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<institution><![CDATA[,Instituto Superior de Economia e Gestão Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Otilde;ES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Repensar as origens da emerg&ecirc;ncia econ&oacute;mica da Europa moderna</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Lu&iacute;s Mah</b></p>      <p>Investigador de p&oacute;s-doutoramento no Centro de Estudos sobre &Aacute;frica e do Desenvolvimento (CESA) do ISEG. &Eacute; doutorado em Estudos de Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE) e tem como &aacute;reas de investiga&ccedil;&atilde;o atuais o papel do Estado nas economias emergentes e as rela&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas &Aacute;sia-&aacute;frica. &Eacute; coautor, com Enrique Martinez Galan (Banco Asi&aacute;tico de Desenvolvimento), do blogue &laquo;O Retorno da &Aacute;sia&raquo;.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Kenneth Pomeranz, <i>A Grande Diverg&ecirc;ncia: A China, a Europa e a Constru&ccedil;&atilde;o da Economia Mundial Moderna,</i> Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es 70, 2013, 624 p&aacute;ginas</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>At&eacute; 1820, diz-nos Angus Maddison, a &Aacute;sia, com a China &agrave; cabe&ccedil;a, liderava a economia global<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. Mas a partir desse momento, a Europa Ocidental ultrapassa a &Aacute;sia, e a China em particular. <i>A Grande Diverg&ecirc;ncia: A China, a Europa e a Constru&ccedil;&atilde;o da Economia Mundial Moderna</i>, de Kenneth Pomeranz, &eacute; uma obra fundamental da hist&oacute;ria global porque nos oferece uma nova vis&atilde;o sobre as raz&otilde;es que levaram, no s&eacute;culo xix, a Europa (Ocidental) a ultrapassar a China e a transformar estruturalmente a sua economia. Gra&ccedil;as a esta obra, Pomeranz recebeu em 2000 o maior pr&eacute;mio da Associa&ccedil;&atilde;o Americana de Hist&oacute;ria (AHA), o Pr&eacute;mio John K. Fairbank, e no ano seguinte foi um dos vencedores do Pr&eacute;mio para o Melhor Livro da Associa&ccedil;&atilde;o Mundial de Hist&oacute;ria. Este trabalho de Pomeranz, publicado pelas Edi&ccedil;&otilde;es 70 e com direitos reservados para todos os pa&iacute;ses de l&iacute;ngua portuguesa, chega treze anos depois da publica&ccedil;&atilde;o do original em l&iacute;ngua inglesa em 2000. Integra a Cole&ccedil;&atilde;o Hist&oacute;ria e Sociedade coordenada por Diogo Ramada Curto (unl), Miguel Bandeira Jer&oacute;nimo (ics/ul) e Nuno Domingos (ics/ul) e que s&atilde;o tamb&eacute;m os autores do excelente estudo introdut&oacute;rio que acompanha esta edi&ccedil;&atilde;o de l&iacute;ngua portuguesa. Neste estudo, os historiadores destacam a necessidade de olhar para o trabalho de Pomeranz como uma tentativa de &laquo;pensar a exist&ecirc;ncia de uma humanidade comum, fundamentalmente separada por raz&otilde;es de &iacute;ndole material&raquo; (p. xxv). Esta tentativa parece, de facto, fazer parte de uma miss&atilde;o assumida por Pomeranz de questionar o &laquo;excepcionalismo europeu&raquo; para explicar a ascens&atilde;o econ&oacute;mica da regi&atilde;o a partir do s&eacute;culo xix<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. A grande novidade deste trabalho de Pomeranz passa por comparar a China e a Europa no s&eacute;culo xix e justificar porque, partindo ambas do que demonstra serem condi&ccedil;&otilde;es similares, acabaram por divergir, em termos de desenvolvimento.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para Pomeranz, a justifica&ccedil;&atilde;o &eacute; essencialmente uma de &iacute;ndole ecol&oacute;gica. Ao contr&aacute;rio da China, a Europa, e a Inglaterra em particular, beneficiou do acesso a recursos ecol&oacute;gicos importantes. Primeiro, atrav&eacute;s do r&aacute;pido aumento da extra&ccedil;&atilde;o e utiliza&ccedil;&atilde;o do carv&atilde;o ingl&ecirc;s, conseguiu substituir a crescente escassez de madeira. E segundo, e claramente mais importante, atrav&eacute;s dos territ&oacute;rios coloniais ultramarinos, teve acesso a recursos minerais abundantes e novos mercados de consumidores, e para o qual contribui o uso da coer&ccedil;&atilde;o e for&ccedil;a b&eacute;lica desenvolvida a partir da crescente competi&ccedil;&atilde;o militar dentro e fora das fronteiras europeias.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>DE UMA HIST&Oacute;RIA EUROC&Ecirc;NTRICA PARA UMA HIST&Oacute;RIA GLOBAL</b></p>      <p>A obra de Pomeranz est&aacute; dividida em tr&ecirc;s partes e seis cap&iacute;tulos. Nas duas primeiras partes, que correspondem aos cap&iacute;tulos 1 a 4, Pomeranz questiona os argumentos que encontram justifica&ccedil;&otilde;es end&oacute;genas &ndash; e desta forma promovem uma &laquo;hist&oacute;ria euroc&ecirc;ntrica&raquo; &ndash; para a transforma&ccedil;&atilde;o industrial e ascens&atilde;o econ&oacute;mica da Europa no s&eacute;culo xix em rela&ccedil;&atilde;o ao resto do mundo. Entre estas justifica&ccedil;&otilde;es end&oacute;genas est&atilde;o desde especificidades demogr&aacute;ficas (como melhor qualidade de vida ou maior longevidade), vantagens tecnol&oacute;gicas (ao n&iacute;vel da agricultura e transporte), exist&ecirc;ncia de economias de mercado mais perfeitas e a emerg&ecirc;ncia do capitalismo e do &laquo;consumismo&raquo;. Olhando para os casos da China e do Jap&atilde;o, Pomeranz mostra como tamb&eacute;m aqui se encontravam estas condi&ccedil;&otilde;es que se pensavam ser &uacute;nicas e end&oacute;genas &agrave; Europa e que por isso:</p>      <p>&laquo;far&aacute; talvez mais sentido ver a Europa Ocidental deste per&iacute;odo como uma economia relativamente vulgar; s&oacute; se tornou numa bizarria feliz quando, em finais do s&eacute;culo xviii e em, especial, no s&eacute;culo xix, um conjunto de descontinuidades inesperadas e significativas lhe permitiu romper as limita&ccedil;&otilde;es fundamentais da utiliza&ccedil;&atilde;o de energia e disponibilidade de recursos que tinham limitado os horizontes de <i>toda </i>a gente&raquo; (pp. 348-349).</p>      <p>S&atilde;o essas &laquo;descontinuidades inesperadas e significativas&raquo; que Pomeranz explora na terceira parte da obra e nos cap&iacute;tulos 5 e 6. Pomeranz n&atilde;o afirma que estas &laquo;descontinuidades&raquo; ou, por outras palavras, vantagens, foram &laquo;obrigatoriamente conducentes a um salto industrial&raquo;, mas antes que &laquo;aumentaram bastante essa possibilidade e tornaram-no muito mais f&aacute;cil de sustentar&raquo; (p. 353). Foram vantagens que ajudaram a resolver um problema crescente na Europa como os limites &agrave; capacidade de substituir terra por m&atilde;o de obra e capital:</p>      <p>&laquo;com estes limites, era dif&iacute;cil manter o crescimento populacional, incrementar o consumo <i>per capita</i> e aumentar o grau de especializa&ccedil;&atilde;o industrial das regi&otilde;es em simult&acirc;neo, e muito menos as taxas de crescimento aceleradas do s&eacute;culo xix&raquo; (p. 353).</p>      <p>O cap&iacute;tulo 6 explica de forma clara como foi o Novo Mundo, a &laquo;periferia&raquo; que salvou e permitiu &agrave; Europa eliminar essas limita&ccedil;&otilde;es da terra ao oferecer n&atilde;o s&oacute; produtos agr&iacute;colas mas tamb&eacute;m metais preciosos.</p>      <p>Os produtos agr&iacute;colas vinham das Cara&iacute;bas e do Noroeste do Brasil e mais tarde dos Estados Unidos e eram principalmente cultivados por escravos. Em simult&acirc;neo, os pr&oacute;prios escravos tornaram-se num mercado importante para as importa&ccedil;&otilde;es europeias. Apesar da sua pobreza, as suas necessidades em termos de vestu&aacute;rio acabaram por representar uma parte importante das importa&ccedil;&otilde;es de bens manufaturados que vinham n&atilde;o s&oacute; da Europa, mas tamb&eacute;m da &Iacute;ndia via Europa e que mais tarde foram substitu&iacute;dos por produ&ccedil;&otilde;es inglesas. Como afirma Pomeranz,</p>      <p>&laquo;a combina&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o com o repovoamento com escravos converteu a regi&atilde;o circum-caribenha num mercado perversamente grande para as exporta&ccedil;&otilde;es (inglesas) e numa fonte de exporta&ccedil;&otilde;es (caribenhas) de produtos exigentes em terra. A regi&atilde;o tornou-se, de facto, a primeira periferia a assumir o perfil hoje familiar de &ldquo;Terceiro Mundo&rdquo;: uma grande importadora de bens de produ&ccedil;&atilde;o (neste caso, andantes, falantes, raptados) e de produtos manufaturados para uso quotidiano, com exporta&ccedil;&otilde;es cujos pre&ccedil;os foram descendo &agrave; medida que a produ&ccedil;&atilde;o se tornou mais eficiente, exigente em capital e disseminada &#91;&hellip;&#93;. As planta&ccedil;&otilde;es do Novo Mundo foram, pois, um novo tipo de periferia, uma periferia que importava o suficiente para manter relativamente equilibrado o seu com&eacute;rcio com o n&uacute;cleo&raquo; (p. 447).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para al&eacute;m dos produtos agr&iacute;colas, o Novo Mundo tornou-se tamb&eacute;m o fornecedor de um outro &laquo;man&aacute;&raquo;: metais preciosos. Grande parte destes metais preciosos servia de moeda para obten&ccedil;&atilde;o de produtos agr&iacute;colas e bens manufaturados na Europa Oriental, Pr&oacute;ximo Oriente e &Aacute;sia Oriental. A venda dos produtos manufaturados ajudava a cobrir grande parte das despesas com a compra de escravos para as Am&eacute;ricas. Para Pomeranz, a import&acirc;ncia do Novo Mundo para a Europa n&atilde;o deve ser minimizada:</p>      <p>&laquo;A terra e a m&atilde;o de obra que geravam as exporta&ccedil;&otilde;es de recursos do Novo Mundo eram frutos da coer&ccedil;&atilde;o extra-mercado e foram necess&aacute;rios os esquemas singulares das plant a&ccedil;&otilde;es caribenhas e das pol&iacute;ticas mercantilistas no Novo Mundo para escapar a todas as for&ccedil;as que levaram &agrave; estagna&ccedil;&atilde;o das trocas n&uacute;cleo-periferia no Velho Mundo. Sem estas caracter&iacute;sticas e sem a prata que ajudou a pagar a administra&ccedil;&atilde;o colonial e possibilitou o transbordo de produtos asi&aacute;ticos para &Aacute;frica e para as Am&eacute;ricas, &eacute; dif&iacute;cil ver como poderia o &ldquo;man&aacute; ecol&oacute;gico&rdquo; ter chegado &agrave; Europa em tamanha qualidade, nem &eacute; claro como poderia a Europa ter obtido tanto al&iacute;vio ecol&oacute;gico do resto do Velho Mundo&raquo; (pp. 457-458).</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>DA GRANDE DIVERG&Ecirc;NCIA PARA A GRANDE CONVERG&Ecirc;NCIA?</b></p>      <p>Esta hist&oacute;ria inovadora de Pomeranz n&atilde;o tem, no entanto, deixado de ser sujeita a m&uacute;ltiplas cr&iacute;ticas que a acusam de reduzir o desenvolvimento a uma vis&atilde;o puramente economicista, ignorando a complexidade do tema e a import&acirc;ncia de outras vari&aacute;veis como a cultura, a pol&iacute;tica ou a religi&atilde;o, tal como aponta o estudo introdut&oacute;rio. No entanto, se olharmos para a China atual e que o Fundo Monet&aacute;rio Internacional (FMI) indica ser j&aacute; em 2014 a maior economia mundial segundo o crit&eacute;rio da paridade de poder de compra, o mesmo argumento ecol&oacute;gico de Pomeranz poderia ser explorado para explicar a &laquo;grande&raquo; converg&ecirc;ncia econ&oacute;mica da China com o continente europeu nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, principalmente a partir de 2001, quando o pa&iacute;s acede &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (omc).</p>      <p>A reemerg&ecirc;ncia da China como uma das principais pot&ecirc;ncias econ&oacute;micas globais coincide com o seu papel primordial no mercado internacional de recursos minerais onde tem vindo a determinar de forma significativa os seus pre&ccedil;os<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. De acordo com a ag&ecirc;ncia norte-americana para a Informa&ccedil;&atilde;o Energ&eacute;tica (eia), e em resposta &agrave; sua necessidade de manter o r&aacute;pido desenvolvimento econ&oacute;mico do pa&iacute;s, a China &eacute;, em 2014, simultaneamente, o maior produtor e consumidor de energia a n&iacute;vel global<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>. N&atilde;o s&oacute; &eacute; a maior produtora, consumidora e importadora de carv&atilde;o como tamb&eacute;m a segunda maior consumidora de petr&oacute;leo. E segundo os c&aacute;lculos da Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia (aie), a China estar&aacute; perto de se tornar um produtor consider&aacute;vel de petr&oacute;leo, rivalizando com membros da OPEC como o Koweit ou os Emiratos &Aacute;rabes Unidos, nos pr&oacute;ximos anos devido aos investimentos que t&ecirc;m vindo a ser feitos fora das suas fronteiras pelas empresas petrol&iacute;feras nacionais<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>.</p>      <p>A n&iacute;vel internacional, s&atilde;o a &Aacute;frica Subsariana, o M&eacute;dio Oriente e a Am&eacute;rica Latina as regi&otilde;es que mais t&ecirc;m beneficiado com esta procura energ&eacute;tica (e alimentar) por parte da China<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. E a import&acirc;ncia desta presen&ccedil;a chinesa no mercado internacional de recursos minerais come&ccedil;a-se a desenhar precisamente a partir de 2000 (acentuada com a sua entrada na OMC em 2001), por coincid&ecirc;ncia no mesmo ano de publica&ccedil;&atilde;o desta obra de Pomeranz no seu original em l&iacute;ngua inglesa, quando a lideran&ccedil;a chinesa decide lan&ccedil;ar a estrat&eacute;gia &ndash; &laquo;Vai Global&raquo; &ndash; de globaliza&ccedil;&atilde;o das empresas chinesas (principalmente estatais) a investir no estrangeiro em setores energ&eacute;ticos, tecnol&oacute;gicos e agr&iacute;colas considerados estrat&eacute;gicos para o pa&iacute;s.</p>      <p>E tal como a Europa Ocidental no s&eacute;culo xix, em troca de exporta&ccedil;&otilde;es de recursos minerais, os mercados da &Aacute;frica Subsariana, M&eacute;dio Oriente e Am&eacute;rica Latina t&ecirc;m-se tornado progressivamente em mercados de consumo importantes (embora ainda longe de estarem ao n&iacute;vel de mercados com maior poder de compra como os norte-americano, europeus ou asi&aacute;ticos) para os produtos manufaturados chineses como maquinaria el&eacute;trica, m&aacute;quinas (incluindo computadores), t&ecirc;xteis, mobili&aacute;rio ou produtos &oacute;ticos e m&eacute;dicos<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Desde 2000, a transforma&ccedil;&atilde;o industrial da China tem sido de tal forma mete&oacute;rica que em 2013 ultrapassou os Estados Unidos como a maior pot&ecirc;ncia comercial do mundo com o valor total das suas exporta&ccedil;&otilde;es (2209 bili&otilde;es de d&oacute;lares) e importa&ccedil;&otilde;es (1949 bili&otilde;es de d&oacute;lares) a atingirem mais de quatro bili&otilde;es de d&oacute;lares<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>.</p>      <p>Para manter o seu crescendo comercial, a China tem procurado seguir uma pol&iacute;tica ativa de promo&ccedil;&atilde;o de acordos de com&eacute;rcio livre em todo o mundo, em particular com pa&iacute;ses asi&aacute;ticos: ASEAN (Associa&ccedil;&atilde;o dos Pa&iacute;ses do Sudeste Asi&aacute;tico), Paquist&atilde;o, Chile, Hong Kong, Macau, Nova Zel&acirc;ndia, Singapura, Peru, Costa Rica e Isl&acirc;ndia (o primeiro pa&iacute;s europeu a ter este tipo de acordo com a China). E embora as negocia&ccedil;&otilde;es estejam agora suspensas devido a conflitos diplom&aacute;ticos, desde 2012 que a China, Jap&atilde;o e Coreia do Sul come&ccedil;aram as negocia&ccedil;&otilde;es para um acordo de com&eacute;rcio livre entre estes tr&ecirc;s pa&iacute;ses. Ao mesmo tempo, a China tem apostado na cria&ccedil;&atilde;o de uma parceria econ&oacute;mica regional na &Aacute;sia Oriental (que seria o maior bloco comercial livre com tr&ecirc;s mil milh&otilde;es de pessoas e um PIB conjunto de 17 bili&otilde;es de d&oacute;lares) e j&aacute; demonstrou interesse em negociar um acordo de com&eacute;rcio livre com a Uni&atilde;o Europeia, e, depois de uma hesita&ccedil;&atilde;o inicial, em fazer parte da Parceria Transpac&iacute;fica para a cria&ccedil;&atilde;o de uma zona de com&eacute;rcio livre no Pac&iacute;fico e que tem sido liderada pelos Estados Unidos.</p>      <p>Talvez as melhores palavras para olhar para a &laquo;grande converg&ecirc;ncia&raquo; da China possam ser encontradas em Jonathan Spence, o famoso professor de Hist&oacute;ria da China em Yale e com quem Pomeranz estudou, numa entrevista em 2010 &agrave; <i>National Endowment for the Humanities </i>na ocasi&atilde;o da sua <i>Jefferson Lecture</i>: &laquo;Quando eu ensinei sobre a China &ndash; tive a sorte de ter passado muitos anos a fazer isso &ndash; come&ccedil;ava sempre no s&eacute;culo xvii quando uma nova dinastia assumia o poder na China, a Qing. Eu queria que os estudantes come&ccedil;assem a ter uma ideia clara sobre uma China extremamente vigorosa, bem orquestrada, bem organizada que tinha passado por uma dif&iacute;cil guerra civil e uma invas&atilde;o estrangeira e que depois tinha desenvolvido uma lideran&ccedil;a excecionalmente boa, apesar de n&atilde;o ter sido escolhida de forma democr&aacute;tica.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No final do s&eacute;culo xvii &ndash; e princ&iacute;pios do s&eacute;culo xviii, os imperadores tinham um forte sentido de governo e um bom sentido da responsabilidade associada &agrave; lideran&ccedil;a. Eles eram analiticamente muito astutos e tinham um bom enten dimento sobre finan&ccedil;as. Trabalhavam arduamente, 12-15 horas por dia, e tinham acesso a uma imensa documenta&ccedil;&atilde;o sobre o pa&iacute;s em geral.</p>      <p>Eles eram tamb&eacute;m duros como ningu&eacute;m e dispostos a tomar decis&otilde;es que podemos considerar cru&eacute;is. A minha principal premissa para as aulas era &lsquo;Vamos come&ccedil;ar com uma China forte, que olha para o mundo e que tamb&eacute;m &eacute; expansionista. &Eacute; um per&iacute;odo em que a China aumenta a sua extens&atilde;o em 80-90 anos, um per&iacute;odo no qual a China incorpora Taiwan e envia for&ccedil;as para o Tibete&rsquo;. Conquistou muito no seu extremo ocidental, o que lhe deu uma vasta popula&ccedil;&atilde;o mu&ccedil;ulmana. Havia o seu pr&oacute;prio dom&iacute;nio na Manch&uacute;ria, o estabelecimento de fronteiras com a R&uacute;ssia, e a conten&ccedil;&atilde;o do Ocidente, particularmente brit&acirc;nico, franc&ecirc;s e outros estados europeus que comercializavam na China. Se olharmos para a China a partir dessa perspetiva, parece-se cada vez menos com o s&eacute;culo xix.</p>      <p>O per&iacute;odo fraco parece mais uma aberra&ccedil;&atilde;o. E a China nos &uacute;ltimos vinte e cinco ou mais anos parece ter voltado aquele caminho anterior: vigorosa, pragm&aacute;tica e por vezes impiedosa, por vezes determinada a fortalecer o controlo sobre as &aacute;reas fronteiri&ccedil;as, muito atenta em rela&ccedil;&atilde;o a qualquer tipo de manifesta&ccedil;&atilde;o de massas, extremamente atenta com a palavra escrita que possa ser cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o ao Governo, extremamente cautelosa sobre qualquer tipo de multid&atilde;o que se constitua&raquo;<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>NOTAS</b></p>      <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Cf. Maddison, Angus &ndash; <i>Chinese Economic Performance in the Long Run, Second Edition, Revised and Updated, 960-2030 AD</i>. Development Studies Centre. Paris: ocde, 2007.</p>      <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Ver, por exemplo, o projeto pedag&oacute;gico em conjunto com o seu colega Bin Wong e intitulado &laquo;China and Europe 1500-2000 and beyond: what is &ldquo;modern&rdquo;?&raquo;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://afe.easia.columbia.edu/chinawh/index.html" target="blank">http://afe.easia.columbia.edu/chinawh/index.html</a></p>      <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Sobre o modelo de desenvolvimento chin&ecirc;s, cf. Mah, Lu&iacute;s &ndash; &laquo;A emerg&ecirc;ncia do modelo de desenvolvimento chin&ecirc;s&raquo;. In<i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>. N.&ordm; 38, junho de 2013, p. 38. &#91;Consultado em: 16 de novembro de 2014&#93;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?pid=S1645-91992013000200005&amp;script=sci_arttext" target="blank">http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?pid=S1645-91992013000200005&amp;script=sci_arttext</a>. Para uma an&aacute;lise recente do impacto da entrada da China no mercado internacional de recursos minerais, cf. Economy, Elizabeth C., e Levi, Michael &ndash; <i>By All Means Necessary: How China&rsquo;s Resource Quest is Changing the World</i>. Nova York: Oxford University Press, 2014.</p>      <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Cf. &laquo;China country analysis brief&raquo;, US Energy International Administration. Washington: Departamento de Energia, 4 de fevereiro de 2014. &#91;Consultado em: 16 de novembro de 2014&#93;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=CH" target="blank">http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=CH</a></p>      <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Cf. Makan, Ajay, e Hook, Leslie &minus; &laquo;China&rsquo;s foreign oil output surges&raquo;. In <i>Financial Times</i>, 20 de fevereiro de 2013. &#91;Consultado em: 16 de novembro de 2014&#93;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ft.com/intl/cms/s/0/60e4474e-7aad-11e2-9c88-00144feabdc0.html#axzz3JH8frSYq" target="blank">http://www.ft.com/intl/cms/s/0/60e4474e-7aad-11e2-9c88-00144feabdc0.html#axzz3JH8frSYq</a>. Ver tamb&eacute;m o trabalho que a aie tem vindo a desenvolver desde 2011 sobre as empresas petrol&iacute;feras chinesas. Cf. &laquo;Chinese national oil companies&rsquo;s investments: going global for energy&raquo;, 3 de novembro de 2014. &#91;Consultado em: 16 de novembro de 2014&#93;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.iea.org/ieaenergy/issue7/chinese-national-oil-companies-investments-going-global-for-energy.html" target="blank">http://www.iea.org/ieaenergy/issue7/chinese-national-oil-companies-investments-going-global-for-energy.html</a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Para o caso das rela&ccedil;&otilde;es entre a China e &Aacute;frica, cf. Sun, Yun &ndash; &laquo;Africa in China&rsquo;s foreign policy&raquo;. Washington: The Brookings Institute, abril de 2014. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.brookings.edu/research/papers/2014/04/10-africa-china-foreign-policy-sun" target="blank">http://www.brookings.edu/research/papers/2014/04/10-africa-china-foreign-policy-sun</a>. Ver tamb&eacute;m: &laquo;Africa-China trade&raquo;. Tralac. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.tralac.org/resources/our-resources/4795-africa-china-trade.html" target="blank">http://www.tralac.org/resources/our-resources/4795-africa-china-trade.html</a></p>      <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> O lado negativo destas trocas comerciais entre a China os pa&iacute;ses em desenvolvimento na &Aacute;frica Subsariana, Am&eacute;rica Latina e M&eacute;dio Oriente &eacute; o impacto de um abrandamento da economia chinesa. Cf. Tyson, Judith, Kennan, Jane, e Hou, Zhenbo &ndash; &laquo;Shockwatch Bulletin: developing countries and the slowdown in China&raquo;. In <i>ODI Working Paper 404</i>. Londres: Over-seas Development Institute, setembro de 2014.</p>      <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Cf. Anderlini, Jamil, e Hornby, Lucy &ndash; &laquo;China overtakes us as world&rsquo;s largest goods trader&raquo;. In <i>Financial Times</i>, 10 de janeiro de 2014. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ft.com/cms/s/0/7c2dbd70-79a6-11e3-b381-00144feabdc0.html#axzz3JH8frSYq" target="blank">http://www.ft.com/cms/s/0/7c2dbd70-79a6-11e3-b381-00144feabdc0.html#axzz3JH8frSYq</a>. Ver tamb&eacute;m Cf. &laquo;China Trade Profile&raquo;, WTO, setembro de 2014. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://stat.wto.org/CountryProfile/WSDBCountryPFView.aspx?Language=E&amp;Country=CN" target="blank">http://stat.wto.org/CountryProfile/WSDBCountryPFView.aspx?Language=E&amp;Country=CN</a></p>      <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> &laquo;Jonathan Spence Interview&raquo;, National Endowment for the Humanities. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.neh.gov/about/awards/jefferson-lecture/jona-than-spence-interview" target="blank">http://www.neh.gov/about/awards/jefferson-lecture/jona-than-spence-interview</a></p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Maddison]]></surname>
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