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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In October 2010 Portugal was elected for a two years term at the United Nations Security Council. This article constitutes a descriptive memory of the steps, arguments, strategies and work methods making also a brief analysis of the results achieved during the Portuguese campaign to the Security Council.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A campanha portuguesa para o Conselho de Segurança </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>João Gomes Cravinho </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>RESUMO</p>     <p>Em Outubro de 2010 Portugal foi eleito para um mandato de dois anos no Conselho    de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Este artigo apresenta-se como uma memória    descritiva das várias etapas, argumentos, estratégias e métodos de trabalho,    partilhando ao mesmo tempo uma curta análise dos resultados obtidos durante    a campanha portuguesa para o Conselho de Segurança.</p>     <p>Palavras-chave: ONU, Conselho de Segurança, Portugal, política externa portuguesa</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>The Portuguese campaign to the Security Council</b></p>     <p>ABSTRACT</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>In October 2010 Portugal was elected for a two years term at the United Nations    Security Council. This article constitutes a descriptive memory of the steps,    arguments, strategies and work methods making also a brief analysis of the results    achieved during the Portuguese campaign to the Security Council.</p>     <p>Keywords: United Nations, Security Council, Portugal, Portuguese foreign policy</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota prévia</b></p>     <p>Ao longo deste último ano, e com menor intensidade durante um par de anos antes    disso, dediquei uma parte importante do meu tempo de trabalho à campanha portuguesa    para o Conselho de Segurança das nações unidas (CSNU). Pareceu-me pertinente    publicar esta memória descritiva das várias etapas, argumentos, estratégias    e métodos de trabalho, partilhando ao mesmo tempo uma curta análise dos resultados    obtidos. Espero que este meu contributo tenha alguma utilidade para os investigadores    que trabalham sobre política externa portuguesa, e em particular sobre a organização    das nações unidas (ONU), ou quiçá até para alguma outra campanha futura. Este    é o ponto de vista de alguém directamente envolvido, o que desde logo exclui    qualquer veleidade de isenção, mas procurei ser justo e tão exaustivo quanto    possível. Quero, nesta nota prévia, deixar uma palavra de especial reconhecimento    para o meu gabinete, por todo o apoio que me deu no âmbito do meu envolvimento    na campanha, e quero destacar, em particular, o trabalho do Dr. Pedro courela,    que fez comigo muitas dezenas de milhares de quilómetros de viagens em demanda    de amigos e de votos. Este texto é dedicado, naturalmente, a todos aqueles que    contribuíram para esta extraordinária campanha.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A génese da candidatura </b></p>     <p>A decisão de Portugal apresentar uma nova candidatura surgiu pouco tempo depois    da nossa anterior presença no Conselho de Segurança das nações unidas (CSNU).    Várias razões terão estado seguramente presentes no espírito do ministro Jaime    Gama e da equipa que o aconselhava, e também do primeiro-ministro antónio Guterres,    cuja anuência a este projecto era essencial. Primeiro, a presença de Portugal    no Conselho de Segurança, no biénio 1997-1998, tinha sido bem-sucedida. A diplomacia    portuguesa mostrara a sua capacidade de trabalhar neste círculo dos «grandes»,    dando provas de profissionalismo e de competência nas questões de gestão global    que não tocavam directamente em interesses nacionais – na liderança do comité    de sanções sobre o Iraque, por exemplo – e com perspicácia e utilidade directa,    quando surgiu uma questão que envolvia inevitavelmente Portugal, o conflito    na Guiné-Bissau a partir de Junho de 1998. Portugal saiu prestigiado desse exercício,    e teve uma extraordinária oportunidade de utilizar esse prestígio quase de imediato,    quando o processo de Timor Leste registou desenvolvimentos inesperados, com    a abertura de um processo negocial. Ao longo de vários meses, durante o ano    de 1999, Portugal pôde utilizar os valiosos contactos estabelecidos no CSNU    para ajudar a resolver aquele que era o seu problema internacional mais enquistado    e difícil. Ou seja, ficou então muito claramente vincada a ideia de que as características    da inserção de Portugal no sistema internacional aconselhavam a um envolvimento    activo do nosso país na gestão das questões multilaterais, como forma de reforçar    uma voz que, de outro modo, teria dificuldade em se fazer ouvir.</p>     <p>Segundo, a anterior experiência representava quase que um reconhecimento da    maioridade internacional da jovem democracia portuguesa. Com efeito, Portugal    já tinha marcado presença anterior no CSNU, em 1979-1980, mas essa presença    funcionara quase como uma simples recompensa pela normalização democrática do    País. Entretanto, Portugal começara a participar em missões de paz com mandatos    das nações unidas, já tinha presidido com sucesso às comunidades europeias em    1992, e no momento do anúncio da nova candidatura, em Janeiro de 2000, viviam-se    os primeiros dias da segunda presidência portuguesa da união europeia (UE).    A actividade diplomática portuguesa tinha ganho intensidade, e a escolha do    Professor Freitas do Amaral para presidir à 50.ª sessão da Assembleia Geral    das nações unidas representava a confirmação do prestígio português em nova    York. Também por esta via, a diplomacia portuguesa tinha aprendido que uma postura    de activa participação nos principais debates internacionais era aquela que    mais favorecia a defesa e promoção dos interesses nacionais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por fim, era também relevante o facto de, em Outubro de 1996, na votação para    os dois lugares disponíveis para o Western European and Others Group (WEOG )<a name="top1"></a><b><sup><a href="#1">1</a></sup></b>,    Portugal ter conseguido ser eleito, apesar de enfrentar dois candidatos de peso,    a Suécia e a Austrália, com a dificuldade acrescida de haver um acordo de apoio    mútuo entre essas duas candidaturas, que se traduzia não apenas numa troca de    votos, mas em campanha efectiva pelo voto na dupla suécia-austrália<b><sup><a name="top2"></a><a href="#2">2</a></sup></b>.    A eleição de Portugal, em detrimento da Austrália, reforçou a autoconfiança    da diplomacia portuguesa, consolidando a convicção de que, em termos diplomáticos,    Portugal podia efectivamente aspirar a um grau de influência bastante superior    àquele que resultaria da computação tradicional dos chamados elementos de poder    (a dimensão do PIB e das forças armadas, da população e do território, até mesmo    a própria extensão da rede diplomática, entre outros).</p>     <p>Por estas várias razões, fazia sentido avançar com uma nova candidatura ao    Conselho de Segurança. Mas a candidatura não era propriamente temerária. O momento    da eleição distava mais de uma década e, nesse momento, não havia sinal de nenhum    outro candidato para o biénio 2011-2012. Na ONU, há sempre vantagem em anunciar    cedo uma candidatura. e além disso, uma candidatura fornecia-nos tema de conversa    com numerosos interlocutores, subsistindo no entanto muito tempo para uma eventual    retirada com dignidade, no caso de se concluir que a candidatura era inconveniente.    Assim foi, portanto, que a 5 de Janeiro de 2000 se anunciou que Portugal era    novamente candidato a um lugar no Conselho de Segurança.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Os primeiros anos da candidatura e o aparecimento de outros candidatos</b></p>     <p>De início, o anúncio da candidatura portuguesa não passou de um exemplo de    sinalética diplomática, para marcar publicamente posição, mas ainda sem grandes    consequências no plano da actividade diplomática ou política portuguesas. Aliás,    todo o esforço da política externa portuguesa, no primeiro semestre de 2000,    seria absorvido pela presidência da UE.</p>     <p>No plano estritamente administrativo, e no âmbito das habituais barganhas diplomáticas,    incluiu-se a candidatura ao Conselho de Segurança nas nossas propostas de troca    de apoios. De facto, as candidaturas nacionais a posições de representação em    instituições internacionais são, por hábito, objecto de um processo de troca    de apoios. </p>     <p>O mérito individual do candidato tem alguma relevância, quer se trate de uma    candidatura de uma personalidade com o seu currículo pessoal, ou de um país    que assume determinadas posições relacionadas com a matéria em apreço. A apreciação    do mérito individual do candidato tem maior peso nas matérias claramente políticas    do que nas matérias mais técnicas mas, em qualquer dos casos, existe sempre    um registo de troca de apoios que tem grande influência na formulação de uma    posição de voto, e existe com frequência uma formalização diplomática de trocas    de apoios, particularmente no universo das Nações Unidas.</p>     <p>No caso do Conselho de Segurança, existem particularidades. Primeiro, o voto    é secreto e é exercido pelo representante permanente em Nova York (ou alguém    em quem ele delegue). Isto significa que uma troca de apoios equivale apenas    a uma palavra dada, verbalmente ou por escrito, e não a uma garantia absoluta.    A situação é naturalmente diferente no caso das votações em que o sentido de    voto de cada país é público e conhecido. Segundo, o voto para o Conselho de    Segurança é considerado o apoio eleitoral mais importante no âmbito das nações    unidas, o que significa que uma troca para o CSNU é mais segura se tiver por    base um apoio mútuo. Em muitos casos, o interlocutor não é candidato ao Conselho    de Segurança num horizonte de razoabilidade<b><sup><a name="top3"></a><a href="#3">3</a></sup></b>,    o que significa que a troca tem de contemplar eleições para outros órgãos, e    normalmente para mais do que um. E há também muitos casos, sobretudo de países    mais pequenos e pobres, em que não se prevê nenhuma candidatura, não havendo    assim bases para negociar uma reciprocidade de apoios. </p>     <p>A nossa candidatura algo madrugadora dava à abordagem diplomática, que nessa    fase se desenvolvia apenas no enquadramento proporcionado por outros assuntos    bilaterais, o mérito de ser o primeiro pedido de apoio para o biénio 2011-2012.    Ou seja, a resposta que recebíamos comportava, frequentemente, uma tendência    positiva, porque não havia então rivais para o lugar. Mas, ao mesmo tempo, os    compromissos raramente eram definitivos, exactamente por causa da distância    temporal, e também porque se sabia que iriam aparecer outros candidatos, provavelmente    mais do que um, sendo portanto demasiado precoce para a manifestação de posições    firmes. De qualquer maneira, a partir de 2006, deixou de haver candidaturas    portuguesas para outros órgãos, de forma a não dispersar apoios no âmbito deste    autêntico mercado de trocas de votos. </p>     <p>Ao contrário daquilo que se passa nos outros grupos, a tradição no WEOG aponta    para a apresentação de mais candidatos do que lugares disponíveis, obrigando    por isso a uma disputa eleitoral envolvendo todos os membros da assembleia Geral.    Embora haja alguns países que consideram que a disputa eleitoral é positiva,    por obrigar os candidatos a exporem ideias e fazerem campanha tal como numa    democracia, a maioria dos membros do grupo discorda e considera que seria positivo    se o WEOG conseguisse, como acontece com outros grupos, promover um <i>clean    slate </i>para as candidaturas, isto é, um número de candidaturas igual ao número    de lugares em disputa. Contudo, a realidade mostra-nos que o grupo Ocidental    apresenta habitualmente três candidatos para os dois lugares que lhe são atribuídos    no Conselho de Segurança.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pouco mais de um ano após a declaração da candidatura portuguesa, o Canadá,    que acabara de servir no Conselho de Segurança no biénio 1999-2000, declarou    que também concorreria para o biénio 2011-2012. Para o Canadá, esta candidatura    representava a continuidade da tradição de uma presença no Conselho de Segurança    por cada década. Com efeito, o Canadá estivera no CSNU em 1948-1949, 1958-1959,    1967-1968, 1977-1978, 1989-1990 e 1999-2000, um total de seis presenças, tendo    ganho sempre as eleições a que se apresentara<b><sup><a name="top4"></a><a href="#4">4</a></sup></b>.    E para além destas presenças regulares no Conselho de Segurança, o Canadá tinha    uma longa e profunda tradição de compromisso com o sistema multilateral, contribuindo    generosamente para a resolução dos desafios com que as nações unidas se confrontavam.    Em 1957, por exemplo, o ministro dos negócios estrangeiros canadiano, Lester    B. Pearson, recebeu o Prémio Nobel pelo seu trabalho na criação da missão das    nações unidas para o Suez (UNEF), um contributo que pode ser considerado fundacional,    em termos de missões de manutenção da paz. Em suma, a candidatura canadiana    era natural e poderosa, bem ancorada na tradição histórica e na reputação internacionalista    granjeada ao longo de toda a segunda metade do século XX.</p>     <p>Para Portugal, este desenvolvimento não representava uma ameaça imediata, desde    que não aparecessem outros candidatos, mas, a nove anos de distância do acto    eleitoral, havia amplas possibilidades de que isso viesse a acontecer. O desafio    para a diplomacia portuguesa residia, portanto, em tentar transmitir a noção    de que os dois lugares para o biénio 2011-2012 tinham já dois fortes candidatos,    desencorajando outros que pudessem eventualmente estar interessados, e sugerindo,    desta maneira, que iria ser, finalmente, possível apresentar um <i>clean slate    </i>em nome do WEOG . Assim, Portugal apressou-se a reconhecer a candidatura    canadiana e a propor a troca de votos entre ambas as candidaturas, o que foi    aceite, e neste processo de diálogo os dois países comprometeram-se a não fazer    campanha negativa um contra o outro. Nesse sentido, consolidava-se a ideia de    que nenhuma das candidaturas era controversa ou contestada, algo que ajudaria    em alguma medida a inibir o aparecimento de outras eventuais candidaturas rivais.    Mas, para além disso, pouco havia a fazer a não ser cruzar os dedos e esperar    que não aparecessem outros candidatos. Quanto mais tempo passasse melhor, porque    o eleitorado em causa não aprecia candidaturas muito tardias, mas havia ainda    muito tempo pela frente.</p>     <p>Durante mais de cinco anos, as duas candidaturas mantiveram o <i>clean slate</i>,    aumentando paulatinamente a esperança de que assim se continuaria até à data    da eleição. Aliás, o facto de aparecerem diversas candidaturas no WEOG para    biénios posteriores reforçava Foi com considerável surpresa que se a possibilidade    de haver apenas dois candidatos para os dois lugares disponíveis naquele biénio,    e quando teve início a 61.ª Assembleia Geral, no Outono de 2006, começava a    parecer bastante provável que Portugal e Canadá concorreriam sozinhos. Foi assim    com considerável surpresa que se recebeu a notícia da candidatura da Alemanha,    em Novembro de 2006, quase sete anos depois do anúncio da candidatura portuguesa,    e mais de cinco anos após a canadiana. A Alemanha acabava de servir no conselho,    no biénio 2003-2004, e, juntamente com a índia, o Brasil e o Japão, fazia parte    de um quarteto de países que pretendiam ser membros permanentes do Conselho    de Segurança, o G4. Durante o ano de 2005, houve alguma expectativa quanto à    possibilidade de se colocar em marcha um processo de reforma do Conselho de    Segurança que resultasse num aumento do número de membros permanentes e não    permanentes, mas, pelo final do ano, já se percebia que não havia condições    para avançar no formato pretendido pelo G4. Ao mesmo tempo, desenvolvia-se na    UE um debate sobre o aprofundamento da integração europeia, com consequências    importantes em matéria de política externa, um processo que viria a encontrar    a luz do dia no tratado de Lisboa. Este processo implica alterações na gestão    da política externa de todos os estados-membros da UE, mas para a Alemanha em    particular, enquanto candidata a membro permanente do CSNU, colocava-se a questão    de gerir, por um lado, a sua crescente afirmação no palco internacional com    o desenvolvimento de uma abordagem europeia mais integrada, e, por outro, a    percepção por parte de muitos estados-membros da ONU de que havia uma sobrecarga    de presença dos países europeus no Conselho de Segurança. </p>     <p>Com toda a probabilidade, a decisão alemã terá resultado de uma reflexão sobre    estas duas dinâmicas, a da ONU e a da UE. Tratou-se de uma decisão controversa    em Berlim, que suscitou opiniões divergentes entre o Ministério dos negócios    estrangeiros e a chancelaria, acabando por vencer as teses defendidas na chancelaria.    Do lado do <i>AA</i>, o ministério alemão, existia a percepção de que a candidatura    era muito tardia, e que incorria forçosamente em alguns custos, por romper o    <i>clean slate</i>. Havia também consciência de que a anterior presença no CSNU,    ainda muito recentemente, não favorecia a votação na Alemanha, atendendo aos    critérios de rotatividade. Mas, sobretudo, entendia-se que a atitude não podia    ser vista por Portugal e pelo Canadá como um gesto amistoso. Para estes dois    países, as respectivas candidaturas tinham-se tornado de repente muito mais    complicadas, e muito provavelmente uma delas acabaria por ser eliminada no processo    eleitoral.</p>     <p>O certo é que, em Berlim, venceram os argumentos favoráveis à apresentação    de uma candidatura. No caso de ser eleita, a Alemanha destacar-se-ia de outros    países influentes no sistema internacional – como o Canadá –, que tinham uma    tradição de presença regular no CSNU, e demonstrava a sua capacidade de voltar    a marcar presença, apenas seis anos depois de deixar o conselho. No fundo, o    objectivo era mostrar que a Alemanha tinha uma projecção internacional que a    colocava num patamar de influência diferente de outros países (nomeadamente,    os que se reuniam no grupo Uniting for Consensus, o que no caso do WEOG implicava    o Canadá, a Itália, a Espanha e os Países Baixos, e no caso dos outros grupos    regionais, incluía, entre outros, a Argentina, o México, a Coreia do Sul e o    Paquistão). Naquele momento, a chanceler Merkel e os seus conselheiros consideravam    importante afirmar muito claramente as pretensões internacionais da Alemanha.    Não havia muitas dúvidas, nem em Berlim nem em Nova York, de que aquela candidatura    seria vitoriosa. Efectivamente, a Alemanha dispõe de enormes vantagens quanto    aos seus instrumentos de política externa. Possui uma rede diplomática muito    extensa<sup><a name="top5"></a><a href="#5">5</a></sup>, tem relacionamentos    económicos significativos com muitos países em todos os continentes, é o segundo    maior contribuinte em termos de ajuda pública para o desenvolvimento, e é um    dos principais financiadores das actividades das Nações Unidas. É, igualmente,    um país decisivo na UE, o que faz dela um interlocutor privilegiado para todos    aqueles que têm assuntos a negociar com Bruxelas, seja no âmbito do alargamento    ou do relacionamento da UE com outros continentes.</p>     <p>Resumindo, o jogo mudou inteiramente de figura com a decisão alemã. Para a    maioria dos analistas internacionais, a candidatura da Alemanha era de longe    a mais forte, e, de modo geral, os jornalistas e observadores internacionais    que se dedicam à matéria consideravam que a candidatura canadiana tinha mais    possibilidades do que a portuguesa. </p>     <p>Aliás, há fortes indícios de que era também esta a impressão dominante em Otava    e em Berlim, tanto no momento do anúncio da candidatura alemã, como durante    todo o período até à recta final da campanha. Em Lisboa, houve preocupação,    mas havia também consciência de que tínhamos uma rede de relacionamentos e de    cumplicidades que nos davam algum conforto. Sabíamos que o objectivo seria difícil,    mas também que não estávamos derrotados à partida. A nova realidade exigiria    uma reflexão, no devido momento. Porém, no imediato, toda a diplomacia portuguesa    estava concentrada na preparação da presidência da UE no segundo semestre de    2007. Com a reflexão adiada, começaram a ganhar forma os principais argumentos    da candidatura portuguesa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Temáticas e argumentos da campanha portuguesa </b></p>     <p>O processo de formação do voto é diferente para cada país, e se em alguns casos    se trata de uma decisão simples, em função de um só assunto, em muitos outros    casos entra em jogo um complexo conjunto de factores. Existem, por exemplo,    várias temáticas que são autênticas pedras-de-toque para a formação de alguns    votos, como é o caso do processo de paz no Médio oriente, a adopção ou não de    sanções em relação a determinados países, ou a existência de tensões binárias    (Azerbaijão-Arménia, as duas Coreias, etc.). Em certos casos, um voto pode ser    decidido exclusivamente em função da posição dos candidatos relativamente a    estas questões, em outros casos, essa posição fará parte de um cálculo mais    complexo. o que se definiu a esse respeito foi que Portugal não alteraria as    suas posições de princípio em função de tentações eleitorais. Por importante    que fosse a contenda, uma vitória valeria apenas um biénio no Conselho de Segurança,    enquanto que a consistência e a coerência da nossa política externa representam    valores fundamentais de longo prazo. Além do mais, havia a convicção de que    a nossa política externa era geralmente vista como equilibrada, com capacidade    de interlocução e de diálogo, tanto assim que, em diversos casos de conflitualidade    ou tensão internacional, foi-nos possível obter a confiança e o voto de ambas    as partes. Decidiu-se que a campanha deveria envolver um diálogo mais aprofundado    com países por todo o mundo, com o intuito de compreender melhor as dinâmicas    que animam cada estado no seu relacionamento internacional, e em particular    na sua participação na vida da ONU. O objectivo era triplo: construir uma relação    de confiança e demonstrar que Portugal é um país que escuta, antes de tomar    decisões; dar a conhecer as posições portuguesas, em alguns casos explicando    <i>nuances </i>significativas face às posições europeias; e, também, preparar    o terreno para o eventual exercício de responsabilidades no CSNU.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para países mais pequenos, com menor ambição e capacidade de influência no    sistema internacional, a disputa eleitoral entre membros do WEOG pode ser uma    oportunidade para a obtenção de benefícios bilaterais, particularmente através    da ajuda pública ao desenvolvimento (APD). Nesse domínio, sabíamos que não havia    qualquer possibilidade de concorrermos com os nossos rivais. A Alemanha é o    segundo maior doador mundial e contribui para o desenvolvimento de numerosos    países, tendo alguma facilidade em financiar projectos que podem fazer uma grande    diferença para países com uma população de uma ou duas centenas de milhares    de habitantes. o Canadá, não estando na mesma escala que a Alemanha, tem uma    APD que é oito vezes superior à nossa<b><sup><a name="top6"></a><a href="#6">6</a></sup></b>.    Manifestamente, este era um domínio em que partíamos em desvantagem. Importava-nos,    pois, sublinhar que os votos não devem ser «vendidos» desse modo, e sugerir    que os nossos argumentos quanto àquilo que nos propúnhamos fazer no Conselho    de Segurança podiam ser interessantes, independentemente das propostas de novos    projectos de cooperação feitas pelos nossos rivais.</p>     <p>Portugal tinha o mesmo tipo de desvantagem no que diz respeito a relações económicas.    A existência de fortes laços económicos pode ser um factor relevante na formação    do voto, e, no nosso caso, são relativamente poucos os países com quem temos    um relacionamento económico forte, ao contrário do que acontecia com os nossos    concorrentes. Aqui também, nos diálogos que mantínhamos, havia que relativizar    o valor eleitoral desses laços, ao mesmo tempo que se procuravam oportunidades    de reforçar o relacionamento económico entre Portugal e outros países. (aliás,    resultou desta campanha a identificação de um conjunto alargado de oportunidades    e interesses empresariais, ao qual importa agora dar seguimento.)</p>     <p>Quanto às trocas de compromissos eleitorais, e com todas as reservas que é    preciso ter e que já foram referidas acima, o certo é que, em finais de 2006,    aquando da apresentação da candidatura alemã, tanto Portugal como o Canadá dispunham    já de um acervo significativo, acumulado nos vários anos que antecederam a entrada    em cena da Alemanha. Para alguns países, o novo contexto levou à redefinição    de compromissos anteriormente assumidos, mas ficou mesmo assim um importante    lastro favorável a Portugal e ao Canadá.</p>     <p>Se eram estas as condições de base da candidatura portuguesa, com alguns argumentos    fortes e outras tantas vulnerabilidades, o certo é que, a partir daqui, seria    decisivo o desenvolvimento de um argumentário geral e uma metodologia rigorosa    de contactos exaustivos com os estados-membros das Nações Unidas. O argumentário,    cujos principais elementos explicarei de seguida, representa o cruzamento entre    os princípios e interesses nacionais, e o conjunto de temas que poderiam ser    eleitoralmente atraentes, e funcionou como uma espécie de manifesto eleitoral.    Em nenhum caso houve linhas de argumentação que representassem desvios em relação    a posições anteriormente defendidas pela diplomacia portuguesa, mas surgiram    em algumas instâncias questões novas, que não se relacionavam directamente com    interesses portugueses, mas que se identificavam como sendo contributos interessantes,    de que Portugal poderia ser intérprete, a partir do CSNU, em prol do bom funcionamento    do sistema internacional. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>PORTUGAL COMO MEMBRO DO G-172 </p>     <p>Portugal concorria contra dois dos países membros do G7 (mais tarde G8, com    a entrada da Rússia), e que, por inerência, são também membros do G20, que por    sua vez emergiu da grande crise financeira e económica de 2008-2009 e funciona,    para muitas matérias, como um autêntico directório internacional. Se esta realidade    era vista pela generalidade dos observadores como exemplificativa da pujança    das outras duas candidaturas – e da relativa fragilidade da candidatura portuguesa    –, cedo foi entendida por Portugal como uma fileira interessante a explorar.    Com efeito, a esmagadora maioria de países não estão representados no G20: tal    como Portugal, fazem parte do «G172».</p>     <p>Tratando-se de uma eleição para um órgão das nações unidas, o argumento português    ia ao encontro da importância de se manter a relevância e centralidade das nações    unidas num contexto de cristalização de novas formas de gestão da governação    global, de que é exemplo a consolidação do G20. Por altura da segunda cimeira    G20, em Março de 2009, o primeiro-ministro Sócrates escreveu ao Presidente Obama    (enquanto anfitrião dessa cimeira) sublinhando a importância de se criarem mecanismos    de consulta e de inclusividade, através de organizações regionais e outras instituições    internacionais. Cartas semelhantes foram enviadas pelo ministro luís amado a    um conjunto de outros interlocutores internacionais, e esta postura portuguesa    foi divulgada em nova York. Para a cimeira do G20 que se seguiu, em Londres,    Sócrates voltou a escrever ao anfitrião, Gordon Brown, sublinhando a importância    da representação da África no G20. Em 2010, deu-se a coincidência de ser o Canadá    a presidir ao G20, o que era evidentemente entendido pela diplomacia canadiana    como uma forma de demonstrar a influência do seu país. Mas, para Portugal, era    também uma oportunidade de reforçar a nossa linha de argumentação sobre a falta    de representatividade do G20. Na linha das cartas anteriores, Sócrates escreveu    ao primeiro-ministro Harper, apelando à atenção do G20 para as questões africanas,    para a relação entre o combate às alterações climáticas e a promoção do desenvolvimento,    e para a necessidade de se caminhar no sentido de uma regulação financeira internacional    mais transparente, equitativa e previsível. </p>     <p>Em termos pragmáticos, esta postura serviu de exemplo concreto da disponibilidade    de Portugal para dar voz às preocupações de muitos daqueles que não se sentam    à volta da mesa do G20. Em numerosas conversas no âmbito da campanha, foi sublinhada    – frequentemente, de forma espontânea pelos nossos interlocutores – a inconveniência    de se elegerem simultaneamente dois membros G20 para o Conselho de Segurança.    Na prática, a qualidade de membro do «G172», que os outros dois candidatos não    podiam invocar, acabou por ser de grande utilidade para a candidatura portuguesa.    Confrontados com a questão de saber qual dos três candidatos poderia mais fielmente    compreender e transmitir as suas preocupações sobre o funcionamento do sistema    internacional, muitos países olhavam com simpatia para Portugal. Assim, o que    à primeira vista podia parecer uma fragilidade, funcionou afinal como um importante    trunfo.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ROTATIVIDADE </p>     <p>O sentimento de marginalização de muitos pequenos estados em relação às grandes    questões do sistema internacional foi percebido pela diplomacia portuguesa –    em particular, pela missão em Nova York – como tratando-se de um tema que nos    era potencialmente favorável. Um dos argumentos relacionados com esta temática    dizia respeito à necessidade de zelar pela rotatividade nos postos eleitos,    como forma de assegurar a plena e equitativa participação de todos os estados-membros.    Em cada grupo regional existem dinâmicas próprias, mas em todos eles é perceptível    a ideia de que o princípio da igualdade soberana dos estados não se reflecte    na participação no CSNU. Ora, Portugal concorria a um terceiro mandato, enquanto    o Canadá se candidatava a um sétimo mandato e a Alemanha a um quinto mandato    (sexto, se incluirmos a presença da RDA por uma vez), sendo que as duas Alemanhas    apenas entraram nas nações unidas em 1973. Acresce que tanto a Alemanha como    o Canadá faziam referência pública ao seu interesse numa presença frequente    no CSNU, como já se viu, e ambos os países haviam servido no CSNU mais recentemente    do que Portugal. Do ponto de vista da promoção da rotatividade, um princípio    importante para muitos estados-membros, Portugal era claramente o país com os    melhores argumentos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>REPRESENTATIVIDADE </p>     <p>Sendo, sem dúvida, o local onde se tomam as decisões mais difíceis e significativas    de todo o sistema da ONU, o CSNU é também um local pouco acessível para quem    não seja membro permanente ou temporário. Os membros permanentes gozam o privilégio,    outorgado há mais de seis décadas, de terem assento no centro das decisões em    permanência. Aos membros temporários é facultada a cortesia de poderem partilhar    e testemunhar uma parte dessa responsabilidade, por um par de anos<b><sup><a name="top7"></a><a href="#7">7</a></sup></b>.    Ora, nestas circunstâncias, é evidente que há todo o interesse em promover uma    maior circulação de informações e transmissão de ideias entre o conselho e a    assembleia Geral, e quem melhor se posiciona para desempenhar esta tarefa são    os membros eleitos, que se submetem regularmente ao escrutínio eleitoral dos    seus pares. Contudo, é frequentemente criticada, em Nova York, a tendência de    países para «desaparecerem» da Assembleia Geral, uma vez eleitos. Isto é, a    intensidade de reuniões no âmbito do CSNU leva a que, em muitos casos, os recursos    diplomáticos dos membros temporários sejam quase integralmente absorvidos por    esse trabalho, o que os impede assim de participar activamente em outras matérias.    Por conseguinte, tende a haver uma redução dos contactos entre os membros eleitos    e os representantes de outros países, o que não concorre para a boa circulação    de informação, ou para o exercício de uma função de real representatividade    por parte dos eleitos.</p>     <p>A missão em Nova York identificou, certeiramente, este problema como sendo    de potencial interesse eleitoral, além de corresponder a um interesse genérico    português. </p>     <p>Com efeito, já em 1997-1998 Portugal tinha procurado melhorar a transparência    e a circulação de informação, porque o nosso interesse é melhor servido por    um sistema internacional inclusivo, sem que isso se sobreponha à eficácia. Afinal    de contas, os momentos de participação no CSNU são muito excepcionais na política    externa portuguesa, mal seria se os tomássemos como norma.</p>     <p>Em resposta a esta questão, o embaixador Moraes Cabral elaborou uma agenda    de consultas regulares com diferentes agrupamentos de estados, para que a participação    portuguesa no CSNU pudesse ser um factor de intensificação do relacionamento    entre o CSNU e esses estados. Com uma periodicidade mensal indicativa, a ideia    era fazer que estas reuniões funcionassem como um <i>briefing </i>sobre as actividades    e os debates no conselho, e para uma troca de informações e ideias sobre os    temas que previsivelmente estariam sobre a mesa, nos tempos mais próximos. Sendo    uma proposta obviamente benéfica para os participantes nas reuniões, também    apresentava vantagens do lado português, pois permitiria manter um certo grau    de proximidade com as preocupações dos membros do colectivo. Este conhecimento    reforçaria a nossa capacidade de intervenção no conselho. Tratava-se, evidentemente,    de uma proposta que iria consumir uma parte importante do tempo diplomático    disponível, mas era ao mesmo tempo uma forma clara e interessante de sublinharmos    um importante ponto da nossa campanha: Portugal propunha-se ser eleito para    o CSNU, não para promover os seus interesses mais particulares ou imediatos    – não temos sequer a escala ou a força de instrumentos para o fazer –, mas antes    para contribuir para o bom funcionamento do sistema internacional. Nessa matéria    também, a nossa candidatura distinguia-se das demais, de uma forma que era atractiva    para muitos dos nossos interlocutores.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A REFORMA DO CSNU </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A questão da reforma do Conselho de Segurança não estava, nem está, na agenda    internacional imediata, mas há um consenso muito alargado quanto à natureza    anacrónica da actual configuração. Mas, apesar de não ser uma questão da actualidade,    é possível que, no horizonte de dois anos, venham a surgir movimentações no    sentido de uma reforma, e, nesse sentido, era importante que um país candidato    a membro temporário do CSNU tivesse um ponto de vista definido sobre uma eventual    reforma. Aliás, em muitos diálogos bilaterais, esta temática aparecia de uma    forma ou de outra. Não se tratando de uma trave mestra da nossa campanha, havia    um par de pontos que faziam parte do nosso discurso habitual.</p>     <p>Existia, do nosso lado, um reconhecimento implícito (e ocasionalmente, explícito)    de que o impulso reformista de 2005 havia falhado, tendo soçobrado portanto    o movimento G4 que Portugal apoiara na altura, e que, recorde-se, propunha a    atribuição do estatuto de membros permanentes sem direito a veto ao Brasil,    à índia, à Alemanha e ao Japão, bem como a dois representantes do continente    africano. Retirando aquilo que, na perspectiva portuguesa, constituía o essencial    dessa tentativa de reforma, o discurso nacional passou a referir, apenas, que    não se justificava um formato do CSNU que não contasse com o Brasil e a índia    entre os seus membros permanentes, e que não reforçasse a presença da África.    O discurso nacional, mais uma vez, não tinha sido talhado para fins eleitorais,    correspondendo antes àquilo que nos parece mais desejável e razoável em abstracto,    mas a dinâmica da nossa campanha beneficiou, ao pôr de parte os elementos mais    polémicos e problemáticos do movimento G4.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A QUESTÃO EUROPEIA </p>     <p>Isto leva-nos a uma das questões mais frequentemente invocadas, e que constituía    uma linha constante de argumentação por parte do Canadá: o sentimento predominante    na AGNU de que a Europa está sobre-representada nos órgãos das nações unidas,    e em particular no CSNU. Este sentimento está evidentemente radicado na presença    de dois países europeus como membros permanentes, mas tem como corolário a ideia    de que, em caso de escolha, pode fazer sentido optar-se pelo não reforço da    presença europeia, através do voto nos candidatos não europeus do WEOG .</p>     <p>Quanto a este tema, a posição portuguesa tinha de ser defensiva. Não era um    tema da nossa escolha, mas era um tema inevitável, e reflectia um elemento de    vulnerabilidade para as nossas pretensões. O primeiro factor a sublinhar consistia    no facto de a nossa candidatura ser portuguesa e não ser europeia, não reflectindo    portanto qualquer impulso de Bruxelas. Aliás, isto era perfeitamente fácil de    demonstrar, atendendo ao avanço tardio da Alemanha que quebrara o <i>clean slate    </i>e prejudicara a posição portuguesa<b><sup><a name="top8"></a><a href="#8">8</a></sup></b>.    Segundo, havia que explicar claramente que a política externa portuguesa era    concebida em Lisboa, e não em Bruxelas. Sem enjeitar o tratado que tem o nome    da nossa capital, e para o qual a diplomacia portuguesa tanto contribuíra, foi    sistematicamente sublinhado que as características específicas de Portugal não    eram replicáveis por qualquer outro país europeu, e que davam ao nosso país    posições muito próprias, independentemente das posições comuns sobre diversas    matérias. Acima de tudo, foi necessário recordar que a UE contém dentro de si    uma gama alargada de <i>nuances </i>em matérias internacionais, quando não mesmo    divergências profundas em relação a alguns assuntos. No âmbito da campanha,    sublinhámos que, para Portugal, o ponto de partida para a formulação de uma    posição sobre qualquer matéria teria por base um diálogo bilateral com os países    que melhor conheciam o assunto em questão.</p>     <p>Finalmente, fazendo a ligação a um terreno que já nos era bem mais favorável,    a nossa resposta à questão da sobrerrepresentação europeia passava sempre por    uma pergunta sobre se não seria mais nocivo para o sistema internacional que    o CSNU tivesse a presença de mais dois membros do G8 e G20. A conjugação destes    argumentos, associados à especificidade da política externa portuguesa e à nossa    natureza «G172», acabou por reduzir muito significativamente, ou mesmo neutralizar,    o impacto dos argumentos canadianos.</p>     <p>Curiosamente, surgiu a determinada altura uma ideia quanto a uma eventual partilha    de mandato com a Alemanha, algo que seria inédito<b><sup><a name="top9"></a><a href="#9">9</a></sup></b>.    Esta ideia tinha um raciocínio assumido publicamente – tratar-se-ia de uma espécie    de encarnação do «espírito» do tratado de Lisboa – e um raciocínio oculto –    o receio de perdermos a votação. Em qualquer dos casos, a fundamentação era    débil. No que toca à política externa europeia, o Tratado de Lisboa cristaliza    determinados avanços, mas estabelece também os limites admissíveis. Nomeadamente,    ficou assente que, para os estados da UE que tenham assento no CSNU, o Tratado    de Lisboa não põe em causa as responsabilidades que resultam da carta das nações    unidas, o que é uma forma de dizer que os lugares permanentes da França e do    Reino Unido não podem ser contestados<b><sup><a name="top10"></a><a href="#10">10</a>    </sup></b>. Além disso, o Tratado estabelece especificamente que cabe ao alto-comissário    representar a união em matéria de política externa, o que é evidentemente incompatível    com a ideia de ser um ou outro, ou vários estados a desempenharem esta tarefa    em Nova York, numa base <i>ad hoc </i>e voluntarista. A ideia da partilha podia    parecer, à primeira vista, uma proposta simpática numa perspectiva europeísta,    mas dificilmente se pode escapar à conclusão de que não tinha fundamentação    sólida. Quanto à questão da possível derrota eleitoral, é evidente que se tratava    de um risco. Mas o risco era reduzido, nomeadamente, porque a base eleitoral    já era suficientemente sólida para afastar qualquer possibilidade de uma derrota    humilhante. É possível que os defensores desta ideia não tivessem um conhecimento    detalhado da dinâmica da campanha portuguesa no terreno. De qualquer maneira,    perder contra dois pesos-pesados do sistema internacional nunca seria uma desonra    para Portugal. Em outros momentos, países tão influentes como a Suécia ou a    Austrália haviam perdido votações para o CSNU, não deixando por isso de ser    amplamente respeitados. Felizmente, e com naturalidade, esta ideia não teve    ganho de causa.</p>     <p>De resto, conforme se pode ver adiante na análise dos resultados, o facto de    Portugal pertencer à UE não nos beneficiou, sequer, com uma base eleitoral relevante:    o WEOG foi aquele em que obtivemos a pior proporção de votos.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>UM PAÍS CONSTRUTOR DE PONTES </p>     <p>Todos os argumentos da campanha portuguesa – e presume-se que dos nossos adversários    também – concorriam no sentido de diferenciar o nosso país, e de sublinhar aquilo    que podíamos oferecer de específico. No nosso caso, não seria seguramente apoio    material, terreno onde não podíamos concorrer com os nossos rivais, nem benefícios    em termos de negócios, pela mesma razão. Antes, a especificidade da nossa campanha    assentava na ideia de que Portugal é um país cujo interesse fundamental reside    em apoiar o bom funcionamento do sistema internacional, matéria em que já possui    alguma experiência e capacidade para oferecer contributos significativos. A    nossa qualidade de país de dimensão média, em termos das nações unidas, permitia-nos    falar com representantes de países pequenos e médios sobre a especial importância    que tinha, para nós, um sistema internacional funcional e eficaz, baseado em    regras e em princípios. Para muitos países que não estão inseridos em alianças    ou organizações regionais sólidas, como é o nosso caso, esta é a sua principal    linha de defesa, e o discurso português quanto à necessidade de contribuir para    um sistema eficaz, justo e previsível, encontrava receptividade. O segundo elemento    deste discurso residia no argumento de que tínhamos características específicas    que nos ajudavam a desempenhar esse papel.</p>     <p>É extraordinária a actualidade que as grandes navegações dos séculos XV e XVI    ainda têm na imagem de Portugal no mundo. No nosso diálogo com outros países,    particularmente países com quem as relações de outra natureza eram escassas,    tirávamos partido dessa imagem, sublinhando como, na condição de pioneiros da    «primeira globalização», tínhamos aprendido a respeitar e a compreender a diversidade    do mundo. Era esta base, de natureza histórica, mas profundamente embrenhada    na nossa forma de estar na vida internacional, que nos permitia estabelecer    pontos de entendimento com povos e países de todos os continentes. Não somos    dogmáticos, preferindo ouvir a sentenciar, e sabemos que o mundo é quase sempre    demasiado complexo para ser reduzido a um chavão ou palavra de ordem. Por outras    palavras, mesmo que em situações de divergência – e as divergências inevitavelmente    acontecem –, a postura portuguesa em Nova York caracterizou-se sempre por não    querer queimar pontes ou impossibilitar o diálogo em algum momento futuro. Esta    forma de estar, que é antiga e não inventada deliberadamente para a campanha,    representava um trunfo importante. Nunca divergimos do princípio de que não    fazíamos campanha negativa (algo que em si mesmo foi muito apreciado no seio    das Nações Unidas), mas ao sublinharmos este ponto, permitíamos que os interlocutores    tirassem as suas próprias conclusões em comparação com os nossos adversários.</p>     <p>Mas era também importante transmitir a noção de que Portugal não se limitava    a ser um país simpático, disponível para o diálogo e aberto ao mundo. Era também    essencial promover a ideia de que esta simpatia se podia traduzir em resultados    concretos, que por sua vez contribuíam para o bom funcionamento do sistema internacional.    Para isso serviram diversos exemplos recentes de algum sucesso para a diplomacia    portuguesa. Em particular, o facto de a presidência portuguesa da UE ter corrido    bem funcionou como um bom cartão-de-visita, com referências ao tratado de Lisboa,    e, sobretudo, à cimeira UE-África. Para os países africanos, esta última cimeira    deixou uma recordação especialmente grata, devido à forma como correu, e devido    ao simples facto de ter acontecido; foi por diversas vezes referida a ideia    (que não nos teria ficado bem sugerir, mas que não enjeitávamos) de que nenhum    outro país europeu teria conseguido navegar as difíceis águas diplomáticas que    levaram à cimeira. Ora, para nós, este tipo de comentário funcionava como testemunho    da nossa vocação para a construção de pontes, e para a criação de consensos    difíceis. Tipicamente, aproveitávamos este momento de raciocínio para fazer    referência ao papel de Jorge Sampaio como alto-representante das Nações Unidas    para a Aliança das Civilizações, também exemplificativo da importância que Portugal    atribui à redução de tensões internacionais através do diálogo.</p>     <p>Resumindo, uma parte importante do processo da nossa campanha tinha a ver com    esta narrativa, esta imagem de um país cosmopolita, tolerante e dialogante,    seguro da sua condição de país europeu, mas ciente também da riqueza cultural    que lhe advinha de contactos antigos e profundos com todos os outros continentes.    A conquista de simpatias era naturalmente o objectivo, mas havia consciência    de que, por si só, a simpatia é insuficiente para garantir votos; havia que    convencer os interlocutores da capacidade de transformar a simpatia em resultados    diplomáticos eficazes e úteis.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>PÚBLICOS E PLANOS DE ARGUMENTAÇÃO </p>     <p>A campanha para o CSNU decorreu ao longo de vários anos, com interlocutores    de todos os níveis, desde chefes de estado a funcionários de segunda linha das    missões em Nova York. Como é evidente, a abordagem não podia ser igual para    todos, havia que talhar e atalhar, procurando em cada caso os argumentos que    podiam ser mais relevantes ou interessantes, em cada momento. Além disso, houve    também a preocupação de procurar compreender, para cada país, quem eram as pessoas    decisivas para a formação do voto, concentrando, sempre que possível, os nossos    esforços nesses pontos.</p>     <p>Os nossos argumentos relacionados com o funcionamento do CSNU, o compromisso    de realização de consultas regulares ou a preocupação com a transparência dos    métodos de trabalho tinham, naturalmente, muito maior eficácia junto dos representantes    permanentes em nova York. no diálogo que tinha lugar no plano político, entravam    em consideração questões de natureza geopolítica, equilíbrios regionais e locais,    e, em muitos casos, também havia lugar a uma troca de impressões sobre o papel    do CSNU e da ONU na governação global, face ao surgimento do G20 e de outros    processos. Aquilo que procurávamos transmitir sobre as características e qualidades    especificamente portuguesas era sempre útil, qualquer que fosse o nível do diálogo.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ADAPTAÇÕES REGIONAIS </p>     <p>Diferentes grupos regionais têm, naturalmente, perspectivas e preocupações    diversas, e, no âmbito das nossas discussões – que procurávamos que fossem sempre    biunívocas –, havia naturalmente o cuidado de dar atenção aos assuntos que,    para os nossos interlocutores, eram de importância primordial. Convém, também,    ter presente que, apesar do exercício do voto ser um acto solitário, criam-se    por vezes dinâmicas de grupo muito importantes, e do nosso lado olhávamos para    essas dinâmicas como uma das chaves para atrair os votos de países com quem    o diálogo era distante ou difícil. Assim, para além dos temas genéricos e constantes    já aqui referidos, surgiram diversas temáticas de interesse apenas para determinados    grupos de estados. É importante registar essas variações regionais, até porque    a forma com que cuidamos de corresponder e dar sequência à nossa campanha reflectir-se-á    na apreciação que é feita da nossa passagem pelo CSNU e, por conseguinte, na    aferição da nossa fiabilidade enquanto parceiros. Vale a pena fazer uma breve    referência aos diálogos mantidos com os países do Pacífico, Caraíbas, África,    liga árabe e organização da Conferência Islâmica.</p>     <p>Os estados insulares do Pacífico são demasiado pequenos e marginais no sistema    internacional para terem posições fortes sobre as grandes dinâmicas geopolíticas.    Com o grupo do Pacífico, os dois principais pontos de conversa eram as alterações    climáticas e as questões relacionadas com o mar. Com efeito, as alterações climáticas    representam para alguns desses países, como Kiribati ou Nauru, autênticos desafios    existenciais. se continuar a registar-se uma subida do nível do mar, numerosas    ilhas ficarão submersas, fazendo deste assunto uma questão de centralidade dramática.    O processo de discussão, na senda da ideia de procurar melhorar o funcionamento    do sistema internacional e a correspondência entre os assuntos tratados no CSNU    e os perigos reais com que os estados se confrontam, levou a que assumíssemos    o compromisso de explorar formas de colocar este assunto na mesa do Conselho    de Segurança. Evidentemente que não se trata aqui de propor que as negociações    internacionais sobre o clima passem a correr pelo CSNU, mas antes de levar o    CSNU a debruçar-se sobre aspectos especificamente relacionados com segurança.    A questão das alterações climáticas não tem estado de todo presente na agenda    do CSNU, à excepção de um único debate organizado pelo reino unido sobre o assunto.</p>     <p>O outro ponto interessante para o Pacífico dizia respeito ao mar, e às possibilidades    de colaboração técnica e política em assuntos relacionados com a extensão da    plataforma continental. Aqui, não se trata de uma matéria directamente relacionada    com o CSNU, mas antes de um assunto que é de grande interesse mútuo e, mais    uma vez, matéria em que a posição portuguesa se diferencia da concorrência,    de uma maneira muito apreciada por este conjunto de países. Por fim, toda a    argumentação portuguesa sobre a necessidade de um sistema internacional inclusivo,    e as referências à nossa dimensão de país médio e à nossa abertura e disponibilidade    para o diálogo, concorreram para a criação de um relacionamento muito favorável    com os países do Pacífico. Cabe aqui uma referência à importância do diálogo    através do agrupamento PSIS (Pacific Small Island States), cuja presidente,    a representante permanente do Nauru, concluiu que a nossa candidatura era a    que abria perspectivas mais interessantes para o Pacífico, favorecendo por conseguinte    as nossas acções de campanha. </p>     <p>Nas Caraíbas, a questão das alterações climáticas era também fundamental, à    semelhança de outras «ameaças não tradicionais», como o narcotráfico e o tráfico    de armas. Naquela região, as alterações climáticas manifestam-se, sobretudo,    através de fenómenos meteorológicos mais acentuados e violentos, com consequências    graves em termos de segurança humana. a ideia de encontrar uma forma de tratar    estes temas no CSNU representava uma prioridade para as Caraíbas. Quanto às    ameaças não tradicionais, foi possível partilhar com os países caribenhos a    nossa experiência na África Ocidental, fruto da atenção que temos dedicado à    Guiné-Bissau, permitindo concluir que há uma evolução necessária no tratamento    destas questões, que passa por privilegiar em primeiro lugar um enquadramento    regional. Uma característica destas ameaças é o facto de prosperarem a partir    da fragilidade das instituições estatais, e funcionarem numa lógica regional.    As respostas da comunidade internacional ainda são essencialmente desenvolvidas    com um olhar individual sobre cada país, algo que é um arcaísmo num contexto    em rápida mutação. a representante permanente da Grenada presidia à AOSIS (Alliance    of Small Island States), um agrupamento influente que engloba a PSIS, os países    das Caraíbas, e ainda estados insulares do atlântico e do Índico. Foi possível    estabelecer com ela uma relação profícua, que se materializou em diversos momentos    de diálogo e de campanha.</p>     <p>Tanto nas Caraíbas como no Pacífico, ou ainda no diálogo com outros estados    de menor dimensão ou influência política, era sublinhado um argumento que terá    pesado a nosso favor: a nossa acessibilidade enquanto interlocutores, que se    manteria no caso de ser, mos eleitos para o Conselho de Segurança. Associando    ao argumento sobre a nossa pertença ao «G172», e sobretudo para melhor ilustrarmos    uma certa forma de estarmos na vida internacional, procurávamos sublinhar o    facto de a nossa postura oferecer garantias interessantes para o «eleitorado».    Mais uma vez, imperava a regra de nunca fazer campanha negativa, embora o argumento    contivesse uma comparação implícita com a postura dos nossos rivais, comparação    essa que nos beneficiava.</p>     <p>No continente africano, sentíamos um forte apoio, que apesar de não ser unânime    sabíamos que podia ser decisivo. Mais de um quarto dos votos na assembleia Geral    provém de África, e a nossa proximidade a esse continente constituía um importante    trunfo eleitoral. No entanto, os cinquenta e três países africanos constituíam    um grupo demasiado grande para ser objecto de uma abordagem comum e homogénea<a name="top11"></a><b><sup><a href="#11">11</a></sup></b>.    Sabíamos que era fundamental falar a diversos subgrupos individualmente, em    almoços com seis ou oito embaixadores. Foi o que aconteceu com a África Ocidental,    austral e central, e, ainda, com os países francófonos. Outros representantes    permanentes foram envolvidos em momentos diversos. Os temas de importância específica    para a campanha junto de representantes africanos tinham a ver, naturalmente,    com a necessidade de se melhorar a representação da África no CSNU e, sobretudo,    com o facto de mais de dois terços do trabalho do CSNU se centrarem no continente    africano. A este respeito, reiterámos o nosso compromisso de consultar, em primeiro    lugar, aqueles que melhor conhecem as situações que vierem a apresentar-se à    mesa do CSNU, isto é, os países africanos, e de contribuirmos para reforçar    o relacionamento entre o CSNU e a união africana (UA). Mas, mais do que qualquer    outra coisa, importava-nos recordar os nossos pergaminhos na promoção de causas    africanas, algo que era um ponto forte da nossa campanha.</p>     <p>A Liga Árabe, com os seus 22 membros, constituía também terreno fértil para    a candidatura portuguesa. Portugal sublinhava a sua vocação para o diálogo internacional    como uma particularidade da candidatura, e referíamos a nossa convicção de que    não é possível trazer paz e estabilidade ao Médio oriente sem uma solução justa    para o povo palestiniano, o que terá seguramente de passar pela criação de um    estado palestino, no momento certo. Entre os países árabes, havia a convicção    consensual de que, em matéria de Médio oriente, a posição portuguesa era a mais    equilibrada e sensível, e também aquela que oferecia melhores perspectivas de    diálogo e de abertura. a dinâmica de grupo pareceu-nos particularmente forte    entre os membros da liga árabe, e isto acabou por se traduzir num apoio extremamente    abrangente, mas que não terá sido unânime.</p>     <p>Finalmente, uma referência à Organização da Conferência Islâmica (OCI). Reunindo    57 países em quatro continentes, a OCI é uma instituição muito diversificada,    mas há dois temas que constituem uma preocupação comum, sem que isso implique    naturalmente uma unicidade de abordagem: a questão da Palestina, e a ideia de    descriminação ocidental contra o islão e os países islâmicos. A nossa posição    sobre a Palestina, de compromisso com uma solução justa e duradoura, em que    os direitos dos palestinianos sejam plenamente respeitados, com dois estados    a viverem lado a lado, é uma posição que nos permite algum conforto, particularmente    por ser entendida como bem ancorada em princípios universais. Na outra questão,    a nossa candidatura tinha também bons pergaminhos, que fizemos questão de sublinhar:    uma experiência histórica de convivência com o islão, que é uma componente essencial    da nossa própria identidade, e uma procura de formas de diálogo que permitam    atenuar o grau de tensão e conflitualidade entre o ocidente e os países muçulmanos,    especialmente desde os ataques de 11 de Setembro. Mais uma vez, as referências    ao papel de Jorge Sampaio revertiam a nosso favor.</p>     <p>Diz-se que, ao ser eleito, a primeira obrigação de um Papa é esquecer as promessas    que fez aos bispos. A <i>boutade </i>não se aplica à nossa campanha. Desde logo,    porque assenta na presunção de que a campanha levou ao desenvolvimento de promessas    que, de alguma forma, podem ser custosas ou difíceis de manter; pelo contrário,    a nossa campanha representou a aplicação, a um conjunto de temas internacionais,    dos nossos princípios e orientações de fundo. Sem dúvida que isto levou à identificação    de algumas matérias que, de outro modo, poderiam não estar no radar imediato    da política externa portuguesa, mas esse facto deve ser visto com naturalidade,    porque o lugar no CSNU não faz parte das nossas responsabilidades habituais    e, ao sermos eleitos, temos oportunidades novas que devem sempre encaixar no    nosso objectivo de contribuir para o bom funcionamento do sistema internacional.    E há outra consideração fundamental: o Papa, quando eleito, permanece nessa    condição para o resto da vida; no nosso caso, serão dois curtos anos, e a nossa    credibilidade na ONU dependerá em boa medida do seguimento que soubermos dar    aos nossos compromissos de campanha.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>A estratégia da campanha </b></p>     <p>Os temas da campanha portuguesa ganharam forma com alguma facilidade, o que    é reflexo de uma política externa muito estruturada, consolidada ao longo dos    anos, e de um corpo diplomático experiente e de elevada qualidade. Conforme    já vimos, no período inicial, a candidatura foi tratada dentro de uma normalidade    administrativa. Isto é, os serviços do ministério colocavam o assunto no âmbito    dos diálogos com as suas contrapartes de outros países, contrapunham a nossa    candidatura quando abordados com pedidos de apoio para candidaturas internacionais,    desenvolviam propostas de trocas de apoios com outros países e acompanhavam    os desenvolvimentos relevantes para a nossa posição. Os actores principais deste    processo eram os serviços centrais em Lisboa (DGPE e DGATE) e a missão em Nova    York. Esta fase mais rotineira do processo terminou por altura da nossa presidência    da UE, no segundo semestre de 2007, quando quase toda a diplomacia portuguesa    se concentrou nessa tarefa.</p>     <p>A primeira metade de 2008 voltou a ser um momento propício para nos virarmos    para a candidatura, já confortados pelo facto de a presidência da UE ter corrido    muito bem, o que em si mesmo fornecia boas indicações para a nossa campanha.    A partir desse momento, a campanha passou a funcionar a três registos, com algum    grau de coordenação, mas, sobretudo, com elevada coerência na transmissão de    mensagens: a partir da missão em Nova York, a partir de Lisboa, sobretudo na    gestão dos compromissos de trocas de apoios, e no plano dos contactos políticos.    Ao longo dos meses que se seguiram até Outubro de 2010, a tendência foi para,    na sua essência, a campanha se jogar entre Nova York e o plano político. Com    efeito, dependendo dos países, importava assegurar o apoio dos representantes    permanentes em Nova York e dos decisores políticos nas respectivas capitais.    Para o primeiro, o trabalho fundamental pertencia à missão, apoiada sempre que    possível por visitas políticas a Nova York. Para o segundo, o método mais eficaz    passava por uma visita política à capital em questão, ou contactos à margem    de reuniões internacionais. Nos casos em que não era possível efectuar uma visita    a nível político, utilizaram-se enviados especiais. Em Lisboa, realizavam-se    reuniões ocasionais, presididas pelo ministro ou, quando ele não tinha disponibilidade,    por mim próprio, com o intuito de fazermos o ponto da situação e identificarmos    países necessitados de algum esforço especial. Não houve nenhum investimento    suplementar significativo do lado dos serviços – a exiguidade dos recursos humanos    não o permitia –, excepto aquele que resultou das horas acrescidas de trabalho    de um pequeno conjunto de funcionários dedicados.</p>     <p>Em Nova York, o trabalho da missão foi extraordinariamente intenso e disciplinado,    aproveitando-se todas as oportunidades não apenas para fazer referência directa    à campanha, mas também para demonstrar de forma prática a nossa vocação para    forjar pontes. Sobretudo, foi possível, com raras excepções, criar laços de    confiança com a generalidade dos representantes permanentes de outros países,    um elemento essencial do trabalho diplomático, mas que se revestia neste caso    de uma urgência e de uma objectividade muito claras.</p>     <p>Por outro lado, ao longo de cerca de dois anos, mas com grande intensidade    no último ano, a equipa do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) – o ministro    Luís Amado, eu próprio, os secretários de Estado Pedro Lourtie e a sua antecessora    Teresa Ribeiro, e em duas ou três ocasiões, também o secretário de Estado António    Braga – fez deslocações especificamente para solicitar o voto para o CSNU. Seguindo    orientações do MNE, outros membros do Governo também aproveitaram deslocações    para fazer diligências semelhantes, sempre que possível. Desta forma, pudemos    realizar visitas de nível político a entre 80 e 90 países, onde expressamente    se pediu o apoio para a candidatura portuguesa. Ainda a nível político, houve    cerca de 40 outros países com quem mantivemos reuniões bilaterais neste período,    nuns casos através de visitas a Lisboa, normalmente de ministros dos negócios    estrangeiros, noutros através de reuniões à margem de conferências ou cimeiras    internacionais. Finalmente, realizaram-se diversas missões de enviados especiais,    entre as quais valerá a pena sublinhar as missões do embaixador Pedro Catarino    (ele próprio protagonista da notável campanha que nos levou ao CSNU, em 1997-1998)    a 12 países do Pacífico, e a vários países asiáticos, do embaixador Tadeu Soares    ao Cáucaso, do embaixador João Mira Gomes às Caraíbas, e do embaixador Luís    de Barros e do Dr. Pedro Costa Pereira, nestes dois últimos casos a países da    América Central. Muitas vezes, os emissários eram portadores de cartas do Presidente    da república ou do primeiro-ministro dirigidas aos respectivos homólogos.</p>     <p>A campanha incluiu, também, a nossa presença frequente em cimeiras regionais,    excelentes ocasiões para manter contactos directos com chefes de estado e de    governo ou ministros dos Negócios Estrangeiros, para além de serem um momento    privilegiado para compreendermos melhor algumas dinâmicas regionais que não    constam do roteiro quotidiano da diplomacia portuguesa. No que toca à UA, a    presença portuguesa foi uma constante desde 2005. Realizando-se duas vezes por    ano, houve sempre um membro do Governo português presente em 12 cimeiras consecutivas    da UA, seis das vezes o ministro Luís Amado, as outras seis eu próprio. Em bastantes    casos, Portugal foi o único país não africano representado politicamente. Como    é óbvio, este registo nada tem a ver com a presença de representantes dos países    concorrentes apenas no último ano. Portugal marcou também presença, a nível    político, nas cimeiras do PIF (Pacific Island Forum) em dois anos consecutivos,    através da secretária de estado Teresa Ribeiro, em Cairns, em 2009, e comigo,    no Vanuatu, em 2010. Estivemos, igualmente, presentes por duas vezes consecutivas    na cimeira do Caricom (António Braga em 2009, eu próprio em 2010), e José Sócrates    e Luís Amado participaram num conjunto de eventos entre a UE e grupos regionais    como a ASEAN ou a América Latina e Caraíbas. Tudo somado, a política externa    portuguesa fez um enorme esforço de presença e de visibilidade, criando um clima    propício ao diálogo bilateral e desenvolvendo uma familiaridade pessoal com    os decisores políticos de outras regiões.</p>     <p>Obviamente que as circunstâncias económicas do País em 2009 e 2010 não permitiam    uma campanha dispendiosa. Com um orçamento inicial de 1,5 milhões de euros,    mas com instruções para conter ao máximo os custos, a despesa total da campanha    acabou por ficar na casa de um milhão de euros. No que diz respeito à parte    financeira, a principal aposta da campanha centrou-se na realização em Portugal    de um conjunto de seminários, com temáticas relevantes para o CSNU ou para a    imagem de Portugal, dirigidos aos representantes permanentes em Nova York. Organizados    pela nossa missão em nova York, que tratou de identificar os temas e os convidados,    os seminários trataram de: «reforma dos Métodos de trabalho do Conselho de Segurança»    (Estoril, Abril de 2010); «energias renováveis e alterações climáticas» (Porto,    Junho de 2010); e «Manutenção e consolidação da Paz» (cascais, Julho de 2010).    Os seminários permitiram debater aprofundadamente os temas escolhidos, num ambiente    agradável, sem fazer referência explícita ou pesada à nossa candidatura. No    caso dos dois seminários realizados na região de Lisboa, os embaixadores foram    recebidos pelo Presidente da república em Belém, e houve sempre jantares formais,    nestes dois casos oferecidos pelo ministro no Palácio das necessidades, no outro    caso oferecido por mim no Palácio da Bolsa do Porto. Para além destes seminários    para diplomatas, organizou-se também um seminário técnico, recorrendo ao apoio    do Ministério da Defesa, sobre questões relacionadas com a extensão da plataforma    continental, um assunto que é da maior importância para Portugal e para muitos    outros países, como forma de prestar assistência a nações com menos recursos    neste domínio. Finalmente, realizou-se também uma iniciativa sobre turismo em    que foi possível dar a conhecer e partilhar a experiência portuguesa com representantes    de países interessados nesta temática. Em suma, creio que é possível dizer que    houve um retorno significativo deste investimento em <i>soft power</i>, nomeadamente    porque cada exercício foi bem pensado e estruturado, e impecavelmente executado,    confirmando a notável capacidade de que Portugal dá mostras na organização de    eventos internacionais. </p>     <p>Há uma outra iniciativa que merece referência, e que poderá ter rendido algum    apoio para o CSNU, muito embora tenha um elevado valor intrínseco, pelo que    deverá ser repetido, sempre que financeiramente possível: o curso de formação    para jovens diplomatas estrangeiros que se realizou ao longo de doze semanas,    na Primavera de 2010. Idealizado a partir de uma conversa que tive com o ministro    dos negócios estrangeiros do Lesoto, o curso trouxe a Lisboa 28 jovens diplomatas    de países com quem temos relações menos intensas: do próprio Lesoto ao Uzbequistão,    da Micronésia à Geórgia ou ao Botswana. De manhã, os jovens diplomatas tinham    aulas de formação diplomática (em inglês), em alguns casos em comum com jovens    diplomatas portugueses; à tarde, tinham três horas de língua portuguesa. A importância    desta experiência – intensa – no início de uma carreira diplomática que, em    princípio, durará várias décadas, não deve ser subestimada, e não duvido que    terá reverberações favoráveis para Portugal ao logo desse tempo. E para os países    beneficiados, que na grande maioria dos casos têm dificuldades na formação adequada    do seu corpo diplomático, a iniciativa foi obviamente entendida como um gesto    muito amigo da nossa parte. </p>     <p>O último evento aproveitado pela nossa campanha teve lugar já no início de    Outubro, depois da intensíssima abertura da assembleia Geral<a name="top12"></a><b><sup><a href="#12">12</a></sup></b>,    e poucos dias antes da votação, com a realização em Lisboa da conferência ministerial    dos Países Menos Avançados. Este evento, que trouxe a Portugal ministros e representantes    permanentes em Nova York de cerca de três dezenas e meia de países, tinha como    objectivo debater alguns dos temas de maior importância para esses países, e    foi um êxito no sentido de ter permitido debates muito úteis, na preparação    de uma cimeira que se realizará em Istambul, em Maio-Junho de 2011. Mas é evidente    que o simples facto de se realizar em Lisboa permitiu chamar a atenção de um    importante conjunto de decisores para a campanha portuguesa. À margem deste    evento, realizaram-se várias reuniões ou conversas bilaterais, em alguns casos    derradeiros esforços de persuasão, em outros, momentos de verificação ou calibragem    das posições dos interlocutores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quanto à actividade em Nova York, verdadeiro epicentro da campanha, pode dizer-se    que, durante vários anos, toda a actividade da missão tinha como pano de fundo    o objectivo de obter o lugar no CSNU. O embaixador Moraes Cabral expôs as nossas    posições a 188 colegas<a name="top13"></a><b><sup><a href="#13">13</a></sup></b>;    este trabalho tinha lugar em visitas de cortesia ou de trabalho aos colegas,    em almoços a sós ou em pequenos grupos, em jantares e recepções sociais, enfim,    em todas as oportunidades que se apresentassem. Os outros elementos da missão,    cada um a seu nível, faziam o mesmo, o que permitia cruzar informações e conhecer    mais rigorosamente o raciocínio e as tendências de voto de cada país.</p>     <p>Já assinalámos que, em muitos casos, talvez um terço do total, é em Nova York    que se formam as decisões de voto, sendo portanto fundamental a presença e a    visibilidade na sede das nações unidas. A própria missão assegurou este trabalho    ao longo de vários anos, com particular intensidade nos últimos dois. Mas era    essencial reforçar esta presença quotidiana do embaixador e demais diplomatas    em Nova York, com frequentes visitas políticas de Lisboa. Assim, a presença    do ministro nas Assembleias Gerais, e em Junho de 2010 para um conjunto de contactos    bilaterais com representantes permanentes, foi importante para demonstrar que    a missão tinha todo o apoio da capital. e no meu caso, fiz visitas a Nova York,    directamente relacionadas com a campanha, em Junho e Setembro de 2009, e em    Março, Maio, Junho, Setembro e Outubro de 2010, normalmente participando em    algum evento ao qual queríamos dar destaque, e aproveitando para reuniões de    trabalho ou conversas mais descontraídas e em formato social com representantes    permanentes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A CONTABILIZAÇÃO DOS APOIOS </p>     <p>Ao longo de todo este período, a nossa candidatura desenvolveu três formas    de contabilização dos votos, que ocasionalmente se comparavam, e que ofereciam    diferentes ângulos de visão. A primeira, mais tradicional, era a contabilidade    dos serviços do MNE, que se baseava nos apoios formalmente comprometidos através    de notas verbais ou cartas. Este sistema dividia os países em cinco categorias:    os que tinham manifestado apoio por escrito, os que tinham dado «apoio verbal»,    as predisposições favoráveis, os que não apoiavam, e os que não tinham ainda    decidido um sentido de voto (ou esse sentido era desconhecido para nós). Apesar    da lógica formal impecável, no caso de um voto secreto este sistema acaba por    ser um pobre avaliador das tendências de voto. Sabemos bem que há muitos países    que prometem o apoio aos três candidatos, mesmo por escrito, baseando-se no    pressuposto mais do que razoável de que as candidaturas não partilham estas    informações entre si. Além disso, há indícios claros de que houve um aumento    grande, nos últimos quinze ou vinte anos, da mendicidade diplomática nos votos    para o CSNU. Este método tinha, no entanto, uma vantagem: permitia comparar    a situação da nossa campanha com o momento equivalente da nossa anterior campanha.</p>     <p>A segunda forma de cálculo foi elaborada por mim e actualizada permanentemente    no meu gabinete. Partindo do princípio de que, antes do depósito do voto nas    urnas, temos apenas probabilidades de voto, atribuiu-se a cada país uma pontuação    de zero a cinco, dependendo daquilo que considerávamos ser a probabilidade de    virmos a receber efectivamente o voto desse país. Pontuando de forma conservadora,    apenas atribuímos cinco pontos quando havia certezas absolutas – os países da    CPLP, por exemplo. Quatro pontos significava que havia uma forte probabilidade    de voto em nós, três indicava um certo grau de confiança mas insuficiente solidez,    dois pontos sugeria que no estado actual o voto poderia escapar-nos mas não    era inacessível; uma pontuação de um representava fortes dúvidas sobre a probabilidade    de voto na nossa candidatura, e um zero traduzia esperanças nulas de obter o    apoio desse país. Transformando a pontuação em ponderações de voto, obtinha-se    um resultado global. Para a atribuição das pontuações, utilizava-se toda a informação    disponível: as discussões entre representantes políticos e diplomáticos; o raciocínio    sobre as motivações estratégicas ou políticas de cada país; o acolhimento que    imaginávamos para os nossos temas de campanha; a existência ou não de relacionamentos    pessoais relevantes; enfim, tudo aquilo que nos parecia subjectivamente significativo    para o efeito.</p>     <p>Por fim, o embaixador Moraes Cabral, em nova York, desenvolveu a sua própria    contabilidade, baseado no conhecimento pessoal que ele tinha de cada representante    permanente, ou seja, das pessoas que têm a responsabilidade de depositar o voto    na urna. Este conhecimento permitia identificar alguns casos em que sabíamos    poder contar com o voto, independentemente das instruções da capital, e também    desconfiar de alguns casos em que o apoio da capital parecia seguro a nosso    favor. Em qualquer um dos casos, a actualização que ia sendo feita permitia    um acompanhamento da evolução da candidatura. Nenhum dos métodos era perfeito    – embora me pareça, naturalmente, que a minha metodologia era a mais adequada,    dependendo apenas da qualidade da informação utilizada para atribuir as pontuações.    De qualquer dos modos, a comparação ocasional entre as três formas de cálculo    permitia ver que a evolução ia sempre no mesmo sentido, o que dava algum conforto    quanto à fiabilidade dos nossos conhecimentos, e os números globais não eram    muito diferentes, muito embora houvesse algumas divergências significativas    quanto aos apoios individualmente considerados.</p>     <p>Ao terminar esta secção sobre a estratégia da campanha, devo realçar um factor    que os diplomatas conhecem bem, e que a análise da anterior campanha permitiu    identificar como fulcral: a importância dos relacionamentos pessoais na criação    de laços de confiança. São esses laços que dão credibilidade aos nossos argumentos    de campanha, evitando que sejam entendidos como simples propaganda interesseira.    A confiança pessoal exige, evidentemente, um investimento grande em termos de    tempo, energia e disponibilidade pessoal, seja da parte da missão em nova York,    seja no plano político. Houve a este respeito um trabalho consciente e objectivo    ao longo de vários anos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A importância dos aliados activos </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por razões já exploradas em secções anteriores deste texto, acredito que Portugal    gozava de grande credibilidade diplomática, e tinha argumentos interessantes    e ponderosos para arregimentar votos. Mas a nossa candidatura era também vulnerável,    nomeadamente porque a nossa concorrência dispunha de certos instrumentos de    política externa com os quais não podíamos concorrer. Para neutralizar essa    vulnerabilidade, percebemos que era possível pôr em campo uma estratégia de    valorização de relacionamentos especiais com um conjunto de países que se dispunham    não apenas a votar por nós, mas a fazer campanha activa. Nenhum dos nossos rivais    podia pôr em campo uma aliança activa comparável com aquela que nós mobilizámos.    Aliás, são poucos os países que teriam a capacidade de o fazer. Vale a pena    referir alguns desses nossos aliados, sendo que para cada um havia naturalmente    um raciocínio próprio que os levou a contribuir para a nossa campanha. </p>     <p>Comecemos pela CPLP. Demos por adquirido, à partida, o apoio eleitoral dos    sete outros países membros, mas na realidade a importância da CPLP ultrapassou    largamente esse conjunto de votos. A concertação diplomática é um dos pilares    originários da CPLP, e todos os membros da organização acolheram de forma entusiástica    a nossa candidatura. Com a maturidade que tem hoje a CPLP, e o sentimento de    cumplicidade que une os seus representantes diplomáticos e políticos, a verdade    é que ela contém uma capacidade de mobilização em torno de objectivos diplomáticos    comuns que é muito superior à das outras comunidades linguísticas, a Commonwealth    e a Francofonia. Através da CPLP, Portugal passou a dispor de informação privilegiada,    complementar à nossa, sobre o estado de espírito eleitoral de muitos países    africanos, asiáticos, latino-americanos, do Pacífico e das Caraíbas. O valor    estratégico destas informações foi imenso. A nosso pedido, à medida que identificávamos    necessidades específicas, houve numerosas diligências, algumas diplomáticas    outras políticas (incluindo a nível de chefe de estado), a sugerir o voto na    nossa candidatura. Foi também notório que podíamos sempre contar com intervenções    favoráveis de representantes da CPLP, quando organizávamos eventos temáticos    ou regionais. A título de exemplo, recordo-me do impacto que tiveram as palavras    do vice-primeiro-ministro timorense, José luís Guterres, que estava de passagem    por Nova York e que participou num almoço que fizemos em Junho de 2009 com representantes    de países do Pacífico. Guterres explicou, dando o exemplo da luta pela independência    de Timor Leste, que Portugal era um país que não abdicava dos seus princípios    e que não faltava à sua palavra. Esse testemunho de um distinto representante    da própria região teve um efeito que nós nunca alcançaríamos falando em causa    própria. E outras vozes da CPLP fizeram o mesmo em múltiplas ocasiões. A CPLP    não valeu apenas os oito votos dos seus membros; terá valido qualquer coisa    como quinze a vinte votos, prova evidente da relevância prática da tal concertação    diplomática de que falam os estatutos.</p>     <p>Em diversas regiões do mundo, tivemos a felicidade de poder contar com apoios    muito activos e mobilizadores, envolvendo em alguns casos representantes permanentes    em Nova York, muito activos e prestigiados entre os seus pares. Em reconhecimento    do nosso apoio pela sua candidatura a membro permanente do CSNU, a índia promoveu    a nossa candidatura de forma entusiástica, exercendo influência sobre alguns    países da sua região. Mas a influência da índia não se esgota na Ásia do sul;    trata-se de um dos países mais activos do Movimento dos não-alinhados e do G77,    agrupamentos que são de importância estratégica para qualquer candidato ao CSNU.    A Turquia, com quem temos um excelente entendimento político e diplomático,    foi igualmente generosa em relação à candidatura portuguesa, utilizando a sua    capacidade de persuasão no Cáucaso, nos países de língua túrquica, e entre os    países muçulmanos. A Espanha apoiou igualmente a nossa candidatura na América    Latina (tal como o Brasil), uma região onde aliás dispúnhamos já de bastantes    apoios por via dos contactos com a comunidade ibero-americana, sem desprimor    para a utilidade destes apoios. Outro país muito influente, e que prestou um    grande serviço à candidatura portuguesa, foi o Egipto, voz amiga e activa na    liga árabe e no G77. Nas organizações multilaterais, contámos com o envolvimento    directo e militante a nosso favor de Amr Moussa e de Jean Ping, à frente da    liga árabe e da UA, respectivamente.</p>     <p>Talvez mais inesperadamente, encontrámos aliados regionais no Pacífico e nas    Caraíbas que foram imensamente úteis. No Pacífico, dois países exerceram uma    influência decisiva a nosso favor: Timor Leste e Nauru. O primeiro caso não    requer explicação; já o segundo, relaciona-se com a centralidade do Nauru como    presidente dos PSIS, como já foi referido. Os países do Pacífico são muito pequenos,    e sentem-se marginalizados do sistema internacional. Enquanto presidente do    grupo, a representante permanente do Nauru revia-se nos nossos argumentos quanto    à importância de dar voz ao «G172» e quanto às possibilidades de colocar o CSNU    a trabalhar sobre as implicações do fenómeno das alterações climáticas ao nível    da Segurança. Por outro lado, era persuasivo o nosso argumento (que traçava    uma comparação implícita – nunca explícita – com os outros candidatos) de que    a nossa porta estaria sempre aberta, o nosso ouvido sempre disponível, porque,    por mais pequenos que sejam, todos os países são iguais na sua dignidade soberana.    Em Agosto de 2009, e em Agosto e Setembro de 2010, houve reuniões com o ministro    dos negócios estrangeiros do Nauru<a name="top14"></a><b><sup><a href="#14">14</a>    </sup></b>, que produziram um bom entendimento, dando respaldo político à representante    permanente. Mas foi, sobretudo, devido à personalidade dela e ao relacionamento    estabelecido com o embaixador Moraes Cabral que foi possível trabalhar de forma    intensa com o Nauru, mobilizando os estados do Pacífico em torno da nossa candidatura.</p>     <p>Nas Caraíbas, a nossa posição de partida era muito difícil. O Canadá tem uma    relação muito forte com grande parte dos países caribenhos através de laços    culturais, uma grande influência económica e importantes actividades de cooperação.    Quanto à Alemanha, a pujança dos seus instrumentos económicos marcava a diferença    com Portugal. Contudo, um factor fortuito deu-nos um aliado activo e influente:    são Vicente e Grenadinas. De ascendência portuguesa, o primeiro-ministro Ralph    Gonsalves estabeleceu uma boa relação com José Sócrates, tendo feito uma visita    oficial a Lisboa e à Madeira, donde provinham os seus antepassados. Sendo importantes,    a ascendência e o relacionamento pessoal não bastavam por si só para justificar    o voto desse país, muito menos o seu envolvimento activo na campanha. Mais uma    vez, os nossos argumentos de substância foram decisivos, e a personalidade militante    de Ralph Gonsalves (que é muito influente na sua região) fez o resto. Não sendo    fácil contabilizar os votos nesta região, este apoio pode ter valido diversos    votos entre os países da OECS (Organization of Eastern Caribbean States).</p>     <p>Não se esgotam aqui os países que apoiaram activamente a nossa campanha, mas    estes foram sem dúvida os mais influentes e activos. Em última análise, uma    campanha para o CSNU é sempre um exercício solitário, em que um país sabe que    depende sobretudo de si próprio. Mas o desenvolvimento de um conjunto de âncoras    regionais, aliados activos e militantes pela nossa causa foi, sem qualquer dúvida,    um factor decisivo para o sucesso da nossa candidatura. E vale a pena tomar    nota desta realidade para outros efeitos da nossa política externa: Portugal    tem uma capacidade muito rara de estabelecer entendimentos frutuosos e de grande    intensidade com países em outras partes do mundo, e se é certo que esta capacidade    se radica nas particularidades da nossa história, é também o caso que ela se    tornou muito mais operacional nestes últimos anos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A votação e a análise dos resultados </b></p>     <p>A VOTAÇÃO </p>     <p>Ao entrar no edifício das Nações Unidas, na manhã de 12 de Outubro, eu sentia    que havia boas razões para estarmos confiantes, um sentimento partilhado por    todos os membros da missão. Nos últimos dias, tínhamos feito as contas por inúmeras    vezes, utilizando cada novo elemento de informação – uma conversa, por vezes    mesmo um olhar ou uma interpretação nossa da linguagem corporal de um representante    permanente –, para de novo calcularmos os nossos apoios. Além disso, tinham    chegado notícias muito interessantes da parte de países aliados sobre contagens    de cabeça a nosso favor ou a favor dos nossos rivais. De acordo com essas informações,    Portugal seria certamente eleito, podendo mesmo ser o país mais votado. Era    também possível – as nossas contas sugeriam essa possibilidade – sermos eleitos    à primeira volta, mas a existência de três candidatos muito qualificados tornava    esse objectivo mais difícil. No entanto, sabíamos também que as votações para    o CSNU são por vezes muito surpreendentes, havia que salvaguardar-nos contra    excessos de optimismo; enfim, a essa hora restava tempo apenas para uns rápidos    apelos de último minuto, e depois esperar a proclamação dos resultados.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As regras para a votação são simples: havendo dois lugares disponíveis para    o WEOG, cada Estado-membro das nações unidas tem direito a dois votos, sendo-lhe    no entanto vedado votar duas vezes no mesmo candidato. Para serem eleitos, os    candidatos precisam de obter dois terços do número de países presentes, e que    estes exerçam o seu direito de voto (o que exclui, evidentemente, estados ausentes    ou que se abstenham). No caso, estavam presentes na assembleia Geral 191 estados    (houve um país – eleitor nosso! – que chegou atrasado, e entre os 191 presentes,    houve uma abstenção), o que significa que a fasquia para a eleição situava-se    nos 127 votos. O universo total de votos em liça era 380, dois votos por cada    país. No caso de uma segunda volta entre dois candidatos apenas, tendo um sido    eleito à primeira volta, cada país passa a dispor de um único voto, correspondendo    ao único lugar ainda disponível. Neste caso, o universo total de votos é 191,    um por país.</p>     <p>Apesar da considerável surpresa de muitos observadores, ninguém na delegação    portuguesa se espantou quando os resultados foram anunciados: 128 votos para    a Alemanha, 122 para Portugal e 114 para o Canadá. A Alemanha passara à primeira    volta, conforme quase todas as previsões; mas com um voto de folga, apenas.    Portugal tinha ficado a cinco votos da eleição à primeira volta, apenas seis    votos atrás da Alemanha.</p>     <p>A votação do Canadá, que apesar de tudo foi relativamente alta para uma primeira    volta, situava o país a oito votos de distância de Portugal. Tratava-se de uma    distância significativa, mas ainda não decisiva; dava a Portugal a condição    de favorito para a segunda volta, apesar de ter havido casos no passado em que    a dinâmica da segunda volta inverteu a tendência inicial. a votação para a segunda    volta teve lugar imediatamente depois do anúncio dos resultados da primeira,    não havendo portanto tempo para novos esforços eleitorais. Nós tínhamos aproveitado    os cerca de quarenta minutos depois da primeira votação, e antes do anúncio    dos resultados, para fazer a ronda da sala, sublinhando a importância de se    manter a fidelidade de voto em nós no caso de haver uma segunda volta, e naturalmente    que canadianos e alemães. Fizeram o mesmo. Tratava-se, no entanto, de um exercício    de descarga de consciência, que no nosso caso estava aliás muito tranquila,    porque sabíamos que a nossa campanha tinha sido eficaz até ao limite das nossas    possibilidades físicas, de forma a compensar a exiguidade dos nossos recursos    comparados com os dos nossos adversários. E, de facto, a segunda volta foi absolutamente    decisiva: 113 votos para Portugal, 78 para o Canadá. Com um universo de votos    que correspondia a metade daquele que havia na primeira volta, nós perdemos    apenas nove votos, o que demonstra uma fidelidade de voto absolutamente notável.    O Canadá, pelo contrário, sofreu uma erosão considerável. A eleição estava decidida.    Portugal ainda não tinha atingido os dois terços, mas a diferença de 35 votos    já não era recuperável para o Canadá; tudo indicava que facilmente atingiríamos    os dois terços na terceira volta, já que a dinâmica de vitória era muito clara    e a tendência é sempre no sentido de uma transferência de votos para o previsível    vencedor (a não ser que haja, por alguma razão, fortes anticorpos, o que não    era o nosso caso). </p>     <p>O presidente da Assembleia Geral deu então instruções para o início da terceira    ronda de votação, enquanto a delegação canadiana conferenciava entre si e fazia    telefonemas, presumivelmente para Otava. Quando a urna já tinha percorrido cerca    de dois terços da sala, o representante permanente do Canadá pediu a palavra    e anunciou que o Canadá se retirava, reconhecendo a derrota. A contabilidade    final foi esclarecedora: 150 para Portugal, 32 para o Canadá. Foi infeliz que    o Canadá não tivesse anunciado a sua retirada antes do início da votação, pois    teria evitado o visível colapso a nosso favor dos seus apoios eleitorais, mas    presume-se que a delegação canadiana aguardava autorização de Otava.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>ELEMENTOS DE ANÁLISE </p>     <p>A análise mais cuidada dos dados eleitorais permite tirar algumas conclusões.    Uma delas é de que houve 16 países que votaram em apenas um dos candidatos na    primeira volta, em vez de utilizarem os dois votos. Alguns dos nossos apoiantes    já nos tinham dado a conhecer essa intenção; é provável que Portugal tenha sido    beneficiado por esta prática, mas a verdade exacta nunca será conhecida. Quando    isto acontece, o país que recebe o único voto utilizado beneficia duplamente,    porque ganha uma vantagem em relação a ambos os concorrentes, e não apenas em    relação a um deles. Já na segunda volta, verificamos que todos os países exerceram    a sua preferência, votando por Portugal ou pelo Canadá.</p>     <p>No rescaldo, utilizando agora não só os elementos já anteriormente disponíveis    para as nossas previsões, mas também alguns dados novos (os resultados da votação,    um conjunto de comentários e confissões pós-eleitorais), podemos chegar a algumas    conclusões interessantes. No que diz respeito à distribuição geográfica dos    nossos apoios, há razões para estarmos muito satisfeitos. Obtivemos uma forte    base de apoio em todos os continentes. Sem total segurança (porque o voto é    secreto…), as minhas contas pessoais apontam para a seguinte distribuição: </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top15"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a01t0.jpg" width="572" height="154"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Algumas considerações saltam à vista. A primeira é a de que se confirma a nossa    forte implantação na África. Representando mais de um quarto do universo eleitoral,    um bom resultado entre os países africanos constitui um factor da maior importância    nas eleições para o CSNU. Efectivamente, os nossos pergaminhos africanos eram    muito bons, mas não se deve imaginar que havia da nossa parte qualquer complacência.    Sabíamos que os nossos rivais iriam fazer um grande esforço para a captação    de votos na África, e sabíamos que se perdêssemos muito terreno nesse bastião    eleitoral, dificilmente poderíamos ser eleitos. Desenvolvemos, portanto, um    esforço constante ao longo da campanha, no sentido de assegurar votos africanos.</p>     <p>Segundo, é interessante verificar que, em termos percentuais, o nosso melhor    resultado ocorre no grupo da Europa de leste. É o mais pequeno dos grupos eleitorais,    e congrega um conjunto de países com quem não temos relações bilaterais muito    fortes, mas o trabalho de diálogo constante, e muitas vezes de parceria, no    âmbito da UE, deu-nos uma notável capacidade de captação de votos. O resultado    não foi inesperado, porque correspondeu plenamente aos sinais que fomos acumulando    durante a campanha, mas é um indicador muito interessante para a nossa política    externa.</p>     <p>Terceiro, é também muito interessante verificar que tivemos um resultado muito    respeitável na Ásia, quando temos também pouca implantação no que diz respeito    às relações bilaterais. Ou seja, foi um resultado obtido através da campanha,    apesar de não haver com esta região o mesmo tipo de intensidade de relacionamento    que temos com o continente africano. Tratando-se do maior grupo eleitoral, era    fundamental para as nossas pretensões termos um resultado apreciável no grupo    asiático; ao contrário daquilo que se passa na África, não há um conjunto homogéneo    de argumentos que se possa aplicar a todo o continente; o diálogo ali tem de    ser mais individualizado. Soubemos reconhecer estas especificidades, e trabalhámos    de forma consentânea. Terá também contado para este bom resultado o facto de    termos obtido o apoio de muitos países do Pacífico, que também se integram neste    grupo.</p>     <p>Quarto, os resultados mais fracos registaram-se na América Latina e Caraíbas,    e no nosso próprio grupo da Europa Ocidental, mas, ainda assim, obtivemos o    voto de mais de metade dos países em cada grupo. Pensávamos que o nosso resultado    poderia ser um pouco superior no GRULAC, mas admito que pode ter havido uma    decisão por parte de um conjunto de países caribenhos no sentido de votar apenas    no Canadá, por perceberem que esse país, com quem todos os estados caribenhos    têm importantes ligações, corria o risco de não ser eleito. Quanto ao nosso    próprio grupo, o WEOG, não houve surpresas.</p>     <p>Por todas as razões, julgo indispensável deixar aqui um comentário sobre a    UE. Por razões históricas, os 27 estados-membros da UE estão divididos em três    agrupamentos eleitorais: WEOG, Europa de leste, e, muito exoticamente, Chipre    vive no grupo asiático. Nos dois grupos europeus convivem também diversos países    que não são membros da UE. E, como é sabido, há dois países europeus que são    membros permanentes do CSNU. Por outras palavras, as condições de base para    uma concertação europeia em votações para o CSNU são débeis. Mas, para além    dessas condições, há que reconhecer que a solidariedade europeia é um critério    menor, inexistente para um certo número de estados-membros. Basta reparar no    seguinte: entre 10 e 12 países da UE não votaram nos dois candidatos europeus.    É certo que a entrada tardia da Alemanha teve responsabilidade por isto em alguns    casos, porque houve países que não quiseram quebrar compromissos antigos com    Portugal e com o Canadá, mas, mesmo assim, o facto é iniludível: não há uma    identidade europeia clara em nova York, e seguramente que a pertença à UE não    constitui uma vantagem eleitoral.</p>     <p>Quanto aos membros permanentes, o mais importante foi o facto de eles valeram    apenas cinco votos. Embora haja a tradição entre os membros permanentes de não    comprometerem formalmente o sentido do seu voto, por razões que se prendem com    o exercício das suas responsabilidades especiais<b><sup><a name="top19"></a><a href="#19">19</a></sup></b>,    o diálogo com esses países, e o simples uso da lógica, permite-nos pensar que    obtivemos o apoio de três dos cinco membros permanentes. No caso do reino unido,    há uma ligação umbilical ao Canadá, sobrando a dúvida sobre se terá também votado    na Alemanha; no caso dos estados unidos, os três candidatos são aliados, mas    o nosso registo histórico de votações em questões do Médio Oriente mostra um    maior grau de divergência das posições americanas quando comparado com os outros    dois concorrentes, sendo esta questão provavelmente decisiva para o sentido    de voto americano. Não há razão para pensar que não obtivemos os votos dos restantes    membros permanentes. Mas, em todo o caso, não houve nenhuma campanha negativa    contra a nossa candidatura, o que mostra que todos os membros permanentes olham    para Portugal como um país com quem se pode trabalhar bem no CSNU.</p>     <p>O resultado final, sendo embora extremamente positivo, ficou ligeiramente aquém    das nossas previsões em véspera do acto eleitoral, e creio que isso se deve    a uma pequena perda de votos no último par de semanas. Efectivamente, nos derradeiros    momentos da campanha, a diferença de recursos tem consequências significativas,    nomeadamente em termos de apoios para o desenvolvimento, ou de promessas que    dizem respeito a interesses económicos. São domínios em que temos dificuldade    em concorrer. Tanto a Alemanha como o Canadá perceberam – pelo menos, nas últimas    semanas – que Portugal tinha uma base eleitoral muito forte, o que significava    que tinham de apostar forte nos últimos dias. Sendo impossível obter provas,    estou convencido de que os nossos adversários conseguiram, nesse esforço final,    «desviar» um certo número de votos que vinham na nossa direcção<a name="top20"></a><b><sup><a href="#20">20</a></sup></b>.    Creio que perdemos assim alguns apoios nas Caraíbas, na Ásia Central e na África.    Por outro lado, isto demonstra também a grande solidez da campanha, porque,    apesar da erosão tardia, o resultado foi aquele que se viu.</p>     <p>Finalmente, uma breve palavra sobre os resultados dos outros dois candidatos.    Para o Canadá, derrotado pela primeira vez após seis presenças no Conselho de    Segurança, este resultado foi entendido como desastroso. Porém, a partir da    entrada na campanha da Alemanha, o lugar canadiano estava em perigo, algo que    a campanha canadiana terá demorado demasiado tempo a reconhecer. Em 1996, Portugal    derrotou a Austrália; salvaguardando algumas diferenças, a base eleitoral do    Canadá não era assim tão distinta – embora se deva admitir que o Canadá era    um rival mais forte que a Austrália, por diversas razões, incluindo o facto    de ter um excelente representante permanente em nova York, o que não era o caso    da Austrália na campanha anterior. Será, no entanto, em Otava que se deverão    tirar conclusões, restando-nos a esperança (mais do que justificável, a meu    ver) de que atribuam parte da responsabilidade da derrota à elevada qualidade    da nossa campanha, e não apenas a eventuais deméritos da campanha canadiana.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por fim, deixando por um momento de parte a perspectiva portuguesa, e procurando    entender o significado deste resultado para o sistema internacional, não hesito    em dizer que a mais importante consequência destes resultados foi o enorme ponto    de interrogação que se levantou quanto à pretensão alemã de ter um lugar permanente    no Conselho de Segurança. Como referi anteriormente, a decisão alemã de avançar    relacionava-se com essa problemática, e, nessa medida, constituiu uma aposta    com um certo grau de risco: um bom resultado poderia consolidar as pretensões    alemãs; um mau resultado teria o efeito contrário. Ora, o que dizer de uma votação    em que a Alemanha consegue ser eleita como membro <i>temporário </i>do CSNU    por uma margem de um voto apenas, distanciando-se de Portugal por uns escassos    seis votos, quando a diferença de recursos entre os dois é abissal? Talvez haja    um fundo de verdade naquilo que dizia um embaixador de outro país G4: que este    resultado significou «uma derrota alemã»…</p>     <p>O que é, no entanto, certo e indiscutível é que se tratou de uma vitória portuguesa.    Conseguida com grande esforço e mérito de todos aqueles que trabalharam na campanha.    Sem eles, sem essa dedicação e sem esse esforço, este resultado não seria pensável.    Mas não se deve perder de vista uma verdade ainda mais profunda: este resultado    aconteceu, porque um grande número de países em todos os continentes concluiu    que a política externa portuguesa o merece. Há nesta constatação muitas pistas    para a reflexão.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><b><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a> </sup></b>Western European and    Others Group: trata-se do grupo regional no qual portugal está inserido, e que    conta com os países da Europa ocidental e ainda a Austrália, o Canadá, Israel,    a Turquia e a Nova Zelândia. Para além do WEOG há mais quatro grupos regionais:    África, Europa de Leste, Ásia (que inclui também todo o pacífico e um país da    UE, Chipre) e GRULAC (América Latina e Caraíbas). Como se pode ver, a marca    da Guerra Fria é muito visível. </p>     <!-- ref --><p><b><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a> </sup></b>Para uma análise detalhada    da campanha de 1996, cf. paixão, João Quintela – «Candidatura de Portugal ao    Conselho de Segurança das nações unidas». In <i>Política Internacional</i>.    vol. 1, n.º 14, Primavera-Verão de 1997, pp. 67-87. Neste artigo, Quintela Paixão    assinala a natureza inédita da atitude da Suécia e da Austrália, mas mostra    como acabou por ser um erro que a candidatura portuguesa soube aproveitar. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S1645-9199201000040000100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><b><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a> </sup></b>No grupo Ásia existe    já uma escala de candidatos ao Conselho de Segurança com um horizonte de três    décadas, mas quanto mais distante no tempo, maior o desconto que é preciso dar    à fiabilidade de um compromisso de apoio. </p>     <p><b><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a> </sup></b>Para o biénio 1999-2000,    o Canadá foi eleito à primeira volta com 131 votos em 175, sendo o país mais    votado do grupo. Os Países Baixos foram também eleitos à primeira volta em detrimento    da Grécia. </p>     <p><b><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a> </sup></b>Cerca de 226 representações    diplomáticas. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a> </sup></b>Em 2009, em milhões    de dólares, a APD total portuguesa foi 512, a canadiana foi 4,012, e a alemã    foi 12,079. Cf. estatísticas da OCDE (<a href="http://stats.oecd.org/index.aspx" target="_blank">http://stats.oecd.org/index.aspx</a>).  </p>     <p><b><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a> </sup></b>Dentro do próprio CSNU    existe uma distinção muito clara entre os membros permanentes e os temporários,    e mesmo dentro do grupo dos permanentes. Como me disse um dos mais graduados    diplomatas britânicos, a elaboração de resoluções do CSNU era um assunto dos    «P3» (Estados Unidos, Reino Unido e França), e assim continuaria a ser no futuro    previsível. </p>     <p><b><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a> </sup></b>Mas veja-se que, depois    da eleição para o CSNU, ressurgiu a tese de que a vitória de Portugal e da Alemanha    foi fruto de uma conspiração bem urdida pela UE, com o apoio da votação em bloco    por parte de países da UE. (David Frum, no Frumforum, um blogue que aparenta    ser influente apesar da exuberante ignorância das opiniões aí expressas). </p>     <p><b><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a> </sup></b>Houve experiências    de partilhas de mandato mas apenas antes de 1965, data em que se levou a cabo    uma reforma do Conselho de Segurança, ampliando-o, precisamente para responder    ao problema que tinha levado à partilha de mandatos. Foi nessa altura que se    consolidaram os grupos eleitorais regionais. Desde então nunca mais houve qualquer    caso de partilha de mandato, havendo diversas dúvidas sobre a própria exequibilidade    da ideia. </p>     <p><b><sup><a href="#top10">10</a> </sup></b><a name="10"></a>Artigo 34.º do Tratado    de Lisboa. </p>     <p><b><sup><a href="#top11">11</a> </sup></b><a name="11"></a>O que não impediu    que eu tivesse feito uma apresentação dos nossos pontos de vista a todo o grupo    de embaixadores africanos em Nova York em Março de 2010. </p>     <p><b><sup><a href="#top12">12</a> </sup></b><a name="12"></a>O ano de trabalho    da AGNU inicia-se cada ano na segunda metade de Setembro. Hoje em dia, na abertura    da Assembleia Geral os países fazem-se representar, na maioria dos casos, a    nível de chefe de estado ou de governo, sendo por conseguinte o mais importante    momento anual da diplomacia internacional. </p>     <p><b><sup><a href="#top13">13</a> </sup></b><a name="13"></a>Há 192 países com    assento nas nações unidas. Por razões óbvias não valia a pena fazer campanha    junto do Canadá e da Alemanha, com quem as relações eram cordiais (particularmente    com o Canadá), e o Kiribati não dispõe de nenhum diplomata acreditado em Nova    York. </p>     <p><b><sup><a href="#top14">14</a> </sup></b><a name="14"></a>Respectivamente,    com a então secretária de estado Teresa Ribeiro em Cairns, e comigo no Vanuatu    e em Nova York. </p>     <p><b><sup><a href="#top15">15</a> </sup></b>Calculei a percentagem com base na    estimativa inferior. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><sup><a href="#top15">16</a> </sup></b>Na realidade há 53 votos de países    africanos, mas houve um país africano que chegou atrasado, não podendo utilizar    o seu voto. </p>     <p><b><sup><a href="#top15">17</a></sup> </b>América Latina e Caraíbas. </p>     <p><b><sup><a href="#top15">18</a></sup> </b>Europa Ocidental e outros. </p>     <p><b><sup><a href="#top19">19</a> </sup></b><a name="19"></a>Algo bizarramente,    a Suécia agora afirma que também não revela o sentido do seu voto. </p>     <p><b><sup><a href="#top20">20</a> </sup></b><a name="20"></a>Houve um representante    permanente de um país das Caraíbas que me informou na véspera da votação que    lamentava que não iria poder votar por nós, acrescentando com grande candura    que eu compreenderia sem dúvida o voto nos outros dois, um por causa da importância    directa para a região, o outro porque «we have made them pay highly for it».</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Quintela]]></surname>
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