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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Otilde;ES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Um retrato dos A&ccedil;ores</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Francisco Seixas da Costa</b></p>      <p>Foi representante permanente de Portugal junto das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, OSCE e UNESCO, bem como Embaixador de Portugal no Brasil e em Fran&ccedil;a. Foi secret&aacute;rio de Estado dos Assuntos Europeus e diretor executivo do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. &Eacute; consultor estrat&eacute;gico e administrador de empresas, exerce doc&ecirc;ncia universit&aacute;ria e &eacute; colunista na imprensa. Tem livros publicados sobre assuntos europeus e rela&ccedil;&otilde;es internacionais</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Bernardo Pires de Lima, <i>A Cimeira das Lajes &ndash; Portugal, a Espanha e a guerra do Iraque</i>, 2013, Lisboa, Tinta da China, 199 p&aacute;ginas.</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>No dia 17 de mar&ccedil;o de 2003, &agrave; chegada &agrave; base das Lajes, nos A&ccedil;ores, os l&iacute;deres estrangeiros &ndash; George W. Bush, Tony Blair e Jos&eacute; Mar&iacute;a Aznar &ndash; foram recebidos pelo anfitri&atilde;o do encontro, o primeiro-ministro portugu&ecirc;s, Jos&eacute; Manuel Dur&atilde;o Barroso. Para uma primeira fotografia e para as c&acirc;maras, Barroso colocou Aznar &agrave; sua direita, com Blair e Bush &agrave; esquerda. O presidente do Governo espanhol permaneceu nesse lugar apenas um breve instante. Olhou a coreografia e logo a subverteu: mudou para o outro extremo da cena, colocando-se ao lado de Bush. O centro da fotografia passou a ser composto por Bush e Blair, com o primeiro a colocar um paternal abra&ccedil;o sobre o ombro de Aznar. Barroso, o anfitri&atilde;o, de uma posi&ccedil;&atilde;o central, passou a estar isolado na ponta. O primeiro retrato emoldurava o desejo portugu&ecirc;s. A fotografia final consagrava a realidade da Cimeira das Lajes.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este encontro atl&acirc;ntico, que tanta tinta fez correr entre nos, e hoje um acontecimento a que a historia das rela&ccedil;&otilde;es internacionais atribui uma escassa import&acirc;ncia, como se pode verificar pelas raras linhas que merece, em memorias e outros relatos sobre esses tempos complexos que antecederam a interven&ccedil;&atilde;o da <i>coalition of the willing </i>que se formou com o objetivo de derrubar Saddam Hussein. Porem, para a historia diplom&aacute;tica portuguesa, cujos encontros com a &laquo;grande&raquo; Historia n&atilde;o s&atilde;o tao vulgares quanto isso, esse acontecimento, mesmo se secund&aacute;rio a escala global, tem a sua relev&acirc;ncia.</p>      <p>Essa relev&acirc;ncia deve-se a duas razoeis maiores e a uma interroga&ccedil;&atilde;o de conjuntura. Desde logo, conv&eacute;m notar que a posi&ccedil;&atilde;o portuguesa nesse momento decisivo da quest&atilde;o iraquiana &ndash; de que a cimeira acabou por ser um epis&oacute;dio importante, no olhar de Lisboa &ndash; representou um ponto curioso de revisita&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de Portugal com tr&ecirc;s dos seus principais aliados, cada um com uma especificidade pr&oacute;pria: os Estados Unidos, o Reino Unido e a Espanha. Uma segunda raz&atilde;o liga-se ao facto de a postura assumida pelo ent&atilde;o Governo portugu&ecirc;s ter conduzido a uma fratura no consenso pol&iacute;tico em mat&eacute;ria de rela&ccedil;&otilde;es externas entre as maiores forcas pol&iacute;ticas que vinha a constituir uma imagem de marca do nosso pa&iacute;s. Finalmente, a quest&atilde;o de conjuntura liga-se diretamente a pessoa do primeiro-ministro de ent&atilde;o, Dur&atilde;o Barroso, e ao modo como ele poder&aacute;, ou n&atilde;o, ter utilizado essa circunst&acirc;ncia com vista ao seu pr&oacute;prio interesse pessoal.</p>      <p>Todas estas dimens&otilde;es est&atilde;o presentes e bem identificadas no livro de Bernardo Pires de Lima: <i>A Cimeira das Lajes </i>&ndash; <i>Portugal, Espanha e a Guerra do Iraque</i>. O livro, publicado precisamente uma d&eacute;cada apos a cimeira, e um magn&iacute;fico trabalho de interpreta&ccedil;&atilde;o, sereno e equilibrado, sobre a hist&oacute;ria desses dias e o papel que Portugal quis ou pode nela desempenhar. N&atilde;o e uma obra meramente descritiva e ass&eacute;tica, no sentido de se limitar a apresentar as v&aacute;rias vers&otilde;es dos factos e deixar a responsabilidade do leitor a possibilidade de os interpretar. Bernardo Pires de Lima, como perspicaz e cultivado leitor da cena internacional que e, notou as vers&otilde;es, enquadrou-as com os acontecimentos e decantou da&iacute; a sua leitura como cientista pol&iacute;tica. E n&atilde;o deixou de retirar as suas pr&oacute;prias conclus&otilde;es. Come&ccedil;o por notar que, para o livro, s&atilde;o convocados v&aacute;rios testemunhos. Do lado do Governo, as vozes escutadas foram Antonio Martins da Cruz, a &eacute;poca ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros, e David Dinis, assessor de imprensa de Dur&atilde;o Barroso. Pena e que o pr&oacute;prio primeiro-ministro n&atilde;o se tivesse pronunciado, do mesmo modo que teria sido muito enriquecedor ter a vers&atilde;o dos factos dada por Nuno Brito, o ent&atilde;o assessor diplom&aacute;tico do primeiro-ministro e que foi o principal interlocutor dos gabinetes dos chefes dos governos estrangeiros. Refira-se que, a &eacute;poca, era essa a inst&acirc;ncia central de tratamento da quest&atilde;o, o que, para alem dos aspetos idiossincr&aacute;ticos, pode tamb&eacute;m justificar algum distanciamento que transparece no discurso do chefe da diplomacia portuguesa. Por parte da oposi&ccedil;&atilde;o, Ferro Rodrigues e Ana Gomes representam bem a linha partid&aacute;ria que ent&atilde;o mais se afirmou. Noutra &aacute;rea socialista, e tamb&eacute;m ouvido Jose Lamego, num expect&aacute;vel registo diverso, como seguramente tamb&eacute;m o seriam os de Jaime Gama ou Luis Amado. Finalmente, o comissario europeu Antonio Vitorino e o Presidente da Republica Jorge Sampaio trazem-nos vis&otilde;es institucionais muito interessantes, que ajudam bastante a explicar cap&iacute;tulos desses tempos. Sem que isto deva ser entendido como uma cr&iacute;tica ao processo de constru&ccedil;&atilde;o do livro, senti pena, ao l&ecirc;-lo, que n&atilde;o tivessem sido inclu&iacute;dos alguns contrapontos externos, em especial do lado espanhol e da parte de dois pa&iacute;ses que representavam o &laquo;outro lado&raquo;&raquo; europeu: a Franca e a Alemanha. Como nos olhavam por esses dias? Podemos presumir, mas seria interessante ouvi-los em &laquo;on&raquo;.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>IRAQUE &ndash; O ALVO AMERICANO</b></p>      <p>O primeiro cap&iacute;tulo do livro chama-se, significativamente, &laquo;Uma decis&atilde;o americana&raquo;. O curso do texto deixa muito claro que a decis&atilde;o de invas&atilde;o do Iraque de Saddam Hussein estava tomada por Washington muito antes de esta ser concretizada. Bush come&ccedil;ara a sua presid&ecirc;ncia focado em quest&otilde;es internas e, se recordarmos os seus primeiros meses, o &uacute;nico tema externo importante para Washington come&ccedil;ou por ser a China. Os ataques de 11 de setembro de 2001 mudaram tudo. No livro &eacute; analisado, de uma forma muito rigorosa e completa, o modo como a agenda ideol&oacute;gica neoconservadora, que estava nos bastidores da administra&ccedil;&atilde;o Bush, soube cavalgar, de forma h&aacute;bil e r&aacute;pida, os ataques terroristas e redirecionar a vontade americana para encetar uma guerra direta a Saddam Hussein.</p>      <p>A literatura interpretativa sobre a atitude americana &eacute; abundante, mas a s&iacute;ntese que Bernardo Pires de Lima nos traz &eacute; altamente clarificadora sobre um ponto &ndash; o processo de forma&ccedil;&atilde;o da decis&atilde;o americana foi totalmente aut&oacute;nomo de qualquer compromisso ou entendimento internacional e, mesmo no tocante &agrave;s Na&ccedil;&otilde;es Unidas, a sua utiliza&ccedil;&atilde;o foi sempre vista como meramente instrumental e, nem por um segundo, como condicionante da execu&ccedil;&atilde;o da decis&atilde;o final. Fica claro que os &laquo;esfor&ccedil;os&raquo; junto da onu tiveram mais como objetivo procurar ajudar os seus potenciais aliados para uma futura interven&ccedil;&atilde;o (em especial o Reino Unido) a obterem argumentos legitimadores com vista a sossegarem as suas opini&otilde;es p&uacute;blicas do que o interesse concreto em os Estados Unidos poderem obter, para si, qualquer esp&eacute;cie de &laquo;luz verde&raquo; multilateral. No entanto, pressente-se uma dualidade no seio da Administra&ccedil;&atilde;o entre a dimens&atilde;o diplom&aacute;tica que tenta um <i>face-saving</i> formal e uma vontade pol&iacute;tico-militar, predominante desde o primeiro momento. Este livro carreia ainda argumentos demonstrativos de que a alegada &laquo;agenda democr&aacute;tica&raquo; para o Iraque foi um tema tardio e supletivo face ao projeto de mudan&ccedil;a de regime em Bagdade que j&aacute; estava determinado e era o objetivo essencial.</p>      <p>O livro analisa com aten&ccedil;&atilde;o o debate havido no seio da Uni&atilde;o Europeia perante a imin&ecirc;ncia do ataque americano. &Eacute; descrita com cuidado a g&eacute;nese da &laquo;carta dos oito&raquo; e da posterior &laquo;carta de Vilnius&raquo;, com a emerg&ecirc;ncia de uma clara clivagem entre a &laquo;nova Europa&raquo;, como foi crismada pelo secret&aacute;rio de Defesa americano, Donald Rumsfeld, e a &laquo;velha Europa&raquo;, centrada no eixo franco-alem&atilde;o. A Europa comunit&aacute;ria procurava desesperadamente, num esfor&ccedil;o de ret&oacute;rica das resolu&ccedil;&otilde;es da onu e o intrav&aacute;vel tropismo pr&oacute;-americano de compromisso, iludir a sua inelut&aacute;vel divis&atilde;o interna: entre os que pugnavam pela preemin&ecirc;ncia absoluta e inultrapass&aacute;vel de alguns parceiros, com o Reino Unido &agrave; cabe&ccedil;a e uma legi&atilde;o de novos aderentes na ue (e na nato) a segui-lo.</p>      <p>Bernardo Pires de Lima det&eacute;m-se tamb&eacute;m na quest&atilde;o das &laquo;armas de destrui&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a&raquo; e do grau de informa&ccedil;&atilde;o que Portugal dispunha sobre o risco iraquiano nesse dom&iacute;nio. Talvez valha a pena come&ccedil;ar pelo fim e recordar que n&atilde;o havia &laquo;armas de destrui&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a&raquo; no Iraque. Por isso, todas as informa&ccedil;&otilde;es que, sobre o assunto, possam ter sido apresentadas a Portugal eram falsas &ndash; ou produto de m&aacute; informa&ccedil;&atilde;o ou simplesmente forjadas. Nunca ningu&eacute;m saber&aacute; o que foi realmente mostrado aos dirigentes portugueses por essa altura &ndash; n&atilde;o apenas a Dur&atilde;o Barroso mas igualmente a um ator que est&aacute; ausente desta hist&oacute;ria, o ent&atilde;o ministro da Defesa, Paulo Portas, que &agrave; &eacute;poca se vangloriava de uma forte rela&ccedil;&atilde;o com Rumsfeld. Sabe-se apenas que as tais &laquo;informa&ccedil;&otilde;es&raquo; devem ter sido convincentes, embora, de uma leitura atenta do livro, nos fique a impress&atilde;o, admito que err&oacute;nea, de que a decis&atilde;o final do Governo de Lisboa teria sido sempre a mesma, com ou sem &laquo;armas de destrui&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a&raquo;.</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O DEBATE DOM&Eacute;STICO</b></p>      <p>As rela&ccedil;&otilde;es com os Estados Unidos foram sempre &ndash; e continuam a ser &ndash; um dos pilares estruturantes da pol&iacute;tica externa de Portugal. Bernardo Pires de Lima faz uma an&aacute;lise dessa postura, que, por regra, n&atilde;o costuma ser muito divisiva nas for&ccedil;as pol&iacute;ticas portuguesas. Com a expect&aacute;vel exce&ccedil;&atilde;o do Partido Comunista Portugu&ecirc;s e dos heter&oacute;nimos que, por &eacute;pocas, as forma&ccedil;&otilde;es de extrema-esquerda utilizam, o espetro partid&aacute;rio com assento parlamentar, com as suas naturais <i>nuances</i>, afirma sempre uma atitude simp&aacute;tica ao refor&ccedil;o das rela&ccedil;&otilde;es com os Estados Unidos. Curioso, ali&aacute;s, &eacute; verificar que, no Partido Socialista, a titularidade da chefia da pol&iacute;tica externa &eacute; sempre assegurada por figuras com um perfil indiscutivelmente pr&oacute;-americano, por vezes mais afirmado do que o dos seus contra-partes de partidos mais conservadores.</p>      <p>O debate em Portugal&raquo; &eacute;, sem d&uacute;vida, o cap&iacute;tulo mais original deste livro, num pa&iacute;s onde, como bem nota o autor, parece haver um recorrente pudor pol&iacute;tico em escalpelizar as decis&otilde;es com impacto externo. De uma leitura atenta do texto &eacute;-se levado a concluir, em mais do que uma passagem, que Dur&atilde;o Barroso ter&aacute; ficado &laquo;seduzido&raquo; pela import&acirc;ncia que Bush lhe foi concedendo, &agrave; medida que percebeu que o primeiro-ministro portugu&ecirc;s, sob influ&ecirc;ncia de Blair e de Aznar, se inclinava para subscrever a tese da imperatividade da a&ccedil;&atilde;o militar contra o Iraque. As &uacute;nicas &laquo;retic&ecirc;ncias&raquo; que o dirigente portugu&ecirc;s colocava, no que n&atilde;o diferia dos outros aliados pr&oacute;ximos, era sobre a necessidade de ser esgotado o leque poss&iacute;vel de tentativas de conseguir um respaldo legitimador por parte do Conselho de Seguran&ccedil;a da onu. Mas Barroso nunca deixou de indiciar que, em caso de impasse, jamais optaria por uma qualquer &laquo;neutralidade&raquo; face ao aliado transatl&acirc;ntico em conflito com Bagdade.</p>      <p>No processo interno portugu&ecirc;s, o mais interessante de observar &eacute; talvez a rela&ccedil;&atilde;o que Barroso foi mantendo com o Presidente Jorge Sampaio sobre a mat&eacute;ria. O Presidente, desde o primeiro momento, deixou bem claro que considerava um mandato internacional essencial para poder dar a sua &laquo;luz verde&raquo; a um engajamento formal de Portugal numa eventual a&ccedil;&atilde;o militar. Mas Sampaio tamb&eacute;m sabia que n&atilde;o estava nas suas m&atilde;os evitar uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica por parte do Governo que viesse a ser favor&aacute;vel a uma interven&ccedil;&atilde;o unilateral americana, se esse fosse, como veio a ser, o caso. O livro acompanha muito bem este processo diacr&oacute;nico, que se presume tenha momentos algo tensos. Deduz-se do texto que Barroso teve um extremo cuidado formal com vista a n&atilde;o cometer deslizes que pudessem ser lidos como uma quebra de lealdade institucional ou do dever de informa&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>Fica a ideia de que Sampaio pressentiu muito cedo como tudo iria acabar. Barroso levou a &aacute;gua ao seu moinho, Jorge Sampaio salvaguardou a sua posi&ccedil;&atilde;o institucional. Tudo bem?</p>      <p>O autor d&aacute; a entender que entre o Presidente e a lideran&ccedil;a socialista, titulada por Eduardo Ferro Rodrigues, se bem que assente em termos comuns de refer&ecirc;ncia, n&atilde;o havia uma total coincid&ecirc;ncia. No di&aacute;logo do Governo com o Partido Socialista n&atilde;o houve, contudo, quaisquer surpresas. Ferro Rodrigues nunca se mostrou minimamente disposto a acompanhar o tropismo incondicional do Governo pela posi&ccedil;&atilde;o americana, exigindo sempre, de forma muito clara, uma cobertura multilateral pr&eacute;via a qualquer nova a&ccedil;&atilde;o no Iraque. Fica a sensa&ccedil;&atilde;o de que Dur&atilde;o Barroso cedo deve ter considerado perdida qualquer hip&oacute;tese de compromisso com Ferro Rodrigues. Mas para a hist&oacute;ria especulativa, para sempre ficar&aacute; a pairar a d&uacute;vida sobre se, noutro cen&aacute;rio de lideran&ccedil;a socialista, alguma complac&ecirc;ncia poderia ter surgido do lado do Largo do Rato.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>A AMBI&Ccedil;&Atilde;O ESPANHOLA</b></p>      <p>Um dos aspetos mais interessantes deste livro prende-se com o papel da Espanha, um ator n&atilde;o usual no terreno atl&acirc;ntico. Tudo indica que a Espanha, que vivia um tempo de euforia afirmativa &agrave; escala global, com um crescimento econ&oacute;mico que a colocava &agrave;s portas do G8, ter&aacute; sentido a oportunidade que poderia representar para Madrid a capta&ccedil;&atilde;o da boa vontade americana num momento desta delicadeza. Por isso, Aznar n&atilde;o ter&aacute; hesitado em afrontar uma opini&atilde;o p&uacute;blica hostil a uma qualquer interven&ccedil;&atilde;o no Iraque e cedo se colocou, ao lado do Reino Unido, num s&oacute;lido pilar europeu de apoio a Bush, alterando mesmo uma tradicional postura de Madrid face ao mundo &aacute;rabe. O argumento da legitimidade da luta antiterrorista e a defini&ccedil;&atilde;o de uma postura atlantista que lhe fizesse ganhar mais espa&ccedil;o noutros tabuleiros geopol&iacute;ticos serviam de suporte a esta determina&ccedil;&atilde;o. Depois de Blair, Aznar viria a tornar-se no <i>enfant ch&eacute;ri </i>europeu de Washington.</p>      <p>A crer no testemunho de Martins da Cruz, o presidente do Governo espanhol ter&aacute; sido o elemento instrumental na ideia de levar Portugal para o grupo que acabar&aacute; por ter a sua &laquo;consagra&ccedil;&atilde;o&raquo; na chamada Cimeira das Lajes. A ideia da realiza&ccedil;&atilde;o da reuni&atilde;o nos A&ccedil;ores parece, de facto, ser de Aznar, mas h&aacute; sinais que ter&aacute; sido a vontade conjugada de Londres e Madrid que ter&aacute; levado Bush a esta coopta&ccedil;&atilde;o de um parceiro menor, embora atl&acirc;ntico por natureza e por nunca desmentida afetividade geopol&iacute;tica. Uma leitura &laquo;patri&oacute;tica&raquo; que pode ter fragilizado algumas defesas internas apoia-se, precisamente, na leitura de que Portugal n&atilde;o podia deixar a Espanha &laquo;sozinha&raquo; nesta sua t&atilde;o expressiva mudan&ccedil;a de agulha em dire&ccedil;&atilde;o a Washington, pelo impacto que isso poderia acabar por ter na decisiva boa vontade americana em dossi&ecirc;s &agrave; &eacute;poca t&atilde;o complexos como o dos comandos nato ou o futuro da presen&ccedil;a nos A&ccedil;ores. Como dizia Pirandello, a cada um a sua verdade...</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como sempre acaba por suceder neste tipo de circunst&acirc;ncias, h&aacute; uma diversidade de fatores que concorrem para uma mesma decis&atilde;o, alguns de oportunidade, outros de vontade. N&atilde;o estou minimamente de acordo com Bernardo Pires de Lima quando afirma que &laquo;o objetivo de elevar a diplomacia portuguesa a um patamar mais elevado acabou por ser alcan&ccedil;ado com o processo de decis&atilde;o desenhado pelo governo portugu&ecirc;s&raquo;. Na minha perspetiva, a <i>photo opportunity </i>das Lajes esteve longe de dignificar Portugal ou a nossa pol&iacute;tica externa &ndash; a diplomacia &eacute; apenas decorrente desta e s&oacute; &eacute; protagonista <i>by default</i>, quando a fragilidade da a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica assim a obriga.</p>      <p>Uma derradeira quest&atilde;o, que o autor tamb&eacute;m coloca, prende-se com o eventual &laquo;calculismo&raquo; de Dur&atilde;o Barroso: ter&aacute; ele manobrado este processo com vista a colocar-se no lugar certo no momento oportuno, para o <i>timing </i>da escolha do futuro presidente da Comiss&atilde;o Europeia? N&atilde;o creio. Os tempos n&atilde;o eram f&aacute;ceis de conjugar, embora do livro nos fique a cr&iacute;ptica afirma&ccedil;&atilde;o de Jorge Sampaio de que &laquo;o dr. Barroso &eacute; um excelente gestor das rela&ccedil;&otilde;es de poder&raquo;.</p>      ]]></body>
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