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</front><body><![CDATA[ <p><b>América do Sul e Brasil </b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Carmen Fonseca</b></p>       <p>Investigadora do IPRI–UNL. Assistente convidada no Departamento    de Estudos Políticos da FCSH–UNL. Doutoranda em Relações Internacionais na FCSH    – UNL, onde prepara uma tese de doutoramento sobre a política externa brasileira.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Gian Luca Gardini, </b><b><i>The</i></b><b><i> Origins of Mercosur. Democracy    and Regionalization in South America </i></b></p>     <p>Nova York, Palgrave, 2010, 267 pp. </p>     <p>A América do Sul tem-se caracterizado por iniciativas diversas de processos    de integração regional. Nesse sentido, são também abundantes os trabalhos académicos    sobre estas matérias, em particular sobre o Mercosul, criado em 1991, e que    tem tido uma evolução marcada por altos e baixos. Mas mais do que avaliar estes    momentos, o livro de Gian Luca Gardini (Universidade de Bath) centra-se nas    origens do Mercosul. O principal objectivo do livro é avaliar o papel da democracia    no processo de regionalização da América do Sul.</p>     <p>O livro estrutura-se, numa primeira parte, com a contextualização histórica    (ou, como o autor denomina, as investigações diplomáticas e análises históricas)    das relações entre o Brasil e a Argentina, entendidas como o ímpeto para a criação    do Mercosul. E, numa segunda parte, com «as investigações políticas e análises    teóricas» que explora o conceito de democracia e o relaciona com a regionalização;    analisa o papel da sociedade civil na criação do Mercosul, passando, finalmente,    para a análise teórica da relação entre a democracia e a regionalização. Tendo    em conta a percepção dos protagonistas entrevistados (todos consideram que a    democracia foi fulcral neste processo), Gardini explora o papel das ideias na    formulação da política externa com base nos argumentos de Goldstein e Keohane.    Neste sentido, o autor tenta perceber porquê todos os protagonistas, argentinos    e brasileiros, dão especial relevo ao papel da democracia, avançando com a hipótese    de que a democracia desenvolve a visão dos líderes da região e molda as suas    percepções, definindo interesses e comportamentos. Para tal, Gian Luca Gardini    utiliza uma análise cognitiva da política externa e da democracia (entendida    aqui como um conjunto de ideias e crenças com comportamentos associados) baseada    na psicologia política, no construtivismo social, e na abordagem <i>ideational</i>.    Os dois primeiros modelos ajudam a explicar as ideias e percepções a nível individual    e sistémico, e o modelo desenvolvido por Goldstein e Keohane completa a análise    ao fornecer os instrumentos para entender como funciona a influência das ideias    na política externa. Deste modo, Gardini conclui que, embora nem sempre a alteração    de regime político seja sinónimo de alteração da política externa (como é o    caso do Brasil), a democracia foi um factor importante na integração do Brasil    e da Argentina e foi a base da criação do Mercosul.</p>     <p>Um contributo interessante para os que estudam a génese e a evolução do Mercosul,    e não apenas as suas crises. Mas, acima de tudo, uma abordagem criativa para    compreender a evolução das relações Brasil-Argentina e a ligação entre a democracia    e regionalização, no caso concreto do Mercosul. Ao que se soma um trabalho empírico    e teórico muito bem fundamentado.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Luiz Felipe Lampreia, <i>O Brasil e os Ventos da Mudança </i></b></p>     <p>Rio de Janeiro, Objetiva, 2010, 343 pp. </p>     <p>Luiz Felipe Lampreia, diplomata, exerceu o cargo de embaixador em vários postos    (incluindo Lisboa), tendo passado ainda pela Secretaria-Geral do Ministério    das Relações Exteriores (o Itamaraty). Entre 1995 e 2001 foi ministro das Relações    Exteriores do governo de Fernando Henrique Cardoso, findo o qual abandonou o    percurso político e a carreira diplomática, porque «cansei de mudanças e de    ficar tão exposto aos azares da política». Tal como esclarece nas primeiras    páginas do livro, o seu objectivo não foi fazer um livro de história diplomática    ou a sua autobiografia (e não é) – o que aqui se apresenta é o testemunho e    partilha das suas experiências enquanto actor (-chave) na «evolução da trajetória    internacional do Brasil». Pese embora, pela informação disponibilizada, o livro    se apresente, paralelamente, como um excelente instrumento de trabalho para    os que centram a sua investigação na análise da política externa brasileira    – não só pelos episódios relatados mas também pela fundamentação feita através    de excertos de discursos do autor ou de textos publicados anteriormente.</p>     <p>O livro começa com uma retrospectiva em torno da génese da política externa    brasileira, desde o início do século XX, e é composto por mais seis interessantes    partes, organizadas cronologicamente a partir dos anos 1960 – altura em que    Lampreia entrou para a carreira diplomática no Instituto Rio Branco. O sexto    capítulo, o mais longo, trata especificamente os anos de Luiz Felipe Lampreia    como ministro das Relações Exteriores. É feita a análise do papel do Brasil    no conflito entre o Peru e o Equador, os meandros da assinatura do Tratado de    Não Proliferação de Armas Nucleares, a evolução da política comercial do Brasil    e a integração económica, bem como as suas relações com cada um dos países da    «família» latino-americana, com os Estados Unidos, com alguns dos países da    Europa, do Médio Oriente, de África e da Ásia.</p>     <p>Em jeito de conclusões, o autor formula, no último capítulo, «a década atual    e a próxima», alguns dos actuais desafios do Brasil: um lugar permanente no    Conselho de Segurança das Nações Unidas, o papel do país nos acordos internacionais    de comércio, bem como, por um lado, a evolução do Estado democrático na região    e, por outro, as mudanças climáticas e as armas nucleares (que o autor considera    «o maior perigo da atualidade»). Finalmente, Lampreia reflecte sobre o «novo    papel internacional do Brasil», embora não o defina claramente, e sobre as ambições    do Governo – destaca o importante papel de Lula da Silva, mas aponta «erros»    na gestão da sua política externa. Referindo-se às relações com o Irão, a Coreia    do Norte ou o Sudão, Lampreia argumenta que dada a «nova posição do Brasil na    hierarquia internacional», o país não pode ter uma política externa ambígua    mas sim um «comportamento responsável».</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Tullo Vigevani e Gabriel Cepaluni, </b><b><i>Brazilian Foreign Policy in    Changing Times – from Sarney to Lula </i></b></p>     <p>Lanham, Lexington Books, 2009, 169 pp. </p>     <p>O pano de fundo deste livro é a evolução da política externa brasileira desde    o Governo de José Sarney (1985) até ao actual Governo de Lula da Silva (2009).    O principal objectivo de Tullo Vigevani (professor na Universidade do Estado    de São Paulo e um grande especialista em política externa brasileira) e Gabriel    Cepaluni (Universidade de Georgetown) é a análise dos elementos de continuidade    e de mudança da política externa brasileira desde a redemocratização do Brasil.    A categoria analítica adoptada foi a noção de autonomia, que os autores consideram    transversal a todos os governos, e que permite destacar a capacidade do país    em desenvolver uma política externa livre de constrangimentos e pressões dos    países mais poderosos. Depois desta análise, o livro fornece ainda um capítulo    dedicado aos dilemas da integração regional do Brasil, e um último às relações    entre o Brasil e a Venezuela, que ilustra o contraste dos tipos de autonomia    em cada um dos países.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No que se refere à política externa do Governo de José Sarney, os autores argumentam    que o Brasil foi largamente pressionado pelos Estados Unidos. Juntamente com    as alterações no sistema internacional e interno registaram-se, por isso, no    final do governo, alterações na política externa do Brasil que o levaram a adoptar,    até certa medida, uma postura de «autonomia pela distância». O governo seguinte,    de Collor de Mello, é marcado, no início, pelo alinhamento automático com os    Estados Unidos. Em contrapartida, os autores consideram que a curta duração    dos mandatos, tanto de Collor de Mello como de Itamar, assim como a instabilidade    política e económica, não permitiu que fosse implementada uma política externa    sólida. Para ilustrar o padrão da «autonomia pela participação», representado    pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso, os autores exploram o legado intelectual    e prático do Presidente, destacam a diplomacia presidencial, bem como as relações    com os Estados Unidos, a América do Sul, os processos de integração regional    e a OMC. É tratada ainda a participação e inserção do Brasil na cena internacional    o que implicou não só uma aproximação aos países mais ricos, mas também aos    países do Sul de modo a aumentar a participação do Brasil nos regimes internacionais.    Com Lula da Silva regista-se o que os autores apelidam de «autonomia pela diversificação».    Os autores consideram que o objectivo do Governo de Lula é aumentar o estatuto    internacional e regional do Brasil, semelhante ao de Fernando Henrique Cardoso    que, em contrapartida, se desenvolveu de forma moderada. Acrescentam que a política    externa de Lula, comparativamente com Fernando Henrique Cardoso, caracteriza-se    pela mudança com continuidade, sendo marcada por alguns ajustamentos e novas    orientações programáticas.</p>     <p>A grande mais-valia é reunir num mesmo volume alguns dos textos dos autores    trazidos, anteriormente, a público de forma dispersa através da sua publicação    em revistas académicas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lael Brainard e Leonardo Martinez-Diaz (org.), <i>Brazil as an Economic Superpower?    Understanding Brazil’s Changing Role in the Global Economy </i></b></p>     <p>Washington, Brookings Institution Press, 2009, 291 pp.</p>     <p>O livro, coordenado por Lael Brainard e Leonardo Martinez-Diaz, é resultado    de uma conferência organizada pela Brookings Institution em 2008, em Washington.    A obra está estruturada em quatro partes: agricultura e energia, política comercial,    negócios e multinacionais e sociedade – que contribuem para a compreensão do    lugar do Brasil no sistema económico, e para o debate sobre a definição do país    como superpotência económica.</p>     <p>A aposta na agricultura e a definição de uma estratégia na área energética,    motivadas por factores internos e externos, têm sido determinantes para a ascensão    do Brasil. Mas, como refere André Meloni Nassar, se o Brasil pretende ser uma    superpotência agrícola e agroenergética, necessita de melhorar as suas instituições    para que sejam formuladas políticas adaptadas aos desafios actuais. Geraldo    Barros, depois de traçar a evolução da política agrícola do Brasil, acrescenta    que é necessário restabelecer os investimentos, em parceria com o sector privado.    Em dois capítulos, Pedro da Motta Veiga e Maurício Mesquita Moreira, analisam    a política comercial do Brasil desde os anos 1990, quando o Brasil abriu o seu    regime comercial, e evidenciam a permanência de alguns assuntos relacionados    com esse processo de liberalização. As questões dos negócios e da distribuição    de rendimentos e oportunidades na sociedade brasileira são tratadas nos últimos    três capítulos. </p>     <p>O primeiro capítulo, que serve também de introdução, da autoria dos coordenadores    do livro, fornece um quadro geral da evolução da economia brasileira desde finais    da década de 1940 e trata-a no quadro do acrónimo <i>Bric</i>. Os autores consideram    que, actualmente, o Brasil está plenamente integrado na economia global, para    o que contribuíram favoráveis conjunturas internas e externas – como a crise    das matérias-primas na China e na Índia que levou ao aumento da procura na América    Latina, e em particular, no Brasil. Brainard e Martinez-Diaz resumem essa conjuntura    ao clima e às matérias-primas bem como ao legado político interno – e esta é    a justificação que encontram para o facto de o crescimento sustentado e a ascensão    no <i>ranking </i>da economia global ter ajudado para o sucesso do Brasil, e    não para a sua decadência. Os desafios residem na forma como o Brasil irá lidar    com este legado ao nível da política económica, e também como irá fazer a sua    integração nos mercados mundiais, o que dependerá das políticas formuladas a    nível interno. Quanto à pergunta que faz o título do livro, os autores consideram    que, se por «superpotência» entendermos um país que exerce influência no exterior,    então o Brasil pode ser definido como tal.</p>      ]]></body>
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