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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Relatório Albright e a grande estratégia Obama um caso de convergência]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article argues that there is a confluence between the US National Security Strategy and the “Report Albright”. Both documents converge in what concern the US sought to have a lesser active role in the international system, and in the idea that if the Alliance’s member states accept the proposals of the “Report Albright”, NATO will be a fundamental stage to redefine the international order rules, as well as will acquire a pivotal entity role regarding the relations with international organizations and emerging powers.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>O Relatório Albright e a grande estratégia Obama um caso de convergência?</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Diana Soller</b></p>       <p>Doutoranda em Estudos Internacionais na Universidade de Miami.    Investigadora do Instituto da Defesa Nacional e do IPRI–UNL.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Resumo</b></p>      <p>Este artigo argumenta que existe uma confluência entre a National Security    Strategy dos Estados Unidos e o «Relatório Albright». Os documentos convergem    no que respeita a duas questões interligadas – que os Estados Unidos desejam    ter um papel menos activo no sistema internacional e que se os estados-membros    da Aliança Atlântica aceitarem incorporar as propostas do Grupo de Peritos,    a NATO passa a ser uma plataforma fundamental quer na redefinição das regras    da ordem internacional, quer no papel de entidade pivô, no que respeita às relações    do Ocidente com outras organizações internacionais, e com as potências emergentes.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> NATO, revisão do Conceito Estratégico, Relatório Albright,    National Security Strategy</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Abstract</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>The Report Albright and Obama’s great strategy: a convergence case?</b></p>      <p>This article argues that there is a confluence between the US National Security    Strategy and the “Report Albright”. Both documents converge in what concern    the US sought to have a lesser active role in the international system, and    in the idea that if the Alliance’s member states accept the proposals of the    “Report Albright”, NATO will be a fundamental stage to redefine the international    order rules, as well as will acquire a pivotal entity role regarding the relations    with international organizations and emerging powers.</p>     <p><b>Keywords:</b> NATO, Strategic Concept review, Report Albright, National Security    Strategy</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Os cientistas políticos tendem a considerar determinadas datas como marcos    de referência dos acontecimentos mais importantes das relações internacionais.    Em 1989 caiu o Muro de Berlim, em 1991 o Império Soviético implodiu, em 2001    os ataques terroristas transformaram a visão americana da política internacional,    em 2003 começou a II Guerra do Iraque, e 2008 ficou marcado pela afirmação de    potências emergentes no sistema internacional<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>.    Se as tendências que pretendemos analisar aqui se mantiverem, 2010 poderá vir    a ser considerado um ano-chave, devido a uma profunda mudança na grande estratégia    norte-americana. Poderá ser o ano em que a liderança americana se modificou    profundamente, não propriamente no que respeita aos objectivos estratégicos,    mas na forma de liderança que os Estados Unidos desempenharão, a partir de agora,    no sistema internacional.</p>     <p>A verificarem-se, estas transformações terão grande impacto nos próximos anos.    Curiosamente, o processo intelectual público por trás desta grande estratégia    começou a ser delineado no seio da nato – no Grupo de Sábios, designado para    apresentar uma proposta de revisão do Conceito Estratégico da Aliança – e não    no National Security Council.</p>     <p>Este artigo argumenta que existe uma confluência entre a grande estratégia    dos Estados Unidos para os próximos quatro anos (National Security Strategy)    e o Relatório dos Peritos nomeado pelo secretário-geral da Aliança Atlântica,    Hans Fogg Rasmussen (<i>NATO 2020: Assured Security; Dynamic Engagement – Analysis    and Recommendations of the Group of Experts on a New Strategic Concept for NATO</i>),    muitas vezes designado Relatório Albright. Os documentos convergem no que respeita    a duas questões interligadas:</p>     <p>· Os Estados Unidos desejam ter um papel menos activo no sistema internacional    e, para isso, precisam de certificar-se que não deixam a estrutura entregue    a si mesmo, de forma a evitar vazios de poder. Assim:</p>     <p>· se os estados-membros da Aliança Atlântica aceitarem incorporar as propostas    do Grupo de Peritos, a nato passa a ser uma plataforma fundamental em duas vertentes:    na redefinição das regras da ordem internacional (nesse aspecto, o Relatório    Albright é bastante conservador, regressando aos valores pós-1945, abalados    pelas inovações epistemológicas introduzidas nos anos 1990 e pela crise transatlântica    de 2003) e no papel de entidade pivô no que respeita às relações do Ocidente    com outras organizações internacionais, e com as potências emergentes. </p>     <p>A Administração Obama e o Grupo de Sábios estão de acordo na interpretação    das mudanças no sistema internacional, e são concorrentes no que respeita ao    papel que cada actor passará a desempenhar: ao aparente recuo norte-americano    parece corresponder um avanço da Aliança Atlântica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para demonstrar este argumento, consideram-se duas partes. Na primeira, contextualiza-se    e analisa-se a National Security Strategy (NSS) de 2010, a primeira da Administração    Obama<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a> </sup>. Enfatiza-se o facto    de que vários factores contribuíram para uma mudança significativa na orientação    da política externa norte-americana. Mas também se chama atenção para o facto    de Obama não se ter apenas desviado do seu antecessor, George W. Bush, (como    seria de esperar), mas ter escolhido, também, reposicionar os Estados Unidos    de acordo com uma nova perspectiva do sistema internacional – que tende a tornar-se    multipolar no futuro – e uma nova visão americana da política internacional    – mais retraída e multilateralizada. Se as mudanças anunciadas no documento    se concretizarem, poderão saldar-se em transformações significativas nos equilíbrios    de poder e nas relações entre as grandes potências do sistema internacional.</p>     <p>Na segunda parte, analisa-se o Relatório Albright. Não seria necessário observá-lo    pela lente da NSS para detectar novos caminhos para possíveis alterações ao    papel da Aliança Atlântica, quer no que se refere à sua relação com os Estados    e outras organizações internacionais, quer no que respeita à percepção de novas    ameaças não tradicionais.</p>     <p>As notas finais darão conta da convergência acima referida, sublinhando que,    se, por um lado, a Aliança Atlântica não se transformará na NATO Global defendida    por alguns<sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></sup>, por outro, poderá    ganhar relevância relativa através de um conjunto de novas exigências desencadeadas    por um sistema de estados em transformação.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Doutrina Obama: uma estratégia de transição de poder ou o retraimento estratégico    norte-americano?</b></p>     <p><i>Os Dilemas das Segurança Americana no século XXI – a contextualização da    nova estratégia</i></p>     <p>Para compreendermos a doutrina Obama, é necessário contextualizá-la, relembrando    que não se trata apenas de uma reacção à doutrina Bush<sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></sup>.    É também uma nova tentativa de resolver as questões de ordem internacional deixadas    em aberto desde os anos 1990 (corrigindo a euforia do fim da história, mas regressando    a um discurso liberal e institucionalista que recorda os anos Clinton), e uma    primeira aproximação a um sistema internacional pós-hegemónico<sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></sup>.</p>     <p>Em primeiro lugar, e no que concerne à doutrina Bush, Barack Obama viu-se forçado    a procurar reconquistar a legitimidade internacional dos Estados Unidos. A controversa    decisão de invadir o Iraque originou dois problemas. O primeiro foi a sobreextensão    do poder militar norte-americano; a dispersão de forças pelo Afeganistão e pelo    Iraque e a morosidade das duas guerras levou à percepção generalizada do declínio    de capacidades dos Estados Unidos. O segundo foi uma certa perda de legitimidade    internacional norte-americana. Ainda que o recurso à força militar seja uma    ferramenta legítima de autodefesa ao alcance dos estados, a crise transatlântica    de 2002-2003, a oposição explícita de vários sectores da sociedade norte-americana    e da comunidade internacional à doutrina da guerra preventiva, e a ausência    de consentimento das Nações Unidas relativamente a uma intervenção militar,    levaram os analistas e a opinião pública de diversos países a mudar a sua percepção    relativamente aos Estados Unidos: passaram a encarar a potência hegemónica com    desconfiança. Nesta perspectiva, os Estados Unidos perderam algum do seu capital    político.</p>     <p>No contexto estratégico, os ataques do 11 de Setembro e a Guerra do Iraque    abriram caminho a que os analistas detectassem falhas mais profundas, especialmente    no que respeita ao ordenamento internacional. Com a potência hegemónica numa    crise de legitimidade, provocada por um ataque inesperado, tornavam-se visíveis    alguns problemas escondidos pela aparente harmonia dos anos 1990. Por um lado,    não havia uma estratégia para contra-atacar os perpetradores dos ataques. A    ordem baseada no sistema de estados deixava os decisores sem respostas prontas    para fazer face a este desafio. Por outro, não havia coesão suficiente entre    os estados do sistema internacional (nem mesmo entre as democracias) para uma    condenação maciça e uma abordagem conjunta à ameaça constituída pelo terrorismo    internacionalista. Os ataques de 11 de Setembro mostraram uma nova realidade:    os desafios do futuro tendiam a ser cada vez mais transnacionais e o sistema    de estados-nação não parecia estar habilitado a responder-lhes.</p>     <p>Finalmente, a fragilidade da liderança americana deu origem a novas percepções    ao nível sistémico: um pouco por todo o mundo, os decisores começaram a considerar    que o sistema internacional estava a sofrer alterações devido à emergência de    novas potências – China e Índia – e que outros actores, porventura menos poderosos,    estavam a transformar as suas políticas externas de forma a terem maior visibilidade    e preponderância na distribuição relativa de poder – Brasil e Rússia. Esta nova    realidade tem vindo a transformar as políticas externas de diversos estados,    e a estratégia norte-americana não poderia ser uma excepção.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A estes três desafios – o relançamento da liderança americana, o problema de    ausência de ordem e a recém-percepcionada emergência de grandes potências –    a Administração Obama respondeu com uma estratégia unificada: a assunção da    perda relativa de poder norte-americano, que deverá ser colmatada por um novo    tipo de liderança mais retraída e menos interventiva (o clássico <i>lead by    exemple</i>)<sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>, e a bilateralização    e institucionalização da política externa norte-americana, tendo como objectivo    uma mais efectiva distribuição do esforço de manutenção da estabilidade internacional<sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a>    </sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>A resposta da Administração Obama aos três desafios estratégicos norte-americanos</i></p>     <p>Assim, e ainda que de uma forma superficial e um tanto vaga, a National Security    Strategy tenta responder a três desafios:</p>     <p>· Encontrar uma nova orientação para a liderança americana – os decisores entenderam    que a Administração Bush corroeu as fundações da legitimidade dos Estados Unidos    como potência hegemónica. Por conseguinte, a nova estratégia terá que relançá-las<sup><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></sup>;</p>     <p>· Responder ao reconhecimento objectivo que estamos a atravessar uma fase de    transição de poder (pelo menos ao nível das percepções), que leva os decisores    a procurar ajustar o papel dos Estados Unidos no sistema internacional a esta    nova realidade<sup><a href="#9">9</a><a name="top9"></a></sup>;</p>     <p>· Garantir a segurança norte-americana face aos desafios transnacionais – nomeadamente    a tríade de ameaças já identificada pela Administração Bush na National Security    Strategy de 2002, a combinação de terrorismo, proliferação de armas de destruição    maciça e estados falhados, através de novos mecanismos multilaterais. </p>     <p>A nova estratégia faz quatro afirmações que denotam uma profunda mudança na    forma como os Estados Unidos pretendem relacionar-se com o sistema internacional.    Primeiro, afirma que existem outros grandes poderes para além dos Estados Unidos    no sistema internacional<sup><a href="#10">10</a><a name="top10"></a></sup>.    Segundo, reitera a declaração anterior ao identificar a actualidade com um momento    de transição<sup><a href="#11">11</a><a name="top11"></a></sup>. Terceiro, assume    que nenhum Estado pode resolver sozinho os problemas actuais<sup><a href="#12">12</a><a name="top12"></a></sup>.    Quarto, enuncia que a característica fundamental da nova estratégia norte-americana    será estabelecer abordagens cooperativas entre Estados «que produzam resultados»<sup><a href="#13">13</a><a name="top13"></a></sup>.    Sob pano de fundo está a afirmação de que os valores norte-americanos (democracia,    justiça e globalização) são valores universais (na tradição dos Pais Fundadores)<sup><a href="#14">14</a><a name="top14"></a>    </sup>, sendo que a nova ordem, a ser construída, terá de ter em conta esta    realidade. Como iremos observar na parte seguinte, o Relatório Albright também    enfatiza o carácter democrático da NATO, apresentando, assim, maior sintonia    com a Administração norte-americana, marcando uma das razões pelas quais a Aliança    é, acentuadamente, relevante no seu papel na nova ordem internacional norte-americana.</p>     <p>A doutrina Obama recusa, pelo menos nesta fase, a proposta realista de vários    autores de criar um concerto de grandes potências<sup><a href="#15">15</a><a name="top15"></a>    </sup>(é certo que reconhece que é necessário reformar as Nações Unidas, mas    não faz disso uma prioridade). Mas também não reconhece a necessidade de criar    um concerto global de democracias, que tem vindo a ser defendido por diversos    autores liberais<sup><a href="#16">16</a><a name="top16"></a></sup>. Em vez    disso, enfatiza quatro vertentes de cooperação: a necessidade de resolver problemas    transnacionais (que terão de envolver, subentende-se, todas as potências do    sistema para que sejam efectivos); o aprofundamento de novas instituições internacionais    económicas (especialmente o G20, considerado uma «instituição emergente»); a    necessidade de estabelecer relações bilaterais com as três futuras grandes potências    – China, Índia e Rússia; e a renovação dos laços transatlânticos como pedra    de toque da relação dos Estados Unidos com o mundo. Obama parece querer enfatizar    a relação transatlântica por razões de legitimidade e partilha de esforço, mas    também porque é no seio desta organização que se deverão começar a estabelecer    as relações entre as democracias, onde se encontram os aliados mais confiáveis    dos Estados Unidos. Segundo o documento, «a nato é a aliança de segurança por    excelência, no mundo de hoje»<sup><a href="#17">17</a><a name="top17"></a></sup>(seguida    das democracias asiáticas).</p>     <p>Em síntese, a estratégia Obama introduz um novo dado significativo: parece    existir vontade política de proceder a uma mais profunda institucionalização    dos Estados Unidos. Trata-se de um abandono da doutrina hegemónica que teve    origem no final da Guerra Fria?<sup><a href="#18">18</a><a name="top18"></a></sup>    Este possível retraimento estratégico pode ter, teoricamente, dois motivos diferentes:    ou fazer parte de uma sólida estratégia de institucionalização da única grande    potência, que pretende auto-conter o seu poder para obter ganhos de legitimidade<sup><a href="#19">19</a><a name="top19"></a></sup>,    ou tratar-se de uma estratégia de <i>underbalancing</i> em que a única grande    potência procura retirar-se da sua posição hegemónica no sistema internacional    de forma a evitar comportamentos revisionistas de potências emergentes<sup><a href="#20">20</a><a name="top20"></a></sup>.    Qualquer dos resultados – esta questão continua em aberto – configurará uma    nova dinâmica nas relações internacionais. É neste contexto que se deve apreciar    o Relatório Albright, que confere uma nova posição à Aliança Atlântica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Relatório Albright – uma estratégia para um sistema internacional mais flexível    e polarizado</b></p>     <p><i>Os dilemas estratégicos do Século XXI: a contextualização da estratégia    dos Peritos</i></p>     <p>«Caso a Organização do Tratado do Atlântico Norte não existisse hoje, os Estados    Unidos não tentariam criá-la.»<sup><a href="#21">21</a><a name="top21"></a></sup>É    com esta afirmação – que vem sendo repetida em diversos <i>fora </i>desde a    sua publicação – que James Goldgeier, especialista em assuntos da NATO no Council    on Foreign Relations, abre o seu relatório sobre o futuro da Aliança Atlântica.</p>     <p>Pode parecer uma apreciação drástica, mas a verdade é que sintetiza a importância    e urgência da revisão do Conceito Estratégico da NATO (CEN). O CEN ainda vigente    data de 1999<sup><a href="#22">22</a><a name="top22"></a></sup>, e quando foi    redigido as condições sistémicas e conjunturais com as quais a NATO se confrontava    eram substancialmente diferentes. </p>     <p>Do ponto de vista estrutural, a emergência de novas potências fora do espaço    transatlântico não era, de todo, previsível. Mais importante, a nato tinha entre    os seus membros a única potência global do sistema internacional; o debate centrava-se,    pois, na manutenção do <i>status quo</i>, do sistema unipolar, que não indiciava    alterações significativas nos anos seguintes.</p>     <p>Do ponto de vista conjuntural, os anos 2000 também trouxeram diversas mudanças.    Nas vésperas dos ataques de 11 de Setembro, a nato era uma aliança que, uma    década após a Guerra Fria, tinha sobrevivido ao desaparecimento do seu inimigo    comum e tinha encontrado um novo objectivo: a estabilização e pacificação do    espaço europeu, quer por via do alargamento da Aliança Atlântica aos estados    do ex-Pacto de Varsóvia, quer pelas intervenções militares para a estabilização    dos Balcãs. Em 1999, ainda eram desconhecidas as chamadas «novas ameaças»; a    indivisibilidade da segurança transatlântica ainda não tinha sido posta em causa    pela recusa norte-americana em accionar o artigo 5.º; a comunidade transatlântica    não tinha enfrentado as divisões provocadas pela invasão do Iraque pela «coligação    de vontade» liderada pelos Estados Unidos; a NATO não tinha testado os seus    limites numa operação «fora de área»; e a Rússia ainda não anunciara a doutrina    Medvedev<sup><a href="#23">23</a><a name="top23"></a> </sup>(atribuindo-se o    direito de tutelar a sua «esfera de influência»), nem a pusera em prática na    sua manifestação mais extrema – a intervenção armada na Geórgia, em 2008.</p>     <p>As novas condições estruturais e conjunturais demonstram a necessidade de,    mais uma vez, reinventar a Aliança Atlântica. Por um lado, é preciso garantir    que a nato mantém a sua relevância: para isso terá se ajustar à perda relativa    de centralidade no sistema internacional e à nova estratégia dos Estados Unidos.    A emergência de novas potências democráticas com vontade política de exercer    poder internacionalmente e de usar a força militar em conjunto com a NATO tem    o efeito simultâneo de enfraquecer a posição da Aliança e de lhe conferir a    oportunidade de forjar novas parcerias. Por outro, é necessário um esforço de    actualização de doutrina e meios, que possibilite à Aliança estar preparada    para enfrentar novas ameaças, inexistentes há dez anos, sem com isso perder    de vista a vertente convencional da defesa colectiva.</p>     <p>Além disso, a reconstrução da solidariedade transatlântica – depois da crise    do Iraque – terá de ser um tema central, reflectido, indirectamente, no espírito    do novo CEN. A NATO precisa de ressurgir com uma nova legitimidade necessária    à sua actuação internacional, que terá de advir, simultaneamente, de uma nova    abordagem ao sistema internacional, de uma maior coesão entre os estados-membros    e – segundo a nova linha de transparência diplomática lançada pelo Presidente    Barack Obama – do apoio das populações dos estados que constituem a NATO. </p>     <p>Neste contexto, e pela primeira vez na sua história, a revisão do CEN foi lançada    como um exercício de diplomacia pública. Na Cimeira de Estrasburgo/Kehl (Abril    de 2009) o secretário-geral da NATO foi encarregue de nomear um grupo de doze    peritos<sup><a href="#24">24</a><a name="top24"></a> </sup>com duas funções    essenciais: (1) efectuar um périplo pelos estados-membros da NATO com a dupla    finalidade de debater com as instituições e a sociedade civil a orientação do    cen e esclarecer a opinião pública da importância da Aliança Atlântica; (2)    produzir um relatório de recomendações para apoiar Aners Fogh Rasmussen na redacção    do CEN. O Conceito Estratégico da NATO será aprovado na Cimeira de Lisboa, em    Novembro de 2010.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Relatório Albright foi tornado público a 17 de Março de 2010<sup><a href="#25">25</a><a name="top25"></a></sup>.    Não tem qualquer poder vinculativo, mas está a coberto da legitimidade da consulta    pública e diversificada, sendo pois de esperar que pelo menos parte das suas    recomendações seja adoptada na redacção do documento final.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>As recomendações dos Peritos – a resposta da NATO aos desafios do século    XXI</i></p>     <p>Se é verdade que a relevância da nato parece estar a diluir-se devido à emergência    de novas potências democráticas, como refere Goldgeier, também é importante    lembrar que «A Aliança não está sozinha no compromisso [de projecção da paz    e estabilidade internacional], mas a sua combinação de capacidade militar e    solidariedade política torna-se singularmente importante e insubstituível»<sup><a href="#26">26</a><a name="top26"></a>    </sup>, como afirma o relatório do Grupo de Peritos. Necessariamente, a revisão    do Conceito Estratégico da Aliança deverá enquadrar e equilibrar estas duas    realidades e responder às três questões essenciais que se colocam neste tipo    de exercício: que Aliança pretende a nato ser nos próximos dez anos? Qual o    tipo de missões que a Aliança deve empreender? Qual o lugar da nato na ordem    internacional do século XXI? Cinco pontos ajudam a clarificar estas questões.  </p>     <p>1. Indivisibilidade da segurança comum e a reafirmação dos valores democráticos    fundadores da NATO. O primeiro ponto – a reafirmação dos valores da Aliança    do Tratado do Atlântico Norte<sup><a href="#27">27</a><a name="top27"></a> </sup>–    não é, exactamente, original no seu conteúdo. Aparentemente, os peritos vêm    apenas reafirmar que a nato é, na sua essência, uma aliança de democracias e    que uma das suas funções é preservar a segurança deste tipo de regime. Mais,    sublinham que se trata de uma aliança defensiva, sem inimigos ou adversários    definidos. Esta declaração tem duas implicações: em primeiro lugar, coloca em    pé de igualdade a integridade territorial dos estados-membros e a integridade    valorativa da aliança, ambas partes essenciais de um todo. Em segundo lugar,    coloca o ónus da identidade da Aliança na sua existência, desligando-o da definição    típica de posicionamento contra um «outro». Estas duas implicações apresentam    a nato como uma aliança de <i>status quo</i>, aparentemente preparada para diluir    as suas fronteiras de segurança até onde for necessário de forma a <i>preservar    </i>o seu tipo de regime. Nesta perspectiva – a nato dos peritos não é uma aliança    militar regional. É uma aliança disposta a intervir onde for necessário para    preservar a sua forma de existência.</p>     <p>2. Codificação das regras das missões fora de área. Apesar de a nato dever    estar preparada para intervir militarmente em cenários como o Afeganistão –    em nome da preservação da estabilidade internacional e do regime democrático    – os peritos aconselham a que se definam rigorosamente em que circunstâncias    podem ter lugar intervenções fora de área<sup><a href="#28">28</a><a name="top28"></a></sup>.    As fragilidades demonstradas pela Aliança em fazer face à missão no Afeganistão    levaram os peritos a concluir que tais operações fragilizam a nato, sendo necessário    definir onde residem os interesses vitais da Aliança. Uma missão fora de área    é um risco – que muitos vaticinaram que ditaria o fim da NATO, no caso do Afeganistão    –, por isso estas intervenções devem constituir a <i>excepção</i>, não a regra<sup><a href="#29">29</a><a name="top29"></a></sup>.  </p>     <p>3. O resgate do artigo 4.º e a flexibilidade requerida pelas novas ameaças.    Apesar de não ter um inimigo comum, a Aliança Atlântica deverá definir uma gama    de diversas ameaças não convencionais, aceitando o princípio que nem todas colocam    o mesmo grau de risco à integridade territorial e valorativa dos seus membros.    Assim, o artigo 5.º deixou de ser suficiente (ainda que se mantenha central)    para orientar as acções da NATO. Um ciberataque, por exemplo, não pode ser tratado    como um ataque militar a um dos estados-membros. Assim, os peritos propõem dar    uma maior ênfase ao artigo 4.º do Tratado do Atlântico Norte, que prevê uma    consulta dos membros da Aliança em caso de se verificarem potenciais ameaças,    de grau inferior a um ataque territorial de um dos estados-membros. Se as ameaças    mais prováveis aos estados-membros são um ataque por míssil balístico (em alusão    à escalada da nuclearização iraniana); acções de grupos terroristas; ciberataques;    interrupção de fornecimento de energia; ou consequências do aquecimento global    e da crise financeira internacional, entende-se a necessidade de flexibilizar    a tomada de decisão pela consulta<sup><a href="#30">30</a><a name="top30"></a></sup>.    O artigo 5.º deve permanecer central, mas vocacionado para ameaças de cariz    convencional. O artigo 4.º deve ser o mecanismo privilegiado para fazer face    a uma ameaça menos premente, mas suficientemente desestabilizadora para merecer    uma resposta da Aliança Atlântica. </p>     <p>4. As relações com a Rússia e o <i>broader</i><i> neighborwood security </i>como    substituto dos alargamentos. O capítulo das relações com a Rússia é aquele em    que os peritos têm uma posição mais hesitante. Por um lado, consideram que a    Rússia é uma parte indivisível da segurança euroatlântica e um potencial parceiro    através dos laços institucionais já estabelecidos<sup><a href="#31">31</a><a name="top31"></a></sup>;    por outro, afirmam que a Rússia da década de 1990 desapareceu, dando lugar a    um actor politicamente mais assertivo. A intervenção russa na Geórgia, em 2008,    é avaliada como um fracasso da Aliança Atlântica no que constitui a defesa dos    seus interesses estratégicos. Neste contexto, e apesar das possibilidades de    cooperação, a Federação Russa é, na opinião dos peritos, um dos maiores focos    de divisão da comunidade transatlântica. Os estados-membros da NATO têm percepções    diferentes no que respeita quer ao papel da Rússia no contexto da NATO, quer    ao seu comportamento e consequências desse comportamento no sistema de segurança    regional. Assim, as recomendações relativamente à Rússia são, necessariamente,    uma solução de compromisso. A ambiguidade de posições traduz-se numa oferta    cautelosa de aprofundamento da cooperação: a Aliança Atlântica deve realçar    a sua determinação em ser uma aliança defensiva e procurar um <i>constructive    re-engagement</i><sup><a href="#32">32</a><a name="top32"></a> </sup>com o vizinho    oriental. Os peritos acreditam que a nato poderá demonstrar a sua boa vontade    através de uma cedência fundamental – abandonado a intenção de George W. Bush    (e Obama, em campanha eleitoral) de aceitar a Geórgia e a Ucrânia como estados-membros    da Aliança. Para isso, os peritos aconselham a adopção da política de <i>broader    neighborhood policy</i>. Nesta perspectiva, a nato ocupa o papel de <i>off shore    balancer </i>«em benefício de todos». Funciona como árbitro das relações complexas    naquela região. A adopção desta política tenderá a atrasar, ou mesmo a tornar    supérfluos, futuros alargamentos no Cáucaso. Como já foi referido, a posição    dos peritos é hesitante, no que respeita às relações NATO -Rússia. Por um lado,    avisa quanto à assertividade da Federação; por outro, cede às maiores exigências    de Moscovo. Aqui, os peritos seguem a estratégia adoptada pela Administração    Obama: cooperar quando é possível, e em questões segmentadas, onde se verifiquem    interesses comuns (nomeadamente políticas de não proliferação nuclear ou de    contenção de ataques terroristas), mantendo em aberto a possibilidade – e tentando    evitar – que a Rússia se transforme num adversário político.</p>     <p>5.  Devolução das missões humanitárias às Nações Unidas. O quinto ponto em    questão também tende a agradar à Rússia: a nato dos peritos deverá encerrar    o capítulo aberto nos anos 1990 em que a responsabilidade de proteger – sem    a autorização prévia das Nações Unidas – era uma estratégia legítima<sup><a href="#33">33</a><a name="top33"></a></sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REINVENTAR O SISTEMA DE ALIANÇAS: A NATO E AS PARCERIAS PARA O SÉCULO XXI</b></p>     <p>O ponto anterior poderia parecer irrelevante, se não estivesse associado a    uma transformação das relações da Aliança Atlântica com outras entidades (estados    e organizações internacionais). Aqui os peritos revelam o mais importante da    sua visão da NATO após CEN 2010: a Aliança deverá ser um actor flexível, assumindo    quatro papéis diferentes, consoante as necessidades sistémicas<sup><a href="#34">34</a><a name="top34"></a></sup>.    Esses quatro papéis são os seguintes: </p>     <p><i>• O papel de estabilizador regional. </i>A NATO deverá manter as suas relações    com actores regionais. Deverá aprofundar as Parcerias para a Paz, o Diálogo    do Mediterrâneo, a Iniciativa de Cooperação de Istambul<sup><a href="#35">35</a><a name="top35"></a></sup>.    Deverá ter um papel activo na estabilização da região do Cáucaso. Neste aspecto,    a nato deverá manter, na opinião dos peritos, o estatuto de líder regional que    a caracteriza desde o início dos anos 1990. </p>     <p><i>• O papel de agente de cooperação em questões pontuais e segmentadas com    estados não democráticos. As relações com a Rússia ilustram este ponto: o tipo    de regime liberal dos estados que constituem a Aliança Atlântica não lhes permite    estabelecer relações estratégicas </i>profundas com estados não democráticos.    Mas, a bem da resolução de problemas pontuais e do estabelecimento de laços    de confiança com potências emergentes não democráticas, a Aliança deverá estabelecer    relações de cooperação em determinados contextos.</p>     <p>· <i>O papel de subsidiariedade relativamente a outros estados ou organizações    internacionais.</i> A NATO não poderá ocupar sempre o papel de liderança. Mas    haverá situações em que a Aliança terá interesse em contribuir para processos    de estabilização regional. Neste contexto, deverá comportar-se como actor secundário,    subordinando-se à liderança de um Estado ou outra organização internacional.    A ser codificado no CEN, este será um novo papel que a nato nunca desempenhou    no passado. Esta nova possibilidade reflecte o reconhecimento dos limites da    Aliança, e um certo retraimento estratégico, aparentemente necessário para a    sobrevivência da NATO (dir-se-ia, uma lição do Afeganistão). </p>     <p>· <i>O papel de pivô das relações entre democracias. </i>O Relatório dos Peritos    rejeita a ideia de uma NATO global<sup><a href="#36">36</a><a name="top36"></a></sup>,    mas reconhece a importância dos Países de Contacto para o sucesso das políticas    da Aliança Atlântica. Assim, os peritos propõem um novo papel para a NATO: o    de plataforma das relações entre democracias liberais, substituindo as relações    formais pela diplomacia activa<sup><a href="#37">37</a><a name="top37"></a></sup>.    Os peritos lêem as reticências de estados como o Brasil e a Índia numa parceria    institucional com a NATO, e propõem que a Aliança seja agente informal de parcerias    igualmente informais, mas fundamentais para a estabilidade internacional no    século XXI. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Este quadro complexo remete para uma nova realidade: a emergência de novas    potências exige da NATO um papel activo em diversas vertentes, uma nova flexibilidade,    a fim de manter a sua relevância. Mais, em vez de esclarecer sobre o papel específico    da Aliança Atlântica enquanto actor internacional, complexifica o quadro. Porquê?    Porque a nato está hesitante em entrar em fase de retraimento estratégico –    abdicando do seu papel de liderança para ganhar em estabilidade regional – e    a necessidade de garantir que outras regiões de potencial instabilidade se transformem    em focos de conflito – daí funcionar como pivô das relações entre democracias.    O futuro da Aliança dependerá da preponderância relativa de cada um dos papéis    acima mencionados. Esta preponderância decorrerá, no entanto, de decisões estratégicas    específicas relativas a cada caso, questões que transcendem a revisão do Conceito    Estratégico da Aliança Atlântica.</p>     <p>Numa recente conferência em Lisboa, o secretário-geral da NATO, Anders Fogh    Rasmussen, veio esclarecer o público português quanto à sua visão para o futuro    da Aliança Atlântica<sup><a href="#38">38</a><a name="top38"></a></sup>. Grande    parte do seu discurso reflectiu a essência do Relatório dos Peritos, especialmente    no que respeita à revisão do papel da Aliança no sistema internacional. Rasmussen    sublinhou a importância de a nato assumir o seu papel na «segurança cooperativa»,    indiciando que o futuro da Aliança não passa nem por um fechamento da Aliança    no seu espaço regional, nem por uma abertura quer a membros fora do espaço transatlântico,    quer a missões fora de área (a menos que se configure um contexto muito específico,    detalhado acima).</p>     <p>O relatório do Grupo de Peritos para a revisão do Conceito Estratégico reconhece    que a Aliança Atlântica se encontra numa situação de maior fragilidade relativamente    às décadas anteriores. A Nato já não tem um inimigo comum que lhe clarifique    os objectivos, nem é apenas uma Aliança de <i>status quo </i>num sistema internacional    sem grandes adversidades, mas uma comunidade de segurança que precisa de se    voltar simultaneamente para dentro (para um discurso mais defensivo, ancorado    nos valores que é necessário garantir que sobrevivem) e para fora (na procura    da forma mais eficaz de partilhar poder sem perder relevância). É justo afirmar    que o debate sobre o CEN está fundamentalmente centrado nas mudanças da ordem    internacional e na adaptação da Aliança a estas mudanças.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A resposta do Grupo de Peritos às três perguntas formuladas inicialmente (a    estratégia, tipo de missões e lugar da Aliança Atlântica no século XXI) foi    que a nato não deve ser apenas uma aliança regional, mas deve rejeitar o papel    de actor global por princípio, abrindo excepções muito específicas. Ou melhor,    deverá ser regional no que respeita aos estados-membros, mas não deverá reconhecer    limite geográfico em determinadas circunstâncias, uma vez que as ameaças actuais    estão diluídas num espaço geográfico global, exigindo uma flexibilidade de resposta,    por definição, global. Mas, mais importante, as limitações relacionadas com    a perda de centralidade da NATO somadas à impressibilidade de onde poderá surgir    instabilidade regional que ponha em perigo a segurança dos estados-membros dá    origem a dois novos papéis para a NATO:</p>     <p>· o de aliança-pivô, colocada no centro de uma rede de parcerias entre estados    democráticos. A Administração Bush chamou a si este papel em 2005, desenvolvendo    com algum sucesso relações privilegiadas com potências emergentes de regime    democrático; a administração Obama, se seguir as recomendações do Grupo de Sábios,    descentralizará essa função na Aliança Atlântica;</p>     <p>· o de Aliança subsidiária de outras entidades no sistema internacional. O    Relatório dos Peritos reconhece a perda de centralidade da NATO, o esforço no    Afeganistão, que está a testar os limites da Aliança, bem como a conveniência    em readquirir legitimidade internacional. </p>     <p>A resposta, para os peritos, reside em abdicar de um estatuto central nas operações    militares internacionais (recuando da iniciativa da intervenção no Kosovo sem    autorização da ONU) e numa abordagem modesta a problemas fora de área. Se esta    condição for enquadrada no Novo Conceito Estratégico da NATO, esta será a grande    inovação da próxima década. A Aliança chama a si múltiplos papéis de forma a    adequar a sua intervenção a novas ameaças, a um novo sistema e um novo conjunto    de limitações. O futuro da NATO passa, pois, pela <i>segurança cooperativa</i>,    pela colaboração, ora em posição de liderança, ora em posição secundária, com    um conjunto mais vasto de intervenientes internacionais. Esta é a resposta encontrada    pelos peritos para assegurar que a Aliança Atlântica mantém a sua relevância.</p>     <p>Há ainda um ponto a acrescentar: as relações NATO-Rússia e NATO -União Europeia    ficam por resolver na versão dos peritos da revisão do CEN. Será necessário    empenho político para desempatar indecisões nestes dois impasses, de modo a    fornecer à Aliança um quadro estável para o desenvolvimento destas duas relações    estratégicas que, por motivos diferentes, são as mais importantes para o futuro    da NATO.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS FINAIS </b></p>     <p>Será 2010 um ano de transição para a política externa norte-americana e para    a Aliança Atlântica? As tendências apontadas pela National Security Strategy    e pelo NATO 2020 indicam que sim. A doutrina Obama aponta para uma mudança conceptual    na grande estratégia – a potência dominante dá lugar a uma potência ainda em    posição de liderança, mas em processo de retraimento. É prematuro concluir qual    será a expressão desse retraimento, mas o simples facto de se detectar a assunção    de que estamos a atravessar uma fase de transição de poder – que implica um    declínio da posição sistémica norte-americana – e que é necessário reformar    as instituições e a ordem internacional (o paralelo com o pós-II Guerra Mundial    é significativo) o que pressupõe a premissa de que o sistema está a entrar numa    nova era sistémica e que é necessário aceitar e criar espaço para que as novas    potências emerjam pacificamente.</p>     <p>É neste contexto que deve ser percepcionada a revisão do Conceito Estratégico    da NATO. Há um paradoxo inerente ao debate do CEN e à doutrina Obama: os estados-membros    europeus continuam a demonstrar pouco empenhamento político no fortalecimento    da Aliança e, simultaneamente, não conseguem chegar a um acordo relativamente    às duas relações mais importantes da NATO (União Europeia e Rússia). Mas este    paradoxo é essencialmente político e não conceptual. Ao nível dos conceitos,    o Relatório Albright dialoga com a doutrina Obama: preenche o papel que a última    destina à primeira. Daí, o argumento inicial de que os documentos são confluentes.</p>     <p>A doutrina Obama destaca três organizações internacionais: as Nações Unidas,    no seu papel de guardiã dos valores universais; o G20, a instituição económica    da era Obama (que deve ser vista como um concerto politicamente informal de    grandes potências económicas), e a Aliança Atlântica, ou seja, o centro da comunidade    de segurança das democracias.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste contexto, quais serão as características na nato enquanto comunidade    das democracias que tem como principal função preservar a segurança dos seus    membros? Se as recomendações do Relatório Albright forem aprovadas no Conselho    da NATO será a de entidade-pivô para as relações das democracias ocidentais    com diversos tipos de actores num sistema internacional renovado. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a> </sup>Evidentemente, este marco    é muito discutível. No entanto, vários autores têm-no considerado, devido a    dois acontecimentos quase simultâneos: a abertura dos Jogos Olímpicos de Verão,    em Pequim, e o início do conflito Rússia-Georgia. Cf. ASH, Timothy Garton –    «China, Russia and the new world disorder». In <i>Los Angeles Times</i>, 8 de    Setembro de 2008. Disponível em <a href="http://www.latimes.com/news/opinion/commentary/la-oe-ash11-2008sep11,0,6733055.story" target="_blank">http://www.latimes.com/news/opinion/commentary/la-oe-ash11-2008sep11,0,6733055.story</a>.    [Consultado a 1 de Setembro de 2010].</p>     <p><sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a> </sup>Cf. OBAMA, Barack – «The National    Security Strategy». Washington, Maio de 2010. Disponível em <a href="http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/rss_viewer/national_security_strategy.pdf" target="_blank">http://www.whitehouse.gov/sites/default/files/rss_viewer/national_security_strategy.pdf</a>.    [Consultado a  1 de Setembro de 2010].</p>     <!-- ref --><p><sup><a href="#top3">3</a><a name="3"></a> </sup>Cf. DAALDER, Ivo H. e GOLDGEIER,    James – «Global NATO». In <i>Foreign Affairs</i>, Setembro-Outubro de 2006,    pp.105-113. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1645-9199201000030000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><sup><a href="#top4">4</a><a name="4"></a> </sup>BUSH, George W. – «The National    Security Strategy of United States of America». Washington, Setembro de 2002.    Disponível em <a href="http://www.globalsecurity.org/military/library/policy/national/nss-020920.pdf" target="_blank">http://www.globalsecurity.org/military/library/policy/national/nss-020920.pdf</a>.    [Consultado a 1 de Setembro de 2010].</p>     <p><sup><a href="#top5">5</a><a name="5"></a></sup> Cf. Cf. ZAKARIA, Farred –    <i>The Post-American World</i>. Nova Iorque: W. W. Norton and Company, 2008.  </p>     <p><sup><a href="#top6">6</a><a name="6"></a> </sup>OBAMA, Barack – «National    Security Strategy», p. 5. </p>     <p><sup><a href="#top7">7</a><a name="7"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 5. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top8">8</a><a name="8"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 1. </p>     <p><sup><a href="#top9">9</a><a name="9"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 1. </p>     <p><sup><a href="#top10">10</a><a name="10"></a> </sup><i>Ibidem</i>, introdução.  </p>     <p><sup><a href="#top11">11</a><a name="11"></a> </sup><i>Ibidem</i>, introdução.  </p>     <p><sup><a href="#top12">12</a><a name="12"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 1. </p>     <p><sup><a href="#top13">13</a><a name="13"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 2. </p>     <p><sup><a href="#top14">14</a><a name="14"></a> </sup>O presidente norte-americano    assume-se como um Constitucionalista. (Cf. Obama, Barack – <i>The Audacity of    Hope – Thoughts on Reclaiming the American Dream</i>. Nova York: Random House    2006). Apesar de o tema estar longe de ser novo na política externa norte-americana,    este é, de alguma forma, um dos seus traços pessoais no documento.</p>     <p><sup><a href="#top15">15</a><a name="15"></a> </sup>Cf. LIEVAN, Anatol e HULSMAN,    John– <i>Ethical Realism – A Vision for America’s Role in the World</i>. Nova    York: Ramdom House, 2006. </p>     <p><sup><a href="#top16">16</a><a name="16"></a> </sup>Cf. IKENBERRY, G. John    e SLAUGHTER, Anne-Marie (eds) – «Forging a World of Liberty Under Law – U.S.    National Security In The 21<sup>st</sup> Century». Final Report of The Princeton    Project on National Security, 2006. Disponível em: <a href="http://www.princeton.edu/~ppns/report/FinalReport.pdf" target="_blank">http://www.princeton.edu/~ppns/report/FinalReport.pdf</a>.    [Consultado a 1 de Setembro de 2010]; DAALDER, Ivo e LINDAY, James – «Democracies    of the World, Unite». In <i>The American Interest</i>, Janeiro-Fevereiro de    2007.</p>     <p><sup><a href="#top17">17</a><a name="17"></a> </sup>OBAMA, Barack – «National    Security Strategy», p. 42.. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top18">18</a><a name="18"></a> </sup>Cf. BACEVICH, Andrew –    <i>American Empire – The Realities and Consequences of U.S. Diplomacy</i>. Harvard:    Harvard University Press, 2003. </p>     <p><sup><a href="#top19">19</a><a name="19"></a> </sup>Cf. IKENBERRY, G. John    – <i>Institutions, Strategic Restraint, and the Rebuilding of Order after Major    Wars</i>. Princeton: Princeton University Press, 2001.</p>     <p><sup><a href="#top20">20</a><a name="20"></a> </sup>Cf. SCHWELLER, Randall    – <i>Unanswered Threats – Polítical Constraints on the Balance of Power.</i>    Princeton: Princeton University Press, 2006.</p>     <p><sup><a href="#top21">21</a><a name="21"></a> </sup>GOLDGEIER, James - «The    Future of NATO». Council Special Report No. 51 – Council on Foreign Relations.    Disponível em <a href="http://www.cfr.org/publication/21044" target="_blank">http://www.cfr.org/publication/21044</a>.    [Consultado a 17 de Março de 2010].</p>     <p><sup><a href="#top22">22</a><a name="22"></a> </sup>Cf. ««The Alliance Strategic    Concept – Approved by the Heads of State and Government participating in the    meeting of the North Atlantic Council in Washington D.C.». 24 de Abril de 1999.    Disponível em <a href="http://www.nato.int/cps/en/natolive/official_texts_27433.htm" target="_blank">http://www.nato.int/cps/en/natolive/official_texts_27433.htm</a>.    [Consultado a 17 de Maio de 2010].  </p>     <p><sup><a href="#top23">23</a><a name="23"></a></sup> Cf. «The Medvedev Doctrine    – Dmitri Medvedev Great Strategic Ambitions». In <i>Newsweek</i>, 22 de Novembro    de 2008. Disponível em <a href="http://www.newsweek.com/2008/11/21/the-medvedev-doctrine.html" target="_blank">http://www.newsweek.com/2008/11/21/the-medvedev-doctrine.html</a>.    [Consultado a 17 de Março de 2010].</p>     <p><sup><a href="#top24">24</a><a name="24"></a> </sup>O Grupo de Peritos para    a revisão do Conceito Estratégico da NATO é constituído pelos seguintes elementos:    Presidente: Madeleine K. Albright (Estados Unidos da América); Vice-Presidente:    Jeroen van der Veer (Holanda); Giancarlo Aragona (Itália); Marie Gervais-Vidricaire    (Canada); Geoff Hoon (Reino Unido); Ümit Pamir (Turquia); Fernando Perpiñá-Robert    Peyra (Espanha); Hans-Friedrich von Ploetz (Alemanha); Bruno Racine (França);    Adam Daniel Rotfeld (Polónia); Aivis Ronis (Letónia); Yannis-Alexis Zepos (Grécia).</p>     <p><sup><a href="#top25">25</a><a name="25"></a> </sup>Cf. Cf. Group of Experts    - «NATO 2020: Assured Security; Dynamic Engagement – Analysis and Recommendations    of the Group of Experts on a New Strategic Concept for NATO». 17 de Maio de    2010. Disponível em: <a href="http://www.nato.int/nato_static/assets/pdf/pdf_2010_05/20100517_100517_expertsreport.pdf" target="_blank">http://www.nato.int/nato_static/assets/pdf/pdf_2010_05/20100517_100517_expertsreport.pdf</a>    [Consultado a 17 de Março de 2010]. </p>     <p><sup><a href="#top26">26</a><a name="26"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 47. </p>     <p><sup><a href="#top27">27</a><a name="27"></a> </sup><i>Ibidem</i>, pp. 5, 6,    8, 12, 29 e 47. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top28">28</a><a name="28"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 33. </p>     <p><sup><a href="#top29">29</a><a name="29"></a> </sup>Segundo o Relatório dos    Peritos uma intervenção fora de área terá de ser decidida caso a casa tendo    em consideração oito condições: (1) a extensão e iminência da ameaça para os    membros da Aliança; (2) a exaustão ou aparente ineficácia de medidas alternativas;    (3) a capacidade e vontade dos membros da NATO de disporem dos meios necessários    para obter sucesso na operação; (4) o envolvimento de parceiros que ajudem a    garantir uma solução atempada e efectiva do problema em questão; (5) o impacto    colateral em outras missões ou necessidades da NATO; (6) o grau de apoio da    opinião pública doméstica e internacional; (7) a conformidade com o direito    internacional; e (8) consequências previsíveis por inacção. (cf. Group of Experts    - «NATO 2020: Assured Security; Dynamic Engagement, p.33). </p>     <p><sup><a href="#top30">30</a><a name="30"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 18. </p>     <p><sup><a href="#top31">31</a><a name="31"></a> </sup>Nomeadamente, o Conselho    nato-Rússia, praticamente paralisado desde Agosto de 2008, devido à intervenção    militar da Rússia na Geórgia. </p>     <p><sup><a href="#top32">32</a><a name="32"></a> </sup> GROUP OF EXPERTS - «NATO    2020: Assured Security; Dynamic Engagement», p. 27. </p>     <p><sup><a href="#top33">33</a><a name="33"></a> </sup><i>Ibidem</i>, p. 25. </p>     <p><sup><a href="#top34">34</a><a name="34"></a> </sup>Numa recente reunião do    Grupo de Estudos do Conceito Estratégico foi feita uma referência que ilustra    o diferente peso que as relações com exterior ocupam, neste momento. O Conceito    Estratégico da NATO de 1999 dedica seis parágrafos à questão da cooperação com    outros actores fora da comunidade de segurança Atlântica. Em contraste, o Relatório    dos Peritos dedica oito páginas ao mesmo assunto</p>     <p><sup><a href="#top35">35</a><a name="35"></a></sup> GROUP OF EXPERTS - «NATO    2020: Assured Security; Dynamic Engagement», pp. 23 e 28. </p>     <p><sup><a href="#top36">36</a><a name="36"></a> </sup>DAALDER, Ivo H. e GOLDGEIER,    James – «Global NATO». In <i>Foreign Affairs</i>, Outubro/Novembro de 2006.    Disponível em <a href="http://www.foreignaffairs.com/articles/61922/ivo-daalder-and-james-goldgeier/global-nato" target="_blank">http://www.foreignaffairs.com/articles/61922/ivo-daalder-and-james-goldgeier/global-nato</a>.</p>     <p><sup><a href="#top37">37</a><a name="37"></a></sup> GROUP OF EXPERTS - «NATO    2020: Assured Security; Dynamic Engagement», p.29 </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top38">38</a><a name="38"></a> </sup>A conferência em questão    ocorreu na Universidade Católica no passado dia 2 de Junho de 2010. A transcrição    do discurso pode ser consultada em <a href="http://www.nato.int/cps/en/natolive/opinions_64814.htm" target="_blank">http://www.nato.int/cps/en/natolive/opinions_64814.htm</a></p>      ]]></body><back>
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