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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Multipolar ou apolar?: Um desconcertante mundo novo]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article explores deeply the international system organization arguing that we are in an apolar world, bearing in mind a reflection about the 9/11. We will explore the evolution of the pole concept, and then evaluate the new balances of power through the analysis of three elements: the shifting of the traditional balances of power, the change on the rivalries and loyalties and the great emerging challenges.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>Multipolar ou apolar? Um desconcertante mundo novo</b></font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Ant&oacute;nio Jos&eacute; Telo</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Catedr&aacute;tico na Academia Militar, com mais de 20 livros e 200 artigos publicados sobre temas de hist&oacute;ria, defesa e rela&ccedil;&otilde;es internacionais.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">RESUMO</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Com base numa reflex&atilde;o sobre o
  mundo dez anos depois do 11 de Setembro, o artigo aprofunda a an&aacute;lise da organiza&ccedil;&atilde;o do sistema internacional admitindo que estamos perante um mundo apolar. Depois de explorar a evolu&ccedil;&atilde;o do conceito de p&oacute;lo, avalia os novos equil&iacute;brios de poder com base em tr&ecirc;s elementos: a altera&ccedil;&atilde;o dos equil&iacute;brios de poder tradicional, a&nbsp;altera&ccedil;&atilde;o da conflitualidade e lealdades e os grandes desafios emergentes.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Palavras&#45;chave:</b> sistema internacional, poder, p&oacute;los, Estados Unidos</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>Multipolar or apolar
a confused new world</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">ABSTRACT</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">This article explores deeply the
international system organization arguing that we are in an apolar world, bearing in mind a reflection about the 9/11. We will explore the evolution of the pole concept, and then evaluate the new balances of power through the analysis of three elements: the shifting of the traditional balances of power, the change on the rivalries and loyalties and the great emerging challenges.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Keywords:</b> international system, power, poles, United States</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>OS P&Oacute;LOS NUM MUNDO SEM P&Oacute;LOS</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">H&aacute; pouco mais de um ano publiquei um artigo onde
defendia que viv&iacute;amos num mundo n&atilde;o multipolar, como a maior parte dos observadores afirmava, mas sim apolar<sup><a name="top1"></a><a href="#1">1</a></sup>. Devo confessar que a tese foi mal recebida, ou, para ser mais rigoroso, que o reduzido universo dos amigos e conhecidos que me d&aacute; o gosto de criticar os meus escritos n&atilde;o concordou no essencial com ela. Por esse motivo, gostaria de regressar ao tema nesta breve reflex&atilde;o sobre o mundo dez anos depois do 11 de Setembro, pois n&atilde;o s&oacute; me continua a parecer correcta, como os recentes acontecimentos a confirmam.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Um ponto central &eacute; o de saber o que &eacute; um &laquo;p&oacute;lo&raquo; do sistema internacional. A tend&ecirc;ncia natural &eacute; a de identificar &laquo;p&oacute;lo&raquo; e grande poder, o que, a ser correcto, significaria que efectivamente vivemos num mundo multipolar. O n&uacute;mero de grandes poderes aumentou desde os tempos da Guerra Fria e hoje existem, n&atilde;o dois, mas pelo menos cinco grandes poderes de tipo muito diferente (Estados Unidos, Uni&atilde;o Europeia, R&uacute;ssia, China, &Iacute;ndia). Entre eles, os Estados Unidos lideram de forma evidente em termos do poder militar, mas, por exemplo, a Uni&atilde;o Europeia (UE) &eacute; o seu equivalente em termos do poder econ&oacute;mico e a &Iacute;ndia e a China est&atilde;o amplamente &agrave; frente em termos do peso demogr&aacute;fico ou da rapidez de crescimento.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Simplesmente, n&atilde;o me parece que um p&oacute;lo se possa identificar com o conceito de &laquo;grande poder&raquo;, ou, para ser mais exacto, se um p&oacute;lo tem normalmente um grande poder no centro, nem sempre um grande poder &eacute; um p&oacute;lo. Os dois p&oacute;los que chocaram entre si dando origem aos conflitos globais do s&eacute;culo XX (1914&#45;1918 e 1939&#45;1945) inclu&iacute;am ambos v&aacute;rios &laquo;grandes poderes&raquo;, coligados num esfor&ccedil;o de domina&ccedil;&atilde;o global, o que, seja acrescentado, &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o normal &#150; um p&oacute;lo conta, em regra, com m&uacute;ltiplos poderes, grandes, m&eacute;dios e pequenos.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Um p&oacute;lo n&atilde;o &eacute; meramente um centro de poder, advenha ele de um &uacute;nico Estado ou de uma coliga&ccedil;&atilde;o ou alian&ccedil;a. Na minha perspectiva, um p&oacute;lo &eacute; necessariamente um centro estruturante de poder. O termo &laquo;estruturante&raquo; &eacute; essencial, pois significa que um &laquo;p&oacute;lo&raquo; defende valores, imp&otilde;e regras e cria ordem &agrave; sua volta, seja numa escala global ou regional. Um p&oacute;lo &eacute;, em resumo, uma origem de respostas e solu&ccedil;&otilde;es para os problemas do seu tempo, o que faz com que &agrave; sua volta se juntem os que as defendem. &Eacute;&nbsp;isso que o torna um n&uacute;cleo estruturante do sistema, um seu pilar. Veja&#45;se o exemplo t&iacute;pico da Guerra Fria. Os dois p&oacute;los desse sistema tinham no seu centro grandes poderes, mas n&atilde;o era esse facto que os transformava em p&oacute;los. Eles mereciam essa classifica&ccedil;&atilde;o, porque defendiam solu&ccedil;&otilde;es diferentes para os problemas do seu tempo aos diversos n&iacute;veis (ideol&oacute;gico, social, econ&oacute;mico, militar, cultural, etc.), tinham sistemas de valores pr&oacute;prios, criavam amplas alian&ccedil;as, procuravam impor as suas solu&ccedil;&otilde;es numa escala global e, atrav&eacute;s desse processo, estruturavam o sistema internacional.</font></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Um p&oacute;lo cria&#45;se normalmente no come&ccedil;o da edifica&ccedil;&atilde;o de um sistema internacional &agrave; volta de um centro que avan&ccedil;a com solu&ccedil;&otilde;es para os problemas mais sentidos no seu tempo e agrega vontades para a sua defesa, criando um sistema mais ou menos r&iacute;gido de entendimentos, que podem ou n&atilde;o vir a dar origem a alian&ccedil;as formais. O poder que avan&ccedil;a com as solu&ccedil;&otilde;es que acabam por se impor pode nem sequer ser &laquo;grande&raquo; segundo &iacute;ndices normais de avalia&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a internacional, pois &eacute; no processo de cria&ccedil;&atilde;o do p&oacute;lo que ele adquire for&ccedil;a e aumenta a sua influ&ecirc;ncia, agregando a si cada vez mais recursos.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Veja&#45;se, para n&atilde;o ficar somente pelo s&eacute;culo XX, o exemplo da ac&ccedil;&atilde;o de Portugal e da Espanha quando criaram o primeiro sistema mundial, nos s&eacute;culos XV&#45;XVI. No come&ccedil;o do processo, Portugal era um pequeno poder &agrave; escala europeia, com somente um escasso milh&atilde;o de habitantes e sem uma acumula&ccedil;&atilde;o significativa de riqueza comercial ou financeira ou do poder militar associado. Apesar disso, Portugal seria o centro do primeiro sistema mundial, num processo que come&ccedil;ou pela aquisi&ccedil;&atilde;o de uma capacidade &uacute;nica (a navega&ccedil;&atilde;o nos oceanos), passou por um entendimento global com o outro poder ib&eacute;rico para divis&atilde;o do mundo (o Tratado de Tordesilhas) e se concluiu com a cria&ccedil;&atilde;o da primeira rede comercial global alargada a todos os continentes. O&nbsp;primeiro sistema mundial tinha um &uacute;nico p&oacute;lo, partilhado num entendimento global pelos dois poderes ib&eacute;ricos aliados &#150; Portugal e a Espanha, numa hegemonia bipartida, que defendia valores semelhantes. Os poderes ib&eacute;ricos dominaram os mares durante cerca de um s&eacute;culo, acumularam riqueza e partilharam a defesa de um conjunto de valores b&aacute;sicos, respondendo a perguntas como a de saber quem podia navegar nos oceanos, como se resolviam os conflitos, quem era a autoridade arbitral m&aacute;xima no sistema internacional, como se organizava o com&eacute;rcio, quando era aceit&aacute;vel a escravatura, etc. Era um sistema unipolar bipartido, criado &agrave; volta de um entendimento estrat&eacute;gico entre dois poderes, que foram o centro estruturante da ordem internacional global durante perto de cem anos.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Isto &eacute; um p&oacute;lo, um centro estruturante do poder global. J&aacute;, em contrapartida, no s&eacute;culo&nbsp;XVIII, por exemplo, a Espanha era ainda um grande poder e tinha um imp&eacute;rio mundial, mas n&atilde;o era um p&oacute;lo, estando estrategicamente subordinada &agrave; Fran&ccedil;a; na mesma altura, Portugal dependia do entendimento estrat&eacute;gico com a Inglaterra, incorporando&#45;se num p&oacute;lo diferente da Espanha.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O primeiro sistema mundial vai entrar em decad&ecirc;ncia e cair justamente quando contra ele se ergue um novo p&oacute;lo agregador, que defende valores diferentes (liberdade de navega&ccedil;&atilde;o, os valores da Reforma, organiza&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio global em grandes companhias com uma l&oacute;gica de neg&oacute;cios, para dar s&oacute; alguns exemplos), que tem no seu centro a Inglaterra e as Prov&iacute;ncias Unidas, os poderes navais protestantes do Norte da Europa. A longa luta pela hegemonia que se trava entre 1580 e 1640 em todos os continentes op&otilde;e dois p&oacute;los (os poderes cat&oacute;licos ib&eacute;ricos e os poderes protestantes das Prov&iacute;ncias Unidas/Inglaterra), que incluem v&aacute;rios grandes poderes e organizam alian&ccedil;as gerais e regionais (na &Aacute;sia, por exemplo) para defender valores e criar solu&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas para os problemas internacionais. &Eacute; por isso, e n&atilde;o pelo facto de inclu&iacute;rem grandes poderes, que eles s&atilde;o estruturantes.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Quando um p&oacute;lo se forma, pode originar uma de duas situa&ccedil;&otilde;es. Ou evolui para um dom&iacute;nio global, criando uma situa&ccedil;&atilde;o unipolar (foi o caso de grande parte do s&eacute;culo&nbsp;XIX, entre 1815 e 1870), ou s&oacute; consegue impor as suas solu&ccedil;&otilde;es e valores numa zona limitada, criando&#45;se ent&atilde;o sistemas bipolares ou multipolares. Em regra, os sistemas multipolares s&atilde;o inst&aacute;veis. Veja&#45;se, como exemplo, o sistema internacional entre 1870 e 1914, uma situa&ccedil;&atilde;o multipolar que conduz a uma bipolariza&ccedil;&atilde;o no come&ccedil;o do s&eacute;culo XX, passo interm&eacute;dio antes do choque das guerras mundiais de 1914&#45;1918 e 1939&#45;1945.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Tendo em conta esta clarifica&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria do conceito de p&oacute;lo, importa agora procurar entender qual a situa&ccedil;&atilde;o actual, o que obriga a avan&ccedil;ar um pouco mais na compreens&atilde;o dos grandes problemas no nosso tempo, aqueles que pedem respostas novas, pois s&atilde;o esses que v&atilde;o originar os futuros p&oacute;los.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>NOVOS EQUIL&Iacute;BRIOS DE PODER</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">O mundo actual &eacute; particularmente complexo e conflitual, de uma conflitualidade ainda contida, mas que ir&aacute; explodir a curto prazo; &eacute; uma encruzilhada a muitos n&iacute;veis, que seguem caminhos diferentes em ritmos diversos. Para o procurar entender um pouco melhor, vou fazer uma abordagem a tr&ecirc;s dos principais n&iacute;veis, todos eles tratados de forma sint&eacute;tica e resumida: a altera&ccedil;&atilde;o dos equil&iacute;brios de poder tradicional; a altera&ccedil;&atilde;o da conflitualidade e lealdades; os grandes desafios emergentes.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Um primeiro n&iacute;vel diz respeito aos equil&iacute;brios tradicionais de poder, ao peso relativo dos estados e aos seus objectivos de longo prazo. A minha preocupa&ccedil;&atilde;o inicial &eacute; meramente a de detectar as mudan&ccedil;as que est&atilde;o a ocorrer neste campo, sem desenvolver teorias que as expliquem.</font></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Duas constata&ccedil;&otilde;es se imp&otilde;em numa primeira aproxima&ccedil;&atilde;o: a dilui&ccedil;&atilde;o e a r&aacute;pida altera&ccedil;&atilde;o do equil&iacute;brio do poder entre estados, seja o militar, o econ&oacute;mico ou outro.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O poder internacional est&aacute; cada vez mais disperso, com mais actores estatais (os &uacute;nicos que nos interessam neste n&iacute;vel) e com mais tipo de actores, alguns deles representando uma novidade absoluta em rela&ccedil;&atilde;o ao passado. &Eacute; o caso da UE, um estado muito diferente dos outros, que est&aacute; em processo de edifica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; evidente a perda do peso relativo dos dois poderes principais do tempo da Guerra Fria<sup><a name="top2"></a><a href="#2">2</a></sup> e das suas alian&ccedil;as<sup><a name="top3"></a><a href="#3">3</a></sup>, patentes no seguinte quadro resumo.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><img src="/img/revistas/ri/n31/n31a01t1.jpg" width="483" height="217"></p>
    
<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Agregando os valores, verificamos que os antigos p&oacute;los perderam peso relativo, embora o oriental mais que o ocidental. Os estados da NATO em 1990 (incluindo os Estados Unidos) passaram de 12,2 por cento para 11,5 por cento da popula&ccedil;&atilde;o, de 19,5 por cento para 16,9 por cento das For&ccedil;as Armadas, de 52,8 por cento para 48,8 por cento do Produto Nacional Bruto (PNB), de 66,1 por cento para 59,9 por cento das despesas com a defesa (tudo como percentagem do total mundial). A queda do p&oacute;lo oriental (agregando os estados do Pacto de Vars&oacute;via, onde se inclui a URSS/R&uacute;ssia) &eacute; maior, tendo passado de 7,6 por cento para 3,3 por cento da popula&ccedil;&atilde;o, de 18,7 por cento para 6,4 por cento das For&ccedil;as Armadas, de 3,3 por cento para 4,6 por cento do PNB (&uacute;nico &iacute;ndice com uma varia&ccedil;&atilde;o positiva), de 7,1 por cento para 4,9 por cento das despesas com a defesa. Em conjunto, o n&uacute;cleo central dos antigos p&oacute;los organizado &agrave; volta do Atl&acirc;ntico Norte (os estados da NATO e do Pacto de Vars&oacute;via em 1990) representava 20,1 por cento da popula&ccedil;&atilde;o mundial e passou para 14,8 por cento, representava 38,2 das for&ccedil;as armadas e passou para 23,3 por cento, representava 60 por cento do PNB e passou para 53,4 por cento, representava 73,2 por cento das despesas com a defesa e passou para 64,8 por cento.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; de notar que os Estados Unidos, ao mesmo tempo que diminu&iacute;ram a sua parte na economia mundial (queda do peso relativo do PNB de 27,4 para 23,4 por cento), aumentaram a percentagem nas despesas com a defesa (de 41,8 por cento para 45,5 por cento), o que se explica pelo actual envolvimento em m&uacute;ltiplos teatros de opera&ccedil;&otilde;es. Bastam estes n&uacute;meros muito simples para nos recordar a famosa tese de Paul Kennedy, segundo a qual a queda dos grandes poderes come&ccedil;a normalmente por problemas financeiros, agravados pela tend&ecirc;ncia de um envolvimento militar em muitos teatros, conducente a um aumento anormal das despesas com a defesa. &Eacute; de salientar que as percentagens indicadas representam uma parte do total mundial, pelo que mesmo uma pequena varia&ccedil;&atilde;o representa uma quantidade substancial; por exemplo, a queda nas for&ccedil;as armadas da NATO (sem Estados Unidos) de 2,4 por cento do total mundial, representa uma diminui&ccedil;&atilde;o de 1 255 000 efectivos (de 3 130 000, em 1990, para 1 875 000, em 2011).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Se os antigos n&uacute;cleos e os seus aliados principais t&ecirc;m um peso relativo menor, isto significa obviamente que algu&eacute;m est&aacute; a aumentar a sua fatia. O quadro seguinte permite verificar quem.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
	    <p><img src="/img/revistas/ri/n31/n31a01t2.jpg" width="484" height="202"></p>
    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Em conjunto, estes cinco poderes emergentes passaram de 41,7 por cento da popula&ccedil;&atilde;o mundial para 41,4 por cento (&uacute;nico &iacute;ndice onde registam uma queda); de 20,2 por cento das for&ccedil;as armadas para 22,7 por cento; de 7,1 por cento do PNB mundial para 17 por cento; de 4,4 por cento das despesas com a defesa para 11,2 por cento. Podemos constatar, em resumo, uma estabiliza&ccedil;&atilde;o do peso relativo da popula&ccedil;&atilde;o (o que se traduz num crescimento em n&uacute;meros absolutos da ordem dos 1600 milh&otilde;es e n&atilde;o numa queda da popula&ccedil;&atilde;o), um aumento sens&iacute;vel do peso das For&ccedil;as Armadas (mais nove por cento do total mundial), uma mais que duplica&ccedil;&atilde;o do peso econ&oacute;mico relativo (mais 139 por cento) e um crescimento ainda maior do peso relativo das despesas com a defesa (mais 254 por cento). S&atilde;o poderes, em resumo, que viram a sua economia crescer imenso e que aumentaram ainda mais as despesas com a defesa, o que se traduziu sobretudo num imenso pulo qualitativo das For&ccedil;as Armadas, que eram j&aacute; muito numerosas em 1990. Para dar s&oacute; um exemplo concreto: em 1990, v&aacute;rios estados da UE gastavam mais com a defesa do que a China (era o caso da Fran&ccedil;a, Alemanha, It&aacute;lia, Inglaterra e Espanha); em 2011, as despesas com a defesa da China est&atilde;o em segundo lugar em termos mundiais e s&atilde;o substancialmente maiores que as de qualquer estado da UE.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Durante estes vinte anos surgiram novos poderes nucleares oficiais (&Iacute;ndia e Paquist&atilde;o), mais dois est&atilde;o prestes a ter ou j&aacute; t&ecirc;m armas nucleares (Coreia do Norte e Ir&atilde;o) e os arsenais nucleares de outros expandiram&#45;se sensivelmente (Israel e, sobretudo, China), enquanto os arsenais nucleares dos poderes fundadores do clube tendem a diminuir (Estados Unidos, R&uacute;ssia, Fran&ccedil;a e Reino Unido).</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>A CHINA E A &Iacute;NDIA</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">A China e a &Iacute;ndia s&atilde;o casos especiais e merecem algumas linhas adicionais.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">A China tornou&#45;se nos &uacute;ltimos vinte anos a segunda economia mundial e o segundo poder militar.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Em 1990, por exemplo, a China tinha uma Marinha essencialmente de nega&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas costeiras, onde avultava uma numerosa frota de lanchas, submarinos costeiros e avi&otilde;es de ataque convencionais de pequeno raio de ac&ccedil;&atilde;o. Hoje, a Marinha chinesa tem um n&uacute;cleo importante de submarinos nucleares (nove), prepara os seus primeiros porta&#45;avi&otilde;es e navios de projec&ccedil;&atilde;o de poder, conta com 78 <i>destroyers</i> e fragatas modernos, alguns com sistemas AEGIS, para al&eacute;m de meia centena de modernos submarinos n&atilde;o nucleares, alguns AIP e capazes de lan&ccedil;ar m&iacute;sseis de cruzeiro com ogivas nucleares ou convencionais.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">O poder a&eacute;reo chin&ecirc;s em 1990 era numeroso mas amplamente obsoleto, tendo no seu n&uacute;cleo cerca de cinco mil aparelhos que correspondiam &agrave; gera&ccedil;&atilde;o da d&eacute;cada de 1950 (cerca de 3300 <i>J&#45;6</i>, 500 <i>J&#45;7</i>, 500 <i>A&#45;5</i> e 700 <i>H&#45;5</i> e <i>H&#45;6</i>) e eram c&oacute;pias de modelos sovi&eacute;ticos com pequena incorpora&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica pr&oacute;pria. Hoje, os modelos obsoletos praticamente desapareceram, substitu&iacute;dos em menor n&uacute;mero (a China passou para cerca de um ter&ccedil;o dos aparelhos que tinha em 1990) por uma gera&ccedil;&atilde;o de aparelhos de concep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria que est&atilde;o ao n&iacute;vel dos cong&eacute;neres europeus, como o <i>J&#45;8</i>, <i>J&#45;10</i> e <i>J&#45;11</i>. Recentemente (em Fevereiro de 2011) a China apresentou ao mundo o <i>J&#45;20</i>, um aparelho furtivo de defesa de &aacute;rea de concep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, que s&oacute; tem equivalente no <i>T&#45;50</i> russo (tamb&eacute;m ainda experimental) ou no <i>F&#45;22</i> americano (este j&aacute; entregue a unidades desde 2006, mas ainda n&atilde;o estreado em opera&ccedil;&otilde;es). A actual frota de avi&otilde;es de &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o chineses, apoiados por um crescente n&uacute;mero de aparelhos de guerra electr&oacute;nica e reabastecimento em voo, &eacute; o equivalente em termos num&eacute;ricos e qualitativos da UE no seu conjunto, enquanto em 1990 a China n&atilde;o tinha um &uacute;nico aparelho que se pudesse comparar com os mais modernos da Europa.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Na parada militar comemorativa dos sessenta anos da China Popular, o mundo ficou igualmente surpreendido ao verificar a exist&ecirc;ncia de dezenas de novos modelos de ve&iacute;culos blindados do Ex&eacute;rcito, todos eles de concep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria e cobrindo o amplo leque das capacidades militares terrestres &#150; passado vai o tempo em que a China se limitava a fazer c&oacute;pias dos modelos russos j&aacute; obsoletos.</font></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O salto mais importante da China, por&eacute;m, foi dado em termos do seu arsenal nuclear e das capacidades aeroespaciais. O arsenal nuclear conta com 442 m&iacute;sseis de longo ou m&eacute;dio alcance, dos quais 66 s&atilde;o ICBM, para al&eacute;m de 36 SLBM em tr&ecirc;s submarinos nucleares estrat&eacute;gicos e de centenas de ogivas nucleares t&aacute;cticas, que podem ser lan&ccedil;adas por m&iacute;sseis de cruzeiro, avi&otilde;es ou foguetes. A China, em resumo, alcan&ccedil;ou j&aacute; a capacidade de destrui&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua assegurada em rela&ccedil;&atilde;o a qualquer outro poder, o que a coloca num clube muito restrito.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">A &Iacute;ndia teve uma evolu&ccedil;&atilde;o semelhante no sentido de aquisi&ccedil;&atilde;o de capacidades inexistentes, com uma ampla moderniza&ccedil;&atilde;o a todos os n&iacute;veis, embora ainda com evidentes pontos de estrangulamento e sem a capacidade chinesa de produzir sistemas de armas modernos de concep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria na totalidade das vertentes. A grande mudan&ccedil;a nas capacidades militares da &Iacute;ndia nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas foi a cria&ccedil;&atilde;o de um arsenal nuclear com componentes nos tr&ecirc;s servi&ccedil;os coordenados pelo Strategic Forces Command. O Ex&eacute;rcito conta com cerca de 130 IRBM de concep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria (<i>Agni</i> <i>I</i>, <i>II</i> e <i>III</i>) e outros tantos SRBM; a For&ccedil;a A&eacute;rea pode usar a sua frota de <i>Mirage 2000</i> e de <i>Su&#45;30</i> com armas nucleares; a Marinha prepara a futura frota de submarinos nucleares (recebeu um russo da classe <i>Nerpa/Chakra</i> para treino) bem como porta&#45;avi&otilde;es suscept&iacute;veis de lan&ccedil;ar aparelhos com capacidade nuclear (nomeadamente os <i>Mig&#45;29K</i>, j&aacute; adquiridos). Em Mar&ccedil;o de 2011 a &Iacute;ndia testou com sucesso um m&iacute;ssil antim&iacute;ssil pr&oacute;prio, que interceptou a 16 quil&oacute;metros de altitude um IRBM<i> Prithvi II</i>.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">O vizinho Paquist&atilde;o, apesar de devastado pela divis&atilde;o interna, conta com um arsenal nuclear de mais de 110 ogivas e compra moderno armamento &agrave; China e aos Estados Unidos (s&oacute; em Mar&ccedil;o de 2011 encomendou 36 ca&ccedil;as <i>J&#45;10</i>, equivalentes ao <i>F&#45;16</i> que est&aacute; igualmente em servi&ccedil;o, aparelhos n&atilde;o pilotados <i>ZDK&#45;03</i> e seis submarinos <i>AIP</i> de concep&ccedil;&atilde;o chinesa capazes de lan&ccedil;arem m&iacute;sseis nucleares de cruzeiro).</font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>DISPERS&Atilde;O E ALTERA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Assistimos assim a dois movimentos em termos do poder militar. Em primeiro lugar, a uma dispers&atilde;o, com cerca de 40 novos estados formados nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas e com a aquisi&ccedil;&atilde;o de capacidades que antes pertenciam a poucos por alguns mais. Em segundo lugar, uma r&aacute;pida mudan&ccedil;a, com novos poderes emergentes que crescem muito rapidamente, dos quais s&oacute; um (a China) alcan&ccedil;ou j&aacute; uma dimens&atilde;o global. N&atilde;o se trata somente de uma desloca&ccedil;&atilde;o quantitativa do peso relativo. As capacidades de qualquer dos poderes emergentes, tanto em termos econ&oacute;micos como militares, deram um pulo imenso nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Veja&#45;se o caso do Brasil, por exemplo, que conta hoje com uma ind&uacute;stria aeron&aacute;utica que est&aacute; entre as primeiras cinco mundiais e exporta aparelhos de concep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria para a Fran&ccedil;a ou para o Reino Unido, bem como blindados para mais de trinta estados em todos os continentes.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Em poucos momentos da hist&oacute;ria mundial se assistiu a uma mudan&ccedil;a t&atilde;o r&aacute;pida no equil&iacute;brio do poder &#150; talvez o &uacute;nico paralelo seja a r&aacute;pida ascens&atilde;o da Alemanha depois de 1871.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O que torna este movimento t&atilde;o desconcertante n&atilde;o &eacute; s&oacute; a rapidez com que est&aacute; a ocorrer; &eacute; sobretudo o facto evidente de ele ainda estar no come&ccedil;o. A esmagadora maioria dos observadores reconhece que o poder relativo da China, da &Iacute;ndia ou do Brasil vai continuar a aumentar. Se nos &uacute;ltimos vinte anos a China passou de 2,2 para 9,2 por cento do PNB mundial, tornando&#45;se na segunda economia, ou, caso se prefira, se os Estados Unidos passaram de 12 vezes a economia chinesa para 2,5 vezes, o que ir&aacute; acontecer nos pr&oacute;ximos vinte anos? Dito por outras palavras: quando se tornar&aacute; a China a primeira economia mundial? J&aacute; em 2020, como referem alguns, ou s&oacute; em 2030? O que ir&aacute; acontecer, sobretudo tendo em conta que o crescimento da economia nos Estados Unidos ou na Europa tem sido praticamente nulo desde 2008, enquanto a China faz o poss&iacute;vel para n&atilde;o crescer a mais de 10 por cento ao ano?</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Como vai a China responder ao grande crescimento na procura de recursos, quando eles tendem a tornar&#45;se escassos em termos mundiais? Ser&aacute; que suportar&aacute; barreiras que lhe queiram impor artificialmente? A mundializa&ccedil;&atilde;o da economia chinesa come&ccedil;ou com a cria&ccedil;&atilde;o de uma imensa rede global de comercializa&ccedil;&atilde;o, com base em centenas de milhares de pequenas lojas e restaurantes, apoiados num imenso crescimento das comunidades chinesas em praticamente todos os mais de duzentos estados do mundo. H&aacute; muitos milhares de &laquo;lojas do chin&ecirc;s&raquo; em pa&iacute;ses t&atilde;o diferentes como Portugal, o&nbsp;Uruguai, a Nig&eacute;ria ou a Austr&aacute;lia. Desde h&aacute; dez anos a China deu o passo seguinte, e&nbsp;passou a adquirir fontes de recursos (principalmente minas e terras), redes de comercializa&ccedil;&atilde;o (transportes, caminhos&#45;de&#45;ferro, portos) e redes de comunica&ccedil;&otilde;es ou centros de informa&ccedil;&atilde;o numa escala mundial (desde o Sri Lanka, &agrave; &Aacute;frica do Sul ou &agrave; Gr&eacute;cia). Que vai acontecer no futuro, quando a China &eacute; j&aacute; hoje a principal fonte de cr&eacute;dito internacional e a maior detentora de t&iacute;tulos de d&iacute;vida soberana, nomeadamente dos americanos, para j&aacute; n&atilde;o falar de Portugal?</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Alguns observadores dir&atilde;o: n&atilde;o h&aacute; problema, o mundo hoje &eacute; muito diferente do passado, mais globalizado e interligado, pelo que essa brutal altera&ccedil;&atilde;o do poder relativo n&atilde;o vai conduzir a uma nova guerra; acrescentar&atilde;o mesmo que as economias chinesa e americana est&atilde;o intimamente interligadas, n&atilde;o podendo viver uma sem a outra; os que t&ecirc;m uma tend&ecirc;ncia mais hist&oacute;rica poder&atilde;o ainda recordar que nos mil&eacute;nios anteriores nunca a China tentou dominar o mundo; os que se considerem dotados para a&nbsp;sociologia, n&atilde;o deixar&atilde;o de lembrar que as tens&otilde;es internas na China s&atilde;o imensas e dif&iacute;ceis de gerir, podendo levar mesmo &agrave; sua impuls&atilde;o; finalmente, os que tenham voca&ccedil;&atilde;o para a geopol&iacute;tica, n&atilde;o deixar&atilde;o de recordar que a China est&aacute; rodeada de poderes fortes que a cont&ecirc;m, desde a &Iacute;ndia, ao Jap&atilde;o e &agrave; R&uacute;ssia.</font></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Tudo isto &eacute; verdade, mas basta recordar uma outra situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica para compreender que isso n&atilde;o quer dizer que um conflito seja imposs&iacute;vel a m&eacute;dio prazo. Quando come&ccedil;ou a ascens&atilde;o alem&atilde; (em 1871), o novo poder emergente tinha igualmente fortes la&ccedil;os econ&oacute;micos com a Inglaterra, que era o seu aliado tradicional na Europa e a fonte das principais tecnologias. Desde que o crescimento relativo da Alemanha come&ccedil;ou, foram precisos mais de vinte anos para que ele se transformasse num choque oficial com a Inglaterra (a partir de 1898). Mesmo assim, Londres fez tudo para tentar um entendimento estrat&eacute;gico com a Alemanha e evitar a guerra, mas esta acabaria por estalar em 1914. O arranque econ&oacute;mico chin&ecirc;s est&aacute; esbo&ccedil;ado desde os anos 1980, come&ccedil;a nos anos 1990 e adquire um estonteante ritmo a partir do novo mil&eacute;nio. Ainda s&oacute; passaram vinte anos de crescimento muito acima da m&eacute;dia mundial e a China &eacute; j&aacute; a segunda economia global, algo que a Alemanha demorou trinta anos a conseguir.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>DIFICULDADES DOS PODERES TRADICIONAIS</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">O que torna o actual mundo ainda mais desconcertante quanto ao equil&iacute;brio dos poderes n&atilde;o &eacute; tanto a r&aacute;pida ascens&atilde;o dos emergentes, mas sim a r&aacute;pida queda dos antigos. Os Estados Unidos continuam a ser um poder militar formid&aacute;vel, que domina todos os oceanos, controla os ares em quase toda a parte, domina o n&iacute;vel aeroespacial e tem um evidente avan&ccedil;o t&eacute;cnico e cient&iacute;fico em muitas &aacute;reas.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Ao mesmo tempo, por&eacute;m, s&atilde;o muito vis&iacute;veis os sinais de que o poder relativo dos Estados Unidos actualmente &eacute; um resultado da in&eacute;rcia do passado, que se pode esgotar muito rapidamente. Os grandes poderes normalmente come&ccedil;am a sua r&aacute;pida queda por crises financeiras, em regra resultantes de um excesso de compromissos externos, da vontade de estar em toda a parte e de fazer tudo, sem ter em conta os custos, a que se junta uma tend&ecirc;ncia para uma vida de luxo da popula&ccedil;&atilde;o em geral. O poder financeiro &eacute; um componente essencial das capacidades globais. Foram os d&oacute;lares americanos, mais do que o seu poder militar, que permitiram a cria&ccedil;&atilde;o dos alicerces b&aacute;sicos do p&oacute;lo americano durante a Guerra Fria, desde a NATO, ao Plano Marshall (base da UE), ao&nbsp;General Agreement on Tariffs and Trade (GATT), Fundo Monet&aacute;rio Internacional (FMI) ou ao Banco Mundial.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Hoje em dia a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; justamente o oposto: o d&eacute;fice federal americano &eacute; um buraco gigantesco que cresce desde a guerra do Vietname, a balan&ccedil;a comercial &eacute; muito negativa, os Estados Unidos vivem do cr&eacute;dito de todo o mundo, a come&ccedil;ar na China. O&nbsp;antigo gigante &eacute; hoje incapaz de financiar qualquer projecto internacional de grande dimens&atilde;o e a mais pequena crise obriga&#45;o a bater &agrave; porta do refor&ccedil;o do endividamento externo, com pedidos de ajuda &agrave; China ou &agrave; Ar&aacute;bia. A ru&iacute;na financeira dos Estados Unidos &eacute; j&aacute; uma realidade, bem patente nas recentes medidas da Administra&ccedil;&atilde;o Obama &#150; de repente, o d&eacute;fice federal, que antes se dizia n&atilde;o ter qualquer import&acirc;ncia, passou a ser a &uacute;nica coisa importante na pol&iacute;tica. Do nada para o tudo, em poucas semanas &#150; &eacute; esta a pol&iacute;tica actual.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Acresce a isto uma preocupante tend&ecirc;ncia dos projectos de defesa americanos ca&iacute;rem no fasc&iacute;nio das possibilidades t&eacute;cnicas, o que se traduz em custos exorbitantes. Todos os projectos de defesa importantes dos Estados Unidos nos &uacute;ltimos anos derraparam para custos muito superiores ao previsto, e/ou foram cancelados (como aconteceu com o FCS), ou obtiveram um produto final astronomicamente caro, que s&oacute; os Estados Unidos podem comprar e em poucos exemplares. O <i>F&#45;22</i> acabou por ter um incr&iacute;vel custo unit&aacute;rio de 411 milh&otilde;es de d&oacute;lares, o <i>F&#45;35</i> vai em 115 milh&otilde;es (e continua a somar), o <i>MV&#45;22</i> em 122 milh&otilde;es, um <i>destroyer</i> moderno americano chega praticamente aos dois bili&otilde;es, um submarino at&oacute;mico aos mais de tr&ecirc;s. S&atilde;o custos imensos, que s&oacute; os Estados Unidos podem suportar, devido a gastos com a defesa que representam mais do dobro dos europeus em termos de percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) (4,8 por cento nos Estados Unidos e uma m&eacute;dia de dois por cento na UE). Um sistema de armas chin&ecirc;s, por exemplo, pode ter menor capacidade que o seu equivalente americano, mas custa cerca de quinze vezes menos.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Durante quanto mais tempo aguentar&aacute; a economia americana o esfor&ccedil;o que lhe &eacute; pedido? Os Estados Unidos s&atilde;o de longe quem mais gasta com a defesa, tendo a China, que vem em segundo lugar, um montante cinco vezes menor em termos absolutos e duas vezes menor em termos de percentagem do PIB. Poder&aacute; a economia americana sustentar este esfor&ccedil;o nos pr&oacute;ximos anos, numa altura em que se faz sentir uma press&atilde;o imensa para diminuir o d&eacute;fice federal?</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O desgaste do poder financeiro americano, da sua imagem como modelo do mundo e da sua capacidade de lideran&ccedil;a tem sido imenso nos &uacute;ltimos anos. Ser&aacute; ainda poss&iacute;vel inverter a situa&ccedil;&atilde;o? Se sim, isso passar&aacute; sem d&uacute;vida por mudan&ccedil;as dr&aacute;sticas nas pol&iacute;ticas, coisa que a Administra&ccedil;&atilde;o Obama prometeu... mas n&atilde;o concretizou.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">A Europa n&atilde;o est&aacute; melhor. A queda relativa da sua economia e do seu poder militar foi mais forte que a americana nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas e a situa&ccedil;&atilde;o financeira est&aacute; igualmente &agrave; beira do desastre, com o recurso &agrave; ajuda externa de tr&ecirc;s estados do euro (Gr&eacute;cia, Irlanda e Portugal) e graves dificuldades em muitos outros, mesmo nos grandes (como a Espanha ou a It&aacute;lia).</font></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A Europa como um todo tornou&#45;se um ref&eacute;m do chamado &laquo;modelo social europeu&raquo;, que foi erguido no p&oacute;s&#45;guerra, numa altura de prosperidade e forte crescimento econ&oacute;mico, com uma popula&ccedil;&atilde;o muito mais jovem que a actual. Hoje em dia (2011) o crescimento econ&oacute;mico europeu &eacute; reduzido, a popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; cada vez mais velha e as despesas com o &laquo;modelo social&raquo; n&atilde;o param de crescer. O que &eacute; mais, a Europa nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas caiu alegremente na voragem do endividamento, contraindo cada vez mais d&iacute;vida para refinanciar a anterior e aguentar um &laquo;modelo social&raquo; n&atilde;o sustent&aacute;vel com os recursos pr&oacute;prios. Todos percebem que este n&atilde;o &eacute; um modelo com futuro, mas a verdade &eacute; que continua.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; cada vez mais complicado financiar o gigantesco Estado&#45;provid&ecirc;ncia europeu, caminhando todos os pa&iacute;ses no sentido de reduzir os custos, sem colocar em causa o modelo te&oacute;rico &#150; fazem o que podem para conter o insaci&aacute;vel monstro, mas o resultado pr&aacute;tico &eacute; insuficiente. Os efeitos desta situa&ccedil;&atilde;o na economia e nas mentalidades s&atilde;o imensos, pois nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas criou&#45;se nas popula&ccedil;&otilde;es a ideia de que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio o esfor&ccedil;o individual, que o m&eacute;rito n&atilde;o deve ser premiado, que todos s&atilde;o iguais e&nbsp;que a entidade colectiva estar&aacute; sempre ali para assegurar as necessidades b&aacute;sicas. &Eacute;&nbsp;exactamente o contr&aacute;rio dos valores de individualismo que fizeram a grandeza da Europa em tempos idos.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Tal como aconteceu com o modelo comunista h&aacute; vinte anos, o Estado&#45;provid&ecirc;ncia est&aacute; em crise aberta, mas as clientelas que vivem &agrave; sua sombra continuam a garantir que ele representa o essencial dos valores europeus e que &eacute; necess&aacute;rio &laquo;cerrar fileiras&raquo; para a sua defesa. Faz lembrar os tempos em que os comunistas diziam que eram necess&aacute;rias meras reformas, mas que n&atilde;o se podia tocar no essencial &#150; o resultado foi uma autodestrui&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Os valores europeus s&atilde;o muito antigos, t&ecirc;m milhares de anos e n&atilde;o se identificam com os de um Estado&#45;provid&ecirc;ncia que s&oacute; cresceu nos &uacute;ltimos cinquenta anos. H&aacute; um abismo entre os valores europeus da democracia e dos direitos do indiv&iacute;duo, com cerca de quatro mil anos, e a realidade do colectivismo do Estado&#45;provid&ecirc;ncia, com escasso meio s&eacute;culo.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O Estado&#45;provid&ecirc;ncia tornou&#45;se um imenso factor de desvitaliza&ccedil;&atilde;o da Europa, um sorvedouro de recursos gigantesco, que leva tudo e deixa cada vez menos. Os recursos que deviam ir para a investiga&ccedil;&atilde;o, para a cultura, para o refor&ccedil;o do papel da Europa no mundo, para o aumento da produtividade, passam a ser dirigidos para a manuten&ccedil;&atilde;o artificial do n&iacute;vel de vida de uma popula&ccedil;&atilde;o cada vez mais velha, mais doente e mais exigente quanto aos &laquo;direitos adquiridos&raquo;. O resultado &eacute; uma imensa falta de recursos, uma queda brutal das despesas com a defesa (de 24 para 14 por cento do total mundial nos &uacute;ltimos vinte anos), um crescente endividamento, uma tens&atilde;o contida a custo, que explode violentamente ao mais pequeno pretexto, uma incapacidade de assegurar a melhoria qualitativa ou o crescimento (se &eacute; que ainda se pode pensar nos dois em conjunto).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Talvez ainda mais importante, &eacute; vis&iacute;vel que o projecto europeu perdeu o seu &iacute;mpeto depois da cria&ccedil;&atilde;o do euro e est&aacute; hoje virado para uma estrat&eacute;gia de defesa do existente, sem ser capaz de se renovar e de se relan&ccedil;ar. Mesmo as conquistas adquiridas s&atilde;o postas em causa, com o euro em crise e as fronteiras a fecharem&#45;se &#150; veja&#45;se a recente decis&atilde;o da Dinamarca, que restabeleceu o controlo das suas fronteiras. O peso relativo da Europa est&aacute; em queda no mundo em todos os aspectos, seja a popula&ccedil;&atilde;o (de 7,8 para 6,9 por cento), o PNB (de 29 por cento para 25 por cento), as for&ccedil;as armadas (de 11,6 por cento para 9,2 por cento) ou as despesas com a defesa (de 24 por cento para 14 por cento)<sup><a name="top4"></a><a href="#4">4</a></sup>.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">H&aacute; igualmente factores positivos que devem ser real&ccedil;ados na Europa. Os valores que serviram de alicerce ao edif&iacute;cio europeu continuam hoje mais vivos e atractivos do que nunca numa escala mundial, principalmente a cren&ccedil;a de que o indiv&iacute;duo &eacute; o centro da sociedade, que tudo gira &agrave; sua volta, que ele tem direitos inalien&aacute;veis e que estes devem ser protegidos e garantidos. Essa &eacute; a base da ideia democr&aacute;tica, de uma civiliza&ccedil;&atilde;o de civismo e liberdade que foi a grande inven&ccedil;&atilde;o europeia a n&iacute;vel mundial. Os&nbsp;grandes problemas da Europa surgiram quando estes valores milenares, que encontram a&nbsp;sua raiz na Antiguidade, se misturaram com as teorias colectivistas do Estado gigantesco, consagradas na segunda metade do s&eacute;culo XX, criando uma sociedade de comodidade e facilidade. Foi uma sociedade que nasceu num per&iacute;odo de forte crescimento econ&oacute;mico, mas entrou em crise quando as condi&ccedil;&otilde;es que a geraram mudaram.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Um outro factor positivo da Europa &eacute; a sua aposta no <i>soft power</i>, na flexibilidade da sua aproxima&ccedil;&atilde;o ao mundo, na largueza de vistas que n&atilde;o quer reduzir tudo e todos a um modelo &uacute;nico de sociedade ou de valores, no cosmopolitismo, que a faz acreditar nos benef&iacute;cios da diversidade. &Eacute; esta aproxima&ccedil;&atilde;o peculiar e muito pr&oacute;pria da Europa que tem sido o seu grande trunfo. Foi ela que lhe deu a capacidade de manter um n&iacute;vel anormalmente elevado de influ&ecirc;ncia no mundo, numa altura de queda evidente do seu poder relativo econ&oacute;mico e militar.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Ser&aacute; o velho continente capaz de renovar os seus valores milenares, de se libertar da ganga do pensamento colectivista, de resolver a sua crise financeira, de recriar numa nova base a UE e, a partir desse processo, de renascer da crise actual mais forte do que antes? &Eacute; poss&iacute;vel, mas longe de ser certo. &Eacute; sobretudo algo em que &eacute; necess&aacute;rio acreditar e para o qual vale a pena procurar caminhos, pois a alternativa &eacute; o fim do sonho europeu e a continua&ccedil;&atilde;o da lenta queda para o abismo, o que ser&aacute; o resultado inevit&aacute;vel da tentativa de financiar durante mais umas d&eacute;cadas um modelo sem futuro, sem gl&oacute;ria, sem mito e sem valores. Querer prolongar o que n&atilde;o tem sustenta&#45;
bilidade ou futuro, s&oacute; faz com que a queda seja aparatosa, traum&aacute;tica e dif&iacute;cil de recuperar. A&nbsp;renova&ccedil;&atilde;o dos valores &eacute; hoje, mais do que nunca, o caminho para o renascer da Europa.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>GIGANTES CEGOS &#150; MUITA FOR&Ccedil;A, POUCO PODER</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">&Agrave; luz destas considera&ccedil;&otilde;es muito breves e resumidas j&aacute; &eacute; poss&iacute;vel entender um pouco melhor porque afirmei no come&ccedil;o que vivemos num mundo sem p&oacute;los. Os poderes emergentes ainda n&atilde;o s&atilde;o p&oacute;los e os antigos est&atilde;o em queda, atravessam uma profunda crise de valores e conhecem uma imensa crise financeira, que os impede de financiar qualquer solu&ccedil;&atilde;o global mesmo que a tivessem, coisa que n&atilde;o acontece.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Os antigos poderes, em resumo, n&atilde;o t&ecirc;m a&nbsp;solu&ccedil;&atilde;o para os problemas actuais, e, mesmo que a tivessem, perderam a vontade de a aplicar ou a capacidade de a financiar. Talvez a venham a reconquistar, mas, por enquanto, &eacute; meramente um potencial.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Hoje em dia, infelizmente, os antigos p&oacute;los enfrentam de v&aacute;rias formas uma crise que &eacute; interna e se situa sobretudo no campo dos valores e modelos, agravada por uma derrapagem financeira que se agrava com o tempo. S&atilde;o gigantes cegos. T&ecirc;m ainda um imenso poder militar, que herdaram de um passado glorioso, mas s&atilde;o incapazes de o usar de uma forma efectiva para criar uma hegemonia renovada, que seja a base de uma nova ordem internacional. Est&atilde;o presos aos mitos e aos valores do passado, de uma sociedade industrial e colectivista, numa altura em que a primeira j&aacute; n&atilde;o existe e o segundo n&atilde;o responde aos problemas actuais. O mundo mudou; as pol&iacute;ticas ainda n&atilde;o. O grande trav&atilde;o para que isso aconte&ccedil;a s&atilde;o os valores herdados de uma sociedade industrial que desapareceu, mas deixou o seu lastro nas mentalidades e atitudes.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O que ficou escrito j&aacute; &eacute; base suficiente para sustentar a ideia que vivemos num mundo apolar, pois os antigos p&oacute;los deixaram de ser capazes de estruturar solu&ccedil;&otilde;es para os problemas do nosso tempo e os novos ainda n&atilde;o surgiram. At&eacute; agora, por&eacute;m, s&oacute; foi aflorada a rama do problema, s&oacute; mencionei o primeiro, o mais f&aacute;cil n&iacute;vel de an&aacute;lise, aquele a que chamei de equil&iacute;brio cl&aacute;ssico dos poderes. &Eacute; altura de mencionar os outros n&iacute;veis, bastante mais complexos e imprevis&iacute;veis.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>AS &laquo;GUERRAS DO CAOS&raquo; E O SEU SIGNIFICADO</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; normal dizer que o mundo mudou depois do 11 de Setembro e fazer essa mudan&ccedil;a depender das chamadas &laquo;novas amea&ccedil;as&raquo;, &agrave; cabe&ccedil;a das quais se coloca normalmente o terrorismo transnacional. A afirma&ccedil;&atilde;o em si n&atilde;o &eacute; errada; &eacute; simplesmente demasiado simplista.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Para entender melhor as mudan&ccedil;as posteriores ao 11 de Setembro conv&eacute;m examinar brevemente alguns dos principais conflitos do mundo actual. Comecemos pela convuls&atilde;o no mundo &aacute;rabe, que alguns chamam de &laquo;revolu&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica&raquo; e outros de &laquo;movimento fundamentalista&raquo;, estando ambos errados. O que estes movimentos nacionais muito diversos t&ecirc;m em comum &#150; seja no Egipto, L&iacute;bia, Bar&eacute;m ou S&iacute;ria &#150; &eacute; a sua extrema complexidade, com motiva&ccedil;&otilde;es muito variadas e actores muito diversos, que recorrem a uma ampla pan&oacute;plia de meios, desde a contesta&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica &agrave; guerra violenta. T&ecirc;m igualmente em comum a sua interliga&ccedil;&atilde;o, a forma como todos eles se internacionalizam desde o primeiro momento, a ponto de os governos afectados acusarem sempre uma entidade externa de os ter provocado (seja a Al&#45;Qaida, Israel ou o Ir&atilde;o). S&atilde;o movimentos t&iacute;picos da nossa era: sem uma organiza&ccedil;&atilde;o central que os controle ou organize, sem uma ideologia clara, sem valores assumidos, complexos, interligados, internacionalizados, com motiva&ccedil;&otilde;es m&uacute;ltiplas, t&atilde;o depressa pac&iacute;ficos como violentos, tanto civis como militares. Os valores que defendem s&atilde;o m&uacute;ltiplos, o que significa que os que afirmam que se trata de movimentos democr&aacute;ticos est&atilde;o correctos, mas os que defendem que s&atilde;o movimentos fundamentalistas isl&acirc;micos est&atilde;o igualmente correctos. S&atilde;o muito diferentes dos movimentos da Guerra Fria, que tinham uma organiza&ccedil;&atilde;o estruturada, valores oficiais dominantes, m&eacute;todos consagrados.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Vejamos outro caso: o M&eacute;xico mergulhado na guerra civil intermitente, que provocou entre 10 a 13 mil mortos s&oacute; no ano passado<sup><a name="top5"></a><a href="#5">5</a></sup>, em lutas violentas que envolveram mais de 100 mil combatentes (civis e militares), ligados a dezenas de organiza&ccedil;&otilde;es. Trata&#45;se de uma efectiva guerra civil, mais quente nuns per&iacute;odos, mais tranquila noutros, que se trava mesmo &agrave;s portas dos Estados Unidos, em cima da zona de fronteira. &Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o muito diferente dos movimentos do mundo &aacute;rabe, mas temos pontos em comum: movimenta&ccedil;&otilde;es civis e militares; muitos lados e n&atilde;o somente dois; valores difusos; motiva&ccedil;&otilde;es muito variadas (est&atilde;o envolvidos cart&eacute;is de drogas, mas igualmente redes de emigra&ccedil;&atilde;o clandestina, movimentos regionalistas, etc.); internacionaliza&ccedil;&atilde;o desde o primeiro momento (com uma interven&ccedil;&atilde;o muito activa dos Estados Unidos, tanto do Governo como de organiza&ccedil;&otilde;es criminosas americanas); uso por alguns de uma viol&ecirc;ncia extrema e sem regras, onde actos terroristas que visam criar o p&acirc;nico se misturam com combates convencionais e ac&ccedil;&otilde;es de protesto pac&iacute;fico. &Eacute; um mesmo padr&atilde;o: multiplica&ccedil;&atilde;o dos actores, dos valores, das motiva&ccedil;&otilde;es, numa ac&ccedil;&atilde;o confusa e ca&oacute;tica que decorre principalmente em zona urbana, de uma extrema viol&ecirc;ncia e com o uso de todo o tipo de t&aacute;cticas por civis e militares.</font></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Examinemos ainda um terceiro caso: a situa&ccedil;&atilde;o no Sud&atilde;o e no Corno de &Aacute;frica, um imenso caos, com estados desfeitos, milh&otilde;es de mortos (s&oacute; no Sud&atilde;o, para cima de tr&ecirc;s milh&otilde;es na &uacute;ltima d&eacute;cada), genoc&iacute;dios e crimes de guerra em larga escala, renascimento da pirataria mar&iacute;tima, multid&otilde;es imensas de refugiados, um cen&aacute;rio de horror como raras vezes se registou. Para ter uma ideia da dimens&atilde;o imensa desta cat&aacute;strofe humanit&aacute;ria basta referir que s&oacute; na zona do Darfur est&aacute; presente a mais numerosa miss&atilde;o da ONU (27 mil membros). &Eacute; uma guerra muito vasta e variada, que se prolonga h&aacute; dezenas de anos (pelo menos desde 1974), abarca toda a regi&atilde;o do Baixo Nilo ao Corno de &Aacute;frica, envolvendo v&aacute;rios estados (Chade, Sud&atilde;o, Eti&oacute;pia, Som&aacute;lia, Eritreia entre outros). Este ros&aacute;rio de conflitos j&aacute; provocou o colapso de tr&ecirc;s estados e o caos numa zona que corresponde ao territ&oacute;rio da UE.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O que caracteriza este cacho de conflitos &eacute; a sua extrema complexidade, viol&ecirc;ncia numa escala inaudita, envolvimento de dezenas de agentes locais e internacionais (L&iacute;bia, ex&#45;URSS na primeira fase; Estados Unidos, UE, NATO, China, &Iacute;ndia, Uni&atilde;o Africana, ONU, mais recentemente), utiliza&ccedil;&atilde;o de todos os m&eacute;todos e t&aacute;cticas de ac&ccedil;&atilde;o, desde combates convencionais com centenas de carros blindados, a ac&ccedil;&otilde;es terroristas e a manifesta&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas, tudo misturado numa ac&ccedil;&atilde;o complexa e muito diversificada. O&nbsp;resultado de uma guerra imensa (ou de v&aacute;rias, encadeadas umas nas outras) que se prolonga h&aacute; d&eacute;cadas &eacute; o caos numa imensa zona de &Aacute;frica, uma anarquia e confus&atilde;o como a Europa n&atilde;o conhece desde a Guerra dos Trinta Anos.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">S&atilde;o tr&ecirc;s exemplos de conflitos do nosso tempo, em tr&ecirc;s continentes e em contextos muito diferentes. Outros se podiam citar, para concluir que, apesar da sua imensa diferen&ccedil;a, t&ecirc;m v&aacute;rios aspectos em comum. Em primeiro lugar, &eacute; a grande desordem: n&atilde;o h&aacute; dois lados, mas muitos, com dezenas de agentes e motiva&ccedil;&otilde;es. Em segundo lugar, &eacute; o colapso total ou parcial dos estados das regi&otilde;es afectadas: desaparece o poder central capaz de criar a ordem, seja ela democr&aacute;tica ou n&atilde;o, e instala&#45;se o caos, que n&atilde;o tarda a afectar a popula&ccedil;&atilde;o civil, tendendo a provocar imensas cat&aacute;strofes humanit&aacute;rias. Em terceiro lugar, &eacute; a internacionaliza&ccedil;&atilde;o imediata, com o envolvimento tanto de estados como dos mais diversos tipos de organiza&ccedil;&otilde;es transnacionais, desde as intergovernamentais, &agrave;s humanit&aacute;rias, grupos criminosos, empresas e outras. Em quarto lugar, &eacute; a grande diversidade dos m&eacute;todos e t&aacute;cticas usadas, que v&atilde;o desde o protesto pac&iacute;fico aos mais violentos actos terroristas, passando por combates entre for&ccedil;as militares convencionais, ac&ccedil;&otilde;es de guerrilha, massacres e genoc&iacute;dios em diversa escala. Em quinto lugar, &eacute; a multiplicidade de valores, ideologias e doutrinas em confronto, sem que seja poss&iacute;vel distinguir sequer os dominantes na maior parte dos casos. Em sexto lugar, decorrem essencialmente num contexto urbano, normalmente em zonas degradadas. S&atilde;o estes os conflitos do nosso tempo, muito diferentes do passado recente.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; muito dif&iacute;cil classificar estes conflitos, em particular os dois &uacute;ltimos. Eles n&atilde;o s&atilde;o &laquo;guerras insurreccionais&raquo;, ou &laquo;guerras de guerrilhas&raquo; ou sequer &laquo;conflitos irregulares&raquo;, embora tenham aspectos de todos eles. Penso que &eacute; necess&aacute;ria uma nova classifica&ccedil;&atilde;o e que a mais apropriada &eacute; a de &laquo;conflitos do caos&raquo;, conflitos que tendem a mergulhar as amplas zonas afectadas no caos, com o colapso do Estado e da autoridade, degenerando alguns deles em cat&aacute;strofes humanit&aacute;rias imensas (como no Sud&atilde;o).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Em todos os casos assistimos a um colapso ou importante enfraquecimento dos estados das regi&otilde;es afectadas, com um crescimento do poder paralelo das organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o estatais, sejam ou n&atilde;o legais. Assistimos igualmente a uma r&aacute;pida transfer&ecirc;ncia das lealdades das popula&ccedil;&otilde;es afectadas, que tendem a trocar o enquadramento nacional como principal refer&ecirc;ncia normativa, por outras fidelidades, sejam elas os <i>gangs</i>, ideologias, religi&otilde;es ou, pura e simplesmente, a necessidade de sobreviver. O instinto de sobreviv&ecirc;ncia passa, ali&aacute;s, a ser a principal motiva&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o de uma grande parte das popula&ccedil;&otilde;es ao fim de algum tempo. Estes conflitos tendem a produzir milh&otilde;es de refugiados, pelo simples motivo que o colapso ou enfraquecimento dos estados traz consigo a crise dos sistemas de sustenta&ccedil;&atilde;o da vida.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Estamos muito longe dos conflitos t&iacute;picos da Guerra Fria, onde havia somente dois lados, onde os valores dominantes eram claros, onde havia organiza&ccedil;&otilde;es f&aacute;ceis de identificar, onde as t&aacute;cticas eram previs&iacute;veis e as regras conhecidas. Os conflitos actuais reflectem um outro mundo, com a dilui&ccedil;&atilde;o de valores e fidelidades, com o enfraquecimento do enquadramento estatal, com o caos e a anarquia a instalarem&#45;se, com ac&ccedil;&otilde;es muito diversas que envolvem civis e militares. Estas s&atilde;o as reais &laquo;novas amea&ccedil;as&raquo; e o terrorismo transnacional nem sequer &eacute; uma delas, porque n&atilde;o passa de uma t&aacute;ctica usada por muitas entidades &#150; uma t&aacute;ctica n&atilde;o &eacute; uma amea&ccedil;a; quem a usa &eacute; que pode ser.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">A dificuldade em actuar nestes conflitos &eacute; que eles n&atilde;o se resolvem pelo m&eacute;todo normal de esmagar militarmente um dos muitos lados, embora a solu&ccedil;&atilde;o possa passar por a&iacute; em certas alturas. A &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o duradoura para conflitos deste tipo &eacute; a reconstru&ccedil;&atilde;o dos estados destru&iacute;dos ou muito enfraquecidos, a reconstru&ccedil;&atilde;o dos sistemas de sustenta&ccedil;&atilde;o da vida das popula&ccedil;&otilde;es postos em causa. Basta dizer isto para entender que essa solu&ccedil;&atilde;o s&oacute; se alcan&ccedil;a com uma &laquo;abordagem total, onde o n&iacute;vel dominante &eacute; o pol&iacute;tico. A guerra j&aacute; n&atilde;o &eacute; a &laquo;continua&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica por outros meios&raquo;, na defini&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica; a guerra &eacute; um componente da pol&iacute;tica, ou, para ser mais exacto, a guerra tende a desaparecer num sentido cl&aacute;ssico, para dar lugar a uma forma peculiar de conflituosidade violenta, que pode alcan&ccedil;ar graus inimagin&aacute;veis no passado recente.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>OS NOVOS DESAFIOS</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Tudo o que foi referido anteriormente n&atilde;o passa de uma primeira abordagem, uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao verdadeiro problema de fundo do momento presente. Vivemos hoje os primeiros tempos de uma longa transi&ccedil;&atilde;o entre modelos de crescimento e civiliza&ccedil;&otilde;es, um movimento de longo prazo que se prolongar&aacute; por d&eacute;cadas, possivelmente por todo o s&eacute;culo XXI. Sem entrar na explica&ccedil;&atilde;o completa da afirma&ccedil;&atilde;o anterior, o que me parece prematuro, gostaria de referir alguns grandes desafios que se colocam de imediato. Sigo esta abordagem porque os desafios s&atilde;o j&aacute; vis&iacute;veis e a maior parte das pessoas entende&#45;os, o que ainda n&atilde;o acontece com a l&oacute;gica do processo de transi&ccedil;&atilde;o de longo prazo.</font></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Um primeiro desafio tem a ver com a crescente escassez de recursos, n&atilde;o de forma generalizada, mas em termos pontuais. H&aacute; recursos importantes que, devido ao imenso crescimento da procura, tendem a aumentar de pre&ccedil;o num movimento de longo prazo e podem mesmo vir a escassear, independentemente do pre&ccedil;o. Um caso &oacute;bvio &eacute; o petr&oacute;leo, com reservas identificadas que d&atilde;o para cerca de cinquenta anos do n&iacute;vel de consumo actual, durante os quais se dever&aacute; registar uma tend&ecirc;ncia para o aumento do pre&ccedil;o. O pre&ccedil;o do crude, como acontece com tudo, sofre oscila&ccedil;&otilde;es, com subidas e descidas por vezes muito intensas, mas a tend&ecirc;ncia geral de longo prazo &eacute; ascendente. Um outro caso, s&atilde;o os alimentos vegetais, com os principais a aumentarem muito de pre&ccedil;o nos &uacute;ltimos tempos, devido &agrave; press&atilde;o da procura. No caso de alguns alimentos em particular, como o peixe, estamos mesmo perante situa&ccedil;&otilde;es regionais de rotura, com a amea&ccedil;a de esgotamento de importantes bancos pisc&iacute;colas, devido &agrave; explora&ccedil;&atilde;o mal regulada e ainda pior controlada das &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Outro caso &eacute; a &aacute;gua, escassa em amplas zonas do planeta, onde se tornou uma das principais causas de conflito.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">A tend&ecirc;ncia de longo prazo para a escassez de certos recursos, vai traduzir&#45;se num aumento da conflitualidade e da rivalidade entre grandes e pequenos poderes. Quando est&aacute; em causa algo t&atilde;o vital como o abastecimento de &aacute;gua, por exemplo, as sociedades afectadas s&atilde;o capazes dos maiores excessos e radicalismos para o garantirem. Mesmo hoje, quando o processo ainda est&aacute; no come&ccedil;o, s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel entender as pol&iacute;ticas de certos poderes para o M&eacute;dio Oriente ou para o Afeganist&atilde;o, por exemplo, &agrave; luz de uma estrat&eacute;gia da energia de longo prazo, que visa garantir o acesso &agrave;s fontes n&atilde;o renov&aacute;veis nas pr&oacute;ximas d&eacute;cadas. As rivalidades para a reparti&ccedil;&atilde;o dos recursos v&atilde;o acentuar&#45;se nos pr&oacute;ximos tempos, muito em particular por parte dos poderes emergentes, que representam a principal press&atilde;o para o aumento da procura.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Outro grande desafio &eacute; ainda maior que o anterior: as crises provocadas pela ruptura ou graves transtornos nos delicados equil&iacute;brios ecol&oacute;gicos. Hoje em dia, quando o processo ainda est&aacute; no come&ccedil;o, fen&oacute;menos como a desertifica&ccedil;&atilde;o, a destrui&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies vegetais ou animais, a desfloresta&ccedil;&atilde;o e outros afectam bili&otilde;es de indiv&iacute;duos e amplas regi&otilde;es do planeta. Na realidade elas s&atilde;o a causa oculta da maior parte dos conflitos que surgem como pol&iacute;ticos ou ideol&oacute;gicos. &Eacute; o caso, para dar s&oacute; um exemplo, do Sud&atilde;o ou do Chade. Estes fen&oacute;menos traduzem&#45;se, nomeadamente, na desloca&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es em grande n&uacute;mero ou na tend&ecirc;ncia para o gigantismo das cidades em &Aacute;frica, criando problemas insol&uacute;veis. Como as zonas mais afectadas pelas crises ecol&oacute;gicas s&atilde;o as mais pobres e as que conhecem uma maior press&atilde;o demogr&aacute;fica, isso significa que amplas zonas do planeta correm o risco de mergulhar no caos, em situa&ccedil;&otilde;es onde a sociedade organizada e centralizada deixa de funcionar e onde a principal preocupa&ccedil;&atilde;o passa a ser a sobreviv&ecirc;ncia.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Um terceiro grande desafio &eacute; igualmente gigantesco: a mudan&ccedil;a clim&aacute;tica global. &Eacute; um assunto muito pol&eacute;mico, mas hoje a esmagadora maioria dos cientistas e especialistas reconhece a sua realidade. As opini&otilde;es dividem&#45;se entre os que pensam que at&eacute; ao final do s&eacute;culo se vai assistir a um aumento da temperatura m&eacute;dia da ordem dos dois graus, o que &eacute; muito grave mas suport&aacute;vel, e os que falam em quatro graus ou mais, o que seria uma cat&aacute;strofe global. &Eacute; dif&iacute;cil visualizar hoje as consequ&ecirc;ncias imensas deste fen&oacute;meno nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais: que acontecer&aacute; quando o clima mudar em amplas zonas do planeta? Ou quando o n&iacute;vel das &aacute;guas subir, por pouco que seja? Ou quando o <i>habitat</i> das esp&eacute;cies vegetais e animais se alterar?</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Uma das consequ&ecirc;ncias das tend&ecirc;ncias anteriores &eacute; que milhares de esp&eacute;cies animais e vegetais est&atilde;o amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o, enquanto centenas desapareceram nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Em contrapartida, surgem novas doen&ccedil;as e pandemias, que ainda n&atilde;o alcan&ccedil;aram a escala de uma cat&aacute;strofe de grandes propor&ccedil;&otilde;es, v&aacute;rias vezes prevista por grupos de cientistas (basta recordar os muitos congressos realizados &agrave; volta da gripe A), mas que permanecem como uma amea&ccedil;a.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Estes s&atilde;o os grandes desafios do nosso tempo, sintomas do fen&oacute;meno mais geral da&nbsp;tend&ecirc;ncia para o esgotamento de um modelo de desenvolvimento secular. S&atilde;o todos processos que ainda est&atilde;o no come&ccedil;o, que s&oacute; deram os primeiros passos, apesar de provocarem j&aacute; abalos de tal ordem que pode parecer o contr&aacute;rio. Eles v&atilde;o&#45;se acentuar nos pr&oacute;ximos anos e ser&atilde;o os problemas centrais das rela&ccedil;&otilde;es internacionais, que se traduzem nomeadamente num aumento da rivalidade entre os poderes e num crescimento das zonas das &laquo;guerras do caos&raquo;, onde a ordem central desapareceu ou est&aacute; muito fragilizada.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Ser&aacute; &agrave; volta da resposta a estes desafios emergentes que a ordem futura se ir&aacute; construir, que o(s) p&oacute;lo(s) do futuro sistema internacional ir&aacute; (ir&atilde;o) nascer. A mudan&ccedil;a ser&aacute;
de grande envergadura num processo que ainda s&oacute; deu os primeiros passos, a ponto de a esmagadora maioria dos observadores n&atilde;o ter entendido que entramos j&aacute; numa nova era, muito diferente do passado.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Onde est&atilde;o os futuros p&oacute;los e que forma v&atilde;o revestir? &Eacute; imposs&iacute;vel dizer de forma exacta. Como j&aacute; referi o problema central de momento s&atilde;o os valores e as teorias que os suportam. A sociedade actual ainda vive ligada aos valores pol&iacute;ticos e aos ideais da era industrial, que j&aacute; passou, mas deixou o seu pesado lastro nas mentalidades e nas ideologias. O&nbsp;principal motivo por que as ideologias deixar&atilde;o de despertar grandes paix&otilde;es, &eacute; que no essencial continuam ligadas aos problemas do passado e n&atilde;o aos do futuro, pelo que as pessoas se afastam delas e procuram novos enquadramentos e novas lideran&ccedil;as.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Os futuros p&oacute;los ir&atilde;o come&ccedil;ar o processo de edifica&ccedil;&atilde;o por uma profunda revis&atilde;o dos valores, que &eacute; a base para encontrar as solu&ccedil;&otilde;es para os grandes desafios emergentes. Como todos os desafios t&ecirc;m uma dimens&atilde;o global, &eacute; poss&iacute;vel que os futuros p&oacute;los n&atilde;o sejam estados no sentido tradicional do termo, mas sim entidades transnacionais, como a Uni&atilde;o Europeia, ou as uni&otilde;es regionais de &Aacute;frica ou da Am&eacute;rica. Infelizmente, tudo indica igualmente que a transi&ccedil;&atilde;o ser&aacute; um processo particularmente violento e traum&aacute;tico, com uma conflitualidade padr&atilde;o muito diferente do passado. Tendem a desaparecer os conflitos &laquo;organizados&raquo;, com dois lados, com sistemas de valores claros, com regras aceites e territ&oacute;rio fixo; tendem a aumentar as &laquo;guerras do caos&raquo;, com muitos lados, sem objectivos ou sistemas de valores claros, sem territ&oacute;rio fixo, com o recurso sistem&aacute;tico a m&eacute;todos e t&aacute;cticas de grande viol&ecirc;ncia, como o terrorismo contra as popula&ccedil;&otilde;es civis ou o uso de armas de destrui&ccedil;&atilde;o em larga escala.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Tudo est&aacute; em aberto neste desconcertante mundo novo onde damos os primeiros passos. Estamos a escrever as primeiras p&aacute;ginas de um livro em branco, com desafios muito diferentes do passado recente. Este &eacute; o grande problema; esta &eacute; a grande oportunidade. </font></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><font face="verdana" size="2"><b>NOTAS</b></font></p>

    <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="1"></a><a href="#top1"><sup>1</sup></a> TELO, Ant&oacute;nio &#150; &laquo;Que vis&atilde;o para a defesa?&raquo;. In <i>Na&ccedil;&atilde;o e Defesa</i>. N.&ordm; 124, 2009, pp.&nbsp;167&#45;203.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S1645-9199201100030000100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>

    <p><font face="verdana" size="2"><a name="2"></a><a href="#top2"><sup>2</sup></a> Vamos tomar como refer&ecirc;ncia da Guerra Fria o ano de 1990, que corresponde ao seu final. Os n&uacute;meros e &iacute;ndices citados s&atilde;o todos obtidos pelo autor a partir da informa&ccedil;&atilde;o de base contida em <i>The Military Balance 1990&#45;1991</i> (Londres: IISS, 1990) e a mesma publica&ccedil;&atilde;o de 2010&#45;2011.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2"><a name="3"></a><a href="#top3"><sup>3</sup></a> No caso da NATO s&atilde;o considerados os 15 estados da organiza&ccedil;&atilde;o em 1990 (sem os Estados Unidos) e os mesmos estados em 2010, de modo a ser poss&iacute;vel uma compara&ccedil;&atilde;o. No caso do Pacto de Vars&oacute;via, s&atilde;o considerados os estados componentes em 1990, mas em 2010 n&atilde;o se contabiliza obviamente a RDA, na medida em que foi absorvida pela Alemanha, inclu&iacute;da na NATO. Significa isto que embora os blocos comparados sejam semelhantes, h&aacute; que levar em conta que a RDA deixou de ser contabilizada no ex&#45;Pacto, na medida em que desapareceu enquanto estado. Em contrapartida, um Estado como a Pol&oacute;nia, que integra a NATO em 2011, &eacute; inclu&iacute;do nos pa&iacute;ses do ex&#45;Pacto, de modo a serem poss&iacute;veis compara&ccedil;&otilde;es.</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2"><a name="4"></a><a href="#top4"><sup>4</sup></a> Em qualquer dos casos estamos a comparar o peso relativo mundial nos anos de 1990 e 2011 dos estados da NATO na sua composi&ccedil;&atilde;o de 1990, com a exclus&atilde;o dos Estados Unidos.</font></p>

    <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="5"></a><a href="#top5"><sup>5</sup></a> MOUSSET, Alain &#150; <i>Le Mexique</i>. Paris: puf, 2010;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S1645-9199201100030000100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> BRANDS, Hal &#150; <i>Mexico&rsquo;s Narco&#45;Insurgency and US Counterdrug Policy</i>. Carlisle: Strategic Studies Institute, 2009; GRAYSON, George &#150; <i>La Familia Drug Cartel: Implications for US&#45;Mexican Security</i>. Carlisle: Strategic Studies Institute, 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S1645-9199201100030000100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
    ]]></body>
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