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</front><body><![CDATA[ 
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>As direitas radicais na fase terminal do Estado Novo</b></font></p>

    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Jos&eacute; Manuel Tavares Castilho</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Licenciado em Hist&oacute;ria pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1986), mestre em Sociologia pelo ISCTE &#150; Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa (1997) e doutor em Hist&oacute;ria Social Contempor&acirc;nea pela mesma institui&ccedil;&atilde;o (2008). Actualmente, &eacute; investigador do CESNOVA &#150; Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. De entre as publica&ccedil;&otilde;es mais recentes destacam&#45;se os livros <i>Os Deputados da Assembleia Nacional</i>, 1935&#45;1974 (2009) e <i>Os Procuradores da C&acirc;mara Corporativa</i>, 1935&#45;1974 (2010).</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Riccardo Marchi</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>Imp&eacute;rio, Na&ccedil;&atilde;o, Revolu&ccedil;&atilde;o &#150; As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959&#45;1974)</i></b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Lisboa, Texto, </font><font face="verdana" size="2">2009, 439 p&aacute;ginas</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/ri/n31/n31a18i1.jpeg" width="199" height="302"></p>
    
<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">O livro tem por objectivo o estudo dos movimentos da direita radical na fase terminal do Estado
  Novo &#150; a d&eacute;cada de 1960 e os quatro primeiros anos da seguinte &#150;, procurando enquadr&aacute;&#45;los no quadro geral da hist&oacute;ria pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica do regime. Por isso, o autor vai mais longe e procura definir as linhas de continuidade/descontinuidade entre este per&iacute;odo e os antecedentes.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>MOVIMENTOS DE INTELECTUAIS</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Os movimentos da direita radical em Portugal s&atilde;o essencialmente de extrac&ccedil;&atilde;o intelectual e t&ecirc;m como p&oacute;los os principais centros universit&aacute;rios do pa&iacute;s: Lisboa e Coimbra. Ali&aacute;s, era essa a tradi&ccedil;&atilde;o, como acontecera j&aacute; com o Integralismo Lusitano, na d&eacute;cada de 1920, que acabou por se desagregar no imediato p&oacute;s&#45;28 de Maio de 1926, a partir do qual as suas fac&ccedil;&otilde;es mais radicais ou desaparecem ou se aproximam gradualmente da nova situa&ccedil;&atilde;o, acabando por se integrar no regime autorit&aacute;rio implantado por Salazar a partir da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1933 (<i>vide</i> a Ordem Nova, em que pontificavam Marcello Caetano e Teot&oacute;nio Pereira). A excep&ccedil;&atilde;o poderia ter sido o nacional&#45;sindicalismo de Rol&atilde;o Preto &#150; o &uacute;nico movimento da direita radical concebido para as massas &#150;, prontamente proibido e banido por Salazar que, como acentua o autor, &laquo;n&atilde;o era um fascista, n&atilde;o era um chefe de massas, n&atilde;o era um l&iacute;der carism&aacute;tico &agrave; maneira dos anos 30&raquo; (p. 390).</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Aproveitando a conjuntura pol&iacute;tica ditada pela II Guerra Mundial e a &laquo;l&oacute;gica bipolar da Guerra Fria&raquo; na qual Portugal assume um papel estrat&eacute;gico significativo, Salazar p&ocirc;de, sem grandes dificuldades, &laquo;apagar as tens&otilde;es pol&iacute;ticas que tinham emergido no imediato p&oacute;s&#45;guerra, reprimir o activismo da oposi&ccedil;&atilde;o, afastar o derrube revolucion&aacute;rio da situa&ccedil;&atilde;o e relegar o tema da abertura do regime a um morno debate interno entre ortodoxos e liberais&raquo; (p. 15). O que acaba por afectar a capacidade de ac&ccedil;&atilde;o das fac&ccedil;&otilde;es mais radicais da direita portuguesa que, na d&eacute;cada de 1940 e no contexto da guerra, se assumiam como defensoras do fascismo italiano e no nacional&#45;socialismo alem&atilde;o. Da&iacute; que na d&eacute;cada seguinte se assista a uma letargia profunda da direita radical, ficando os seus membros limitados &laquo;a encontros ocasionais e a manter rela&ccedil;&otilde;es epistolares, de troca intelectual&raquo; (p. 17).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Como acentua Ant&oacute;nio Costa Pinto no &laquo;Pref&aacute;cio&raquo;, o reacender da centelha emerge essencialmente de tr&ecirc;s catalisadores: &laquo;o motor intelectual do neofascismo europeu, a derradeira batalha pela sobreviv&ecirc;ncia do imp&eacute;rio colonial portugu&ecirc;s e a chegada ao poder de Marcello Caetano, com o seu &iacute;mpeto inicial de reforma do regime&raquo; (p.&nbsp;13).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Ao longo das 400 p&aacute;ginas do seu livro, Riccardo Marchi descreve pormenorizadamente o percurso, por vezes labir&iacute;ntico e sinuoso, dos movimentos da direita radical em Portugal, cuja periodiza&ccedil;&atilde;o essencial pode ser feita em torno de tr&ecirc;s publica&ccedil;&otilde;es.</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">A revista <i>Tempo Presente</i> (1959&#45;1961), que tem como director Fernando Guedes e como membros do Conselho de Redac&ccedil;&atilde;o Caetano de Melo Beir&atilde;o, Ant&oacute;nio Jos&eacute; de Brito, Goulart Nogueira e Ant&oacute;nio Manuel Couto Viana, cujo ide&aacute;rio assenta na defesa de um corporativismo totalit&aacute;rio neofascista.</font></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O seman&aacute;rio <i>Agora</i> (1961&#45;1969), em que reaparecem antigos militantes nacionalistas da d&eacute;cada de 1940, como Raul Carvalho Branco (director e editor), Manuel Saldida e Jos&eacute; O&rsquo;Neill, que, como chefe de redac&ccedil;&atilde;o, &eacute; quem controla de facto a publica&ccedil;&atilde;o, assumindo&#45;se como porta&#45;voz da &laquo;direita "caceteira"&raquo;. Como sumaria Marchi, o tema principal &eacute; a guerra em &Aacute;frica, em cujo contexto defendem a constru&ccedil;&atilde;o de &laquo;uma frente nacional contra os inimigos da P&aacute;tria&raquo;, a luta contra a &laquo;Frente Leste interna&raquo; (os traidores instalados no regime, os c&eacute;pticos, os incapazes, os prudentes), que &laquo;integra a pan&oacute;plia dos inimigos que o nacionalismo radical combate j&aacute; desde os anos de Alfredo Pimenta: o catolicismo progressista <i>longa manus</i> do comunismo, os liberais&#45;democratas, cuja oposi&ccedil;&atilde;o ao Estado Novo enfraquece o Imp&eacute;rio em proveito do imperialismo russo&#45;americano, o sionismo internacional&raquo; (p. 191). Por n&atilde;o se reverem na linha editorial definida por O&rsquo;Neill, os homens da <i>Tempo Presente</i> n&atilde;o participam at&eacute; 1967, ano em que este &eacute; substitu&iacute;do por Goulart Nogueira que traz para a redac&ccedil;&atilde;o &laquo;toda a componente neofascista do nacionalismo radical&raquo; (p.&nbsp;197).</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">Quando Marcello Caetano substitui Salazar, em Setembro de 1968, o <i>Agora</i> salienta sobretudo a continuidade do Estado Novo para al&eacute;m de Salazar, de cuja obra o primeiro n&atilde;o deixaria de ser o prossecutor. Mas, dois meses depois, perante as perspectivas de &laquo;abertura&raquo;, passa ao ataque:</font></p>

    <p>    <blockquote><font face="verdana" size="2">&laquo;As p&aacute;ginas do <i>Agora</i> tornam&#45;se um apelo semanal &agrave; &aacute;rea nacional&#45;revolucion&aacute;ria para que se estreite em torno dos valores origin&aacute;rios da Revolu&ccedil;&atilde;o Nacional dos anos 30 e se oponha a todos os dirigentes do Estado Novo &#91;...&#93; que hoje, iluminados pelos valores liberais&#45;democratas, "se entret&ecirc;m, por mundos e fundos, a dar&#45;nos conta das excel&ecirc;ncias dos papelinhos pelos quais se decide tudo &#91;...&#93;"&raquo; (pp.&nbsp;202&#45;203).</font></blockquote></p>

    <p><font face="verdana" size="2">A resposta marcelista foi inexor&aacute;vel e feita da maneira tradicional: atrav&eacute;s da Censura. O seman&aacute;rio v&ecirc;&#45;se obrigado a fechar definitivamente com o n&uacute;mero de 29 de Mar&ccedil;o de 1969.</font></p>

	    <p>&nbsp;</p>
	    <p><font face="verdana" size="2"><b>MARCELLO CAETANO, A LIBERALIZA&Ccedil;&Atilde;O
	  E O IMP&Eacute;RIO</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">A publica&ccedil;&atilde;o da revista <i>Pol&iacute;tica</i> (1969&#45;1974), propriedade da sociedade Edi&ccedil;&otilde;es Pol&eacute;mica, constitu&iacute;da com esse &uacute;nico fim, inicia&#45;se a 22 de Novembro de 1969. Tem como director Jaime Nogueira Pinto e entre os s&oacute;cios fundadores da editora conta&#45;se Francisco Lucas Pires, ambos integrados na corrente nacional&#45;revolucion&aacute;ria. No entanto, acentua Riccardo Marchi, &laquo;n&atilde;o &eacute; uma revista nacional&#45;revolucion&aacute;ria&raquo; na medida em que nela participam &laquo;representantes das diversas almas do nacionalismo portugu&ecirc;s, mon&aacute;rquico, republicano, cat&oacute;lico, salazarista, todas convergentes em torno das teses integracionistas&raquo; (p. 298), &laquo;reunidos &agrave; volta da avers&atilde;o ao Governo de Marcello Caetano e, sobretudo, &agrave; ala tecnocr&aacute;tica liberal cada vez mais influente no interior do regime e perigosamente activa nos assuntos vitais para o nacionalismo radical, nomeadamente a pol&iacute;tica ultramarina&raquo; (p.&nbsp;293). &Eacute;&nbsp;ali&aacute;s a &laquo;Ala Liberal&raquo;, ou melhor, o seu esp&iacute;rito (p. 304) presente na Assembleia Nacional depois das elei&ccedil;&otilde;es de 1969, um dos inimigos principais para os redactores da revista, que julgam as suas posi&ccedil;&otilde;es &laquo;&agrave; luz do princ&iacute;pio de que as guerras subversivas vencem&#45;se nas frentes de batalha e perdem&#45;se nas retaguardas, com a abertura de fendas demo&#45;liberais no tecido do Estado autorit&aacute;rio, disfar&ccedil;adas de reformismo modernista&raquo; (<i>Ibidem</i>). A campanha contra os liberais da Assembleia Nacional &eacute; uma constante em todos os n&uacute;meros da revista e intensifica&#45;se desde o Ver&atilde;o de 1972, ap&oacute;s a publica&ccedil;&atilde;o do manifesto da SEDES &laquo;Portugal: o Pa&iacute;s que somos e o Pa&iacute;s que queremos ser&raquo;. E &laquo;o crescente peso que os liberais assumem no interior das institui&ccedil;&otilde;es do Estado torna&#45;se uma das culpas mais graves imputadas pelos nacionalistas radicais ao Presidente do Conselho&raquo; (p.&nbsp;306).</font></p>

    <p><font face="verdana" size="2">A &uacute;ltima grande batalha da <i>Pol&iacute;tica</i> foi o I&nbsp;Congresso dos Combatentes, em grande plano na revista em Junho de 1973. A quest&atilde;o &eacute; candente e cara aos nacionalistas, porque, para al&eacute;m da deriva liberal do marcelismo dos primeiros anos, agora estava em causa a pr&oacute;pria pessoa do presidente do Conselho que fizera aprovar uma revis&atilde;o constitucional que apontava para a autonomia progressiva das col&oacute;nias, que podiam, inclusivamente, adquirir a designa&ccedil;&atilde;o honor&iacute;fica de &laquo;estado&raquo;.</font></p>

    <p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote><font face="verdana" size="2">&laquo;Quando, no Inverno de 1972/73 se materializa a ideia de um grande encontro que d&ecirc; voz aos antigos combatentes, os representantes mais activos da &aacute;rea nacional&#45;revolucion&aacute;ria est&atilde;o prontos a agarrar a ocasi&atilde;o, para dar um impulso &agrave; batalha nacionalista, desta vez n&atilde;o s&oacute; contra os inimigos declarados de Portugal, mas tamb&eacute;m contra o poder pol&iacute;tico incerto&raquo;&nbsp;(p.&nbsp;373).</font></blockquote></p>

    <p><font face="verdana" size="2">No entanto, o poder pol&iacute;tico movimenta&#45;se activamente e acabam por ser afastados do Congresso cujo objectivo de politiza&ccedil;&atilde;o dos antigos combatentes tamb&eacute;m falha rotundamente. &laquo;Tratou&#45;se &#150; conclui Riccardo Marchi &#150;, de facto, da &uacute;ltima ofensiva da &aacute;rea nacional&#45;revolucion&aacute;ria, na tentativa de dar forma a uma revolu&ccedil;&atilde;o h&aacute; anos sonhada e que outros, dez meses depois, realizar&atilde;o numa traject&oacute;ria diametralmente oposta&raquo; (p. 382).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">O autor descreve tamb&eacute;m pormenorizadamente os movimentos do nacionalismo revolucion&aacute;rio no seio da Universidade de Coimbra, cuja ac&ccedil;&atilde;o &eacute; despoletada pela crise acad&eacute;mica de 1969, com destaque para o Orfe&atilde;o Acad&eacute;mico de Coimbra, a Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra e a Sociedade Cooperativa Livreira Cidadela. Esta &uacute;ltima, constitu&iacute;da em Novembro de 1970, apesar de ter recebido a aprova&ccedil;&atilde;o do ent&atilde;o presidente do Conselho &#150; que fora previamente consultado sobre a sua constitui&ccedil;&atilde;o &#150; e, consequentemente, o apoio do regime, acaba por se inserir &laquo;na rede heterog&eacute;nea da oposi&ccedil;&atilde;o de direita ao governo de Marcello Caetano&raquo; (p. 265).</font></p>

	    <p><font face="verdana" size="2">Este livro, a todos os t&iacute;tulos pioneiro na historiografia contempor&acirc;nea portuguesa, constitui um excelente estudo sobre os movimentos da direita radical no Estado Novo desde o p&oacute;s&#45;guerra, salientando&#45;se nas conclus&otilde;es que nunca existiu uma &laquo;idade de ouro&raquo; da direita radical portuguesa e que &laquo;a gera&ccedil;&atilde;o do nacionalismo radical dos anos 60 n&atilde;o entra na milit&acirc;ncia pol&iacute;tica colhendo o testemunho da gera&ccedil;&atilde;o precedente&raquo; (p. 383). N&atilde;o est&atilde;o j&aacute; em causa &laquo;nem o restauracionismo mon&aacute;rquico, nem a doutrina contra&#45;revolucion&aacute;ria, nem o debate monarquia/rep&uacute;blica&raquo;, nem se trata do &laquo;despertar do salazarismo extremo, nem t&atilde;o&#45;pouco do neofascismo lusitano&raquo;. O cimento que une os numerosos movimentos que se reclamam do nacionalismo radical &laquo;&eacute; a reac&ccedil;&atilde;o contra a agress&atilde;o dos movimentos independentistas&raquo; (p. 384). Numa palavra, n&atilde;o&nbsp;&eacute; o regime que est&aacute; em causa, mas o &laquo;Imp&eacute;rio&raquo;, que &laquo;deve ser entendido como uma ideia&#45;valor n&atilde;o gerada pelo Estado Novo, pelo autoritarismo, pelo fascismo, mas pela Hist&oacute;ria, material e espiritual de Portugal&raquo;, ou seja, trata&#45;se de &laquo;defender Portugal e a maneira lusitana de estar no Mundo&raquo; (p. 389). </font></p>

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