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</front><body><![CDATA[ <p><b>A liderança em guerra</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>António Paulo Duarte</b></p>     <p>Doutor em História Institucional e Política. É assessor do Instituto de Defesa    Nacional e professor auxiliar convidado do Departamento de Estudos Políticos    da FCSH – UNL. É investigador do Instituto de História Contemporânea.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>John Keegan</p>     <p><i><b>A Máscara do Comando</b></i></p>     <p>Lisboa, Tinta-da-China, 2009 [1987], 456 páginas</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/ri/n30/n30a14i1.jpeg" width="114" height="173"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>John Keegan é um dos mais inovadores historiadores britânicos. Alguns diriam    que é um inovador historiador militar, mas tal epíteto não faria justiça à figura    de investigador de John Keegan. É certo que ele tem dedicado a sua vida, enquanto    historiador, aos assuntos da guerra e do poder militar, não obstante, Keegan    fez desde sempre uma história que a Escola dos Annales denominou de História    Total, uma história dedicada ao estudo global do homem. O autor recenseado pode    ser incluído nos historiadores que estudam a realidade, interligando todas as    suas facetas, de modo a compreender uma dada época. John Keegan é um estudioso    do fenómeno «guerra» e é, num certo sentido, um classicista, pois dedica-se,    essencialmente, à investigação daquilo que é considerado como a tradicional    história militar, a história das campanhas militares, das batalhas e dos seus    comandantes. Todavia, fá-lo e fê-lo de uma forma plenamente inovadora, integrando    no estudo da história das campanhas, das batalhas e dos seus comandantes a dimensão    económica, política e social, indo ainda mais além e considerando também as    dimensões culturais e antropológicas e outras, expressão tão viva da História    Total.</p>     <p>O presente estudo pode inserir-se nas obras mais inovadoras de John Keegan.    Este autor é bastante prolífico, detendo hoje uma vastíssima obra publicada.    Uma boa parte destas obras, ainda que inovadoras, podem inserir-se no universo    clássico dos estudos sobre campanhas e batalhas. Há, para além dessas obras,    de espírito mais classicista, outras extraordinariamente inovadoras no campo    dos estudos de história militar, começando pelo notável volume A <i>Face da    Batalha</i> que, justificadamente, deu a glória, nas letras, a este autor. A    <i>Máscara do Comando</i> insere-se perfeitamente nesta linhagem altamente inovadora    das obras de John Keegan. </p>     <p>A <i>Face da Batalha</i> procurava ler o campo de batalha através da visão    que dele tinham os combatentes que nele pelejaram. Este era o rosto da batalha    que o autor nos queria exibir, para lá da faceta mais ou menos gloriosa das    manobras estratégicas dos grandes cabos de guerra.</p>     <p>A <i>Máscara do Comando</i> alinha-se nesta rota, contanto que os heróis da    mesma tenham deixado de ser os combatentes para passarem a ser os seus chefes    supremos. Como lideravam os seus homens, os impulsionavam para o combate e os    faziam agir de acordo com a sua vontade? Eis a primeira questão que encaminha    John Keegan na sua deambulação pelo rosto do comando. Para responder a esta    interrogação, John Keegan estudou quatro líderes, na sua óptica extraordinários    (e não só, pois são paradigmas clássicos), pela chefia militar (e política,    em muitos casos) que exerceram: Alexandre Magno, o duque de Wellington, Ulisses    Grant e Adolf Hitler. Para este autor, cada um deles é o expoente de uma forma    específica de liderança.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>As Máscaras do Comando</b></p>     <p>Os líderes que John Keegan estuda são, por isso, figuras excepcionais, fontes    de inspiração e energia, capazes de redobrar a força e o espírito de quem age    sob o seu comando. O que os distingue, contudo, é o estilo de liderança. Alexandre    Magno é o paradigma, o arquétipo mais perfeito da liderança heróica; o duque    de Wellington funciona como o seu contraste, a liderança anti-heróica; Ulisses    Grant representa a liderança não heróica e Adolf Hitler, a liderança falsamente    heróica. A <i>Máscara do Comando</i> é uma obra que, em filosofia, seria designada    de metafísica, na medida em que busca a essência do acto de liderar em guerra.    É o <i>ethos</i> e a técnica de liderança que John Keegan almeja descortinar    por detrás da imagem que nos foi legada sobre cada uma destas figuras, a sua    máscara de comando.</p>     <p>Alexandre Magno é o arquétipo mais conseguido do estilo heróico. É um chefe    guerreiro que lidera uma sociedade belicosa, os macedónios. Como líder de uma    sociedade de guerreiros, isto é, de homens livres, habituados a dirimir as suas    quezílias pela força das armas, pondo a sua liberdade no gume das suas armas,    Alexandre Magno tem um estilo de liderança que lhe impõe o comando no vértice    da cunha de assalto em cada batalha, avançando à frente dos seus homens carregando    sobre o ponto mais forte da linha de batalha inimiga. E fá-lo, observa John    Keegan, evidenciando através de uma indumentária regiamente reluzente, a sua    acção no vértice da coluna de assalto principal. «Sempre à frente!», diz John    Keegan, seria o mote de Alexandre Magno. </p>     <p>Este estilo de liderança, autenticamente heróica, explica o autor, derivaria    do contexto social de onde advinha Alexandre Magno. A capacidade de inspirar    os seus soldados aos mais altos feitos, de os galvanizar para o seguir até aos    confins do mundo, só poderia ser assegurada se Alexandre Magno fosse, numa sociedade    de guerreiros, o mais ilustre e heróico de todos. É certo, e John Keegan refere-o    amiudadamente, Alexandre Magno era um estratego e um logístico brilhante, evidenciado    no facto de em uma tão vasta campanha, jamais os seus homens terem passado fome    ou de ter disposto sempre dos apetrechos de cerco com os quais assaltar as urbes    que a ele se opunham. O corpo macerado de cicatrizes, as marcas físicas da liderança    heróica de Alexandre Magno eram a expressão última do estilo da sua chefatura,    o seu <i>pathos</i>, o ir mais além sempre, e este despreendimento em nome de    qualquer coisa que seria a «fama eterna», deixou como temível legado o «enobrecimento    da barbárie em nome da glória» (p. 123).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como um espelho, Alexandre Magno tornar-se-á o termo de comparação com todos    os outros estilos de liderança, todos eles analisados em redor do conceito de    herói, formas outras de heroísmo ou de falso heroísmo, e em redor da interrogação    da posição do comando no campo de batalha: Sempre em Frente! Às vezes, na Frente!    Jamais na Frente!</p>     <p>O duque de Wellington funciona como o grande contraste de Alexandre Magno.    Este contraste resulta de um heroísmo retintamente não exibicionista. O duque    de Wellington, tal como Alexandre Magno, tinha um estilo de liderança que o    obrigava a estar perto dos pontos mais acesos de combate. Ao contrário de Alexandre    Magno, o duque de Wellington não se punha no vértice da coluna de assalto, não    obstante, procurava estar sempre em cima da acção principal para a supervisionar    e a assistir com o seu comando em caso de extrema necessidade. Não ia na frente,    mas o seu estilo de comando implicava que estivesse sempre na área de alcance    eficaz do fogo inimigo, até os 450 metros para os canhões e os 50 para os mosquetes    de pederneira. Ademais, por estar sempre a cavalo, de modo a ter uma visão mais    aguda do que ia acontecendo, aumentava a sua exposição ao fogo inimigo. </p>     <p>O duque de Wellington, todavia, afirmava-se pelos seus contidos gestos, pela    sua fleuma e aprumo no campo de batalha, pela sua frieza e imperturbabilidade    face ao fogo. A expressão do seu comando e do seu estilo de liderança exprimia    a sua cultura aristocrática e religiosa (protestante): autocontenção e autodomínio.    E reflectia a sua postura ideológica conservadora hostil à excitação das multidões,    algo que ele profundamente desprezava e via encarnada nos seus inimigos: Napoleão    Bonaparte e a Revolução Francesa. O anti-herói é a outra face da liderança heróica,    o herói que se exprime por uma postura a que se nega a espectacularidade, ironicamente,    a outra face dessa mesma espectacularidade.</p>     <p>Como vemos, o estilo analítico de John Keegan enquadra sempre as figuras que    estuda num contexto mais lato da sociedade e desenvolve a sua interpretação    sobre a máscara de comando, considerando o modo como cada uma dos personagens    se olhava e olhava para a sociedade que, no campo de batalha, encarnava. A máscara    de comando é a íntima relação da figura do general comandante-em-chefe com aquilo    que a sociedade dele espera ou que ele julga, considerando a sua realidade epocal,    que a sociedade dele espera.</p>     <p>Em oposição ao estilo heróico, John Keegan, identifica dois outros paradigmas,    o não heróico e o falso heróico, expressos nas lideranças de Ulisses Grant e    de Adolf Hitler. Em ambos os casos a heroicidade do comandante-chefe dilui-se,    quer por uma opção consciente, fruto da transformação da guerra e das suas novas    características que implicam a modificação do estilo do comando, quer porque    a representação da heroicidade pode, de algum modo, ser cenarizada, sem que    os ditames que a enquadram tenham de ser aplicados. </p>     <p>A primeira forma é expressa por Ulisses Grant, e de algum modo, corresponde    à realidade de todo o comando militar na era industrial e contemporânea. Ela    remete para um líder militar gestor da coisa da guerra. A reflexão, sempre imprescindível,    é certo, na arte da guerra, torna-se o expoente máximo da acção do comando.    A acção heróica, o acto de liderar na frente de comando, uma impossibilidade,    dadas as massas e os meios que entram na contenda e no embate e o alargamento    do campo de batalha. A segunda tem em Hitler o seu máximo expoente e, ironicamente,    reflecte a natureza do comando pós-heróico arquetipicamente contemporâneo. Note-se,    não obstante, que John Keegan tem o cuidado de ressalvar que em qualquer dos    casos não se pode observar a natureza do comando de Ulisses Grant ou de Adolf    Hitler como fruto de qualquer cobardia. Ulisses Grant não se inibia de ir à    frente e, por várias vezes, esteve sobre fogo dos soldados da confederação,    sempre, é certo, por acaso e erro de cálculo. Era, ademais, um veterano, com    provas dadas na guerra entre os Estados Unidos e o México (1846-1848). O futuro    <i>Führer</i> tinha sido correio na Grande Guerra, uma especialidade com um    alto nível de risco nessa contenda e todos os relatos indicam que foi um soldado    diligente e corajoso.</p>     <p>A massificação da guerra e o desenvolvimento tecnológico complicaram imenso    qualquer pretensão a um comando heróico da guerra e da batalha. Esta é, pelo    menos, a óptica de John Keegan, realçando o autor que na era nuclear, e a obra    data de 1987, ainda a Guerra Fria não terminara, o comando e a liderança militar    se afastara da frente, encavernando-se em redutos altamente encarapaçados e    movendo-se em redomas de segurança superprotegidas. </p>     <p>John Keegan vê, no comando de Adolf Hitler, a expressão deste movimento para    o enfojomento da liderança e para a hiperprotecção do comando. A grande crítica    que faz a Adolf Hitler deriva de este movimento de encapsulamento da liderança    na guerra não corresponder à imagem que o ditador alemão fazia passar de si    enquanto cabo-de-guerra. Adolf Hitler, que John Keegan vê copiar o pior dos    modelos de comando da I Guerra Mundial, fechado na redoma de um Quartel-General,    a milhas de distância da frente, superprotegido, fazia passar uma imagem de    combatente heróico e corajoso, um Alexandre Magno contemporâneo, liderando directamente    os seus soldados. Esta imagem consumara-se no uso permanente de um uniforme    militar pelo ditador alemão desde Setembro de 1939 e pervertera-se, conforme    a guerra se ia tornando mais desfavorável às armas alemãs, na absoluta vontade    de dirigir a acção bélica, até da mais ínfima unidade na linha da frente, e    com excessos de pormenorização, a partir de um Quartel-General, a milhas de    distância. Esta perversão do comando e da liderança embotou as armas alemãs,    que serviram abnegadamente o <i>Führer</i> até ao extremo limite das suas forças,    evidenciando quanto este as desserviu.</p>     <p>O texto de John Keegan contém, de facto, uma tese: a evolução da arte da guerra    e a exponencial capacidade de produzir destruição aniquilou qualquer possibilidade    de uma liderança heróica da guerra. O modelo de Alexandre Magno, por muito apelativo    que seja para a cultura militar, é, simplesmente, a nível de comando superior,    inviável. A natureza do comando e da liderança na guerra mudou: o comando encavernou-se    em redomas hiperprotegidas, a única forma de poder continuar a conduzir a contenda,    numa era em que a letalidade do armamento se exponenciou desmesuradamente. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Comando e Estratégia: A outra máscara do comando</b></p>     <p>Se o texto é uma monumental análise da liderança em guerra e nas batalhas,    a sua maior fragilidade deriva das conclusões, produto da tese que defende.    E a tese de John Keegan fragiliza-se, em boa medida, na visão conceptual que    a encaminha. </p>     <p>Não é por acaso que a introdução começa com uma crítica ao conceito de estratégia.    John Keegan despreza o conceito de estratégia e este mais não é que uma palavra    fetiche sem alguma substância real. Reduzir a realidade da guerra ao poder militar    e à política bastava, visto aqui estarem, na essência, os actores da guerra.    Esta visão reflecte as debilidades conceptuais do conceito de estratégia no    mundo anglo-saxónico, assim como a redução da condução da guerra a uma dimensão    estritamente militar. Colin Gray, apesar de valorizar o conceito de estratégia,    não o consegue extrair, estrito senso, da guerra<a name="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a>.    Para ambos, a questão da guerra parece reduzir-se à relação íntima entre o poder    político e o poder militar. A partir desta perspectiva, toda a questão da liderança    na guerra se reduz a verificar qual a posição da chefatura suprema na condução    dos seus exércitos para a batalha. E a extrair as conclusões à luz deste pressuposto:    sempre na frente com Alexandre Magno; jamais na frente com Adolf Hitler, eis    o comando pós-heróico. </p>     <p>Para reforçar a sua perspectiva, John Keegan indica que todos estes líderes,    como muitos outros, foram simultaneamente líderes militares e políticos. É certo    que informa o leitor de que os casos do duque de Wellington e de Ulisses Grant    são distintos dos de Alexandre Magno e de Adolf Hitler. Os primeiros foram em    períodos distintos líderes militares e dirigentes políticos (o duque de Wellington    foi membro do parlamento e primeiro-ministro, Ulisses Grant chegou à presidência    dos Estados Unidos após o fim da Guerra de Secessão). Pelo contrário, Alexandre    Magno e Adolf Hitler foram, em simultâneo, líderes militares e dirigentes políticos.    Ora, esta, como outras diferenças, são importantes para a compreensão do quadro    geral em que cada um se move e para a validação, ou não, da tese de John Keegan.</p>     <p>Os paradigmas da liderança em guerra de John Keegan são quatro, mas a distância    temporal que separa o primeiro do segundo é multimilenária. Alexandre Magno    viveu entre 356 e 323 a. C., o duque de Wellington entre 1769 e 1852, sendo    que a distância que separa os feitos relatados por John Keegan, entre o segundo    e o quarto, é de pouco mais de um século. Os três últimos paradigmas são quase    nossos contemporâneos, o primeiro, alguém de que pouco se sabe, e o muito que    se sabe está envolto na nebulosa do mito. É certo que John Keegan pode abonar    em sua defesa, a profunda revulsão da forma de combater e de travar a guerra    entre o duque de Wellington e Adolf Hitler. John Keegan argumenta nesse sentido,    ao salientar, com razão, que o duque de Wellington se encontra no vértice de    uma era em que o combate de proximidade, mesmo já não sendo tipicamente corpo-a-corpo,    ainda era a forma dominante de travar qualquer batalha. Com efeito, as armas    dominantes no campo de batalha napoleónico, a despeito da artilharia, eram os    mosquetes que tinham um alcance letal de pouco mais de 150 metros e um alcance    eficaz na ordem dos 50 metros. Os soldados ainda combatiam olhos nos olhos e    os comandantes ainda podiam ver os seus congéneres adversários. Pelo contrário,    lentamente, as distâncias alargaram-se e os comandos foram expulsos dos campos    de batalha. Foram-no efectivamente?</p>     <p>Adolf Hitler suicidou-se em Berlim em Abril de 1945, sob a tormenta de fogo    da artilharia soviética. John Keegan observa que ele não teve uma morte de soldado:    suicidou-se, mas podia tê-la tido. O inimigo estava muito próximo dele. Tal    como a proporção de generais alemães mortos em combate ou em decorrência da    sua liderança em campanha evidencia que a guerra contemporânea não implica necessariamente    que o comando esteja numa redoma subterrânea hiperprotegida (de 1400 oficiais    generais, mais de 500 foram mortos em campanha). O próprio Alexandre Magno,    assumindo todos os riscos de participar activamente na acção bélica e no combate,    não estava reduzido, como os seus soldados, a ter de bastar-se a si próprio    na peleja, visto ir acompanhado, como todos os reis combatentes o foram ao longo    da história, por um corpo escolhidos de protectores, de guardiões, que o escudavam,    em parte, do choque físico com os adversários aquando do confronto. O comando    de Adolf Hitler, como o actual, não deriva apenas da evolução da guerra, mas    resulta de uma escolha assumida de uma forma de comando, coisa que, curiosamente,    John Keegan admite para Ulisses Grant. </p>     <p>Não obstante, esta escolha é fruto, igualmente, da realidade social e económica    que envolve a guerra. A redução da liderança da guerra à relação entre a postura    política e a acção militar oculta a complexidade da chefatura suprema na condução    da guerra. A latitude das armas que se utilizam na guerra contemporânea é muito    mais ampla do que o estrito armamento bélico. O bloqueio e a guerra económica,    condicionando os intercâmbios entre as sociedades, a pugna ideológica, cada    vez mais eficiente, graças à evolução das tecnologias da informação e comunicação,    a própria tecnologia bélica, mais sofisticada e tocando em todos os espaços    em que o homem habita (terrestre, marítimo, aéreo, cibernético, espacial), fazem    que a liderança em guerra tenha visto evoluir o seu carácter em direcção à coordenação    e gestão em detrimento da acção (como no caso citado pelo autor de Ulisses Grant    e o uso do telégrafo). Isto faz que esta tenha, em parte, de se resguardar,    não para fugir, em sentido estrito, às agruras do confronto bélico, mas para    que possa ter maior liberdade para gerir todas as componentes que entram em    jogo na contenda. </p>     <p>É esta complexidade na gestão da guerra, que o vocábulo e o conceito de estratégia    pretende evidenciar, e que John Keegan, reduzindo a questão da liderança da    guerra à relação entre a política e o poder militar, despreza, que explicita    o retraimento, para a retaguarda do campo de batalha da suprema chefatura. Não    obstante, o retraimento para a retaguarda da liderança de guerra não significa    um menor risco. A própria tecnologia se encarregou de tornar todos, incluindo    as chefaturas supremas, em alvos remuneradores. A sonhada estratégia de decapitação    das chefias, como a arma mais eficiente para atingir os propósitos de uma campanha,    pensada nos anos 90 do século XX pelos estrategos da força aérea norte-americana    demonstra o quanto este retraimento para a retaguarda da liderança de guerra    não é um fuga às consequências do embate bélico, mas resulta da evolução da    liderança para uma dimensão de coordenação, no contexto em que o seu corpo é,    cada vez mais, vulnerável à acção adversa. </p>     <p>Por último, e decorrendo da visão conceptual do autor, John Keegan não distingue    entre a direcção política e a liderança militar. Este é, adicionalmente, um    argumento relevante quando falamos de comando pós-heróico. O retraimento da    liderança para a retaguarda não foi unânime na evolução da guerra moderna. É    certo que mesmo os comandos de divisão, brigada ou regimento não comandam os    seus homens no vértice da coluna de assalto como Alexandre Magno. O problema    reside em saber onde está o vértice da coluna. No tempo de Alexandre, quem não    estivesse na linha da frente, dificilmente defrontaria o gume do inimigo: Dário    III, o rei persa que Alexandre esmagou, por exemplo, protegido pelas sucessivas    linhas de soldados, no contexto da época, poderia ser visto como tendo uma liderança    pós-heróica. Hoje, a frente e a retaguarda situam-se onde? O conceito de ataque    em profundidade, desenvolvido lentamente nos anos 30 do século XX e hoje comum    em todos os exércitos sofisticados do mundo é a expressão da nova realidade    bélica. O campo de batalha, hoje, tanto pode estar a 10 metros da linha de demarcação    entre dois inimigos, como a milhares de quilómetros de distância. Muitos dos    comandos militares, desde a II Guerra Mundial, habituaram-se a liderar desde    a frente, isto é, no sentido wellingtoniano, o mais próximo da zona de acção    a que seja necessário estar para coordenar a manobra bélica e sob fogo. A hecatombe    de generais alemães está aí para demonstrar o que significa um tal tipo de liderança.  </p>     <p>Mas, a liderança política da guerra, dadas as funções essenciais de coordenação    e de gestão de que está incumbida tendeu a ser mais coberta e protegida. Esta,    sim, próxima do modelo pós-heróico de John Keegan. Sucede que não é, de todo,    toda a chefatura suprema de guerra. A complexa e polifacetada liderança da guerra    moderna, dada a complexidade da realidade social, produto da Revolução Industrial,    que todos os sociólogos afirmam ser uma das características da contemporaneidade,    inibe uma simplificação analítica sobre a chefatura suprema em tempo de confronto    bélico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A obra de John Keegan é um tratado monumental e uma análise penetrante sobre    as características da liderança de guerra. Os arquétipos que se expõem lidam,    de modos distintos, com a liderança de guerra, mas cada um representa uma forma    muito própria de o fazer. Neste sentido, o texto de John Keegan é um portento    de análise histórica e uma obra inovadora sobre um tema clássico militar. É    pena que a tese subjacente não tenha o mesmo fulgor conceptual que a análise    penetrante sobre a liderança suprema de cada um dos arquétipos expostos e caia,    talvez caricaturalmente, num excesso de simplificação da realidade. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota</b></p>     <!-- ref --><p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Cf. GRAY, Colin – <i>Modern    Strategy</i>. Oxford: Oxford University Press, 1999, pp.&nbsp;52 e 82.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000046&pid=S1645-9199201100020001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body><back>
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