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</front><body><![CDATA[ <p><b>Uma certa percepção das relações internacionais. Entrevista com Robert Jervis</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bruno Cardoso Reis</b></p>     <p>Licenciado e mestre em História (Faculdade de Letras de Lisboa). Tem o mestrado    em Historical Studies pela Universidade de Cambridge (2003). É doutor em Segurança    Internacional (War Studies, King’s College) desde 2008, com a tese Big Armies    and Small Wars. Em 2007 publicou Salazar e o Vaticano, que recebeu os prémios    Vítor de Sá e Aristides de Sousa Mendes. É actualmente investigador no ICS –    UL e investigador associado do King’s College, sendo membro do cehr – UCP, do    IISS e da APCP.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Continuamos esta série de entrevistas com uma conversa com Robert Jervis (Nova    York, 1940), que tem um BA do Oberlin College e um doutoramento da Universidade    da Califórnia-Berkeley; foi professor na Universidade da Califórnia e em Harvard,    e é actualmente Adlai E. Stevenson Professor of International Affairs na Universidade    de Columbia em Nova York. Foi presidente da Associação Americana de Ciência    Política e dirige a colecção de estudos de segurança da Cornell UP, sendo membro    do conselho editorial de variadas publicações de referência e autor de mais    de 100 artigos e outros textos.</p>     <p>Entre os seus livros podem destacar-se: <i>Why Intelligence Fails: Lessons    from the Iranian Revolution and the Iraq War</i>, Cornell UP, 2010; <i>American    Foreign Policy in a New Era, </i>Routledge, 2005; <i>System Effects: Complexity    in Political and Social Life</i>, Princeton, 1997; <i>The Meaning of the Nuclear    Revolution</i>, Cornell, 1989; <i>Perception and Misperception in International    Politics</i>, Princeton, 1976; <i>The Logic of Images in International Relations</i>,    Columbia, 1989. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Bruno Cardoso Reis [BCR]</b></i> &gt; <i>Estamos a iniciar uma série    de entrevistas para procurar tornar o campo das relações internacionais (RI)    mais acessível num país onde a disciplina não tem grande tradição. Se tivesse    de advogar em favor das RI, qual seria a mais-valia que apontaria relativamente    à história diplomática tradicional ou à análise mais corrente da política externa?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Robert Jervis [RJ]</b> &gt; Bem, de facto o estudo ao nível universitário    da política internacional derivou em parte do estudo da história e em parte    do estudo do direito internacional. Continuo a pensar que, sem qualquer dúvida,    a história internacional é absolutamente essencial para o estudo da política    internacional, pois até certo ponto a situação em que estamos, e também para    onde iremos, está relacionada com o nosso passado. Por outro lado, a disciplina    de política internacional não se deve limitar aos acontecimentos recentes, devendo    procurar explicar padrões da política internacional ao longo da história. Mas    fazêmo-lo muito bem, embora de forma relativamente diferente dos historiadores.</p>     <p>A força e a fraqueza dos historiadores é que na sua preocupação com as especificidades    do caso histórico que estão a estudar, não se preocupam muito em ver como ele    se enquadra com padrões mais genéricos, sendo que esta sua preocupação muito    acentuada com uma cronologia específica tem vantagens mas também desvantagens    analíticas. Os historiadores não se preocupam realmente com testar proposições,    não aderem a esse tipo de rigor analítico. Não é essa a sua formação, e não    é essa a sua inclinação. Nós estamos muito mais preocupados com relações de    causalidade, e para o fazer temos de adoptar uma postura disciplinar de ciência    social. Os historiadores não vêem as coisas dessa forma<a name="top1" id="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a>.</p>     <p>Um bom exemplo desta diferença no quadro do trabalho que tenho feito é um capítulo    do meu livro <i>Perception and Misperception</i> relativamente à forma como    as pessoas aprendem lições da história, que é também o tema do livro de Ernest    May, <i>«Lessons» of the Past</i><a name="top2" id="top2"></a><a href="#2"><sup>2</sup></a>.</p>     <p>Ora, o livro de May é muito bom, mas ele nunca tenta realmente estabelecer    mecanismos de causalidade, enquanto no capítulo do meu livro tentei saber de    forma tão cuidadosa quanto possível, quais eram os indícios de que as lições    retiradas de eventos passados realmente eram causais e não uma simples racionalização    <i>a posteriori</i>. Portanto os investigadores em RI estão dispostos a distanciar-se    mais dos casos, a abstrair-se muito mais de casos específicos de forma a aplicar    métodos de análise mais rigorosos de maneira a procurar obter generalizações.    Para o fazer estamos dispostos a perder parte, na verdade muita, da rica especificidade    de casos particulares. Os historiadores, por uma questão de gosto reforçada    pela sua formação profissional, não estão disponíveis para aceitar essa opção.    Preferem fazer a opção inversa. Não digo que isso seja ilegítimo, simplesmente    afirmo que há diferenças significativas que resultam do tipo de pesquisa que    se procura fazer. </p>     <p>Estas diferenças explicam, portanto, porque é que a política internacional    é autónoma da história como disciplina, não digo que seja melhor ou pior, apenas    afirmo que é diferente. Há os que preferem uma destas formas de aprender e compreender    as coisas, e há os que preferem a outra.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Qual é do seu ponto de vista a chave para se fazer    boa investigação em relações internacionais, qual é o segredo?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Bem, como estamos precisamente no processo de selecção dos nossos    estudantes de mestrado e doutoramento é algo que tenho muito presente, não sei    se é propriamente um segredo, mas uma condição importante é uma enorme curiosidade:    Porque é que isto acontece assim? Porque é que se verifica este padrão? Tendencialmente    vemos guerras quando há estabilidade ou instabilidade ao nível da política interna?    Como se explicam certos comportamentos animais e será que têm correspondência    no passado humano? Portanto, o que é indispensável é uma forte curiosidade e    originalidade – estar disposto a ter em consideração o trabalho de outros, percebê-lo    a fundo, mas também dizer: «Esperem lá! Toda a gente diz que é assim, mas eu    penso que isto pode não estar totalmente correcto!» </p>     <p>Exige igualmente, diria, uma capacidade analítica de recuo, de aplicação de    um nível relativamente elevado de abstracção na utilização de ferramentas de    análise.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR </b></i>&gt; <i>Tende a ser definido como sendo um realista; aceita    essa etiqueta? Como é que definiria o seu trabalho?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Considero que termos como realista, construtivista ou liberal    têm significado substantivo, categorizam tipos de abordagem e argumentos, e    há quem possa ser situado claramente numa destas categorias. Mas há outros que    fazem trabalhos de tipo diferente, movimentam-se, de facto, entre uma e outra    categoria, e considero que é assim no caso do meu trabalho.</p>     <p>De facto, eu concordo com os realistas quanto ao facto de que a anarquia é    um dado muito importante e que os estados são determinados por uma preocupação    com a segurança (assim como, clara e frequentemente, pelo desejo de expansão);    e considero o dilema da segurança como uma das explicações para muitos, mas    de forma alguma para todos os conflitos internacionais.</p>     <p>Por outro lado, há temas pelos quais me interessei, que os realistas tendem    a ignorar; por exemplo, quando trabalhei sobre a questão das percepções enganosas    e estudei de forma aprofundada os processos de tomada de decisão. A psicologia    política também me conduziu a temas que interessam aos construtivistas: Como    é que as pessoas vêem o mundo? Como é que são socializadas? Evidentemente que    este tipo de trabalho assenta na psicologia social, algo que muitos construtivistas    não reconhecem. Portanto, este aspecto do meu trabalho tem a ver com o simbólico    na política e a forma como as pessoas se socializam, temas a que o construtivismo    dá atenção.</p>     <p>Assim, muito do meu trabalho é realista, mas não todo, e isso não me preocupa    nada. Há quem afirme – de forma delicada em entrevistas, noutras ocasiões de    forma não tão delicada – que algumas afirmações minhas contradizem outras. Contradição    é talvez uma palavra demasiado forte mas há efectivamente coisas que seguem    em direcções diferentes. Alguns académicos excepcionais, como o meu colega Kenneth    Waltz, nem sempre fazem a mesma coisa, mas usam sempre o mesmo tipo de abordagem.    No entanto, mesmo Waltz tem um dos seus primeiros livros, que tende a ser ignorado,    sobre a relação entre política interna e política externa dos Estados Unidos.    Portanto, não sou o único a ter livros ou artigos diferentes que podem de certa    forma enquadrar-se em diferentes categorias.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Diria que o construtivismo constitui uma contribuição    positiva para o campo das RI?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RJ</b> &gt; No seu conjunto diria claramente que sim. Gosto de provocar    um pouco os construtivistas porque eles têm a pretensão de ser mais originais    do que realmente são. Também gosto de os provocar um pouco porque recusam reconhecer    o trabalho de algumas pessoas que lidaram com a dimensão cultural antes deles    e que eram politicamente conservadores. Ignoram esses trabalhos por razões políticas    ilegítimas, o que é um problema sério.</p>     <p>Também considero que há muito trabalho de construtivistas que não é tão claro    como devia ser, ou que é mesmo algo descuidado. Portanto, e tudo ponderado,    penso que o construtivismo trouxe contribuições importantes, e as críticas que    eu e muitos de nós fazemos são, creio, construtivas, isto é, procuram ajudar    a que este tipo de abordagem se torne mais rigorosa. Porém, por vezes, os construtivistas    parecem mais interessados em atacar os realistas e a razão porque o fazem é    porque pensam que muitos dos problemas do mundo derivam das ideias realistas,    e de que os realistas têm ensinado aos decisores muitas lições negativas, e    portanto os realistas têm causado muitos problemas com o que escreveram e ensinaram.    Eu creio que esta é uma ideia disparatada, porque os decisores que assistem    às nossas aulas – vários dos meus alunos têm vindo a desempenhar cargos governamentais    importantes – são pessoas habituadas a pensar pela sua própria cabeça. Por isso,    creio que a ideia de atribuir todos os males do mundo aos ensinamentos do realismo    resulta de uma visão excessivamente optimista do poder da sala de aula. Isso    leva alguns construtivistas a caminhos pouco recomendáveis.</p>     <p>Mas como disse, em termos genéricos o que gostaria era ver esse tipo de trabalho    melhorado e mais convincente. Dou pareceres relativamente a muitos artigos que    adoptam uma abordagem construtivista, e mesmo quando discordo de alguns pontos,    ainda assim muitas vezes recomendo a publicação.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Um dos argumentos dos críticos do realismo é que    mesmo em termos de segurança internacional – com o terrorismo, a guerra assimétrica    – é cada vez menos relevante, os próprios estados já não são tão relevantes    como antes, há outros actores.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Sim dizem isso. Com a guerra assimétrica os realistas podem    lidar sem problemas. Ainda que a verdade seja que ninguém lidou muito bem com    o tema, mas é algo de que estamos muito cientes e um antigo estudante meu que    agora está no Governo escreveu sobre as estratégias assimétricas da China. É    difícil, é difícil de analisar, mas não há nada que seja intrinsecamente inconsistente    com o realismo. É inconsistente com um realismo simplista que diz que basta    contar o número de tanques, e claro que esse é realmente um problema.</p>     <p>E os actores não estatais, para o bem e para o mal – ong que estão a fazer    um bom trabalho no mundo, o avanço dos movimentos dos direitos humanos, e os    terroristas. Aí penso que tem razão, são difíceis de ajustar no quadro do realismo,    no entanto, a análise de Pape do terrorismo suicida ajusta-se bem a uma abordagem    realista mesmo que seja, claro, questionável<a name="top3"></a><a href="#3"><sup>3</sup></a>.    Mas teremos de alargar o realismo de várias maneiras. Creio, em todo o caso,    que o realismo tenderá a ser relativamente céptico acerca do terrorismo e menos    susceptível a exagerar o poder dos terroristas. O que está correcto. Portanto,    creio que o realismo traz para esta questão um cepticismo saudável. Mas tem    razão, não é claro quando se quer ir para além deste cepticismo, até que ponto    as utensilagens realistas ainda são úteis.</p>     <p>Mas o liberalismo tem pouco a dizer a respeito do terrorismo, e o construtivismo    também tem pouco a dizer. E é por isso que quando se lê a literatura sobre o    terrorismo, e eu li bastante, ela tende a ser muito pouco teórica, porque nós    simplesmente não lhe conseguimos aplicar nenhuma ou quase nenhuma da utensilagem    teórica disponível. Temos de reflectir a respeito disto, que é um facto muito    importante, mas não é apenas o realismo que tem dificuldades em lidar com o    terrorismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Pensa que alguns dos conceitos fundamentais da teoria    das relações internacionais como o dilema de segurança, a dissuasão, ainda são    relevantes hoje?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Sim.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt;<i> Por exemplo, numa guerra civil?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Bem, há duas coisas. Quando analiso a política internacional,    em muitos casos estou interessado no que se passa hoje, mas também estou interessado    em factos do passado; enquanto disciplina ainda estamos a discutir sobre a I    Guerra Mundial, a Guerra Fria. Ainda recentemente a <i>International Security</i>    trazia um artigo sobre as causas que levaram as cruzadas a durarem tanto tempo<a name="top4" id="top4"></a><a href="#4"><sup>4</sup></a>.    Portanto, enquanto campo de estudo, as RI não estão obrigadas a seguir os acontecimentos    actuais, e consequentemente teriam uma função, mesmo que fosse verdade que esses    conceitos já não se aplicam actualmente. Não estou a pensar em fechar as portas    intelectualmente, e estou interessado em tentar perceber alguns padrões fundamentais    vindos do passado. Dito isto, ainda penso que se pode aplicar, nomeadamente    o dilema de segurança. Por exemplo, na questão fundamental das relações entre    os Estados Unidos e a Coreia do Norte e o Irão: trata-se de um dilema de segurança    ou não? A Coreia do Norte quer as suas armas nucleares <i>para quê</i>? E esta    é uma questão que coloco a amigos e antigos estudantes que se encontram no Governo    ou que eram mais belicistas do que eu relativamente à Coreia do Norte: É possível    convencer a Coreia do Norte a ceder a respeito das armas nucleares? Quais são    as garantias de segurança necessárias? Estas são questões em aberto. Não estou    certo de que o dilema de segurança se aplica, mas é com certeza uma questão    crucial, é um ponto de partida para a análise e a tomada de decisões, e o mesmo    se aplica ao Irão. Não estou de todo surpreendido que no Irão haja quem se preocupe    que nós ou os britânicos derrubemos o regime e não cumpramos integralmente acordos    firmados, pois foi algo que já fizemos no passado. Portanto, isso enquadra-se    no dilema da segurança. Algumas outras coisas não se enquadram, mas com certeza    que precisamos desses conceitos para construir uma argumentação.</p>     <p>A dissuasão continua a ser relevante nas relações entre potências como os Estados    Unidos e a Europa nas suas relações com a Rússia, ela reaparece nalgumas temáticas    novas e sob formas diferentes. Eu faço parte de uma comissão da National Academy    of Sciences a respeito dos conflitos no ciberespaço, da guerra no ciberespaço.    E o que estamos a discutir é quais são os conceitos – como o de dissuasão no    campo nuclear – que podem voltar a ser utilizados de forma útil? Claramente    não todos, alguns sim, outros não, mas estamos a debater-nos com isso, não temos    uma resposta clara. Mas creio que alguns ainda têm relevância, mas há que ter    o cuidado de não seguirmos a lei do martelo: se se dá um martelo a alguém, ele    ou ela passam a ver em tudo um prego que precisa de ser martelado. Quando desenvolvemos    conceitos ficamos ligados a eles; ora, há que ter o cuidado de não os utilizar    porque gostamos deles, porque nos são razoavelmente familiares.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Estou a trabalhar sobre a melhor forma de aplicar    a dissuasão à insurreição e contra-insurreição, portanto… Mas em termos dos    casos específicos que mencionou, nomeadamente o Irão, a Coreia do Norte, o Afeganistão    – no futuro próximo, como vê a evolução destes casos?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Oh, creio que é muito difícil saber. Na verdade, olhando para    trás é claro que há uma ruptura menor entre Obama e Bush do que muita gente    esperava. Parte da razão é que a muita gente escapou quanto Bush tinha mudado    no segundo mandato, particularmente nos últimos dois ou três anos – a verdadeira    ruptura é mais entre Bush, antes e depois de 2005, do que entre Bush e Obama.</p>     <p>Qual será a evolução futura? Depende muito do tipo de interacção, e novamente    sou pessimista, mas eu sou geralmente pessimista. Não creio que a estratégia    actual vá resultar no Afeganistão. Entrevejo algum potencial em conversações    com os taleban, mas não sou um perito [na região]. Conheço algumas pessoas que    seguem de perto a situação e mostram-se optimistas, mas eu estou pessimista,    apesar de desejar um resultado positivo.</p>     <p>Irão e Coreia do Norte parecem becos sem saída; mas por vezes a situação parece    estar parada e há coisas a acontecer nos bastidores, ou é o próprio impasse    que acaba por levar a mudanças, de forma que um ou ambos os lados são forçados    a movimentar-se. Portanto tenho algumas esperanças, mas não há muito que se    veja que o justifique. Estou desiludido que a Administração [Obama], inclusive    antigos alunos meus, não aceitasse a oferta do Irão para fazer uma troca de    20 por cento do material do reactor nuclear em fases. Creio que teria sido sensato    fazê-lo, creio que as razões contrárias não eram de todo convincentes. Mas não    fizemos, e entretanto a situação continuou a evoluir. Portanto, estou desiludido.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Olhando para o seu trabalho a respeito do dilema    da segurança, a dado momento menciona o facto de que pode haver um problema    se um dos lados se convencer de que o outro tem de alcançar um compromisso.    Pensa que isso se aplica a Obama, parte do seu problema é que ele está politicamente    obrigado a alcançar algum tipo de compromisso?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; No concreto [das negociações] não me parece. No caso do Irão    ele não cedeu muito. E creio que deveria tê-lo feito na oferta de acordo a respeito    da troca [de combustível nuclear], e não consigo realmente perceber porque é    que não o fez. Porém, Obama tem de parecer aberto a negociar com o outro lado,    e é possível que isto fosse visto como um sinal de fraqueza pelos norte-coreanos    e os iranianos. Falo disto no terceiro capítulo de <i>Perception and Misperception</i>,    modelo de dissuasão e espiral, como é possível cair-se nisso de uma maneira    ou de outra. Eu não penso que Obama tenha dado essa impressão. Mas, claro, nunca    sabemos como é que o outro lado percepcionou as coisas até termos acesso à sua    documentação. Portanto, é possível que sim, e sei que os falcões mais críticos    [de Obama] dizem isso mesmo. Apesar de não gostar disso, eles podem ter razão.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Em termos das relações entre os Estados Unidos e    a Europa, como é que vê o Ocidente a lidar com todas estas mudanças? Qual será    o futuro da NATO e da União Europeia (UE), e faz sentido a ideia de que a Europa    poderá torna-se uma grande potência…</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Bem eu tenho uma posição céptica. Gostaria muito que a Europa    se unificasse politicamente, pois do meu ponto de vista, ancorado no realismo,    seria desejável que a Europa fosse um parceiro forte dos Estados Unidos, o que    não acontece actualmente, e que fosse também um contrapeso dos Estados Unidos.    Se a Europa estivesse unida talvez os Estados Unidos não tivessem invadido o    Iraque. Portanto, gostaria muito de ver a Europa unida porque, como os bons    realistas dizem, como Ken Waltz disse e como Morgenthau disse, qualquer potência    que se encontra numa situação em que não encontra oposição externa vai fazer    coisas tresloucadas e desbragadas. É esse o facto crucial que nos transmite    o realismo. Waltz escreveu um artigo em 1991 quando toda a gente estava preocupada    com um retraimento dos Estados Unidos, e em que ele afirmava que a dado momento    os Estados Unidos iriam certamente fazer coisas tresloucadas e desbragadas,    ele colocou a questão usando termos mais elementares, mas o argumento no essencial    era o de que os Estados Unidos iriam fazer coisas tresloucadas porque não há    ninguém que o possa impedir. E tinha toda a razão. Portanto, eu gostaria de    ver a Europa unida. Mas não vejo sinais de que isso acontecerá no decurso da    minha vida, e espero ainda viver bastante tempo!</p>     <p>Portanto, as relações entre os Estados Unidos e a Europa são sempre relações    bilaterais com países específicos. Mas sei que há preocupações a esse respeito    do lado da Europa, alguém da UE vem falar comigo proximamente por causa disso.    E tenho visto as notícias, por exemplo a respeito do desapontamento com o facto    de Obama não ter ido à cimeira [UE-Estados Unidos]. Por muito que simpatize    com os europeus, e reconhecendo que viver com os Estados Unidos não é fácil,    os europeus são impossíveis de contentar. Os Estados Unidos ou fazem de mais,    ou fazem de menos.</p>     <p>O melhor exemplo disso é facto de que, no início da Administração Clinton,    [o Presidente] enviou o [secretário de Estado Warren] Christopher para consultar    os europeus a respeito da antiga Jugoslávia e Christopher disse: «Bem, estamos    a pensar levantar as sanções e atacar [lift and strike] mas antes disso queremos    realmente consultar-vos a respeito desta questão.» E eles disseram, «O que é    que isso quer dizer, afinal o que é que vocês vão fazer?» Christopher respondeu    «Estamos aqui para vos consultar!» E os europeus responderam: «Consultar? Mas    o que é que isso significa?»</p>     <p>Penso que foram adolescentes durante tanto tempo que se esqueceram do que fazer    com a sua independência, não conseguem. Os europeus estão, de certa forma –    vou ser realmente rude – psicologicamente diminuídos. E isso é mau para eles,    é mau para nós. E a pessoa que primeiro se apercebeu disso foi o Presidente    Eisenhower, que assumiu a presidência decidido a retirar as tropas norte-americanas    da Europa. E agora sabemos porque os arquivos estão abertos à consulta. É espantoso!    Nada disto era conhecido, e parte da razão tinha a ver com as despesas mas tinham    também muito a ver com ele achar: «Isto não é natural. Os europeus têm grandes    tradições, grandes capacidades e culturas, agora estão a recuperar, não precisam    de tropas norte-americanas, não deveriam precisar. Enquanto os Estados Unidos    lá estiverem eles nunca poderão recuperar o seu lugar natural no mundo.» Parte    da sua motivação era, portanto, altruísta, e penso que ele tinha razão. Tinha    razão antes do tempo. Creio que se tivéssemos deixado, a Europa nessa altura    teria tido todo o tipo de consequências negativas, muito negativas. No entanto,    no essencial ele tinha razão, mas não vejo como se conseguirá avançar nesse    sentido.</p>     <p>E portanto as relações entre os Estados Unidos e a Europa irão sempre envolver    algumas tensões, mas são as tensões normais numa família. Os interesses convergentes    são enormes, o nível de comunicações é enorme, e…</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Os valores partilhados…</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Sim, tudo isso tem um peso esmagador.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Os defensores de uma maior integração da UE por vezes    consideram que Berlin Plus está na raiz desse problema. Os norte-americanos    não nos deixavam avançar mais, dizem. Parece-lhe que faz sentido dizer isso?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Inicialmente é verdade. E é claro, como os documentos mostram,    que [George H. W.] Bush favoreceu a unificação da Alemanha e merece muito crédito    por isso. Ele e Clinton mostravam-se ambivalentes quanto a uma Europa como uma    potência realmente independente. E sempre seguimos esta linha de que no essencial    uma força [militar] europeia não deveria competir com e enfraquecer a NATO.    Mas mesmo que não tivéssemos tomado essa [posição], como sabe a política de    defesa e segurança europeia não avançou muito, e culpar os Estados Unidos por    isso é um erro, uma tese desse tipo seria risível. Se os europeus quisessem    realmente avançar, poderiam fazê-lo. E no contexto actual, creio que os Estados    Unidos dariam espaço para isso. Não desejaríamos dissolver a NATO, mas [nos    Estados Unidos] estaríamos disponíveis, creio, para apoiar uma maior independência    da parte da Europa, não nos oporíamos, porém não creio que vá acontecer, mas    com esta UE alargada não vejo, talvez com geometria variável mas será difícil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Em Portugal, e não só em Portugal, por vezes diz-se    que um problema com as RI é que se centram completamente nas grandes potências    … mas e a periferia, os estados mais pequenos?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Sim, sim, bem, como disciplina, tem razão, pelo menos no caso    da produção académica norte-americana, é dominada pelas grandes potências. Há    um pequeno conjunto de livros, muito pequeno, a respeito das pequenas potências,    livros que não são muito fortes analiticamente. Alguns são bons ao nível da    análise histórica, mas não é uma área de estudo significativa. Há um ou dois    livros [interessantes] a respeito de potências médias. O Barry Buzan está a    tentar olhar para regiões e isso funciona<a name="top5" id="top5"></a><a href="#5"><sup>5</sup></a>,    e o meu antigo colega Gregory Gause III tem um livro muito bom a respeito da    política internacional do golfo Pérsico<a name="top6" id="top6"></a><a href="#6"><sup>6</sup></a>.    Portanto, há alguma coisa, quer porque a maioria da produção académica das RI    é feita por norte-americanos, quer porque&nbsp;a disciplina se desenvolveu sobretudo    depois da II Guerra Mundial, assim como porque analiticamente é mais fácil criar    modelos abstractos do lado A e do B, é claramente verdade que muita da construção    teórica é predominantemente feita a respeito das grandes potências.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Teorias subalternas, parecem-lhe uma abordagem convincente,    ou…</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Bem, as teorias subalternas no campo cultural, francamente,    creio que são sobreavaliadas e pouco úteis. No campo mais político creio que    são úteis no sentido de que desvalorizámos ou estudámos pouco as pequenas e    médias potências. Creio que isso está a mudar até certo ponto. Mas estou convencido    de que devemos claramente fazer mais neste campo. Creio que a imagem que temos    é distorcida pelo que as teorias [das RI] são elaboradas tendo em vista as grandes    potências. E se em alguns casos podemos pegar nessas teorias e reduzir a escala    e trabalhar com elas, nem sempre isso é possível, a situação pode ser muito    diferente. E eu encorajaria a investigação nestas outras áreas, e o facto de    eu falar de outras áreas por si só é indicativo de que creio que o trabalho    realizado nelas não é significativo, nem em termos de qualidade nem em termos    de quantidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Relativamente ao seu trabalho actual, creio que acabou    de publicar algo a respeito do tema das falhas dos serviços de informações.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Sim, o livro já está impresso, e estará nas livrarias em Fevereiro    ou Março de 2010, e trata do tema das falhas dos serviços de informações.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Christopher Andrews afirmou numa conferência algo    como os serviços de informações britânicos acertaram a respeito do IRA provavelmente    qualquer coisa como 90 por cento das vezes, e que, em qualquer tipo de empresa,    isso seria visto como um enorme sucesso, e, no entanto, essa pequena percentagem    de casos ditos de falhanço das informações geralmente tem um impacto enorme    e suscitam muita recriminação.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Isso é realmente importante, falo um pouco disso no livro. Há    aqui um problema analítico muito sério quer para os investigadores, quer para    os decisores, quer para o processo de aprendizagem de lições pela própria comunidade    dos serviços de informação – fazemos por regra, quer internamente, quer externamente,    autópsias de falhanços. O capítulo mais longo do meu livro é uma autópsia que    eu fiz para a CIA a respeito do caso do Irão [em 1979] e que pôde agora ser    divulgado publicamente. E refiro-me a todas as autópsias que eles [na CIA] têm    feito. Eu e várias outras pessoas fizemos estas autópsias. Ora, do ponto de    vista analítico se se quer realmente perceber as razões de um fracasso só se    podem perceber quando comparamos sucessos com falhanços; e isso nunca foi feito.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Algumas das coisas que as pessoas apontam como razões para o falhanço das informações    a respeito do Iraque estão erradas, porque elas não comparam sucesso e falhanço,    mesmo no seio da comunidade das informações, apontam para explicações em termos    de teorias preconcebidas: por exemplo, porque é que a CIA não acertou a respeito    do material nuclear [no Iraque]? Ora, quando se lê a documentação que agora    é pública, é evidente que as pessoas que estavam em desacordo com essa ideia    o faziam porque também elas tinham fortes ideias preconcebidas. Portanto, do    ponto de vista analítico ambos os grupos estavam a agir da mesma maneira, um    estava certo, o outro estava errado, mas não se pode atribuir esse facto a [apenas    uns] estarem condicionados por preconceitos.</p>     <p>Nem sequer sabemos a percentagem de êxito dos serviços de informações. O seu    ponto é, portanto, inteiramente válido, mas claro que do ponto de vista político    são os falhanços que causam os grandes estragos… </p>     <p>Penso que a comunidade académica deveria estudar mais os serviços de informações    em geral, e agora como sabe há uma enorme quantidade de publicações, mas ainda    não a suficiente. A CIA publica livros sobre vários temas, e agora há muito    mais informações nos <i>website</i>, muito mais informações nos arquivos nacionais,    mas nada que se aproxime de uma imagem completa apesar da maior abundância de    informação. E há, agora, mais artigos que comparam o que se estava a fazer ao    nível da análise da informação do Estado, e o que se estava a fazer na mesma    altura a nível público.</p>     <p>Portanto, creio que o campo académico dos estudos das informações está a crescer.    O argumento do meu colega professor Betts é muito importante, e faço eco disso    no meu livro, que é o de que os falhanços [das informações] são mais prováveis    quando o outro lado é muito estranho<a name="top7" id="top7"></a><a href="#7"><sup>7</sup></a>.    Agora sabemos muito acerca da forma como Saddam Hussein via o mundo, e é realmente    muito louco.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Jogando jogos de dissuasão …</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Sim, e pensando que não iríamos atrás dele, o que é realmente    espantoso. Betts sublinha que as nossas teorias são construídas como generalizações    a partir dos casos normais, e os falhanços das informações acontecem quando    as generalizações não se aplicam. Penso que é inteiramente verdade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>No caso das informações a respeito do Iraque em 2002-2003    considera que se tratou de um erro genuíno?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Sim, eu dei uma entrevista há alguns meses atrás à televisão    pública canadiana, e eles eram mais antiguerra do que nós. O entrevistador era    muito bom, muito simpático, mas insistiu: «Acredita realmente nisso?» Eu tive    de afirmar para memória futura que considerava [George W.] Bush um péssimo presidente,    incrivelmente mau e, se se formasse uma fila de pessoas para criticar Bush,    eu ia querer estar à frente dessa fila, mas este falhanço da informação a respeito    das armas de destruição maciça não pode ser atribuído à pressão por parte dele    sobre a CIA.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR </b></i>&gt; <i>Está a referir-se à questão das armas de destruição    em massa, e não da alegada ligação do Iraque à Al Qaida?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; O que torna as coisas claras quando se olha para a questão como    um cientista social, é pensarmos em termos de comparações – em países que eram    contra a guerra, <i>e.g</i>., a França, as informações eram similares. E simultaneamente    a comunidade das informações nos Estados Unidos estava a dizer a Bush coisas    que ele não queria ouvir a respeito do terrorismo, e a respeito da reconstrução    [do Iraque] no pós-guerra. Portanto, damo-nos conta quando aplicamos um método    básico das ciências sociais e comparamos os casos – tal não prova que não havia    qualquer espécie de politização, mas levanta muitas dúvidas a respeito da presença    desta última, pelo menos até Outubro de 2002, depois da National Intelligence    Estimate ter sido apresentada, quando toda a gente percebeu que a guerra [com    o Iraque] estava iminente. A minha impressão é que a partir dessa altura as    informações deixaram de olhar para a questão a sério.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Uma das coisas interessantes a respeito das informações    é que pode dizer-se que há pessoas que acreditam demasiado nelas, ou então não    acreditam suficientemente nelas. Há quem acredite precisamente porque é suposto    ser informação secreta, outros pensam que precisamente por ser secreta é suspeita,    os homens das informações devem estar a tentar esconder alguma coisa…</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; A primeira parte do capítulo final do livro diz respeito às    tensões entre informações e tomada de decisões, e eu não coloquei a questão    nesses termos, mas talvez devesse tê-lo feito. Há poucos casos em que as informações    realmente mudaram muito as coisas. O meu amigo Richard Immerman escreveu um    artigo, o discurso como presidente [da Society for Historians of American Foreign    Relations], na <i>Diplomatic History</i>, dizendo que as informações, na verdade,    não eram assim tão importantes<a name="top8" id="top8"></a><a href="#8"><sup>8</sup></a>.    Isto causou um enorme escândalo porque na altura em que o texto foi publicado    ele estava já a desempenhar a função de Assistant Deputy Director of National    Intelligence for Analytical Standards and Integrity e as pessoas não gostaram    do artigo. E tivemos John L. Gaddis a dizer que não foram assim tão importantes    na Guerra Fria. Penso que é provavelmente um exagero dizer isso, mas é verdade    que efectivamente as informações secretas têm um <i>enorme</i> fascínio pelo    facto de serem secretas. Trabalhei como consultor em assuntos internacionais    para a estrutura de informações, e quando vou rever os <i>papers</i> que eles    produzem tenho realmente de me esforçar para combater isso! Vemos os textos    cheios de selos, cheios de palavras em código, ou linguagem técnica... Meu Deus!    Temos realmente que conseguir algum recuo em relação a isso, e não é fácil conseguir    esse recuo, creio que esse é um problema generalizado. Só porque algo é <i>top    secret</i> não significa que é importante, menos ainda significa que é correcto.    E depois, claro, há pessoas, especialmente conservadoras, na Administração Bush,    Reagan, Nixon, que consideravam as estruturas das informações demasiado à esquerda    e portanto tendiam a desvalorizá-las. Portanto, este é um problema no uso e    no abuso das informações.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>E considera que há uma tendência na comunidade das    informações para contrariar isso, inflacionando as ameaças por forma a jogar    pelo seguro?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Não creio. Para provar isso havia que basear-se numa base documental    enorme, há alguns livros e artigos que defendem essa tese, mas eles escolhem    enviesadamente as fontes. Ora, há que olhar realmente para o conjunto das informações,    e aí encontramos erros quer num sentido, quer no outro. Penso que há, isso sim,    uma tendência para reagirem de forma excessiva, ou seja, se seguem uma determinada    tendência durante algum tempo, depois tendem a seguir a tendência totalmente    oposta, e creio que esse é um problema real. </p>     <p>Mas não creio que eles sistematicamente exagerem as estimativas. O que penso    que eles tentam fazer é apontar aos decisores o pior cenário possível, porque    é que eles precisam de fazer isso. E depois eles dizem: ok, pode ser isto, mas    nós não pensamos que seja realmente tão mau como isso. Penso que são realmente    muito bons nisso, muito melhores que as informações militares por uma variedade    de razões, nomeadamente porque são parte das estruturas militares…</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR </b></i>&gt;<i> Inflacionam a ameaça?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>RJ &gt; Exacto, as ameaças são boas para o negócio!</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Quais são os seus projectos actuais?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; O trabalho a respeito das informações é fascinante e gosto muito    disso. Depois há pequenas coisas que têm que ver com problemas teóricos gerais    e a sua aplicação a questões correntes, por exemplo um artigo sobre unipolaridade    num número recente da <i>World Politics</i> e a revisão disso para um livro,    portanto continuo a seguir esse tema<a name="top9" id="top9"></a><a href="#9"><sup>9</sup></a>.</p>     <p>Continuo com vários trabalhos a respeito do sistema de crenças e da psicologia    política. Espero talvez ter uma nova edição do meu livro sobre percepções enganosas,    não rever e actualizar tudo, seria óptimo, mas não posso fazer isso. Mas gostaria    de adicionar um capítulo, focando em particular o papel das emoções e preconceitos,    porque há agora trabalho excelente em ciência política a respeito do papel das    emoções. Um antigo aluno meu, John Mercer, publicou um artigo na <i>International    Organization</i> que é muito bom a respeito deste tema, que tem uma grande importância<a name="top10" id="top10"></a><a href="#10"><sup>10</sup></a>.</p>     <p>E também continuo interessado no trabalho a respeito de como é que os estados    cooperam, que resulta do meu interesse pelo realismo defensivo. Não tenho um    artigo planeado, mas estou a reunir coisas de proveniência variada. Continuo    também a focar a minha atenção no que se escreve a respeito da Guerra Fria,    quer como história pura e simples, quer como é que isso afecta as explicações    da dita Guerra Fria, especialmente com respeito a saber se houve oportunidades    perdidas, se se tratou de um dilema de segurança, quão importante foi o papel    da ideologia e um conjunto de outras coisas que considero fascinantes e que    tento continuar a acompanhar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Como é que reage à ideia de que a Guerra Fria mostra    que as teorias das RI são imunes a um teste que na realidade as pudesse desafiar    ou mudar, nomeadamente a forma como acabou a Guerra Fria?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; É certo que o final da Guerra Fria não mudou a forma de pensar    de ninguém. John Gaddis di-lo com toda a clareza, num excelente artigo em que    «bate» nos meus colegas. Era um pouco injusto mas como de costume muito inteligente,    interessante, e provocador no melhor sentido da palavra<a name="top11" id="top11"></a><a href="#11"><sup>11</sup></a>.</p>     <p>As teorias, em qualquer disciplina, mesmo nas ciências exactas, são muito,    muito difíceis de mudar porque, regressando a Kuhn, mas há outros autores a    dizê-lo, as ligações entre teorias e provas empíricas envolvem muitos passos<a name="top12"></a><a href="#12"><sup>12</sup></a>.    Mas creio que à medida que aprendemos mais acerca da Guerra Fria, não apenas    é fascinante, mas sobretudo agora sabemos, não tudo, mas muito do que se estava    a passar no Politburo [da URSS], e aquilo que eles estavam a pensar era extraordinariamente    diferente daquilo que pensávamos na altura. Creio que isso nos ajuda pelo menos    a tornar as nossas teorias mais sofisticadas. Significa para mim e tendo em    conta o meu trabalho no campo da psicologia e da história, que o xadrez é uma    má comparação com a política internacional, pois nesse caso as regras são fixas.    Portanto, o póquer é uma comparação muito melhor por razões evidentes, mas creio    que a melhor comparação é com o filme japonês <i>Rashomon</i> [de Akira Kurosawa],    em que toda gente vê as mesmas coisas de forma diferente. Na maior parte das    suas interacções os países vêem o mundo de forma muito diferente uns dos outros    e não se dão conta de como é que os outros vêem as coisas. E construir teorias    com base nisso é <i>difícil</i>! Construir teoria a respeito do fim da Guerra    Fria ajuda-nos a ver como é importante tentar isso, mas é realmente verdade    que é difícil convencer qualquer um de nós que estamos errados, não é uma tarefa    fácil. E, provavelmente, e isso é bom, devemos ser persistentes porque uma interpretação    rápida dos factos, uma interpretação apressada dos factos frequentemente está    errada e aqueles que não forem persistentes e não perseverarem no desenvolvimento    do seu argumento, do seu entendimento, de facto, irão sofrer por isso.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>E relativamente à unipolaridade, como vê a evolução    das coisas, são os Estados Unidos um império em declínio?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Bem, defendi no meu artigo, de forma algo diferente de Stephen    Brooks e William Wohlforth no seu livro, que é muito bom, que a unipolaridade    americana durará bastante mais tempo<a name="top13" id="top13"></a><a href="#13"><sup>13</sup></a>.    Não porque os Estados Unidos são melhores ou encontraram o segredo de alguma    coisa, mas porque a Europa não se irá unir e o crescimento da China terá de    ser projectado muito, muito no futuro, e ainda assim será preciso muito tempo    antes de se transformar numa superpotência global. Poderá projectar-se…</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>E será necessário que a China não enfrente problemas    na sua ascensão…</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Sim. E parece-me que acreditar que não haverá problemas é bizarro,    certo? Não é assim que a história funciona; creio que a China irá ter enormes    problemas apenas porque muitos países os têm. </p>     <p>Mas mesmo que isso não aconteça, podem haver conflitos, mesmo conflitos militares    no Extremo Oriente. Esta mudança será muito importante mas não irá fazer da    China um rival global dos Estados Unidos; claro que a dívida e défice dos Estados    Unidos são terríveis, mas os economistas não vêem outra moeda de reserva [internacional]    no horizonte.</p>     <p>Talvez a crise financeira seja culpa dos Estados Unidos. Não creio que isso    seja rigoroso mas estou preparado para aceitar, ou admitir que sim. Porém, isso    não alteraria os factos fundamentais da geografia e da política económica. Portanto,    creio que teremos de viver com a unipolaridade, mas a unipolaridade não nos    diz exactamente o que os Estados Unidos irão fazer. Os Estados Unidos são mais    ou menos assertivos dependendo das circunstâncias e a maioria dos norte-americanos    não se importa muito com as relações internacionais, e portanto a maioria dos    líderes norte-americanos não presta muita atenção a estas temáticas. Logo, temos    uma situação em que a única superpotência tem uma visão introvertida, o que    é algo estranho, mas creio que é assim e que continuará a ser por um futuro    indefinido.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Crê que aplicar a analogia do império aos Estados    Unidos actuais é pertinente?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Bem, em primeiro lugar, considero pólo único uma terminologia    estranha, ou mesmo potência hegemónica, que é um exagero, creio.</p>     <p>Pólo único soa estranho, e, efectivamente, quando organizámos conferências    para preparar um número especial da <i>World Politics</i>, uma coisa que tivemos    que decidir foi como designar os Estados Unidos... Acabámos por usar «única    superpotência». Creio que potência hegemónica seria errado porque implicitamente    aponta para uma assertividade da parte dos Estados Unidos que seria verdade    com [George W.] Bush, mas não é uma característica estrutural, ora avança ora    recua. Eu creio que foi a Martha Finnemore quem avançou com o termo argumentando:    «Olhem, única superpotência é estranho, mas é rigoroso.»</p>     <p>Império tem uma evidente carga pejorativa e se eu fosse um polemista utilizaria    o termo, mas não sou, eu escrevo poucas coisas que são opinativas, mas não utilizaria    o termo.</p>     <p>Para além disso, é evidente que não é formalmente um império. Bem, dirão que    é um império informal, mas devemos ter uma definição para um determinado significado    e um império tem de ter algum grau de formalidade, caso contrário é como «água    seca», não serve de nada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Mas a comparação com os impérios é útil?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RJ</b> &gt; Sim, creio que comparar os Estados Unidos com um império é útil,    mas considero que <i>chamar-lhe</i> um império, mesmo um império informal é    o que um antigo aluno meu designou de retórica coerciva. Implica convocar imagens    que não sejam rigorosas, ou pelo menos deveriam ser tema de discussão; portanto    não creio que seja uma designação apropriada. Ou colocando as coisas de outra    forma, talvez possa ser o último ponto a ser discutido; mas não é assim que    a maior parte das pessoas utiliza o termo, certo? Não, não afirmam que os Estados    Unidos <i>são</i> um império informal, e a seguir relatam todas as coisas terríveis    que estão a fazer. Bem, isso não está correcto – é possível fazer muitas coisas    terríveis sem se ser um império. <i>Empire by Invitation</i>, de Geir Lundstand,    foi um conceito pertinente porque nos levou a pensar em várias dimensões que    geralmente consideramos incompatíveis mas que realmente podem não ser<a name="top14" id="top14"></a><a href="#14"><sup>14</sup></a>.    Isso foi útil, mas a maior parte das utilizações do conceito de império não    é realmente útil, apesar de o ter usado uma vez no título de um artigo que tinha    a intenção de ser um pouco polémico e provocador<a name="top15" id="top15"></a><a href="#15"><sup>15</sup></a>.    Mas regra geral não o considero pertinente.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Falando então do futuro... considera que é suposto    a teoria das relações internacionais ser essencialmente capaz de fazer previsões?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Não, não creio que seja, fui influenciado pelo livro de Stephen    Toulmin, <i>Foresight and Understanding</i>, muito bom, que considera que o    objectivo da ciência em geral é compreender, não é prever<a name="top16" id="top16"></a><a href="#16"><sup>16</sup></a>.    Por vezes é, aliás, possível prever sem compreender. Por vezes é possível compreender    ou explicar (considerados aqui como sinónimos) sem prever. </p>     <p>Por outro lado, até certo ponto compreender ajuda de facto a prever e fazer    previsões é muito útil porque nos ajuda a aperfeiçoar a nossa argumentação:    se a minha teoria está certa e nada de bizarro se interpuser o que é que deveria    acontecer? Foi útil, precisamente por isso, que John Mearsheimer escrevesse    o seu artigo dando como provável um conflito na Europa pós-Guerra Fria<a name="top17" id="top17"></a><a href="#17"><sup>17</sup></a>.    Ocorreu-me precisamente essa ideia, e disse por piada ao editor: «Sabe que tiveram    um problema terrível na composição [do artigo], deixaram de fora o último parágrafo.    E o último parágrafo dizia – já viram aquilo que esta versão do realismo nos    levaria a esperar, viram como é uma loucura, nunca irá acontecer. Portanto,    é evidente que temos de repensar esta teoria de forma mais subtil. Porque é    que vocês não publicaram esse parágrafo?» É claro que esse tal parágrafo perdido    não existia. O John [Mearsheimer] não pensava assim, e é muito útil que seja    assim porque ele não inclui esse último parágrafo, mas pelo contrário leva a    sua teoria até ao extremo porque sabe que se estiver correcta essas são as implicações    que deverão seguir-se. Portanto creio que fazer previsões é útil, mas o nosso    objectivo é compreender. Pode haver quem considere que essa é uma saída fácil,    porque cometemos tantos erros nas nossas previsões que [nas RI] recuámos neste    campo. Não creio, sinceramente, que isso seja verdade, embora perceba que alguém    com um olhar mais crítico adopte esse ponto de vista.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Portanto é sempre possível tentar adivinhar com base    num bom instinto?</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Sim.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Não significa que se tenha compreendido o que está    a suceder...</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Eu posso prever que um lápis cairá se eu o soltar da minha mão,    mas isso não significa que tenha compreendido a gravidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR </b></i>&gt; <i>Com esta preocupação presente, podemos agora voltar-nos    para as previsões de crises futuras, ou de mudanças significativas no campo    das relações internacionais…</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Claro que há um problema, e o meu antigo colega Erik Gartzke    fez referência a ele num artigo na <i>International Organization</i> há dez    anos atrás – se eu posso prever um acontecimento e os decisores podem também    prever isso porque sabem o que nós sabemos, então o acontecimento previsto pode    não acontecer porque o comportamento dos actores irá mudar<a name="top18" id="top18"></a><a href="#18"><sup>18</sup></a>.    Dito isto, pode dizer-se que me considero uma pessoa que tende a preocupar-se,    preocupa-me que o conflito no Iraque volte a reacender-se, especialmente em    torno da linha de fractura árabe-curda mais do que entre sunita-xiita. Portanto    vai haver uma ampla oportunidade de violência significativa nessa zona. </p>     <p>Não consigo ver como é que a campanha de contra-insurreição no Afeganistão    poderá ter sucesso, a não ser que seja como prelúdio para uma negociação que    será terrivelmente difícil, de forma a formar-se uma coligação de governo com    os taleban. Nós nem conseguimos acordos entre os dois partidos no Congresso    [dos Estados Unidos], será realista pensar que conseguimos que o <i>mullah</i>    Omar e Karzai cheguem a um acordo? Talvez seja possível criar um sistema altamente    descentralizado; talvez, talvez. Gostaria muito, espero muito que sim, mas não    creio.</p>     <p>Portanto, antecipo muitos problemas, mas não creio que sejam problemas que    levem a uma guerra nuclear.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Como durante a Guerra Fria…</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ</b> &gt; Exactamente. Quem não viveu a Guerra Fria, eu agora ensino a    Guerra Fria aos alunos de licenciatura, nós estávamos preocupados com…</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>A aniquilação do mundo.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RJ </b>&gt; Sim, exactamente, portanto pelo menos já não nos temos de preocupar    com isso.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>BCR</b></i> &gt; <i>Obrigado. </i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Nova york, 13 de Fevereiro de 2010</p>     <p><b>Transcrição:</b> Raquel Duque</p>     <p><b>Tradução:</b> Bruno Cardoso Reis</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <!-- ref --><p><sup><a name="1" id="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Cf. JERVIS, Robert    – «International politics and diplomatic history: fruitful differences». In    <i>H-Diplo/ISSF</i>. N.º 1, 2010. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000189&pid=S1645-9199201100020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="2" id="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Cf. MAY, Ernest R.    – “<i>Lessons” of the Past: The Use and Misuse of History in American Foreign    Policy</i>. Nova York: Oxford University Press, 1975. [N.B. May e Jervis estavam    ambos em Harvard nesta época e trocaram ideias sobre estes temas.] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000190&pid=S1645-9199201100020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="3" id="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> PAPE, Robert – <i>Dying    to Win: The Strategic Logic of Suicide Terrorism</i>. Nova York: Random House,    2005. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000191&pid=S1645-9199201100020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="4" id="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> HOROWITZ, Michael –    «Long time going: religion and the duration of crusading». In <i>International    Security</i>. Vol. 34, N.º&nbsp;2, 2009, pp. 162–193. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000192&pid=S1645-9199201100020001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="5" id="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> BUZAN, Barry E. G.,    e WAEVER, Ole – <i>Regions and Powers: The Structure of International Security</i>.    Cambridge: cup, 2004. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000193&pid=S1645-9199201100020001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="6" id="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> GAUSE III, Gregory    – <i>The International Relations of the Persian Gulf</i>. Cambridge: cup, 2010.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000194&pid=S1645-9199201100020001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="7" id="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> BETTS, Richard – <i>Enemies    of Intelligence</i>. Nova York: Columbia University Press, 2007. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000195&pid=S1645-9199201100020001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="8" id="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> IMMERMAN, Richard –    «Intelligence and strategy: historicizing psychology, policy, and politics».    In <i>Diplomatic History</i>. Vol. 32, N.º 1, 2008, pp. 1-23. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000196&pid=S1645-9199201100020001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="9" id="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> JERVIS, Robert – «Unipolarity:    a structural perspective». In <i>World Politics</i>. Vol. 61, N.º 1, 2009, pp.    188-213. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000197&pid=S1645-9199201100020001000009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="10" id="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> MERCER, Jonathan    – «Rationality and psychology in international politics». In <i>International    Organization</i>. Vol. 59, N.º 1, 2005, pp.77-106. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000198&pid=S1645-9199201100020001000010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="11" id="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> GADDIS, John Lewis    – «International relations theory and the end of the Cold War». In <i>International    Security</i>. Vol. 17, N.º&nbsp;3, 1992-1993, pp. 5-58. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000199&pid=S1645-9199201100020001000011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="12" id="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> KUHN, T. S. – <i>The    Structure of Scientific Revolutions</i>. Chicago: University of Chicago Press,    1962. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000200&pid=S1645-9199201100020001000012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="13" id="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> BROOKS, Stephen    G., e WOHLFORTH, William Curti – <i>World out of Balance</i>. Princeton: Princeton    University Press, 2008. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000201&pid=S1645-9199201100020001000013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="14" id="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> LUNDESTAD, Geir    – «Empire by invitation? The United States and Western Europe, 1945-1952». In    <i>Journal of Peace Research</i>. Vol. 23, N.º 3, 1986, pp.&nbsp;263-277. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000202&pid=S1645-9199201100020001000014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="15" id="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> JERVIS, Robert    – «The compulsive empire». In <i>Foreign Policy</i>. N.º 137, 2003, pp. 82-87.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000203&pid=S1645-9199201100020001000015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="16" id="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> TOULMIN, Stephen    – <i>Foresight and Understanding: An Enquiry into the Aims of Science</i>. Bloomington:    Indiana University Press, 1961. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000204&pid=S1645-9199201100020001000016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a name="17" id="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> MEARSHEIMER, John    J. – «Back to the future: instability in Europe after the Cold War». In <i>International    Security</i>. 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