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</front><body><![CDATA[ <p><b>20 anos de desintegra&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica em retrospetiva. Hist&oacute;rias em primeira pessoa</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lic&iacute;nia Sim&atilde;o</b></p>     <p>Professora auxiliar convidada em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais na Universidade da Beira Interior e investigadora e p&oacute;s-doutoranda do Centro de Estudos Sociais. Em 2007 foi investigadora convidada do Centre for European Policy Studies (ceps), em Bruxelas, e em 2010 foi professora e investigadora convidada da Academia da osce, em Bisqueque, no Quirguist&atilde;o. As suas publica&ccedil;&otilde;es incluem, entre outras, Engaging Civil Society in the Nagorno Karabakh Conflict: What Role for the eu and its Neighbourhood Policy? (Microcon, 2010) e &laquo;Portuguese and Spanish relations with Moscow: contributions from the eu’s periphery to the cfsp&raquo; (Journal of Contemporary European Studies, 2011).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Laurence S. Sheets</p>     <p><b><i>Eight Pieces of Empire</i></b></p>     <p>Nova York, Crown Publishing, 2011, 318 p&aacute;ginas</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Laurence Sheets viveu na Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica (e nas rep&uacute;blicas independentes que dela emergiram), entre 1989 e 2008. Primeiro como estudante de l&iacute;ngua russa em S&atilde;o Petersburgo (ent&atilde;o Leninegrado) e depois como correspondente da Reuters no C&aacute;ucaso e como correspondente em Moscovo para a National Public Radio. Este enquadramento profissional do autor &eacute; fundamental para perceber o tipo de narrativa desta obra e a perspetiva que ela nos traz sobre os momentos finais da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e os vinte anos que se seguiram. O autor n&atilde;o &eacute; um acad&eacute;mico e esta obra n&atilde;o tem pretens&otilde;es de ser uma an&aacute;lise te&oacute;rica deste processo de desintegra&ccedil;&atilde;o violenta. Pelo contr&aacute;rio, o que Sheets faz &eacute; apresentar-nos, de uma forma profundamente humana, a hist&oacute;ria do fim da urss e os processos de ajustamento ao fim do imp&eacute;rio sovi&eacute;tico e &agrave; nova realidade de uma independ&ecirc;ncia convulsa. Como o pr&oacute;prio autor reconhece, &laquo;as vidas pessoais e as situa&ccedil;&otilde;es explosivas que foram afetadas pela fragmenta&ccedil;&atilde;o [do imp&eacute;rio] s&atilde;o o objeto central deste livro&raquo; (p. xv).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A obra est&aacute; dividida em oito cap&iacute;tulos, apresentando fragmentos da desintegra&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio. O primeiro &eacute; dedicado a Leninegrado, entre 1989-1991, e mostra-nos o impacto da abertura da urss e do desmoronar dos sistemas de controlo e prote&ccedil;&atilde;o social (os problemas de alcoolismo nos homens e o regresso da religi&atilde;o para as mulheres). O segundo trata o deflagrar das guerras separatistas na Ge&oacute;rgia (1992-1996). O terceiro e o quarto lidam com o conflito de Nagorno-Karabakh (1993-1996) e a primeira e a segunda guerra na Tchech&eacute;nia (1993-2004), respetivamente. O cap&iacute;tulo cinco &eacute; dedicado &agrave; R&uacute;ssia. Centra-se na quest&atilde;o da fam&iacute;lia Romanov e nas rela&ccedil;&otilde;es entre os servi&ccedil;os secretos, kgb (agora fsb), e a Igreja Ortodoxa. O sexto cap&iacute;tulo &eacute; dedicado ao Uzbequist&atilde;o e &agrave; guerra no Afeganist&atilde;o, no contexto da luta contra o terrorismo. O s&eacute;timo &eacute; dedicado &agrave;s revolu&ccedil;&otilde;es coloridas e &agrave; trag&eacute;dia de Beslan, bem como a outras hist&oacute;rias avulsas sobre a vida no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico. E o &uacute;ltimo cap&iacute;tulo completa a viagem do livro (e do autor) fazendo-o regressar a S&atilde;o Petersburgo, onde tudo come&ccedil;ou.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>HIST&Oacute;RIAS NA PRIMEIRA PESSOA</b></p>     <p>A mais-valia desta obra &eacute; exatamente a narrativa na primeira pessoa. Sheets escreve sobre as situa&ccedil;&otilde;es que acompanhou como estudante e como rep&oacute;rter, deixando os enquadramentos hist&oacute;ricos dos acontecimentos num m&iacute;nimo absoluto. Ali&aacute;s, este pode ser um obst&aacute;culo a uma compreens&atilde;o mais ampla dos processos de desintegra&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio, ainda em marcha, para aqueles que n&atilde;o acompanhem com regularidade a regi&atilde;o. Para os que o fazem, este livro acrescenta detalhe e colorido aos &uacute;ltimos vinte anos de hist&oacute;ria no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico. Em alguns momentos o livro mostra-nos um lado mais humano e menos conhecido desta hist&oacute;ria. Atrav&eacute;s da hist&oacute;ria de Vova, o racketeer, cuja adapta&ccedil;&atilde;o ao fim do controlo absoluto do partido &agrave; vida econ&oacute;mica da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e a corrup&ccedil;&atilde;o rompante que acompanhou os &uacute;ltimos anos da urss, o levou a procurar lucros f&aacute;ceis no submundo do crime organizado. O relativismo moral que acompanhou o colapso da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica &eacute; frequentemente esquecido e a condena&ccedil;&atilde;o destas pr&aacute;ticas tornou-se &oacute;bvia segundo os padr&otilde;es do Estado de direito ocidental. Contudo, no per&iacute;odo de grande incerteza e abertura, entre 1989 e 1991, a necessidade de sobreviver e a possibilidade de prosperar tornou-se uma justifica&ccedil;&atilde;o forte para operar &agrave; margem da lei da na&ccedil;&atilde;o. Sheets coloca esta tens&atilde;o da seguinte forma: &laquo;o eclipse do imp&eacute;rio sovi&eacute;tico refletiu-se num espelho torto, onde a escurid&atilde;o fez sombra &agrave; luz, o para&iacute;so era uma fraude – e o inferno era vis&iacute;vel em todo o lado&raquo; (p. 44).</p>     <p>Outros exemplos abundam. A hist&oacute;ria da &laquo;guerra que ningu&eacute;m come&ccedil;ou&raquo;, entre a Abc&aacute;sia e a Ge&oacute;rgia, em que Sheets acompanha a descida de uma das rep&uacute;blicas mais pr&oacute;speras da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica numa espiral de viol&ecirc;ncia e destrui&ccedil;&atilde;o que tornou a Ge&oacute;rgia num Estado falhado durante a d&eacute;cada de 1990. O autor &eacute; particularmente sens&iacute;vel ao papel de Shevardnadze, &laquo;o senhor que terminou a Guerra Fria&raquo;, neste processo. Ao acompanhar os &uacute;ltimos dias antes de as for&ccedil;as abc&aacute;ses tomarem Sukhumi, Laurence Sheets descreve-nos uma s&eacute;rie de perspetivas justapostas e por vezes incongruentes (refletindo a pr&oacute;pria realidade desta guerra): Shevardnadze apelando aos georgianos para que sigam para a frente de guerra, os jornalistas que, n&atilde;o conseguindo reportar o que veem por falta de comunica&ccedil;&atilde;o com o exterior, ficam servindo de testemunhas de uma guerra total. Ao mesmo tempo, o mundo est&aacute; absorto na realidade do colapso s&uacute;bito da urss e ainda n&atilde;o se mentalizou para a necessidade de gerir estes conflitos (ainda hoje parece n&atilde;o o ter feito).</p>     <p>O outro exemplo mais forte da profunda humanidade desta narrativa &eacute; a cobertura da Guerra da  Tchech&eacute;nia e da devasta&ccedil;&atilde;o total da vida nesta rep&uacute;blica do C&aacute;ucaso do Norte.  Sheets acompanha-nos ao longo do escalar da luta separatista da Tchech&eacute;nia e a emerg&ecirc;ncia do comandante  Shamil Basaev e das suas t&aacute;ticas radicais violentas, envolvendo a tomada de ref&eacute;ns e exigindo que Moscovo  reconhecesse a independ&ecirc;ncia tchechena (anos mais tarde, em 2004, Sheets vai reportar sobre a tomada de  ref&eacute;ns em Beslan, num momento que o autor reconhece ter sido pessoalmente muito dif&iacute;cil de gerir e que  contribuiu em muito para a decis&atilde;o de terminar a sua atividade como jornalista. Sheets &eacute; hoje o  respons&aacute;vel do International Crisis Group pelo C&aacute;ucaso do Sul). A sua descri&ccedil;&atilde;o dos  acontecimentos na Tchech&eacute;nia (e nos outros conflitos que foi acompanhando) serve para despoletar uma  reflex&atilde;o sobre o papel dos jornalistas e a sua seguran&ccedil;a nestes contextos de viol&ecirc;ncia  generalizada. Segundo o Comit&eacute; para a Prote&ccedil;&atilde;o dos Jornalistas<sup>1</sup>, entre 1992 e 2012, a R&uacute;ssia esteve sempre no top 10 dos pa&iacute;ses onde morrem mais jornalistas, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de 1992, 1997 e 2010, com mais de 80 jornalistas a perderem a vida, neste per&iacute;odo.A R&uacute;ssia &eacute; tamb&eacute;m o terceiro pa&iacute;s onde morreram mais jornalistas em situa&ccedil;&otilde;es de combate ou devido a fogo cruzado, no mesmo per&iacute;odo de tempo, com 12 jornalistas a perderem a vida nesta situa&ccedil;&atilde;o. Em 1995, ano em que a primeira guerra da Tchech&eacute;nia estava em plena for&ccedil;a (1994-1996), morreram cinco jornalistas na R&uacute;ssia em situa&ccedil;&otilde;es de combate. Muitos dos companheiros de trabalho de Sheets acabariam por perder a vida em miss&otilde;es noutros conflitos, numa am&aacute;lgama entre o cumprimento do dever e lux&uacute;ria pela adrenalina do trabalho em contextos de a&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>TERRORISMO E A GUERRA NO AFEGANIST&Atilde;O</b></p>     <p>O livro aborda ainda a guerra contra o terrorismo e o in&iacute;cio do conflito no Afeganist&atilde;o. O impacto da presen&ccedil;a norte-americana na &Aacute;sia Central, contudo, &eacute; limitado ao caso uzbeque e o autor n&atilde;o trata as restantes ex-rep&uacute;blicas, o que acaba por ser redutor da realidade social desta regi&atilde;o. Para al&eacute;m das descri&ccedil;&otilde;es da pr&aacute;tica de tortura pelo regime uzbeque do Presidente Islam Karimov, Sheets concentra-se no conflito afeg&atilde;o e a sua narrativa acaba por perder de vista as personagens &uacute;nicas que o acompanharam no in&iacute;cio do livro. A sua abordagem do conflito de Nagorno-Karabakh, entre a Arm&eacute;nia e o Azerbaij&atilde;o acaba por ser tamb&eacute;m mais superficial do que a da Ge&oacute;rgia e dos conflitos no C&aacute;ucaso do Norte. Um apontamento relevante &eacute; a quest&atilde;o da &laquo;democracia oriental&raquo;, que ganhou for&ccedil;a no discurso popular do Azerbaij&atilde;o, no per&iacute;odo da guerra e ainda hoje se faz sentir. A descida da regi&atilde;o numa espiral de anarquia – em vez da democracia ocidental prometida – levou a que muitos vissem a possibilidade de estabelecimento de uma forma tempor&aacute;ria de autocracia benevolente, liderada por uma figura paternal, &laquo;como um passo necess&aacute;rio para estabelecer lei e ordem&raquo; (p. 146). Esta &eacute;, ali&aacute;s, uma ideia que se tornou popular tamb&eacute;m na &Aacute;sia Central, mas que nos &uacute;ltimos anos foi abandonada, dando lugar a regimes autorit&aacute;rios, onde as pretens&otilde;es de serem vistos como democracias s&atilde;o bastante limitadas (com a honrosa exce&ccedil;&atilde;o do Quirguist&atilde;o, hoje uma rep&uacute;blica parlamentar, a &uacute;nica na regi&atilde;o). Eight Pieces of Empire &eacute; um livro bem informado sobre a realidade p&oacute;s-sovi&eacute;tica, escrito por algu&eacute;m que viveu de perto estes &uacute;ltimos vinte anos e que continua a faz&ecirc;-lo. Estas perspetivas s&atilde;o particularmente relevantes para nos ajudar a completar o puzzle da fragmenta&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o sovi&eacute;tico, mas s&atilde;o destorcidas pela pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia emotiva do narrador. O livro deve ser lido a partir desse pressuposto. Por outro lado, ao ser escrito a partir de uma s&eacute;rie de experi&ecirc;ncias no terreno, na sua maioria a acompanhar os conflitos que deflagraram na regi&atilde;o, h&aacute; outros aspetos da realidade p&oacute;s-sovi&eacute;tica que n&atilde;o s&atilde;o inclu&iacute;dos. O livro faz contudo um esfor&ccedil;o bem conseguido para ser mais do que uma cr&oacute;nica de guerra. Abre a porta aos processos pol&iacute;ticos das revolu&ccedil;&otilde;es coloridas (centrando a sua an&aacute;lise no caso da Ge&oacute;rgia e na sa&iacute;da de cena de Shevardnadze), &agrave; exist&ecirc;ncia dif&iacute;cil dos muitos povos que comp&otilde;em o imp&eacute;rio (os pastores de renas na ilha de Sakhalin) ou aos desafios da vida em Chernobil.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup>1</Sup> Committe to Protect Journalists. [Consultado em: 14 de fevereiro de 2012]. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://cpj.org/killed/1995/in-combat.php" target="_blank">http://cpj.org/killed/1995/in-combat.php</a>.</p>      ]]></body>
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