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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A internacionalização da economia portuguesa]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The internationalization of the Portuguese economy]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The world has changed significantly during the last 20 years. While Europe is growing old and has been recognizing the limits of its social model in the global world, new actors have appeared in the international scene. Portugal is in a region that globally has lost importance and that also felt specific constraints resulting both from its characteristics, and from its vulnerability to the changes in the relative prices a consequence of the pressures motivated by the increased search of raw materials and fuel.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A internacionalização da economia portuguesa </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>António Nogueira Leite</b></p>     <p> Professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa    e administrador do Grupo Mello. Membro da direcção do IPRI – UNL.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>RESUMO</p>     <p>O mundo mudou muito significativamente nos últimos vinte anos. Enquanto a Europa    envelheceu e foi reconhecendo os constrangimentos que o seu modelo social enfrenta    no mundo global que ajudou a criar, surgiram novos actores na cena internacional.    Portugal insere-se numa região que globalmente perdeu importância e que também    sentiu alguns constrangimentos específicos em função das suas características,    e da sua vulnerabilidade à alteração de preços relativos resultantes das pressões    que o aumento de procura de matérias-primas e combustíveis inevitavelmente produziu.</p>     <p>Palavras-chave: Portugal, crise económica, investimento, comércio externo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>The internationalization of the Portuguese economy</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>     <p>The world has changed significantly during the last 20 years. While Europe    is growing old and has been recognizing the limits of its social model in the    global world, new actors have appeared in the international scene. Portugal    is in a region that globally has lost importance and that also felt specific    constraints resulting both from its characteristics, and from its vulnerability    to the changes in the relative prices a consequence of the pressures motivated    by the increased search of raw materials and fuel.</p>     <p>Keywords: Portugal, economic crisis, investment, external trade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O mundo mudou muito significativamente nos últimos vinte anos. Enquanto a Europa    envelheceu e foi reconhecendo os constrangimentos que o seu modelo social enfrenta    no mundo global que ajudou a criar, surgiram novos actores na cena internacional    e, dentre estes, a China, a Índia e, ainda que com menor relevância, o Brasil    e a Rússia pós-soviética, assumiram uma importância determinante na cena económica    internacional. A alteração do poder económico e da influência política do mundo    ocidental, ainda que continuamente dominante neste período sob quase todos os    critérios de análise, revelou, nomeadamente, o decréscimo da importância relativa    da união europeia (UE) na cena mundial. Acresce que esta diminuição de importância    relativa se acelerou na primeira década do século XXI por contraste com os anos    90 do século XX e tenderá a acelerar ainda mais na década que vai começar.</p>     <p>As razões para este decréscimo de importância relativa prendem-se com problemas    internos à Europa (a crise quase continuada das finanças públicas de muitos    dos estados-membros da UE, o envelhecimento da população e a perda de competitividade    das respectivas economias) e com o crescimento muito rápido das economias emergentes    da Ásia e do hemisfério sul. Volvidos poucos anos do acesso da china à organização    Mundial do comércio (OMC), já esta economia pesava de modo significativo não    apenas no comércio internacional de bens mas também, e em conjunto com outras    economias emergentes, contribuía para novos desequilíbrios nos mercados de combustíveis    fósseis e de matérias-primas função de aumentos continuados das respectivas    procuras de magnitude muito superior ao crescimento da oferta correspondente.    Sendo a Europa um consumidor líquido destes produtos, sofreu o impacto das subidas    permanentes de preços gerados pelo alargamento dos desequilíbrios entre procura    e oferta destes bens, contrabalançando em parte os ganhos que a criação de comércio    operada gerou para a UE no seu conjunto.</p>     <p>Portugal insere-se, assim, numa região que globalmente perdeu importância e    que também sentiu alguns constrangimentos específicos em função das suas características    próprias e da sua particular vulnerabilidade à alteração de preços relativos    resultantes das pressões que o aumento de procura de matérias-primas e combustíveis    inevitavelmente produziu. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O problema português</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Portugal entra na pior crise das últimas décadas fragilizado por dez anos de    crescimento anémico, fruto da sua debilidade estrutural reflectida na muito    baixa produtividade e demasiada exposição face à concorrência das novas economias    do alargamento, do Extremo Oriente e do Sul da Ásia: a nossa economia acumulou    uma já muito elevada dívida externa (figura 1), num contexto em que a poupança    é baixa e as fontes primárias de poupança se encontram fragilizadas por via    da descapitalização das empresas e do forte endividamento das famílias (figuras    2 e 3). De facto, as famílias encontram-se fortemente endividadas, função da    manutenção de um elevado padrão de consumo e da aquisição de bens imóveis a    crédito, enquanto que as empresas portuguesas apresentam em média e, generalizadamente,    baixos níveis de autonomia financeira, prosseguindo uma política de endividamento    muito forte em função da actividade desenvolvida e dos níveis de capitais disponibilizados    pelos seus accionistas. O baixo nível de reinvestimento dos lucros tem acentuado    este padrão (figura 2). O resultado é uma dívida líquida ao exterior de mais    de 115 por cento do PIB em 2010, correspondendo a uma dívida bruta que atinge    cerca de três vezes o PIB e resulta num endividamento líquido do sistema financeiro    português face ao exterior de cerca de 200 mil milhões de euros. </p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>Figura 1&gt; Evolução da dívida externa líquida (2005-2009)<sup><a name="top1"></a><a href="#1">1</a>    </sup></b></p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f1.jpg" width="575" height="326"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 2 &gt;</b> Endividamento bruto de empresas não financeiras e particulares  </p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f2.jpg" width="568" height="326"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b><a href="#f3">Figura 3</a><a name="topf3"></a> &gt;</b> Fontes primárias    de poupança<a name="top2"></a><b><sup><a href="#2">2</a> </sup></b></p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f3.jpg" width="559" height="325"></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Esta situação, decorrente da falta de competitividade da economia portuguesa,    da fragilidade do seu sector de bens transaccionáveis e de mais de uma década    em que o consumo interno cresceu desproporcionadamente, é já hoje insustentável    e vai implicar uma <i>desalavancagem </i>importante da economia com importantes    efeitos reais. Aquela só não aconteceu ainda porque Portugal tem beneficiado    dos mecanismos criados junto do Banco central europeu, por natureza excepcionais    e temporários. </p>     <p>O imperioso aumento da poupança interna vai ser sempre limitado pelos constrangimentos    inerentes à limitação das fontes primárias de poupança: no Estado, nas empresas    e nas famílias (<a href="#topf3">figura 3</a><a name="f3"></a>).</p>     <p>Acresce ainda que a pressão sobre o futuro próximo e o médio e longo prazo    é ainda fortemente acentuada pelo peso crescente da dívida pública, escriturada    e não escriturada, função do desequilíbrio permanente das contas do Estado e    da promoção de obra pública, nomeadamente no sector dos transportes, com recurso    ao envolvimento de agentes privados, quer na construção quer na operação de    novas infra-estruturas e no seu financiamento através da figura de parcerias    público-privadas (PPP) (figura 4). Ou seja, para além da dívida pública directa    do sector público, as responsabilidades futuras dos contribuintes portugueses    envolvem não apenas as resultantes da acumulação de défices do sector público    administrativo, mas também os passivos não recuperáveis das empresas públicas    e as dívidas – que serão despesa certa no futuro – inerentes às PPP.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 4 &gt;</b> Dívida pública directa e consolidada (see e ppp)<a name="top3"></a><b><sup><a href="#3">3</a></sup></b></p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f4.jpg" width="565" height="304"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A acumulação permanente de níveis crescentes e já hoje insustentáveis de dívida    externa é o principal indicador da inviabilidade do percurso seguido pela economia    portuguesa. Este resultou numa economia que já não é financiável autonomamente    e que enfrenta um agravamento dos constrangimentos que até aqui a condicionaram,    nomeadamente: menor disponibilidade de crédito internacional, dificuldade de    aumentar significativamente a poupança interna, acréscimo da pressão concorrencial    e aumento do preço de combustíveis fósseis e matérias-primas com a retoma da    economia global. </p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A (falta) de competitividade e o desequilíbrio externo </b></p>     <p>Entre 1995 e 2001, e na maioria dos anos que se lhe seguiram, a evolução dos    salários suplantou a da produtividade do trabalho, já de si baixa no momento    inicial. Esta dupla tendência, largamente condicionada pela política salarial    da função pública, levou a um aumento sustentado e significativo dos custos    unitários de trabalho, reduzindo a competitividade da economia, com efeitos    sobretudo visíveis no sector de bens transaccionáveis. Sendo a economia portuguesa    extremamente exposta à concorrência dos novos aderentes à OMC situados no extremo    oriente, pois manteve uma estrutura competitiva em larga medida semelhante à    dessas nações agora emergentes, com elevada prevalência de actividades em sectores    onde as empresas permanecem pouco diferenciadoras dos seus produtos e onde os    custos unitários de trabalho são o principal determinante da competitividade,    o agravamento relativo dos custos unitários de trabalho, expôs ainda mais as    debilidades competitivas do tecido produtivo nacional. Essa debilidade resultou    num agravamento crescente do défice da balança de mercadorias, nunca compensado    pelos demais componentes da balança de bens e serviços, com o consequente aumento    galopante da dívida externa ao longo da última década (figura 5).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 5 &gt;</b> Balança de bens e serviços (em % do PIB) </p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f5.jpg" width="562" height="310"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O endividamento progressivo do País coincidiu temporalmente com a quebra da    taxa de poupança para níveis historicamente baixos (figura 5). Como as empresas    estão descapitalizadas, o Estado apresenta sucessivos défices correntes e a    pressão para a sua degradação é uma realidade e, ainda, as famílias encontram-se    particularmente endividadas e necessitam de afectações de partes significativas    do seu rendimento disponível ao serviço da dívida, não se vislumbram aumentos    relevantes sustentáveis da taxa de poupança agregada. A conjugação do aumento    da dívida externa com a baixa taxa de poupança agregada, e os limites ao seu    aumento em função das condições a que chegaram as fontes primárias de poupança,    impõem claras restrições ao financiamento da actividade económica, sobretudo    nesta fase em que o sistema financeiro internacional impõe limitações muito    significativas.</p>     <p>Acresce que a política económica seguida, seja a política de desenvolvimento    encetada nos últimos anos – muito assente na promoção de obra pública no sector    das infra-estruturas de transportes, seja a política de combate conjuntural    à actual crise – baseada, em larguíssima medida, nos mesmos remédios, tende    a colocar, no contexto acima descrito, problemas inultrapassáveis ao sector    de produção de bens transaccionáveis. Na verdade, como tais investimentos em    muitos casos são meramente redundantes não impactando de forma directa e positiva    na competitividade do sector de bens transaccionáveis ao serem desenvolvidos    por agentes privados, com forte apoio da banca nacional e confortos de Estado    e ao supletivamente implicarem forte despesa pública para viabilizar a sua exploração,    acabam por ter um duplo efeito negativo sobre o sector dos bens transaccionáveis.    Em primeiro lugar, porque geram um verdadeiro <i>crowding out </i>no financiamento    ao sector produtivo não envolvido na construção e exploração destes projectos.    Em segundo lugar, porque, função dos confortos públicos e da elevada despesa    futura, aumentam de forma significativa a dívida pública não escriturada e têm    contribuído para a degradação do <i>rating </i>da república. Este tende a reflectir-se    de imediato nos custos de financiamento de todas as empresas, agravando o seu    posicionamento competitivo nos sectores de bens e serviços transaccionáveis.</p>     <p>Neste contexto de perda de competitividade externa e endividamento acelerado    do País, o peso crescente do Estado entrava ainda mais, hoje e no futuro antecipável,    a sustentabilidade económica de Portugal. Não só a absorção de metade do rendimento    nacional anual pela despesa pública é factor de tributação adicional no presente    e no futuro como o estado tentacular que se tem vindo a desenvolver em Portugal    cria permanentes entraves ao eficiente funcionamento dos agentes económicos,    provê e oferece serviços públicos de fraca qualidade e nem sequer distribui    adequadamente os rendimentos entre os portugueses, tendo mesmo vindo a promover    uma desigualdade crescente<b><sup><a name="top4"></a><a href="#4">4</a></sup></b>.    Por outro lado, ao não qualificar adequadamente os portugueses hipoteca o futuro    e, ao deixar chegar o sistema de justiça ao ponto de generalizado descrédito    e ineficiência a que chegou, dificulta as decisões de investimento e, em geral,    todo o processo de criação de riqueza.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O comércio externo português </b></p>     <p>A economia portuguesa é uma das mais abertas da UE, tendo vindo a registar,    como atrás se referiu, sobretudo ao longo das duas últimas décadas, sucessivos    défices da balança de bens e serviços. Neste período de acentuado incremento    do comércio internacional e estabelecimento generalizado de uma concorrência    global, a balança de bens e serviços manteve défices muito elevados. No entanto,    e como se ilustrará de seguida, a manutenção de défices elevados resulta não    apenas da falta de competitividade do sector transaccionável, traduzido por    uma fraca taxa de cobertura das importações pelas exportações (figura 6), mas    também pelo aumento, entre 2002 e 2008, do défice da balança energética<b><sup><a name="top5"></a><a href="#5">5</a></sup></b>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 6 &gt;</b> Exportações e importações </p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f6.jpg" width="567" height="308"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O saldo global da balança de bens e serviços – uma das métricas estruturais    do desequilíbrio externo – aumentou durante o período após 2003, em função do    aumento muito significativo do défice da balança de bens energéticos e, após    2008, devido à forte degradação da balança de bens não energéticos, que se tinha    mantido razoavelmente estável em percentagem do produto entre 2004 e 2007. Este    défice da balança energética subiu de forma sustentada entre 2003 e 2008, representando    nesse ano mais de quatro por cento do PIB. Este mau comportamento da balança    energética reflecte, essencialmente, dois factos: a elevada dependência da economia    portuguesa face às importações de combustíveis fósseis (nomeadamente, petróleo    e gás natural) e a subida generalizada dos preços destes combustíveis durante    a corrente década, até que a súbita quebra da procura com a crise mundial gerou    uma rápida e muito significativa quebra de preços (figura 7).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 7 &gt;</b> Evolução dos preços do petróleo</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f7.jpg" width="568" height="324"></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Sendo Portugal um dos países da UE mais dependentes das importações de combustíveis    (figura 8), é natural que a subida do preço do petróleo tenha tido um efeito    particularmente pernicioso no nosso equilíbrio externo. Sendo que a relação    entre procura e oferta globais de petróleo aponta no sentido de subida a prazo    do seu preço reflectindo um aumento persistente da renda de escassez, é crucial    que se mantenha a aposta na diversificação de fontes primárias de energia, mas    sem que tal ponha em causa a competitividade dos sectores de bens transaccionáveis    a jusante do sector energético.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 8 &gt;</b> Dependência energética (%)</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f8.jpg" width="580" height="278"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Uma análise mais fina da evolução da especialização sectorial das exportações    portuguesas pode ser realizada a partir do quadro 1. Os sectores tradicionalmente    mais importantes em décadas anteriores, como o têxtil e o calçado, foram perdendo    importância relativa, dando lugar, como sectores de exportação mais relevantes,    às máquinas e aparelhos e aos veículos e outro material de transporte, apesar    de, no seu conjunto, estes sectores terem vindo a perder importância ao longo    da década. Pelo contrário, os minérios, os plásticos, a química e os bens alimentares    ganharam peso relativo. De qualquer modo, esta repartição das exportações reflecte    um padrão de especialização industrial que coloca Portugal como concorrente    directo das «novas potências emergentes» e, consequentemente, vulnerável ao    seu sucesso<a name="top6"></a><b><sup><a href="#6">6</a></sup></b>. Ainda assim,    as exportações apresentaram um dinamismo assinalável no final dos anos 90 e,    ainda que mais limitadamente, entre 2004 e 2007. A crise internacional de 2007-2008,    reflectiu-se muito negativamente no comércio mundial e as exportações e importações    nacionais não foram excepção (figura 9).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Quadro 1</b>&gt; Especialização das exportações portuguesas</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09q1.jpg" width="579" height="444"></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 9</b>&gt; Crescimento anual das exportações e das importações</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f9.jpg" width="560" height="325"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Já nas importações, é de realçar o peso crescente e significativo das importações    de combustíveis, reflectindo a dependência energética e o efeito preço, que    se fez sentir de forma acentuada entre 2003 e 2008 (quadro 2). Também é de realçar    a importância crescente de bens agrícolas em resultado dos efeitos simultâneos    da quebra progressiva da actividade agrícola e do aumento do consumo privado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Quadro 2</b>&gt; Especialização das importações portuguesas</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09q2.jpg" width="574" height="442"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>O Investimento Directo Estrangeiro (IDE) </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O crescimento em importância do ide, nomeadamente entre países desenvolvidos,    é consequência directa do processo de globalização e integração das economias<b><sup><a name="top7"></a><a href="#7">7</a></sup></b>.    Hoje em dia, todos os países concorrem pela atracção de IDE, resultando frequentemente    num tratamento preferencial concedido à instalação de empresas multinacionais    e na erradicação das barreiras tradicionais à instalação de empresas estrangeiras    ou de projectos por elas patrocinados.</p>     <p>Essa concorrência global pela atracção de IDE resulta da noção que os efeitos    do ide sobre as economias receptoras são globalmente muito positivos. Na verdade,    aos efeitos directos, relativos à formação de capital, à criação de emprego,    ou mesmo à melhoria da estrutura produtiva e exportadora dos países beneficiários    do IDE (a Autoeuropa é aqui um exemplo paradigmático), há que juntar receptores.    Porém, a principal razão pela qual as diferentes economias tentam captar IDE    reside na expectativa de acederem a tecnologia de produção, de <i>marketing    </i>ou mesmo de canais de distribuição, com efeitos positivos sobre a produtividade    global. Por outro lado, as empresas multinacionais geram ainda outro tipo de    externalidades positivas sobre as economias receptoras do investimento estrangeiro:    aumentam o grau de exigência sobre a administração pública, trazem boas práticas    às economias onde se instalam e permitem a introdução de novas e mais eficazes    técnicas de gestão.</p>     <p>Em Portugal, as autoridades económicas têm levado a cabo esforços persistentes    para atrair ide estruturante e, após 2002, criaram uma agência para o efeito,    a API (agência Portuguesa para o investimento) posteriormente reestruturada,    dando lugar à actual AICEP. Sendo a burocracia um obstáculo tradicional à atracção    de ide, após 2005 o Governo criou regimes excepcionais de investimento no âmbito    dos chamados PIN e PIN+ que constituem vias rápidas para a criação das condições    necessárias à realização de grandes investimentos, nacionais e estrangeiros.    a atracção de grandes projectos registou um aumento expressivo em alguns dos    anos após 2003, mas a crise de 2007-2008 e as vicissitudes que se lhe seguiram    limitaram significativamente o fluxo de novos IDE em Portugal (figura 10).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Figura 10 &gt;</b> Investimento directo estrangeiro líquido (1996-2009)    (milhares de euros) </p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n28/n28a09f10.jpg" width="574" height="304"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A continuação do esforço de atracção de ide é absolutamente essencial pelos    seus efeitos directos e indirectos. é claro que a situação conjuntural vivida    neste final de 2010 não ajuda à obtenção de resultados significativos no curto    prazo, mas exige-se que não se abandone o esforço dos últimos anos, uma vez    que, para além dos efeitos clássicos atrás referidos, a entrada de ide permite    também superar os condicionamentos impostos pela crónica escassez de capital    nacional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O futuro </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma década de estagnação e as dificuldades que se avolumaram após 2009 tornaram    clara a necessidade de levar a cabo alterações profundas e estruturais no padrão    de especialização da economia de modo a obviar à insustentabilidade dos actuais    níveis de endividamento externo do País. A acumulação concomitante de uma dívida    bruta ao exterior de quase três vezes o PIB e de uma dívida pública consolidada    que excede largamente a riqueza criada pelo País em cada ano, exige que urgentemente    se produzam alterações estruturais de monta numa dimensão nunca antes experimentada.    a globalização e a dificuldade política de reformar o Estado e a economia sem    o analgésico da inflação colocam hoje a urgência do início de verdadeiras reformas    e de uma gestão mais rigorosa do dinheiro dos contribuintes.</p>     <p>A viabilidade da economia portuguesa depende da resolução a curto prazo da    actual trajectória insustentável da despesa pública, alterando de forma radical    um caminho já com muitos anos. a insustentabilidade da evolução da despesa é    hoje óbvia. O País apresenta uma carga fiscal de cerca de 36 por cento do PIB    e apenas o conjunto dos salários dos funcionários públicos (14 por cento do    PIB em 2009) com as transferências para as famílias (22 por cento do PIB em    2009) representam 36 por cento do produto. Ou seja, o modelo seguido nos últimos    quase vinte anos esgotou-se. A alternativa à reforma do Estado, que passa por    continuar a aumentar impostos e a esconder despesa actual – quer através do    seu adiamento, como nas PPP na área dos transportes, quer através da simples    desorçamentação, como acontece na exploração dos sistemas públicos de transportes,    por exemplo – só agravará o problema futuro. As dificuldades no acesso ao crédito    externo impõem que se caminhe na solução deste problema. O facto de o País apenas    se financiar por via de mecanismos de colateralização junto do Banco Central    Europeu, por natureza temporários, garante que a escolha já é apenas entre agir    agora ou causar a insolvência do Estado e da economia a breve trecho.</p>     <p>Mas, como vimos nas secções anteriores, este não é, de facto, o principal problema    português. A questão mais dificilmente ultrapassável reside no desenvolvimento    de um modelo de crescimento assente na canalização de recursos para o sector    de bens não transaccionáveis e à acumulação de um défice externo crescente.    A acumulação de um défice externo, durante um número significativo de anos (desde    1994), levou a uma acumulação muitíssimo significativa de responsabilidades    brutas do País face ao exterior, tanto das famílias como das empresas e do Estado<b><sup><a name="top8"></a><a href="#8">8</a></sup></b>.    Estima-se que as responsabilidades líquidas do sistema financeiro português    face ao exterior atinjam, no final de 2010, mais de 200 mil milhões de euros.</p>     <p>Por outro lado, e como atrás se referiu, Portugal regista uma taxa de poupança    comparativamente baixa e as perspectivas para o seu aumento significativo no    futuro próximo são diminutas: as famílias estão muito endividadas, o <i>payout    </i>dos dividendos das empresas tem de se manter alto, por forma a que os seus    accionistas possam garantir o respectivo serviço da dívida e a poupança pública    só advirá com cortes muito mais severos da despesa pública do que aqueles que    têm sido propostos.</p>     <p>De qualquer forma, o caminho é estreito mas muito claro: Portugal tem de ser    muito mais competitivo nos sectores de bens transaccionáveis, a despeito de    a sua estrutura produtiva ser essencialmente concorrente da dos novos países    industrializados, os agentes privados e o Estado têm de poupar mais e este tem    de diminuir o seu peso na economia de forma muito relevante. Só com a reforma    do Estado e do contrato social em vigor, a liberalização dos mercados de factores    e de bens finais, uma melhor e mais eficaz regulação e o fim dos investimentos    em capital físico não reprodutível Portugal pode ser viável. Quanto mais cedo    o interiorizarmos e pusermos em prática, maiores as hipóteses de podermos ainda    ir a tempo de construir um futuro para Portugal. E esse futuro passa pelo sucesso    das nossas empresas nos mercados internacionais, pela sua consolidação enquanto    produtores alternativos às importações e pela exploração de dois recursos fundamentais,    não devidamente valorizados: o mar português e a localização de Portugal, entre    a Europa, as Américas e a África.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas:</b></p>     <p><b><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a> </sup></b>A dívida externa portuguesa    não tem parado de crescer, em resultado de um modelo económico que, desde 1995,    assentou num aumento permanente das responsabilidades do país perante o exterior.    A falta de competitividade da economia, que tem vivido permanentemente acima    das possibilidades geradas pela produção interna, e a consequente acumulação    de défices sucessivos da balança externa, levou a um nível de endividamento    líquido superior a 100 por cento do PIB, que voltará a crescer em 2010. Os passivos    brutos dos agentes económicos portugueses sobre o exterior são hoje cerca de    3 vezes o PIB. Este é o principal problema que a economia portuguesa enfrenta,    sendo o crescente endividamento externo o seu sintoma mais evidente. </p>     <p><b><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a> </sup></b>A taxa de poupança    em Portugal tem vindo a cair desde os anos 90, sendo hoje particularmente baixa,    quer em termos absolutos quer em comparação com as dos demais países europeus.    Como se pode ver, a poupança do Estado tem vindo a apresentar-se como negativa,    função da acumulação de saldos correntes negativos na administração pública.    A taxa de poupança das famílias tem vindo a cair reflectindo o peso crescente    do consumo privado na despesa agregada e o crescente endividamento das famílias    acarretando um esforço cada vez maior com as responsabilidades mutuárias por    elas assumidas. Também a poupança das empresas é baixa por comparação com a    registada noutras economias europeias em consequência do baixo reinvestimento    dos lucros por parte das empresas nacionais </p>     <p><b><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a> </sup></b>A dívida consolidada    compreende a dívida do sector público administrativo, a dívida do sector empresarial    do Estado e a dívida das parcerias público privadas. O valor da dívida consolidada    ilustrada nesta figura é inferior ao apresentado em estudos anteriores (e.g.,    Instituto Francisco Sá Carneiro, BPI) na medida em que, no que respeita à dívida    relativa às parcerias público privadas (PPP) apenas considera as formalizadas    até ao início de 2010 e já em fase de construção ou operação. Por outro lado,    exclui as PPP autárquicas e os passivos das empresas públicas municipais. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a> </sup></b>A persistência de rendas    no sector de bens e serviços não transaccionáveis, crescentemente relevante    nos últimos anos por via da promoção de negócios promovidos pelo Estado quase    sem risco para os agentes privados, reduz a atractividade relativa dos sectores    mais abertos à concorrência internacional e tende a avolumar o défice externo.  </p>     <!-- ref --><p><b><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a> </sup></b>cf. LEITE, António    Nogueira; CABRAL, Carlos Costa e FREITAS, Miguel Lebre de – <i>Endividamento    externo e dependência energética. Uma nova era na energia</i>, Lisboa: Edições    Económico, 2009. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S1645-9199201000040000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><b><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a> </sup></b>cf. DEHESA, Guillermo    de la – <i>Winners and Losers in Globalization</i>, Londres: Blackwell, 2006.  </p>     <p><b><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a> </sup></b>LEITE, António Nogueira;    MACHADO, José Ferreira e CÚRDIA, Vasco – <i>Portugal como destino Investimento    Directo Estrangeiro. Estado da competitividade da Economia Portuguesa</i>, Lisboa:    Câmara de Comércio Luso Americana, 2001. </p>     <p><b><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a> </sup></b>BAER, George W. e LEITE,    António Nogueira – “The economy of Portugal within the European Union: 1990–2002”<i>,</i>    In <i>The Quarterly Review of Economics and Finance</i>, Volume 43, Issue 5,    Winter 2003, pp. 738-754.</p>      ]]></body><back>
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