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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Balanço da política externa de Dilma Rousseff: perspectivas futuras?]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Dilma Rousseff’s government inherited clearly defined foreign policy strategies from her political party predecessor: a revisionary approach to international institutions, an active stance in multilateral forums as a representative of southern countries, and an orientation towards the South American dimension. The autonomist group remains holding key posts in the Foreign Ministry, and the developmentalist tendencies have been reinforced. However, this article argues that despite the continuities, the Brazilian behaviour has experienced changes and a visible reduction of its international activism. These changes have been affected by the international and the domestic economic scenarios and by the new foreign policymakers’ dynamic.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>POT&Ecirc;NCIAS EMERGENTES E DEMOCRACIA</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Balan&ccedil;o da pol&iacute;tica externa de Dilma Rousseff: perspectivas futuras?</b></p>      <p><b>Dilma Rousseff&rsquo;s foreign policy assessment: what next?</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Miriam Gomes Saraiva</b></p>      <p>Professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no programa de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, e investigadora do CNPQ. Foi Visiting Fellow de p&oacute;s-doutoramento no Instituto Universit&aacute;rio Europeu em Floren&ccedil;a entre 2002 e 2003, e teve a c&aacute;tedra Rio Branco em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais na Universidade de Oxford em 2013.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO</b></p>      <p>O governo de Dilma Rousseff herdou de seu predecessor, do mesmo partido, estrat&eacute;gias definidas de pol&iacute;tica externa: a trajet&oacute;ria revisionista das institui&ccedil;&otilde;es internacionais, uma atua&ccedil;&atilde;o ativa em f&oacute;runs multilaterais colocando-se como representante dos pa&iacute;ses do Sul, e uma orienta&ccedil;&atilde;o proativa para a dimens&atilde;o sul-americana. O grupo dos autonomistas seguiu ocupando cargos-chave no Minist&eacute;rio de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores, e as tend&ecirc;ncias desenvolvimentistas foram refor&ccedil;adas. O artigo defende que, apesar das continuidades, o comportamento brasileiro experimentou mudan&ccedil;as e uma vis&iacute;vel redu&ccedil;&atilde;o no ativismo internacional. Essa mudan&ccedil;a sofreu influ&ecirc;ncia da conjuntura econ&ocirc;mica internacional interna, assim como da nova din&acirc;mica do processo decis&oacute;rio.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b><i>: </i>Uni&atilde;o Europeia, crise econ&oacute;mica, federalismo, Portugal.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT</b></p>      <p>Dilma Rousseff&rsquo;s government inherited clearly defined foreign policy strategies from her political party predecessor: a revisionary approach to international institutions, an active stance in multilateral forums as a representative of southern countries, and an orientation towards the South American dimension. The autonomist group remains holding key posts in the Foreign Ministry, and the developmentalist tendencies have been reinforced. However, this article argues that despite the continuities, the Brazilian behaviour has experienced changes and a visible reduction of its international activism. These changes have been affected by the international and the domestic economic scenarios and by the new foreign policymakers&rsquo; dynamic.</p>      <p><b>Keywords: </b>Brazil, Dilma Rousseff, 2014 Presidential Elections, Emerging Powers.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O governo de Dilma Rousseff, desde 2011, herdou do governo de Lula da Silva (2003-2010), do mesmo partido &ndash; o Partido dos Trabalhadores (pt) &ndash;, estrat&eacute;gias definidas de pol&iacute;tica externa: uma trajet&oacute;ria revisionista das institui&ccedil;&otilde;es internacionais, uma atua&ccedil;&atilde;o ativa em f&oacute;runs multilaterais colocando-se como representante dos pa&iacute;ses do Sul global, e uma orienta&ccedil;&atilde;o proativa para a dimens&atilde;o sul-americana. Essas estrat&eacute;gias se materializavam em um intricado de diferentes coaliz&otilde;es internacionais e mecanismos de intera&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;tica externa. A corrente pol&iacute;tica no interior do Itamaraty que havia predominado durante o governo de Lula, os autonomistas, seguiu nas principais posi&ccedil;&otilde;es do minist&eacute;rio, e a variedade de outras ag&ecirc;ncias de governo envolvidas na pol&iacute;tica externa, conquistada durante o governo de Lula, se manteve<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. A tend&ecirc;ncia desenvolvimentista foi refor&ccedil;ada.</p>      <p>Mas, embora as estrat&eacute;gias e vis&otilde;es de mundo tenham seguido formalmente em vigor, assim como os <i>policymakers </i>da pol&iacute;tica externa, o comportamento brasileiro experimentou mudan&ccedil;as e uma vis&iacute;vel redu&ccedil;&atilde;o na proatividade. O Brasil foi perdendo protagonismo da pol&iacute;tica global e seus movimentos assumiram um car&aacute;ter reativo. Essa mudan&ccedil;a sofreu influ&ecirc;ncia da conjuntura econ&ocirc;mica internacional e da situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica interna, assim como da nova din&acirc;mica do processo decis&oacute;rio.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>AS CONJUNTURAS ECON&Ocirc;MICAS INTERNA E INTERNACIONAL</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os cen&aacute;rios internacional e nacional enfrentados pelo governo de Dilma Rousseff foram mais &aacute;ridos que os que enfrentou o governo anterior. Durante o per&iacute;odo a crise econ&oacute;mica deu lugar &agrave; recupera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica norte-americana e, progressivamente, ao controle da crise por parte da zona euro. Essa mudan&ccedil;a refor&ccedil;ou a centralidade do G7 e reduziu os espa&ccedil;os de atua&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses emergentes no interior do G20 financeiro. A incapacidade da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (omc) de levar a cabo a Rodada Doha marcou a agenda do com&eacute;rcio internacional, e os avan&ccedil;os em termos da forma&ccedil;&atilde;o de grandes blocos de livre com&eacute;rcio junto com o desenvolvimento da &aacute;rea &Aacute;sia-Pac&iacute;fico a partir de acordos coletivos e bilaterais dificultaram a inser&ccedil;&atilde;o do Brasil na economia internacional<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>      <p>A ascens&atilde;o da China introduziu um novo elemento de desequil&iacute;brio e ainda se delineia o impacto que ter&aacute; na ordem econ&ocirc;mica internacional. A bonan&ccedil;a dos altos pre&ccedil;os dos <i>commodities </i>exportados pelo Brasil recuou.</p>      <p>Na Am&eacute;rica do Sul, o Governo norte-americano seguiu sem uma pol&iacute;tica externa estruturada para a regi&atilde;o, mas o manejo dos fortes tra&ccedil;os de assimetria e diverg&ecirc;ncias no interior da regi&atilde;o em termos de vis&otilde;es sobre a pol&iacute;tica e pol&iacute;ticas macroecon&ocirc;micas tornou-se mais dif&iacute;cil.</p>      <p>Em termos pol&iacute;ticos, embora o multilateralismo tradicional de base ocidental estivesse em crise, os emergentes n&atilde;o conseguiram estabelecer uma agenda para a pol&iacute;tica global. As crises da S&iacute;ria e, particularmente, da Ucr&acirc;nia &laquo;restauraram a agenda das grandes pot&ecirc;ncias em detrimento dos pa&iacute;ses emergentes&raquo;<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.</p>      <p>O cen&aacute;rio econ&ocirc;mico interno sofreu mais profundamente os impactos da crise financeira internacional, que comprometeu o balan&ccedil;o de pagamentos. A m&eacute;dia de crescimento do pib foi menor que a do governo de Lula e que as m&eacute;dias de crescimento de outros pa&iacute;ses emergentes. A previs&atilde;o para 2014 &eacute; que o crescimento fique abaixo de um por cento. A taxa de emprego foi mantida, mas o coeficiente gini n&atilde;o sofreu altera&ccedil;&otilde;es relevantes. As contas internas ficaram fora do controle e a infla&ccedil;&atilde;o chegou perto do limite estabelecido pelo Governo. O projeto desenvolvimentista brasileiro de alavancar obras de infraestrutura no Brasil e na Am&eacute;rica do Sul (nesse caso com recursos do Bndes<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>), assim como as empresas brasileiras que come&ccedil;aram a se internacionalizar durante o per&iacute;odo de Lula, foi mantido, mas sofreu com a dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e diversas iniciativas n&atilde;o foram conclu&iacute;das. A conjuntura econ&ocirc;mica teve impacto no campo pol&iacute;tico: a reelei&ccedil;&atilde;o foi poss&iacute;vel, mas depois de uma campanha eleitoral que mobilizou e dividiu o pa&iacute;s.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>NOVA DIN&Acirc;MICA DO PROCESSO DECIS&Oacute;RIO</b></p>      <p>Desde o in&iacute;cio de seu governo, a Presidente Dilma Rousseff manteve o grupo dos autonomistas em postos-chave no Itamaraty. A assessoria da Presid&ecirc;ncia em assuntos internacionais de um importante l&iacute;der do Partido dos Trabalhadores &ndash; Marco Aur&eacute;lio Garcia &ndash; tamb&eacute;m foi mantida. O primeiro chanceler, Antonio Patriota, terminou o governo de Lula como secret&aacute;rio-geral do Itamaraty. Na passagem do mandato parecia, ent&atilde;o, que n&atilde;o haveria mudan&ccedil;as no processo decis&oacute;rio.</p>      <p>Mas desde muito cedo as diferen&ccedil;as come&ccedil;aram a se fazer sentir, ampliando-se no decorrer do mandato. A diplomacia presidencial e o papel da Presid&ecirc;ncia como elemento incentivador e equilibrador de diferentes vis&otilde;es de pol&iacute;tica externa, que havia acontecido durante o governo de Lula, foram abandonados. A vontade pol&iacute;tica demonstrada pelo Presidente Lula de articular vis&otilde;es favor&aacute;veis &agrave; proje&ccedil;&atilde;o global do pa&iacute;s e &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma lideran&ccedil;a na regi&atilde;o n&atilde;o teve continuidade. A Presidente Rousseff mostrou sua prefer&ecirc;ncia pela solu&ccedil;&atilde;o dos problemas internos, junto com seu pouco interesse por temas externos, particularmente aqueles que apresentassem ganhos difusos, n&atilde;o tang&iacute;veis em um curto prazo.</p>      <p>Os atores participantes do processo de formula&ccedil;&atilde;o e implementa&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica externa introduzidos no governo de Lula &ndash; lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas, outras ag&ecirc;ncias de governo &ndash; seguiram. Mas pouco a pouco outras ag&ecirc;ncias foram se fazendo respons&aacute;veis por temas t&eacute;cnicos da pol&iacute;tica externa econ&ocirc;mica &ndash; com destaque para as lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas mais pr&oacute;ximas ao desenvolvimentismo &ndash;, assim como a assessoria da presid&ecirc;ncia ocupou-se das crises pol&iacute;ticas na Am&eacute;rica do Sul. O Itamaraty, como defensor de uma pol&iacute;tica externa com ganhos progressivos atrav&eacute;s de um aumento constante da participa&ccedil;&atilde;o do Brasil nos debates de diferentes temas da pol&iacute;tica global, foi perdendo espa&ccedil;os. Segundo Veiga e Rios (2011)<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>, quest&otilde;es econ&ocirc;micas de curto prazo teriam voltado a ocupar um papel central na pol&iacute;tica externa em detrimento de a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas de proje&ccedil;&atilde;o internacional e de um comportamento estrat&eacute;gico mais geral.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A rela&ccedil;&atilde;o entre a Presidente e o Itamaraty foi se deteriorando no decorrer do mandato. O or&ccedil;amento do minist&eacute;rio foi reduzido e o n&uacute;mero de vagas para o concurso para a carreira diplom&aacute;tica passou de 100 (o ponto m&aacute;ximo durante o governo de Lula) para 18, em 2014. A diminui&ccedil;&atilde;o do or&ccedil;amento e do n&uacute;mero de novos diplomatas que entram na carreira apontam para uma redu&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o brasileira de discuss&otilde;es de temas internacionais. Em seu &uacute;ltimo ano de governo a Presidente n&atilde;o recebeu mais credenciais de embaixadores estrangeiros.</p>      <p>Este movimento de recuo atingiu n&atilde;o apenas aqueles diplomatas pr&oacute;ximos da corrente institucionalista, que havia vigorado no &uacute;ltimo governo do psdb e compunha a linha de oposi&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m os autonomistas, que defendem um comportamento proativo na esfera internacional. Segundo Helena Celestino, as cr&iacute;ticas apontariam para um sucateamento do Itamaraty, assim como uma perda de fun&ccedil;&otilde;es<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>O BRASIL NO MULTILATERALISMO</b></p>      <p>Em termos propriamente de pol&iacute;tica externa as mudan&ccedil;as foram progressivas. O primeiro movimento da diplomacia foi de continuidade e, segundo Spektor, a diplomacia de Dilma Rousseff n&atilde;o teria tido uma &laquo;distin&ccedil;&atilde;o conceitual&raquo; da pol&iacute;tica do Presidente Lula<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Mas a redu&ccedil;&atilde;o na diplomacia presidencial afetou a participa&ccedil;&atilde;o proativa do Brasil na pol&iacute;tica global.</p>      <p>Nos marcos do multilateralismo, as posi&ccedil;&otilde;es brasileiras mantiveram continuidade e, portanto, algumas diverg&ecirc;ncias com as pot&ecirc;ncias ocidentais se sucederam. A defesa de um multilateralismo apoiado na ideia de revisar as institui&ccedil;&otilde;es internacionais foi constante. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; defesa dos direitos humanos, apesar do apoio brasileiro a algumas resolu&ccedil;&otilde;es do Conselho de Direitos Humanos das Na&ccedil;&otilde;es Unidas contra o Ir&atilde; e a Coreia do Norte, em pouco tempo a posi&ccedil;&atilde;o brasileira convergiu com as posi&ccedil;&otilde;es de outros parceiros emergentes mantendo a dist&acirc;ncia das posi&ccedil;&otilde;es europeias e norte-americanas. A tens&atilde;o entre a defesa dos direitos humanos e a defesa da soberania dos pa&iacute;ses em situa&ccedil;&otilde;es de crise seguiu presente na agenda da diplomacia brasileira, assim como a prefer&ecirc;ncia por um cen&aacute;rio n&atilde;o hegem&ocirc;nico com poucas regras e um sistema internacional pluralista de estados soberanos. Houve tamb&eacute;m preocupa&ccedil;&otilde;es de resguardar o pa&iacute;s de cr&iacute;ticas por desrespeito aos direitos humanos em situa&ccedil;&otilde;es internas, como o caso do sistema prisional<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>.</p>      <p>Frente a quest&otilde;es relativas &agrave; seguran&ccedil;a internacional, a diplomacia brasileira procurou manter, inicialmente, a estrat&eacute;gia de assumir um papel de lideran&ccedil;a. Sem desprezar o princ&iacute;pio da &laquo;responsabilidade de proteger&raquo;, Dilma Rousseff, no in&iacute;cio de seu mandato e depois da crise na L&iacute;bia, prop&ocirc;s uma ideia correlata, mas diferente &ndash; &laquo;responsabilidade ao proteger&raquo; &ndash; como estrat&eacute;gia mais adequada capaz de garantir a prote&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos em casos de crise. A &laquo;responsabilidade ao proteger&raquo; sugeria que medidas de coer&ccedil;&atilde;o violenta deveriam ser implementadas apenas como &uacute;ltima alternativa e, em caso de interven&ccedil;&atilde;o militar, o Conselho de Seguran&ccedil;a deveria monitorar sua implementa&ccedil;&atilde;o. Essa ideia n&atilde;o teve apoio das pot&ecirc;ncias estabelecidas que defendem que, em situa&ccedil;&otilde;es de crise, &eacute; importante haver flexibilidade para se poder mobilizar diferentes instrumentos de assist&ecirc;ncia e coer&ccedil;&atilde;o (incluindo recursos militares)<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>. Os parceiros do brics<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>tamb&eacute;m n&atilde;o demonstraram apoio expl&iacute;cito, com exce&ccedil;&atilde;o da &Aacute;frica do Sul. Assim, a proposta foi caindo no esquecimento.</p>      <p>Em termos gerais, a posi&ccedil;&atilde;o brasileira adotada durante todo o per&iacute;odo foi de n&atilde;o interven&ccedil;&atilde;o militar e solu&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica de controv&eacute;rsias. Em temas importantes da agenda internacional, houve iniciativas de articula&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es nas Na&ccedil;&otilde;es Unidas com outros pa&iacute;ses emergentes, que se materializaram na converg&ecirc;ncia de votos no Conselho de Seguran&ccedil;a em temas como os enfrentamentos internos na L&iacute;bia e na S&iacute;ria. No caso da Ucr&acirc;nia, mais ao final do mandato, o Governo seguiu a linha dos parceiros do brics e se limitou a propor uma solu&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da diplomacia.</p>      <p>Em discurso de abertura da Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas de 2014, a Presidente refor&ccedil;ou a import&acirc;ncia da n&atilde;o utiliza&ccedil;&atilde;o de instrumentos militares e o refor&ccedil;o do di&aacute;logo em casos de conflito e terrorismo, incluindo indiretamente o caso do Estado Isl&acirc;mico, o que causou protestos tanto nos marcos das Na&ccedil;&otilde;es Unidas quanto de atores da oposi&ccedil;&atilde;o dentro do pa&iacute;s. A posi&ccedil;&atilde;o do Brasil foi que o terrorismo deve ser enfrentado atrav&eacute;s de um di&aacute;logo entre os estados-membros da onu orientando para as suas causas<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>. Em rela&ccedil;&atilde;o a quest&otilde;es ambientais, a ideia da responsabilidade e da afirma&ccedil;&atilde;o ao direito do pa&iacute;s &ndash; e dos pa&iacute;ses emergentes em termos gerais &ndash; ao desenvolvimento foi mantida mas, como em outras &aacute;reas, as iniciativas foram reduzidas. A formula&ccedil;&atilde;o do documento da Rio+20, que teve lugar no Brasil em 2012, n&atilde;o exprimiu uma lideran&ccedil;a brasileira no tema. O texto foi considerado vago por acad&ecirc;micos e cientistas e n&atilde;o redundou em um capital diplom&aacute;tico para o Brasil como havia sido a Confer&ecirc;ncia do Rio 92. A aprova&ccedil;&atilde;o de um novo C&oacute;digo Florestal no Brasil, mais permissivo, junto com o crescimento do desmatamento na Amaz&ocirc;nia, criou obst&aacute;culos para a&ccedil;&otilde;es brasileiras nesse campo. O documento sugerido na c&uacute;pula do clima, em 2014, de combate ao desmatamento, n&atilde;o foi assinado pelo Brasil.</p>      <p>Uma &aacute;rea de atua&ccedil;&atilde;o importante do Brasil nos marcos do multilateralismo foi o trabalho para criar uma governan&ccedil;a global no campo da internet. A iniciativa brasileira contou com o apoio da Alemanha, mas teve que ser flexibilizada para sua aprova&ccedil;&atilde;o. J&aacute; com um perfil mais conciliat&oacute;rio, a Assembbleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas de 2013 aprovou uma resolu&ccedil;&atilde;o sobre o direito &agrave; privacidade na era digital.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No campo do com&eacute;rcio internacional, nas negocia&ccedil;&otilde;es da Rodada Doha, se durante o primeiro mandato de Lula o G20 comercial foi uma iniciativa importante, com Dilma Rousseff as negocia&ccedil;&otilde;es foram marcadas por dificuldades de unificar posi&ccedil;&otilde;es ou manter uma rede s&oacute;lida que pudesse articular os pa&iacute;ses emergentes ou modificar as prefer&ecirc;ncias das pot&ecirc;ncias estabelecidas. O combate contra o protecionismo dos pa&iacute;ses desenvolvidos foi o elemento de converg&ecirc;ncia, mas sem maiores desdobramentos. A grande conquista do Brasil, foi a vit&oacute;ria para o cargo de diretor da omc do diplomata brasileiro Roberto Azevedo. Azevedo contou com votos de diferentes continentes, com destaque para a &Aacute;frica e Am&eacute;rica do Sul.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>AS INICIATIVAS DE MINILATERALISMO &ndash; O IBAS E O BRICS</b></p>      <p>A busca pelo assento permanente do Conselho de Seguran&ccedil;a das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, que havia ocupado um lugar de destaque durante o governo de Lula, n&atilde;o foi deixada de lado, mas perdeu impulso. O F&oacute;rum ibas (&Iacute;ndia, Brasil e &Aacute;frica do Sul) reduziu seu foco de a&ccedil;&atilde;o no tema, apesar das declara&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ricas que defendem a participa&ccedil;&atilde;o de seus membros no Conselho. E o brics, embora tenha avan&ccedil;ado durante o per&iacute;odo no que diz respeito a articula&ccedil;&otilde;es em f&oacute;runs multilaterais (com destaque para quest&otilde;es de seguran&ccedil;a), n&atilde;o formulou uma posi&ccedil;&atilde;o conjunta de apoio &agrave; entrada permanente do Brasil no Conselho de Seguran&ccedil;a; R&uacute;ssia e China n&atilde;o manifestaram claramente o apoio para tal.</p>      <p>A incorpora&ccedil;&atilde;o da &Aacute;frica do Sul ao ent&atilde;o bric limitou as &aacute;reas de atua&ccedil;&atilde;o do ibas, causando uma sobreposi&ccedil;&atilde;o de agendas na qual o primeiro mecanismo se fortaleceu em detrimento do segundo. Para a diplomacia brasileira, as a&ccedil;&otilde;es nos marcos do brics foram consideradas priorit&aacute;rias, enquanto as iniciativas do ibas ficaram restritas ao Fundo IBAS e &agrave; intera&ccedil;&atilde;o entre as respectivas sociedades civis. Em 2013, por falta de empenho da presid&ecirc;ncia brasileira, a c&uacute;pula entre os tr&ecirc;s parceiros n&atilde;o foi realizada. A atua&ccedil;&atilde;o do Brasil no brics, por&eacute;m, foi o foco principal e renovado da pol&iacute;tica de Dilma Rousseff. As c&uacute;pulas ocorreram e foram assinados diversos acordos, embora sempre mantendo uma baixa institucionalidade. Mas foi no campo financeiro que o brics avan&ccedil;ou mais. A cria&ccedil;&atilde;o do banco para financiar iniciativas de desenvolvimento de infraestrutura nos pa&iacute;ses do bloco foi consolidada na c&uacute;pula de 2014, junto com o estabelecimento de mecanismos de coopera&ccedil;&atilde;o entre os respectivos bancos de desenvolvimento nacionais. Foi criado um fundo de apoio aos pa&iacute;ses do bloco caso venham a experimentar dificuldades em seus respectivos balan&ccedil;os de pagamentos.</p>      <p>No interior do G20 financeiro, o Brasil estruturou, junto de seus parceiros do brics, uma coliga&ccedil;&atilde;o que resistiu &agrave;s tentativas das pot&ecirc;ncias ocidentais de introduzir regulamenta&ccedil;&otilde;es para controle do fluxo de capitais. Mas n&atilde;o conseguiram flexibilizar as pot&ecirc;ncias estabelecidas no sentido de implementar decis&otilde;es tomadas referentes a mudan&ccedil;as nas institui&ccedil;&otilde;es financeiras internacionais. A recomposi&ccedil;&atilde;o das economias norte-americana e de parte dos pa&iacute;ses da zona euro reduziu os espa&ccedil;os de manobra dos pa&iacute;ses emergentes nas negocia&ccedil;&otilde;es do Grupo. A presen&ccedil;a da Argentina no Grupo n&atilde;o significou uma atua&ccedil;&atilde;o convergente com um selo Mercosul.</p>      <p>A China, al&eacute;m de membro do brcis, &eacute; um parceiro importante a ser destacado em termos individuais. Em 2009 passou a ser o principal pa&iacute;s parceiro comercial do Brasil e, no ano seguinte, ocupou a posi&ccedil;&atilde;o de maior investidor no pa&iacute;s<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>. Mas &eacute; comprador basicamente de mat&eacute;rias-primas com destaques para <i>commodities</i>, estabelecendo uma rela&ccedil;&atilde;o de estilo Norte-Sul e criando uma depend&ecirc;ncia das exporta&ccedil;&otilde;es brasileiras do mercado chin&ecirc;s. Mas desenvolveram-se tamb&eacute;m parcerias em outras &aacute;reas &ndash; com destaque para a &aacute;rea tecnol&oacute;gica &ndash; e houve uma s&eacute;rie de visitas cruzadas, al&eacute;m dos encontros nos marcos do brics.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>A &laquo;PARCERIA ESTRAT&Eacute;GICA&raquo; COM A UNI&Atilde;O EUROPEIA E A DIF&Iacute;CIL RELA&Ccedil;&Atilde;O COM OS ESTADOS UNIDOS</b></p>      <p>A parceria estrat&eacute;gica assinada durante o governo de Lula com a Uni&atilde;o Europeia (ue) n&atilde;o rendeu frutos significativos durante o per&iacute;odo em an&aacute;lise. Inclu&iacute;a o refor&ccedil;o do multilateralismo e a busca de a&ccedil;&otilde;es conjuntas em temas de direitos humanos, pobreza, quest&otilde;es ambientais. Como raz&otilde;es para esta iniciativa, os formuladores brasileiros identificavam inicialmente a parceria com a ue como instrumento para fortalecer o prest&iacute;gio internacional do pa&iacute;s, junto &agrave; ideia de que a ue e seus estados-membros poderiam ser aliados em uma eventual revis&atilde;o da ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Entretanto, embora tenham se desenvolvido di&aacute;logos bilaterais, frente a temas da agenda global, a parceria n&atilde;o proporcionou resultados relevantes. Em pouco tempo, ficou claro para a diplomacia brasileira que as concep&ccedil;&otilde;es dos dois lados n&atilde;o encontravam muitas converg&ecirc;ncias. No campo bilateral propriamente, o interc&acirc;mbio de acad&ecirc;micos e estudantes foi a &aacute;rea que mais cresceu, recebendo especial aten&ccedil;&atilde;o da Presidente Dilma Rousseff.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A crise financeira da zona euro tamb&eacute;m impactou sobre o potencial de a&ccedil;&otilde;es comuns em f&oacute;runs econ&ocirc;micos internacionais. O papel normativo da ue como modelo econ&ocirc;mico foi posto em xeque, e a capacidade europeia de gerir uma ordem econ&ocirc;mica mundial come&ccedil;ou a ser amea&ccedil;ada por iniciativas alternativas sugeridas por pa&iacute;ses emergentes, incluindo o Brasil. A cria&ccedil;&atilde;o do Banco de Desenvolvimento do brics &eacute; um primeiro exemplo. Nas rela&ccedil;&otilde;es bilaterais do Brasil com estados-membros da ue, a crise limitou as expectativas de um crescimento dos investimentos europeus no pa&iacute;s, que era um dos principais objetivos das tratativas diplom&aacute;ticas com esses pa&iacute;ses.</p>      <p>No que diz respeito &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com os Estados Unidos, a primeira a&ccedil;&atilde;o do governo de Dilma Rousseff foi de aproxima&ccedil;&atilde;o. A Presidente assinou no in&iacute;cio de seu mandato uma parceria com os Estados Unidos junto com o estabelecimento da coopera&ccedil;&atilde;o em v&aacute;rios campos como educa&ccedil;&atilde;o, inclus&atilde;o social, investimentos e com&eacute;rcio, temas ambientais, energia e ci&ecirc;ncia e tecnologia<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>. Mas em 2013 as rela&ccedil;&otilde;es azedaram quando veio &agrave; tona a espionagem da ag&ecirc;ncia norte-americana de seguran&ccedil;a que incluia, dentre seus espionados, a pr&oacute;pria Presidente e empresas brasileiras. Uma reuni&atilde;o de c&uacute;pula prevista para esse ano foi cancelada na espera de um pedido formal de desculpas que nunca veio. A diplomacia norte-americana limitou-se a explica&ccedil;&otilde;es vagas. Houve uma tentativa de agendar uma reuni&atilde;o nos marcos da Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas de 2014, mas que foi cancelada de &uacute;ltima hora. At&eacute; hoje n&atilde;o foi remarcada.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>A COOPERA&Ccedil;&Atilde;O COM A &Aacute;FRICA</b></p>      <p>No campo da coopera&ccedil;&atilde;o com a &Aacute;frica, o governo de Rousseff seguiu a pol&iacute;tica do governo anterior de dedicar-lhe um papel importante, mas com recuo em novas iniciativas e n&atilde;o implementa&ccedil;&atilde;o de assist&ecirc;ncias previstas. Houve redu&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m nos campos do com&eacute;rcio e de investimentos. A prioridade do Governo no que diz respeito &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o Sul-Sul definida no princ&iacute;pio do mandato foi a busca de ganhos imediatos para o desenvolvimento em detrimento de iniciativas de ganhos difusos<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>. A legisla&ccedil;&atilde;o brasileira coloca entraves para envio de recursos ao exterior, tirando a agilidade do processo. Com este perfil, em 2011 o or&ccedil;amento da Ag&ecirc;ncia Brasileira de Coopera&ccedil;&atilde;o recuou limitando a expans&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica.</p>      <p>Por outro lado, Gratius e Grevi assinalam que o Brasil implementou iniciativas nos marcos do ibas, e a c&uacute;pula presidencial do brics de 2013 foi dedicada ao desenvolvimento da coopera&ccedil;&atilde;o e de infraestrutura na &Aacute;frica<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>. A pol&iacute;tica brasileira de coopera&ccedil;&atilde;o seguiu apresentando-se como alternativa ao modelo Norte-Sul, e atendendo ao que a diplomacia brasileira denomina de coopera&ccedil;&atilde;o Sul-Sul, isenta formalmente de condicionalidades.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>A DIMENS&Atilde;O REGIONAL</b></p>      <p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Am&eacute;rica do Sul, Dilma Rousseff procurou manter as estrat&eacute;gias de pol&iacute;tica externa ent&atilde;o em vigor de manuten&ccedil;&atilde;o da estrutura de governan&ccedil;a regional criada e adaptada durante o mandato do Presidente Lula. As afinidades com governos com matizes progressistas, assim como a ideia de transformar a regi&atilde;o em um espa&ccedil;o geopol&iacute;tico separado da Am&eacute;rica Latina foram mantidas<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>. Mas a vontade pol&iacute;tica demonstrada por Lula de articular vis&otilde;es favor&aacute;veis &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma lideran&ccedil;a regional n&atilde;o foi mais sustentada. A ascens&atilde;o de Rousseff esvaziou a dimens&atilde;o pol&iacute;tica do comportamento brasileiro frente &agrave; regi&atilde;o no que diz respeito &agrave;s a&ccedil;&otilde;es do Brasil como ator estruturador das institui&ccedil;&otilde;es regionais e definidor de agendas, embora a UNASUL tenha seguido sendo a refer&ecirc;ncia de atua&ccedil;&atilde;o brasileira frente a situa&ccedil;&otilde;es de crise. A import&acirc;ncia de atores pol&iacute;ticos nesses epis&oacute;dios, com particular destaque para as a&ccedil;&otilde;es de Marco Aur&eacute;lio Garcia, colocou o Governo brasileiro alinhado com governos de tend&ecirc;ncia &agrave; esquerda, embora abaixo das expectativas dos pa&iacute;ses vizinhos<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>.</p>      <p>No caso da crise pol&iacute;tica vivida pela Venezuela, houve um consenso em torno de uma fr&aacute;gil iniciativa que n&atilde;o apresentou resultados. A tradi&ccedil;&atilde;o brasileira de n&atilde;o interven&ccedil;&atilde;o; as dificuldades do Brasil em construir uma lideran&ccedil;a em um tema aonde h&aacute; diverg&ecirc;ncias sobre a melhor forma de governo; o fato de, frente a situa&ccedil;&otilde;es de crise na regi&atilde;o, as lideran&ccedil;as do Partido dos Trabalhadores (pt) terem sido atores importantes do governo; e a falta de interesse da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica em empenhar-se em construir um consenso substantivo, tem dificultado o exerc&iacute;cio, por parte do Brasil, do papel de lideran&ccedil;a.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As iniciativas brasileiras no Conselho de Defesa Sul-Americano (cds), criado por indica&ccedil;&atilde;o do governo de Lula, e em outros comit&ecirc;s da organiza&ccedil;&atilde;o ficaram em compasso de espera. As a&ccedil;&otilde;es brasileiras melhor se conectaram com o desenvolvimentismo, priorizando os v&iacute;nculos bilaterais com pa&iacute;ses vizinhos atrav&eacute;s da coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e financeira, enquanto os investimentos propriamente ditos recuaram no final do mandato<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>. A economia brasileira atravessou um per&iacute;odo dif&iacute;cil e movimentos com vista a arcar com custos da coopera&ccedil;&atilde;o regional n&atilde;o oram vistos com bons olhos pelo Governo. A perspectiva de se construir uma economia de escala n&atilde;o foi implementada.</p>      <p>Como elemento agravante, a combina&ccedil;&atilde;o de expectativas brasileiras de receber apoio na regi&atilde;o &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es globais do pa&iacute;s com a rejei&ccedil;&atilde;o de uma institucionaliza&ccedil;&atilde;o que restringisse a autonomia de a&ccedil;&atilde;o brasileira nos marcos tanto regional quanto internacional aumentou os custos da lideran&ccedil;a brasileira para um patamar que o novo governo n&atilde;o se mostrou disposto a atender. A perspectiva de arcar com custos da coopera&ccedil;&atilde;o regional passou a ser vista com retic&ecirc;ncias pelo novo governo.</p>      <p>A cria&ccedil;&atilde;o da Alian&ccedil;a do Pac&iacute;fico, por sua vez, n&atilde;o foi recebida de forma consensual pela diplomacia brasileira o que favoreceu uma aus&ecirc;ncia de um posicionamento claro por parte do Governo brasileiro. Mas, fora dos discursos oficiais, fomentou um debate sobre a rela&ccedil;&atilde;o de um Mercosul ampliado com os pa&iacute;ses que comp&otilde;em a Alian&ccedil;a do Pac&iacute;fico. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (celac) foi criada em 2010 e come&ccedil;ou a funcionar em 2011, mas sem receber aten&ccedil;&atilde;o dos c&iacute;rculos diplom&aacute;ticos brasileiros. As situa&ccedil;&otilde;es de crise, como o caso do <i>impeachment </i>do Presidente paraguaio, em 2012, e a crise pol&iacute;tica na Venezuela, foram tratadas nos marcos da unasul e a celac n&atilde;o teve um papel relevante. Al&eacute;m de a celac ter maior dificuldade em acomodar as diferen&ccedil;as existentes entre os pa&iacute;ses latino-americanos, a situa&ccedil;&atilde;o da celac e da usanul &eacute; de sobreposi&ccedil;&atilde;o, onde a principal lealdade brasileira se orienta para a Am&eacute;rica do Sul<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>. A parceria estrat&eacute;gica entre a ue e a celac, que &eacute; um instrumento importante do inter-regionalismo europeu, n&atilde;o &eacute; vista como prioridade pelo Brasil: o Brasil buscou um comportamento regional aut&ocirc;nomo; e a parceria estrat&eacute;gica Brasil-UE &eacute; considerada pelos brasileiros como o melhor mecanismo de intera&ccedil;&atilde;o com a ue.</p>      <p>Por fim, apesar dos limites, a rede de institui&ccedil;&otilde;es e padr&otilde;es de comportamento constru&iacute;da no decorrer dos mandatos de Lula n&atilde;o foi posta em xeque e seguiu sendo considerada um instrumento importante no campo da coopera&ccedil;&atilde;o regional e, em caso de crises pol&iacute;ticas, seguiu sendo utilizada como mecanismo de busca de consensos. Os v&iacute;nculos brasileiros com pa&iacute;ses vizinhos est&atilde;o estabelecidos e ramificados por diferentes esferas governamentais dando um car&aacute;ter de longo prazo para as a&ccedil;&otilde;es brasileiras na regi&atilde;o.</p>      <p>No que diz respeito ao Mercosul, a posi&ccedil;&atilde;o adotada durante o governo de Lula foi mantida: n&atilde;o &eacute; prioridade, mas sua defesa &eacute; necess&aacute;ria para administrar as rela&ccedil;&otilde;es do Brasil com pa&iacute;ses vizinhos. E o bilateralismo que caracteriza as rela&ccedil;&otilde;es intrabloco seguiu em curso. Mas suas dificuldades comerciais cresceram trazendo um complicador para a dimens&atilde;o de integra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. Os obst&aacute;culos &agrave;s exporta&ccedil;&otilde;es brasileiras n&atilde;o foram resolvidos e as medidas estatizantes do Governo argentino afastaram investimentos brasileiros do pa&iacute;s. O governo de Dilma Rousseff mostrou menos disposi&ccedil;&atilde;o para fazer concess&otilde;es ao parceiro no campo econ&ocirc;mico e os atritos n&atilde;o foram solucionados. Os avan&ccedil;os apontaram para &aacute;reas n&atilde;o comerciais e foi-se buscando espa&ccedil;os para a expans&atilde;o industrial e o desenvolvimento de infraestrutura.</p>      <p>As negocia&ccedil;&otilde;es entre o Mercosul e a Uni&atilde;o Europeia para assinatura do acordo de associa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o um exemplo a destacar. Na medida em que enfrentou dificuldades em avan&ccedil;ar sobretudo por resist&ecirc;ncias da Argentina (a Venezuela ficaria fora do acordo, <i>a priori</i>), cresceram as press&otilde;es dentro do Brasil por agentes econ&ocirc;micos e, durante a campanha eleitoral, por pol&iacute;ticos da oposi&ccedil;&atilde;o, para que o pa&iacute;s abandonasse a Tarifa Externa Comum (tec) e assinasse um acordo sozinho com a ue. Esta alternativa, no entanto, foi afastada pelo Governo brasileiro pois significaria o fim definitivo da tec que, atualmente, apesar de todas as limita&ccedil;&otilde;es, ainda atua como fator de coes&atilde;o do bloco. A aproxima&ccedil;&atilde;o da Argentina com a China &eacute; vis&iacute;vel e paira como uma amea&ccedil;a aos produtos manufaturados brasileiros exportados para o pa&iacute;s vizinho. Tamb&eacute;m a ue continua a recha&ccedil;ar a principal demanda brasileira de abertura do mercado agr&iacute;cola europeu, enquanto as reivindica&ccedil;&otilde;es europeias de abertura em determinados setores de industrializados e de servi&ccedil;os e licita&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas continuam sendo negadas pelo governo brasileiro.</p>      <p>O Parlasul, por sua vez, n&atilde;o avan&ccedil;ou e teve a aplica&ccedil;&atilde;o de seu tratado constitutivo adiada<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>. A crise e o afastamento tempor&aacute;rio do Paraguai, assim como a entrada da Venezuela, refletiram na imobilidade do Parlasul. No campo pol&iacute;tico, por&eacute;m, a aproxima&ccedil;&atilde;o a posi&ccedil;&otilde;es argentinas teve um importante papel compensador das diferen&ccedil;as econ&ocirc;micas. Seguiu sendo fundamental para o Governo brasileiro manter estreitos la&ccedil;os de coopera&ccedil;&atilde;o com a Argentina que evitassem o renascimento de rivalidades. No in&iacute;cio do governo de Rousseff os ent&atilde;o tr&ecirc;s parceiros do Mercosul atuaram em conjunto frente &agrave; crise pol&iacute;tica no Paraguai, que resultou em afastamento tempor&aacute;rio do pa&iacute;s e, surpreendentemente, na incorpora&ccedil;&atilde;o definitiva da Venezuela como membro pleno. No entanto, frente &agrave; crise venezuelana, o Mercosul ficou paralizado e os intentos de solu&ccedil;&atilde;o partiram da unasul.</p>      <p>Apesar dos desencontros, o bloco seguiu uma perspectiva de amplia&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m da Venezuela, a Bol&iacute;via solicitou a entrada no bloco tamb&eacute;m como membro pleno sem abandonar a Comunidade Andina. Guiana e Suriname assinaram acordos de associa&ccedil;&atilde;o completando o quadro marco para a forma&ccedil;&atilde;o de uma &aacute;rea de livre com&eacute;rcio coincidente com o subcontinente.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>PERSPECTIVAS PARA O PR&Oacute;XIMO MANDATO</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em termos objetivos, o Brasil diminuiu seu peso na pol&iacute;tica internacional ap&oacute;s os quatro anos do primeiro mandato de Dilma Rousseff. O papel proativo assumido durante o governo anterior e a participa&ccedil;&atilde;o em debates sobre diferentes temas da pol&iacute;tica internacional deram lugar a movimentos espasm&oacute;dicos, sem uma continuidade, sem um projeto de inser&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica de mais longo prazo. No processo decis&oacute;rio, o papel de <i>agenda setting </i>que poderia ser da Presid&ecirc;ncia ou do Itamaraty, n&atilde;o ficou com nenhum dos dois.</p>      <p>Embora n&atilde;o seja objeto de consenso no pa&iacute;s, na campanha eleitoral, a pol&iacute;tica externa brasileira n&atilde;o foi um tema debatido. Registaram-se apenas algumas breves men&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas do candidato A&eacute;cio Neves, durante o per&iacute;odo de campanha para o segundo turno sobre as rela&ccedil;&otilde;es brasileiras com Cuba e a quest&atilde;o da Tarifa Externa do Mercosul. Atores pol&iacute;ticos da oposi&ccedil;&atilde;o acusaram a pol&iacute;tica externa de Rousseff de &laquo;ideol&oacute;gica&raquo; ou &laquo;partidarizada&raquo;<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>. A revista <i>Pol&iacute;tica Externa </i>publicou um n&uacute;mero com entrevistas aos tr&ecirc;s principais candidatos &agrave; presid&ecirc;ncia sobre o tema, mas Dilma Rousseff n&atilde;o respondeu &agrave;s perguntas endere&ccedil;adas<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a>. No discurso ap&oacute;s o an&uacute;ncio da vit&oacute;ria, falou de mudan&ccedil;as, mas n&atilde;o fez men&ccedil;&atilde;o &agrave; pol&iacute;tica externa.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 8 de outubro de 2014| Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 11 de novembro de 2014</i></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>NOTAS</b></p>      <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Os autonomistas formam uma corrente de pensamento no Itamaraty que defende que o pa&iacute;s tenha um comportamento mais proativo e aut&ocirc;nomo na pol&iacute;tica internacional, que ganhou destaque durante o governo de Lula. Sobre o tema ver SARAIVA, Miriam G. &ndash; &laquo;Continuidade e mudan&ccedil;a na pol&iacute;tica externa brasileira. As especificidades do comportamento externo brasileiro de 2003 a 2010&raquo;. In <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>, N.&ordm; 37, 2013, pp. 63-78.</p>      <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Como o caso das negocia&ccedil;&otilde;es da Uni&atilde;o Europeia com os Estados Unidos (t tip) para o acordo transatl&acirc;ntico &eacute; um exemplo importante.</p>      <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Spektor, Matias &ndash; &laquo;Diplomacia de transi&ccedil;&atilde;o&raquo;. In <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i>, 29 de outubro de 2014. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2014/10/1540019-diplomacia-da-transicao.shtml" target="blank">http://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/2014/10/1540019-diplomacia-da-transicao.shtml</a></p>      <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Banco Nacional do Desenvolvimento Econ&ocirc;mico e Social. O Bndes &eacute; uma empresa p&uacute;blica federal cuja fun&ccedil;&atilde;o principal &eacute; o financiamento de investimentos a longo prazo em todos os segmentos da economia. As pol&iacute;ticas do Bndes incluem dimens&otilde;es sociais, regionais e ambientais.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Veiga, Pedro da Motta, e Rios, Sandra Pol&oacute;nia &ndash; &laquo;A pol&iacute;tica externa no governo Dilma Rousseff: os seis primeiros meses&raquo;<i>.</i> In <i>Brev&iacute;ssimos CINDES, </i>N.&ordm; 32, 2011.</p>      <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Celestino, Helena &ndash; &laquo;Sedu&ccedil;&atilde;o, a falta que ela faz&raquo;. In <i>O Globo</i>, 5 de outubro de 2014, p. 55.</p>      <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Spektor, Matias &ndash; &laquo;Diplomacia de transi&ccedil;&atilde;o&raquo;.</p>      <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> <i>Ibidem</i>.</p>      <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Gratius, Susanne, e Grevi, Giovanni &ndash; &laquo;Brazil and the eu: partnership on security and human rights?&raquo;. In <i>Policy Brief</i> N.&ordm;153, Fride, 2013, p. 4.</p>      <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Brasil, R&uacute;ssia, &Iacute;ndia, China e &Aacute;frica do Sul.</p>      <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Luiz Alberto Fgueiredo &eacute; o chanceler brasileiro desde 2013. Cf.. Figueiredo, Luiz Alberto &ndash; &laquo;O uso da for&ccedil;a nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais&raquo;. In <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i>, 8 de outubro de 2014. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/10/1528992-luiz-alberto-figueiredo-o-uso-da-forca-nas-relacoes-internacionais.shtml" target="blank">http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/10/1528992-luiz-alberto-figueiredo-o-uso-da-forca-nas-relacoes-internacionais.shtml</a></p>      <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Jesus, Diego S. V. de &ndash; &laquo;The Benign Multipolarity: Brazilian foreign policy under Dilma Rousseff&raquo;. In <i>Journal of International Relations and Foreign Policy</i>. Vol. 2, N.&ordm; 1, 2014, pp. 19-42.</p>      <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> <i>Ibidem</i>.</p>      <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Leite, Iara C. &ndash; <i>O Envolvimento da Embrapa e do Senai na Coopera&ccedil;&atilde;o Sul-Sul: Da Indu&ccedil;&atilde;o &agrave; Busca pela Retroalimenta&ccedil;&atilde;o</i>. Tese de doutoramento em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica, iesp/uerj, 2013.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Gratius, Susanne, e Grevi, Giovanni &ndash; &laquo;Brazil and the eu: partnership on security and human rights?&raquo;.</p>      <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Spek tor, Matias &ndash; &laquo;Diplomacia de transi&ccedil;&atilde;o&raquo;.</p>      <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> Evo Morales se queixou da falta de uma visita oficial da Presidente Dilma Rousseff.</p>      <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> &laquo;Am&eacute;rica do Sul perde fatia nos investimentos externos do Brasil&raquo;, 3 de agosto de 2013. In <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i>, Caderno Mercado 2, p. 5: informa que a participa&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica do Sul no total de investimentos externos brasileiros caiu de 14,3 por cento no primeiro semestre de 2012 para 5,7 por cento no mesmo per&iacute;odo de 2013.</p>      <p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> Cf. Malamud, Andr&eacute;s, e Gardini, Gian Luca &ndash; &laquo;Has Regionalism peaked? The Latin American Quagmire and its les-sons&raquo;. In <i>The International Spectator: Italian Journal of International Affairs</i>. Vol. 47, N.&ordm; 1, 2012, pp. 116-133.</p>      <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> Malamud, Andr&eacute;s, e Dri, Clarissa &ndash; &laquo;Spillover effects and supranational parliaments: the case of Mercosur&raquo;. In <i>Journal of Iberian and Latin American Research</i>. Vol. 19, N.&ordm; 2, 2013, pp. 224-238.</p>      <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> Embora n&atilde;o expliquem bem de que tipologia se trata.</p>      <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> Ver <i>Pol&iacute;tica Externa</i>. Vol. 23, N.&ordm; 1, julho/agosto de 2014, p. 10. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.politicaexterna.com.br" target="blank">http://www.politicaexterna.com.br</a>.</p>         ]]></body><back>
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