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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os Estados Unidos e a transição para a multipolaridade: a crise na Ucrânia]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The end of the Cold War gave rise to American unipolarity in the international system. With the rise of new powers such as the BRICS, the present distribution of power is gradually being challenged in favor of multipolarity in the international system, while at the same time the U.S. strategy is changing. This article aims to argue that the current crisis in Ukraine could represent a milestone in the transition from unipolarity to multipolarity based on revisionist actions by the Russian Federation since these same actions contest the rules and regulations of the post-Cold War world. We will analyze the US foreign policy in the Ukrainian crisis to corroborate this argument.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>A GUERRA NA UCRÂNIA</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Os Estados Unidos e a transi&ccedil;&atilde;o para a multipolaridade &ndash; a crise na Ucr&acirc;nia<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></B></p>     <p><B>The US and the transition towards multipolarity: the Ukrainian crisis</B></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Ricardo Cabral Fernandes<a href="#0">*</a><a name="top0"></a></B></p>     <p>Mestrando em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica no ISCTE-IUL e Licenciado em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pela Universidade Lus&iacute;ada de Lisboa (2014). Frequentou o I Curso de &laquo;Informa&ccedil;&otilde;es em Democracia&raquo; do Instituto de Defesa Nacional (2013).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>RESUMO</B></p>     <p>O fim da Guerra Fria originou a unipolaridade norte-americana no sistema internacional. Com a ascens&atilde;o de novas pot&ecirc;ncias, como os BRICS, a actual distribui&ccedil;&atilde;o de poder est&aacute; gradualmente a ser contestada em prol da multipolaridade no sistema internacional, ao mesmo tempo que a estrat&eacute;gia norte-americana &eacute; alterada. Com base na an&aacute;lise da pol&iacute;tica externa norte-americana na crise ucraniana, o presente artigo argumenta que a actual crise na Ucr&acirc;nia poder&aacute; representar mais um marco na transi&ccedil;&atilde;o da unipolaridade para a multipolaridade influenciado pelas ac&ccedil;&otilde;es revisionistas da Federa&ccedil;&atilde;o Russa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>Palavras-chave</B>: Unipolaridade, multipolaridade, Estados Unidos, Ucr&acirc;nia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>ABSTRACT</B></p>     <p>The end of the Cold War gave rise to American unipolarity in the international system. With the rise of new powers such as the BRICS, the present distribution of power is gradually being challenged in favor of multipolarity in the international system, while at the same time the U.S. strategy is changing. This article aims to argue that the current crisis in Ukraine could represent a milestone in the transition from unipolarity to multipolarity based on revisionist actions by the Russian Federation since these same actions contest the rules and regulations of the post-Cold War world. We will analyze the US foreign policy in the Ukrainian crisis to corroborate this argument.</p>     <p><B>Keywords: </B>unipolarity, multipolarity, United States, Ukraine</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A actual conjuntura internacional poder&aacute; contribuir para o acentuar da redefini&ccedil;&atilde;o da distribui&ccedil;&atilde;o do poder no sistema internacional, na passagem da unipolaridade para a multipolaridade com a lideran&ccedil;a norte-americana e, por fim, &agrave; plena multipolaridade com a crise ucraniana. A legitimidade norte-americana volta a ser crescentemente contestada, seja por estados soberanos, como a Rep&uacute;blica Popular da China (RPC) na &Aacute;sia-Pac&iacute;fico, ou por autodenominados estados, como o Estado Isl&acirc;mico no M&eacute;dio Oriente.</p>     <p>O sistema internacional sofreu transforma&ccedil;&otilde;es na distribui&ccedil;&atilde;o do poder ao longo da Hist&oacute;ria. Foi assim em 1648, 1815, 1919, 1945 e, por fim, em 1991<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. A teoria realista das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais afirma que o redefinir do sistema internacional s&oacute; pode ocorrer depois de um conflito b&eacute;lico que seja forte o suficiente para o modificar, ou seja, em consequ&ecirc;ncia de um conflito hegem&oacute;nico. A Guerra Fria foi um produto da Segunda Guerra Mundial e da consequente ascens&atilde;o no sistema internacional de duas superpot&ecirc;ncias com ideologias e interesses antag&oacute;nicos &ndash; os Estados Unidos e a URSS. O conflito hegem&oacute;nico deveria ser seguido de uma confer&ecirc;ncia entre as grandes pot&ecirc;ncias vencedoras em que fossem definidas as novas regras, leis e institui&ccedil;&otilde;es da nova ordem internacional. Foi assim em Vestef&aacute;lia, Viena, Versalhes e Ialta, mas n&atilde;o em 1991 com o fim da Guerra Fria.</p>     <p>O mundo deparou-se durante quarenta e quatro anos com um sistema de distribui&ccedil;&atilde;o de poder bipolar, caracterizado pela potencialidade da destrui&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua assegurada &nbsp;(<i>mutual assured destruction</i>). Com a queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989 e a posterior implos&atilde;o da ex-URSS, em Dezembro de 1991, desapareceu uma das duas superpot&ecirc;ncias da bipolaridade e o sistema internacional transformou-se pacificamente, contrariando a vis&atilde;o realista de que tal apenas poderia ocorrer em consequ&ecirc;ncia de uma guerra hegem&oacute;nica. Porque o sistema internacional p&oacute;s-1945 foi constru&iacute;do principalmente pelos Estados Unidos, a sua continuidade parecia consolidar as suas regras, normas e institui&ccedil;&otilde;es, englobando assim os estados que se localizavam no Bloco de Leste<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.</p>     <p>Neste contexto surgiu a apologia do fim da Hist&oacute;ria de Francis Fukuyama (1999) e a expectativa da expans&atilde;o da vis&atilde;o liberal-institucionalista<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>. Defendeu-se a alegada supremacia do sistema capitalista, e sua consequente globaliza&ccedil;&atilde;o, bem como da democra-cia-liberal perante todas as outras alternativas estruturantes da sociedade e do modo de produ&ccedil;&atilde;o. &Eacute; neste contexto que o alargamento da Uni&atilde;o Europeia (UE) e da Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado do Atl&acirc;ntico Norte (NATO) se iniciou. Com a inten&ccedil;&atilde;o de desenvolver uma pol&iacute;tica externa a UE criou a Pol&iacute;tica Externa de Seguran&ccedil;a e Defesa (pesc) (1993), que veio a ser refor&ccedil;ada pela Pol&iacute;tica Europeia de Seguran&ccedil;a e Defesa (pesd) (1999), pela Pol&iacute;tica de Alargamento e, por fim, pela Pol&iacute;tica Europeia de Vizinhan&ccedil;a (pev) (2004). Foram criadas as necess&aacute;rias pol&iacute;ticas para a expans&atilde;o da UE e do seu modelo neoliberal para Leste, para que se desse a ades&atilde;o da Pol&oacute;nia e da Hungria, entre outros estados. O cerne da pol&iacute;tica externa da UE na sua periferia baseia-se na exporta&ccedil;&atilde;o do seu ordenamento pol&iacute;tico e econ&oacute;mico interno: legitima as suas interven&ccedil;&otilde;es nos estados da periferia europeia com a ajuda econ&oacute;mica e a promessa de uma eventual ades&atilde;o, ao mesmo tempo que lhes imp&otilde;e condi&ccedil;&otilde;es para a receberem e para aderirem ao projecto europeu: reformas econ&oacute;micas transformativas de cariz neoliberal e reformas das institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Na base do alargamento encontra-se a cren&ccedil;a liberal de que a democracia e a interdepend&ecirc;ncia econ&oacute;mica evitam conflitos b&eacute;licos, garantindo assim a paz e a seguran&ccedil;a da periferia europeia e, principalmente, do centro, acrescen-tando-se os interesses agr&iacute;colas e energ&eacute;ticos, como no caso ucraniano<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>. A UE olha para o Leste como a representa&ccedil;&atilde;o de uma oportunidade de refor&ccedil;ar a sua seguran&ccedil;a econ&oacute;mica e energ&eacute;tica<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. No caso da Ucr&acirc;nia, foi criada a Parceria Oriental<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>(2009), seguindo a orienta&ccedil;&atilde;o geral da pev, que definiu como prioridades a transi&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o dos regimes democr&aacute;ticos, a promo&ccedil;&atilde;o gradual da economia, a mobilidade dos cidad&atilde;os, a associa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e o aprofundamento da coopera&ccedil;&atilde;o, bem como o respeito pelos direitos humanos, pelo Estado de direito, pela democracia e pela economia de mercado.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A par do alargamento da UE, assistiu-se &agrave; expans&atilde;o da NATO para o Leste europeu, e para o espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico, no caso dos pa&iacute;ses b&aacute;lticos, ap&oacute;s o fim da Guerra Fria.</p>     <p>Na base da expans&atilde;o da Alian&ccedil;a encontrava-se a mudan&ccedil;a estrat&eacute;gica da mesma, impulsionada pelos Estados Unidos, do <i>containment</i><sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>para o <i>enlargement</i>, por entenderem que novasamea&ccedil;as se colocavam &agrave; paz e seguran&ccedil;a do sistema internacional, principalmente no seu espa&ccedil;o pr&oacute;ximo, como o terrorismo, a prolifera&ccedil;&atilde;o nuclear, os conflitos intraestatais, entre outros<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>. O Conceito Estrat&eacute;gico da NATO de 1991 espelhou esta mudan&ccedil;a estrat&eacute;gica, criando a Parceria para a Paz. O alargamento teve por base dois objectivos: primeiro, o anseio de estender as suas miss&otilde;es e capacidade de resposta fora das suas fronteiras; e, segundo, responder ao desejo dos estados que pretendiam aderir &agrave; NATO por considerarem que desta forma estariam mais seguros face a uma eventual ascens&atilde;o da Federa&ccedil;&atilde;o Russa e da sua inger&ecirc;ncia nos seus assuntos internos e tamb&eacute;m pelo facto de virem a ter acesso a meios militares que de outra forma n&atilde;o teriam<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>. Em 1999, ocorreram as primeiras ades&otilde;es de estados do ex-Bloco de Leste &agrave; NATO, como a Rep&uacute;blica Checa, a Pol&oacute;nia e a Hungria, al&eacute;m de se ter formado, em 1997, o Conselho da Parceria Euro-Atl&acirc;ntica com pa&iacute;ses do eea que n&atilde;o eram membros da Alian&ccedil;a. Em 2004 e 2009, a NATO consolidou a sua expans&atilde;o com as ades&otilde;es da Bulg&aacute;ria, Eslov&eacute;nia, Eslov&aacute;quia, Est&oacute;nia, Let&oacute;nia, Litu&acirc;nia, Rom&eacute;nia, Alb&acirc;nia e Cro&aacute;cia, respectivamente<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>. O alargamento da organiza&ccedil;&atilde;o entrou assim no espa&ccedil;o de influ&ecirc;ncia que a Federa&ccedil;&atilde;o Russa considera seu privil&eacute;gio num momento em que n&atilde;o possu&iacute;a as capacidades necess&aacute;rias para o impedir. A R&uacute;ssia aderiu tamb&eacute;m &agrave; Parceria para a Paz quando esta foi criada, assinou o NATO-Russia Founding Act, em 1997, e aceitou criar o Conselho NATO-R&uacute;ssia, em 2002.</p>     <p>O alargamento da UE e da NATO espelharam a nova distribui&ccedil;&atilde;o de poder unipolar no sistema internacional. Se no caso da UE o alargamento foi apoiado pelos Estados Unidos, no caso da NATO foram os Estados Unidos os grandes impulsionadores da expans&atilde;o no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico. A implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de alargamento a estados cada vez mais importantes para os interesses russos e pr&oacute;ximos das suas fronteiras aumentou a possibilidade de eventuais choques com a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, possibilidade que se materializou com a crise georgiana, em 2008, e actualmente na crise ucraniana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>DECL&Iacute;NIO E ASCENS&Atilde;O DA FEDERA&Ccedil;&Atilde;O RUSSA</b></p>     <p>A Federa&ccedil;&atilde;o Russa, herdeira do imp&eacute;rio sovi&eacute;tico, entrou, na d&eacute;cada de 1990, numa fase de acentuada destabiliza&ccedil;&atilde;o e decl&iacute;nio, tanto no interior como no exterior das suas fronteiras, protagonizada pelo ent&atilde;o Presidente Boris Ieltsin, ao iniciar a aplica&ccedil;&atilde;o da doutrina econ&oacute;mica neoliberal. De uma burocracia degenerada que controlava o poder pol&iacute;tico do Kremlin, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa passou a ter uma classe de oligarcas nascida com a venda massiva das empresas p&uacute;blicas e de recursos p&uacute;blicos da ex-URSS em processos muito pouco transparentes<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.</p>     <p>A Federa&ccedil;&atilde;o Russa &eacute; um dos poucos exemplos na Hist&oacute;ria de uma superpot&ecirc;ncia que abandonou voluntariamente os princ&iacute;pios de governo e ideologia que anteriormente a sustentavam, adoptando os dos seus advers&aacute;rios no sistema internacional, mas mantendo as suas grandiosas ambi&ccedil;&otilde;es de poder<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>. No entanto, se por um lado a Federa&ccedil;&atilde;o Russa possui algumas das caracter&iacute;sticas que definem uma grande pot&ecirc;ncia no actual sistema internacional liberal-institucional, como o direito de veto no Conselho de Seguran&ccedil;a das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (CSNU), o facto de ser uma pot&ecirc;ncia nuclear e de integrar organiza&ccedil;&otilde;es internacionais fundamentais &ndash; como a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Com&eacute;rcio (omc) desde 2011 &ndash;, por outro lado, est&atilde;o ausentes outros elementos que s&atilde;o fundamentais na defini&ccedil;&atilde;o de uma grande pot&ecirc;ncia, como uma taxa demogr&aacute;fica est&aacute;vel, a diversifica&ccedil;&atilde;o dos factores de produ&ccedil;&atilde;o de riqueza e crescimento econ&oacute;mico e <i>soft power</i><sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>. Estes &uacute;ltimos elementos fazem com que a ascens&atilde;o da Federa&ccedil;&atilde;o Russa n&atilde;o seja est&aacute;vel, colocando em risco tanto as pol&iacute;ticas seguidas at&eacute; ao momento no sistema internacional como as praticadas a n&iacute;vel interno. Ao mesmo tempo que a R&uacute;ssia tinha de construir uma nova legitimidade pol&iacute;tica e consolidar a sua nova posi&ccedil;&atilde;o no sistema internacional<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>, Moscovo viu-se confrontada com a incapacidade de travar o momento unipolar norte-americano em consequ&ecirc;ncia dos seus problemas internos, como a instabilidade pol&iacute;tica, o inexistente ou fraco crescimento econ&oacute;mico e as debilidades do seu aparelho militar parcamente modernizado. Foi um per&iacute;odo de reac&ccedil;&atilde;o, mesmo que pouca, em vez de ac&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Foi neste contexto, em 2000, que a ascens&atilde;o de Vladimir Putin &agrave; presid&ecirc;ncia ocorreu. Putin come&ccedil;ou por demonstrar uma posi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a no conflito da Thetch&eacute;nia e a inflacionar o pre&ccedil;o do petr&oacute;leo e do g&aacute;s, fundamental para uma economia fortemente dependente da explora&ccedil;&atilde;o destes recursos. O pre&ccedil;o do barril ultrapassou os 50 d&oacute;lares por unidade<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>. Em consequ&ecirc;ncia, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa come&ccedil;ou a alcan&ccedil;ar o crescimento econ&oacute;mico que lhe permitiu renovar o seu obsoleto aparelho militar e come&ccedil;ar a utilizar a depend&ecirc;ncia energ&eacute;tica de estados pertencentes ao espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico como instrumento pol&iacute;tico. Putin iniciou o seu objectivo primordial: restituir a ordem e o nacional aos russos e recuperar o equil&iacute;brio de poder com os Estados Unidos<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>. Acrescenta-se tamb&eacute;m o facto de o decl&iacute;nio russo ser percepcionado pelos seus cidad&atilde;os como um per&iacute;odo de vergonha e humilha&ccedil;&atilde;o perpetrado pelo Ocidente, o que, a par da repress&atilde;o e da propaganda, permite o exacerbar do nacionalismo e a ascens&atilde;o de uma autocracia personificada em Vladimir Putin. Assim, o nacionalismo sustenta o fortalecimento do poder e o prest&iacute;gio interno do actual Presidente russo. Posto isto, &eacute; poss&iacute;vel que, caso a pol&iacute;tica externa russa sofra um s&eacute;rio rev&eacute;s, este tenha impacto na estabilidade pol&iacute;tica interna russa e na perman&ecirc;ncia de Putin no Kremlin e na sua afirma&ccedil;&atilde;o como l&iacute;der incontest&aacute;vel. Segundo Richard Sakwa, a pol&iacute;tica externa russa, de 1991 at&eacute; 2014, pode ser subdividida em quatro fases: o &laquo;internacionalismo liberal&raquo; (1991-1996), a &laquo;competitividade pragm&aacute;tica&raquo; (1996-2000), o &laquo;novo realismo&raquo; (2000-2012) e o &laquo;neo-revisionismo&raquo; (2012-2014). A fase do internacionalismo liberal ficou marcada pela &laquo;casa comum europeia&raquo; de Gorbatchev e pela abertura econ&oacute;mica russa atrav&eacute;s da aplica&ccedil;&atilde;o de medidas neoliberais. Esta fase foi prosseguida pelo ent&atilde;o ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros, Andrei Kozyrev, com o refor&ccedil;o das rela&ccedil;&otilde;es com as Comunidades Europeias, com a ades&atilde;o &agrave; Parceria para a Paz da NATO (1994) e ao Conselho da Europa (1996). Contudo, a abertura ao Ocidente n&atilde;o correspondeu ao crescimento econ&oacute;mico expect&aacute;vel nem ao estatuto de grande pot&ecirc;ncia, anseios que os russos granjeavam durante o processo de transi&ccedil;&atilde;o. Entrou-se na segunda fase, a da competitividade pragm&aacute;tica que se baseou tanto numa vis&atilde;o cr&iacute;tica sobre o Ocidente, como na coopera&ccedil;&atilde;o com o mesmo dependendo da problem&aacute;tica e dos interesses em quest&atilde;o, optando tamb&eacute;m pelo desenvolvimento de rela&ccedil;&otilde;es com a &Iacute;ndia, M&eacute;dio Oriente e RPC. Esta fase foi prosseguida por Evegny Primakov, ent&atilde;o ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros, permitindo &agrave; Federa&ccedil;&atilde;o Russa um maior equil&iacute;brio na sua pol&iacute;tica externa, tendo como base a sua ambival&ecirc;ncia Europa-&Aacute;sia. A Federa&ccedil;&atilde;o Russa iniciou neste per&iacute;odo o reafirmar do seu desejo de uma ordem multipolar, na qual teria uma import&acirc;ncia fundamental na defini&ccedil;&atilde;o das v&aacute;rias quest&otilde;es. Com a chegada de Vladimir Putin &agrave; presid&ecirc;ncia inaugurou-se um novo per&iacute;odo, o do &laquo;novo realismo&raquo;. Este baseou-se na vis&atilde;o realista do interesse nacional no sistema internacional atrav&eacute;s da procura de equil&iacute;brios e vantagens competitivas para a Federa&ccedil;&atilde;o Russa. Este per&iacute;odo foi tamb&eacute;m caracterizado pela tentativa de a R&uacute;ssia tentar estabelecer proveitos m&uacute;tuos atrav&eacute;s da sua integra&ccedil;&atilde;o em estruturas europeias e globais<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>. A quarta e &uacute;ltima fase, o &laquo;neo-revisionismo&raquo;, iniciou-se com o discurso de Putin na Confer&ecirc;ncia sobre Seguran&ccedil;a de Munique, em 2007. Putin afirmou de forma clara o seu descontentamento com as pol&iacute;ticas norte-americanas e europeias no espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico, como o sistema de defesa antim&iacute;sseis e o conflito do Kosovo. Esta nova fase baseia-se no reafirmar da Federa&ccedil;&atilde;o Russa no sistema internacional, tendo como pano de fundo o desenvolvimento e crescimento econ&oacute;mico baseados nas receitas da venda de recursos energ&eacute;ticos e de armamento<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>.</p>     <p>&nbsp;No <i>Russian National Security Strategy 2020</i>, redigido em 2009, o Kremlin reafirmou o fim da unipolaridade, bem como o estabelecimento da Federa&ccedil;&atilde;o Russa como grande pot&ecirc;ncia global com os seus grandes objectivos<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>. Em complemento, este Estado tenta impor o seu estatuto enquanto pot&ecirc;ncia euro-asi&aacute;tica respons&aacute;vel, tal como ficou expl&iacute;cito na proposta do ent&atilde;o Presidente Dmitry Medvedev (2008-2012) quanto &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de uma nova arquitectura de seguran&ccedil;a euro-atl&acirc;ntica, em que o papel da Federa&ccedil;&atilde;o Russa seria reconhecido tanto pelos Estados Unidos como pela Europa Ocidental.</p>     <p>Perante estes desenvolvimentos &eacute; claro que a Federa&ccedil;&atilde;o Russa n&atilde;o aceita os resultados do fim da ordem bipolar, nomeadamente a unipolaridade norte-americana, e, portanto, pretende assumir um destacado papel entre as pot&ecirc;ncias emergentes, inserindo-se no brics. A par desta postura no sistema internacional, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa objectiva consolidar a sua posi&ccedil;&atilde;o enquanto interlocutor entre o Ocidente e o Oriente, onde a sua parceria estrat&eacute;gica com a RPC assume uma import&acirc;ncia consider&aacute;vel, a par da actua&ccedil;&atilde;o no seio do grupo brics &ndash; s&iacute;mbolo das pot&ecirc;ncias emergentes &ndash; capaz de contrabalan&ccedil;ar a unipolaridade norte-americana<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com este percurso de pol&iacute;tica externa, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa assume uma posi&ccedil;&atilde;o soberanista e vestefaliana nas suas rela&ccedil;&otilde;es com outros estados no sistema internacional, excepto no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico, onde atribui a si pr&oacute;pria um <i>droit de regard </i>para intervir unilateralmente sempre que achar apropriado, mesmo que, para defender os seus interesses, tenha de violar o Direito Internacional, como se observou na Guerra da Ge&oacute;rgia, em 2008. Em contraponto, no sistema internacional a Federa&ccedil;&atilde;o Russa assume uma posi&ccedil;&atilde;o hesitante no uso da for&ccedil;a militar, principalmente por n&atilde;o subscrever o princ&iacute;pio da inger&ecirc;ncia nos assuntos internos dos outros estados; rejeita assim o <i>responsibility to protect </i>(r2p)<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a>, receando que caso o aceite esteja a abrir um precedente que, no futuro, possa ser utilizado contra si pr&oacute;pria, tendo em perspectiva a situa&ccedil;&atilde;o na Tchetch&eacute;nia<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a>.</p>     <p>O principal instrumento que a Federa&ccedil;&atilde;o Russa utiliza no espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico, principalmente no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico, &eacute; a depend&ecirc;ncia energ&eacute;tica (produtor e fornecedor) que outros estados t&ecirc;m da R&uacute;ssia: os decisores pol&iacute;ticos russos instrumentalizam os vastos recursos energ&eacute;ticos presentes no seu territ&oacute;rio para projectarem poder pol&iacute;tico no sistema internacional. Por outras palavras, a energia torna os pa&iacute;ses vizinhos suscept&iacute;veis de press&atilde;o pol&iacute;tica e diplom&aacute;tica por parte de Moscovo com o intuito de for&ccedil;ar a altera&ccedil;&atilde;o do posicionamento externo desses mesmos estados, tal como aconteceu na Ucr&acirc;nia em 2006 e 2009<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>.</p>     <p>As ac&ccedil;&otilde;es da Federa&ccedil;&atilde;o Russa pautam-se por tr&ecirc;s objectivos que considera fundamentais para salvaguardar os seus interesses nacionais no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico: a manuten&ccedil;&atilde;o da sua presen&ccedil;a militar, a protec&ccedil;&atilde;o dos russos &eacute;tnicos e a obten&ccedil;&atilde;o de vantagens econ&oacute;micas<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a>. Por sua vez, a import&acirc;ncia do espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico para a pol&iacute;tica externa russa baseia-se, de forma algo sum&aacute;ria, em quatro raz&otilde;es: <i>i</i>) um passado hist&oacute;rico comum e a localiza&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica que a tornam numa &aacute;rea de import&acirc;ncia estrat&eacute;gica entre Ocidente e Oriente; <i>ii</i>) os la&ccedil;os econ&oacute;micos que ligam a Federa&ccedil;&atilde;o Russa a estes estados continuam a ser importantes, principalmente no que concerne a mercados e rotas de tr&acirc;nsito de energia, pretendendo criar a Uni&atilde;o Econ&oacute;mica Euro-Asi&aacute;tica desde 2011; <i>iii</i>) as quest&otilde;es de seguran&ccedil;a na vizinhan&ccedil;a russa s&atilde;o fundamentais por facilmente poderem colocar a pr&oacute;pria seguran&ccedil;a da Federa&ccedil;&atilde;o Russa, principalmente quanto &agrave;s amea&ccedil;as islamistas e ao alargamento institucional da NATO, considerada pelos russos como uma organiza&ccedil;&atilde;o internacional mantida no p&oacute;s-Guerra Fria com o objectivo de fazer frente &agrave;s suas aspira&ccedil;&otilde;es; <i>iv</i>) a crescente influ&ecirc;ncia ocidental no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico coloca em causa a influ&ecirc;ncia russa, o que poderia eventualmente minar a Comunidade de Estados Independentes (CEI), criada ap&oacute;s o colapso da ex-URSS<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a>, e o projecto da Uni&atilde;o Econ&oacute;mica Euro-Asi&aacute;tica<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>OS ESTADOS UNIDOS NA TRANSI&Ccedil;&Atilde;O PARA A MULTIPOLARIDADE</b></p>     <p>O fim da Guerra Fria e da ordem bipolar iniciou um prolongado debate sobre a distribui&ccedil;&atilde;o de poder no sistema internacional. Debateu-se se a unipolaridade seria duradoura, como defende William Wohlforth<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a>, ou apenas um momento transit&oacute;rio para a multipolaridade, tal como afirma Christopher Layne<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a>. Acreditamos que o fen&oacute;meno unipolar foi transit&oacute;rio e que podemos estar a assistir a essa transi&ccedil;&atilde;o com a crise ucraniana. Na base da tese da unipolaridade duradoura encontram-se tr&ecirc;s argumentos: <i>i</i>) o sistema &eacute; claramente unipolar porque os estados possuem superioridade de poder perante todas as outras grandes pot&ecirc;ncias juntas em &aacute;reas como a militar, a econ&oacute;mica, a pol&iacute;tica, tecnol&oacute;gica, a cultural e a geopol&iacute;tica; <i>ii</i>) a unipolaridade &eacute; pac&iacute;fica porque a disputa pela hegemonia entre as grandes pot&ecirc;ncias deixou de existir; <i>iii</i>) a unipolaridade pode durar tanto ou mais que a bipolaridade porque a combina&ccedil;&atilde;o da superioridade do poder norte-americano com a sua posi&ccedil;&atilde;o geoestrat&eacute;gica impede a forma&ccedil;&atilde;o de uma coliga&ccedil;&atilde;o para contrabalan&ccedil;ar o seu poder<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a>.</p>     <p>Por sua vez, a teoria da unipolaridade transit&oacute;ria defende que a unipolaridade &eacute; perigosa e inst&aacute;vel por obrigar as restantes pot&ecirc;ncias do sistema internacional a terem de se opor &agrave; pot&ecirc;ncia hegem&oacute;nica, atrav&eacute;s de mecanismos de equil&iacute;brio, e de cria&ccedil;&atilde;o de coliga&ccedil;&otilde;es anti-hegem&oacute;nicas. Quando um Estado se torna demasiado poderoso no sistema internacional, os restantes t&ecirc;m a tend&ecirc;ncia para fazerem alian&ccedil;as, tanto formais como informais. Pretende-se limitar o poder da pot&ecirc;ncia hegem&oacute;nica, quer seja atrav&eacute;s do Direito Internacional, quer atrav&eacute;s de alian&ccedil;as militares, pol&iacute;ticas, diplom&aacute;ticas e econ&oacute;micas com o objectivo de contrabalan&ccedil;ar o poder do Estado hegem&oacute;nico. Tenta-se transformar a ordem unipolar numa ordem multipolar.</p>     <p>As invas&otilde;es do Afeganist&atilde;o em 2001 e do Iraque em 2003, lideradas pelos Estados Unidos durante a Administra&ccedil;&atilde;o de George W. Bush, foram express&otilde;es evidentes da distribui&ccedil;&atilde;o unipolar do poder no sistema internacional a favor dos Estados Unidos, bem como da sua vontade em utilizar as suas capacidades na prossecu&ccedil;&atilde;o dos seus interesses nacionais. No entanto, o desgaste moral e econ&oacute;mico provocado durante anos devido aos referidos conflitos, uma opini&atilde;o p&uacute;blica interna crescentemente c&eacute;ptica, assim como a crise econ&oacute;mico-financeira de 2008 e a ascens&atilde;o da RPC a potencial pot&ecirc;ncia hegem&oacute;nica no sistema internacional levaram a Administra&ccedil;&atilde;o de Barack Obama a repensar a pol&iacute;tica externa norte-americana: por um lado, teve de optar por uma retrac&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica para responder &agrave; crise econ&oacute;mico-financeira, e, por outro, teve de se concentrar na regi&atilde;o da &Aacute;sia-Pac&iacute;fico com o objectivo de conter a crescente ascens&atilde;o da RPC.</p>     <p>Tal como afirma Christopher Layne, os Estados Unidos est&atilde;o em retrac&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica com vista &agrave; adop&ccedil;&atilde;o de uma nova Grande Estrat&eacute;gia de <i>offshore balancing</i><sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a>para salvaguardarem a unipolaridade no sistema internacional<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a>. Esta nova estrat&eacute;gia obriga ao assumir de crescentes responsabilidades pelos aliados da superpot&ecirc;ncia, principalmente no espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico, onde s&atilde;o observ&aacute;veis as press&otilde;es norte-americanas para que os estados-membros da NATO invistam mais na defesa. Isto permite aos Estados Unidos concentrarem as suas for&ccedil;as nas restantes regi&otilde;es que consideram estrategicamente vitais, como o M&eacute;dio Oriente e a &Aacute;sia-Pac&iacute;fico.</p>     <p>Quanto ao redireccionamento para a regi&atilde;o da &Aacute;sia-Pac&iacute;fico, tal op&ccedil;&atilde;o foi confirmada com a publica&ccedil;&atilde;o do artigo <i>America&rsquo;s Pacific Century </i>pela ent&atilde;o secret&aacute;ria de Estado, Hillary Clinton. Clinton afirmou que a prioridade da pol&iacute;tica externa norte-americana se deslocou do espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico para a &Aacute;sia-Pac&iacute;fico, rompendo assim com a prioridade dos &uacute;ltimos setenta anos, a Europa<sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um segundo elemento importante na defini&ccedil;&atilde;o da grande estrat&eacute;gia da Administra&ccedil;&atilde;o de Barack Obama &eacute; o <i>Defense Strategic Guidance</i>, publicado em Janeiro de 2012<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a>. Al&eacute;m de reafirmar o direccionamento para a &Aacute;sia-Pac&iacute;fico, este documento definiu um conjunto de medidas pr&aacute;ticas que sustentam essa op&ccedil;&atilde;o: <i>i</i>) redu&ccedil;&atilde;o do or&ccedil;amento da Defesa em 480 milhar de milh&otilde;es de usd nos pr&oacute;ximos dez anos; <i>ii</i>) a redu&ccedil;&atilde;o de 520 mil efectivos ao n&iacute;vel do Ex&eacute;rcito num universo de 1,3 milh&otilde;es de soldados; <i>iii</i>) a retirada de 80 mil tropas localizadas na Europa; <i>iv</i>) um novo acordo start<sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a>com a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, que entretanto (2010) foi ratificado pelo Senado e pelo Congresso; <i>v</i>) o abandono de programas militares em curso ou que ainda n&atilde;o se tinham iniciado. Outra das novidades do documento foi a altera&ccedil;&atilde;o da concep&ccedil;&atilde;o das For&ccedil;as Armadas &ndash; terem de ser capazes de deixar de combater em duas guerras simultaneamente para passarem a &laquo;uma guerra em larga escala&raquo;, impondo enormes custos a um &laquo;agressor oportunista numa segunda regi&atilde;o&raquo;<sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a>.</p>     <p>O mais recente documento, o <i>National Security Strategy</i> (<i>nss</i>) de Fevereiro de 2015<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a>, veio reafirmar o <i>pivot </i>para a regi&atilde;o da &Aacute;sia-Pac&iacute;fico, quatro anos depois da publica&ccedil;&atilde;o do artigo de Hillary Clinton. No <i>nss </i>2015 pode ler-se:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Para concretizar esta vis&atilde;o estamos a diversificar as nossas rela&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a na &Aacute;sia, bem como a nossa postura de defesa e presen&ccedil;a. Estamos a modernizar as nossas alian&ccedil;as com o Jap&atilde;o, Coreia do Sul, Austr&aacute;lia e Filipinas e a melhorar as interac&ccedil;&otilde;es entre estes para garantir que s&atilde;o totalmente capazes de responder aos desafios regionais e globais. Estamos comprometidos com o fortalecimento das institui&ccedil;&otilde;es regionais, como a asean, a Cimeira do Leste Asi&aacute;tico e a Coopera&ccedil;&atilde;o Econ&oacute;mica para a &Aacute;sia-Pac&iacute;fico a fim de refor&ccedil;ar as regras e normas partilhadas, incentivar respostas colectivas para desafios comuns e ajudar a garantir a resolu&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica de conflitos.&raquo;</blockquote>     <p></p>     <p>Tendo em conta estes tr&ecirc;s documentos, as For&ccedil;as Armadas norte-americanas centrar-se-&atilde;o doravante no M&eacute;dio Oriente, na &Aacute;sia-Pac&iacute;fico e na Europa enquanto regi&otilde;es estrategicamente fundamentais para garantir a posi&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos no sistema internacional. O M&eacute;dio Oriente assume relev&acirc;ncia devido &agrave; alian&ccedil;a bilateral com Israel e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com estados-membros pertencentes ao Conselho de Coopera&ccedil;&atilde;o do Golfo, principalmente a Ar&aacute;bia Saudita, com o objectivo de conter as ambi&ccedil;&otilde;es de hegemonia regional do Ir&atilde;o e de garantir o abastecimento de mat&eacute;rias-primas energ&eacute;ticas, como o petr&oacute;leo. A import&acirc;ncia da &Aacute;sia-Pac&iacute;fico prende-se com as crescentes ambi&ccedil;&otilde;es da RPC, o conflito entre as duas Coreias, a nucleariza&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Popular da Coreia do Norte e a expans&atilde;o do fundamentalismo isl&acirc;mico. Segundo o <i>nss </i>2015, os Estados Unidos assumem duas posi&ccedil;&otilde;es perante a RPC. Se por um lado consideram esta pot&ecirc;ncia emergente como um potencial parceiro no combate a desafios comuns, como as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas e o crescimento econ&oacute;mico, por outro pretendem gerir as rela&ccedil;&otilde;es com a China numa posi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a com o objectivo de esta continuar a cumprir e respeitar as regras e normas da ordem internacional nas quest&otilde;es de seguran&ccedil;a internacional e de direitos humanos, ao mesmo tempo que monitorizam a sua moderniza&ccedil;&atilde;o militar e expans&atilde;o na regi&atilde;o.</p>     <p>Quanto ao continente europeu existem tr&ecirc;s quest&otilde;es que mant&ecirc;m a import&acirc;ncia da Europa para os Estados Unidos: a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, a economia (crise econ&oacute;mico-financeira) e a NATO. No que concerne &agrave; Federa&ccedil;&atilde;o Russa, os Estados Unidos pretendem impedir o fortalecimento da influ&ecirc;ncia russa na Europa, sobretudo no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico. A crise econ&oacute;mico-financeira na Europa &eacute; uma quest&atilde;o importante para a pol&iacute;tica externa norte-americana visto que a debilidade da Europa facilitou a ascens&atilde;o econ&oacute;mica dos brics, diminuindo o poder econ&oacute;mico do Ocidente, e porque pode colocar em causa o projecto europeu, o que &eacute; paut&aacute;vel com o crescimento de partidos de extrema-direita em v&aacute;rios estados-membros da UE. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, um poss&iacute;vel colapso da UE facilitaria o aumento da influ&ecirc;ncia russa em todo o continente europeu, fragilizando, por consequ&ecirc;ncia, a influ&ecirc;ncia norte-americana no mesmo. Por fim, a NATO assume-se como fundamental por se constituir, na perspectiva norte-americana, como um pilar fundamental nas rela&ccedil;&otilde;es transatl&acirc;nticas e como contraponto &agrave; amea&ccedil;a que a R&uacute;ssia demonstra ser para si e para os seus parceiros europeus.</p>     <p>A retrac&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica, vis&iacute;vel no chamado <i>leading from behind </i>dos Estados Unidos na interven&ccedil;&atilde;o na L&iacute;bia conduzida pela NATO e no apoio log&iacute;stico &agrave; Fran&ccedil;a no Mali, tra-duziu-se na redefini&ccedil;&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o internacional dos Estados Unidos como &laquo;pol&iacute;cia do mundo&raquo; numa posi&ccedil;&atilde;o que privilegia o multilateralismo e a legitimidade do Conselho de Seguran&ccedil;a &ndash; em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s ac&ccedil;&otilde;es militares unilaterais da Administra&ccedil;&atilde;o Bush (2000-2008) &ndash; na responsabilidade de garantir a paz e seguran&ccedil;a no sistema internacional. No entanto, esta retrac&ccedil;&atilde;o &eacute; identificada por certas pot&ecirc;ncias como sendo o acentuar do decl&iacute;nio norte-americano, e at&eacute; mesmo do Ocidente; a transforma&ccedil;&atilde;o de um sistema unipolar para um multipolar, em que as pot&ecirc;ncias emergentes, como os brics, ser&atilde;o preponderantes.</p>     <p>Assim, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa e a RPC envidam esfor&ccedil;os com o intuito de colocarem em causa as actuais regras liberais-institucionalistas que regem o sistema internacional no per&iacute;odo p&oacute;s-Guerra Fria. Para tal, &eacute; constat&aacute;vel uma parceria estrat&eacute;gica entre estes dois estados nas grandes quest&otilde;es que assolam o sistema internacional: a nucleariza&ccedil;&atilde;o do Ir&atilde;o, as crises nucleares com a Coreia do Norte, a guerra civil na S&iacute;ria, o terrorismo e o direito de n&atilde;o-inger&ecirc;ncia e, por fim, na actual crise na Ucr&acirc;nia. Esta coopera&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; espelhada na Organiza&ccedil;&atilde;o de Coopera&ccedil;&atilde;o de Xangai (ocx), fundada em Junho de 2001, com o objectivo de promover a coopera&ccedil;&atilde;o militar e de seguran&ccedil;a, tornando-se num bloco militar significativo na regi&atilde;o da &Aacute;sia Central, com o objectivo de excluir os Estados Unidos da regi&atilde;o. Neste &acirc;mbito, realizaram-se in&uacute;meros exerc&iacute;cios militares desde 2003<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a>. &Eacute; de real&ccedil;ar o &laquo;Peace Mission 2005&raquo; por este ter sido o primeiro exerc&iacute;cio bilateral conjunto a envolver for&ccedil;as a&eacute;reas, marinhas e terrestres. &Eacute; tamb&eacute;m importante referir que tanto a Federa&ccedil;&atilde;o Russa como a RPC defendem que estes exerc&iacute;cios n&atilde;o visam um advers&aacute;rio em concreto &ndash; os Estados Unidos, entenda-se &ndash; mas apenas o refor&ccedil;o da seguran&ccedil;a na &Aacute;sia-Pac&iacute;fico e da coopera&ccedil;&atilde;o intra-organizacional<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a>. Esta organiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m assume interesses e objectivos distintos pelas duas principais pot&ecirc;ncias suas propulsionadoras, apesar da uni&atilde;o em prol da exclus&atilde;o dos Estados Unidos<sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a>. Para a Federa&ccedil;&atilde;o Russa &eacute; um instrumento para contrabalan&ccedil;ar o alargamento institucional da NATO; para a RPC &eacute; um instrumento de penetra&ccedil;&atilde;o na &Aacute;sia Central com o objectivo de contrabalan&ccedil;ar a Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado de Defesa Colectiva (csto), patrocinada pela Federa&ccedil;&atilde;o Russa<sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a>. Por &uacute;ltimo, a ocx &eacute; tamb&eacute;m um mecanismo de conten&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua entre a Federa&ccedil;&atilde;o Russa e a RPC, no que concerne &agrave; &Aacute;sia Central. Em contraponto a esta perspectiva, pode-se defender que n&atilde;o se observa o decl&iacute;nio dos Estados Unidos, mas sim a ascens&atilde;o de outras pot&ecirc;ncias, como os brics, alterando-se a distribui&ccedil;&atilde;o de poder no sistema internacional a favor da multipolaridade. A ascens&atilde;o econ&oacute;mico-financeira destas pot&ecirc;ncias ser&aacute; provavelmente acompanhada pelo fortalecimento gradual do seu poder militar, nivelando as capacidades das v&aacute;rias pot&ecirc;ncias no sistema internacional em prol da multipolaridade. A actual crise econ&oacute;mico-finan-ceira est&aacute; a contribuir para o acelerar da desloca&ccedil;&atilde;o de poder do Ocidente para os pa&iacute;ses emergentes com base no poder econ&oacute;mico-financeiro<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a>.</p>     <p>Quer haja decl&iacute;nio ou manuten&ccedil;&atilde;o da principal pot&ecirc;ncia, &eacute; paut&aacute;vel a redefini&ccedil;&atilde;o gradual do sistema internacional, e a transi&ccedil;&atilde;o da unipolaridade para a multipolaridade com lideran&ccedil;a norte-americana. Nesta transi&ccedil;&atilde;o, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa &eacute; actualmente a principal pot&ecirc;ncia a contestar as regras internacionais no espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico, nomeadamente nas quest&otilde;es relativas ao espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico, com poss&iacute;veis repercuss&otilde;es em todo o sistema internacional.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>A CRISE UCRANIANA E A POL&Iacute;TICA EXTERNA NORTE-AMERICANA</b></p>     <p>O conflito na Ucr&acirc;nia &eacute; uma consequ&ecirc;ncia directa do choque de interesses econ&oacute;micos, militares e geopol&iacute;ticos entre a NATO/UE e a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, mas a perspectiva ocidental tem atribu&iacute;do as responsabilidades de forma exclusiva &agrave; Federa&ccedil;&atilde;o Russa. Se por um lado a NATO e a UE se expandiram para Leste nos &uacute;ltimos vinte anos, por outro, a Federa&ccedil;&atilde;o Russa considera a Ucr&acirc;nia um Estado fundamental na sua &aacute;rea de influ&ecirc;ncia e para o seu projecto econ&oacute;mico, bem como para a sua seguran&ccedil;a<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a>. Citando Robert Kagan:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Os problemas (a disputa geopol&iacute;tica e o receio que os estados b&aacute;lticos t&ecirc;m da R&uacute;ssia) pareciam ger&iacute;veis desde que a R&uacute;ssia se encaminhasse numa senda p&oacute;s-moderna e integracionista ou, pelo menos, enquanto estivesse enfraquecida, pobre, e absorvida por dificuldades internas. Mas com a R&uacute;ssia de novo de p&eacute; e &agrave; procura de restaurar o seu estatuto de grande pot&ecirc;ncia, incluindo o predom&iacute;nio nas suas esferas tradicionais de influ&ecirc;ncia, a Europa encontra-se numa muito inesperada e indesejada posi&ccedil;&atilde;o de concorr&ecirc;ncia geopol&iacute;tica. Esta grande entidade do s&eacute;culo xxi v&ecirc;-se envolvida, atrav&eacute;s do alargamento, numa verdadeira confronta&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo xix.&raquo;<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a></blockquote>     <p></p>     <p>A crise mais grave anterior foi o conflito b&eacute;lico entre a Federa&ccedil;&atilde;o Russa e a Ge&oacute;rgia no Ver&atilde;o de 2008. Em Abril desse ano, na Cimeira da Alian&ccedil;a Atl&acirc;ntica de Bucareste, a NATO adiou a entrada da Ge&oacute;rgia e da Ucr&acirc;nia, o que a R&uacute;ssia ter&aacute; visto como oportunidade para reafirmar a sua influ&ecirc;ncia na Ge&oacute;rgia, com a qual entrou em conflito na chamada &laquo;Guerra dos Cinco Dias&raquo;. Em consequ&ecirc;ncia deste conflito, a Abc&aacute;sia e a Oss&eacute;tia do Sul &laquo;alcan&ccedil;aram&raquo; a independ&ecirc;ncia &ndash; reconhecidas apenas por Moscovo &ndash; sob protectorado efectivo da Federa&ccedil;&atilde;o Russa, que ainda mant&eacute;m for&ccedil;as armadas nesses territ&oacute;rios. Adiou-se a entrada da Ge&oacute;rgia e da Ucr&acirc;nia na NATO por tempo indeterminado, em parte em consequ&ecirc;ncia da oposi&ccedil;&atilde;o, por exemplo, da Alemanha e da Fran&ccedil;a, por considerarem que a posi&ccedil;&atilde;o da Federa&ccedil;&atilde;o Russa e as suas preocupa&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a deveriam ser tidos mais em conta pela potencial instabilidade que poderia resultar de uma eventual ades&atilde;o<sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a>. Ou seja, que o alargamento da NATO a estes estados colocaria a seguran&ccedil;a e interesses nacionais russos em causa. Este conflito demonstrou quais as linhas vermelhas que Putin n&atilde;o permitiria que o Ocidente ultrapassasse, nomeadamente a ades&atilde;o da Ge&oacute;rgia e Ucr&acirc;nia &agrave; NATO e &agrave; UE.</p>     <p>Passados seis anos deste epis&oacute;dio, deflagrou a actual crise que se vive na Ucr&acirc;nia. Esta foi despoletada por um amplo movimento de massas composto por cidad&atilde;os com aspira&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas, bem como por movimentos ultranacionalistas e neonazis, em consequ&ecirc;ncia da recusa do Presidente Yanukovitch em assinar o &laquo;Association Agreement&raquo; com a UE em troca de um empr&eacute;stimo de 15 mil milh&otilde;es de d&oacute;lares e do desconto em 33 por cento nos pre&ccedil;os do g&aacute;s por parte da Federa&ccedil;&atilde;o Russa. A Ucr&acirc;nia volta assim a ser, simultaneamente, foco e campo de confronto entre o Ocidente e a Federa&ccedil;&atilde;o Russa. Negocia&ccedil;&otilde;es entre as for&ccedil;as do regime e a oposi&ccedil;&atilde;o, mediadas pela Fran&ccedil;a, Alemanha, Pol&oacute;nia e pela ent&atilde;o alta representante da UE, Catherine Ashton, apoiadas tanto por Washington como por Moscovo, resultaram num acordo que estipulava uma reforma constitucional e a convoca&ccedil;&atilde;o de elei&ccedil;&otilde;es presidenciais<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a>. No entanto, for&ccedil;as da oposi&ccedil;&atilde;o mais radicais realizaram um <i>putsch </i>que obrigou o Presidente Yanukovitch a abandonar a capital ucraniana a 22 de Fevereiro. Moscovo denunciou a movimenta&ccedil;&atilde;o que dep&ocirc;s o Presidente ucraniano, enquanto os Estados Unidos e a UE n&atilde;o se pronunciaram em defesa do acordo recentemente firmado. A 27 de Fevereiro, formou-se um novo governo, em que Arseni Iatseniuk ocupou o cargo de primeiro-ministro e, momentos depois, Oleksander Turhinov assumiu a presid&ecirc;ncia interina<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a>. O novo executivo declarou-se como pr&oacute;-UE e contou com o apoio da Casa Branca, o que na perspectiva russa obrigou Putin a patrocinar a secess&atilde;o da Crimeia por temer uma futura ades&atilde;o ucraniana &agrave; NATO, colocando em causa a perman&ecirc;ncia da Armada russa no porto de Sebastopol. Para Putin, a queda de Yanukovitch, a n&atilde;o condena&ccedil;&atilde;o do <i>putsch </i>por parte do Ocidente e a forma&ccedil;&atilde;o do novo executivo com uma postura pr&oacute;-UE foram o ponto de viragem na posi&ccedil;&atilde;o russa na crise ucraniana. Assim, apoiou os movimentos pr&oacute;-russos com for&ccedil;as militares n&atilde;o identificadas com o objectivo de salvaguardar o porto estrat&eacute;gico de Sebastopol &ndash; essencial para a Armada russa do mar Negro e consequente acesso aos mares quentes do Egeu e Mediterr&acirc;neo &ndash;, e recuperar um territ&oacute;rio s&iacute;mbolo para os russos cedido por Krustchov &agrave; Ucr&acirc;nia, parte integrante da antiga URSS, em 1956, para saldar uma d&iacute;vida, e, por &uacute;ltimo, devido aos recursos energ&eacute;ticos que a pen&iacute;nsula possui, fundamentais para a ascens&atilde;o da R&uacute;ssia no sistema internacional.</p>     <p>Para justificar tal ac&ccedil;&atilde;o, que perante o Direito Internacional pode ser considerada um acto de agress&atilde;o, Putin apontou a defesa das minorias russas na pen&iacute;nsula, utilizando retoricamente o precedente da interven&ccedil;&atilde;o militar da NATO no Kosovo, em 1999, que culminou com a declara&ccedil;&atilde;o unilateral de independ&ecirc;ncia por parte do Kosovo &ndash; reconhecida por outros estados, incluindo Portugal, e pelo Tribunal Internacional de Justi&ccedil;a. A legalidade e legitimidade do referendo s&atilde;o profundamente question&aacute;veis, mas a realidade &eacute; que o Ocidente teve de assistir ao facto consumado, podendo apenas aplicar san&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas e financeiras para punir tal acto com receio de um escalar da crise. Se a queda de Yanukovitch e a posi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;-UE do novo executivo foram o ponto de viragem da posi&ccedil;&atilde;o russa, a anexa&ccedil;&atilde;o da pen&iacute;nsula da Crimeia por Moscovo constituiu-se como marco na viragem na postura do Ocidente. Iniciou-se uma escalada nas posi&ccedil;&otilde;es de ambos os lados do conflito.</p>     <p>A resposta ocidental n&atilde;o se fez esperar e rapidamente a Casa Branca recebeu Arseni Iatseniuk e garantiu-lhe o seu apoio, enquanto em concerta&ccedil;&atilde;o com a UE e os seus estados-membros denunciou a anexa&ccedil;&atilde;o da Crimeia como uma viola&ccedil;&atilde;o do Direito Internacional e exigiu a retirada das for&ccedil;as russas junto da fronteira ucraniana<sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a>. Em complemento, os Estados Unidos e a UE, bem como outros estados, como o Jap&atilde;o, iniciaram uma estrat&eacute;gia de isolamento e conten&ccedil;&atilde;o da Federa&ccedil;&atilde;o Russa com o cancelamento da cimeira do g8 em que Putin seria o anfitri&atilde;o em Julho de 2014 e a sua expuls&atilde;o do f&oacute;rum, bem como a aplica&ccedil;&atilde;o de san&ccedil;&otilde;es, nomeadamente com a proibi&ccedil;&atilde;o de entrada de personalidades pr&oacute;ximas de Putin nos seus estados e o congelamento dos seus bens, amea&ccedil;ando Moscovo com acrescidas san&ccedil;&otilde;es. J&aacute; a NATO, incentivada pela Pol&oacute;nia e estados do B&aacute;ltico e com o aval dos Estados Unidos, tomou posi&ccedil;&atilde;o na crise com o an&uacute;ncio de patrulhas a&eacute;reas regulares para monitorizarem a crise ucraniana, com a suspens&atilde;o da coopera&ccedil;&atilde;o civil e militar com a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, o refor&ccedil;o dos n&iacute;veis de prontid&atilde;o das suas for&ccedil;as, com a realiza&ccedil;&atilde;o de exerc&iacute;cios conjuntos e, por fim, com um plano de ac&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida em caso de escalada<sup><a href="#49">49</a></sup><a name="top49"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na &uacute;ltima Cimeira da NATO, em Setembro de 2014, no Pa&iacute;s de Gales, ficou mais uma vez patente o desejo de Washington de que os restantes estados-membros da Alian&ccedil;a aumentem as suas despesas militares para dois por cento do seu pib, na cria&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as de reac&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida e na realiza&ccedil;&atilde;o de exerc&iacute;cios militares, tal como demonstra o seguinte excerto do <i>NSS </i>de Fevereiro de 2015<sup><a href="#50">50</a></sup><a name="top50"></a>: &laquo;O nosso artigo n.&ordm; 5, sobre o compromisso com a defesa colectiva de todos os membros da NATO, &eacute; r&iacute;gido, tal como o nosso compromisso em garantir que a Alian&ccedil;a continua preparada e capaz para responder &agrave;s crises e &agrave; seguran&ccedil;a cooperativa.&raquo;</p>     <p>Esta press&atilde;o que a Casa Branca tem vindo a fazer junto dos seus parceiros europeus tem como objectivos garantir-lhes que os Estados Unidos mant&ecirc;m o compromisso de acorrerem em seu aux&iacute;lio em caso de amea&ccedil;a militar, demonstrar &agrave; Federa&ccedil;&atilde;o Russa que a organiza&ccedil;&atilde;o tem capacidade militar para fazer frente a eventuais amea&ccedil;as ao mesmo tempo que os seus parceiros diminuam a depend&ecirc;ncia securit&aacute;ria face aos Estados Unidos para que estes se possam redireccionar para a regi&atilde;o da &Aacute;sia-Pac&iacute;fico. Entretanto, Putin decidiu patrocinar dois movimentos secessionistas nas regi&otilde;es de Donetsk e Lugansk, movimentos que conduziram o Leste do pa&iacute;s &agrave; guerra civil. O objectivo, por detr&aacute;s do apoio &agrave;s autoproclamadas rep&uacute;blicas de Lugansk e Donetsk, baseia-se na cria&ccedil;&atilde;o de uma zona tamp&atilde;o que proteja as fronteiras russas. Em consequ&ecirc;ncia da prec&aacute;ria situa&ccedil;&atilde;o daquelas regi&otilde;es, Putin v&ecirc;-se obrigado a apoi&aacute;-las pol&iacute;tica, militar e logisticamente, estando cada vez mais comprometido com a sua manuten&ccedil;&atilde;o. A realiza&ccedil;&atilde;o de elei&ccedil;&otilde;es presidenciais e a vit&oacute;ria de Petro Poroshenko, em Maio de 2014, estabilizaram a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no seio do regime ucraniano, conferindo legitimidade ao Executivo liderado por Iatseniuk. Dias depois da tomada de posse, Poroshenko deslocou-se a Washington para pedir um refor&ccedil;o da assist&ecirc;ncia militar, que foi garantido por Barack Obama, mas que inclu&iacute;a apenas equipamento n&atilde;o letal. Ao fornecer assist&ecirc;ncia militar a Kiev, Washington pretende que as for&ccedil;as militares ucranianas sustenham o avan&ccedil;o militar das for&ccedil;as separatistas e que o custo do conflito se torne demasiado alto para Putin, aumentando a press&atilde;o para que este pare de patrocinar as autodenominadas rep&uacute;blicas.</p>     <p>O Partido Republicano, que det&eacute;m a maioria dos assentos no Congresso, tem feito crescente press&atilde;o para que a Administra&ccedil;&atilde;o Obama aumente a assist&ecirc;ncia militar e, principalmente, que comece a fornecer equipamentos militares letais &agrave;s for&ccedil;as ucranianas<sup><a href="#51">51</a></sup><a name="top51"></a>.</p>     <p>A Administra&ccedil;&atilde;o Obama nunca colocou de parte essa op&ccedil;&atilde;o, mas at&eacute; ao momento preferiu aguardar pelos resultados do Acordo de Minsk 2<sup><a href="#52">52</a></sup><a name="top52"></a>e, acima de tudo, pela mudan&ccedil;a da postura russa para eventualmente tomar essa decis&atilde;o, enquanto aguarda que as san&ccedil;&otilde;es j&aacute; firmadas produzam os efeitos econ&oacute;micos pretendidos.</p>     <p>Com o deflagrar da crise, a Casa Branca demonstrou o seu apoio aos l&iacute;deres ucranianos, quer na pessoa de Arseni Iatseniuk quer na de Poroshenko, a n&iacute;vel pol&iacute;tico, econ&oacute;mico, t&eacute;cnico, financeiro e, mais tarde, militar ao fornecer assist&ecirc;ncia militar n&atilde;o letal, ao mesmo tempo que incentivava o Executivo ucraniano a encetar as reformas pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas que a UE colocava como condi&ccedil;&otilde;es para a sua ades&atilde;o e o intensificar da coopera&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#53">53</a></sup><a name="top53"></a>. Com o acentuar dos confrontos e a par do apoio ao regime ucraniano, Washington decidiu avan&ccedil;ar a 16 de Julho de 2014 com san&ccedil;&otilde;es unilaterais contra a Federa&ccedil;&atilde;o Russa. Estas focaram-se em sectores-chave da economia russa, como o financeiro, energ&eacute;tico e de tecnologia militar, acrescentando-se a impossibilidade de empresas e cidad&atilde;os norte-americanos negociarem empr&eacute;stimos com uma maturidade superior a noventa dias com empresas russas.</p>     <p>A queda do avi&atilde;o comercial <i>mh-17 </i>da Malaysian Airlines em territ&oacute;rio da autoproclamada Rep&uacute;blica de Lugansk, a 17 de Julho, causando 298 mortos, veio dar azo ao fortalecimento das san&ccedil;&otilde;es por parte da UE, que acompanhou as novas san&ccedil;&otilde;es norte-americanas, enquanto a Casa Branca decidiu alargar as san&ccedil;&otilde;es com a inclus&atilde;o do Banco de Moscovo, do VTB Bank e do Banco Agr&iacute;cola Russo, entre outras empresas, na lista das exclu&iacute;das do mercado de capitais norte-americano. Apesar da aprova&ccedil;&atilde;o das san&ccedil;&otilde;es, o Ex&eacute;rcito ucraniano deparou-se com uma ofensiva militar das for&ccedil;as separatistas, tendo Washington decidido alargar as san&ccedil;&otilde;es atr&aacute;s referidas a outras empresas russas, como a Gazprom Neft, Rostec, Sberbank, etc., ao que se somou a proibi&ccedil;&atilde;o de qualquer cidad&atilde;o norte-americano fazer novos investimentos ou facilitar qualquer transac&ccedil;&atilde;o com as empresas ou personalidades sediadas na pen&iacute;nsula da Crimeia<sup><a href="#54">54</a></sup><a name="top54"></a>. Com estas san&ccedil;&otilde;es Washington pretendeu demonstrar que o patroc&iacute;nio das for&ccedil;as separatistas por parte de Putin tem consequ&ecirc;ncias, obrigando-o, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a travar o avan&ccedil;o militar separatista sob a amea&ccedil;a do acentuar do impacto na economia russa das san&ccedil;&otilde;es j&aacute; aprovadas e de aplica&ccedil;&atilde;o de san&ccedil;&otilde;es adicionais.</p>     <p>A continua&ccedil;&atilde;o dos combates no Leste da Ucr&acirc;nia e o impasse militar demonstraram que a resolu&ccedil;&atilde;o para a crise ucraniana n&atilde;o &eacute; de cariz militar, mas sim pol&iacute;tico. Neste contexto, iniciaram as negocia&ccedil;&otilde;es entre as for&ccedil;as em conflito e os seus apoiantes, tendo contado tamb&eacute;m com a presen&ccedil;a da Organization for Security and Cooperation in Europe (OSCE) em Minsk, na Bielorr&uacute;ssia. Estas resultaram, a 5 de Setembro de 2014, no que veio a ser chamado Acordo Minsk 1, que definia um cessar-fogo e o comprometimento de Poroshenko em encetar reformas de descentraliza&ccedil;&atilde;o do poder, a protec&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua russa, a reconstru&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e econ&oacute;mica das zonas afectadas pelo conflito, a liberta&ccedil;&atilde;o de ref&eacute;ns e amnistias, a retirada de forma&ccedil;&otilde;es militares ilegais e a cria&ccedil;&atilde;o de uma zona tamp&atilde;o nas fronteiras<sup><a href="#55">55</a></sup><a name="top55"></a>.</p>     <p>A proximidade das elei&ccedil;&otilde;es regionais veio intensificar as tens&otilde;es, pois os l&iacute;deres separatistas ao terem decidido realizar elei&ccedil;&otilde;es a 2 de Novembro, quando estavam marcadas para 7 de Dezembro, assumiram uma postura desafiante. Putin apoiou a realiza&ccedil;&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es dos separatistas e os seus resultados, demonstrando mais uma vez o seu apoio a estes, minando a autoridade do governo central ucraniano que j&aacute; n&atilde;o possu&iacute;a qualquer controlo sobre estes territ&oacute;rios. Washington e Bruxelas denunciaram as elei&ccedil;&otilde;es argumentando que estas iam contra a Constitui&ccedil;&atilde;o ucraniana e o acordado em Minsk. Em consequ&ecirc;ncia do aumento da tens&atilde;o o cessar-fogo foi continuamente violado por ambos os lados, at&eacute; que Alexander Zakharchenko, l&iacute;der da autoproclamada Rep&uacute;blica de Donetsk, anunciou o fim do cessar-fogo a 20 de Outubro. Os combates continuaram a intensificar-se nos meses seguintes at&eacute; ao retorno &agrave;s negocia&ccedil;&otilde;es em Fevereiro de 2015, novamente em Minsk. Esta nova fase das negocia&ccedil;&otilde;es contou com o forte empenho de Fran&ccedil;ois Hollande, Presidente da Fran&ccedil;a, e Angela Merkel, chanceler da Alemanha, com Poroshenko e Putin. Nas negocia&ccedil;&otilde;es em Minsk estiveram presentes os l&iacute;deres europeus &ndash; demonstrando o afastamento dos respons&aacute;veis da Comiss&atilde;o Europeia &ndash;, bem como Putin, Poroshenko, respons&aacute;veis da OSCE e os l&iacute;deres das autoproclamadas rep&uacute;blicas de Donetsk e Lugansk, Alexander Zakharchenko e Igor Plotnitsky, respectivamente.</p>     <p>&nbsp;O acordo definiu como linhas principais a aplica&ccedil;&atilde;o de um cessar-fogo imediato a 15 de Fevereiro, a cria&ccedil;&atilde;o de uma zona de seguran&ccedil;a de 50 quil&oacute;metros entre as for&ccedil;as em conflito, a atribui&ccedil;&atilde;o de responsabilidades de monitoriza&ccedil;&atilde;o da aplica&ccedil;&atilde;o do acordo a observadores da OSCE e o in&iacute;cio do di&aacute;logo de uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para o estatuto das regi&otilde;es de Donetsk e Lugansk de acordo com a Constitui&ccedil;&atilde;o ucraniana<sup><a href="#56">56</a></sup><a name="top56"></a>. Tanto Washington como as capitais europeias anunciaram que o levantamento ou aumento das san&ccedil;&otilde;es &agrave; Federa&ccedil;&atilde;o Russa estariam dependentes do cumprimento deste acordo. &Eacute; de referir o facto de n&atilde;o ter estado presente nas negocia&ccedil;&otilde;es do acordo nenhum respons&aacute;vel da Administra&ccedil;&atilde;o Obama, o que deu azo, no rescaldo da assinatura do acordo, ao facto de os Estados Unidos poderem ter perdido a lideran&ccedil;a da resolu&ccedil;&atilde;o da crise pelo bloco ocidental ou terem simplesmente optado pelo <i>leading from behind </i>diplom&aacute;tico.</p>     <p>Podemos afirmar que a pr&aacute;tica da pol&iacute;tica externa norte-americana na crise ucraniana se tem baseado em dois eixos estrat&eacute;gicos: a conten&ccedil;&atilde;o e isolamento internacional e a press&atilde;o econ&oacute;mica contra a Federa&ccedil;&atilde;o Russa<sup><a href="#57">57</a></sup><a name="top57"></a>. A conten&ccedil;&atilde;o baseia-se no fortalecimento do regime ucraniano, atrav&eacute;s da assist&ecirc;ncia &agrave;s suas For&ccedil;as Armadas e &agrave;s suas institui&ccedil;&otilde;es por via da coopera&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica bilateral quer pela coopera&ccedil;&atilde;o com a UE e no refor&ccedil;ar das For&ccedil;as Armadas dos estados-membros da NATO, quer pelo aprofundamento da coopera&ccedil;&atilde;o no seio da organiza&ccedil;&atilde;o. O isolamento internacional baseia-se na exclus&atilde;o da Federa&ccedil;&atilde;o Russa de f&oacute;runs, como o g8, e na aplica&ccedil;&atilde;o de san&ccedil;&otilde;es que a isolem economicamente, ao mesmo tempo que pressionam a economia russa, colocando Putin numa posi&ccedil;&atilde;o mais fr&aacute;gil para que se veja obrigado a negociar uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para a crise ucraniana de acordo com as regras e normas da actual ordem internacional. O objectivo da pol&iacute;tica externa da Administra&ccedil;&atilde;o Obama &eacute; a conten&ccedil;&atilde;o dos anseios expansionistas e contestat&aacute;rios da ordem internacional por parte da Federa&ccedil;&atilde;o Russa. Nesta linha a Administra&ccedil;&atilde;o Obama afirma no <i>nss</i>:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>     <blockquote>&laquo;A agress&atilde;o da R&uacute;ssia &agrave; Ucr&acirc;nia deixa claro que a seguran&ccedil;a europeia e as regras e nor-mas internacionais contra a agress&atilde;o territorial n&atilde;o podem ser tomadas como garantidas (&hellip;) n&oacute;s vamos continuar a impor custos significativos &agrave; R&uacute;ssia atrav&eacute;s de san&ccedil;&otilde;es e outros meios enquanto neutralizamos a propaganda enganosa de Moscovo com a verdade. N&oacute;s vamos deter a agress&atilde;o russa, permanecer alerta em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas capacidades estrat&eacute;gicas e ajudar os nossos aliados e parceiros a resistir &agrave; sua coer&ccedil;&atilde;o, se necess&aacute;rio, ao longo do tempo.&raquo;<sup><a href="#58">58</a></sup><a name="top58"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Por fim, podemos concluir que Washington tem assumido posi&ccedil;&otilde;es ora convergentes com a UE e capitais europeias, ora assumindo unilateralmente posi&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a mais avan&ccedil;adas, como a aprova&ccedil;&atilde;o de acrescidas san&ccedil;&otilde;es a 16 de Julho ou a crescente possibilidade de fornecimento de assist&ecirc;ncia militar letal ao Estado ucraniano. A pol&iacute;tica externa da Administra&ccedil;&atilde;o Obama depara-se com a dificuldade em encontrar uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para a crise ucraniana que n&atilde;o comprometa os interesses, que n&atilde;o mine a credibilidade das pot&ecirc;ncias em quest&atilde;o e que n&atilde;o coloque em causa as suas rela&ccedil;&otilde;es com a Federa&ccedil;&atilde;o Russa &ndash; rela&ccedil;&atilde;o fundamental na resolu&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica de v&aacute;rias quest&otilde;es que assolam o sistema internacional, como a prolifera&ccedil;&atilde;o nuclear, a guerra civil na S&iacute;ria, e a exist&ecirc;ncia do autoproclamado Estado Isl&acirc;mico, entre outras.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>NOTAS FINAIS</B></p>     <p>A viola&ccedil;&atilde;o das regras da ordem liberal-institucionalista constru&iacute;da no p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial e mantida no p&oacute;s-Guerra Fria com a viola&ccedil;&atilde;o da anexa&ccedil;&atilde;o da pen&iacute;nsula da Crimeia pela for&ccedil;a veio colocar em quest&atilde;o a capacidade norte-americana em garantir o cumprimento das regras do sistema internacional, mesmo que no passado as tenha desrespeitado, como aconteceu com o Iraque em 2003. Esta contesta&ccedil;&atilde;o demonstra a confian&ccedil;a que as novas pot&ecirc;ncias emergentes, neste caso a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, possuem com base nas suas pr&oacute;prias capacidades e no desejo de alterarem a distribui&ccedil;&atilde;o de poder no sistema internacional em prol da multipolaridade, mesmo que com lideran&ccedil;a norte-americana no curto-m&eacute;dio prazo. A contesta&ccedil;&atilde;o da legitimidade norte-americana poder&aacute; ter repercuss&otilde;es em todo o sistema internacional, principalmente em regi&otilde;es onde se mant&ecirc;m disputas territoriais com aliados seus, como &eacute; o caso da disputa entre o Jap&atilde;o e a RPC pelas ilhas Senkaku/Diaoyu.</p>     <p>A crise ucraniana obrigou os Estados Unidos a terem de manter um significativo dispositivo militar ao abrigo da NATO no continente europeu &ndash; colocando em causa o <i>Defense Strategic Guidance </i>&ndash; com o objectivo de aplacar os desejos expansionistas da Federa&ccedil;&atilde;o Russa ou para pressionar os estados-membros da NATO a investirem mais do seu pib na defesa, tornando o continente mais auto-suficiente e n&atilde;o t&atilde;o dependente dos Estados Unidos, como tem acontecido desde a Guerra Fria. O atraso no redireccionamento para a &Aacute;sia-Pac&iacute;fico poder&aacute; ter severas consequ&ecirc;ncias a curto e m&eacute;dio prazo na conten&ccedil;&atilde;o da RPC, nomeadamente no fortalecimento de alian&ccedil;as e na credibilidade e refor&ccedil;o norte-americano na regi&atilde;o. O aparecimento e expans&atilde;o do autodenominado Estado Isl&acirc;mico e a resposta norte-americana vieram demonstrar a falta de vontade pol&iacute;tica que a Administra&ccedil;&atilde;o Obama tem para intervir. Esta amea&ccedil;a &agrave; seguran&ccedil;a e paz internacionais obrigar&aacute; os Estados Unidos a terem de apoiar pol&iacute;tica e militarmente os seus aliados na regi&atilde;o do M&eacute;dio Oriente, dificultando o seu redireccionamento para a regi&atilde;o da &Aacute;sia-Pac&iacute;fico. Por outro lado, enquanto os Estados Unidos se deparam com s&eacute;rias dificuldades no continente europeu e no M&eacute;dio Oriente e se atrasam no redireccionamento, a RPC ter&aacute; mais margem de manobra para consolidar e expandir a sua posi&ccedil;&atilde;o ao mesmo tempo que os aliados dos Estados Unidos consideram a sua seguran&ccedil;a nacional crescentemente amea&ccedil;ada e iniciam pol&iacute;ticas armamentistas. Nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas as rela&ccedil;&otilde;es Estados Unidos-Federa&ccedil;&atilde;o Russa tiveram fases positivas e negativas, sendo ambas c&iacute;clicas, oscilantes e imprevis&iacute;veis<sup><a href="#59">59</a></sup><a name="top59"></a>. A pol&iacute;tica de <i>reset</i>, em 2010, da Administra&ccedil;&atilde;o Obama nas rela&ccedil;&otilde;es com a Federa&ccedil;&atilde;o Russa foi definitivamente posta de lado com o deflagrar da crise ucraniana, despoletando um confronto pol&iacute;tico-diplom&aacute;tico. No entanto, as rela&ccedil;&otilde;es entre estes dois estados s&atilde;o fundamentais para a paz e seguran&ccedil;a no sistema internacional, pois ambos t&ecirc;m assentos permanentes no Conselho de Seguran&ccedil;a e assumem um papel fundamental nas v&aacute;rias quest&otilde;es que assolam a pol&iacute;tica internacional, como a prolifera&ccedil;&atilde;o nuclear, o terrorismo com a expans&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es terroristas como o autodenominado Estado Isl&acirc;mico, a guerra civil na S&iacute;ria, entre outras. Uma das grandes dificuldades ser&aacute; como evitar que o degradar das rela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o tenha impacto na resolu&ccedil;&atilde;o de outras quest&otilde;es no sistema internacional, o que prejudicaria n&atilde;o apenas os interesses destes dois estados mas toda a comunidade internacional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Data de recep&ccedil;&atilde;o: 10 de Fevereiro de 2015 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 24 de Mar&ccedil;o de 2015</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><B>NOTAS</B></p>     <p><a href="#top0">*</a><a name="0"></a> A pedido do autor o texto n&atilde;o adopta as normas do Novo Acordo Ortogr&aacute;fico.</p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Um especial agradecimento &agrave; Prof. Doutora Patr&iacute;cia Daehnhardt pelo apoio e orienta&ccedil;&atilde;o na escrita deste artigo.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> As datas referem-se &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do sistemavestefaliano, ao Congresso de Viena, &agrave; assinatura do Tratado de Versa-lhes e cria&ccedil;&atilde;o da Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es, ao fim da Segunda Guerra Mundial e institucionaliza&ccedil;&atilde;o da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas e ao fim da Guerra Fria com o colapso da ex-Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, respectivamente.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Lukyanov, Fyodor &ndash; &laquo;Russia&rsquo;s asymmetrical response: global Aikido&raquo;. <i>In</i> Saunders, Paul J. (ed.) &ndash; <i>Costs of a New Cold War &ndash; The U.S.-Russia Confrontation Over Ukraine</i>. Washington: Center for National Interest, 2014, PP. 9-24.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Fukuyama, no seu livro <i>O Fim da Hist&oacute;ria e o &Uacute;ltimo Homem</i>, utilizou a teoria do fim da Hist&oacute;ria de Friedrich Hegel para argumentar que o capitalismo e a democracia liberal constituem o &uacute;ltimo est&aacute;gio da hist&oacute;ria da Humanidade ap&oacute;s a des-trui&ccedil;&atilde;o e colapso do fascismo e do &laquo;socialismo real&raquo;. Assim, o capitalismo e a democracia liberal afirmaram-se como &uacute;nicas alternativas relativas ao modo de produ&ccedil;&atilde;o e ao regime pol&iacute;tico, tendo a Humanidade alcan&ccedil;ado a estagna&ccedil;&atilde;o no processo hist&oacute;rico.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Dias, Vanda Amaro &ndash; &laquo;Pol&iacute;tica Europeia de Vizinhan&ccedil;a: pr&aacute;ticas imperiais na fronteira com o &ldquo;outro&rdquo;?&raquo;. In <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>. Lisboa, N.&ordm; 43, 2014, PP. 75-84.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Barata, Pedro &ndash; &laquo;A Ucr&acirc;nia, a UE e a R&uacute;ssia: softpower versus realpolitik?&raquo;. In <i>janus.net, e-journal of International Relations</i>. Vol. 5, N.&ordm; 1. (Consultado em: 22 de Maio de 2014). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://observare.ual.pt/janus.net/en/home-eng/86-english-en/vol-5,-n-%C2%BA1-may-october-2014/articles/266-ukraine,-eu-and-russia-soft-power-versus-realpolitik" target="_blank">http://observare.ual.pt/janus.net/en/home-eng/86-english-en/vol-5,-n-%C2%BA1-may-october-2014/articles/266-ukraine,-eu-and-russia-soft-power-versus-realpolitik</a>.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Esta pol&iacute;tica visava tamb&eacute;m o alargamento dos princ&iacute;pios do projecto europeu &agrave; Arm&eacute;nia, Azerbaij&atilde;o, Bielorr&uacute;ssia, Ge&oacute;rgia e Mold&aacute;via, mesmo que n&atilde;o garantisse com isto uma futura ades&atilde;o &agrave; UE.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> A estrat&eacute;gia do <i>containment</i> representou a resposta norte-americana &agrave; presen&ccedil;a de tropas sovi&eacute;ticas e hegemonia pol&iacute;tica da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica na Europa de Leste, dando in&iacute;cio &agrave; Guerra Fria, em 1947, sob a presid&ecirc;ncia de Harry S. Truman (1945-1953). Esta estrat&eacute;gia consistiu na cria&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias alian&ccedil;as militares, como a NATO, por todo o mundo com o objectivo de conter militarmente o avan&ccedil;o pol&iacute;tico e militar da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica.</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Lopes, Marina Branco &ndash; <i>A NATO: O Paradigma de Uma Integra&ccedil;&atilde;o Defensiva</i>. Tese de mestrado em Sociologia, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 2010.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 37.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Gaspar, Carlos &ndash; &laquo;O conceito estrat&eacute;gico da Alian&ccedil;a Atl&acirc;ntica&raquo;. In <i>Na&ccedil;&atilde;o e Defesa</i>. Lisboa, N.&ordm; 126, 2010, PP. 9-36.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Klein, Naomi &ndash; <i>A Doutrina do Choque &ndash; A Ascens&atilde;o do Capitalismo de Desastre</i>. Lisboa: Smartbook, 2009.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Sakwa, Richard &ndash; &laquo;A pol&iacute;tica externa russa contextualizada&raquo;. <i>In</i> Freire, Maria Raquel &ndash; <i>A R&uacute;ssia de Putin &ndash; Vectores Estruturantes de Pol&iacute;tica Externa</i>. Coimbra: Almedina, 2010, PP. 11-25.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Daehnhardt, Patr&iacute;cia &ndash; &laquo;A R&uacute;ssia e a Alemanha: uma rela&ccedil;&atilde;o sui generis em mudan&ccedil;a&raquo;. <i>In</i> Daehnhardt, Patr&iacute;cia, e Freire, Maria Raquel (coord.) &ndash; <i>A Pol&iacute;tica Externa Russa no Espa&ccedil;o Euro-Atl&acirc;ntico: Din&acirc;micas de Coopera&ccedil;&atilde;o e Competi&ccedil;&atilde;o num Espa&ccedil;o Alargado</i>. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014, PP. 141-175.</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Daehnhardt, Patr&iacute;cia, e Freire, Maria Raquel &ndash; &laquo;As rela&ccedil;&otilde;es entre a Alemanha e a R&uacute;ssia &ndash; duas pol&iacute;ticas externas em transi&ccedil;&atilde;o&raquo;. In <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>. Lisboa, N.&ordm; 32, 2011, PP. 171-196.</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Pires de Lima, Bernardo &ndash; &laquo;Washington e Moscovo: em busca de um modus vivendi&raquo;. <i>In</i> aehnhardt, Patr&iacute;cia, e Freire, Maria Raquel (coord.) &ndash; <i>A Pol&iacute;tica Externa Russa no Espa&ccedil;o Euro-Atl&acirc;ntico: Din&acirc;micas de Coopera&ccedil;&atilde;o e Competi&ccedil;&atilde;o num Espa&ccedil;o Alargado</i>, PP. 223-252.</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 227.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> Sakwa, Richard &ndash; &laquo;A pol&iacute;tica externa russa contextualizada&raquo;, PP. 11-25.</p>     <p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> Freire, Maria Raquel &ndash; &laquo;A evolu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica externa da R&uacute;ssia&raquo;. <i>In</i> Daehnhardt, Patr&iacute;cia, e Freire, Maria Raquel (coord.) &ndash; <i>A Pol&iacute;tica Externa Russa no Espa&ccedil;o Euro-Atl&acirc;ntico: Din&acirc;micas de Coopera&ccedil;&atilde;o e Competi&ccedil;&atilde;o num Espa&ccedil;o Alargado</i>, PP. 29-55.</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> Pires de Lima, Bernardo &ndash; &laquo;Washington e Moscovo: em busca de um modus vivendi&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> Gaspar, Carlos &ndash; &laquo;A pol&iacute;tica internacional da R&uacute;ssia&raquo;. <i>In</i> Oliveira, Pedro Aires (coord.) &ndash; <i>O Fim da Guerra Fria, A Nova R&uacute;ssia e a Crise das Esquerdas</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Colibri, 2013, PP. 63-100.</p>     <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> A responsabilidade de proteger insere-se na doutrina da interven&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria armada da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Esta norma do Direito Internacional foi elaborada no relat&oacute;rio com o mesmo nome da International Commission, em 2001, e o seu uso apenas pode ser autorizado pelo Conselho de Seguran&ccedil;a. Cf. Saraiva, Francisca &ndash; &laquo;A defini&ccedil;&atilde;o de crise das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, Uni&atilde;o Europeia e NATO&raquo;. In <i>Na&ccedil;&atilde;o e Defesa</i>. Lisboa, N.&ordm; 129, 2011, PP. 11-30.Esta norma defende que o Estado tem a obriga&ccedil;&atilde;o fundamental de assegurar a seguran&ccedil;a dos seus cidad&atilde;os e quando tal n&atilde;o consiga, cabe &agrave; comunidade internacional assegurar a mesma atrav&eacute;s de meios diplom&aacute;ticos, humanit&aacute;rios ou outros meios necess&aacute;rios, nomeadamente o uso da for&ccedil;a. Esta norma coloca em causa a soberania dos estados quando a seguran&ccedil;a dos seus cidad&atilde;os esteja em causa, atribuindo responsabilidades e legitimidade &agrave; comunidade internacional para que aja.</p>     <p><Sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></Sup> Daehnhardt, Patr&iacute;cia &ndash; &laquo;A R&uacute;ssia e a Alemanha: uma rela&ccedil;&atilde;o sui generis em mudan&ccedil;a&raquo;, PP. 141-175.</p>     <p><Sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 156.</p>     <p><Sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></Sup> Dias, Vanda Amaro &ndash; &laquo;As rela&ccedil;&otilde;es com a Ucr&acirc;nia, Bielorr&uacute;ssia e Moldova: poder, depend&ecirc;ncias e assimetrias no espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico&raquo;. <i>In</i> Daehnhardt, Patr&iacute;cia, e Freire, Maria Raquel (coord.) &ndash; <i>A Pol&iacute;tica Externa Russa no Espa&ccedil;o Euro-Atl&acirc;ntico: Din&acirc;micas de Coopera&ccedil;&atilde;o e Competi&ccedil;&atilde;o num Espa&ccedil;o Alargado</i>, PP. 141-175.</p>     <p><Sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></Sup> Freire, Maria Raquel &ndash; <i>A R&uacute;ssia de Putin, Vectores Estruturantes de Pol&iacute;tica Externa</i>. Coimbra: Almedina, 2011.</p>     <p><Sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></Sup> A Uni&atilde;o Euro-Asi&aacute;tica assume-se como um bloco econ&oacute;mico com o objectivo de potenciar a integra&ccedil;&atilde;o regional e &agrave; eventual lideran&ccedil;a do com&eacute;rcio global. Este projecto de integra&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica foi proposto com base na experi&ecirc;ncia e resultados da Comunidade de Estados Independentes, da Comunidade Econ&oacute;mica Asi&aacute;tica e com a Uni&atilde;o Aduaneira entre a Federa&ccedil;&atilde;o Russa, o Cazaquist&atilde;o e a Bielorr&uacute;ssia. Cf. Barata, Pedro &ndash; &laquo;A Ucr&acirc;nia, a UE e a R&uacute;ssia: sof-tpower versus realpolitik?&raquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></Sup> Wohlforth, William &ndash; &laquo;The stability of a unipolar world&raquo;. In <i>International Security</i>. Vol. 24, N.&ordm; 1, 1999, PP. 5-41.</p>     <p><Sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></Sup> Layne, Christopher &ndash; &laquo;The unipolar illusion revisited&raquo;. In <i>International Security</i>. Vol. 31, N.&ordm; 2, 2006, PP. 7-41; Lopes, Marina Branco &ndash; <i>A NATO: O Paradigma de Uma Integra&ccedil;&atilde;o Defensiva</i>.</p>     <p><Sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></Sup> Moreira de S&aacute;, Tiago &ndash; &laquo;A aus&ecirc;ncia de ordem internacional no p&oacute;s-Guerra Fria&raquo;. <i>In</i> Oliveira, Pedro Aires (coord.) &ndash; <i>O Fim da Guerra Fria, A Nova R&uacute;ssia e a Crise das Esquerdas</i>, PP. 201-215.</p>     <p><Sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></Sup> O <i>offshore balancing</i> consiste na defini&ccedil;&atilde;o de um n&uacute;mero limitado de regi&otilde;es estrategicamente fundamentais para manter a posi&ccedil;&atilde;o do Estado, neste caso dos Estados Unidos, no sistema internacional, garantindo que nenhum outro Estado consegue dominar essas regi&otilde;es. Para evitar a influ&ecirc;ncia de outros estados deve-se proceder &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o de alian&ccedil;as com pot&ecirc;ncias locais que possuam a capacidade de conter os estados aspirantes &agrave; hegemonia regional ao mesmo tempo que se mant&eacute;m for&ccedil;as militares a uma dist&acirc;ncia aceit&aacute;vel caso seja necess&aacute;rio intervir para repor a ordem.</p>     <p><Sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></Sup> Layne, Christopher &ndash; &laquo;The unipolar illusion revisited&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></Sup> Clinton, Hilary &ndash; &laquo;America&rsquo;s pacific century&raquo;. In <i>Foreign Policy</i>. N.&ordm; 189, 2011, PP. 56-63.</p>     <p><Sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></Sup> <i>Defense Strategic Guidance 2012</i>. (Consultado em: 22 de Maio de 2014). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.defense.gov/news/Defense_Strategic_Guidance.pdf" target="_blank">www.defense.gov/news/Defense_Strategic_Guidance.pdf</a>.</p>     <p><Sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></Sup> O Strategic Arms Reduction Treaty (start) caducara em 2009 sendo necess&aacute;ria a sua renova&ccedil;&atilde;o. O novo start, assinado em Abril de 2010 por Obama e Putin, prev&ecirc; a redu&ccedil;&atilde;o em um ter&ccedil;o da capacidade nuclear estrat&eacute;gica de ambas as pot&ecirc;ncias. Este tratado demonstra que apesar das tens&otilde;es nas suas rela&ccedil;&otilde;es, quer no sistema internacional, quer especificamente no espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico, existem desafios comuns, seja a nucleariza&ccedil;&atilde;o e a sua prolifera&ccedil;&atilde;o, seja o terrorismo, que obrigam a uma coopera&ccedil;&atilde;o EUA-Federa&ccedil;&atilde;o Russa.</p>     <p><Sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></Sup> Moreira de S&aacute;, Tiago &ndash; &laquo;O debate estrat&eacute;gico das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais norte-americanas&raquo;. In <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>. Lisboa, N.&ordm; 34, 2012, PP. 89-106.</p>     <p><Sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></Sup> &laquo;Estrat&eacute;gia de Seguran&ccedil;a Nacional&raquo;, White House, Washington DC, Fevereiro de 2015.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></Sup> Freire, Maria Raquel &ndash; &laquo;A evolu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica externa da R&uacute;ssia&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 51.</p>     <p><Sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 52.</p>     <p><Sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></Sup> Gaspar, Carlos &ndash; &laquo;A pol&iacute;tica internacional da R&uacute;ssia&raquo;, PP. 63-100.</p>     <p><Sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></Sup> Telo, Ant&oacute;nio Jos&eacute; &ndash; &laquo;Da grande ordem &agrave; grande confus&atilde;o. Implica&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas do fim da URSS&raquo;. <i>In</i> Oliveira, Pedro Aires (coord.) &ndash; <i>O Fim da Guerra Fria, A Nova R&uacute;ssia e a Crise das Esquerda,</i> PP. 217-246.</p>     <p><Sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></Sup> Mearsheimer, John J. &ndash; &laquo;Why the Ukraine crisis is the West&rsquo;s fault &ndash; the Liberal delusions that provoked Putin&raquo;. In <i>Foreign Affairs</i>. (Consultado em: 24 de Mar&ccedil;o de 2015). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.foreignaffairs.com/articles/russia-fsu/2014-08-18/why-ukraine-crisis-west-s-fault" target="_blank">https://www.foreignaffairs.com/articles/russia-fsu/2014-08-18/why-ukraine-crisis-west-s-fault</a>.</p>     <p><Sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></Sup> Kagan, Robert &ndash; <i>O Regresso da Hist&oacute;ria e o Fim dos Sonhos</i>. Lisboa: Casa das Letras, 2009. p. 44.</p>     <p><Sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></Sup> Daehnhardt, 2013</p>     <p><Sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></Sup> Pereira, Carlos Santos &ndash; &laquo;Ucr&acirc;nia: cr&oacute;nica de uma crise anunciada&raquo;. In <i>Revista de Ci&ecirc;ncias Militares</i>. Lisboa, Vol. II, N.&ordm; 2, 2014, PP. 337-259.</p>     <p><Sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 340.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 348.</p>     <p><Sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 349.</p>     <p><Sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></Sup> <i>Estrat&eacute;gia de Seguran&ccedil;a Nacional</i>, White House, Washington DC, Fevereiro de 2015.</p>     <p><Sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></Sup> &laquo;Congresso pressiona Obama para apertar san&ccedil;&otilde;es&raquo;. In <i>P&uacute;blico</i>. 18 de Dezembro de 2014. (Consultado em: 10 de Mar&ccedil;o de 2015). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.publico.pt/destaque/jornal/congresso-pressiona-obama-para-apertar-sancoes-29269338" target="_blank">www.publico.pt/destaque/jornal/congresso-pressiona-obama-para-apertar-sancoes-29269338</a>.</p>     <p><Sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></Sup> &laquo;Ukraine crisis: US waits to see if Minsk accord holds before sending Kiev heavy weapons&raquo;. In <i>The Independent</i>, 18 de Fevereiro de 2015. (Consultado em: 10 de Mar&ccedil;o de 2015). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.independent.co.uk/news/world/europe/ukraine-crisis-us-waits-to-see-if-minsk-accord-holds-before-sending-kiev-heavy-weapons-10054957.html" target="_blank">http://www.independent.co.uk/news/world/europe/ukraine-crisis-us-waits-to-see-if-minsk-accord-holds-before-sending-kiev-heavy-weapons-10054957.html</a>.</p>     <p><Sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></Sup> Woehrel, Steven &ndash; &laquo;Ukraine: current issues and U.S. policy&raquo;. In <i>Congressional Research Service</i>, 2015. (Consultado em: 24 de Mar&ccedil;o de 2015). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://fas.org/sgp/crs/row/RL33460.pdf" target="_blank">https://fas.org/sgp/crs/row/RL33460.pdf</a>.</p>     <p><Sup><a name="54"></a><a href="#top54">54</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 13.</p>     <p><Sup><a name="55"></a><a href="#top55">55</a></Sup> Freedman, Lawrence &ndash; &laquo;Ukraine and the art of limited war&raquo;. In <i>Survival: Global Politics and Strategy</i>. Londres, 56:6, 2014, PP. 7-38.</p>     <p><Sup><a name="56"></a><a href="#top56">56</a></Sup> &laquo;Ukraine ceasefire: new Minsk agreement key points&raquo;. In <i>BBC News</i>, 12 de Fevereiro de 2015. (Consultado em: 10 de Mar&ccedil;o de 2015). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.bbc.com/news/world-europe-31436513" target="_blank">http://www.bbc.com/news/world-europe-31436513</a>.</p>     <p><Sup><a name="57"></a><a href="#top57">57</a></Sup> Marshall, Blake &ndash; &laquo;Russia, Ukraine, and U.S. economic policy&raquo;. <i>In</i> Saunders, Paul J. (ed.) &ndash; <i>Costs of a new Cold War &ndash; the U.S.-Russia confrontation over Ukraine</i>. Washington: Center for National Interest, 2014, PP. 51-68.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="58"></a><a href="#top58">58</a></Sup> &laquo;Estrat&eacute;gia de Seguran&ccedil;a Nacional&raquo;. White House, Washington DC, Fevereiro de 2015.</p>     <p><Sup><a name="59"></a><a href="#top59">59</a></Sup> Pires de Lima, Bernardo &ndash; &laquo;Washington e Moscovo: em busca de um modus vivendi&raquo;.</p>      ]]></body><back>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Ucrânia, a UE e a Rússia: softpower versus realpolitik?]]></article-title>
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