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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Pax Germanica: A nova paz liberal e a velha Angst europeia]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper seeks to contribute to a reflection on the current European crisis through a critical theorization of liberalism, here characterized as a philosophical, political and ontological assumption of a liberal peace that rests increasingly on the geopolitical scenario of germanisation of Europe. Therefore, two main essays are revisited in the paper, one by Carl Schmitt and the other by Emanuel Levinas, their criticisms to the model of liberal peace describes many of the limitations of the industrial and technocratic model that underpins it, but above all the way in which this model paves the way for its own collapse.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b><i>Pax Germanica. </i>A nova paz liberal e a velha <i>Angst</i> europeia</b></p>         <p>&nbsp;</p>         <p><b>Lu&iacute;s Guilherme Pedro </b></p>         <p>Investigador do IPRI – UNL, tendo sido investigador visitante na Graduate School of Public and International Affairs na Universidade de Otava no Canad&aacute;. Doutorado em Teoria Pol&iacute;tica Internacional pela Aberystwyth University (Pa&iacute;s de Gales) onde foi assistente no Departamento de International Politics. Mestre pelo Institute of Criminology da Universidade de Cambridge e licenciado em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pela FCSH – UNL.</p>         <p>&nbsp;</p>         <p>RESUMO</p>         <p>O artigo procura contribuir para uma reflex&atilde;o sobre a actual crise europeia atrav&eacute;s de uma teoriza&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do liberalismo, aqui caracterizado como pressuposto filos&oacute;fico, pol&iacute;tico e ontol&oacute;gico de uma paz liberal que assenta cada vez mais num cen&aacute;rio geopol&iacute;tico de germaniza&ccedil;&atilde;o progressiva da Europa. Neste sentido, iremos revisitar dois ensaios produzidos por Carl Schmitt e Emmanuel Levinas, cujas cr&iacute;ticas ao modelo de paz liberal descrevem muitas das limita&ccedil;&otilde;es do modelo industrial e tecnocr&aacute;tico que a sustenta mas sobretudo a forma como este modelo abre caminho ao seu pr&oacute;prio colapso.</p>         <p><b>Palavras-chave:</b> paz liberal, seguran&ccedil;a, ansiedade, Europa</p>         <p>&nbsp;</p>         <p><b><i>Pax Germanica</i>. The new liberal peace and the old European <i>Angst</i></b></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ABSTRACT</p>     <p>This paper seeks to contribute to a reflection on the current European crisis through a critical theorization of liberalism, here characterized as a philosophical, political and ontological assumption of a liberal peace that rests increasingly on the geopolitical scenario of germanisation of Europe. Therefore, two main essays are revisited in the paper, one by Carl Schmitt and the other by Emanuel Levinas, their criticisms to the model of liberal peace describes many of the limitations of the industrial and technocratic model that underpins it, but above all the way in which this model paves the way for its own collapse.</p>         <p><b>Keywords:</b> Liberal peace, security, anxiety, Europe</p>         <p>&nbsp;</p>         <blockquote>          <p>Could it be that we are most religious partly in consequence of being the most secular culture?</p>         <p><b>Reinhold Niebuhr</b><a name="top1"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a></p>         <p>&nbsp;</p>         <p>What gift of direction</p>         <p>Is entrusted to me to take charge</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Of an expedition any may</p>         <p>Suggest or join? For the journey homeward</p>         <p>Arriving by roads already known</p>         <p>At sites and sounds one has sensed before,</p>         <p>The knowledge needed is not special.</p>         <p><b>W. H. Auden</b><a name="top2"></a><a href="#2"><sup>2</sup></a></p>     </blockquote>      <p>&nbsp;</p>         <p>O presente artigo procura contribuir para uma reflex&atilde;o sobre a actual crise europeia atrav&eacute;s de uma teoriza&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do liberalismo, aqui caracterizado como pressuposto filos&oacute;fico, pol&iacute;tico e ontol&oacute;gico de uma paz liberal que assenta cada vez mais num cen&aacute;rio geopol&iacute;tico de germaniza&ccedil;&atilde;o progressiva da Europa. &Eacute; num contexto de uma discut&iacute;vel crise de imagina&ccedil;&atilde;o normativa que a presente crise europeia revela, que este artigo se prop&otilde;e revisitar dois ensaios produzidos por dois dos pensadores mais destacados da filosofia continental do s&eacute;culo XX – Carl Schmitt (1888-1985) e Emmanuel Levinas (1906-1995) – e cujas cr&iacute;ticas ao modelo de paz liberal descrevem muitas das limita&ccedil;&otilde;es do modelo industrial e tecnocr&aacute;tico que a sustenta mas sobretudo a forma como este modelo abre caminho ao seu pr&oacute;prio colapso. Como exemplos extremos de alternativas teol&oacute;gico-pol&iacute;ticas &agrave; paz liberal, o modelo schmittiano de paz pol&iacute;tica e o ideal levinasiano de paz &eacute;tica, colocam em perspectiva a actual capacidade das ideologias pol&iacute;tico-partid&aacute;rias para desafiar certos aspectos do paradigma industrial do liberalismo. </p>         <p>Como ponto preliminar &agrave; discuss&atilde;o que se segue, importa sublinhar que a maior limita&ccedil;&atilde;o do liberalismo do ponto de vista schmittiano &eacute; tamb&eacute;m o maior trunfo do paradigma industrial que a paz liberal se v&ecirc; impotente para reformar: a confian&ccedil;a cega do liberalismo nos poderes racionais de um sujeito cuja autonomia decis&oacute;ria supostamente meta-emocional &eacute; a fonte &uacute;ltima de realiza&ccedil;&atilde;o pessoal e colectiva, e cuja paz espiritual, directamente dependente da seguran&ccedil;a material, justifica todas as guerras. &Eacute; neste sentido que importa revisitar as cr&iacute;ticas de Schmitt e de Levinas ao primado liberal do sujeito neutral e despolitizado, como forma de salientar as limita&ccedil;&otilde;es ontol&oacute;gicas e pol&iacute;ticas que emergem da ansiedade e da idolatria que inspiram a pacifica&ccedil;&atilde;o liberal. Ora, para l&aacute; da no&ccedil;&atilde;o de paz pol&iacute;tica como continua&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e neutralizante da guerra de que nos fala Hannah Arendt<a name="top3"></a><a href="#3"><sup>3</sup></a>, importa saber at&eacute; que ponto &eacute; que a paz liberal conseguir&aacute; enfrentar os desafios p&oacute;s-industriais que eram vistos como val&ecirc;ncias da paz liberal mas que constituem hoje obst&aacute;culos ineg&aacute;veis &agrave; sua sustentabilidade futura, tais como a crise demogr&aacute;fica, a escassez crescente de recursos energ&eacute;ticos a n&iacute;vel mundial, a crise clim&aacute;tica e ainda a crise das d&iacute;vidas soberanas, que parecem submeter cada vez mais as soberanias nacionais a uma solidariedade com um projecto de integra&ccedil;&atilde;o europeia que alimenta em muito as aspira&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas da Alemanha. </p>         <p>Nos dois ensaios de Schmitt e Levinas que aqui relemos em paralelo – intitulados, respectivamente, <i>A Idade das Despolitiza&ccedil;&otilde;es e Neutraliza&ccedil;&otilde;es<a name="top4"></a></i><a href="#4"><sup>4</sup></a> (1929, DN) e <i>Paz e Proximidad<a name="top5"></a>e</i><a href="#5"><sup>5</sup></a> (1984, PP) – os conceitos de paz e de ansiedade emergem discretamente como no&ccedil;&otilde;es n&atilde;o apenas salientes no contexto da teoria pol&iacute;tica internacional, mas que relevam para uma reflex&atilde;o contempor&acirc;nea sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre o liberalismo e o projecto de integra&ccedil;&atilde;o europeia – que o conceito de &laquo;paz liberal&raquo; sintetiza – bem como sobre os limites deste paradigma, hoje apresentado pelas elites europeias em geral como inevit&aacute;vel, mas cuja presumida inevitabilidade hist&oacute;rica parece tamb&eacute;m anunciar, de forma paradoxal e tr&aacute;gica, a inevitabilidade do seu pr&oacute;prio fim. N&atilde;o obstante o cen&aacute;rio de continuidade entre uma paz liberal europeia sustentada pelo todo-poderoso Estado social e uma<i> Pax Germanica</i> cuja for&ccedil;a normativa j&aacute; se revela na ret&oacute;rica sentenciosa da chanceler alem&atilde;, este artigo revisita aqueles ensaios e levanta d&uacute;vidas sobre o potencial normativo e mobilizador do liberalismo para resistir a formas de tirania e de opress&atilde;o &agrave;s quais este sempre se arvorou como imune. O enfoque deste artigo sobre o actual momento da crise europeia, n&atilde;o sancionando obviamente a traject&oacute;ria excepcionalista e decisionista que Schmitt viria a adoptar – e que reafirmaria mais tarde ao alistar-se no Partido Nacional-Socialista alem&atilde;o – salienta o risco latente de colapso do modelo liberal europeu <i>precisamente</i> na medida em que este parece avan&ccedil;ar para uma germaniza&ccedil;&atilde;o do projecto de integra&ccedil;&atilde;o europeia com riscos &oacute;bvios n&atilde;o apenas para integra&ccedil;&atilde;o europeia mas tamb&eacute;m para o pr&oacute;prio regime democr&aacute;tico. </p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O artigo est&aacute; dividido em duas partes. A primeira prop&otilde;e-se revisitar a c&eacute;lebre pol&eacute;mica schmittiana contra o liberalismo tecnocrata na senda da sua afirma&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica e providencial, capaz de limitar os excessos do capitalismo <i>a partir de dentro</i>. Schmitt evidencia a impot&ecirc;ncia auto-reformadora da paz liberal e da sua f&eacute; t&atilde;o secular quanto religiosa, no poder pretensamente apol&iacute;tico da ci&ecirc;ncia e da t&eacute;cnica para resolver o problema da paz. Em particular, a recupera&ccedil;&atilde;o de Schmitt permitir-nos-&aacute; reaver os fundamentos teol&oacute;gico-pol&iacute;ticos daquele fil&oacute;sofo, cujo poder cr&iacute;tico se veio a afirmar n&atilde;o apenas como uma das inst&acirc;ncias mais salientes de reac&ccedil;&atilde;o conservadora ao liberalismo, mas tamb&eacute;m como uma fonte normativa que, como Leo Strauss refere, parte ela pr&oacute;pria de certas assun&ccedil;&otilde;es liberais para se revoltar contra elas. A releitura avisada do ensaio de Schmitt serve precisamente para nos lembrar, portanto, como &eacute; que as maiores amea&ccedil;as ao liberalismo podem surgir a partir de dentro do liberalismo, tal como a afirma&ccedil;&atilde;o do pol&iacute;tico em Schmitt se caracterizou pela sobreposi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica de categorias de forma a fazer subsumir o econ&oacute;mico, o social e o cultural na categoria do pol&iacute;tico – para Strauss, a verdadeira contradi&ccedil;&atilde;o de Schmitt.</p>         <p>Na segunda parte, o artigo prop&otilde;e-se revisitar estes perigos ao liberalismo atrav&eacute;s de uma reconsidera&ccedil;&atilde;o do conceito de paz &agrave; luz do tipo de individualismo que, segundo a vis&atilde;o aqui expressa, se veio a constituir como base espiritual e religiosa – antropo-teol&oacute;gica – do liberalismo industrial moderno. A no&ccedil;&atilde;o de paz de Hobbes demonstra bem a expl&iacute;cita associa&ccedil;&atilde;o entre guerra e pacifica&ccedil;&atilde;o que o liberalismo intima e que, conduzida por um Estado soberano contratualizado em termos da securitiza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo como unidade ontol&oacute;gica inviol&aacute;vel, conduz a uma tens&atilde;o ontol&oacute;gica entre ansiedade e idolatria que a paz tecnocr&aacute;tica do liberalismo se revela impotente para combater. A traject&oacute;ria levinasiana consegue de facto minar o projecto moderno da paz liberal ao evidenciar a sua raiz logoc&ecirc;ntrica numa idolatria civilizacional europeia. Para Levinas, a paz europeia n&atilde;o se deixa representar por nenhuma imagem ou figura em nome das quais a viol&ecirc;ncia &eacute; exercida, incluindo a viol&ecirc;ncia que os v&aacute;rios modos de paz, enquanto <i>pacifica&ccedil;&otilde;es</i>, j&aacute; incorporaram. Assim, qualquer paz que se proponha a aproximar do ideal de amor como verdade transcendental – e n&atilde;o como aproxima&ccedil;&atilde;o a uma verdade racional que se substitui ao amor como valor &uacute;ltimo – &eacute; uma paz merecedora desse nome na medida em que parte do pressuposto de uma d&iacute;vida ontol&oacute;gica impag&aacute;vel – uma aut&ecirc;ntica <i>d&iacute;vida soberana</i> – e assim da subtrac&ccedil;&atilde;o existencial de todas as soberanias &agrave; prioridade do outro, que este manifesta heroicamente atrav&eacute;s da resist&ecirc;ncia &agrave;s imposi&ccedil;&otilde;es do eu, ali&aacute;s condi&ccedil;&atilde;o <i>sine qua non</i> de uma fraternidade plural e mesmo da possibilidade da &eacute;tica, segundo Levinas.</p>         <p>Assim, terminamos esta discuss&atilde;o com a nota tr&aacute;gica, mas ainda assim de um cinismo moderado e aberto ao futuro, de que a presente crise europeia se reflecte numa crise profunda do liberalismo em se conseguir auto-reformar de forma a se poder reconstituir num ideal de paz mais capaz de fazer frente a desafios que contradizem quer a sua raiz industrial, quer os seus pressupostos racionais subjectivos. Ora, enquanto reconhece no primado da raz&atilde;o subjectiva um alvo a abater, a teoria pol&iacute;tica contempor&acirc;nea – e todo o esp&iacute;rito cr&iacute;tico europeu – s&atilde;o obrigados recorrer a este como &uacute;nica fonte dispon&iacute;vel n&atilde;o apenas de normatividade mas tamb&eacute;m de autocr&iacute;tica, o que antecipa a impossibilidade hist&oacute;rica de um retorno a qualquer paradigma pr&eacute;-liberal aproximado ao ideal levinasiano, prevendo-se assim uma continuidade entre a presente paz liberal e uma<i> Pax Germanica</i> de estilo <i>soft</i> que Angela Merkel j&aacute; vai exibindo num estilo ret&oacute;rico n&atilde;o t&atilde;o ligeiro, mas com muita naturalidade.</p>     <p>&nbsp;</p>         <p><b>LIBERALISMO, TECNOCRACIA E O ADVENTO DA <i>PAX GERMANICA</i></b></p>         <p>&laquo;N&oacute;s, na Europa Central vivemos “sous l’oeil des Russes”&raquo;<a name="top6"></a><a href="#6"><sup>6</sup></a>, come&ccedil;ava assim o c&eacute;lebre ensaio de Carl Schmitt intitulado <i>A Idade das Despolitiza&ccedil;&otilde;es e das Neutraliza&ccedil;&otilde;es</i>, datado de 1929. Schmitt revelava, numa cr&iacute;tica acutilante &agrave; presumida neutralidade do liberalismo europeu dos anos 1920, a ang&uacute;stia profunda da paz liberal em se constituir como forma dominante de regime e de governo, atrav&eacute;s da racionaliza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e da neutraliza&ccedil;&atilde;o tecnocr&aacute;tica daqueles impulsos e emo&ccedil;&otilde;es colectivos que lhe pudessem fazer frente. Schmitt reconhece no ideal de paz liberal europeia, de que Weimar se assumiu ep&iacute;tome hist&oacute;rica ap&oacute;s um conflito europeu devastador, uma estrat&eacute;gia de pacifica&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e positivista que impede qualquer fundamento emocional de se constituir como base ontol&oacute;gica alternativa &agrave; raz&atilde;o iluminista, e assim se deixa mortificar e amolecer perante amea&ccedil;as que j&aacute; se vislumbram a Leste. &Eacute; &oacute;bvio que Schmitt reconhece nesta <i>Angst</i> germ&acirc;nica uma oportunidade hist&oacute;rica. Um fundamento emotivo-volitivo que, enquanto tal, &eacute; tamb&eacute;m um poder criativo, capaz de reerguer uma nova ordem pol&iacute;tica que realiza o sujeito metafisicamente na terra, em vez de o consignar &agrave; viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica mas igualmente brutal de um eterno sentimento de culpa, que faria ali&aacute;s com que a pacifica&ccedil;&atilde;o universal do mundo degenerasse em conflitos tamb&eacute;m eles universais. </p>     <p>Mas esta den&uacute;ncia da ansiedade liberal alem&atilde; – e do medo da ascens&atilde;o russa que j&aacute; se adivinhava – n&atilde;o &eacute; desprovida de ressentimento. Recalcada da aspira&ccedil;&atilde;o alem&atilde; em se reconstituir como imp&eacute;rio continental, a ang&uacute;stia de Schmitt transparece na sua cr&iacute;tica do olhar pan&oacute;ptico dos russos sobre a Europa Central, um direito que a Alemanha, do ponto de vista schmittiano, se deve legitimamente arrogar. De resto, &eacute; s&oacute; do ponto de vista da sua voca&ccedil;&atilde;o propriamente europeia de se constituir como Reich &eacute; que o sentimento de humilha&ccedil;&atilde;o colectiva imposto por Versalhes exige uma reac&ccedil;&atilde;o absolutamente revolucion&aacute;ria e excepcional. &Eacute; s&oacute; do alto da montanha de expectativas que a Alemanha v&ecirc; frustradas na I Guerra Mundial, &eacute; que a ansiedade face ao horizonte de realiza&ccedil;&atilde;o pode ser produtiva de uma auto-afirma&ccedil;&atilde;o crescente, em dial&eacute;ctica contra um inimigo potencial – de resto nem sempre evidente, e mut&aacute;vel de acordo com as circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas. Reinhart Koselleck explica melhor do que ningu&eacute;m o m&eacute;todo schmittiano na sua proeza, hist&oacute;rica na teoria pol&iacute;tica internacional, em fazer esvaziar a ideia de inimigo de qualquer ontologia predeterminada: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;O par conceptual entre Amigo e Inimigo &eacute; caracterizado pelo seu formalismo pol&iacute;tico, estabelecendo uma grelha de poss&iacute;veis ant&iacute;teses sem as identificar. Em primeiro lugar, por causa da sua nega&ccedil;&atilde;o formal, este diz respeito a contraconceitos puramente sim&eacute;tricos, pois no caso do bin&aacute;rio Amigo-Inimigo, a defini&ccedil;&atilde;o de um ou do outro fica aberta ao uso simult&acirc;neo para qualquer das duas partes. S&atilde;o categorias epistemol&oacute;gicas cujo conte&uacute;do substancial (determinado pela experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica) pode servir para preencher assimetricamente ambos os campos lingu&iacute;sticos. Independentemente de Schmitt ter desenvolvido este contraste a partir da sua pr&oacute;pria posi&ccedil;&atilde;o, ele conota uma f&oacute;rmula que n&atilde;o pode ser descartada como uma condi&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica poss&iacute;vel. Este &eacute; um conceito de pol&iacute;tico, n&atilde;o da pol&iacute;tica.&raquo;<a name="top7"></a><a href="#7"><sup>7</sup></a></p> </blockquote>          <p>Toda a pol&eacute;mica schmittiana contra a neutralidade tecnocr&aacute;tica do liberalismo reside n&atilde;o no perigo da neutralidade <i>per se</i>, mas no facto dessa neutralidade facilitar a possibilidade de a R&uacute;ssia se apropriar dos mesmos instrumentos e assim se agigantar perante o continente. &laquo;A sua vitalidade &eacute; forte o suficiente para que sejam capazes de se apropriarem do conhecimento e da tecnologia como armas.&raquo;<a name="top8"></a><a href="#8"><sup>8</sup></a></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o deixa de ser interessante sobrepor este imagin&aacute;rio ao actual panorama europeu. De facto, e apesar das diferen&ccedil;as, n&oacute;s, na Europa do Sul, vivemos hoje &laquo;sous l’oeil des Allemands&raquo;, tal como os alem&atilde;es vivem em grande medida sob o olhar atento dos chineses. O sistema pol&iacute;tico internacional afirma-se, pelo menos desde a Guerra Fria, como um balan&ccedil;o de poder em que os poderes competem pelas suas capacidades pan&oacute;pticas sobre o advers&aacute;rio. Claro que Schmitt tinha muitas mais raz&otilde;es para temer a sobreposi&ccedil;&atilde;o de que fala &laquo;entre eslavismo e socialismo&raquo; protagonizada por Estaline<a name="top9"></a><a href="#9"><sup>9</sup></a>, do que o comum cidad&atilde;o europeu do Sul hoje tem para suspeitar da justaposi&ccedil;&atilde;o do capitalismo liberal ao protestantismo germ&acirc;nico que a crescente situa&ccedil;&atilde;o de<i> Pax Germanica</i> configura – e que o projecto de integra&ccedil;&atilde;o europeia parece ter conseguido matizar por algum tempo. Mas do ponto de vista das injusti&ccedil;as sociais e dos desequil&iacute;brios regionais que j&aacute; se manifestam na Europa e no mundo, &eacute; de facto imposs&iacute;vel prever os efeitos da presente afirma&ccedil;&atilde;o de poder alem&atilde;o no seio da Uni&atilde;o Europeia, e como pot&ecirc;ncia econ&oacute;mica que, sustentada no maior bloco econ&oacute;mico mundial, se procura guindar para o plano das superpot&ecirc;ncias globais. </p>     <p>Sabemos que desta vez &eacute; diferente, como sabemos tamb&eacute;m da aparente primazia do econ&oacute;mico sobre o pol&iacute;tico que o pan&oacute;ptico chin&ecirc;s imp&otilde;e sobre a Alemanha e mesmo sobre os Estados Unidos, cuja paz armada mundial j&aacute; n&atilde;o consegue disfar&ccedil;ar uma lenta decad&ecirc;ncia imperial. Depreende-se, ainda assim, uma reconfigura&ccedil;&atilde;o do alinhamento de poderes dentro da Uni&atilde;o Europeia que n&atilde;o deixar&aacute; de despoletar tantas mais reac&ccedil;&otilde;es, quanto mais insistentes forem as tentativas disciplinadoras daquele pa&iacute;s sobre os outros. Schmitt tinha raz&atilde;o pelo menos neste ponto: a neutralidade da paz liberal nunca &eacute; &laquo;sem esp&iacute;rito&raquo;. A sua cr&iacute;tica n&atilde;o &eacute; pois dirigida ao desnorte generalizado do liberalismo como pretende Botwinick no seu paralelo pioneiro entre Schmtit e Levinas<a name="top10"></a><a href="#10"><sup>10</sup></a>, nem t&atilde;o-pouco &agrave; fraqueza, apatia e materialismo da paz liberal; Schmitt visa opor directamente o pol&iacute;tico ao pol&iacute;tico, o &laquo;esp&iacute;rito a outro esp&iacute;rito&raquo;, e assim expor a hipocrisia liberal e tecnocrata, incapaz de assumir no seu paradigma industrial, tecnol&oacute;gico e econ&oacute;mico, o pol&iacute;tico latente em todo o liberalismo: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;O esp&iacute;rito da tecnicidade, que levou &agrave; cren&ccedil;a generalizada num activismo anti-religioso, &eacute; tamb&eacute;m esp&iacute;rito; talvez um esp&iacute;rito mal&eacute;fico e dem&oacute;nico, mas que n&atilde;o pode ser descartado como mecanicista e atribu&iacute;do &agrave; tecnologia. &Eacute; talvez algo de macabro, mas n&atilde;o &eacute; em si mec&acirc;nico ou t&eacute;cnico. &Eacute; a cren&ccedil;a numa metaf&iacute;sica activista – a cren&ccedil;a num poder ilimitado e no dom&iacute;nio do homem sobre a natureza, a cren&ccedil;a num ilimitado recuo das fronteiras naturais, nas possibilidades ilimitadas de mudan&ccedil;a e prosperidade. Esta cren&ccedil;a pode ser chamada de fant&aacute;stica e sat&acirc;nica, mas n&atilde;o pode ser considerada morta, sem esp&iacute;rito ou sem alma.&raquo;<a name="top11"></a><a href="#11"><sup>11</sup></a></p> </blockquote>          <p>Ora, o contexto da actual crise liberal europeia obriga-nos a reler Schmitt. As solu&ccedil;&otilde;es que por estes dias s&atilde;o apresentadas para a crise econ&oacute;mica que a Europa atravessa submetem claramente o objectivo da paz social aos pressupostos do liberalismo, seguindo a velha tradi&ccedil;&atilde;o contratualista de simbiose entre prosperidade material e paz metaf&iacute;sica. &laquo;A paz na Europa depende do Euro&raquo;, como nos transmitiu em Lisboa um dos l&iacute;deres europeus<a name="top12"></a><a href="#12"><sup>12</sup></a>. Contra o que algu&eacute;m uma vez pretendeu como um princ&iacute;pio de federa&ccedil;&atilde;o entre povos fraternos, o liberalismo europeu afirma hoje a premissa moderna e secular da subordina&ccedil;&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde; do amor transcendental &agrave;s imposi&ccedil;&otilde;es da raz&atilde;o t&eacute;cnica. A austeridade &eacute; apontada como instrumento essencial de uma paz liberal, conduzindo &agrave; subida ao poder nos pa&iacute;ses do Sul de v&aacute;rias elites oriundas das burocracias europeias, &agrave; margem do sufr&aacute;gio eleitoral, na esperan&ccedil;a v&atilde; de que &laquo;uma elite politicamente dominante possa emergir da comunidade de t&eacute;cnicos inventores&raquo;.<a name="top13"></a><a href="#13"><sup>13</sup></a> </p>         <p>Mas, como lembra tamb&eacute;m Schmitt, &laquo;nenhuma inven&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica pode alguma vez calcular os seus resultados pol&iacute;ticos objectivos. […] Nenhuma quest&atilde;o pol&iacute;tica nem nenhuma resposta pol&iacute;tica poder&aacute; advir de perspectivas e princ&iacute;pios puramente t&eacute;cnicos&raquo;<a name="top14"></a><a href="#14"><sup>14</sup></a>.</p>         <p>Para aqueles que ainda acreditam na possibilidade de reconstitui&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima da paz liberal, este d&eacute;fice democr&aacute;tico tem de ser corrigido rapidamente pois p&otilde;e em causa o princ&iacute;pio da representa&ccedil;&atilde;o e de legitima&ccedil;&atilde;o do poder, abrindo caminho ao colapso do Estado social e assim da democracia. Para muitos destes analistas, que ainda povoam o discurso medi&aacute;tico e jornal&iacute;stico com imagens algo romantizadas de uma Europa em torno da miragem da igualdade entre os estados, as receitas de austeridade econ&oacute;mica que t&ecirc;m origem nas tecnocracias europeias s&atilde;o apenas um meio para a afirma&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o de um modelo econ&oacute;mico mais justo, mais democr&aacute;tico e mais respeitador dos direitos humanos, que se possa afirmar como modelo de desenvolvimento para o resto do mundo. No jornal italiano <i>La Stampa</i>, l&ecirc;-se mesmo a mensagem de esperan&ccedil;a, pr&oacute;pria do estado de gra&ccedil;a de um governo recente que, contudo, n&atilde;o foi eleito, e que &eacute; imposto aos italianos a partir do eixo franco-alem&atilde;o, de que &laquo;n&atilde;o se trata de abolir a pol&iacute;tica nem de suspender a democracia, mas de aproveitar a crise italiana para abrir um novo ciclo pol&iacute;tico&raquo;<a name="top15"></a><a href="#15"><sup>15</sup></a>. No mesmo esp&iacute;rito, um conhecido jornalista portugu&ecirc;s observa que &laquo;o governo sem pol&iacute;ticos &eacute; um meio e n&atilde;o um fim&raquo;<a name="top16"></a><a href="#16"><sup>16</sup></a>. </p>     <p>Como se da estrat&eacute;gia de imposi&ccedil;&atilde;o da paz germ&acirc;nica e liberal n&atilde;o fizesse parte a confus&atilde;o, celebrizada por Maquiavel, entre meios e fins, onde o sentido das inten&ccedil;&otilde;es se perde ou passa a servir fins que eram, no in&iacute;cio, apenas dados como meios. Como se a austeridade imposta aos pa&iacute;ses do Sul n&atilde;o servisse sobretudo a Alemanha, de resto o pa&iacute;s que, consensualmente, mais beneficiou com a integra&ccedil;&atilde;o. De facto, o ensaio de Carl Schmitt reafirma a vis&atilde;o segundo a qual a economia, a t&eacute;cnica e a ci&ecirc;ncia s&atilde;o apenas meios para um fim pol&iacute;tico. </p>         <blockquote>      <p>&laquo;Na base de um novo dom&iacute;nio central esperava-se encontrar um acordo m&iacute;nimo e premissas comuns que permitissem a possibilidade de <i>seguran&ccedil;a, clareza, prud&ecirc;ncia e paz</i>. Os europeus direccionaram-se ent&atilde;o para a neutraliza&ccedil;&atilde;o e minimaliza&ccedil;&atilde;o no contexto das quais aceitaram uma lei que os mantivesse “em linha” e que pudesse constituir o seu conceito de verdade.&raquo;<a name="top17" id="top17"></a><a href="#17"><sup>17</sup></a></p> </blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas Schmitt denota, nesta hist&oacute;rica &laquo;batalha por um dom&iacute;nio neutro&raquo;, uma metaf&iacute;sica vontade de poder: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;Nas doutrinas liberais do <i>pouvoir neutre</i> e do <i>stato neutrale</i> o processo de neutraliza&ccedil;&atilde;o encontra a sua f&oacute;rmula mais cl&aacute;ssica porque capta o que &eacute; mais decisivo: o poder pol&iacute;tico […] No novo dom&iacute;nio [liberal] as ant&iacute;teses entre homens e entre interesses ganha uma nova intensidade e agudiza-se. Os europeus oscilaram sempre entre um dom&iacute;nio conflitual e um dom&iacute;nio neutral, e sempre o mais recente dom&iacute;nio neutral se reconstituiu imediatamente em novo palco de guerra, requerendo outra vez um novo dom&iacute;nio neutral.&raquo;<a name="top18"></a><a href="#18"><sup>18</sup></a></p> </blockquote>          <p>Schmitt mostra portanto que &eacute; precisamente na sua despolitiza&ccedil;&atilde;o e neutraliza&ccedil;&atilde;o tempor&aacute;rias que o liberalismo tecnocr&aacute;tico consegue disfar&ccedil;ar a sua efic&aacute;cia pol&iacute;tica, isto &eacute;, consegue servir a afirma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de uma entidade ou de um Estado enquanto se prop&otilde;em a distribuir prosperidade, bem-estar e felicidade de forma igual e imparcial: &laquo;A tecnologia &eacute; o &uacute;ltimo fundamento da neutralidade […] Mas &eacute; precisamente porque a tecnologia serve a todos que ela n&atilde;o &eacute; neutra. Nenhuma decis&atilde;o pode ser derivada da iman&ecirc;ncia da tecnologia.&raquo;<a name="top19"></a><a href="#19"><sup>19</sup></a></p>     <p>Desenganem-se portanto aqueles que solicitam o regresso da pol&iacute;tica no sentido tradicional da afirma&ccedil;&atilde;o do poder do Estado face &agrave; for&ccedil;a das din&acirc;micas econ&oacute;micas.  A pol&iacute;tica nunca esteve t&atilde;o presente na Europa como agora, precisamente na medida em que nunca a sua presen&ccedil;a esteve t&atilde;o &agrave; altura da sua aus&ecirc;ncia. Essa &eacute; a grande val&ecirc;ncia da paz liberal, como sugere Schmitt: uma paz t&atilde;o pacificadora do ponto de vista econ&oacute;mico quanto ela serve uma viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica mais agravada e global. </p>           <blockquote>      <p>&laquo;&Eacute; o pr&oacute;prio esquecimento da presen&ccedil;a do inimigo que se apoderou do liberalismo que explica a sua capitula&ccedil;&atilde;o e a sua impot&ecirc;ncia em assegurar a coexist&ecirc;ncia ir&eacute;nica das nossas sociedades. Convencido que s&oacute; o direito, insepar&aacute;vel do progresso, pode pacificar e obstruir os antagonismos humanos, o homem liberal que se desembara&ccedil;ou da teologia n&atilde;o pode imaginar que possa ser de outra forma. A sua paix&atilde;o por, e o seu sonho de, produ&ccedil;&atilde;o e de frui&ccedil;&atilde;o fren&eacute;ticos dos bens deste mundo que o tornam amn&eacute;sico face &agrave; morte e ao tr&aacute;gico da vida. […] Ap&oacute;s Schmitt, o paradoxo da modernidade reside nesta f&uacute;ria prometaica em edificar uma exist&ecirc;ncia sem drama, sem sofrimento, desapossados de toda a especificidade humana; embora a grandeza do homem resida igualmente na abertura ao infinito e &agrave; sua coragem face &agrave;s vicissitudes da vida, da morte e do destino.&raquo;<a name="top20"></a><a href="#20"><sup>20</sup></a> </p> </blockquote>          <p>&Eacute; neste sentido que este artigo se prop&otilde;e descrever a<i> Pax Germanica</i> do futuro pr&oacute;ximo, e que s&oacute; agora come&ccedil;a a mostrar a sua face, como a sequ&ecirc;ncia l&oacute;gica da impot&ecirc;ncia normativa dos imagin&aacute;rios pol&iacute;ticos e ideol&oacute;gicos europeus nacionais e comunit&aacute;rios, incapazes de fazer frente &agrave; crise e de olhar o liberalismo a partir de ponto de vista externo como afirma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica espec&iacute;fica de uma paz ideol&oacute;gica. Ora, o que parece estar a baralhar este vislumbre mais ou menos claro de uma asser&ccedil;&atilde;o de poder alem&atilde;o sobre o resto da Europa &eacute; que a instaura&ccedil;&atilde;o plena do liberalismo germ&acirc;nico sobre o Sul s&oacute; se consegue afirmar na medida em que a Alemanha compromete o seu destino pol&iacute;tico nacional, sempre problem&aacute;tico e inst&aacute;vel, com a sua miss&atilde;o universal de federaliza&ccedil;&atilde;o da Europa &agrave; sua pr&oacute;pria imagem, sempre problem&aacute;tica e inst&aacute;vel. A paz liberal da Europa n&atilde;o serve, e dificilmente servir&aacute;, a paz ou liberalismo <i>per se</i>; estes s&atilde;o meras tecnologias sociais e econ&oacute;micas postas ao servi&ccedil;o de um poder que optamos aqui por n&atilde;o designar como &laquo;imperial&raquo; porque n&atilde;o corresponde &agrave; imagem tradicional de um Reich, n&atilde;o deixando por isso, todavia, de se constituir numa <i>Pax et Potestas</i> continental e civilizacional onde &laquo;Europa&raquo; e &laquo;Alemanha&raquo; se confundem cada vez mais. Deste ponto de vista, a suposta <i>europeiza&ccedil;&atilde;o</i> da Alemanha<a name="top21"></a><a href="#21"><sup>21</sup></a> de que falam muitos cientistas pol&iacute;ticos encontra na <i>germaniza&ccedil;&atilde;o</i> da Europa o seu volte-face ideal – que s&oacute; o estigma do holocausto impedia at&eacute; agora de discernir com clareza e de antecipar at&eacute; com alguma previsibilidade. </p>         <p>Ora, vivemos um tempo em que a paz liberal parece recuperar alguma da sua chama normativa sob o comando da Alemanha. O sucesso do individualismo n&atilde;o pode apenas ser atribu&iacute;do a raz&otilde;es puramente econ&oacute;micas. H&aacute; por detr&aacute;s dele um claro alento teol&oacute;gico-pol&iacute;tico. O avan&ccedil;o da austeridade sobre o Sul consagra o culto do individualismo e assim a &eacute;tica protestante que Max Weber t&atilde;o bem descreve na sua simbiose com o capitalismo liberal<a name="top22"></a><a href="#22"><sup>22</sup></a> e ao faz&ecirc;-lo beneficia as sociedades protestantes em detrimento das outras. O pr&oacute;prio catolicismo &eacute; remetido para segundo plano, neutralizando quase por completo o que ainda restava de duas unidades sociais que este privilegiava tradicionalmente nos pa&iacute;ses do Sul: a fam&iacute;lia e a escola. Donde, os constantes apelos aos estados nacionais por parte dos v&aacute;rios sectores cat&oacute;licos das sociedades portuguesa, espanhola, italiana, bem como do pr&oacute;prio Vaticano, que j&aacute; antecipa na presente crise um apagamento generalizado do valor crist&atilde;o da fraternidade e o realinhamento da integra&ccedil;&atilde;o europeia com as inten&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-civilizacionais do liberalismo, assentes na corrup&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o de amor transcendental em idolatria individualista. Este realinhar de for&ccedil;as e poderes parece ali&aacute;s configurar mais uma ofensiva greco-romana, agora germanizada, contra a tradi&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde;, que viu no projecto falhado da Constitui&ccedil;&atilde;o Europeia a &uacute;ltima oportunidade para se reafirmar como tradi&ccedil;&atilde;o de fundo (e esp&iacute;rito) da pr&oacute;pria integra&ccedil;&atilde;o.</p>         <p>Ora, para aqueles que j&aacute; perderam a esperan&ccedil;a neste modelo de paz liberal e que anteviram na queda do comunismo de h&aacute; vinte anos, o lento esboroar, n&atilde;o apenas dos capitalismos centralizados e totalit&aacute;rios, mas de todos os paradigmas modernos de ordem p&uacute;blica assentes no paradigma industrial – incluindo o do pr&oacute;prio liberalismo – esta crise desmascara por completo a ilus&atilde;o de um liberalismo capaz de se autolimitar e auto-regular. No fundo, o que a crise revela &eacute; que todos os poderes de autocontrolo da paz liberal servem apenas a sua pr&oacute;pria recondu&ccedil;&atilde;o como macroestrutura econ&oacute;mica do sistema pol&iacute;tico internacional, atrav&eacute;s de um positivismo legal e cient&iacute;fico cuja aparente incapacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o colectiva &eacute; depois colmatada com a fervorosa religiosidade do individualismo que coloca o <i>self</i> no altar da sua Igreja. Era precisamente este tipo de ordem liberal pretensamente an&oacute;nima, tecnocr&aacute;tica e despolitizada que Carl Schmitt denunciava anos antes da ascens&atilde;o do partido nacional-socialista, um partido que o pr&oacute;prio viria a integrar juntamente com Martin Heidegger em 1933, e cuja aposta ideol&oacute;gica era a de uma radical fus&atilde;o entre povo e Estado – ou seja, entre emo&ccedil;&atilde;o e raz&atilde;o –, capaz de racionalizar os medos e ansiedades de cada alem&atilde;o numa pol&iacute;tica de projec&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o de aspira&ccedil;&otilde;es meta-individuais, pol&iacute;tica essa que o contratualismo e o liberalismo moderno pensavam ter cerceado. Resta saber se de um retorno &agrave;quele cen&aacute;rio excepcional e violento que despoletou a II Guerra Mundial n&atilde;o poder&aacute; sair culpado o liberalismo, na sua senda t&atilde;o pacificadora.</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nos dias que correm, j&aacute; n&atilde;o &eacute; preciso lembrar que a crise de identidade europeia latente &agrave; crise econ&oacute;mica intima o fracasso de uma paz constru&iacute;da na base de uma integra&ccedil;&atilde;o aparentemente econ&oacute;mica e cujos verdadeiros contornos pol&iacute;ticos parecem de novo ensombrar a Europa com o fantasma hist&oacute;rico da &uacute;ltima paz falhada. Uma nuvem negra debru&ccedil;ada sobre um destino que, para o bem e para o mal, vai ser sempre comum. Face &agrave; ansiedade causada pelo potencial recuo ao paradigma schmittiano, a seguinte parte ir&aacute; procurar caracterizar o paradigma liberal e industrial de paz encetado por Thomas Hobbes. O ideal levinasiano de paz como proximidade constitui uma contraproposta te&oacute;rica quer ao ideal de paz liberal dominante de raiz hobbesiana, quer &agrave; sua radicaliza&ccedil;&atilde;o na obra de Schmitt, evidenciando o que, contudo, este denunciava como a fachada do rigor econ&oacute;mico e da <i>problem-solving capability</i> de algumas elites e o facto de a tecnocracia esconder n&atilde;o apenas um tipo de paz antidemocr&aacute;tica – na medida em que &eacute; feito &agrave; margem das democracias nacionais – mas uma afirma&ccedil;&atilde;o do Norte protestante e puritano face ao Sul, que dificilmente deixar&aacute; de despoletar ansiedades colectivas capazes de reavivar fantasmas que julg&aacute;vamos ter mumificado em definitivo. </p>     <p>&nbsp;</p>         <p><b>A SEGURAN&Ccedil;A E A SOLICITUDE DO TEMPO QUE VEM</b></p>         <p>Como Habermas observa, &eacute; com o advento da modernidade como momento espec&iacute;fico e especificamente autoconsciente da hist&oacute;ria que o princ&iacute;pio da subjectividade moderna se afirma como  face ao futuro<a name="top23"></a><a href="#23"><sup>23</sup></a>. Este movimento configura uma cesura revolucion&aacute;ria e auto-incutida face ao passado, da raz&atilde;o contra a tradi&ccedil;&atilde;o e do valor da verdade <i>materializ&aacute;vel</i> contra o valor <i>pass&eacute;</i> do amor imaterial, culminando num triunfo da ci&ecirc;ncia sobre a religi&atilde;o em que a primeira assume agora o lugar da &uacute;ltima. Donde, a assimila&ccedil;&atilde;o por parte das grandes ideologias e imagin&aacute;rios pol&iacute;ticos europeus – desde o marxismo ao nazismo passando tamb&eacute;m pelo liberalismo e pela social-democracia – de uma ansiedade existencial perante o futuro, que &eacute; fonte de incerteza e portanto objecto de securitiza&ccedil;&atilde;o, neutraliza&ccedil;&atilde;o e pacifica&ccedil;&atilde;o. </p>         <p>Mas se, por um lado, Carl Schmitt tinha raz&atilde;o ao denunciar a despolitiza&ccedil;&atilde;o liberal e superficial desta radical exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; precariedade de um futuro <i>incertus</i>, o pr&oacute;prio acaba, como afirma Leo Strauss<a name="top24"></a><a href="#24"><sup>24</sup></a>, por ceder ao liberalismo atrav&eacute;s de uma repolitiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m ela securit&aacute;ria, do tempo presente. Numa linha levinasiana, esta parte do artigo levanta a hip&oacute;tese que muitas ideologias modernas acabam por sucumbir ao liberalismo porque a sua cr&iacute;tica do sujeito n&atilde;o consegue escapar nem ao primado da raz&atilde;o <i>cr&iacute;tica</i> nem &agrave; primazia do paradigma industrial e cient&iacute;fico liberal. Donde, a ila&ccedil;&atilde;o do colapso do imagin&aacute;rio normativo europeu na sua tentativa, constantemente frustrada, de constituir uma vis&atilde;o p&oacute;s-industrial e p&oacute;s-liberal que possa responder &agrave; crise da paz liberal, na sua insustentabilidade industrial, assente num ideal de sujeito capaz de procurar e de produzir felicidade, prosperidade, controlo, conhecimento e progresso <i>ad eternum</i>. Mas antes de concluir com este ponto de vista tr&aacute;gico, importa rever os mecanismos e as &laquo;figura&ccedil;&otilde;es&raquo; mentais, para usar um termo caro &agrave; sociologia de Norbert Elias<a name="top25"></a><a href="#25"><sup>25</sup></a>,        que o liberalismo construiu para diluir as ansiedades medievais por uma paz apenas saci&aacute;vel no reino de Deus. </p>         <p>Entendemos por liberalismo esta procura de materializa&ccedil;&atilde;o no &laquo;cidad&atilde;o&raquo; – como interface entre <i>self</i> econ&oacute;mico e soberania pol&iacute;tica – do m&aacute;ximo potencial de capacidade de sobreviv&ecirc;ncia, &laquo;entretenimento&raquo;, <i>enjoyment</i>, oportunamente simbolizados na express&atilde;o francesa<i> joie de vivre</i>, tomada como m&aacute;xima do individualismo que constitui afinal a base de verdade da paz liberal sustentada no crescimento econ&oacute;mico, nos direitos humanos e na democracia. Ora, &eacute; precisamente neste sentido que esta paz se consegue afirmar como seculariza&ccedil;&atilde;o de uma paz celestial. Na Europa liberal de hoje, como na<i> Pax Germanica</i> de amanh&atilde;, a vida imp&otilde;e-se a si pr&oacute;pria n&atilde;o apenas o imperativo da sobreviv&ecirc;ncia mas sobretudo a sua reinterpreta&ccedil;&atilde;o e distor&ccedil;&atilde;o liberais em termos de bem-estar e qualidade de vida. Com o liberalismo a ideia de sobreviv&ecirc;ncia &eacute; entendida literalmente como <i>sobre</i>vida, isto &eacute;, como vida que para esquecer ou suspender a sua ansiedade perante um futuro de expectativas que a morte necessariamente compromete, &eacute; vivida no m&aacute;ximo da sua resist&ecirc;ncia &agrave; morte, isto &eacute;, como &laquo;estilo de vida&raquo;. Mas como &eacute; que o indiv&iacute;duo, reduto m&iacute;nimo de direitos e deveres, &eacute; transformado nesta unidade ontol&oacute;gica inviol&aacute;vel, e sobre a qual recaem todas as responsabilidades de um destino pol&iacute;tico que, de resto, consagra a concretiza&ccedil;&atilde;o do seu interesse individual como m&aacute;xima program&aacute;tica e ideol&oacute;gica?</p>         <p>Ora, &eacute; com Thomas Hobbes que a ansiedade moderna face a um futuro auspicioso, a que ele se refere como uma &laquo;solicitude of the time to come&raquo;<a name="top26"></a><a href="#26"><sup>26</sup></a> – e que ele ainda reconhece como alvo respeit&aacute;vel a abater – se deixa apropriar pela &laquo;cidade dos homens&raquo; atrav&eacute;s da constru&ccedil;&atilde;o hobbesiana de um &laquo;Deus mortal&raquo; capaz de canalizar a esperan&ccedil;a numa paz vindoura para uma paz presente, anulando assim todos os medos e todas as ansiedades relativas &agrave; incerteza do futuro. Pois no momento em que o futuro se faz transportar para o presente n&atilde;o &eacute; s&oacute; o presente que se assegura contra a incerteza e o desconhecido;        &eacute; tamb&eacute;m a imprevisibilidade do pr&oacute;prio futuro que desaparece, e com ela todas as nossas ansiedades, agora reconduzidas para o estudo do passado e da tradi&ccedil;&atilde;o, face &agrave; qual o per&iacute;odo moderno se pode afirmar, com os p&eacute;s assentes na raz&atilde;o, como <i>Modernus</i><a name="top27"></a><a href="#27"><sup>27</sup></a>. Da&iacute; que para Hobbes, o conceito de ansiedade seja &uacute;til n&atilde;o no sentido de fazer pairar sobre o sujeito o espectro de um futuro &laquo;por natureza imprevis&iacute;vel&raquo;, mas de o reverter a favor do conhecimento do presente, isto &eacute;, como ansiedade <i>face</i> ao passado, onde a causa dos erros presentes – e, portanto, o estudo cient&iacute;fico da causalidade – pode criar a possibilidade de uma paz futura, ou at&eacute; de uma &laquo;everlasting peace&raquo;<a name="top28"></a><a href="#28"><sup>28</sup></a>. </p>         <p>&Agrave;s ansiedades e ang&uacute;stias medievais, cujo paradigma de <i>futuridade</i> remetia para um destino s&oacute; realiz&aacute;vel num reino &laquo;not of this world&raquo;, inef&aacute;vel e assim fora do controlo humano, Hobbes sobrep&otilde;e um medo relativo a algo muito mais tang&iacute;vel e at&eacute; control&aacute;vel, ou, pelo menos, com alguma &laquo;prud&ecirc;ncia&raquo;, prorrog&aacute;vel: o &laquo;medo da morte&raquo; (&laquo;fear of death&raquo;)<a name="top29"></a><a href="#29"><sup>29</sup></a>. Claro que a esta valoriza&ccedil;&atilde;o de uma vida terrena cada vez mais eterniz&aacute;vel corresponde uma desvaloriza&ccedil;&atilde;o do ideal antigo de vida eterna, agora cada vez mais import&aacute;vel para o reino das coisas. Por consequ&ecirc;ncia, esta valoriza&ccedil;&atilde;o da morte como horizonte &uacute;ltimo veio a significar, para o europeu moderno, uma sobrevaloriza&ccedil;&atilde;o da vida e de tudo aquilo que podemos cultivar para estender a sua longevidade: a sa&uacute;de, a &laquo;comodidade&raquo;, o bem-estar, a seguran&ccedil;a, o entretenimento, o lazer, o trabalho,        a &laquo;ind&uacute;stria&raquo;<a name="top30"></a><a href="#30"><sup>30</sup></a>, etc., etc. A fus&atilde;o entre pol&iacute;tica, ontologia e economia consagra o paradigma da paz liberal como ordem industriosa e industrial. Ela atinge o seu pleno na articula&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica e engenhosa do conceito hobbesiano de &laquo;paz&raquo;, triangulado com o &laquo;medo da morte&raquo;, o &laquo;desejo&raquo; e a &laquo;ind&uacute;stria&raquo;. Segundo o pr&oacute;prio Hobbes, &laquo;as paix&otilde;es que inclinam os homens para a Paz s&atilde;o o Medo da Morte; o Desejo daquelas coisas necess&aacute;rias a uma vida <i>c&oacute;moda</i>; e a esperan&ccedil;a de que, pela sua Ind&uacute;stria, elas sejam alcan&ccedil;adas&raquo;<a name="top31"></a><a href="#31"><sup>31</sup></a>. </p>         <p>O mito do <i>Leviat&atilde;</i> obt&eacute;m assim uma for&ccedil;a normativa e um impacto prescritivo impressionante e cuja longevidade ainda n&atilde;o conseguimos divisar, precisamente porque, ao contr&aacute;rio do Deus transcendental, este semideus &eacute; facilmente filtrado para a realidade do dia-a-dia: ele &eacute; mortal <i>como n&oacute;s</i>. O realismo de Hobbes descobre na recria&ccedil;&atilde;o do Deus transcendental em deus pecador, a possibilidade de uma deidade perfeita <i>para</i> um mundo de <i>sinners</i> irremedi&aacute;veis. De resto, a longa experi&ecirc;ncia anglo-sax&oacute;nica do liberalismo parece confirmar a hip&oacute;tese genial do fil&oacute;sofo ingl&ecirc;s de que os homens se identificam mais plenamente com um <i>deus</i> que se afirma t&atilde;o pecador quanto eles: um deus que cobra mas que tamb&eacute;m recompensa, que recebe mas que paga, enfim, que cumpre um contrato e assim, a bem da paz pol&iacute;tica e da estabilidade econ&oacute;mica, permite a projec&ccedil;&atilde;o terrena, e n&atilde;o extraterrestre, da &laquo;sobrevida&raquo;, de uma vida que pode ser vivida, <i>enjoyable</i>, gozada nas suas comodidades e concupisc&ecirc;ncias – &laquo;ease, and lusts&raquo;<a name="top32"></a><a href="#32"><sup>32</sup></a> – num exerc&iacute;cio de acultura&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Deus &agrave; necessidade de instituir uma paz capaz de assegurar a possibilidade do <i>habitus</i> liberal. </p>         <p>No quadro deste paradigma, a l&oacute;gica do princ&iacute;pio crist&atilde;o tradicional do <i>Imago Dei</i> &eacute; reapropriada e retrabalhada numa reeconomiza&ccedil;&atilde;o geral do espectro poss&iacute;vel de imanentiza&ccedil;&otilde;es do Deus crist&atilde;o. Procede-se a uma colagem cada vez mais transparente entre ser e existir, onde o existente n&atilde;o &eacute; j&aacute; visto como alienado do ser real – como sugere a origem etimol&oacute;gica do termo no &eacute;timo latino <i>ex-istere</i>, &laquo;<i>stare ex</i>&raquo; = &laquo;estar fora&raquo; – mas em que o ser real &eacute; transposto para o dom&iacute;nio do existente e contido neste, primeiro na figura do monarca e depois na do cidad&atilde;o. Esta revolu&ccedil;&atilde;o secular levou de resto ao c&eacute;lebre pren&uacute;ncio nietzscheano da morte de Deus, consistindo numa transfus&atilde;o – a que Voegelin oportunamente chamou &laquo;imanentiza&ccedil;&atilde;o&raquo;<a name="top33"></a><a href="#33"><sup>33</sup></a> – que assegura o <i>ser humano</i> como fonte de paz presente e futura. Como se para ascender a Deus o sujeito tivesse agora que voltar a si sob a forma de uma asser&ccedil;&atilde;o das suas capacidades racionais autocognitivas e auto-suficientes, em vez de se fazer transcender pela reden&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, pelo reconhecimento da impossibilidade absoluta de um autocontrolo pleno. Ora, &eacute; neste novo enquadramento hist&oacute;rico que Deus se deve conformar &agrave; projec&ccedil;&atilde;o transcendental do homem sobre o divino, e n&atilde;o o inverso: <i>God is dead. Long live the Leviathan!</i> &Eacute; esta prerrogativa hobbesiana da vida, que remete o seu <i>ens</i> metaf&iacute;sico para o horizonte limitado do seu <i>finis</i> biol&oacute;gico, e em que &agrave; fuga constante ao medo de morte &eacute; alocado um estatuto espec&iacute;fico – como &uacute;ltimo imperativo moral e normativo – que &eacute; posta em causa pelas correntes teol&oacute;gicas e filos&oacute;ficas tradicionais que procuram, por sua vez, recriar a dial&eacute;ctica entre vida e morte da pr&eacute;-modernidade, sobremaneira sob a capa de um p&oacute;s-modernismo mais conservador ou mais revolucion&aacute;rio. Emmanuel Levinas insere-se nesta tend&ecirc;ncia filos&oacute;fica global de indigna&ccedil;&atilde;o contra o liberalismo individualista.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Segundo Levinas, esta paz liberal europeia, engenhosamente encetada por Hobbes, revela uma &laquo;m&aacute; consci&ecirc;ncia&raquo; que n&atilde;o &eacute; nem resultado dos enjoos habituais causados pelas &laquo;sedu&ccedil;&otilde;es de uma paz que assegura a cada um a tranquilidade do seu bem-estar e a liberdade para se apoderar do mundo&raquo;, nem de um &laquo;medo da morte&raquo; hobbesiano que a todos apoquenta. H&aacute;, para Levinas, todo um sentimento latente de ansiedade ou ang&uacute;stia </p>         <blockquote>      <p>&laquo;na pr&aacute;tica de crimes mesmo quando os conceitos est&atilde;o em acordo. H&aacute; uma ang&uacute;stia [<i>angoisse</i>] que incumbe a cada um de n&oacute;s na morte e sofrimento do outro. A cren&ccedil;a de cada um por si na mortalidade de cada um nunca chega a <i>absorver</i> a gravidade da morte cometida e do esc&acirc;ndalo da indiferen&ccedil;a ao sofrimento do outro. Por detr&aacute;s do perigo que cada um corre por si num mundo sem seguran&ccedil;a, eleva-se a consci&ecirc;ncia da imoralidade imediata de uma cultura e de uma hist&oacute;ria&raquo;<a name="top34"></a><a href="#34"><sup>34</sup></a>. </p> </blockquote>      <p>A descri&ccedil;&atilde;o levinasiana desfere assim um rude golpe no individualismo hobbesiano, inerente a uma concep&ccedil;&atilde;o de morte individual como a derradeira amea&ccedil;a a ser evitada a todo o custo mesmo que tal implique a exporta&ccedil;&atilde;o da guerra al&eacute;m Europa: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;N&atilde;o ouvimos j&aacute;, na voca&ccedil;&atilde;o da Europa – e ainda antes da mensagem de Verdade que transporta – o “Tu n&atilde;o matar&aacute;s” do Dec&aacute;logo e da B&iacute;blia? No cap&iacute;tulo 32 do <i>G&eacute;nesis</i>, Jacob &eacute; atormentado pelo an&uacute;ncio de que o seu irm&atilde;o Esau – inimigo ou amigo – marcha ao seu encontro, encabe&ccedil;ando 400 homens. No oitavo verso podemos ler: Jacob tem medo e est&aacute; angustiado. Mas qual a diferen&ccedil;a entre medo e ang&uacute;stia? Rachi, c&eacute;lebre comentador rab&iacute;nico, informa-nos: “Jacob teme pela sua morte mas est&aacute; angustiado com a possibilidade de ter de matar”.&raquo;<a name="top35"></a><a href="#35"><sup>35</sup></a> </p> </blockquote>          <p>Ora, o tipo espec&iacute;fico de idolatria civilizacional europeia, t&atilde;o propriamente moderno e assente no imperativo da <i>sobreviv&ecirc;ncia do bem-estar</i>, n&atilde;o se reduz apenas &agrave;s inst&acirc;ncias hist&oacute;ricas de aliena&ccedil;&atilde;o colectiva em torno do Estado. Para Levinas, a paz liberal e &laquo;burguesa&raquo;<a name="top36"></a><a href="#36"><sup>36</sup></a> &eacute; n&atilde;o apenas uma forma de resist&ecirc;ncia a esta seculariza&ccedil;&atilde;o que ora politiza o Deus transcendental ora deifica o Estado; ela &eacute;, na verdade, a outra face da mesma moeda, isto &eacute;, tamb&eacute;m ela um produto desse processo de idealiza&ccedil;&atilde;o e sublima&ccedil;&atilde;o do ego que, em face da fal&ecirc;ncia dos egos totalit&aacute;rios, recupera agora o modelo hobbesiano de instancia&ccedil;&atilde;o pessoal do Deus no indiv&iacute;duo, como foco de religiosidade e iconologia, cujas imagens s&atilde;o santificadas e endeusadas, precisamente porque s&atilde;o <i>possu&iacute;das pelo eu</i>, e assim o projectam numa dial&eacute;ctica infinita de auto-adora&ccedil;&atilde;o – uma ideia de resto simbolizada no conceito moderno de <i>Personal Jesus</i>. Ora, o desafio que se coloca a qualquer teoria pol&iacute;tica ou &eacute;tica contempor&acirc;nea segundo Levinas &eacute; o de conceber uma paz que </p>             <blockquote>      <p>&laquo;n&atilde;o se reduza a uma mera confirma&ccedil;&atilde;o de uma identidade humana na sua substancialidade nem a uma liberdade feita de tranquilidade, ancorando o sujeito na sua identidade de <i>Eu</i>. N&atilde;o se trata aqui j&aacute; da paz burguesa do homem que se fecha em casa para rejeitar aquilo que, fora dela, o nega; n&atilde;o se trata aqui de uma paz conforme ao ideal da <i>unidade do Um</i> que toda a alteridade perturba&raquo;<a name="top37"></a><a href="#37"><sup>37</sup></a>.</p> </blockquote>          <p>Importa perceber, portanto, at&eacute; que ponto &eacute; que os europeus conseguem discernir, para l&aacute; das imposi&ccedil;&otilde;es sist&eacute;micas do liberalismo, um objectivo &uacute;ltimo de realiza&ccedil;&atilde;o comum que n&atilde;o se resuma &agrave; felicidade individual, um ideal de <i>felicity</i> e de <i>happiness</i> que encontra no &uacute;ltimo an&uacute;ncio publicit&aacute;rio da <i>Hugo Boss</i> a sua express&atilde;o niilista e, salvo o anacronismo, hobbesiana mais conseguida: &laquo;Be inspired by whatever; Whatever meets the way; Changes direction; Whatever surprises, thrills, sparks; Whatever is magnetic. <i>‘Whatever’ is just the beginning</i>. Whatever, it’s your turn.&raquo;<a name="top38"></a><a href="#38"><sup>38</sup></a></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Representa&ccedil;&atilde;o altamente elucidativa do ideal de paz liberal, que apazigua o indiv&iacute;duo ao tomar este <i>whatever</i> como princ&iacute;pio absoluto e fim &uacute;ltimo do seu ser. O &laquo;nada&raquo; como imperativo moral capaz de absorver o sujeito num frenesim autopoi&eacute;tico t&atilde;o acelerado e electrificante que ludibria a pr&oacute;pria possibilidade cr&iacute;tica da raz&atilde;o subjectiva em expor a miragem de auto-sustentabilidade como fal&aacute;cia religiosa e at&eacute; &laquo;fundamentalista&raquo;, como reconhece Habermas. Uma raz&atilde;o que se toma a si pr&oacute;pria como princ&iacute;pio transcendental e se demite da sua responsabilidade em se auto-regular numa dial&eacute;ctica com outros impulsos. Uma raz&atilde;o que ter&aacute; perdido a no&ccedil;&atilde;o do seu substrato emotivo com o intuito &uacute;nico de <i>dar a vez ao self</i>: &laquo;Whatever, it’s your turn&raquo;. Compreende-se o apelo &agrave; autonomia voluntarista, &agrave; imunidade auto-adulat&oacute;ria e at&eacute; o &ecirc;xtase de um ego realizado na sua pr&oacute;pria &laquo;autarcia&raquo; que dispensa tudo e todos, enfim, um voo para l&aacute; da terra e para junto dos deuses, desejo intemporal de um ser que procura, desde que se conhece amarrado &agrave; terra, escapar a essa condi&ccedil;&atilde;o. J&aacute; n&atilde;o se depreende, contudo, desta mensagem, qualquer imagin&aacute;rio &eacute;tico e normativo capaz de evitar que a Europa, como projecto p&oacute;s-moderno e p&oacute;s-ocidental, se reduza a um aglomerado arbitr&aacute;rio de indiv&iacute;duos isolados e alheados, gladiadores greco-romanos deixados &agrave; sua sorte numa arena politicamente neutralizada pela sua pr&oacute;pria egocentricidade, e despidos de qualquer sentido de responsabilidade e de hospitalidade face a outrem. </p>         <p>Estar&aacute; este <i>self-made-man</i> que os an&uacute;ncios projectam como ideal-tipo completamente absorvido no ar que respira – que &eacute; o do seu pr&oacute;prio perfume? Ser&aacute; ele incapaz de discernir, num sentimento de ansiedade mais funda que o de um mero sentir, e que antecede mesmo a sua auto-imagem? Ser&aacute; este o modelo de cidadania que a<i> Pax Germanica</i>, como o novo est&aacute;gio do liberalismo atl&acirc;ntico, ir&aacute; consagrar? Ou corresponder&aacute; esta fundamentaliza&ccedil;&atilde;o do <i>self</i> ao seu fundamento &uacute;ltimo e assim tamb&eacute;m &agrave; raz&atilde;o do seu afundamento derradeiro? Ser&aacute; este apelo perverso a um <i>whatever</i>, produtivo ele pr&oacute;prio de reac&ccedil;&otilde;es e de resist&ecirc;ncias capazes de devolver ao sujeito todos os seus poderes recreativos que lhe permitem repensar as formas como se organiza em comunidade e, portanto, como constr&oacute;i a paz? Estas perguntas fazem recair a nossa aten&ccedil;&atilde;o sobre a raz&atilde;o de ser &uacute;ltima da paz liberal, e n&atilde;o apenas a sua raz&atilde;o de ser mais &oacute;bvia: poder&aacute; a paz liberal, at&eacute; na sua mais recente vaga de germaniza&ccedil;&atilde;o da Europa do Sul, servir como instrumento de resist&ecirc;ncia ao perigo dos populismos nacionalistas e n&atilde;o apenas como glorifica&ccedil;&atilde;o de um bem-estar material e individual que parece esvaziado de qualquer sentido de bem comum? Se assim &eacute; que margem nos &eacute; deixada para pensarmos a paz para l&aacute; do esp&iacute;rito de idolatria que o paradigma da raz&atilde;o instrumental continua a alimentar, mas que, de resto, s&oacute; &eacute; critic&aacute;vel a partir de uma raz&atilde;o emancipada da tradi&ccedil;&atilde;o? </p>         <p>Os escritos de Levinas e de Schmitt extremam o espectro de respostas poss&iacute;veis a estas quest&otilde;es, debru&ccedil;ando-se sobre as rendi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas e pol&iacute;ticas da din&acirc;mica secular de idolatria do homem moderno acima descrita. De facto, ambos parecem concordar no ponto em que o que caracteriza o sujeito moderno &eacute; uma ansiedade profunda que a expectativa de paz final e absoluta inspira nele e que o faz rememorar o passado de forma escatol&oacute;gica, e mais ou menos linear, como caminhando para esse fim advent&iacute;cio<a name="top39"></a><a href="#39"><sup>39</sup></a>. A raz&atilde;o secularizada e assim esvaziada da transcend&ecirc;ncia pr&oacute;pria de <i>um Deus que ama indiferentemente</i> &eacute; imanentizada num sujeito que procura realizar o seu pr&oacute;prio destino individual, que &eacute; ali&aacute;s o &uacute;nico porque a raz&atilde;o que o determina j&aacute; foi subjectivizada no <i>self</i> racional. Resta assim saber o que &eacute; que pode constituir uma paz europeia aceit&aacute;vel para estes autores, feita a cr&iacute;tica da paz liberal como forma &uacute;ltima de viol&ecirc;ncia metaf&iacute;sica. Sobretudo tendo em conta a situa&ccedil;&atilde;o paradoxal da pr&oacute;pria filosofia pol&iacute;tica moderna: por um lado, impossibilitada de um regresso a um passado de harmonia e integra&ccedil;&atilde;o plenas com o plano transcendental divino ap&oacute;s a emerg&ecirc;ncia da raz&atilde;o secular como ponto de passagem inevit&aacute;vel de qualquer filosofia cr&iacute;tica; por outro, confrontada com uma exist&ecirc;ncia mundana cujas f&oacute;rmulas institucionais, pol&iacute;ticas e legais continuam a manifestar, de alguma forma, uma ansiedade face a um plano transcendental que a raz&atilde;o secular n&atilde;o consegue capturar de todo. </p>         <p>Ora, do ponto de vista interno ao liberalismo, &eacute; obviamente dif&iacute;cil para qualquer modelo de paz eximir-se &agrave; necessidade de desenvolver uma estrat&eacute;gia de neutraliza&ccedil;&atilde;o emocional em que o sujeito &eacute; alienado da afectividade divina, isto &eacute;, de uma <i>caritas</i> pr&eacute;-subjectiva que o criou e que o leva a afirmar uma paz entendida como <i>seguran&ccedil;a</i> no sentido literal e metaf&iacute;sico de uma &laquo;sem-caridade&raquo; (<i>sine+caritas = securitas</i>). Uma paz que se pretende despida de ansiedade e assim sem amor – entendido aqui como liga&ccedil;&atilde;o ao mundo e a uma cosmovis&atilde;o encetada a partir do ponto de vista transcendental de um Deus criador transparente a uma raz&atilde;o que n&atilde;o se toma como fim &uacute;ltimo. &Eacute; portanto neste contexto que o conceito de ansiedade adquire uma enorme val&ecirc;ncia explicativa cr&iacute;tica do liberalismo porque reconhece no sujeito uma <i>criatura</i>, por oposi&ccedil;&atilde;o ao paradigma individualista que o liberalismo procura disfar&ccedil;ar de autocria&ccedil;&atilde;o individual. </p>         <p>Em Levinas, o ego humano padroniza uma racionalidade universal na qual se rev&ecirc; como indiv&iacute;duo, isto &eacute;, como actualiza&ccedil;&atilde;o individual de um universo mais global ou <i>genus</i> universal de que o outro tamb&eacute;m &eacute; necessariamente uma concretiza&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica. Assim, o outro &eacute; factor de viol&ecirc;ncia e de perturba&ccedil;&atilde;o da paz liberal quando n&atilde;o se enquadra num determinado n&uacute;mero de pr&aacute;ticas egol&oacute;gicas que o eu europeu, na sua raz&atilde;o soberana, j&aacute; se encarregou de instaurar &agrave; partida como par&acirc;metro &uacute;ltimo de todas as ordens aceit&aacute;veis – &agrave; luz do crit&eacute;rio da racionalidade egol&oacute;gica que tolera e aceita o outro na medida em que este for capaz de <i>ser como eu</i>. Desta forma, o eu evita uma exposi&ccedil;&atilde;o desnecess&aacute;ria &agrave; diferen&ccedil;a que o iria for&ccedil;ar a questionar-se a si mesmo e assim a entrar em <i>guerra civil</i> consigo pr&oacute;prio. </p>         <blockquote>      <p>&laquo;A Paz como fundamento da verdade, que […] comanda os homens sem os obrigar a combater, que os governa e agrega sem os tornar subservientes, que os consegue convencer com palavras sem os conquistar, e que consegue dominar os elementos mais hostis da natureza atrav&eacute;s dos c&aacute;lculos e do conhecimento pr&aacute;tico da tecnologia. Paz na base de um Estado que corresponde &agrave; agrega&ccedil;&atilde;o de homens que participam das mesmas verdades ideais. Uma paz que &eacute; assim gozada como uma tranquilidade assegurada pela solidariedade – a medida exacta de reciprocidade de servi&ccedil;os permutados entre as partes: a unidade de um todo em que cada qual encontra o seu repouso, o seu lugar e a sua base. A paz como tranquilidade e descanso! A paz do descanso entre seres de p&eacute;s assentes na solidez da sua pr&oacute;pria subst&acirc;ncia, auto-suficientes na sua identidade e capazes de se satisfazer na procura de satisfa&ccedil;&atilde;o.&raquo;<a name="top40"></a><a href="#40"><sup>40</sup></a></p> </blockquote>          <p>Para Levinas toda a &eacute;tica liberal &eacute; uma falsa &eacute;tica porque j&aacute; foi politizada num eu <i>naturalizado</i>, que s&oacute; &eacute; negoci&aacute;vel na base de um ego que se <i>economiza</i> para depois projectar sobre o outro o seu pr&oacute;prio fechamento egoc&ecirc;ntrico. &Eacute; precisamente no contexto desta possibilidade que importa insistir na abordagem p&oacute;s-liberal de Levinas &agrave; problem&aacute;tica da paz, sobretudo no potencial de cr&iacute;tica &agrave; paz liberal que encontra na justi&ccedil;a como <i>fairness</i> de John Rawls e na &laquo;ac&ccedil;&atilde;o comunicativa&raquo; de J&uuml;rgen Habermas os seus arautos mais recentes. Concentremo-nos, por momentos, na rela&ccedil;&atilde;o que Levinas estabelece entre o eu europeu e a possibilidade hist&oacute;rica de uma paz &eacute;tica: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;O problema da Europa e da paz &eacute; precisamente aquele posto pela contradi&ccedil;&atilde;o da nossa consci&ecirc;ncia de europeus. &Eacute; o problema da humanidade em n&oacute;s, da centralidade da Europa cujas “for&ccedil;as vitais” – aquelas onde ainda se mant&eacute;m activa a perseveran&ccedil;a brutal dos seres no seu ser – s&atilde;o j&aacute; seduzidas pela paz, pela paz preferida &agrave; viol&ecirc;ncia e, mais precisamente ainda, pela paz de uma humanidade que, europeia em n&oacute;s, j&aacute; se decidiu pela sageza Grega de maneira a definir a paz humana a partir do Verdadeiro.&raquo;<a name="top41"></a><a href="#41"><sup>41</sup></a></p> </blockquote>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entendida na sua defini&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde;, a paz n&atilde;o pode ser vista, segundo Levinas, como um processo hist&oacute;rico de acalmia social generalizada e gradual que nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais descrevemos normalmente como pacifica&ccedil;&atilde;o ou <i>apeasement</i>. Antes, a paz transcendental encontra no ideal de amor, de fraternidade e de justi&ccedil;a <i>face ao outro</i> a fonte mais leg&iacute;tima de nega&ccedil;&atilde;o de uma concep&ccedil;&atilde;o de subjectividade racional-liberal que Levinas apresenta como agressiva e violenta logo &agrave; partida, porque, ainda antes de <i>receber</i> o outro na sua capacidade afectiva de se constituir como absolutamente respons&aacute;vel, o eu europeu projecta o seu modelo de um <i>dever ser humano</i> sobre o outro, impedindo logo &agrave; partida a sua <i>performance</i> constituinte de uma paz assente num amor sem quaisquer complexos de racionalidade subjectiva e descomprometida de qualquer matriz identit&aacute;ria pr&oacute;pria das soberanias tradicionais. Para Levinas, a &laquo;justi&ccedil;a n&atilde;o procede da Verdade, da adequa&ccedil;&atilde;o do acto como facto com a ideia, mas emerge da rela&ccedil;&atilde;o com o Outro que para Levinas cria a condi&ccedil;&atilde;o de Verdade. Numa invers&atilde;o caracter&iacute;stica, n&atilde;o &eacute; a ideia que &eacute; revelada no discurso, mas o discurso com o Outro que cria a necessidade razo&aacute;vel da ideia&raquo;<a name="top42"></a><a href="#42"><sup>42</sup></a>. </p>         <p>Assim, numa cr&iacute;tica cerrada ao primado kantiano do &laquo;eu penso&raquo;, herdeiro do <i>cogito</i> cartesiano mas tamb&eacute;m da seguran&ccedil;a hobbesiana, Levinas confronta-nos com um desafio radical &agrave; paz liberal, ao desenterrar, do fundo do juda&iacute;smo e do cristianismo, por estes dias esquecidos, o ideal de amor transcendental para o contrapor &agrave; paz liberal e tecnol&oacute;gica da raz&atilde;o imanente: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;Temos de nos perguntar se a paz, em lugar de se dedicar &agrave; absor&ccedil;&atilde;o ou desapari&ccedil;&atilde;o da alteridade, n&atilde;o dever&aacute; ser pelo contr&aacute;rio entendida como forma fraternal da proximidade do outro, que n&atilde;o seria apenas o do fracasso de uma coincid&ecirc;ncia com o outro, mas que significa precisamente o excesso de socialidade sobre toda a solid&atilde;o – excesso de socialidade e de Amor. N&atilde;o pronunciamos esta palavra, tantas vezes abusada, de forma ligeira.&raquo;<a name="top43"></a><a href="#43"><sup>43</sup></a></p> </blockquote>          <p>A negatividade absoluta da paz face &agrave;s subjectividades positivadas em &laquo;Selves&raquo;, desmascara o conte&uacute;do egoc&ecirc;ntrico da guerra, ao demonstrar que n&atilde;o pode haver nada de substantivo ou de aut&ecirc;ntico num ego que n&atilde;o seja a sua pr&oacute;pria d&iacute;vida perante o poder constituinte e criador do outro. Uma soberania que nasce da sua pr&oacute;pria d&iacute;vida perante o outro, <i>qual d&eacute;fice para al&eacute;m da vida</i>. </p>         <p>Toda a constru&ccedil;&atilde;o do eu europeu manifesta, portanto, um princ&iacute;pio imperialista de poder sobre o outro e enquanto tal, o eu europeu n&atilde;o poder&aacute; nunca alcan&ccedil;ar uma paz definitiva dentro do modelo industrial do liberalismo. Enquanto liberal a Europa &eacute; um ego precisamente na medida em que &eacute; programado para a guerra o que tamb&eacute;m significa que quando o inimigo desaparece (como no caso do colapso da URSS) o ego europeu tende a desagregar-se. Deste ponto de vista teol&oacute;gico e transcendental, o sujeito e, claro est&aacute;, tamb&eacute;m o colectivo humano, deve portanto procurar uma paz onde a ordem pol&iacute;tica n&atilde;o corresponda a uma projec&ccedil;&atilde;o de si mesmo sobre o outro; ou do ponto de vista internacional, onde a ordem pol&iacute;tica regional ou mesmo global n&atilde;o constitua uma projec&ccedil;&atilde;o de um ideal de ordem origin&aacute;rio de um s&oacute; Estado ou de um s&oacute; conjunto de estados sobre outro, como se o mundo fosse o reflexo de um s&oacute; ego. Para Levinas, n&atilde;o &eacute; inevit&aacute;vel que o mundo tenha de ser organizado de acordo com esta triangula&ccedil;&atilde;o entre ego, raz&atilde;o e paz – pois nenhuma paz se pode fundar num ego que ainda n&atilde;o se questionou sobre os efeitos nefastos da sua pr&oacute;pria egocentricidade, como de resto manda a &eacute;tica judaico-crist&atilde; e o imagin&aacute;rio popular b&iacute;blico e talm&uacute;dico. </p>     <p>Segundo Levinas, a paz liberal n&atilde;o poder&aacute; nunca constituir-se em objecto de reflex&atilde;o sem problematizar o que a sustenta ontologicamente, isto &eacute;, a pretens&atilde;o subjectiva da Europa em racionalizar emo&ccedil;&otilde;es e vontades de forma a que, no fim desta pacifica&ccedil;&atilde;o emotivo-volitiva, a verdade se erga t&atilde;o intelig&iacute;vel e reconhec&iacute;vel quanto ela &eacute; j&aacute; produto de um &uacute;nico ego que se plasmou sobre o mundo: triunfo socr&aacute;tico do amor &agrave; verdade, derrota crist&atilde; da verdade do amor. Ora, em alternativa ao ideal greco-romano de verdade, que funda o primado da raz&atilde;o subjectiva, Levinas prop&otilde;e um ideal de paz capaz de fintar a viol&ecirc;ncia existencial da Europa, porque antecede ontologicamente os poderes agenciais que guerreiam entre si: </p>         <blockquote>      <p>&laquo;Eis o desafio da centralidade da Europa e da sua cultura. Uma Europa fatigada! O estilha&ccedil;ar da universalidade da raz&atilde;o te&oacute;rica que de sobremaneira se erga no “Conhece-te  a ti mesmo” para procurar o universo inteiro na consci&ecirc;ncia de si. Donde a afirma&ccedil;&atilde;o e a valoriza&ccedil;&atilde;o das culturas particulares em todos os confins do mundo. Uma afirma&ccedil;&atilde;o que encontra ali&aacute;s eco e reconhecimento – e muitas vezes a origem – e acolhedora compreens&atilde;o ao mais alto n&iacute;vel da universidade europeia ela pr&oacute;pria. Um interesse da parte do velho mundo, em nome do antigo universalismo europeu, pelos in&uacute;meros particularismos que se pretendem seus iguais. Um interesse que j&aacute; n&atilde;o deriva de um qualquer gosto pelo exotismo b&aacute;rbaro, mas constitui, isso sim, uma exalta&ccedil;&atilde;o de uma l&oacute;gica outra que n&atilde;o a de Arist&oacute;teles, de um pensamento outro que o civilizado. Exalta&ccedil;&atilde;o que se explica talvez pelo remorso que a mem&oacute;ria de guerras coloniais e de uma longa opress&atilde;o daqueles que cham&aacute;mos uma vez selvagens cultivou, a mem&oacute;ria de uma longa indiferen&ccedil;a &agrave; tristeza do mundo inteiro.&raquo;<a name="top44"></a><a href="#44"><sup>44</sup></a></p> </blockquote>          <p>Sem este exerc&iacute;cio antifundador de que, de resto, Levinas n&atilde;o &eacute; o pioneiro, a nossa capacidade de discernir a hip&oacute;tese te&oacute;rica de uma ordem natural pac&iacute;fica – em que o sujeito ainda n&atilde;o se arrogou o estatuto id&oacute;latra de <i>self</i> e, como tal, permanece numa inocente sujei&ccedil;&atilde;o ao outro – fica comprometida na raiz pelo compromisso identit&aacute;rio com uma certa assun&ccedil;&atilde;o, inquestionada, sobre o que o sujeito &eacute; – e tamb&eacute;m sobre o que a paz deve ser. O ideal de subjectividade que subjaz ao ideal de cidadania europeu &eacute; a de um sujeito que j&aacute; &eacute; pac&iacute;fico ou b&eacute;lico antes de ter questionado a origem da sua pr&oacute;pria capacidade em decidir entre uma coisa ou outra. Entre outras coisas, isto conduz o sujeito a procurar a paz final atrav&eacute;s de guerras aparentemente instrumentais – ou ainda a definir qualquer guerra como the <i>war to end all wars</i> que trar&aacute; a paz derradeira mas que exige do sujeito todo o tipo de pacifica&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas que passam necessariamente pela conflitualidade. Para Levinas, portanto, o problema n&atilde;o se p&otilde;e aquando da naturaliza&ccedil;&atilde;o da paz ou da guerra, mas sim no momento em que aquele que guerreia ou aquele que pacifica j&aacute; se toma como modelo e ideal-tipo do outro que &eacute; tomado ora como alvo a abater, ora como sujeito de uma pacifica&ccedil;&atilde;o sem apelo alterior.</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ora, ao esvaziamento das ideologias europeias e &agrave; crise de imagina&ccedil;&atilde;o normativa que entrincheira cada vez mais as elites filos&oacute;ficas e pol&iacute;ticas europeias – e que a raz&atilde;o liberal, como raiz do paradigma industrial europeu, corporiza – n&atilde;o parece estar a sobrepor-se qualquer alternativa pol&iacute;tica ou program&aacute;tica de uma ordem europeia sustent&aacute;vel a longo prazo, capaz de fazer frente aos desafios demogr&aacute;ficos, ambientais e sociais que se antecipam. Se nos fiarmos portanto na ideia de que o poder tem horror ao vazio, esta crise poder&aacute; muito bem significar um salto em frente e um escape da paz liberal para uma <i> Pax Germanica</i> t&atilde;o mais ordenadora quanto mais pac&iacute;fica. &Eacute; neste contexto que a rela&ccedil;&atilde;o entre paz e ansiedade pode ser elucidativa do presente estado de crise pol&iacute;tica, econ&oacute;mica e existencial, onde ainda n&atilde;o se afiguram respostas satisfat&oacute;rias. Enquanto forma de poder, a paz liberal n&atilde;o se rev&ecirc; na sua ansiedade embrion&aacute;ria. Pelo contr&aacute;rio, ela justifica e enuncia a constitui&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o securitizado onde a desordem, a guerra ou a viol&ecirc;ncia s&atilde;o colocadas &agrave; margem do civilizado para se lhe opor ora atrav&eacute;s da sua criminaliza&ccedil;&atilde;o interna para efeitos de domestica&ccedil;&atilde;o posterior, ora atrav&eacute;s da exporta&ccedil;&atilde;o do indomestic&aacute;vel. As pacifica&ccedil;&otilde;es especificamente liberais consistem, portanto, de uma forma ou de outra, em justifica&ccedil;&atilde;o da guerra e assim numa nega&ccedil;&atilde;o, &agrave; luz da raz&atilde;o, como Hobbes, de resto, indica claramente: &laquo;&eacute; um preceito, ou regra geral da raz&atilde;o, que todos os homens devam procurar a Paz, na medida da sua esperan&ccedil;a em a alcan&ccedil;ar; e quando n&atilde;o a puderem obter, que possam procurar, e usar, todo o aux&iacute;lio e vantagem da Guerra.&raquo;<a name="top45"></a><a href="#45"><sup>45</sup></a></p>         <p>Ora, na tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica e filos&oacute;fica europeia que aqui revisitamos, n&atilde;o s&atilde;o nem o &laquo;medo de morte&raquo; hobbesiano<a name="top46"></a><a href="#46"><sup>46</sup></a> nem o &laquo;desejo&raquo; entendido de uma forma naturalista e biol&oacute;gica, mas sim a ansiedade, que pode descrever fenomenologicamente – isto &eacute;, de uma forma que percebemos mas tamb&eacute;m sentimos – esta disposi&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica e at&eacute; ontol&oacute;gica que pressiona ou conduz o sujeito – seja ele o cidad&atilde;o, o Estado, o soberano, o imp&eacute;rio ou uma qualquer comunidade – para se apoderar de um horizonte esp&aacute;cio-temporal determinado, sob a forma de ego, e assim alcan&ccedil;ar uma paz que &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o absoluta da sua realiza&ccedil;&atilde;o egoc&ecirc;ntrica, culminando na sua projec&ccedil;&atilde;o externa t&atilde;o pacificadora quanto conquistadora. No mito crist&atilde;o da queda, simbolizado na no&ccedil;&atilde;o de pecado, esta conquista de um espa&ccedil;o consiste num fechamento do sujeito sobre si pr&oacute;prio numa l&oacute;gica defensiva de orgulho, ego&iacute;smo e idolatria. </p>         <p>A dist&acirc;ncia cr&iacute;tica que Levinas nos oferece permite-nos ter o advento hobbesiano da paz liberal como a reifica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da seguran&ccedil;a metaf&iacute;sica num pressuposto de bem-estar econ&oacute;mico, ou seja, da racionaliza&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica do amor transcendental em amor individual, uma seguran&ccedil;a autocontida e individualizada que dispensa a afectividade e o cuidado intersubjectivo e assume, em seu lugar, um posicionamento estrat&eacute;gico de autodefesa do <i>self</i> face &agrave; ansiedade existencial perante o futuro. &Eacute; neste pressuposto ontol&oacute;gico que parece assentar a ordem internacional contempor&acirc;nea, t&atilde;o dependente da paz armada dos Estados Unidos como da paz liberal de uma Europa desarmada <i>perante</i> o seu pr&oacute;prio destino de alvo da produ&ccedil;&atilde;o industrial das restantes pot&ecirc;ncias. O que faz da Europa uma regi&atilde;o muito dependente, mas da qual dependem tamb&eacute;m todas as restantes economias do mundo. A <i> Pax Germanica</i> faz com que o velho continente reconquiste o seu papel de actor mundial n&atilde;o por qualquer virtude ou voluntarismo pr&oacute;prios, mas porque, ao se reconstituir como centro produtor e consumidor global, se v&ecirc; de novo confrontado com a possibilidade, t&atilde;o imposs&iacute;vel quanto j&aacute; imagin&aacute;vel, do colapso de um imenso sistema de interdepend&ecirc;ncia que centraliza em si mesmo mas j&aacute; n&atilde;o controla. </p>         <p>&Eacute; hoje vis&iacute;vel – &agrave; luz das crises demogr&aacute;ficas, energ&eacute;ticas e ambientais – que o fardo das expectativas que a paz liberal cria no sujeito est&aacute; a tornar-se progressivamente insustent&aacute;vel, sinal de que mesmo a ordem econ&oacute;mica capitalista que cultiva essas expectativas o faz de tal forma que deixa de lhes poder corresponder. &Eacute; afinal este abismo entre &laquo;espa&ccedil;o de experi&ecirc;ncia&raquo; e &laquo;horizonte de expectativa&raquo;<a name="top47"></a><a href="#47"><sup>47</sup></a> de que Koselleck fala na sua an&aacute;lise hist&oacute;rica das no&ccedil;&otilde;es de tempo modernas e pr&eacute;-modernas, e que reintroduz na discuss&atilde;o da <i> Pax Germanica</i> eminente o problema da velha <i>Angst</i> europeia. O &laquo;amor da sabedoria&raquo;, como oposto ao &laquo;amor da verdade&raquo;, ensina-nos que a paz n&atilde;o poder&aacute; nunca vir de uma experi&ecirc;ncia colectiva que se sacrifica constantemente a expectativas que n&atilde;o controla – uma din&acirc;mica que parece constituir, todavia, a quintess&ecirc;ncia do paradigma de paz liberal. Uma irrespond&iacute;vel responsabilidade a que a zona euro n&atilde;o tem conseguido dar vaz&atilde;o e que leva a que o cen&aacute;rio de guerra invada de novo o imagin&aacute;rio colectivo europeu. </p>         <p>Ora, este paradoxo de solu&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil sen&atilde;o mesmo imposs&iacute;vel, &eacute; simbolizado na topologia m&iacute;tica de Jerusal&eacute;m e de Atenas, como p&oacute;los balizadores da identidade europeia e da sua constante &acirc;nsia existencial, a que Heidegger se referia em termos aristot&eacute;licos como configurando uma permanente afectividade ou liga&ccedil;&atilde;o – sorge em alem&atilde;o ou &laquo;cura&raquo; em latim – entre <i>potenzialitat</i> e <i>actualitat</i><sup><a name="top48"></a><a href="#48">48</a></sup>. Nesta simbiose entre afecto, ang&uacute;stia, ansiedade, solicitude, apego, cuidado, <i>cura</i> e <i>care</i> insinua-se o ideal judaico-crist&atilde;o do amor que, de resto, foi sempre central para a Europa, at&eacute; do ponto de vista negativo, isto &eacute;, como objecto de apropria&ccedil;&otilde;es imperialistas indevidas. Resta saber at&eacute; que ponto ela poder&aacute; continuar a informar o projecto europeu em tempos de afirma&ccedil;&atilde;o protestante que parece querer helenizar a pr&oacute;pria Atenas. Talvez Levinas esteja certo quando se refere a uma futura e esperada &laquo;contesta&ccedil;&atilde;o da centralidade da Europa a partir de si mesma&raquo;, a que acrescenta o seguinte laivo de esperan&ccedil;a: &laquo;Mas, talvez, atrav&eacute;s desta, encontremos o testemunho de uma Europa que n&atilde;o &eacute; apenas hel&eacute;nica! E assim tamb&eacute;m a quest&atilde;o de saber qual o papel desse helenismo, numa Europa que queremos cumpridora das suas promessas&raquo;<a name="top49"></a><a href="#49"><sup>49</sup></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>         <p><b>CONCLUS&Atilde;O</b></p>         <p>N&atilde;o deixa de ser sintom&aacute;tico deste paradoxo existencial entre promessa e incumprimento, a imagem permanentemente televisionada nos dias que correm de uma Atenas a arder face ao avan&ccedil;o austero e sentencioso de uma paz liberal e protestante, uma paz que se pretende de uma vitalidade hel&eacute;nica e her&oacute;ica face &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde; e que sobrep&otilde;e a &eacute;tica do trabalho e de anonimato do <i>Mensch-Maschine</i> do Norte aos brandos costumes da moral do <i>homini otioso</i> do Sul. A ansiedade colectiva que a presente crise revela, uma ansiedade que se manifesta quer na viol&ecirc;ncia f&iacute;sica das ruas das capitais da periferia europeia, quer na viol&ecirc;ncia de um discurso de austeridade econ&oacute;mica, pronunciado a partir de um centro de decis&atilde;o assertivo e sentencioso face ao Sul, n&atilde;o resulta de uma frustra&ccedil;&atilde;o generalizada face ao incumprimento dos planos econ&oacute;micos – potencialmente pass&iacute;vel de criminaliza&ccedil;&atilde;o – nem t&atilde;o-pouco da desilus&atilde;o do Norte protestante face &agrave; inadapta&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses da Europa mediterr&acirc;nica, cujas historiografias s&atilde;o agora reescritas &agrave; luz da sua capacidade ou incapacidade de adop&ccedil;&atilde;o do capitalismo econ&oacute;mico e do liberalismo democr&aacute;tico como panaceias do desenvolvimento moral e mesmo da sua realiza&ccedil;&atilde;o enquanto na&ccedil;&otilde;es. A <i>Angst</i> desta nova <i> Pax Germanica</i> – cujo enorme poder simb&oacute;lico dispensa qualquer poderio militar que a Alemanha, de resto, n&atilde;o possui – resulta sim do confronto com a <i>curae</i> latina do Sul europeu, um tipo de ansiedade milenar que o Sul sempre cultivou como reserva sentimental e moral face aos poderes da Europa do Norte.</p>         <p>Neste conflito latente entre Norte e Sul, Atenas surge ajoelhada aos p&eacute;s de uma raz&atilde;o austera que fez nascer e que agora a comanda a partir de fora. Um helenismo que, germanizado, subjuga a pr&oacute;pria Gr&eacute;cia e a apresenta como brecha incur&aacute;vel do &laquo;verdadeiro eu&raquo; europeu, qual barbariza&ccedil;&atilde;o racional da raz&atilde;o-Europa. Neste baile de m&aacute;scaras, a racionalidade da Gr&eacute;cia antiga &eacute; finalmente transposta para a m&aacute;quina financeira e normativa do protestantismo euroc&ecirc;ntrico que purifica o Sul. A antiga Europa dos b&aacute;rbaros civilizou-se ao ponto de agora se arrogar o direito de romanizar um espa&ccedil;o outrora romano. O primado da raz&atilde;o vira-se contra si pr&oacute;prio, metamorfoseado numa austeridade antidemocr&aacute;tica pr&oacute;pria de todos os capitalismos modernos, apostados na dispensabilidade da tradi&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde;, e investidos na rememora&ccedil;&atilde;o iluminista da prioridade do racional sobre o emocional e assim tamb&eacute;m do econ&oacute;mico sobre o pol&iacute;tico – como se esta n&atilde;o correspondesse tamb&eacute;m a uma agenda pol&iacute;tica como nos lembrava Schmitt. </p>         <p>A l&oacute;gica de endividamento das maiores economias europeias confirma e refor&ccedil;a a cumplicidade entre no&ccedil;&otilde;es hegem&oacute;nicas de subjectividade e identidade, de ontologia individualista herm&eacute;tica e autocriada, e o sistema liberal: de facto, hoje, a identidade de um pa&iacute;s do Sul europeu – e a potencialidade desse pa&iacute;s em actualizar o que na sua ess&ecirc;ncia ele pretender ser – depende da sua capacidade financeira para pagar uma d&iacute;vida externa. Ou seja, os pa&iacute;ses do Sul v&ecirc;em-se agora for&ccedil;ados a comprar a sua pr&oacute;pria identidade como se as suas soberanias n&atilde;o lhes tivessem sa&iacute;do caras no passado.        A d&iacute;vida soberana enquanto <i>comodifica&ccedil;&atilde;o da soberania</i>. Claro que as na&ccedil;&otilde;es europeias recebem algo em troca, nomeadamente a possibilidade de ascenderem a n&iacute;veis de vida – entenda-se de consumo – e a um padr&atilde;o demogr&aacute;fico que prolonga a paz liberal porque permite mais longevidade, logo mais produtividade. Mas estes padr&otilde;es s&atilde;o, tamb&eacute;m eles, insustent&aacute;veis a prazo. </p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A acrescentar a esta securitiza&ccedil;&atilde;o do horizonte de pagamento da d&iacute;vida soberana, est&aacute; a criminaliza&ccedil;&atilde;o do endividamento excessivo, cada vez mais ventilada nos discursos de Sarkozy e de Merkel – e claro, do pr&oacute;prio presidente da Comiss&atilde;o Europeia e de toda a elite emergida das tecnocracias e das burocracias da Uni&atilde;o Europeia. Esta leva n&atilde;o s&oacute; &agrave; perda de soberania do Sul da Europa mas tamb&eacute;m &agrave; sua reconstitui&ccedil;&atilde;o como um verdadeiro <i>gang</i> de delinquentes. Recorrendo ao imagin&aacute;rio foucaultiano, um tipo espec&iacute;fico de criminologia financeira internacional emerge tamb&eacute;m aqui ao servi&ccedil;o do pan&oacute;ptico franco-alem&atilde;o como indutora de uma &laquo;tecnologia do <i>self</i>&raquo; nacional, em que os estados soberanos do Sul s&atilde;o &laquo;neutralizados&raquo; e &laquo;despolitizados&raquo; numa <i> Pax Germanica</i> que pacifica a Europa atrav&eacute;s do castigo e do incentivo, da reprimenda e da recompensa, uma infantiliza&ccedil;&atilde;o que se julgava dificilmente institu&iacute;vel no pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o da Europa, mas que &eacute; sintoma da falta de solu&ccedil;&otilde;es maduras para os problemas que confrontam o velho continente. </p>         <p>Os conflitos nas ruas de Londres, Atenas e Paris nos &uacute;ltimos anos simbolizam essa auto-imola&ccedil;&atilde;o da raz&atilde;o iluminista –, isto &eacute;, do projecto civilizacional ateniense no seu todo – como uma paz tecnocrata e tecnol&oacute;gica, pretensamente aut&oacute;noma e imune, secular e sem esp&iacute;rito, capaz de dispensar as no&ccedil;&otilde;es de amor e de solidariedade judaico-crist&atilde;s e, como tal, procurando subjugar a longevidade da integra&ccedil;&atilde;o europeia ao sucesso da paz liberal do capitalismo germ&acirc;nico e da sua afirma&ccedil;&atilde;o, enquanto Estado/bloco econ&oacute;mico continental no sistema internacional das grandes pot&ecirc;ncias. &Eacute; neste contexto que o projecto liberal pode agora ser visto como o objectivo da paz pol&iacute;tica, donde a caracteriza&ccedil;&atilde;o da actual ordem europeia neste artigo como configurando uma paz germ&acirc;nica onde o fim da constru&ccedil;&atilde;o de uma comunidade de cidad&atilde;os europeus assente numa sociedade civil plural e cr&iacute;tica, &eacute; anteposto ao fim econ&oacute;mico, agora celebrado <i>politicamente</i> no seu poder neutralizador da guerra e potenciador do bem-estar material como fim &uacute;ltimo da pol&iacute;tica. </p>     <p>Valha-nos portanto o estado actual de crise de identidade(s) europeia(s) para nos lembrarmos que nem sempre – ali&aacute;s quase nunca – podemos escolher o que sentimos;    e que s&atilde;o os len&ccedil;&oacute;is fre&aacute;ticos do nosso subconsciente emocional que cortam com as racionalidades estabelecidas da paz e da guerra, for&ccedil;ando sobre n&oacute;s disposi&ccedil;&otilde;es agenciais que desconhec&iacute;amos e que, n&atilde;o podendo racionalizar ou institucionalizar por completo, podem despertar formas de sociabilidade que as f&oacute;rmulas institucionais e legais do passado ainda n&atilde;o exauriram. Por quanto tempo mais poder&aacute; o modelo liberal ancorar-se &uacute;nica e exclusivamente na mem&oacute;ria do que o seu colapso hist&oacute;rico provocou? </p>       <p>&nbsp;</p>           <p><b>NOTAS</b></p>           <!-- ref --><p><a name="1"></a><a href="#top1"><sup>1</sup></a> NIEBUHR, Reinhold – <i>Pious and Secular America</i>. Nova York: Wipf &amp; Stock, 2001 (original de 1958),    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S1645-9199201100040000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p><a name="2"></a><a href="#top2"><sup>2</sup></a> AUDEN, W. H. – <i>The Age of Anxiety: A Baroque Eclogue</i>. Nova J&eacute;rsia: Princeton University Press, 2011, p. 46 (original de 1937).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S1645-9199201100040000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="3"></a><a href="#top3"><sup>3</sup></a> ARENDT, Hannah – <i>On Violence</i>. Nova York: Harvest Book, 1969, p. 9.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S1645-9199201100040000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="4"></a><a href="#top4"><sup>4</sup></a> SCHMITT, Carl – &laquo;The age of depoliticizations and neutralizations&raquo;, In <i>The Concept of the Political</i>. Chicago: University of Chicago Press, 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S1645-9199201100040000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> As cita&ccedil;&otilde;es que constam deste artigo foram traduzidas por mim directamente do ingl&ecirc;s.</p>     <!-- ref --><p><a name="5"></a><a href="#top5"><sup>5</sup></a> LEVINAS, Emmanuel – <i>Alterit&eacute; et Transcendence</i>. Paris: Fata Morgana, 1995 (original de 1984).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S1645-9199201100040000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> As cita&ccedil;&otilde;es que constam deste artigo foram traduzidas por mim directamente do franc&ecirc;s.</p>     <!-- ref --><p><a name="6"></a><a href="#top6"><sup>6</sup></a> SCHMITT, Carl – &laquo;The age of depoliticizations and neutralizations&raquo;, p. 80.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S1645-9199201100040000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="7"></a><a href="#top7"><sup>7</sup></a> KOSELLECK, Reinhart – <i>Futures Past</i>. Nova York: Columbia University Press, 2004, p. 191.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S1645-9199201100040000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="8"></a><a href="#top8"><sup>8</sup></a> SCHMITT, Carl – &laquo;The age of depoliticizations and neutralizations&raquo;, p. 80.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S1645-9199201100040000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="9"></a><a href="#top9"><sup>9</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>     <!-- ref --><p><a name="10"></a><a href="#top10"><sup>10</sup></a> BOTWINICK, Aryeh – &laquo;Same/Other versus Friend/Enemy: Levinas contra Schmitt&raquo;. In <i>Telos</i>. N.&ordm; 132, Outubro de 2005, p. 53.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S1645-9199201100040000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="11"></a><a href="#top11"><sup>11</sup></a> SCHMITT, Carl – &laquo;The age of depoliticizations and neutralizations&raquo;, p. 80.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S1645-9199201100040000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="12"></a><a href="#top12"><sup>12</sup></a> SOUSA, Teresa de – Entrevista a Jean-Claude Juncker. In <i>P&uacute;blico</i>, 14 de Novembro de 2011, p. 6.</p>     <!-- ref --><p><a name="13"></a><a href="#top13"><sup>13</sup></a> SCHMITT, Carl – &laquo;The age of depoliticizations and neutralizations&raquo;, p. 92.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S1645-9199201100040000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="14"></a><a href="#top14"><sup>14</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><a name="15"></a><a href="#top15"><sup>15</sup></a> FERNANDES, Jorge Almeida – &laquo;N&atilde;o &eacute; a tecnocracia, &eacute; a pol&iacute;tica&raquo;. In <i>P&uacute;blico</i>, 19 de Novembro de 2011, p. 10.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S1645-9199201100040000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="16"></a><a href="#top16"><sup>16</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>     <!-- ref --><p><a name="17"></a><a href="#top17"><sup>17</sup></a> SCHMITT, Carl – &laquo;The age of depoliticizations and neutralizations&raquo;, p. 89.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000146&pid=S1645-9199201100040000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="18"></a><a href="#top18"><sup>18</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 90.</p>     <p><a name="19"></a><a href="#top19"><sup>19</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 91.</p>     <!-- ref --><p><a name="20"></a><a href="#top20"><sup>20</sup></a> OGOUGBE, Abert Dossa – <i>Modernit&eacute; et Christianisme</i>. Paris: L’Harmattan, 2010, pp. 100-101.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000150&pid=S1645-9199201100040000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="21"></a><a href="#top21"><sup>21</sup></a> Para uma introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; tem&aacute;tica da europeiza&ccedil;&atilde;o do Estado alem&atilde;o ver DAHENHARDT, Patr&iacute;cia – &laquo;Germany in the European Union&raquo;. In WONG, Reuben, e Hill, Christopher – <i>National and European Foreign Policies</i>. Londres: Routledge, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S1645-9199201100040000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="22"></a><a href="#top22"><sup>22</sup></a> WEBER, Max – <i>The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism</i>. Nova York: Dover Publications, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S1645-9199201100040000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="23"></a><a href="#top23"><sup>23</sup></a> HABERMAS, J&uuml;rgen, – <i>The Philosophical Discourse of Modernity</i>. Cambridge: Polity Press, 1990.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000156&pid=S1645-9199201100040000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="24"></a><a href="#top24"><sup>24</sup></a> STRAUSS, Leo – &laquo;Notes on Carl Schmitt. The concept of the political&raquo;. In SCHMITT, Carl – <i>The Concept of the Political</i>. Chicago: University of Chicago Press, 2007, p. 106.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000158&pid=S1645-9199201100040000700018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p><a name="25"></a><a href="#top25"><sup>25</sup></a> ELIAS, Norbert – <i>The Civilizing Process</i>. Oxford: Blackwell Publishers, 1994, p. 198, (original de 1939).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000160&pid=S1645-9199201100040000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="26"></a><a href="#top26"><sup>26</sup></a> HOBBES, Thomas – <i>The Leviathan</i>, Cambridge: Cambridge University Press, 1996, p. 76.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000162&pid=S1645-9199201100040000700020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="27" id="27"></a><a href="#top27"><sup>27</sup></a> HABERMAS, J&uuml;rgen, <i>The Postnational Constellation</i>. Cambridge: MIT Press, 2001, p. 131.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000164&pid=S1645-9199201100040000700021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="28" id="28"></a><a href="#top28"><sup>28</sup></a> HOBBES, Thomas –<i> The Leviathan</i>, p. 76.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000166&pid=S1645-9199201100040000700022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="29"></a><a href="#top29"><sup>29</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 90.</p>     <p><a name="30"></a><a href="#top30"><sup>30</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>     <p><a name="31"></a><a href="#top31"><sup>31</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>     <p><a name="32"></a><a href="#top32"><sup>32</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 76.</p>     <!-- ref --><p><a name="33"></a><a href="#top33"><sup>33</sup></a> VOEGELIN, Eric – <i>The World of the Polis</i>. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1957.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000172&pid=S1645-9199201100040000700023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Ver ainda, a este respeito, o excelente artigo de SYSE, Heinrik – &laquo;Karl Lowith and Eric&nbsp;Voegelin&nbsp;on Christianity and history&raquo;. In <i>Modern Age</i>, 2000. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.mmisi.org/ma/42_03/syse.pdf " target="_blank">http://www.mmisi.org/ma/42_03/syse.pdf </a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000173&pid=S1645-9199201100040000700024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><a name="34"></a><a href="#top34"><sup>34</sup></a> Levinas, Emmanuel – <i>Alterit&eacute; et Transcendence</i>, p.139.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000174&pid=S1645-9199201100040000700025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p><a name="35" id="35"></a><a href="#top35"><sup>35</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 140.</p>     <p><a name="36"></a><a href="#top36"><sup>36</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 138.</p>     <p><a name="37"></a><a href="#top37"><sup>37</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 141.</p>     <p><a name="38"></a><a href="#top38"><sup>38</sup></a> An&uacute;ncio da marca Hugo Boss, &laquo;Just Different&raquo;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=IiRG7SjZeBw" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=IiRG7SjZeBw</a> </p>     <!-- ref --><p><a name="39"></a><a href="#top39"><sup>39</sup></a> SYSE, Heinrik – &laquo;Karl Lowith and Eric&nbsp;Voegelin&nbsp;on Christianity and history&raquo;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000180&pid=S1645-9199201100040000700026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</p>     <!-- ref --><p><a name="40"></a><a href="#top40"><sup>40</sup></a> LEVINAS, Emmanuel – <i>Alterit&eacute; et Transcendence</i>, pp. 136-137.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000182&pid=S1645-9199201100040000700027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="41"></a><a href="#top41"><sup>41</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 136.</p>     <!-- ref --><p><a name="42"></a><a href="#top42"><sup>42</sup></a> CAYGILL, Howard – <i>Levinas and the Political</i>. Routledge: Londres, 2002, p. 121.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000185&pid=S1645-9199201100040000700028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="43"></a><a href="#top43"><sup>43</sup></a> LEVINAS, Emmanuel – <i>Alterit&eacute; et Transcendence</i>, p. 141.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000187&pid=S1645-9199201100040000700029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="44"></a><a href="#top44"><sup>44</sup></a> <i>Ibidem</i>, pp. 137-138.</p>     <!-- ref --><p><a name="45"></a><a href="#top45"><sup>45</sup></a> HOBBES, Thomas – <i>The Leviathan</i>,          pp. 91-92.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000190&pid=S1645-9199201100040000700030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><a name="46"></a><a href="#top46"><sup>46</sup></a> <i>Ibidem</i>, p. 90.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><a name="47"></a><a href="#top47"><sup>47</sup></a> KOSELLECK, Reinhart – <i>Futures Past</i>, pp. 255-275.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000193&pid=S1645-9199201100040000700031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="48"></a><a href="#top48"><sup>48</sup></a> HEIDEGGER, Martin – <i>Being and Time</i>. Oxford: Wiley-Blackwell, 1978, p. 237 (original de 1927).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000195&pid=S1645-9199201100040000700032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><a name="49"></a><a href="#top49"><sup>49</sup></a> LEVINAS, Emmanuel – <i>Alterit&eacute; et Transcendence</i>, p. 138.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000197&pid=S1645-9199201100040000700033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body><back>
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