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</front><body><![CDATA[ 
	    <p><b><font face="verdana" size="2">O poder e as rela&ccedil;&otilde;es internacionais. </font></b><font face="verdana" size="2"><b>Entrevista com Joseph Nye</b></font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Bruno Cardoso Reis</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Licenciado e mestre em Hist&oacute;ria (Faculdade de Letras de Lisboa). Tem o mestrado em Historical Studies pela Universidade de Cambridge (2003). &Eacute; doutor em Seguran&ccedil;a Internacional (War Studies, King&rsquo;s College) desde 2008, e a sua tese sob o t&iacute;tulo <i>Big Armies and Small Wars</i> dever&aacute; ser publicada durante o pr&oacute;ximo ano. Em 2007 publicou <i>Salazar e o Vaticano</i> que recebeu os pr&eacute;mios V&iacute;tor de S&aacute; e Aristides de Sousa Mendes. &Eacute; actualmente investigador no ICS &#150; UL e do IDN e investigador associado do King&rsquo;s College. &Eacute; membro do CEHR &#150; UCP, do IISS e da APCP.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Continuamos esta s&eacute;rie de entrevistas com uma conversa com Joseph Nye, University
  Distinguished Service Professor, e antigo Dean da Kennedy School. Com um BA da Universidade de Princeton, fez estudos de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o na Universidade de Oxford e recebeu o seu PhD em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica pela Universidade de Harvard. Trabalhou como Assistant Secretary da Defesa para os assuntos internacionais de seguran&ccedil;a e foi Chair do National Intelligence Council.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Entre os seus livros podemos destacar <i>Soft Power: The Means to Success in World Politics</i> (2004), <i>Understanding International Conflict</i> (5.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, 2004), <i>The Powers to Lead </i>(2008) e <i>The Future of Power</i> (2011).</font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>Bruno Cardoso Reis &#91;BCR&#93;</i> </b>&gt; <i>O tema da conven&ccedil;&atilde;o da International Studies Association &eacute; teoria e pol&iacute;tica. Esteve envolvido nestas duas &aacute;reas. Qual &eacute; &#150; e qual deve ser &#150; a rela&ccedil;&atilde;o entre as duas? Considera que a teoria informa a pol&iacute;tica de forma adequada? Acha que tal &eacute; poss&iacute;vel?</i></font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Joseph Nye &#91;JN&#93;</b> &gt; A minha experi&ecirc;ncia tem sido bastante positiva, na medida em que comecei com a teoria e desenvolvi teorias antes de entrar no mundo da pol&iacute;tica. Mas apercebi&#45;me de que &agrave; medida que me confrontava com problemas concretos, a forma como lhes respondia era frequentemente afectada ou influenciada pelas teorias que estudara em ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica ou em rela&ccedil;&otilde;es internacionais. Por exemplo, quando tive a responsabilidade de formular a pol&iacute;tica dos Estados Unidos para o Leste Asi&aacute;tico durante a Administra&ccedil;&atilde;o Clinton, dei por mim a combinar realismo e liberalismo.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">A quest&atilde;o na altura era saber como lidar com a ascens&atilde;o da China. Uma resposta era integrar a China &#150; esta seria a resposta liberal. Por&eacute;m, caso a China n&atilde;o se portasse bem, caso se tornasse um agressor, t&iacute;nhamos de ter uma salvaguarda, que passou pelo refor&ccedil;o do Tratado de Seguran&ccedil;a Estados Unidos&#45;Jap&atilde;o. Desta forma, desenvolvemos uma estrat&eacute;gia atrav&eacute;s da qual procur&aacute;mos simultaneamente integrar e manter salvaguardas &#150; uma combina&ccedil;&atilde;o de pensamento liberal com pensamento realista. Em suma, a teoria influenciou o meu pensamento de uma forma ecl&eacute;ctica &#150; e n&atilde;o r&iacute;gida.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR</i></b> &gt; <i>Na sua opini&atilde;o, continua a ser a pol&iacute;tica adequada no contexto da rela&ccedil;&atilde;o entre os Estados Unidos e a China?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Penso que sim. Penso que tem funcionado relativamente bem. &Eacute; &oacute;bvio que a China est&aacute;, neste momento, muito bem integrada na economia mundial. Apoi&aacute;mos a sua ades&atilde;o &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio. Mas a China tamb&eacute;m sabe que, se tentar tornar&#45;se um agressor, deparar&#45;se&#45;&aacute; com uma situa&ccedil;&atilde;o em que o Jap&atilde;o e a &Iacute;ndia se ir&atilde;o preocupar com o aumento do poder militar chin&ecirc;s. Na minha opini&atilde;o, isso condiciona o contexto no qual a China faz as suas escolhas.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR </b>&gt; E o mesmo tipo de estrat&eacute;gia aplicar&#45;se&#45;ia tamb&eacute;m &agrave; &Iacute;ndia?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Sim.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; Voltemos &agrave; quest&atilde;o da teoria versus pol&iacute;tica, ou teoria e pol&iacute;tica. Concorda que, hoje em dia, por exemplo nos Estados Unidos, a academia &#150; ou seja, as universidades tradicionais como Harvard, e mesmo a Kennedy School &#150; est&aacute; a perder influ&ecirc;ncia face a</i> think&#45;tanks<i> que tendem a produzir papers muito curtos, frequentemente orientados por agendas pol&iacute;ticas ou ideol&oacute;gicas? Concorda com esta leitura?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Sim, considero que os departamentos tradicionais nas universidades t&ecirc;m orientado a maior parte dos seus esfor&ccedil;os para formar pessoas em teorias e indicadores cient&iacute;ficos cada vez mais refinados, mas com reduzida liga&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica. Infelizmente, uma grande parte dos respons&aacute;veis pol&iacute;ticos acha que esta &#91;literatura acad&eacute;mica&#93; &eacute; escrita numa linguagem incompreens&iacute;vel, que n&atilde;o lida com os assuntos que mais os preocupam. Temos portanto um v&aacute;cuo, que acaba por ser preenchido pelos <i>think&#45;tanks</i>, focalizados num horizonte temporal mais imediato, nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social e na resposta aos interesses dos respons&aacute;veis pol&iacute;ticos. Escrevi um texto sobre esta quest&atilde;o no <i>Washington Post</i>, com o t&iacute;tulo &laquo;Scholars on the sidelines&raquo;. Espero que a gera&ccedil;&atilde;o mais nova de acad&eacute;micos compreenda que &eacute; poss&iacute;vel fazer teoria e pol&iacute;tica<a name="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a>.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; De certa forma, isto demonstra que as ideias desempenham sempre uma fun&ccedil;&atilde;o. Precisamos constantemente de ideias para orientar a ac&ccedil;&atilde;o, mesmo que estas ideias n&atilde;o estejam muito desenvolvidas ou tenham tend&ecirc;ncias ideol&oacute;gicas. Os pol&iacute;ticos podem achar que n&atilde;o est&atilde;o a usar ideias, mas a verdade &eacute; que t&ecirc;m de faz&ecirc;&#45;lo.</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Keynes tem aquela frase famosa segundo a qual os homens pr&aacute;ticos s&atilde;o prisioneiros de um escrevinhador cujo nome esqueceram &#150; na minha opini&atilde;o, uma grande verdade. E acho que &eacute; importante para as universidades continuarem envolvidas em assuntos pol&iacute;ticos, porque as universidades tendem a ser mais rigorosas na sua an&aacute;lise do que os <i>think&#45;tanks</i>, devido aos processos de arbitragem cient&iacute;fica a que est&atilde;o sujeitas.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR</i></b><i> &gt; Referiu&#45;se a estas designa&ccedil;&otilde;es agora comuns &#150; realismo, liberalismo. Tem sido categorizado por diversas vezes como um institucionalista liberal. Considera que estas &laquo;etiquetas&raquo; s&atilde;o &uacute;teis?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; N&atilde;o, acho que as etiquetas atrapalham. No meu livro <i>Understanding International Conflict</i> escrevi que, muitas vezes, &eacute; &uacute;til come&ccedil;ar pelo realismo porque se trata da teoria mais parcimoniosa &#150; por&eacute;m, &eacute; raro que o realismo tenha a resposta definitiva<a name="top2"></a><a href="#2"><sup>2</sup></a>. Na verdade, precisamos de combinar o realismo, o liberalismo e o construtivismo para obter uma ideia completa do que est&aacute; a passar&#45;se no mundo. As pessoas que se restringem a uma &uacute;nica escola de pensamento acabam por chegar a conclus&otilde;es de reduzida utilidade. Os neo&#45;realistas, t&atilde;o populares durante a d&eacute;cada de 1980, fizeram previs&otilde;es acerca do futuro da Europa no p&oacute;s&#45;Guerra Fria que apontavam para um regresso ao passado: a Alemanha iria sair da NATO e desenvolver uma pol&iacute;tica externa independente. Esta previs&atilde;o, baseada obviamente em proposi&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas datadas e muito simplistas, acabaria por revelar&#45;se errada.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR </b>&gt; Abordou muitos temas no seu trabalho. Acho isso muito interessante, mas algumas pessoas parecem pensar que isso &eacute; mau, e desencorajam os acad&eacute;micos mais novos de faz&ecirc;&#45;lo. Cada vez mais, estes s&atilde;o aconselhados a especializar&#45;se. Qual a raz&atilde;o para ter feito tantas coisas?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Segui a minha curiosidade intelectual, o que me levou a procurar a explica&ccedil;&atilde;o para coisas que me pareciam anomalias &#150; coisas que n&atilde;o encaixavam nas teorias existentes. Neste contexto, interessei&#45;me pela integra&ccedil;&atilde;o: pela forma como a economia e a pol&iacute;tica se conjugam nos mercados comuns em pa&iacute;ses em desenvolvimento. Isto levou&#45;me a trabalhar sobre a &Aacute;frica Oriental, a Am&eacute;rica Central, o Mercado Comum Europeu, e depois sobre a UNCTAD, e ainda sobre o com&eacute;rcio nuclear e outros assuntos nucleares<a name="top3"></a><a href="#3"><sup>3</sup></a>. Cada um destes temas levou&#45;me a outro problema. Assim, a raz&atilde;o da minha itiner&acirc;ncia foi o facto de estar em busca da solu&ccedil;&atilde;o de problemas para os quais n&atilde;o tinha resposta.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">O livro que estou a escrever neste momento, que poder&aacute; intitular&#45;se <i>Smart Power</i>, prossegue uma tem&aacute;tica que tenho vindo a explorar desde 1990, quando publiquei <i>Bound to Lead</i>: Qual o significado do poder no mundo moderno?<a name="top4"></a><a href="#4"><sup>4</sup></a> O que ir&aacute; acontecer ao poder americano? A que nos referimos quando falamos sobre transi&ccedil;&atilde;o e transfer&ecirc;ncias de poder, e o que sabemos sobre isso? Quais as implica&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas? Por conseguinte, o livro que estou a escrever agora &eacute; essencialmente uma continua&ccedil;&atilde;o de um tema no qual tenho vindo a trabalhar durante vinte anos. Portanto, tenho explorado muitos assuntos mas tamb&eacute;m tenho mantido certas tem&aacute;ticas durante duas d&eacute;cadas.</font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; O que diria a um jovem acad&eacute;mico que est&aacute; a iniciar agora a sua carreira de investiga&ccedil;&atilde;o? Qual &eacute;, na sua opini&atilde;o, o &laquo;segredo&raquo; de uma boa teoria ou an&aacute;lise de rela&ccedil;&otilde;es internacionais?</i></font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN </b>&gt; Evite ser dogm&aacute;tico e deixe que a sua curiosidade intelectual o leve a problemas que outras pessoas n&atilde;o conseguem explicar bem &#150; o que eu chamo de anomalias, coisas que n&atilde;o encaixam bem &#150; e tente compreend&ecirc;&#45;los. &Agrave; medida que os compreende, ou que tenta compreend&ecirc;&#45;los, ir&aacute; atravessar muitas fronteiras e paradigmas te&oacute;ricos,
  e &eacute; talvez a&iacute; que o trabalho mais interessante tem de ser feito.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; Falemos do seu trabalho sobre integra&ccedil;&atilde;o e sobre a socializa&ccedil;&atilde;o de grupos de especialistas &agrave; escala internacional. Hoje em dia parecem existir mais grupos transnacionais, desde sindicatos, associa&ccedil;&otilde;es empresariais, tecnocratas e mesmo activistas antiglobaliza&ccedil;&atilde;o. Diria que a integra&ccedil;&atilde;o &eacute; o caminho do futuro, ou acha que a globaliza&ccedil;&atilde;o em geral pode ser travada?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Pessoalmente, devo dizer que acho que a Europa tem sido um grande sucesso. Se pensarmos bem, se n&atilde;o fosse Bruxelas e o processo de integra&ccedil;&atilde;o europeu a Europa poderia ter tido uma situa&ccedil;&atilde;o infeliz. O facto de Bruxelas ter funcionado como p&oacute;lo de atrac&ccedil;&atilde;o para a Europa do Sul, em primeiro lugar, e depois para a Europa Central e de Leste fez com que se constitu&iacute;sse uma zona de paz e confian&ccedil;a na qual a ideia do uso da for&ccedil;a entre os seus membros &eacute; verdadeiramente impens&aacute;vel. Trata&#45;se de uma conquista extraordin&aacute;ria, que criou na Europa uma comunidade pol&iacute;tica <i>sui generis</i>. N&atilde;o vamos ter uns Estados Unidos da Europa nem outro Estado&#45;Na&ccedil;&atilde;o. Contudo, n&atilde;o vejo reunidas as condi&ccedil;&otilde;es para que este processo possa ser replicado noutras partes do mundo. Se me perguntasse se a &Aacute;sia poderia reproduzir...</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; A &Aacute;sia ou o Mercosul ou...</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Pois. A minha primeira investiga&ccedil;&atilde;o incidiu sobre a &Aacute;frica Oriental e sobre o mercado comum desta regi&atilde;o, e baseou&#45;se na ideia de que talvez a &Aacute;frica pudesse seguir o exemplo europeu. De igual modo, os meus estudos sobre a Am&eacute;rica Latina procuravam saber se esta regi&atilde;o poderia imitar a Europa. Infelizmente, n&atilde;o havia condi&ccedil;&otilde;es para tal. Se a globaliza&ccedil;&atilde;o pode ser revertida, a resposta &eacute;, claramente, sim. J&aacute; aconteceu antes... Ir&aacute; isso acontecer? Duvido, mas na hist&oacute;ria nada &eacute; inevit&aacute;vel.</font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><i><font face="verdana" size="2"><b>BCR</b> &gt; Falou do Leste Asi&aacute;tico, da Am&eacute;rica Latina e de &Aacute;frica no contexto do modelo europeu. N&atilde;o v&ecirc; reunidas as condi&ccedil;&otilde;es nestas regi&otilde;es para esse tipo de desenvolvimento?</font></i></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; N&atilde;o. Pensemos na Europa depois de 1945: verificou&#45;se um processo extraordin&aacute;rio, que come&ccedil;a com Monnet, Schumann e outros, e que junta pa&iacute;ses que eram inimigos ac&eacute;rrimos, primeiro atrav&eacute;s da Comunidade Europeia do Carv&atilde;o e do A&ccedil;o e que se expandiu gradualmente. Se olharmos para a &Aacute;sia do Leste depois de 1945, estes pa&iacute;ses nunca conseguiram reconciliar&#45;se com a d&eacute;cada de 1930. At&eacute; hoje, quando um primeiro&#45;
  &#45;ministro japon&ecirc;s visita o templo de Yasukuni &#91;dedicado aos mortos da guerra&#93;, cria enormes problemas com a China, a Coreia... N&atilde;o vejo o Leste Asi&aacute;tico a repetir o exemplo europeu.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; Talvez n&atilde;o no Sudeste Asi&aacute;tico, mas em partes da Am&eacute;rica do Sul ou da Am&eacute;rica Central,
  ou mesmo em partes de &Aacute;frica...</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Os africanos de Leste est&atilde;o agora a tentar reconstituir o Mercado Comum da &Aacute;frica Oriental. H&aacute; coisas interessantes a acontecer na Am&eacute;rica do Sul: o Cone Sul &eacute; uma boa ideia, o Mercado Comum Centro&#45;Americano ainda funciona &#150; tudo isto &eacute; positivo mas n&atilde;o &eacute; a mesma coisa que a Uni&atilde;o Europeia.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><i><font face="verdana" size="2"><b>BCR</b> &gt; No que diz respeito &agrave; Uni&atilde;o Europeia, acho que tem toda a raz&atilde;o quando diz que n&atilde;o &eacute; um Estado. A UE falha sempre a esse respeito. Pensa no entanto que a UE pode tornar&#45;se uma for&ccedil;a importante a n&iacute;vel internacional, com o Tratado de Lisboa, por exemplo, a fazer a diferen&ccedil;a?</font></i></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; O problema &eacute; o seguinte: conseguir&aacute; a Europa definir uma pol&iacute;tica externa comum? Em termos das rela&ccedil;&otilde;es entre os estados europeus, a Europa tem sido um grande sucesso. Saber se a Europa ir&aacute; conseguir congregar esfor&ccedil;os e, como lhe compete, alcan&ccedil;ar um papel importante a n&iacute;vel global &#150; essa &eacute; uma quest&atilde;o mais problem&aacute;tica. O Tratado de Lisboa definiu uma moldura poss&iacute;vel, mas n&atilde;o &eacute; claro que ir&aacute; resultar numa Pol&iacute;tica Externa Europeia Comum. De certa forma, existiu uma pol&iacute;tica comum durante a lideran&ccedil;a de Javier Solana; por&eacute;m, neste momento, e a curto prazo, n&atilde;o creio que ocorra uma grande mudan&ccedil;a no sentido de uma Pol&iacute;tica Externa Europeia mais robusta.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR </b>&gt; A defesa europeia tem&#45;se revelado um grande desafio &agrave; integra&ccedil;&atilde;o. De acordo com alguns respons&aacute;veis em Bruxelas, um dos problemas &eacute; os Estados Unidos e o acordo &laquo;Berlim Plus&raquo; entre a NATO e a UE. Considera esta cr&iacute;tica justa?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Acho que isso j&aacute; n&atilde;o constitui problema, apesar de no passado ter sido. Na minha opini&atilde;o, o problema &eacute; que a Europa tem tido muito poder suave (<i>soft power</i>) e deveria investir mais em poder duro (<i>hard power</i>). Falando do ponto de vista americano, n&atilde;o dev&iacute;amos estar preocupados com uma Europa demasiado forte mas sim com uma Europa demasiado fraca. Penso que as atitudes em Washington face &agrave; defesa europeia s&atilde;o agora muito mais positivas.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR</i></b> <i>&gt; Falou no conceito de transi&ccedil;&atilde;o hegem&oacute;nica. Alguns autores defendem que &eacute; isto que est&aacute; a ocorrer com a China e outros poderes emergentes. Pensa que &eacute; poss&iacute;vel que esta transi&ccedil;&atilde;o ocorra sem guerra ou conflito significativo? A exist&ecirc;ncia de armas nucleares e institui&ccedil;&otilde;es internacionais marcar&aacute; a diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao passado?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; N&atilde;o prevejo um conflito s&eacute;rio entre os Estados Unidos e a China. Tamb&eacute;m n&atilde;o dou muito cr&eacute;dito &agrave;s pessoas que dizem que a China vai liderar o s&eacute;culo XXI. Se me perguntar se o PIB da China vai superar o dos Estados Unidos, &eacute; claro que sim, porque a China est&aacute; a enriquecer e tem uma popula&ccedil;&atilde;o muito maior. Contudo, em rendimento <i>per capita</i> isso n&atilde;o vai acontecer antes do fim do s&eacute;culo. No que diz respeito ao comportamento da China, vale a pena reparar no que mencionei anteriormente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; &Aacute;sia. A &Iacute;ndia, o Jap&atilde;o e outros pa&iacute;ses como o Vietname e a Indon&eacute;sia est&atilde;o bastante preocupados com o crescimento do poder chin&ecirc;s. Neste contexto, uma presen&ccedil;a americana acaba por ser &uacute;til &#150; e isto ir&aacute; depender em parte da forma como a China se comportar. Finalmente, enquanto a China continuar a ser um regime repressivo isso ir&aacute; minar a sua mensagem e reduzir o seu poder suave. As pessoas que v&ecirc;em a China a liderar o s&eacute;culo XXI por causa do seu PIB est&atilde;o a olhar apenas para uma dimens&atilde;o do poder, e isso n&atilde;o &eacute; suficiente na minha opini&atilde;o.</font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Penso tamb&eacute;m que h&aacute; &aacute;reas de interesse comum para os Estados Unidos e a China. Estas ir&atilde;o abrir as portas &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o a um G2 &#150; uma ideia que n&atilde;o faz sentido. N&atilde;o se pode lidar com os assuntos de interdepend&ecirc;ncia sem incluir a Europa, o Jap&atilde;o e tantos outros. Por&eacute;m, ser&aacute; poss&iacute;vel encontrar interesses comuns aos Estados Unidos e &agrave; China? Penso que a resposta &eacute; afirmativa. Lembro&#45;me neste contexto das palavras de Henry Kissinger que, ao comentar a China actual, afirma que esta n&atilde;o &eacute; um poder revisionista; sim, a China pretende ter uma voz mais forte, um papel mais importante nas institui&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o estamos a falar da Alemanha do Kaiser.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; Conheci recentemente um acad&eacute;mico chin&ecirc;s &#150; cujo nome n&atilde;o vou revelar &#150; que me disse que os chineses pretendiam uma ascens&atilde;o pac&iacute;fica, nem que mais n&atilde;o fosse por causa da geopol&iacute;tica regional que acabou de mencionar. Existem tamb&eacute;m, &eacute; claro, as press&otilde;es por parte dos jovens e de diversos sectores da sociedade. Com todas estas assimetrias internas, parece&#45;me muito optimista pensar que a China n&atilde;o enfrentar&aacute; quaisquer problemas no seu desenvolvimento futuro. Por&eacute;m, em termos da posi&ccedil;&atilde;o do Ocidente, dos Estados Unidos e do resto do mundo no G20, por exemplo, parece&#45;lhe que este poder&aacute; ter uma contribui&ccedil;&atilde;o positiva? &Eacute; necess&aacute;rio e suficiente abordar esta quest&atilde;o como um esvaziamento do poder do Ocidente?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Bem, o G20 &eacute; uma ideia muito boa, e &eacute; certamente muito melhor do que tentar viver com um G8 que deixou de ser representativo. A ascens&atilde;o da &Aacute;sia vai ser uma das grandes transforma&ccedil;&otilde;es, um dos eventos marcantes do s&eacute;culo XXI. Ainda assim, e uma vez mais, &eacute; importante relembrar que a ascens&atilde;o da &Aacute;sia n&atilde;o &eacute; o mesmo que a ascens&atilde;o da China. A &Aacute;sia compreende pelo menos tr&ecirc;s grandes pot&ecirc;ncias. Por conseguinte, acho que a coordena&ccedil;&atilde;o dos outros estados poderosos no contexto de uma cimeira ou organismo &eacute; um passo muito positivo.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; Isso leva&#45;nos &agrave; quest&atilde;o do multilateralismo e da sua efic&aacute;cia. H&aacute; algum tempo surgiu um artigo de Richard Haass sobre &laquo;Multilateralismo desordenado&raquo;<a name="top5"></a><a href="#5"><sup>5</sup></a>. Qual &eacute; a sua opini&atilde;o sobre o futuro do multilateralismo &#150; poder&aacute; este ser eficaz?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Penso que em rela&ccedil;&atilde;o ao multilateralismo teremos de nos confrontar com uma geometria vari&aacute;vel: o mesmo tamanho n&atilde;o vai servir a todos, mas por vezes estas diferentes institui&ccedil;&otilde;es podem complementar&#45;se entre si. Tentar negociar a quest&atilde;o das altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas no quadro da ONU leva a uma pol&iacute;tica de blocos, como o Grupo dos 77 que nem sempre reflecte os interesses dos seus membros. No entanto, &eacute; poss&iacute;vel imaginar negocia&ccedil;&otilde;es entre um grupo mais restrito de, por exemplo, oito entidades que representem 80 por cento das emiss&otilde;es &#150; com eventuais acordos entre estas a serem posteriormente levados ao &acirc;mbito mais alargado da ONU para legitima&ccedil;&atilde;o. Concluindo, penso que temos de ser mais flex&iacute;veis na forma como pensamos sobre as institui&ccedil;&otilde;es.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR </i></b><i>&gt; O seu trabalho inclui tamb&eacute;m estudos sobre guerra e conflitos. Considera que o conceito de novas guerras &eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o positiva, que reflecte a transi&ccedil;&atilde;o das guerras tradicionais e convencionais, de grande dimens&atilde;o, e a prolifera&ccedil;&atilde;o de pequenas guerras? Trata&#45;se de um fen&oacute;meno novo?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; As pessoas t&ecirc;m lutado umas com as outras em unidades de tamanho variado ao longo da hist&oacute;ria, mas se pensarmos nas guerras do s&eacute;culo XX, creio que &eacute; poss&iacute;vel afirmar que no s&eacute;culo XXI estamos a assistir &agrave; chamada guerra do povo &#150; uma nova forma de conflito que n&atilde;o substitui totalmente o conflito entre estados. O conflito entre estados continua a ser poss&iacute;vel, mas um outro tipo de conflito est&aacute; a tornar&#45;se mais prevalente.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR </i></b><i>&gt; Por vezes diz&#45;se que a crescente import&acirc;ncia do terrorismo e das insurrei&ccedil;&otilde;es coloca um desafio ao realismo. Mas tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel dizer que o neo&#45;realismo, o liberalismo ou outras escolas das rela&ccedil;&otilde;es internacionais n&atilde;o lidam necessariamente melhor com estas quest&otilde;es.</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Penso que o problema com o neo&#45;realismo &eacute; o facto de dar demasiada import&acirc;ncia &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o estrutural de poder duro, enquanto que o neoliberalismo d&aacute; demasiada import&acirc;ncia &agrave;s for&ccedil;as econ&oacute;micas. Neste contexto surge o construtivismo, que se debru&ccedil;a sobre a import&acirc;ncia das ideias e que leva &agrave; no&ccedil;&atilde;o de poder suave &#150; em muitos aspectos, uma vers&atilde;o da teoria construtivista.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; Considera que o terrorismo constitui um grande desafio &agrave; teoria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais e &agrave; sua &ecirc;nfase tradicional no Estado?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; O terrorismo &eacute; um exemplo da difus&atilde;o de poder, do papel cada vez mais importante de actores n&atilde;o estatais. N&atilde;o &eacute; que o terrorismo seja novidade, &eacute; o facto de o terrorismo ser agora possibilitado por tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o que lhe permitem fazer mais do que no passado. O terrorismo n&atilde;o pode vergar um grande Estado mas pode fazer com que este cometa actos muito autodestrutivos. Desta forma, a an&aacute;lise convencional, baseada no realismo, segundo a qual o terrorismo n&atilde;o pode levar um Estado ao colapso sendo por isso pouco importante, ignora o facto de o terrorismo poder levar um Estado a fazer coisas que s&atilde;o contra os seus pr&oacute;prios interesses.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR</i></b> &gt; <i>De igual modo, o terrorismo n&atilde;o pode ser compreendido atrav&eacute;s dos indicadores tradicionais de poder na pol&iacute;tica internacional.</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JR</b> &gt; Exacto. Costumo dizer que os terroristas s&atilde;o como lutadores de <i>jiu&#45;jitsu</i>, um desporto no qual o concorrente mais pequeno tenta usar a for&ccedil;a do maior contra este.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR</i></b> <i>&gt; Tem reflectido sobre </i>soft power<i> e </i>hard power<i>. Qual &eacute;, na sua opini&atilde;o, a grande novidade ou contribui&ccedil;&atilde;o do conceito de </i>soft power<i>? E porque &eacute; que est&aacute; a debru&ccedil;ar&#45;se neste momento sobre a ideia de </i>smart power<i>?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Desenvolvi a ideia de <i>soft power</i> quando estava a escrever <i>Bound to Lead</i> em 1989. Nessa altura, a opini&atilde;o generalizada era a de que os Estados Unidos estavam em decl&iacute;nio, e o paradigma dominante na ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica e nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais era o neo&#45;realismo, que olha unicamente para o poder militar e o poder econ&oacute;mico. Enquanto analisava o poder econ&oacute;mico e militar dos Estados Unidos, apercebi&#45;me que faltava alguma coisa: a capacidade de atingir os resultados desejados atrav&eacute;s de atrac&ccedil;&atilde;o e persuas&atilde;o, em vez de coer&ccedil;&atilde;o ou pagamento. Desenvolvi assim a ideia de <i>soft power</i> como um conceito anal&iacute;tico para resumir esta ideia.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Utilizei o termo <i>smart power</i> em 2004 para fazer ver &agrave;s pessoas que o meu argumento n&atilde;o era o de que o <i>soft power</i> estava a substituir o <i>hard power</i>, mas sim que era necess&aacute;rio descobrir a melhor forma de combinar recursos de <i>soft</i> e <i>hard power</i> em estrat&eacute;gias eficazes &#150; e essas estrat&eacute;gias constituiriam <i>smart power</i>. Portanto, utilizei o termo n&atilde;o com o intuito de substituir <i>soft power</i>, mas apenas para recordar que o objectivo do poder &eacute; atingir os resultados desejados. Por vezes faz&ecirc;mo&#45;lo com recursos duros e outras com recursos suaves; por vezes os dois refor&ccedil;am&#45;se um ao outro, e outras vezes podem atrapalhar&#45;se um ao outro.</font></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><i><b>BCR</b> &gt; N&atilde;o haver&aacute; talvez uma esp&eacute;cie de lado negro do</i> soft power<i>, na medida em que &eacute; poss&iacute;vel ter atrac&ccedil;&atilde;o mas tamb&eacute;m repulsa? Os Estados Unidos s&atilde;o uma grande fonte de atrac&ccedil;&atilde;o em muitos aspectos, mas enquanto que muitas das suas dimens&otilde;es culturais atraem alguns, provocam tamb&eacute;m repulsa noutros &#150; o exemplo extremo &eacute; a Al&#45;Qaida. Ao mesmo tempo, tentar influenciar outros provoca frequentemente reac&ccedil;&otilde;es. Concorda?</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN </b>&gt; Tentei deixar claro que o <i>soft power</i> n&atilde;o &eacute; bom ou mau em si. Por exemplo, bin Laden tinha <i>soft power</i>: ele n&atilde;o apontou uma arma &agrave; cabe&ccedil;a das pessoas que atacaram as Torres G&eacute;meas, e tamb&eacute;m n&atilde;o lhes pagou. Pelo contr&aacute;rio, atraiu&#45;os com um conjunto de ideias &#150; embora eu ache que eram ideias muito m&aacute;s. Portanto, o <i>soft power</i> n&atilde;o &eacute; bom nem mau, &eacute; apenas uma forma de poder. A quest&atilde;o de saber se um dado recurso &#150; por exemplo, uma determinada cultura &#150; produz atrac&ccedil;&atilde;o ou repulsa depende da audi&ecirc;ncia. A cultura americana &eacute; atractiva nalguns locais e noutros n&atilde;o &eacute;. Um filme de Hollywood no qual as mulheres v&atilde;o trabalhar pode ser atractivo na Am&eacute;rica Latina e repulsivo na Ar&aacute;bia Saudita. E, por vezes, pode ser atractivo e repulsivo no mesmo pa&iacute;s, para diferentes grupos. Os mul&aacute;s que lideram o Ir&atilde;o v&atilde;o sentir repulsa por um filme de Hollywood, mas as gera&ccedil;&otilde;es mais jovens n&atilde;o querem outra coisa a n&atilde;o ser um v&iacute;deo para ver estes filmes em suas casas.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>BCR</i></b> <i>&gt; O que me parece interessante &eacute; o facto de as grandes pot&ecirc;ncias terem normalmente este tipo de poder suave, e uma esp&eacute;cie de vis&atilde;o providencial ou positiva de si pr&oacute;prias que tentam promover. Ao mesmo tempo, h&aacute; sempre uma &laquo;lenda negra&raquo; que lhe est&aacute; associada.</i></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN</b> &gt; Concordo, &eacute; muitas vezes verdade. Mas tamb&eacute;m importa ter em conta que os indiv&iacute;duos, as empresas, os actores n&atilde;o estatais e os estados pequenos podem usar o <i>soft power</i>. Este n&atilde;o pertence unicamente aos grandes estados. Por&eacute;m, os grandes estados t&ecirc;m de facto um probema estrutural, o facto de serem vistos como uma amea&ccedil;a devido &agrave; sua dimens&atilde;o.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><i><font face="verdana" size="2"><b>BCR </b>&gt; Uma &uacute;ltima quest&atilde;o. Qual &eacute; o seu interesse de investiga&ccedil;&atilde;o no momento? Por outro lado, quais s&atilde;o os grandes temas que, na sua opini&atilde;o, ainda n&atilde;o foram suficientemente explorados, e que talvez devam s&ecirc;&#45;lo?</font></i></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>JN </b>&gt; Estou agora a tentar escrever um livro em que me questiono sobre como ser&aacute; o poder no s&eacute;culo XXI, e como devemos pensar sobre o poder<a name="top6"></a><a href="#6"><sup>6</sup></a>. Outro assunto que creio merecer muito mais aten&ccedil;&atilde;o s&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es para um poder <i>com</i>, em vez de um poder <i>sobre</i>. Muitas quest&otilde;es da governa&ccedil;&atilde;o global, como as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas, ir&atilde;o exigir mais poder <i>com</i> em detrimento de poder <i>sobre</i>. Por conseguinte, ao terminar este livro debru&ccedil;ar&#45;me&#45;ei provavelmente sobre esta quest&atilde;o. </font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Nova Orle&atilde;es, 18 de Fevereiro de 2010</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Transcri&ccedil;&atilde;o:</b> Raquel Duque</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2"><b>Tradu&ccedil;&atilde;o:</b> Jo&atilde;o Reis Nunes</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>

    <p><font face="verdana" size="2"><b>NOTAS</b></font></p>

    <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="1"></a><a href="#top1"><sup>1</sup></a> NYE Jr., Joseph S. &#150; &laquo;Scholars on the sidelines&raquo;. In <i>The Washington Pos</i>t, 13 de Abril de 2009. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.washingtonpost.com/wp&#45;dyn/content/article/2009/04/12/AR2009041202260_pf.html" target="_blank">http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/04/12/AR2009041202260_pf.html</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S1645-9199201100030001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="2"></a><a href="#top2"><sup>2</sup></a> NYE Jr., Joseph &#150; <i>Understanding International Conflicts: An Introduction to Theory and History</i>. 7.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Londres: Longman, 2008; edi&ccedil;&atilde;o portuguesa: NYE,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S1645-9199201100030001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Joseph &#150; <i>Compreender os Conflitos Internacionais</i>. Lisboa: Gradiva, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S1645-9199201100030001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>

    <p><font face="verdana" size="2"><a name="3"></a><a href="#top3"><sup>3</sup></a> Criada em 1964, a Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre Com&eacute;rcio e Desenvolvimento (UNCTAD) &eacute; um &oacute;rg&atilde;o da Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas.</font></p>

	    <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="4"></a><a href="#top4"><sup>4</sup></a> NYE Jr., Joseph &#150; <i>Bound to Lead: Changing Nature of American Power</i>. Nova York: Basic Books, 1991;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S1645-9199201100030001500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> o livro mais recente acabaria por chamar&#45;se <i>Future of Power</i> (Nova York: Public Affairs, 2011).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S1645-9199201100030001500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Ver tamb&eacute;m NYE, Joseph &#150; <i>Soft Power: The Means of Success in Modern Politics</i>. 2.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Nova York: Public Affairs, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S1645-9199201100030001500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>

    <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="5"></a><a href="#top5"><sup>5</sup></a> HAASS, Richard &#150; &laquo;The case for messy multilateralism&raquo;. In <i>The Financial Times</i>, 5 de Janeiro de 2010. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ft.com/intl/cms/s/0/18d8f8b6&#45;fa2f&#45;11de&#45;beed&#45;00144feab49a.html#axzz1QgRGoHh0" target="_blank">http://www.ft.com/intl/cms/s/0/18d8f8b6-fa2f-11de-beed-00144feab49a.html#axzz1QgRGoHh0</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S1645-9199201100030001500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><a name="6"></a><a href="#top6"><sup>6</sup></a> NYE Jr., Joseph &#150; <i>Future of Power</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S1645-9199201100030001500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>
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