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</front><body><![CDATA[ <p><b>Comunidades há muito imaginadas</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pedro Picoito</b></p>     <p>Doutorando em História Medieval. Professor no Instituto Superior de Educação    e Ciências. Investigador do Instituto de Estudos Medievais.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Patrick Geary</p>     <p><i><b>O Mito das Nações. A Invenção do Nacionalismo</b></i></p>     <p>Lisboa, Gradiva, 2008, 204 páginas</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n29/n29a14i1.jpg" width="159" height="232"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>No conjunto da obra do medievalista americano Patrick Geary, <i>O Mito das    Nações</i> – subintitulado com mais rigor, no original de 2002, <i>The Medieval    Origins of Europe</i> (as origens medievais da Europa) – é um livro algo exótico.    Geary, professor na Universidade da Califórnia e muito próximo da escola francesa    dos <i>Annales</i>, tem dedicado a sua investigação a temas como a memória (é    autor da entrada respectiva no <i>Dictionnnaire de l’Occident Médiéval</i> de    Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt), os rituais da morte, o culto das relíquias    ou os mecanismos extrajudiciais de resolução de conflitos nas sociedades do    Centro da Europa entre os séculos V e XII. Embora sempre tenha mostrado um claro    interesse pelas origens «bárbaras» das actuais Alemanha, França ou Itália, só    dois dos seus artigos anteriores anunciavam a tese d’<i>O Mito das Nações</i><a name="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a>.    Uma tese que Geary resume com visível sentido de urgência: </p>     <p>     <blockquote>«Os povos europeus foram sempre muito mais mutáveis, complexos e dinâmicos    do que os nacionalistas modernos supõem. Ao cabo de mil anos, os nomes dos povos    podem parecer-nos familiares, mas as realidades sociais, culturais e políticas    às quais se referiram diferem radicalmente das actuais. Por esta razão, precisamos    de uma nova compreensão dos povos da Europa, sobretudo da época de formação    da identidade europeia que foi o primeiro milénio» (p. 20).</blockquote>     <p></p>     <p>É essa compreensão que Geary nos oferece.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O MITO DAS ORIGENS</b></p>     <p>O que é que leva um especialista em cartulários e santos medievais a intervir    com tanta veemência numa das mais inflamadas questões do debate político contemporâneo?    O «abuso da história» a que recorrem hoje muitos líderes, partidos ou movimentos    nacionalistas da Europa para alimentar a «retórica do nacionalismo étnico» e    as correspondentes políticas de exclusão. Geary cita explicitamente Jean Marie    Le Pen, defensor do «povo francês que nasceu com o baptismo de Clóvis no ano    de 496», e Slobodan Milosevic, que em 1989 chefiou uma gigantesca manifestação    no Campo dos Melros, onde seis séculos antes se dera a mais célebre batalha    entre sérvios e turcos pela posse do Kosovo. Mas os exemplos poderiam multiplicar-se,    da Escócia à Grécia e do País Basco à Lituânia, até com curiosos paralelismos    no Canadá francófono e na América que vocifera contra hispânicos e muçulmanos.  </p>     <p>Esta retórica nacionalista costuma invocar um «momento da primeira posse da    terra» em que os antepassados dos povos europeus, algures entre as invasões    germânicas que provocaram a queda do Império Romano e as últimas grandes migrações    de magiares e normandos por volta do ano 1000, teriam ocupado o seu território    histórico. O pecado original de semelhante visão é procurar no passado não apenas    a história, mas a essência das nações modernas. Surpreendente paradoxo, tendo    em conta que a história é o estudo da mudança no passado. O «ídolo das origens»,    na expressão de Marc Bloch, que descobre a essência de uma identidade colectiva    em acontecimentos ocorridos há mil e quinhentos anos não passa, portanto, de    puro, mas nada inocente, anacronismo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Daí que Geary analise os processos de etnogénese na Alta Idade Média, mostrando    como as identidades colectivas à época, sobretudo aquelas em que os nacionalistas    contemporâneos baseiam as suas «políticas de identidade», são muito mais flexíveis    do que pensamos. Não só os vencedores de Roma estavam longe de constituir as    unidades políticas, culturais e étnicas sugeridas pelos nomes que lhes damos    por empréstimo das fontes romanas, como a identidade dos «bárbaros», pelo menos    até à instalação definitiva que podia demorar séculos, era um processo de permanente    composição, negociação e adaptação às circunstâncias. É esta plasticidade que    explica o repentino aparecimento e o não menos repentino desaparecimento dos    hunos, federação de tribos nómadas que chega ao coração da Gália e se desfaz    após a derrota dos Campos Catalaúnicos em 451. Ou a divisão dos godos em dois    povos, os visigodos (godos do Oeste) e os ostrogodos (godos do Este), de acordo    com os diferentes rumos geográficos dos supostos irmãos desavindos. Ou a assimilação    dos suevos católicos da Hispânia pelos visigodos arianos que os derrotam, no    século vi, antes de estes se converterem também ao catolicismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REUNIDOS PARA PILHAR</b></p>     <p>Por outras palavras, os povos bárbaros raramente teriam uma consciência muito    definida de si próprios e menos ainda uma consciência «nacional». Na maior parte    dos casos, eram um <i>melting pot</i> de clãs, tribos e indivíduos, reunidos    por um chefe militar carismático para pilhar em efémeras expedições as ricas    terras do Império moribundo. O exemplo dos hunos de Átila é o mais espectacular,    mas não é o único. Por vezes, chefes hábeis conseguiam criar um sentido de comunidade    ocupando por tempo suficiente um território, quase sempre graças a alianças    e casamentos com a aristocracia local, reclamando um nome e uma história comuns    por referência a um antepassado mítico, unificando costumes pela publicação    de leis escritas e pela conversão ao catolicismo (óbvias influências romanas)    e, sobretudo, intitulando-se reis e transmitindo o título e o poder aos descendentes,    aspirações com frequência votadas ao insucesso. Se triunfassem, porém, estas    frágeis dinastias poderiam dar origem aos chamados reinos bárbaros. Alguns,    como o dos suevos na Península Ibérica, o dos ostrogodos na Itália ou o dos    vândalos no Norte da África, tiveram uma vida breve. Outros, mercê da sorte    ou da força humana, acabaram por converter-se nas estruturas políticas dominantes    dos séculos seguintes. Os reinos anglo-saxões da Grã-Bretanha durariam até à    conquista normanda de 1066 e a Hispânia visigótica até à invasão árabe de 711.    O mais bem-sucedido será o reino franco, que atravessa a história nas sucessivas    metamorfoses de Clóvis, Carlos Magno, São Luís e Napoleão, até chegar aos comícios    de Le Pen. </p>     <p>Geary insiste, contudo, que a continuidade étnica, cultural ou política entre    os reinos medievais e as nações modernas que lhes sucedem no mesmo espaço é    historicamente problemática. São os intelectuais do romantismo, os criadores    da «paisagem envenenada do nacionalismo do século XIX», que projectam no passado    as pátrias actuais. «A história real das nações que povoavam a Europa na Alta    Idade Média não começa no século VI, mas sim no século XVIII.» Para ilustrar    esta frase provocatória, Geary faz uma comparação literalmente deslocada com    os zulus. Tal como os godos ou os hunos, também a história deste povo sul-africano    nos é contada por observadores estrangeiros que lhes atribuem as suas próprias    categorias sociais. Tal como os francos de Clóvis, também o seu apogeu se deve    a um chefe triunfador que une todo o povo e vence os inimigos, Shaka-Zulu. E,    tal como os sérvios de Milosevic, também o seu passado é invocado como um factor    de legitimidade e identificação, antes e depois do <i>apartheid</i>, por uma    comunidade étnico-política, o Inkhata. A ironia da comparação obriga a olhar    para «os europeus como zulus» e a compreender que as nações não são essências    definidas de uma vez para sempre, mas antes, para usar o conceito luminoso de    Karl Popper, sociedades abertas cujo futuro não é tributário de nenhum determinismo.    «A história dos povos da Europa não terminou – nunca terminará», observa Geary.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A PERENIDADE DAS PAIXÕES NACIONALISTAS</b></p>     <p>Contestando o valor histórico do «ídolo das origens» do nacionalismo, Geary    parece compartilhar as celebérrimas teses de Benedict Anderson e Eric Hobsbawm,    que vêem precisamente na modernidade a característica básica das «comunidades    imaginadas» e da «invenção da tradição». No entanto, como vimos, o historiador    americano não subscreve o optimismo dos britânicos quanto ao aparente declínio    das paixões nacionalistas no século XX. A história das comunidades nacionais,    por mais mítica que seja, é parte integrante e fundamental da imagem que têm    de si próprias e, portanto, daquilo que querem ser. Com enormes implicações.  </p>     <p>     <blockquote>«Seria absurdo sugerir que estas comunidades devessem ser rejeitadas    ou trivializadas ou insinuar que “imaginadas” é sinónimo de “imaginárias” ou    “insignificantes”. Em primeiro lugar, embora as actuais formas específicas de    estados-nação com base étnica possam de facto ter sido criadas pelos esforços    dos românticos e nacionalistas do século XIX, isso não significa que no passado    não tenha havido outras formas de inventar nações – tão poderosas como as do    mundo moderno, apesar de muito diferentes. […] Em segundo lugar, estas sociedades    são muito reais e poderosas, apesar do seu carácter de certa maneira imaginado:    todos os fenómenos históricos importantes são em certo sentido fenómenos psicológicos    e os fenómenos mentais – do extremismo religioso às ideologias políticas – custaram    provavelmente a vida a mais pessoas do que qualquer outra coisa, exceptuando    a Peste Negra» (pp. 24-25).</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>     <p>Hobsbawm e Anderson explicam-nos a criação dos nacionalismos contemporâneos,    mas nada nos dizem sobre os fragmentos históricos contidos na ideia mais influente    do nosso tempo. E muito menos o que fazer com eles. Uma dúvida para a qual os    líderes políticos nacionalistas têm, infelizmente, resposta pronta. Ao contrário    da Peste Negra, tudo indica que o mito das nações continuará a ser uma das paisagens    envenenadas do século XXI. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <!-- ref --><p><a name="1"></a><a href="#top1"><sup>1</sup></a> «Ethnic identity as a situacional    construct in the Early Middle Ages». In <i>Mitteilungen der anthropolisgischen    Gesellschaft in Wien</i>, 113, 198), pp. 15-26; «Barbarians and ethnicity».    In BROWN, Peter (ed.) – <i>Late Antiquity</i>. Cambridge MA, 1999. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000037&pid=S1645-9199201100010001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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