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</front><body><![CDATA[ <p><b>Este século não foi fascista. Salazar, Franco e a efémera nova ordem internacional    nazi-fascista </b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Bruno Cardoso Reis</b></p>       <p>Licenciado e mestre em História (Faculdade de Letras de    Lisboa). Tem o mestrado em Historical Studies pela Universidade de Cambridge    (2003). É doutor em Segurança Internacional (War Studies, King’s College) desde    2008, e a sua tese sob o título <i>Big Armies and Small Wars </i>deverá ser    publicada durante o próximo ano. Em 2007, publicou <i>Salazar e o Vaticano</i>,    que recebeu os prémios Vítor de Sá e Aristides de Sousa Mendes. É actualmente    investigador no ICS–UL e investigador associado do King’s College; sendo membro    do CEHR–UCP, do IISS e da APCP.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p>Manuel Loff</p>      <p><b><i> «O Nosso Século É Fascista!» O Mundo Visto    por Salazar e Franco (1936-1945)</i></b>.</p>      <p>Porto, Campo das Letras, 2008, 956 páginas.</p>     <p>&nbsp;</p> <img src="/img/revistas/ri/n27/27a12f1.gif">      
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este é um grande livro em termos de tamanho, estende-se por quase mil páginas    – o que revela uma coragem, de assinalar, da editora Campo das Letras – e também    em ambição. O autor previne o leitor, no entanto, de que, infelizmente, esta    é ainda assim uma versão amputada do texto original, da qual retirou, nomeadamente,    discussões aprofundadas de metodologia e bibliografia (p. 9).</p>     <p>Seria efectivamente interessante perceber melhor qual a metodologia comparativa    adoptada, e nomeadamente o porquê da selecção destes dois casos; e, também,    qual o critério de selecção das fontes usadas. Até porque o autor frequentemente    aponta variados casos de colaboração com a nova ordem nazi como muito relevantes    para os seus argumentos, desde a Finlândia, à França de Vichy, da Suíça à Croácia    dos ustachas. Porquê então ficar-se, no essencial, por Portugal e Espanha? Por    outro lado, o papel central, como fontes da obra, de textos de diplomatas enviados    à Alemanha nazi ou de ideólogos dos regimes ibéricos levanta a questão de saber    até que ponto não seria natural esperar destes que fossem, tendencialmente,    mais favoráveis à aproximação do regime português e espanhol com o Estado nazi    alemão.</p>     <p>Tendo em conta o vasto texto que nos é dado em forma de livro, nada melhor    do que recorrer ao próprio autor para sintetizar com um mínimo de rigor os principais    temas da obra referindo os títulos de sucessivos capítulos: «As ditaduras ibéricas    na nova ordem eurofascista»; «Os pressupostos ideológicos»; «História e Império»;    «Saneamento político da Europa»; «A nova ordem como corolário da evolução recente    europeia»; «Do projecto à prática: a construção da nova ordem»; «Perante a colaboração    e a resistência», terminando com «Várias conclusões».</p>     <p>Desta ambiciosa listagem temática fica claro que Manuel Loff foi bem além daquilo    que o título da obra parecia apontar como seu objectivo: apresentar a visão    do mundo de Salazar e Franco no quadro da discussão sobre o impacto do fascismo    na Europa. Ora, se o autor se cinge ao período referido no título – desde o    início da Guerra Civil de Espanha até ao final da II Guerra Mundial (1936-1945)    –, quer nas temáticas abordadas, quer nas fontes utilizadas, vai muito para    além do que seria necessário e desejável, caso pretendesse comparar a forma    como Salazar e Franco viam o mundo exterior.</p>     <p>O que faz então Loff com tão ampla base documental? O autor tem uma escrita    barroca, o que, a par da dimensão da obra, nem sempre permite discernir uma    linha condutora clara. Mas o que vai ficando como ideia de força ao longo da    obra é que Loff pretende avançar com uma abordagem revisionista da história    da relação entre as duas ditaduras ibéricas, de Salazar e de Franco, e a nova    ordem internacional do regime nazi. Loff prenuncia-se também sobre a natureza    desta e as múltiplas especulações que gerou por toda a Europa.</p>     <p>Este revisionismo da obra é consequência de uma avaliação negativa da maioria    das obras existentes na historiografia ibérica relativamente à natureza dos    regimes de Salazar e Franco, bem como à sua relação com o regime nazi. Essa    deficiência da literatura histórica resulta, do ponto de vista do autor, da    ignorância dos arquivos alemães, da falta de perspectiva comparativa e também    de <i>parti pris </i>ideológicos (pp. 50-69)<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Salazar e Franco convergindo com Hitler </b></p>     <p>Qual é então, em síntese, a novidade desta vasta obra? Loff vai assinalando,    no meio de um apreciável manancial de informação – com algumas significativas    hesitações e qualificações – uma tese alternativa à dominante que consiste no    essencial em amalgamar os dois regimes ibéricos numa adesão optimista à nova    ordem nazi, mesmo que se vá assinalando que tal é mais claro no caso do regime    de Franco do que de Salazar. Loff parece ver este relacionamento como sendo    essencialmente mimético, de imitação do nazi-fascismo pelos dois regimes ibéricos.    Loff considera ainda que esta ideia define, no essencial, o regime de Franco    e Salazar não só neste período dos anos 1930 e 1940, visto por muita historiografia    como algo fascizante (mais em Espanha do que em Portugal), mas também nas décadas    subsequentes. Ou seja, para Loff a aparente vitória nazi entre 1940-1941 terá    sido o momento revelador definitivo da verdadeira natureza dos regimes salazarista    e franquista, e não uma oportunidade para sectores mais pró-nazis e pró-fascistas    de regimes autoritários compósitos procurarem ganhar terreno. Considera ainda    Loff que esta matriz ideológica comum é fundamental para perceber uma política    externa de colaboração activa com o regime nazi (pp. 17-50). </p>     <p>Um exemplo das qualificações que tornam a argumentação por vezes algo paradoxal    é a afirmação da necessidade de não confundir ideologia com prática (p. 902).    Mas, se é assim, então qual é a relevância da ideologia em que o estudo foca    a sua atenção? Simples retórica vazia? Qual é afinal a sua relação com a prática    política? Ora o autor logo na página seguinte (p. 903) oferece uma lista de    pontos de convergência ideológica e prática entre os regimes ibéricos e os regimes    que o autor considera pertencerem à esfera nazi-fascista. Mas se a questão anterior    é deixada em aberto, então o leitor poderá perguntar o que importa o maior ou    menor alinhamento ideológico de Salazar ou Franco com o nazi-fascismo?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>É o lado mais inovador e revisionista da obra de Loff convincente? Não creio    que o seja inteiramente. Loff adopta uma postura de advogado de acusação. Um    advogado suficientemente honesto para dar alguma voz à outra parte. Mas a sua    argumentação fica assim enfraquecida quando procura encarrilar a «prova» no    sentido de uma acusação que no essencial consiste em dizer que os regimes de    Franco e de Salazar se revelaram favoráveis à vitória nazi na guerra na Europa    quando esta pareceu inevitável. O que se passou nesta época não foi, portanto,    uma adaptação a uma determinada conjuntura na política externa, com reflexo    nos equilíbrios de poder dos diversos sectores das ditaduras ibéricas e na sua    organização, como se verificou pós-1945, antes foi o momento da verdade que    deixou uma mancha indelével que marcou a real natureza dos regimes ibéricos    como nazi-fascistas (pp. 32-34, 57-59 <i>passim</i>). </p>     <p>Ora, à luz de elementos e fontes do próprio Loff não é convincente a amálgama    dos dois regimes ibéricos. Não é convincente a ideia de uma participação de    ambos na nova ordem nazi. A fraqueza da tese de Loff é sobretudo evidente no    caso de Portugal, que seria onde o livro teria mais de inovador face às teses    dominantes. Pois a ideia de um sério desejo de alinhamento de Franco com Hitler    é bem conhecida e geralmente aceite, e o mito pós-II Guerra Mundial, de um <i>caudillo</i>engenhosamente    a inventar dificuldades e exigências para não entrar na guerra ao lado da Alemanha    nazi não é convincente para a maioria dos historiadores<sup><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></sup>.</p>     <p>É difícil levar a sério a ideia de um Estado Novo português aderente entusiasta    de uma nova ordem nazi, quando o segundo conde de Tovar, um testemunho considerado    fundamental por Loff, e o máximo representante diplomático de Portugal na Alemanha    nazi, começa o seu extenso relatório sobre «A Ordem Nova» de 15 de Novembro    de 1941 afirmando que não lhe teria sido possível manifestar adesão de espécie    nenhuma pois «ainda não encontrei em Berlim um único alemão que se prestasse    a discutir francamente comigo a Ordem Nova»<sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></sup>!</p>     <p>Loff não tem, por outro lado, em devida conta na pesagem dos argumentos dos    relatórios deste diplomata português em Berlim – a que dá tanta importância    – o facto de Tovar ter simpatias ideológicas pela Alemanha nazi e ter sido enviado    para Berlim precisamente por poder cultivar boas relações com esta grande potência    em ascensão, e portanto ter de se considerar até que ponto nos seus testemunhos    não tenderá a exagerar os pontos de entendimento, presentes e futuros, entre    os regimes de Hitler e Salazar.</p>     <p>Que o optimismo de Tovar não era o único ponto de vista, fica evidente não    só nos ofícios dos politicamente bem mais importantes representantes de Portugal    em Londres, Armindo Monteiro, e em Madrid, Teotónio Pereira, mas também num    longo estudo produzido no seio do coração da diplomacia portuguesa, no próprio    Ministério dos Negócios Estrangeiros, também sobre o tema de uma nova ordem    das potências totalitárias em que sublinha que esta «não se nos afigura de molde    a garantir uma paz duradoura […] salvo se essas Potências se decidirem a exercer    de facto uma absoluta soberania sobre todo o continente», o que, evidentemente,    significaria que os «pequenos países» como Portugal estariam «destinados a desaparecer»,    pelo que «as minhas conclusões não me levam a concluir que a organização vá    por diante» (pp. 599-600). Como é que Loff pode falar deste estudo como manifestando    «ambiguidade» face a uma Ordem Nova nazi é algo que não percebemos.</p>     <p>Tanto mais que o próprio Salazar dá uma resposta muito significativa ao palavroso    relatório de Tovar sobre a nova ordem nazi – em carta a Tovar –, considerando    que não valia muito a pena especular sobre qual será a nova ordem na Europa,    pois «seja qual for a potência vencedora» ela irá procurar esse reordenamento.    Salazar está longe portanto da confiança cega na vitória do Eixo que Loff parece    creditar. E, por outro lado, para melhor se perceber as concepções de Hitler    remete para o <i>Mein Kampf </i>como explicitando os termos da lei do mais forte    na vitória a que Hitler aderiria. Salazar rejeita, portanto, a assimilação de    Tovar da Ordem Nova nazi à velha cristandade, até porque «a unidade moral da    Europa se perdeu» e antes a ela presidia o Papa…</p>     <p>Para Salazar o problema fundamental é que uma ordem uniforme do tipo da que    aparece esboçada por Tovar a partir das acções nazis terá de ser imposta, e    embora os estados não sejam realmente todos iguais, e todos igualmente livres,    ainda assim a soberania e a liberdade «existem» nos limites do possível. Portanto,    para Salazar a questão vital reside em saber «como vão salvar-se nessa obra    [i.e. Ordem Nova] a personalidade, a independência, a liberdade dos Estados    europeus? A pergunta é angustiante, a resposta pode ser catastrófica». É que,    continua Salazar, «a obsessão do sistema, da ordem <i>externa</i>, da uniformidade,    do domínio tanto do carácter alemão, pode ser ruinoso para a independência e    originalidade das nações europeias». Recorda Salazar a «teoria da raça, o emprego    da violência, as repressões indiscriminadas que se afiguram desumanos, o desconhecimento,    quando necessário, dos direitos alheios» como pontos que justificavam as suas    preocupações e que levavam a que se refira a Hitler em termos de que «por esse    lado nenhuma garantia de segurança ou tranquilidade» se poderá encontrar. E    concluía mostrando evidente preferência por uma nova ordem inglesa, pois caso    a Grã-Bretanha prevalecesse na II Guerra Mundial com a ajuda dos Estados Unidos,    a tradicional moderação e pragmatismo inglês «oferecem só por si alguma garantia»<sup><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Hitler, fundador de uma nova ordem europeia? </b></p>     <p>A obra de Loff debate-se em vão com este problema adicional: a nova ordem internacional    desejada por Hitler apenas tinha um ponto absolutamente claro – o total predomínio    da Alemanha nazi e da raça superior, e a ausência de quaisquer compromissos    sólidos <i>a priori</i> em relação a quem quer que fosse e sobre o que quer    que fosse antes de vencida a guerra.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Claro que Mussolini, e os líderes da Hungria e da Bulgária, e mesmo, eventualmente,    da Roménia, conseguiram concessões territoriais; a Croácia e a Eslováquia viram    ser-lhes concedido formalmente um Estado independente. Mas como o decurso da    II Guerra mostrou, em última análise, Hitler não estava disposto a aceitar realmente    alianças com outros estados independentes, apenas relações de fidelidade hierárquica.    Quando pressionado por Mussolini e diversos outros líderes de regimes pró-alemães    a responder à Carta do Atlântico (1941), onde Churchill e Roosevelt se afirmavam    como defensores da independência dos estados europeus, Hitler recusou terminantemente    <sup><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></sup>.</p>     <p>Este ponto é particularmente relevante no que diz respeito a Franco e ao seu    regime, que bem procuraram que Hitler se definisse e fizesse firmes concessões    a Espanha de um novo império em África, a expensas sobretudo da França. Mas    Hitler sempre se recusou a tal, excepto relativamente a Gibraltar. Loff parece    considerar este facto secundário, valorizando sobretudo o entusiasmo dos fascistas    espanhóis com uma nova ordem internacional em que finalmente o seu país teria    de novo o estatuto de grande potência e os territórios que nessa qualidade lhe    eram «devidos». Loff alude mas nunca lida verdadeiramente com um problema que    está na base da enorme dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de construir uma    ordem internacional – ou seja, comportando vários estados – nazi-fascista a    partir de 1939, que resultava do facto de as várias correntes políticas de extrema-direita    que mimetizaram com maior ou menor empenho ou sucesso o modelo fascista e nazi    em diferentes países também elas abraçarem uma ideologia política ultranacionalista    de expansionismo imperialista. Esse é o caso da Espanha de Franco, mas não só.    Ora, além de Hitler não desejar comprometer antecipadamente futuros despojos    de guerra alemães, ser-lhe-ia impossível, mesmo que o quisesse, reconciliar    todos estes imperialismos de aliados ideologicamente zelosos, mas desejosos    de construir grandes estados imperiais que não aceitavam outra lei que não a    da força. O cerne do problema era que o mundo não era suficientemente vasto    para satisfazer tantas ambições de expansão imperial em competição. Por exemplo,    Hitler não podia manter um império colonial francês muito útil como subordinado    à Alemanha nazi, e ao mesmo tempo oferecer boa parte desses territórios, como    desejava Franco, a uma Espanha fraca, que seria incapaz de os conquistar ou    defender face aos britânicos e norte-americanos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Os limites da ideologia e do revisionismo </b></p>     <p>E esta temática leva-nos ao ponto fundamental na análise da obra de Loff, e    que diz respeito à forma como o autor situa Salazar e Franco neste contexto.</p>     <p>Em 1940, Franco estava, como Loff e muitas obras mostram, desejoso de entrar    na II Guerra Mundial ao lado do vitorioso Hitler. Fica também claro mais uma    vez neste livro que muitos dos que o rodeavam esperavam fazê-lo por razões ideológicas    – nomeadamente o mais fascista dos seus ministros, Serrano Suñer, que tinha    uma agenda expansionista externa, mas também considerava o alinhamento na guerra    com o regime nazi como essencial para poder levar a cabo uma agenda interna    de plena fascização do regime espanhol. Mas o que fica assim demonstrado é precisamente    que o regime de Franco era menos ideologicamente uniforme ou absolutamente determinado    do que Loff parece afirmar.</p>     <p>Afinal, se, em última análise, Franco fosse o fascista puro e duro que Loff    parece querer oferecer-nos, então deveria ter alinhado totalmente com Hitler.    A simpatia ideológica e a ambição imperialista inegavelmente turvaram durante    alguns anos a visão externa de Franco, levando-o, até muito tarde, a dar por    adquirida uma vitória de Hitler e de Mussolini. Mas, em última análise, na ausência    de uma ajuda militar significativa e de um compromisso territorial claro quanto    a um novo grande império espanhol por parte de Hitler – que este recusou na    Cimeira de Hendaia com Franco em Outubro de 1940, e nas <i>démarches</i> que    se lhe seguiram –, Franco optou por ficar de fora da guerra, enviando apenas    uma ajuda simbólica para combater a URSS, e mesmo esta foi retirada quando a    derrota da Alemanha pareceu inevitável. Portanto, apesar das convergências ideológicas    entre o franquismo de guerra e o fascismo e nazismo, havia limites realistas    no campo das decisões de política externa a essa adesão ideológica de Franco,    e o regime espanhol foi por isso bem mais pragmático, adaptável e durável do    que o de Hitler ou Mussolini.</p>     <p>Salazar era conhecido pela sua admiração pública por Mussolini, e não negava    que estava ideologicamente mais próximo dos regimes fascistas europeus do que    das democracias liberais. No entanto, ainda mais claramente do que no caso de    Franco, Salazar explicitou repetidamente, quer na sua correspondência privada    e diplomática, quer em discursos e textos públicos (inclusive publicados em    francês evidentemente para informação das elites internacionais), as diferenças    pragmáticas e ideológicas com a Itália e a Alemanha. Salazar via-se como parte    de uma vaga de novas ordens no campo político, mas estas eram e deviam ser plurais    e nacionais. Não deixa de espantar, no entanto, que numa obra tão vasta e tão    atenta a fontes públicas e publicadas, à propaganda e não apenas à diplomacia    – uma importante mais-valia da obra – não tenhamos encontrado qualquer referência,    sequer na bibliografia, por exemplo, à tradução francesa, em 1937, pela Flammarion,    dos discursos de Salazar, com um prefácio do conde belga Maeterlink – um intelectual    público que se via e era visto como hostil à Alemanha nazi – a ponto de ter    fugido para Portugal aquando da invasão nazi –, e com uma introdução escrita    pelo próprio fundador do Estado Novo em que este clarifica as diferenças com    as ideologias nazi e fascista com as quais aceita que existem «certas semelhantes»    mas rejeita como abusiva uma assimilação, uma «confusão» de uns e outros<sup><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></sup>.</p>     <p>É estranho também que Loff não dê relevância ao discurso perante a Assembleia    Nacional em que Salazar situou oficialmente Portugal perante «A Europa em guerra»,    em 1939, e que evidentemente constituiu um compromisso público muito sério,    e como tal foi tratado pelas diplomacias das potências beligerantes e não só.    Nele, Salazar deixou não só absolutamente claro o seu compromisso formal com    a aliança da Grã-Bretanha – a que, pode-se argumentar, estaria diplomaticamente    obrigado –, como até reservou uma palavra de reveladora simpatia pelo heroísmo    da fraca Polónia invadida pelo forte Hitler! Nesse discurso afirmou também em    termos cristalinos a recusa de determinar a sua política externa em função da    sua ideologia política interna:</p>        <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>«algumas pessoas as preocupa, sobretudo, saber    as consequências que da guerra advirão para as democracias ou para os regimes    de autoridade, e por aí determinam os seus íntimos desejos. Atrevo-me a dizer    que a questão é indigna de nós: primeiro, porque só os povos que não sabem governar-se    é que estão à espera de saber como os outros se governam […]; segundo, porque    ou nesta guerra se não discute nada ou estão em jogo problemas de tal transcendência    que a seu lado parece trágica ou ridícula a preocupação de situações políticas.    […] foi bem dura a experiência de se complicarem os problemas da vida internacional    com a formação de blocos ideológicos e com prevenções acerca dos regimes internos    dos Estados, e seria desesperar da salvação reincidirem no erro»<sup><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></sup>.</p> </blockquote>     <p>Na realidade, Salazar e outros membros da elite do Estado Novo preocuparam-se    com o impacto no regime de uma vitória total dos Aliados, <i>sobretudo </i>quando    neles se passou a incluir a URSS a partir de 1941. Mas isto está longe de significar    que desejassem uma vitória da Alemanha nazi, pelo temor do que isso significaria    para a independência dos pequenos estados europeus como Portugal, mesmo que    Salazar não afastasse a necessidade de ter de se chegar a alguns compromissos    com uma Alemanha vitoriosa.</p>     <p>Porém, foi constante na diplomacia portuguesa durante a II Guerra Mundial não    só a afirmação da vontade de ficar de fora do conflito europeu, como a de que    a entrar nela seria necessariamente ao lado da Grã-Bretanha.</p>     <p>Independentemente da velha aliança, era aliás da Royal Navy, e da cada vez    mais poderosa Marinha norte-americana, que poderia vir uma ameaça imediata à    maioria dos territórios portugueses – europeus, insulares e africanos. Um ponto    interessante que Loff documenta é precisamente o facto de que mesmo os adeptos    da beligerância espanhola ao lado de Hitler, como foi o caso da então estrela    emergente, e futuro almirante, Carrero Blanco, estarem cientes desses riscos    marítimos, que no caso da Espanha significariam a inevitável perda das Canárias    e da Guiné Espanhola para os britânicos (p. 631). </p>     <p>No caso de Portugal, quando a ameaça terrestre alemã passou de remota a mais    próxima, com a surpreendente derrota da França em 1940, a opção seguida por    Salazar foi – como a historiografia documentou com base em abundantes fontes    – a de, conjuntamente com a Grã-Bretanha, fazer todos os esforços para manter    a Espanha fora da guerra, como tampão de Portugal.</p>     <p>Relativamente ao caso da Espanha, a aversão do homem de confiança de Salazar    em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, pelo mais germanófilo ministro espanhol –    Serrano Suñer – está bem documentada. E se Teotónio Pereira até oferece bases    para a tese de Loff, e de boa parte da historiografia recente, relativamente    à aproximação da Espanha ao Eixo, fá-lo na sua correspondência com Salazar em    termos tais que mostram a impossibilidade de aplicar a mesma tese a Portugal.    Ao escrever, em Setembro de 1939, Teotónio Pereira manifesta «cada vez […] mais    apreensão sobre as ideias do Generalíssimo». Ora, o que é que lhe causa tanta    preocupação? Refere que em várias conversas com membros de confiança da elite    franquista «todos concordaram que a Alemanha passara as marcas da tolerância    e que a Itália se encontra em posição desgraçada», mas em relação a Franco,    Teotónio Pereira concluía: «acho-o um homem estranho e muito deslumbrado pelas    ideias do eixo»<sup><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></sup>.</p>     <p>É possível defender que Salazar foi, em certa medida, um adepto do <i>appeasement</i>    entre a Grã-Bretanha e Hitler, como afirma Loff (p. 602). Mas, precisamente    por isso, o ditador português nunca foi um adepto ou seguidor de uma nova ordem    europeia nazi – pois precisamente o <i>apaziguamento </i>tinha como pressuposto    que haveria certas cedências que permitiriam alcançar um limite negociado e    razoável à expansão alemã que apaziguaria Hitler. E importa ainda notar que    mesmo na medida em que Salazar o era, não deixava de o ser com receio de que    algum acordo de divisão da esfera de influências entre a Grã-Bretanha e a Alemanha    pudesse ser feita à custa do império colonial português.</p>     <p>Também nos parece evidente e normal que os homens do regime se preocupassem    com o seu futuro numa Europa dominada não tanto pela Grã-Bretanha, mas mais    pelos Estados Unidos e a pela URSS. Que houve algum receio destas duas últimas    potências é inegável; o que é notável e notório, no entanto, é que o maior temor    de Salazar e dos seus mais próximos colaboradores no campo da política externa    fosse relativamente à Alemanha nazi, e não apenas por razões geopolíticas mas    também ideológicas, por a estes homens conservadores assustar o revisionismo    extremamente violento e insaciável de Hitler.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nem século fascista, nem relações internacionais </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Desmentindo o título do livro, o último século não foi fascista. Não o foi    porque o nazismo e o fascismo perderam. Não o foi porque nunca chegou verdadeiramente    a existir uma ideia clara de uma nova ordem europeia fascista na mente de quem    a poderia ter implementado – Hitler.</p>     <p>Um dos factos fundamentais do século XX foi precisamente o facto de a vaga    fascista que a partir de 1922 varreu parte da Europa, com um aspecto irresistível    a dado momento, ter sido tão brutal nos resultados quanto limitada cronologicamente,    tão ambiciosa quanto confusa e desorganizada, tão violentamente implementada    quanto resistida, tão desastrosa quanto contrária às tradições das relações    internacionais na Europa.</p>     <p>Muito embora o fascismo e o nazismo tenham influenciado ou condicionado outros    regimes autoritários de direita, os reais movimentos-partidos de tipo nazi-fascista    raramente, se é que de todo, se afirmaram no poder pelos seus próprios meios,    sem a intervenção militar de Mussolini e Hitler. Ora, em Portugal, Salazar dominou,    apoiando-se na corrente militar republicana conservadora a partir de 1928. Em    Espanha, Franco tomou o poder à frente de um exército vitorioso na guerra civil    de 1936-1939, com o apoio militar de Hitler e Mussolini, mas ainda limitado    pelo contexto geopolítico, e o suporte da Falange, mas também de outras correntes    políticas.</p>     <p>Hitler prometeu um grande império alemão de pelo menos mil anos, mas o seu    período de expansão, embora impressionante na sua dimensão, durou apenas entre    1938 e 1942! Este carácter efémero da preponderância nazi-fascista – na verdade,    essencialmente nazi – é secundarizado na análise de Loff, que se concentra em    tentar tornar claro, nítido e duradoiro aquilo que nunca o foi.</p>     <p>Nunca houve uma nova ordem nazi-fascista na Europa, apenas uma expansão militar    nazi assente num imperialismo racista liderado por Hitler, que aceitou por razões    de conveniência aliados vários.</p>     <p>Quanto à contribuição de Loff para o estudo das relações internacionais neste    período, ela não existe, visto que é o próprio autor que explicitamente rejeita    este tipo de abordagem. Loff considera até as relações internacionais e a sua    influência nas obras históricas que se debruçaram sobre estes temas como algo    nefasto. Porquê? Loff identifica ainda as relações internacionais com uma versão    do realismo clássico determinista e dominado pela <i>Realpolitik</i> e a geopolítica    (pp. 53-54). O que impede que o seu trabalho seja enriquecido com as abordagens    diversificadas de uma quantidade de outras correntes de pensamento que têm animado    o campo das relações internacionais nas últimas décadas, nomeadamente sobre    a sempre complexa relação entre ideologia e política externa.</p>     <p>Em alguns pontos importantes estamos de acordo com Loff. Desde logo na sua    insistência na importância de uma abordagem comparativa e numa maior utilização    de fontes de diversos estados – a começar pela Espanha, sendo o autor um dos    nossos estranhamente raros hispanistas. Neste caso, um bom conhecimento das    fontes alemãs poderá ser particularmente importante para futuros aprofundamentos    destas temáticas (p. 61)<sup><a href="#9">9</a><a name="top9"></a></sup>. Duvidamos    muito, no entanto, que tais investigações futuras resultem numa visão fundamentalmente    diferente quanto ao alinhamento de Salazar em qualquer nova ordem nazi <sup><a href="#10">10</a><a name="top10"></a></sup>.</p>     <p>Outro ponto de concordância com Loff tem a ver com o seu justificado sublinhar    de que as ideias, e nomeadamente a sua cristalização ideológica, têm importância    na política externa, e não podem ser reduzidas apenas às correntes políticas    mais extremistas e portanto mais claramente visíveis; a própria ideia de que    a política externa deve ser determinada pelo interesse nacional, bem assim como    a forma como este último é concebido, não deixa de transportar uma componente    ideológica.</p>     <p>Há, em conclusão, que notar que na medida em que Loff avança com uma tese nova,    é para acentuar um estreito alinhamento ideológico e uma amálgama da Espanha    e de Portugal com uma Ordem Nova nazi-fascista, o que nos parece pouco ou nada    convincente.</p>     <p>Há também, no entanto, que elogiar o autor pela coragem do seu trabalhoso empenho    na história comparada, ainda pouco praticada pela historiografia ibérica. Há    que admirar o enorme trabalho de recolha de fontes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Porém, se é certo que Salazar foi um ditador, como o foram Hitler e Franco,    também é claro que nem todos os ditadores são iguais, não partilham necessariamente    a mesma ideologia, ou a mesma política externa. O Portugal autoritário do Estado    Novo adoptou uma política externa essencialmente pragmática que ditava um alinhamento    prioritário – cuidadosamente gerido – com a Grã-Bretanha, de acordo com uma    visão de Salazar das relações internacionais que assentava na <i>Realpolitik</i>    e na geopolítica, e num conservadorismo partilhado com as elites britânicas    mais à direita. Loff, ao não valorizar devidamente estes pontos na sua abordagem,    como se eles não fossem suficientemente ideológicos, acaba por nem contribuir    para uma melhor compreensão da acção externa do Estado Novo, nem ser capaz de    fazer avançar a sua tese de uma ideologia nazi-fascista comum prevalecendo –    apesar das qualificações – acima de tudo na política externa da Espanha e de    Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas </b></p>     <p><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></sup> No entanto, é alvo de crítica    também a obra de LEITZ, Christian – <i>Nazi Germany and Neutral Europe during    the Second World War, </i>Manchester: Manchester U.P., 2000, que não sofre nem    de um, nem de outro destes defeitos.</p>     <p><sup><a href="#top2">2</a><a name="2"></a></sup> PAYNE, Stanley – <i>Franco    &amp; Salazar: Spain, Germany, and World War II, </i>New Haven: Yale UP, 2008,    pp. 90 e segs.</p>     <p><sup><a href="#top3">3</a><a name="3"></a></sup> Relatório Min. Berlim (Tovar)    para MNE (Salazar) [15.11.1941], <i>Dez Anos de Política Externa (1936-1947):    A Nação Portuguesa e a Segunda Guerra Mundial, </i>Lisboa: MNE, 1974, Vol. X,    Doc. 2561, pp. 59-69</p>     <p><sup><a href="#top4">4</a><a name="4"></a></sup> Carta do PC e MNE (Salazar)    para Min. Berlim (Tovar) [30.11.1941], <i>Dez Anos de Política Externa (1936-1947):    A Nação Portuguesa e a Segunda Guerra Mundial, </i>Lisboa: MNE, 1974, Vol. X,    Doc. 2546, pp. 144-169.</p>     <p><sup><a href="#top5">5</a><a name="5"></a></sup> MAZOWER, Mark – <i>Hitler’s    Empire: Nazi Rule of Occupied Europe, </i>Londres: Penguin, 2009, pp. 356-362.</p>     <p><sup><a href="#top6">6</a><a name="6"></a></sup> SALAZAR, Oliveira – «Préface...»,    <i>Une révolution dans la paix, </i>Paris: Flammarion, 1937, pp. XXXVI-XLII.</p>     <p><sup><a href="#top7">7</a><a name="7"></a></sup> Cf. Discurso PC (Salazar)    na AN, «A Europa e a Guerra» (09.10.1939), <i>Dez Anos de Política Externa (1936-1947):    A Nação Portuguesa e a Segunda Guerra Mundial, </i>Lisboa: MNE/IC-CM, 1970,    Vol. IX 1970, p. 118.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top8">8</a><a name="8"></a></sup> Carta P T Pereira (Min. em    Madrid) a Salazar (PC e MNE) de 28.09. 1939. In <i>Correspondência de Pedro    Teotónio Pereira a Salazar</i>, Mem Martins: CLNRF, 1987, doc. 89, pp.190-195.</p>     <p><sup><a href="#top9">9</a><a name="9"></a></sup> No entanto, essa é também    uma limitação da obra de Loff, que não consultou os arquivos alemães, tendo    de socorrer-se das fontes traduzidas e publicadas. Aliás, uma opção que torna    a leitura árdua é de não se traduzir citações em língua estrangeira. Tal poderia    justifica-se no que respeita a fontes na língua original – mas não faz muito    sentido ler fontes alemãs citadas em inglês.</p>     <p><sup><a href="#top10">10</a><a name="10"></a></sup> Revelação recente, mas    confirmando precisamente o temor de Salazar relativamente à Alemanha nazi é    a sua correspondência com Gonzague de Reynold referida na discussão deste tema    em MENESES, Filipe Ribeiro de – <i>Salazar: biografia política, </i>Lisboa:    D. Quixote, 2010, pp. 259-274.</p>      ]]></body>
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