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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Brazil lives a particular moment of political and economic stability, seldom seen in its history, resulting from a process initiated with the democratization of the country. This article analyses how Lula and the PT after gaining power implemented their agenda of economic and social transformation. It argues that the reflexes of these practices allowed foreign policy to, in several instances, compensate for the fragilities of the PT’s strategy, serving as its ideological counterweight.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A democracia brasileira nos anos Lula</b><a name="top0"></a><a href="#0">*</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>André Lacerda</b></p>     <p>Jornalista formado pela UFMG. É analista de conjuntura política e económica    do Instituto Teotônio Vilela, órgão de formação política do Partido da Social    Democracia Brasileira (PSDB). Foi subsecretário da Casa Civil do Governo do    Estado de São Paulo. Assessorou as campanhas presidenciais do PSDB em 2002 e    2010. Autor de Brasil Real – 50 Leituras da Conjuntura Econômica nos Anos Lula.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>RESUMO</p>     <p>O Brasil vive um momento de rara estabilidade política e económica, poucas    vezes visto na sua história, resultado de um processo iniciado com a democratização    do país. O artigo analisa como Lula e o PT depois de chegarem ao poder puseram    em prática a sua agenda política de transformações económicas e sociais. Argumenta    também que os reflexos daquela prática permitiram que a política externa de    Lula se movesse, muitas vezes, de modo a compensar as fragilidades da estratégia    do PT e servindo-lhe de contrapeso ideológico.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Brasil, democracia brasileira, Lula da Silva, Partido    dos Trabalhadores</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Brazilian democracy in Lula’s years</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>     <p>Brazil lives a particular moment of political and economic stability, seldom    seen in its history, resulting from a process initiated with the democratization    of the country. This article analyses how Lula and the PT after gaining power    implemented their agenda of economic and social transformation. It argues that    the reflexes of these practices allowed foreign policy to, in several instances,    compensate for the fragilities of the PT’s strategy, serving as its ideological    counterweight.</p>     <p><b>Keywords:</b> Brazil, Brazilian democracy, Lula da Silva, Workers’ Party</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O Brasil experimenta um momento de rara estabilidade política e econômica,    com vigor poucas vezes visto na sua história. Não é algo que começou a ser construído    no passado recentíssimo. Trata-se de processo iniciado a partir da redemocratização    do país, ocorrida em 1985 após o Brasil ter atravessado vinte e um anos sob    regime militar. São, portanto, duas décadas e meia de sucessivos avanços e que    ora encontram seu sereno estuário.</p>     <p>O Governo de Luiz Inácio Lula da Silva valeu-se sobejamente das condições favoráveis    que o processo histórico lhe legou. Recebeu uma «herança bendita» de conquistas    incrementais alcançadas ao longo dos mandatos de quatro presidentes da República:    José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso    – mais notadamente nos dos dois últimos, quando se obteve a sonhada estabilização    da moeda. </p>     <p>No final do seu mandato, em 2010, as forças políticas brasileiras relevantes    comungam valores e princípios. O sistema político e econômico brasileiro exibe    vitalidade e, sobretudo, amadurecimento. Há amplo consenso em torno de preceitos    como a estabilidade econômica, a responsabilidade fiscal e o respeito à democracia.    Nem sempre foi assim: ora os partidos de esquerda não viam na inflação um mal    a ser extirpado, e tampouco aceitavam sem ressalvas o sistema democrático representativo,    ora os partidos mais conservadores dobravam-se ao jugo autoritário. </p>     <p>Vale recordar que, ao longo do transcorrer do século passado, os períodos de    normalidade política e econômica foram sempre espasmódicos no Brasil. O país    atravessou oito anos de ditadura sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, entre    1937 e 1945, e, após um breve interregno, em 1964 novamente sucumbiu a um período    sem liberdades democráticas que perduraria até 1985. Por tudo isso, cabe festejar    os bons ventos da nossa história recente: democracia com prosperidade econômica    e estabilidade social.</p>     <p>É abismal a diferença entre o Brasil de hoje e o Brasil de alguns anos atrás.    A primeira conquista relevante foi a da liberdade política, após mais de duas    décadas sob o tacão militar. Mesmo assim, ainda demoraria mais quatro anos até    que os brasileiros reconquistassem o direito de escolher seu próprio destino    e voltar a eleger diretamente seu presidente, o que só veio a ocorrer em 1989.    Eleito na ocasião, o tumultuado Governo de Fernando Collor de Mello acabou resultando    no primeiro <i>impeachment</i> imposto a um presidente brasileiro. O Brasil    parecia ter dificuldade para deixar de flertar com o caos.</p>     <p>Surpreendentemente, esta trágica ruptura serviu para confirmar e reforçar os    compromissos democráticos do país. Collor foi constitucionalmente destituído    e deu lugar a seu vice-presidente, Itamar Franco, sem que o país experimentasse    qualquer sobressalto institucional. Coube a Itamar aprofundar algumas das acertadas    reformas iniciadas pelo Presidente afastado, como a abertura da economia, e    lançar as bases para o maior feito da história recente do país: a estabilização    econômica, iniciada em 1994.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Capitaneado por Fernando Henrique Cardoso (FHC), então ministro da Fazenda    de Itamar, o Plano Real mostrou-se um sucesso, pondo fim à série de mais de    uma dezena de tentativas dolorosamente frustradas de domar a renitente inflação    brasileira. Já como Presidente eleito, sucedendo Itamar, FHC empreendeu uma    gestão que reformulou por completo os marcos institucionais do Brasil. Realizou    um governo de profundas reformas estruturais que transformou o país e deu-lhe    uma nova agenda econômica e social.</p>     <p>Passados quinze anos da conquista da estabilidade, uma geração inteira no Brasil    não faz a mais pálida ideia do que é viver num país com inflação galopante.    Nunca é demais relembrar qual era o quadro vigente no país antes do Plano Real.    Em 1993, o custo de vida subira 2,489 por cento no país; depois disso, chegou    a um máximo de 22 por cento e há sete anos não ultrapassa um dígito. A atual    moeda, o real, é o décimo padrão monetário brasileiro. Sua adoção foi precedida    de um duro ajuste nas contas públicas e uma criativa engenharia que pôs fim    à indexação que grassava no país. Tamanho sucesso rendeu a Fernando Henrique    seu primeiro mandato e a reeleição quatro anos depois.</p>     <p>Eleito depois de três tentativas fracassadas, o sindicalista Luiz Inácio Lula    da Silva encontrou um país preparado para enfrentar novos desafios e alçar voos    mais altos. Foram as condições privilegiadas que, dia após dia, os governos    que a antecederam construíram que permitiram à gestão petista levar adiante    seu projeto de inclusão social – algo que, graças também à extraordinária circunstância    mundial até 2008, mostrou-se muito bem-sucedido. </p>     <p>O sucesso do momento econômico vivido hoje pelo Brasil é digno de nota. Afora    tropeços como a recessão de 2009, o país experimenta um ciclo de expressivo    crescimento, que neste ano deve culminar com uma expansão do PIB de mais de    sete por cento. Mesmo com a extrema liberalidade do Governo Lula em relação    aos gastos do Estado, o défice público mantém-se em níveis comportados e a inflação    tem estado dentro dos limites estipulados por meio do regime de metas que vigora    no país desde 1999.</p>     <p>Mais relevante, contudo, é a expressiva melhoria nas condições de vida de uma    larga parcela da população. Estima-se que 32 milhões de brasileiros tenham ascendido    à classe C desde 2004. Este estrato social passou de 43 por cento da população    para pouco mais de 53 por cento. (Os levantamentos são da prestigiosa Fundação    Getúlio Vargas.) Ou seja, estatisticamente o Brasil tornou-se um país de população    majoritariamente de classe média, embora isso ainda seja uma realidade distante    na sua dimensão social: o país está longe de alcançar níveis de educação e conhecimento    que historicamente caracterizam este segmento. </p>     <p>A questão a avaliar é como o Governo de Lula usufruiu das singulares condições    deste espetacular momento histórico do país. Um aspecto esclarecedor merece    relevo: se a pirâmide social brasileira ganhou perfil mais parecido com o das    nações mais ricas, a concentração de renda mantém-se elevadíssima aqui. Segundo    a ONU, no Brasil o índice de Gini encontra-se em 0,56: apenas outros seis países    estão em pior situação. Uma chaga que continuou vergonhosamente aberta nos últimos    anos. </p>     <p>Alçada ao poder sob a promessa da mudança e da transformação social, a gestão    do PT tinha a seu alcance plenas condições de injetar na vida brasileira o viço    da renovação e da ética com que o partido acenara ao longo dos vinte e dois    anos em que lutou para chegar ao comando da nação. A experiência acumulada nos    anos do Governo de Lula permite concluir que o petismo esteve longe de preencher    as expectativas.</p>     <p>O ponto a analisar é de que maneira, uma vez instalados no poder, Lula e o    PT puseram em prática sua agenda política e de transformações econômicas e sociais.    Que resultados efetivos legarão à nação, na forma de arcabouços que permitam    ao país continuar a avançar? Especificamente no contexto das discussões do referido    colóquio, que reflexos esta prática teve na política externa de Lula? Ver-se-á    que esta se moveu, muitas vezes, de maneira a compensar as fragilidades daquela;    serviu-lhe de contrapeso ideológico.</p>     <p>Foi notável o conservadorismo que dominou o governo do outrora progressista    Partido dos Trabalhadores. Isso se deu em duas frentes fundamentais: na economia    e nas relações políticas entre o PT e seus muitos aliados, uma extensa gama    de apoios urdidos supostamente para garantir a governabilidade do país, mas    que se notabilizou por apenas organizar-se para repartir o butim de benesses    públicas entre si. </p>     <p>Ao chegar ao poder, o partido de Lula aposentou a retórica revolucionária que    lhe serviu de mote desde a sua fundação, em 1980. Para a sorte do país, os fundamentos    econômicos foram preservados, mantendo intactos os esteios antes demonizados    pelo petismo e enfeixados sob o impreciso rótulo do «neoliberalismo». Neste    aspecto, foi ótimo que o PT tenha agido assim: qualquer alternativa distinta    possivelmente teria posto o país no caminho da desintegração.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas foi na prática política que o PT conseguiu ser lamentavelmente retrógrado.    O Governo de Lula protagonizou o maior escândalo de corrupção da história brasileira,    o chamado mensalão. O esquema de compra de apoio parlamentar envolveu os maiores    próceres do petismo, a ponto de implodir nomes que sempre figuraram como prováveis    sucessores naturais de Lula – como o então todo-poderoso ministro José Dirceu,    posteriormente cassado pelos seus pares do Congresso – e fiéis escudeiros do    Presidente desde a época das vacas magras da oposição, como Luiz Gushiken e    José Genoino.</p>     <p>Muitos, mais notadamente no exterior, têm a impressão de que o único escândalo    de corrupção no Governo Lula é o do mensalão. Nada mais falso. A corrupção é    endêmica e, sob o pt, espraiou-se pelo organismo estatal com desenvoltura há    muito tempo não vista. Desde que Lula chegou ao poder, nove dos seus ministros    já foram exonerados por uso indevido de dinheiro público. Antes dissimulada,    a partilha clientelista de poder hoje é escancarada nas páginas dos jornais,    sem qualquer constrangimento por parte dos comensais governistas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>CARISMA E POPULARIDADE</b></p>     <p>O Presidente Lula desfruta hoje das mais altas taxas de popularidade que um    chefe de Estado brasileiro jamais conseguiu alcançar – pelo menos desde que    institutos de pesquisa começaram a aferir este indicador. Em maio de 2010, 76    por cento dos brasileiros julgavam o Governo dele ótimo ou bom, segundo o instituto    Datafolha. No início do mandato, após a comoção que representara a sua vitória    nas urnas, Lula dispunha de 43 por cento de aprovação. </p>     <p>São raros os casos de desempenhos assim: desde 2005, ano da grave crise política    do mensalão, quando praticamente todo o primeiro escalão do Governo do PT sucumbiu    ante os escândalos de corrupção, a curva positiva de Lula não parou de subir    e, faltando apenas um semestre para que ele encerre seus oito anos de gestão,    mantém-se nas alturas.</p>     <p>Entre os que desaprovam o Governo, somam cinco por cento os que o consideram    ruim ou péssimo – metade da marca de oito anos atrás. Perfazem 19 por cento    os que julgam a atual Administração regular. A pergunta que fica é: o que faz    a gestão de Lula tão bem avaliada?</p>     <p>A resposta não está em eventuais avanços na educação, na saúde ou na segurança    (as duas últimas ainda as principais preocupações manifestadas pelos brasileiros    em pesquisas de opinião), nem na melhoria das condições de infra-estrutura que    permitam ao país crescer mais. A resposta está no bolso dos nossos cidadãos:    há atualmente mais renda disponível, seja por meio do crescimento da economia,    seja por causa das políticas assistenciais. Há, portanto, muito mais consumo.</p>     <p>No primeiro trimestre deste ano, a economia brasileira cresceu 2,7 por cento    em relação ao trimestre anterior. Quando anualizada, a taxa equivale a dizer    que o país avança ao ritmo de 11,2 por cento ao ano, nível claramente impraticável    nas nossas atuais condições de infra-estrutura e capacidade produtiva. Estudo    recente mostra que, comparado a outros 20 países com os quais concorre no mercado    global, o Brasil ficou apenas na 17.ª colocação no quesito qualidade geral da    infra-estrutura. Seus portos são os piores do mundo, ferrovias e rodovias beiram    a decrepitude.</p>     <p>Ao avanço econômico se somam agressivas políticas assistenciais, dos quais    o principal destaque é o programa Bolsa Família, que distribui dinheiro a famílias    pobres. Neste ano, o governo federal irá repassar R$ 13,4 bilhões (algo como    5,7 bilhões de euros) a 12,7 milhões de famílias. O custo da medida em proporção    do PIB (0,4 por cento) é pequeno e os resultados têm sido positivos, embora    dificilmente garantam a emancipação dos beneficiários.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para os que estão no mercado de trabalho, a gestão atual manteve em marcha    uma vigorosa política de recuperação do salário mínimo: o crescimento real,    acima da inflação, chega a 53 por cento desde 2002, segundo o Dieese. Registre-se    que nem o Bolsa Família, nem o aumento repetido do piso salarial foram exclusividade    deste Governo. </p>     <p>Tais práticas iniciaram-se na gestão anterior, de Fernando Henrique Cardoso,    e apenas foram ampliadas com Lula: nos oito anos do Governo social-democrata,    o salário mínimo, por exemplo, já se expandira 48 por cento além da inflação.    Já o Bolsa Família apenas reuniu iniciativas preexistentes como o Bolsa Escola    (destinado a estimular a freqüência escolar), o Bolsa Alimentação (que cobrava    do beneficiário o cumprimento de medidas preventivas de saúde) e o Auxílio Gás    (que subsidiava o insumo para famílias pobres).</p>     <p>Este longo histórico de políticas sociais favoráveis e ganhos econômicos reflete-se    no <i>boom</i> de consumo que hoje assola o Brasil. Na média nacional, o crescimento    chega a 11 por cento nos últimos 12 meses. Mas nos estados mais pobres da Federação,    a taxa beira espantosos 20 por cento anuais. Trata-se, ressalte-se, de situação    que já vem se repetindo há anos, ou seja, não é mero espasmo ou bolha. Com dinheiro    no bolso, emprego farto e salários em alta, o brasileiro consome como nunca.    O reflexo na aprovação de Lula é direto e imediato.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>«NUNCA ANTES NESTE PAÍS»</b></p>     <p>Isto fornece uma pista do que é o Brasil de hoje: uma soma dos avanços obtidos    após a estabilização da economia e a realização de reformas estruturais (como    a redefinição do papel do Estado, a modernização produtiva e a reorganização    das contas públicas) pelo Governo de Fernando Henrique aliados à força do empuxo    da economia da China, hoje principal destino das exportações brasileiras e principal    parceiro comercial do Brasil, à frente até dos Estados Unidos. Este é o arcabouço    histórico, econômico e institucional que permitiu a Lula executar sua exitosa    política social e galgar os mais altos níveis de popularidade que se tem notícia    no país.</p>     <p>Nesta atmosfera, navega o Governo brasileiro a bordo de um vistoso, mas irrealista,    discurso progressista: Lula e seus seguidores não se cansam de bradar que «nunca    antes neste país» se viu tamanha prosperidade. Tenta a ladainha oficial fazer    crer que a história brasileira começou em 1 de janeiro de 2003, exato dia da    posse de Lula. Desdenha-se solenemente do passado e dos imensos sacrifícios    empreendidos pela sociedade brasileira nos anos que precederam o atual momento.    É enorme, porém, a distância entre discurso e realidade. </p>     <p>É imperativo lembrar alguns dos profundos ganhos obtidos pela sociedade brasileira    nos anos que precederam a chegada do PT ao poder. A estabilização é, certamente,    o maior deles. Equivale a uma profunda revolução social, uma vez que eram justamente    as camadas mais carentes as mais penalizadas pela inflação acelerada: os mecanismos    de indexação monetária existentes na economia brasileira garantiam proteção    à renda das classes média e alta, mas não aos pobres, que não tinham acesso    ao sistema bancário. </p>     <p>Uma vez derrotada a inflação, foram enfrentados os ralos por onde os recursos    públicos escorriam, enfrentando uma secular chaga do Estado brasileiro. Abriram-se    as portas do país para o ingresso do capital privado, investido notadamente    em setores nos quais o monopólio estatal só servia para asfixiar o nosso desenvolvimento.</p>     <p>Os resultados se fizeram sentir em diversas áreas da economia. Nas telecomunicações,    vital para o desenvolvimento no novo século, o Brasil experimentou um salto    sem precedentes, que possibilitou que virtualmente toda a nossa população passasse    a dispor de telefonia, um luxo de privilegiados há pouco mais de dez anos. Hoje    há mais celulares habilitados no país do que habitantes. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Modernizada, a indústria siderúrgica ganhou vigor que a ajudou a projetar-se    mundialmente. O país tornou-se exportador relevante de artigos de ponta, como    aeronaves e automóveis, e nossa principal empresa, a Petrobras, dobrou sua produção    em menos de oito anos. É interessante registrar que, agora, uma das ex-gigantes    estatais brasileiras transformada em potência privada, a Embraer, começa a internacionalizar-se    e prepara-se para investir 148 milhões de euros em duas fábricas de aeronaves    em Évora, Portugal.</p>     <p>Se na economia o discurso do PT é nada mais que fantasioso e enganador, maior    ainda é a distância entre o que diz e o que pratica na política. A eleição de    Lula foi marcada por enorme expectativa, misturada à esperança de renovação    e de injeção de ética na política. Quando era oposição, o PT dizia que queria    «acabar com tudo o que está aí». A chegada do partido ao poder deu-se com base    em teses incendiárias, que pregavam a «ruptura» com o passado – teses estas    atenuadas por compromisso firmado às vésperas da eleição de 2002 com a preservação    dos pilares da economia de mercado e o respeito aos contratos, enfeixado na    chamada «Carta ao Povo Brasileiro».</p>     <p>«Mudança», pregava Lula ao iniciar seu discurso de posse na Presidência da    República em 1.º de janeiro de 2003. Mas o partido que se preparou durante vinte    e dois anos para assumir o poder em nada aperfeiçoou a política brasileira.    Mudou pouco, ou quase nada, o <i>status quo</i>. Pior: ressuscitou as piores    práticas de exercício do poder, o compadrio político, o clientelismo; deu vida    nova a carcomidas lideranças partidárias comprometidas unicamente com o atraso.    Precisava ser assim? Certamente não. </p>     <p>Lula contou, durante todo o seu governo, com apoio parlamentar maciço no Congresso.    De todos os partidos com representação no Parlamento, apenas cinco não se alinharam    automaticamente ao Governo: PSDB, DEM, PPS, PV e PSOL – este, o único a lhe    fazer oposição pela extrema esquerda. Mesmo neste reduzido grupo, muitos parlamentares    não se negaram a associar-se ao Governo do PT para aprovar projetos defendidos    na gestão social-democrata de Fernando Henrique, como foi o caso da reforma    da Previdência. E mesmo os verdes ocuparam um ministério, o da Cultura, durante    todo o mandato de Lula.</p>     <p>Tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, a bancada governista    só fez crescer desde 2003 e nunca representou menos que 60 por cento dos componentes.    Com tamanho predomínio, Lula poderia ter feito o que bem entendesse. Mas não    fez – para o bem e para o mal. O Presidente respeitou a Constituição, não incorreu    em aventuras personalistas. Mas igualmente não cumpriu a agenda de transformações    a que se propôs quando eleito. Os últimos oito anos no Brasil são órfãos de    reformas institucionais ou da adoção de práticas modernas de gestão. Nisso,    o país estagnou.</p>     <p>Em muitas ocasiões ao longo destes últimos anos o que se viu foi apenas um    Governo em busca de <i>slogans</i> e motes para o seu <i>marketing</i>, como    foram os casos do Fome Zero e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).    Ambos espalhafatosos, mas ambos de raro conteúdo. O impulso dado ao Bolsa Família    cumpriu, inclusive, a função de preencher o vazio deixado pelo fracassado Fome    Zero, lançado logo nas primeiras horas da gestão Lula, mas que não logrou qualquer    êxito.</p>     <p>A carteira de empreendimentos do PAC alcança R$ 656 bilhões (algo como 280    bilhões de euros), mas, passados mais de três anos desde seu lançamento, foram    concluídas pouco mais de 40 por cento das obras previstas para o quadriênio    2007-2010, de acordo com os balanços oficiais. Se a avaliação for mais rigorosa,    o percentual não chega à metade disso. </p>     <p>Além disso, a despeito da massiva propaganda em torno do PAC, praticamente    não se verificou mudança nos patamares de investimento público no país depois    que o programa foi lançado, em janeiro de 2007: os níveis mantiveram-se ao redor    de um por cento do PIB. Ademais, nossa taxa de formação bruta de capital fixo    continua baixíssima, em torno de 18 por cento do PIB, quando se sabe que é necessário    elevá-la a no mínimo 25 por cento para que o Brasil alcance níveis de desenvolvimento    próximos aos experimentados por nações da Ásia, para ficar apenas num exemplo    mais factível.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>PROJETO DE PODER</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Embora os programas assistencialistas de Lula representem a continuação das    ações da gestão que o precedeu (como já foi aqui dito, o Bolsa Família nada    mais é que a junção, potencializada, de outras bolsas antecedentes), há uma    diferença gritante entre eles. Os programas sociais de FHC baseavam-se no cumprimento    de contrapartidas por parte dos beneficiários: freqüência à escola, cuidados    com saúde, nutrição e vacinação, entre outros. O objetivo era dotar os mais    pobres de uma melhor condição de vida, de maneira a conduzi-los à conquista    da autonomia; abrir-lhes uma janela de oportunidade que lhes permitisse livrar-se    de vez da pobreza.</p>     <p>As ações de Lula – apesar de muito eficientes num certo sentido, porque alcançam    quase todo o universo de brasileiros carentes – mantêm os pobres atendidos na    dependência do Estado. Isso não é segredo: o Governo do PT sabe da parca força    emancipadora de suas políticas assistenciais, mas não parece ligar. Reiteradas    vezes o Governo do PT foi alertado para isso, mas sempre deu de ombros, deixando    claros seus princípios. Transparece o desejo petista de manter a tutela estatal    sobre o povo.</p>     <p>A observação da prática política petista ao longo dos anos em que o partido    está no comando permite concluir que o PT tem um projeto de poder, mas não um    projeto de país. A extensa coligação montada para sustentar Lula ilustra-o.    Alianças são necessárias para governar, mas para quê o PT fez as suas? O PT    cooptou – e continua a cooptar – as forças políticas, inclusive, e principalmente,    as mais conservadoras, com práticas fisiológicas. Em nome de quê? De uma agenda    de avanços para o país? Qual? Nenhuma, é a resposta.</p>     <p>A ampla aliança política em torno de Lula serviu apenas para sustentar o Governo,    ampliar as relações promíscuas entre Estado e setor privado, aumentar o tamanho    da máquina pública e subjugar instituições republicanas aos desígnios do poder    central. Com o peso de sua retaguarda parlamentar, o Governo de Lula arrostou    órgãos de fiscalização e controle e desdenhou da Justiça brasileira – por meio,    inclusive, de seguidas transgressões eleitorais, que chegaram a render-lhe multas    pecuniárias. </p>     <p>Os anos recentes têm servido para hipertrofiar o Estado brasileiro, ao mesmo    tempo em que se cria um «capitalismo estatal» em que os donos do poder elegem    os beneficiários das benesses públicas. Montou-se um balcão de negócios em que    à distribuição de incentivos públicos corresponde, como contrapartida, o apoio    dos agentes privados para financiar o projeto petista de poder. </p>     <p>Vários foram os exemplos em que isso se deu, tendo no Banco Nacional de Desenvolvimento    Econômico e Social (BNDES) seu principal artífice. O Governo Lula meteu-se a    criar uma superempresa de capital nacional que se tornou quase monopolística    na telefonia; irrigou com farto financiamento público consórcios para construção    de usinas hidrelétricas; e tenta agora a todo custo viabilizar um trem de alta    velocidade que por quaisquer parâmetros técnicos não para nos trilhos.</p>     <p>Esta perspectiva nos permite apontar uma diferença marcante entre a Administração    Lula e o Governo que a precedeu: gostasse-se ou não dela, a gestão social-democrata    tinha um rumo claro. Havia uma agenda explicitada voltada às reformas estruturais    e ao aperfeiçoamento institucional do país. Aquele Governo herdou a nação com    um enorme histórico de passivos a serem enfrentados e enfrentou-os, com maior    ou menor grau de sucesso.</p>     <p>Fernando Henrique redefiniu o papel do Estado por meio de um programa de privatizações,    mas não deixou de arbitrar as disputas de mercado, instalando as agências reguladoras.    Ampliou a abertura da economia brasileira ao exterior e perseguiu novos acordos    comerciais. Combateu, frontalmente, o desarranjo nas contas públicas com a aprovação,    em 2000, da Lei de Responsabilidade Fiscal. Enfrentou o endividamento das unidades    subnacionais, promovendo a renegociação de dívidas mobiliárias de estados e    grandes municípios. Reduziu o tamanho da máquina pública, diminuindo o contingente    de funcionários públicos.</p>     <p>O resultado disso é que, ano após ano, o país foi conseguindo reconstruir a    normalidade política e econômica de que há décadas não desfrutava. Precedida    das conquistas logradas desde a redemocratização em 1985 e radicalizadas a partir    da estabilização da moeda, alcançada com o Plano Real em 1994, a situação positiva    e a relativa estabilidade dos dias atuais é o desaguadouro destes avanços sucessivos.  </p>     <p>Mas, infelizmente, o PT não aceita que seja apenas parte desta evolução. Requer    para si o papel de protagonista privilegiado e exclusivo do processo de transformações.    É, pois, esta a razão do seu mote permanente: de que está, agora, a fazer o    que nunca antes foi feito no país. Além disso, os partidários do lulismo cultivam    uma incômoda convivência com a crítica. Abominam o contraditório, atribuindo-o    a quem, supostamente, não se conforma com as transformações sociais em marcha    no país. Insuflam inimigos imaginários que servem para dar sentido à sua luta    política: ora a imprensa, ora as elites econômicas (que nunca estiveram tão    satisfeitas quanto agora), ora as «instâncias burguesas» de representação.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os meios de comunicação foram uma das vítimas prediletas do Governo petista.    A principal razão é que, com sua incomum capacidade de dirigir-se ao povo, o    principal mandatário da nação julgou que poderia – e, mais que isso, deveria    – prescindir da intermediação da imprensa. Com a elite econômica satisfeita    com os dividendos que Lula lhe proporcionava, a mídia tornou-se, assim, o ponto    de encontro das vozes de crítica e oposição ao estado das coisas. O Governo    do PT não a perdoou. Afinal, como todos os antigos vilões da história demonizados    pelos petistas (como os banqueiros, os usineiros e os coronéis dos grotões)    estavam aboletados a seu lado no poder, restava apenas a imprensa para Judas.</p>     <p>Foram reiteradas as vezes em que a gestão Lula tentou impor mecanismos de controle    da atividade jornalística. Logo no início do mandato presidencial buscou-se    criar um conselho federal para «orientar, disciplinar e fiscalizar» a atividade    jornalística, com poderes, inclusive, para punir e cassar registros profissionais.    Bombardeada pela opinião pública, a proposta foi derrotada no Congresso, mas    nunca deixou de frequentar corações e mentes petistas contrariados com o que    a mídia publica – o que não se aplica, claro, aos casos em que o noticiário    é favorável ao Governo. </p>     <p>Não parou por aí. Lançando mão de uma legislação da época da ditadura, que    servira, inclusive, para punir Lula quando ele era apenas um líder sindical,    o Governo do PT ameaçou expulsar um jornalista estrangeiro do país, numa atitude    inédita na nossa democracia. O pecado capital de Larry Rohter, correspondente    do <i>New York Times</i>, foi ter publicado uma reportagem desabonadora sobre    os excessos do Presidente em relação ao consumo de álcool – assunto que sempre    frequentou as conversas da corte de Brasília. (Em livro em que aborda o episódio,    o jornalista sustenta que a real motivação teria sido outra: o incômodo do PT    em relação a reportagens que fizera mostrando a ligação entre a morte de Celso    Daniel, prefeito e prócer do partido, e o farto desvio de recursos públicos,    envolvendo gente muito próxima a Lula).</p>     <p>Este é o amálgama da ação política do Governo de Lula: de um lado, a ressurreição    de práticas fisiológicas de convivência partidária e um convívio despreocupado    com atos de corrupção; de outro, a reiterada tentativa de reescrever a história,    sem aceitar-se como parte de um processo de ganhos progressivos. A completa    aversão a críticas completa o quadro. Sem dúvida, uma postura extremamente retrógrada,    distante dos ideais que no passado moveram seus seguidores – e que terá seus    reflexos na política externa, como se verá logo adiante. </p>     <p>O comportamento atual dos partidários de Lula não é, porém, prática recente.    Ao longo dos anos em que fez renhida oposição a quem ocupava o poder, o PT mostrou    pouco apreço pelos avanços democráticos e institucionais experimentados pela    sociedade brasileira. A lista é longa.</p>     <p>O partido negou-se a votar em Tancredo Neves no colégio eleitoral por ocasião    da votação que pôs fim aos vinte e um anos de ditadura militar, e ainda expulsou    seus parlamentares que apoiaram o Presidente eleito. Em seguida, negou-se a    assinar a Constituição que nos rege desde 1988. Negou-se a apoiar o Governo    de Itamar Franco após o <i>impeachment</i> de Fernando Collor em 1992 e ainda    expulsou seus filiados que o fizeram, da mesma forma como agira com Tancredo.    Negou-se a apoiar o Plano Real, que, em 1994, estabilizou a economia brasileira    após várias tentativas frustradas. Votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal,    que, em 2000, impôs rigor ao trato dos recursos públicos (não satisfeito, o    partido foi ao Supremo Tribunal Federal para tentar derrubar a lei, numa ação    que até hoje não foi julgada). </p>     <p>Cada um destes momentos foi capital para o aperfeiçoamento e o amadurecimento    institucionais do país. E em todos eles o PT opôs-se ao consenso vigente em    torno do avanço. Porquê?, hão de perguntar os que não acompanham de perto o    desenrolar da política brasileira. Porque a prática política de Lula e de seu    partido sempre se orientou pela conquista do poder, jamais pela busca do bem    comum. Já no poder, o PT admitiu que muitas das bandeiras que desfraldou nos    anos em que esteve na oposição não passavam de «bravatas» – como um líder do    partido se referiu às tresloucadas propostas defendidas pelos petistas apenas    para azucrinar e desestabilizar governos de seus adversários. Legítimo concluir    que foi um partido que sempre atuou contra o país.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>CONTRAPESO IDEOLÓGICO</b></p>     <p>Há quem propugne que a política externa de Lula manteve a mesma linha praticada    pela gestão social-democrata de Fernando Henrique Cardoso. Não nos parece ser    o caso. Nos últimos oito anos houve mais rupturas do que continuísmos. E isto    tem muito a ver com a questão política interna do Brasil: as ações da diplomacia    lulista serviram de contrapeso ideológico ao conservadorismo do Governo petista.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tornou-se evidente a opção do Itamaraty pelas relações Sul-Sul, a aproximação    a potências emergentes, em detrimento do aprofundamento de laços com as nações    mais ricas. A diplomacia de Lula buscou ser protagonista tanto entre os vizinhos    latino-americanos, quanto entre as economias em desenvolvimento. Relegou seus    tradicionais e mais robustos parceiros comerciais – os Estados Unidos e a União    Européia – a enésimo plano.</p>     <p>Não parece ter colhido grandes resultados. O exemplo mais evidente talvez seja    dado pela formação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), proposta lançada    pelos Estados Unidos ainda nos anos Bill Clinton/Fernando Henrique. Tão logo    ascendeu ao poder, o PT passou a firmemente bombardeá-la até conseguir finalmente    sepultá-la. A resistência brasileira, conduzida pela diplomacia lulista, foi    fundamental para o enterro da ALCA. Mas o que o país ganhou com isso?</p>     <p>Os exportadores brasileiros viram estreitar-se o espaço desfrutado pelos seus    produtos no mercado americano, em favor de concorrentes diretos como a China.    Numa época em que o comércio global acelerou-se, a participação do Brasil nos    principais mercados mundiais não avançou um milímetro. Nos últimos oito anos    foi tímida a expansão das exportações nacionais e cada vez maior a sua concentração    em produtos de menor valor agregado. O país andou para trás.</p>     <p>A opção preferencial pelas relações Sul-Sul, numa ressurreição da carcomida    diplomacia de viés terceiro-mundista, levou o Brasil a fechar somente dois acordos    comerciais ao longo de oito anos de Governo Lula. Envolveram Israel e Egito,    atores de pouca relevância no jogo do comércio global. Para comparar: desde    2002, México e Chile negociaram, respectivamente, 42 e 45 acordos de livre comércio.</p>     <p>É certo que o Brasil ampliou a sua presença nos foros globais da política internacional,    notadamente após a criação do G20, do qual o Itamaraty foi um dos principais    artífices. Mas é igualmente verdadeiro que esteve longe de lograr sucesso nos    principais objetivos a que sua diplomacia se impôs – notadamente obter assento    permanente no Conselho de Segurança da ONU. Saiu igualmente fracassado ao tentar    arbitrar conflitos históricos, como o de palestinos e israelenses, ou altamente    explosivos, como o que envolve iranianos e americanos. Viu frustrada sua pretensão    de liderar os países do continente latino-americano sem a sombra dos Estados    Unidos.</p>     <p>Mais desabonador foi a sem-cerimônia com que, sob Lula, o país aprofundou a    relação com regimes não-democráticos ao redor do globo. O Brasil sempre teve    histórico pacifista e manteve fortes ligações com governos que rezam pela mesma    cartilha de não-agressão e o respeito à democracia. Mas, em seu «nunca antes    neste país», o lulismo optou por outra trilha: a da reiterada reverência a regimes    ditatoriais ou, na melhor das hipóteses, a de omissões igualmente ignominiosas    a violações de direitos humanos ao redor do mundo.</p>     <p>São vários os exemplos: Cuba, onde, conivente com a ditadura castrista, o Presidente    brasileiro comparou presos políticos a bandidos das falanges brasileiras; Venezuela,    onde mantém aliança incondicional ao proto-ditador Hugo Chávez; Irã, onde hipotecou    apoio ao ditador Mahmoud Ahmadinejad ao mesmo tempo em que se recusou a criticar    a truculência empregada por aquele regime contra seus opositores, bem como seu    envolvimento na fabricação de artefatos atômicos; e Sudão, cujas infames campanhas    de «limpeza étnica» e suas milhares de mortes jamais foram condenadas pela diplomacia    de Lula.</p>     <p>Mas, se não logrou bons resultados comerciais nem conquistou o protagonismo    com que sonhava na arena global, o que terá a diplomacia lulista alcançado?    Parece claro que é o público interno que lhe interessa. A política externa de    Lula preenche o vazio ideológico de sua ação partidária atual e da falta de    ousadia da sua política econômica. </p>     <p>Na retórica diplomática, onde não cabe tudo, mas aceita muito, o Governo eleito    para realizar a primeira experiência de esquerda no Brasil acomodou a frustração    de seus tradicionais seguidores. O PT no poder alinhou-se a governos de países    pobres que mereciam ser condenados por suas práticas execráveis, ao mesmo tempo    em que sugeria que dava as costas às nações ricas. Para serenar a ultrapassada    esquerda brasileira, bastou ser antiamericano da boca para fora. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O PIOR LEGADO</b></p>     <p>O PT chegou ao poder vinte e dois anos depois de fundado – seu principal oponente,    o PSDB, levou seis. O Governo Lula era, portanto, alvo de enorme expectativa:    nos padrões de conduta, nas prioridades de ação e na ética, ainda que as práticas    anteriores do partido no comando de estados e municípios já deixassem antever    que esta crença na honestidade era falsa.</p>     <p>Já no início do Governo, o PT mostrou que a esperança depositada no petismo    deveria se frustrar. Ficou claro que o partido não pretendia se indiferenciar    em relação às piores práticas da política brasileira: construiu alianças nada    programáticas com as forças políticas mais atrasadas do país, ressuscitando    personagens antes tratados como inimigos figadais pelos petistas. </p>     <p>Com a descoberta do mensalão, a compra reiterada de apoio parlamentar com uso    de recursos públicos, a promiscuidade ficou escancarada. O PT descia aos mais    baixos níveis da política brasileira. Mas como agiu o partido diante deste fato?    Disseminou a tese de que todos são iguais nos malfeitos. Apostou no nivelamento    por baixo das forças políticas.</p>     <p>O próprio Presidente da República endossou e encampou a tese segundo a qual    «se todos fazem, por que não o PT?». Isso se espraiou pelo discurso de seus    seguidores, num momento em que Lula quase se viu ferido de morte e o projeto    de poder do PT esteve ameaçado de derrocada. Mas o Presidente conseguiu se recuperar    e conquistar um segundo mandato. O preço foi pago pelo país na forma de indesejável    retrocesso político, no qual ainda estamos mergulhados.</p>     <p>Líder político de carisma ímpar, Lula não se satisfez com os dois mandatos    que a Constituição brasileira lhe permite exercer. Jogou-se sem pejo na luta    pela eleição de seu sucessor. Inaugurou a prática do «dedazo», tão ao gosto    do Partido Revolucionário Institucional e suas décadas de hegemonia política    no México no século passado, na política brasileira e escolheu uma disciplinada    auxiliar para disputar a cadeira que por oito anos ocupou. </p>     <p>Para isso, Lula não se importa em afrontar as regras. Fez isso ao longo dos    últimos anos, pondo seu Governo a serviço da eleição de sua ministra da Casa    Civil, Dilma Rousseff, que jamais disputou uma eleição e era até pouco tempo    atrás uma completa desconhecida dos brasileiros. Já durante o período eleitoral    dobrou sua aposta e pôs todo o seu peso na campanha, desdenhando as proibições    legais: com poucos meses de disputa, o Presidente da República do Brasil foi    multado cinco vezes pela Justiça Eleitoral por ter feito propaganda indevida    de sua candidata. Que exemplo dá Lula? </p>     <p>Sob o manto protetor da popularidade sem precedentes, Luiz Inácio Lula da Silva    age como se pairasse acima do bem e do mal. Seus atos acabam por transmitir    à sociedade uma espécie de salvo-conduto para o erro, uma aprovação prévia ao    malfeito, uma leniência ante os desmandos e uma condescendência com quem age    fora da lei. Este é o pior legado da era Lula. Uma herança maldita que nem seus    malabarismos retóricos, seu desprezo pelo processo histórico, suas tentativas    de reescrever o passado, sua atrasada prática política e sua lamentável forma    de se relacionar com as demais nações do mundo são capazes de dissimular. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><a name="0"></a><a href="#top0">*</a> O presente artigo resulta da comunicação    proferida nos XVII Cursos Internacionais de Cascais realizados entre 21 e 26    de Junho de 2010 no Centro Cultural de Cascais, e organizados pela Câmara Municipal    de Cascais e pelo IPRI – UNL.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000103&pid=S1645-9199201100010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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<conf-name><![CDATA[ XVII Cursos Internacionais de Cascais]]></conf-name>
<conf-date>21 e 26 de Junho de 2010</conf-date>
<conf-loc>Cascais </conf-loc>
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