história e dos números as vítimas    do comunismo. É sempre um dilema harmonizar a necessidade de manter a estabilidade    e a ordem de um país e, simultaneamente, fazer justiça às vítimas de violações    de direitos humanos. Para além da preocupação com a reabilitação das vítimas    e suas famílias às quais o Estado deve pagar indemnizações, os signatários propõem    a criação de uma Comissão de Investigação da Verdade com a tarefa de procurar    a reconciliação social<sup><a href="#22">22</a><a name="top22"></a></sup>.</p>     <p>A segunda ideia está relacionada não só com a memória do próprio comunismo, mas  também dos últimos cem anos. Na opinião dos autores da Carta, o processo de modernização  política tem sido um processo adiado e, nesse sentido, é feito um apelo:</p>      <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>"Juntos podemos trabalhar para alcançar grandes mudanças na sociedade chinesa      e o rápido estabelecimento de um país livre, democrático e constitucional.      Somos capazes de tornar realidade os objectivos e ideais que o nosso povo      procura incessantemente há mais de cem anos e acrescentar um novo e brilhan-te      capítulo à civilização chinesa."<sup><a href="#23">23</a><a name="top23"></a></sup></p> </blockquote>     <p>Desde logo, constatamos o reconhecimento do falhanço da República chinesa saída    dos escombros do Império do Meio e dos sonhos daquela que foi a primeira manifestação    do nacionalismo chinês, o 4 de Maio de 1919. Este foi consequência da desilusão    face às negociações de Versalhes e, em especial, à decisão de entregar a possessão    alemã de Xandong ao Japão ao invés do regresso à soberania chinesa<sup><a href="#24">24</a><a name="top24"></a></sup>.    Para além da crítica a estes anos conturbados da República chinesa - agravados    pela invasão japonesa e a guerra civil entre o PCC e o Guomindang - há uma clara    rejeição da herança comunista, sobretudo tendo em consideração o enorme preço    que teve de ser suportado pelo povo chinês (desde o Grande Salto em Frente à    Revolução Cultural).</p>      <p>Em segundo lugar, gostaríamos de destacar as palavras finais desta Carta: "civilização    chinesa". Há aqui claramente uma vontade de, ao contrário da "folha em branco"    avançada pelo comunismo, assumir a história da China e continuá-la com um "capítulo"    democrático. É relevante lembrarmo-nos que o Império do Meio, apesar de decadente,    enfrentou o desafio da extraterritorialidade e do chamado "padrão de civilização"    de modo oposto ao Japão<sup><a href="#25">25</a><a name="top25"></a></sup>.    O Império Chinês procurou sempre através de uma diplomacia assertiva combater    as concessões estrangeiras e os tratados desiguais com base na sua injustiça    e não reconhecendo os critérios do padrão de civilização como um teste.</p>      <p>O Japão, pelo contrário, fez todos os esforços para  cumprir esses critérios internos e externos e, em 1919, chegou a Versalhes como  uma grande potência. Tinha vencido a China e imposto o Tratado de Shimonoseki  em 1895, efectuado uma aliança com a Grã-Bretanha em 1902 e, sobretudo, derrotado  a Rússia na guerra de 1904-1905.</p>      <p>No entanto, em Versalhes a delegação japonesa compreendeu que, apesar de cumprir    o padrão de civilização, não estava em igualdade de circunstâncias com as outras    grandes potências. E foi esta percepção que explica a proposta japonesa de uma    cláusula de igualdade racial. Uma proposta que lançou as sementes para o movimento    de contestação ao <i>status quo</i> que caracterizou, em especial, a segunda metade    do século XX<sup><a href="#26">26</a><a name="top26"></a></sup>.</p>      <p>A escolha da palavra "civilização" e não Estado ou país relembra-nos a observação    de Lucien Pye de que a "China é uma civilização a fingir que é um estado-nação"<sup><a href="#27">27</a><a name="top27"></a></sup>.</p>     <p>No fundo, há um regresso à esperança de uma nova República que, ao contrário da  primeira, seja verdadeiramente democrática e que mantenha a grandeza de uma civilização  milenar. Também esta questão é importante para tentarmos descortinar como será  a ascensão da China a grande potência: um processo pacífico - uma versão moderna  da virtude civilizacional do Império do Meio - ou uma abordagem de maior confronto  apoiada no <i>hardpower</i>.</p>       <p><b>CONCLUSÃO</b></p>       <p>Se, por um lado, constatamos que passados vinte  anos desde o 4 de Junho a China continua uma ditadura, por outro verificamos a  existência de um debate na sociedade chinesa sobre os caminhos a seguir neste  século XXI. Há muitas questões de <i>hardpower</i> que moldarão o futuro da Grande Muralha  enquanto jogadora de peso da sociedade internacional, mas pensamos ser fundamental  manter no horizonte a evolução do legado de Tiananmen. Pois se há uma lição a  retirar do fim do século XX é a de que a vontade de se ser livre leva os homens  a uma coragem e determinação capazes de derrubar Muros.</p>       <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOTAS</b></p>      <p><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></sup> ZHAO, Ziyang, in BAO, Pu,    CHIANG, Renee, e IGNATIUS, Adi (eds.) - <i>Prisoner of the State, the Secret Journal    of Zhao Ziyang</i>. Nova York: Simon & Schuster, 2009, p. 80. No original: "Sooner    or later, the issue of reevaluating June Fourth must be resolved. Even if it's    delayed for a long time, people will not forget. It is better to resolve it    earlier rather than later, proactively rather than passively, and in stable    rather than troubled times."</p>      <p><sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a></sup> Numa escala de 1 (mais livre)    a 7 (menos livre) foi atribuída à China 6 em matéria de direitos civis e 7 no    que diz respeito aos direitos políticos. Cf. FREEDOM HOUSE - </i>Freedom in    the World 2008: Subscores</i>. [Consultado em: 7 de Julho 2009]. Disponível    em <a href="http://www.freedomhouse.org/template.cfm?page=414&year=2008" target="_blank">http://www.freedomhouse.org/template.cfm?page=414&year=2008</a>.  </p>      <p><sup><a href="#top3">3</a><a name="3"></a></sup> Cf. CHEN, Jianfu - <i>Chinese    Law, Towards an Understanding of Chinese Law, Its Nature and Development</i>. Haia:    Kluwer Law International, 1999; COPPER, John F. - "Peking's post-Tiananmen foreign    policy: the human rights factor". In <i>Issues and Studies, A Journal of Chinese    Studies and International Affairs</i>. Vol. 30, N.º 10, Outubro de 1994, pp. 49-73;    HARDING, Harry - "Breaking the impasse over human rights". In VOGEL, Ezra F.    (ed.) - <i>Living with China, United States-China Relations in the Twenty First    Century</i>. Nova York e Londres: W. W. Norton & Co, 1997, pp. 165-184; KENT, Ann    - <i>Between Freedom and Subsistence, China and Human Rights</i>. Hong Kong, Oxford    e Nova York: Oxford University Press, 1995; NATHAN, Andrew - "Human rights in    Chinese foreign policy". In <i>The China Quarterly</i>. Vol. 139, Setembro de 1994,    pp. 622-643; POTTER, Pitman B. - <i>The Chinese Legal System, Globalization and    Local Legal Culture</i>. Londres e Nova York: Routledge, 2002; SEYMOUR, James D.    - "Human rights in Chinese foreign relations". In KIM, Samuel S. (ed.) - <i>China    and the World: Chinese Foreign Policy Faces the New Millennium</i>. Boulder, Colorado:    Westview Press, 1998, pp. 217-238; e WAN, Ming - <i>Human Rights in Chinese Foreign    Relations, Defining and Defending National Interests</i>. Filadélfia: University    of Pennsylvania Press, 2001.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top4">4</a><a name="4"></a></sup> VAZ-PINTO, Raquel - "A política    externa chinesa e os direitos humanos". In <i>Daxiyangguo - Revista Portuguesa    de Estudos Asiáticos</i>. N.º 12, 2007, pp. 11-22.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000057&pid=S1645-9199200900030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><sup><a href="#top5">5</a><a name="5"></a></sup> Todos os <i>White Papers</i>    estão no <i>site</i> de informação oficial da República Popular da China em    <a href="http://www.china.org.cn/e-white/index.htm" target="_blank">http://www.china.org.cn/e-white/index.htm</a>    [Consultado em: 7 de Julho de 2009].</p>      <p><sup><a href="#top6">6</a><a name="6"></a></sup> INFORMATION OFFICE OF THE    STATE COUNCIL OF THE PEOPLE'S REPUBLIC OF CHINA - <i>National Human Rights Action    Plan of China (2009-2010)</i>, 13 de Abril de 2009. [Consultado em: 7 de Julho    de 2009]. Disponível em <a href="http://www.china.org.cn/archive/2009-04/13/content_17595407.htm" target="_blank">http://www.china.org.cn/archive/2009-04/13/content_17595407.htm</a>.    Daqui em diante, citado apenas como Plano Nacional Direitos Humanos.</p>      <p><sup><a href="#top7">7</a><a name="7"></a></sup> Este documento está dividido    em cinco partes: garantia de direitos económicos, sociais e culturais; garantia    de direitos civis e políticos; garantia de direitos e interesses das minorias    étnicas, mulheres, crianças, idosos e deficientes ou com mobilidade reduzida;    a educação direitos humanos; e as relações internacionais a nível de direitos    humanos (<i>e.g.</i>, relatórios dos tratados ratificados pela China ou participações    no Conselho de Direitos Humanos).</p>      <p><sup><a href="#top8">8</a><a name="8"></a></sup> DOCUMENTO ONU A/HRC7WG.6/4/CHN/1.</p>      <p><sup><a href="#top9">9</a><a name="9"></a></sup> "China's Charter 08", traduzida    por Perry Link. In <i>The New York Review of Books</i>. Vol. 56, N.º 1, 15 de    Janeiro de 2009. [Consultado em: 7 de Julho 2009]. Disponível em<a href="http://www.nybooks.com/articles/22210" target="_blank">    http://www.nybooks.com/articles/22210</a>. Daqui em diante citada apenas como    Carta 08.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top10">10</a><a name="10"></a></sup> GOLDSMITH, Jack, e WU,    Tim - <i>Who Controls the Internet? Illusions of a Borderless World</i>. Oxford: Oxford    University Press, 2006, pp. 87-104.</p>      <p><sup><a href="#top11">11</a><a name="11"></a></sup> <i>E.g.</i> HASSNER, Pierre -    "The fate of a century". In <i>The American Interest</i>. Julho-Agosto de 2007, pp.    36-47.</p>      <p><sup><a href="#top12">12</a><a name="12"></a></sup> Para uma análise crítica    sobre esta possibilidade tendo em conta a questão uigur, cf. MONJARDINO, Miguel    - "A nova fronteira chinesa". In <i>Expresso</i>, 11 de Julho de 2009, p. 29.</p>      <p><sup><a href="#top13">13</a><a name="13"></a></sup> Cf. COHEN, Roberta - "People's    Republic of China: the human rights exception". In <i>The Human Rights Quarterly</i>.    Vol. 9, 1987, pp. 447-549.</p>      <p><sup><a href="#top14">14</a><a name="14"></a></sup> ZHAO, Ziyang, in BAO, Pu,    CHIANG, Renee, e IGNATIUS, Adi (eds.) - <i>Prisoner of the State, the Secret Journal    of Zhao Ziyang.</i>, p. 57.</p>      <p><sup><a href="#top15">15</a><a name="15"></a></sup> Por exemplo, em 2005, foram    relatados na imprensa chinesa cerca de 50 mil protestos ambientais, cf. ECONOMY,    Elizabeth, e LIEBERTHAL, Kenneth - "Scorched earth, will environmental risks    in China overwhelm its opportunities?". In <i>Harvard Business Review</i>, Junho de    2007, pp. 88-96. Cf. também BRESLIN, Shaun - "China's environmental crisis in    a global context". In <i>Global Society</i>. Vol. 10, N.º 2, 1996, pp. 125-144.</p>      <p><sup><a href="#top16">16</a><a name="16"></a></sup> LIU, Xiaobo - "The internet    is God's present to China". In <i>The Times</i>, 28 de Abril de 2009. [Consultado    em: 7 de Julho de 2009]. Disponível em <a href="http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/guest_contributors/article6181699.ece" target="_blank">http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/guest_contributors/article6181699.ece</a>.</p>      <p><sup><a href="#top17">17</a><a name="17"></a></sup> Carta 08, parte II, parágrafo    5. No original: "In short, democracy is a modern means for achieving government    truly "of the people, by the people, and for the people"."</p>      <p><sup><a href="#top18">18</a><a name="18"></a></sup> Carta 08, parte I, parágrafo    7. No original: "Unfortunately most of this political progress has extended    no further than the paper on which it is written. The political reality, which    is plain for anyone to see, is that China has many laws but no rule of law;    it has a constitution but no constitutional government."</p>      <p><sup><a href="#top19">19</a><a name="19"></a></sup> Carta 08, parte II, parágrafo    2. No original: "Human Rights are not bestowed by a state. Every person is born    with inherent rights to dignity and freedom. The government exists for the protection    of the human rights of its citizens. The exercise of state power must be authorized    by the people."</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top20">20</a><a name="20"></a></sup> Carta 08, parte III, parágrafo    6.</p>      <p><sup><a href="#top21">21</a><a name="21"></a></sup> Carta 08, parte I, parágrafo    8. No original: "The stultifying results are endemic official corruption, an    undermining of the rule of law, weak human rights, decay in public ethics, crony    capitalism, growing inequality between the wealthy and the poor, pillage of    the natural environment as well as of the human and historical environments,    and the exacerbation of a long list of social conflicts, especially, in recent    times, a sharpening animosity between officials and ordinary people."</p>      <p><sup><a href="#top22">22</a><a name="22"></a></sup> Carta 08, parte III, parágrafo    19. No original: "We should restore the reputations of all people, including    their family members, who suffered political stigma in the political campaigns    of the past or who have been labeled as criminals because of their thought,    speech, or faith. The state should pay reparations to these people. All political    prisoners and prisoners of conscience must be released. There should be a Truth    Investigation Commission charged with finding the facts about past injustices    and atrocities, determining responsibility for them, upholding justice, and,    on these bases, seeking social reconciliation."</p>      <p><sup><a href="#top23">23</a><a name="23"></a></sup> Carta 08, parte III, parágrafo    21. No original: "Together we can work for major changes in Chinese society    and for the rapid establishment of a free, democratic, and constitutional country.    We can bring to reality the goals and ideals that our people have incessantly    been seeking for more than a hundred years, and can bring a brilliant new chapter    to Chinese civilization."</p>      <p><sup><a href="#top24">24</a><a name="24"></a></sup> ZHANG, Yongjin - <i>China    in the International System, 1918-1920, The Middle Kingdom at the Periphery</i>.    Oxford e Londres: Macmillan/St. Antony's College, 1991; e Idem - "China's entry    into international society: beyond the standard of civilisation". In Review    of International Studies. Vol. 17, 1991, pp. 3-16.</p>      <p><sup><a href="#top25">25</a><a name="25"></a></sup> Cf. GONG, Gerrit W. - <i>The    Standard of "Civilization" in International Society</i>. Oxford: Clarendon Press,    1984.</p>      <p><sup><a href="#top26">26</a><a name="26"></a></sup> NAOKO, Shimazu - <i>Japan,    Race and Equality, the Racial Equality Proposal of 1919</i>. Londres: Routledge,    1998.</p>      <p><sup><a href="#top27">27</a><a name="27"></a></sup> PYE, Lucien W. - "China:    erratic state, frustrated society". In <i>Foreign Affairs</i>. Vol. 69, N.º 4, Outono    de 1990, p. 58 (pp. 56-74). Cf. também WANG, Gungwu - <i>The Chineseness of China,    Selected Essays</i>. Oxford: Oxford University Press, 1991.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><a href="#topa1">*</a><a name="a1"></a> Professora e investigadora do Instituto    de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Membro da Direcção    da Associação Portuguesa de Ciência Política desde 2006. Doutorada pela Universidade    de Londres com uma tese intitulada «International Society, Standard of Civilisation,    and the Abolition of the Death Penalty: the United Nations and China» (2005).</p>      ]]></body>
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<surname><![CDATA[VAZ-PINTO]]></surname>
<given-names><![CDATA[Raquel]]></given-names>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A política externa chinesa e os direitos humanos]]></article-title>
<source><![CDATA[Daxiyangguo - Revista Portuguesa de Estudos Asiáticos]]></source>
<year>2007</year>
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