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</front><body><![CDATA[ <p><b>Vitória de Pirro</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pedro Aires Oliveira</b></p>     <p>Docente na FCSH – UNL e investigador do Instituto de História Contemporânea.    Membro do Conselho Científico do IPRI–UNL. Autor de <i>Os Despojos da Aliança.    A Grã-Bretanha e a Questão Colonial Portuguesa 1945-1975 </i>(2007).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> Duarte Ivo Cruz. <b>Estratégia Portuguesa na Conferência de Paz, 1918-1919.    As Actas da Delegação Portuguesa.</b> Lisboa, FLAD, 2009, 309 páginas.</p>     <p>Filipe Ribeiro de Meneses. <b>Afonso Costa</b>, Lisboa, Texto Editora, 2010,    206 páginas.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em ano de centenário, tem sido magra a colheita de livros que se debruçam sobre    os aspectos internacionais da I República portuguesa. Das muitas reedições dadas    à estampa, e das novas obras de síntese publicadas até ao fim do presente ano,    poucas são as que dedicam mais do que algumas páginas a essa dimensão histórica.    Se entre as décadas de 1970 e 1990, questões como a da participação portuguesa    na Grande Guerra ou as relações com a Grã&#8209;Bretanha e a Espanha deram origem    a estudos que desde então se tornaram obras de referência, ultimamente o foco    da historiografia da I República tem incidido mais noutro tipo de problemas.    Sem conseguir motivar novos investigadores, a história das relações internacionais    da I República tornou-se um pântano estagnado. O que é uma pena – não só pelos    inúmeros aspectos da acção externa do Estado que ainda estão mal estudados,    mas, também, pela melhor contextualização dos processos e dinâmicas internas    do regime republicano que o recurso a fontes diplomáticas estrangeiras poderia    proporcionar. As duas obras aqui em análise, uma edição de documentos e uma    biografia do mais representativo homem político da República, talvez possam    aguçar o apetite dos investigadores por este domínio tão negligenciado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>DIÁRIO DE BORDO EM PARIS</b></p>     <p>Duarte Ivo Cruz, que conciliou uma longa carreira de serviço público com uma    vida de investigação dedicada ao estudo da história da cultura em Portugal (com    especial relevo para a história do teatro), levou a cabo a edição de uma fonte    fascinante – as actas da delegação portuguesa à Conferência de Paz de Paris    (1918-1919), uma espécie de diário de bordo dos enviados de Lisboa ao mais importante    conclave diplomático realizado desde o Congresso de Viena.</p>     <p>Lavradas à mão num livro de grande formato, actualmente depositado no Arquivo    Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, essas actas correspondem    ao registo das reuniões dos membros da delegação lusa durante a fase crítica    das negociações de paz, o período compreendido entre Janeiro e Junho de 1919    (assinatura do Tratado de Versalhes). Através delas, é possível não só acompanhar    as oscilações que a estratégia originalmente arquitectada pelo Governo de Sidónio    Pais foi sofrendo, mas, também, as percepções dos diplomatas portugueses em    Paris acerca dos desafios e ameaças com que tinham de se debater diariamente.    É, em suma, um documento muito instrutivo acerca do tipo de adversidades que    uma pequena potência estava condenada a enfrentar num contexto em que a <i>Realpolitik    </i>imperava (não obstante o sopro idealista trazido pelo Presidente Wilson),    e também muito revelador dos escassos recursos que os seus representantes poderiam    mobilizar para acautelar os interesses nacionais.</p>     <p>Como já foi notado, na altura do armistício muita gente se interrogava se Portugal    podia verdadeiramente ser incluído no campo das potências vencedoras. Economicamente    devastado, o País somara desaires contra um minúsculo contingente alemão em    Moçambique, vira o seu Corpo Expedicionário (CEP) ser dizimado numa única batalha    na Flandres, e permanecia dilacerado por gravíssimas disputas internas. Para    complicar as coisas, a cerca de um mês do arranque do conclave diplomático em    Paris, o seu chefe de Estado, Sidónio Pais, seria assassinado em Lisboa, acontecimento    que desencadeou uma espiral de confrontação com laivos de guerra civil. Foi    com esta retaguarda caótica que a delegação portuguesa teve de contar durante    as primeiras semanas da conferência, circunstância que, pelo menos, teve a vantagem    de lhe proporcionar uma inesperada autonomia de actuação.</p>     <p>As suas instruções, delineadas numa reunião ainda presidida por Sidónio Pais,    e depois confirmadas pelo almirante Canto e Castro, eram curtas e claras: não    reivindicar ou aceitar trocas de territórios; lutar por «indemnizações justas»    para cobrir os «prejuízos e despesas» com o conflito; seguir as posições da    Grã-Bretanha e defender o «princípio da defesa das pequenas nacionalidades»    (p. 99). Integrada por vários elementos que se haviam oposto à estratégia intervencionista    do Partido Democrático, como o médico Egas Moniz, ministro dos Estrangeiros    e chefe da delegação, e o general Augusto Freire de Andrade, o titular daquela    pasta em 1914, a delegação portuguesa teve uma actuação consistente com aquela    orientação nos primeiros meses da conferência.</p>     <p>Se levarmos em conta a reputação problemática que a República granjeara junto    das principais potências europeias, é difícil não reconhecer algum mérito ao    desempenho de Moniz e dos elementos que o assessoravam. A delegação portuguesa    foi capaz de garantir dois representantes na Conferência de Paz (um número idêntico    ao da representação belga); uma participação em comités importantes, como o    da redacção do Pacto da Sociedade das Nações, o das comunicações portuárias,    ferroviárias e marítimas e o das reparações (esta arrancada a ferros); obteve    a anuência britânica em relação à restituição do pequeno território de Quionga,    no Norte de Moçambique (incorporado na África Oriental Alemã em 1894), assim    como um compromisso para a devolução dos navios apreendidos aos alemães em Março    de 1916, e entretanto postos ao serviço dos aliados. </p>     <p>O seguidismo em relação à Grã-Bretanha, porém, tinha o seu preço. Com efeito,    embora os responsáveis portugueses não fossem estranhos à ideia de que uma importante    redistribuição de poder à escala global havia sido posta em marcha pelo desgaste    que o conflito provocara às potências europeias, durante os trabalhos da conferência    a sua abordagem aos Estados Unidos foi, no mínimo, timorata. Essa timidez, que    historiadores como Medeiros Ferreira apontam como uma possível causa da não    eleição portuguesa para o Comité Executivo da Sociedade das Nações (SDN) (em    benefício da Espanha neutra de Afonso XIII)<sup><a name="top1"></a><a href="#1">1</a></sup>,    tem aqui uma pista interessante. Ivo Cruz cita um telegrama do ministro de Portugal    em Washington, visconde de Alte, onde é feita uma alusão à inconveniência das    autoridades portuguesas autorizarem a manutenção de bases navais americanas    nos Açores, em virtude de um possível encorajamento ianque aos separatistas    do arquipélago (p. 47).</p>     <p>Seja como for, as razões da desconfiança portuguesa a respeito do colosso americano    não terão adicado apenas nesse ponto. Na verdade, o tipo de visão que animava    o Presidente Wilson no pós&#8209;guerra colidia com aspectos tidos por inegociáveis    pelos governantes portugueses, nomeadamente a intangibilidade da sua soberania    colonial. Na reunião de 31 de Janeiro de 1919, o general Freire de Andrade,    antigo comissário régio em Moçambique, e o perito em assuntos coloniais da delegação,    foi bastante cândido a respeito da maneira como Portugal encarava as doutrinas    baseadas no princípio do <i>trusteeship</i>, doutrinas que haviam ganho a adesão    do residente Wilson e de influentes sectores da opinião internacional, muito    especialmente no mundo anglo-saxónico. «Essas doutrinas», observava Andrade,    «postas em prática, terão como resultado a perda das nossas colónias, porque    tendem, como já tenho manifestado o receio, a, deixando-nos as colónias, nos    porem em circunstâncias de nelas não podermos viver» (p. 123).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ora, para limitar o alcance da nova ortodoxia (políticas comerciais de «porta    aberta», primazia do bem-estar das populações indígenas, escrutínio ou mesmo    controlo supranacional das administrações coloniais), Portugal acabou por ter    mais sorte do que noutras ocasiões em que a reforma dos impérios esteve na ordem    do dia, e a sua «tutora», a Grã-Bretanha, se encontrou no outro lado da barricada    (<i>vide </i>a polémica em torno da abolição do comércio esclavagista). Com    efeito, tão arreigada se tornara a convicção de que os recursos imperiais eram    vitais para a recuperação europeia, que praticamente não houve margem para que    as doutrinas do <i>trusteeship</i>, já para não falar dos ideais de autodeterminação    promovidos pela retórica wilsoniana, se generalizassem para lá dos territórios    transformados em mandatos da SDN. E de resto, o facto de algumas dessas ideias    terem ganho reconhecimento acabou por não ser inteiramente negativo para um    pequeno país como Portugal. Boa parte das manobras que belgas, sul-africanos    ou italianos esboçaram em Paris, com o intuito de lhe subtrair parte dos seus    territórios em África, foi mal acolhida pelos decisores britânicos, para quem    esse género de iniciativas pertencia a uma fase ultrapassada do imperialismo    europeu. A legitimidade do controlo de territórios, populações e recursos na    Ásia e na África pelos ocidentais não era questionada, mas havia agora a convicção    generalizada de que essa dominação teria de assumir outras modalidades, e levar    em conta um novo caderno de encargos em relação aos «povos submetidos».</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A <i>HUBRIS </i>DE AFONSO COSTA</b></p>     <p>Se até Março de 1919 a delegação portuguesa parecia sensível à vantagem de    não exorbitar as suas reivindicações, com a substituição de Egas Moniz por Afonso    Costa, na sequência do regresso do Partido Democrático ao poder, todo o sentido    de moderação se perdeu. A actuação do carismático líder republicano em Paris    é um dos principais aspectos tratados no excelente ensaio que Filipe Ribeiro    de Meneses lhe dedica, um livro originalmente escrito para uma colecção de perfis    biográficos dos principais estadistas da Conferência de Paz de Paris, que uma    editora britânica lançou há pouco tempo. </p>     <p>Se por vezes a distância temporal convida à reavaliação de figuras controversas,    noutros casos a passagem do tempo pode ter o efeito contrário. É o que se passa    com Afonso Costa. Meneses não procede aqui a um ajuste de contas póstumo, nem    dá demasiado crédito às campanhas negativas que ajudaram a construir a «lenda    negra» do líder democrático. Mas a sua excelente discussão de algumas das opções    políticas fundamentais de Costa não deixa margem para uma qualquer reabilitação    da sua actuação política. Ele emerge destas páginas como um tribuno de excepção,    um virtuoso da manobra partidária, mas, simultaneamente, um político incapaz    de construir o tipo de consensos e compromissos sem os quais nenhum projecto    de fôlego pode singrar. Em apenas sessenta páginas, Meneses consegue contextualizar,    de forma admiravelmente concisa, a ascensão e o apogeu político de Afonso Costa    no Portugal do início do século XX. Baseando-se em fontes de arquivo pouco exploradas    (a sua correspondência familiar, por exemplo), devolve-nos o retrato de um tacticista    consumado, persistente e combativo como poucos, mas incrivelmente egocêntrico    e, sobretudo, incapaz de aprender com os seus erros. </p>     <p>Figura de proa dos primeiros governos da República, Costa deixou o seu nome    associado a alguma da legislação mais polémica do regime, como os decretos anticlericais    de 1910 e a célebre Lei de Separação da Igreja e do Estado de 1911. A fuga para    a frente era o seu modo de operação natural. Perante as adversidades, parecia    acreditar que apenas subindo a parada se daria a indispensável separação de    águas, a definição clarificadora de «amigos e inimigos» (havia qualquer coisa    de schmittiano na sua maneira de actuar!). A sua aposta na participação portuguesa    na guerra europeia continua a desafiar qualquer tentativa de explicação baseada    em critérios de racionalidade, sobretudo se tivermos em conta que em 1916 eram    já patentes os efeitos calamitosos do conflito nos vários países beligerantes.    As circunstâncias dramáticas em que foi afastado do poder em Dezembro de 1917,    na sequência do golpe sidonista, não o motivaram a empreender qualquer espécie    de exame introspectivo. Uma vez restaurado o domínio dos democráticos, Costa    voltou igual a si próprio – voluntarioso, aguerrido e autocentrado. Como Meneses    sugere, a liderança da delegação portuguesa à Conferência de Paz oferecia-lhe    uma oportunidade única para tentar um regresso triunfal à ribalta política.    A máquina do Partido Democrático e o diário <i>O Mundo </i>davam-lhe todo o    apoio que precisasse para capitalizar no plano doméstico os seus putativos êxitos    em Paris. Mas a sua tarefa estava muito longe de ser fácil, por mais hábeis    que os seus correligionários na imprensa fossem a manipular as expectativas    junto da opinião pública portuguesa.</p>     <p>Como principal rosto da estratégia intervencionista, Costa teria de demonstrar    que os terríveis sofrimentos e privações a que o País fora sujeito desde 1916    poderiam, de alguma forma, ser compensados pelos dividendos da paz. Ora, isso    só poderia ser alcançado colocando mais alta a fasquia dos objectivos nacionais    em Paris. Em vez de delinear prioridades, optou por jogar em várias frentes,    quase sempre com pretensões exorbitantes. Embora tenha apreendido a importância    da sugestão que os britânicos ofereceram a Portugal, no sentido de adoptar um    figurino de governação imperial mais condizente com as expectativas criadas    face à «missão civilizadora» das potências europeias (e daí o seu empenho na    aprovação urgente do regime dos altos-comissários para Angola e Moçambique),    envolveu-se numa luta inglória por um mandato sobre uma das ex-colónias africanas    da Alemanha. Com uma reputação péssima como administrador colonial, uma campanha    militar desastrosa em Moçambique, e sem quaisquer argumentos plausíveis para    reclamar uma parte da «pele do urso», Portugal pôs-se a jeito para uma nova    ronda de comentários cáusticos. No fim, Costa teve de se contentar com a restituição    de Quionga que, com espantosa desfaçatez, a imprensa democrática tratou de celebrar    como uma assinalável vitória. Outros reveses foram&#8209;se sucedendo – a tentativa    de suscitar a questão de Olivença, os magros ganhos na distribuição de algum    material de guerra alemão, o chumbo a uma participação portuguesa na força de    ocupação do Sarre e, sobretudo, a não eleição para o Conselho Executivo da SDN    (porventura a derrota mais amarga de Costa). Houve um esforço para escamotear    alguns destes dissabores e transformar a neutralização de certas ameaças em    vitórias diplomáticas (as ambições sul-africanas sobre Lourenço Marques, por    exemplo, foram apresentadas pelo líder democrático como «um terrível perigo,    que por si só justificaria a nossa participação na guerra», p. 96), mas um político    experiente como Costa sabia que não seria com esses argumentos que a sua estrela    poderia recuperar algum brilho. </p>     <p>Em virtude da dramática situação financeira do País, a sua grande aposta passou    a incidir na obtenção de reparações significativas junto da Alemanha. A percentagem    que conseguiu garantir no final (0,75 por cento do total das indemnizações alemãs)    foi, justamente, apresentada como a coroa de glória da actuação portuguesa em    Paris. E, de facto, é difícil não reconhecer nessa manobra o talento de um grande    advogado, que Costa indiscutivelmente era. Simplesmente, como a investigação    de Meneses demonstra, até essa vitória se revestiria de um carácter eminentemente    pírrico, na sequência das atribulações que marcaram os pagamentos das indemnizações    impostas à Alemanha de Weimar. Por conseguinte, a sinuosa aplicação do Tratado    de Versalhes acabou por negar a Costa o ensejo de regressar à política nacional    pela porta grande (desejo que tendeu a atenuar-se após a «Noite Sangrenta» de    1921 e uma série de trapalhadas financeiras em que, inadvertidamente, se viu    envolvido). A Némesis do regime que ajudou a fundar chegaria alguns anos mais    tarde, sob a forma de um pronunciamento militar onde, ironicamente, se viria    a destacar um dos comandantes do CEP – a grande aposta política de Afonso Costa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Cf. FERREIRA, José Medeiros    – <i>Portugal na Conferência da Paz. Paris 1919</i>. Lisboa: Quetzal, 1992.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000033&pid=S1645-9199201000040001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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