<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-9199</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Relações Internacionais (R:I)]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Relações Internacionais]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-9199</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[IPRI-UNL]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-91992009000300018</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Política Externa Norte-Americana]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Soller]]></surname>
<given-names><![CDATA[Diana]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Ministério da Defesa Nacional IDN - Instituto Nacional da Defesa ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<numero>23</numero>
<fpage>189</fpage>
<lpage>192</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-91992009000300018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-91992009000300018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-91992009000300018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>Política Externa Norte-Americana</b></p>      <p><b>Diana Soller <a href="#a1">*</a><a name="topa1"></a></b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Timothy J. Lynch e Robert S. Singh, </b><b><i>After Bush – The Case for Continuity in American Foreign Policy</i></b></p>      <p>Cambridge, Cambridge University Press, 2008, 382 pp. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O argumento deste livro é, sem dúvida, polémico, num momento em que o mundo está encantado com a eleição de Barack Obama e ocupado a apontar as diferenças entre o novo Presidente e o seu antecessor. Timothy Lynch e Robert Singh (da Universidade de Londres) afirmam que a doutrina Bush não foi uma invenção do Presidente que a protagonizou. Foi, antes, a resposta lógica aos ataques do 11 de Setembro, informada pela «tradição da política externa norte-americana». A guerra contra o terrorismo, a que chamam II Guerra Fria, é o sucedâneo, com os devidos ajustes relacionados com a natureza do opositor, do conflito que opôs os Estados Unidos à URSS. </p>      <p>Partindo deste princípio, os autores salientam que as principais características da política externa americana desde o 11 de Setembro e os métodos para atingir um sistema internacional mais seguro não só foram uma constante durante a Guerra Fria como fazem parte das orientações externas dos Estados Unidos desde que são uma nação. Por outras palavras, quer a crença de que o carácter democrático dos estados é determinante para a estabilidade das relações internacionais (e que a primazia americana é a melhor forma de manter a paz) quer a certeza de que o ataque preventivo e a decapitação de regimes tirânicos através de coligações de vontade são tácticas legítimas são conceitos que acompanham a política externa norte-americana há mais de 200 anos. Este argumento é assumidamente herdeiro de Robert Kagan, que tentou provar, em <i>Dangerous Nation</i>, que os Estados Unidos são naturalmente uma nação expansionista, apesar do carácter benigno da sua intervenção internacional. </p>      <p>A este argumento, Lynch e Singh impõem duas conclusões: primeira, independentemente do presidente que ocupar a Casa Branca, as características da política externa americana dos últimos anos manter-se-ão – são estruturais. Segunda, as coligações de vontade são uma forma eficaz de projectar poder, porque reúnem os estados de identidade anglo-saxónica (Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Índia). Estes estados partilham o mesmo sistema de valores, o mesmo entendimento relativamente às necessidades de segurança, e a mesma vontade de fazer uso da força militar quando necessário. São aliados naturais e tenderão a manter a liderança do sistema, como se verifica desde a ascensão do Império Britânico. </p>      <p>Independentemente da inconsistência da tese – não existe <i>uma </i>tradição na política externa norte-americana, mas pelo menos três, e em permanente confronto –, Lynch e Singh levantam um debate cada vez mais relevante na literatura das relações internacionais: numa nova ordem internacional, como se definirão as fidelidades dos estados? Pela identidade política ou histórico-cultural? Pelo interesse nacional?</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>Derek Chollet e James Goldgeier, </b><b><i>America between the Wars – From 11/9 to 9/11 – The M</i></b><b><i>isunderstood Years between the Fall of the Berlin Wall and the Start of the War on Terror</i></b></p>      <p>Nova York, Public Affairs, 2008, 412 pp. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Charles Krauthammer, colunista do <i>Washington Post</i>, considerou que os doze anos que compreendem o derrube do Muro de Berlim e os atentados terroristas do 11 de Setembro foram «umas férias da história». Esta expressão designava a ausência de ameaças internacionais imediatas, o que teria dado aos decisores americanos um período de relativo descanso, dispensando-os de crises profundas ou decisões difíceis.</p>      <p>Quem ler <i>From 11/9 to 9/11</i>, de Derek Chollet (Universidade de Georgetown) e James Goldgeier (Universidade de George Washington), percebe que Krauthammer só em parte tinha razão: os anos 1990 foram essencialmente tempos de hesitação e experiência, em que os decisores, confrontados com um novo sistema internacional – unipolar – procuraram encontrar soluções de governação global num contexto para o qual não havia modelos na História. </p>      <p>Segundo os autores, desenharam-se duas grandes tendências. Uma foi a dificuldade de definir as novas regras de uso de poder. Sem amarras – constrangimentos provocados pelo equilíbrio de poder de outros estados – os Estados Unidos tiveram a oportunidade de transformar a ordem valorativa. O resultado foi, essencialmente, levantar mais questões do que encontrar respostas: ainda hoje se  procura definir, por exemplo, um novo conceito de legitimidade internacional. O antigo – o respeito pela soberania dos estados – está em crise devido às intervenções humanitárias levadas a cabo no período em apreço. </p>      <p>Outra tendência foi o desenvolvimento de uma maior vontade política de fazer uso da força militar por razões não relacionadas com a segurança imediata. Nos anos 1990, desenvolveram-se e acentuaram-se duas doutrinas – o liberalismo internacionalista e o neoconservadorismo – que tinham (e têm) em comum a ideia de expansão da democracia com a finalidade de obter, a prazo, um sistema internacional mais estável e pacífico. Liberais internacionalistas e neoconservadores  desenvolveram a ideia de que os Estados Unidos podem (e devem, em certos casos) exercer o seu poder de transformar o mundo, pela força, se necessário. Simultaneamente, os conservadores («Contract Republicans») não foram capazes de fazer propostas suficientemente consistentes para se opor a esta abordagem mais interventiva que se desenhava em Washington, quer na Casa Branca, quer nos <i>think tanks</i>.</p>      <p>Os autores concluem realçando as semelhanças entre a Administração Clinton e a Administração W. Bush, no que respeita às ideias sobre o uso de poder e da força militar americana – «maiores do que a maioria dos americanos percepcionaram ou que os partidários de ambos os lados querem admitir». Se assim for, os anos 1990 não foram exactamente umas férias da História. Foram o início de uma história complexa cujo desfecho ainda está por construir.</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Thomas E. Ricks,</b><b><i> The Gamble – General Petraeus and the Untold Story of the American Surge in Iraq, 2006-2008</i></b></p>      <p>Londres, Alan Lane, 2009, 394 pp.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Este magnífico relato de Thomas Ricks (correspondente do <i>Washington Post</i> no Pentágono e autor do muito aclamado <i>Fiasco</i>) sobre as origens e a execução da <i>surge</i> – a estratégia da contra-insurreição que mudou o rumo da Guerra do Iraque – demonstra uma realidade interessante. É que apesar de a estratégia ter sido desenhada para alterar o resultado do conflito em favor dos Estados Unidos, impôs uma mudança de mentalidade nas Forças Armadas norte-americanas.</p>      <p>Os péssimos resultados da Guerra do Iraque desde o fim da invasão até ao final de 2006 criaram condições para uma revisão profunda do pensamento militar norte­&#8209;americano. Até aí, dominava a doutrina Powell constituída por quatro princípios: o uso maciço da força militar, que visava a limitação do tempo de permanência em ambiente de conflito; a definição de objectivos precisos; o abandono do cenário de guerra assim que os objectivos pré-definidos fossem atingidos. Procurava-se, sobretudo, evitar baixas americanas e manter a opinião pública a favor das decisões do poder político. </p>      <p>Se estas regras foram eficazes durante a Guerra Fria, tornaram-se obsoletas em cenários de conflito irregular. A aplicação da doutrina Powell depois da invasão ao Iraque – evitar a exposição dos soldados americanos e usar poder massivo contra guerrilheiros irregulares – levou a que os norte-americanos se tornassem espectadores de uma «quase guerra civil» alimentada por milícias étnicas (sunitas e xiitas) e adversários externos – a Al-Qaeda e o Irão. </p>      <p>Sem soluções, a Casa Branca cedeu à implementação da <i>surge</i>, uma estratégia com muito poucos apoios no <i>establishment </i>político e militar. A «doutrina Petraeus» mais não é do que a aplicação de regras clássicas de contra-insurreição. Mas representa a inversão da ideia de uso de poder militar massivo: constitui-se da limitação dos objectivos políticos (a estabilidade em vez da democracia); do aumento dos meios humanos; e, principalmente, da protecção da população quer no que respeita à sua segurança, quer no que respeita à sua dignidade.</p>      <p>O que aconteceu no Iraque entre 2006 e 2008 foi a transformação da doutrina Powell na doutrina Petraeus. Já se sabe que o alcance dos resultados desta estratégia nunca poderá ser plenamente apreciado, uma vez que o Exército americano irá retirar, muito em breve, do Iraque. Fica por saber – é disso que se ocupa o último capítulo do livro – se os poderes político e militar (muito resistente) irão aceitar esta profunda mudança no conceito de  fazer a guerra. Cabe à Administração Obama – que já anunciou uma nova <i>surge</i> no Afeganistão – sedimentar ou abandonar tão profunda transformação nos assuntos militares americanos.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Simon Schama, </b><b><i>The American Future: A History from the Founding Fathers to Barack Obama</i></b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Londres, Vintage, 2009, 416 pp.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Por vezes, surge um autor que, sem querer imitar Alexis de Tocqueville, segue-lhe as pegadas. Não se fala aqui de igualar a importância e a qualidade da obra do visitante francês, trata-se  de colocar a mesma pergunta que Tocqueville colocou: o que é que os Estados Unidos, o que é que a democracia e o sistema político americano têm que os diferenciam dos restantes estados? Muitas vezes, a resposta vem no formato de um livro muito marcado ideologicamente: ou é um relato de todas as falhas dos Estados Unidos ou um corolário de todas as suas virtudes. Este desequilíbrio torna esses trabalhos pouco interessantes e ainda menos informativos. </p>      <p>O recente livro de Simon Schama (Universidade de Columbia), <i>The American Future: A History</i> é invulgar neste aspecto.  Em parte do livro, o historiador – um confesso entusiasta da América e um defensor convicto do Partido Democrata – demonstra uma preferência exacerbada por determinadas figuras históricas em detrimento de outras, distorcendo, até certo ponto, o papel que cada um desempenhou na história da concepção da América. Noutros momentos, Schama demonstra lucidez e mestria, especialmente no que respeita à caracterização de certos traços do adn americano.</p>      <p>Estas diferenças encontram-se se compararmos primeiro e segundo capítulos, respectivamente sobre a guerra e a religião. No primeiro, o autor caracteriza a América através do debate entre Jefferson e Hamilton, tomando como ponto de partida as concepções que cada um detém para West Point (a academia militar norte­&#8209;americana por excelência). Jefferson preconiza um corpo militar de elite, em que os cadetes são treinados para a paz, para a reconstrução e para o desenvolvimento. Hamilton projecta uma força capaz de defender os interesses americanos no exterior, uma vez que, mais tarde ou mais cedo, seria necessário usar o poder militar para defender a República. Jefferson é caracterizado como o estadista ponderado, <i>lockiano</i>, fundador do ideal americano. Hamilton é o federalista imperialista, que prefere o poder à paz.  É deste retrato distorcido – onde jogam «duas Américas», uma boa, outra má – que parte toda a análise do livro. Há, portanto, heróis e anti­&#8209;heróis. E a América progride quando os heróis comandam as instituições.</p>      <p>Schama analisa ainda o sistema institucional americano através da liberdade religiosa, percebendo que a Primeira Emenda à Constituição proporcionou não só a separação de poder do Estado e da igreja como uma liberdade religiosa sem precedentes na História. Assim a América tornou-se um permanente diálogo entre a fé, a liberdade e a convicção e a tolerância. Em suma, o autor é preciso e tolerante com as instituições e menos justo com os protagonistas. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><a href="#topa1">*</a><a name="a1"></a> Mestra em Relações Internacionais pela    Universidade Lusíada. Assessora de Estudos do IDN.</p>       ]]></body>
</article>
