<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-9199</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Relações Internacionais (R:I)]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Relações Internacionais]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-9199</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[IPRI-UNL]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-91992015000100007</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ontologia e epistemologia da ordem internacional em Raymond Aron]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Ontology and epistemology of the international order in Raymond Aron's thought]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ramon-Fernandes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vítor]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Lusíada de Lisboa Faculdade de Ciências Humanas e Sociais ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Instituto de Defesa Nacional  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<numero>45</numero>
<fpage>111</fpage>
<lpage>122</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-91992015000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-91992015000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-91992015000100007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O objeto deste artigo é desafiar a ideia mais frequentemente avançada de que Raymond Aron é um autor realista. De facto, apesar das fortes afinidades com o realismo clássico o pensamento de Aron apresenta uma dimensão kantiana e um idealismo, atento a questões morais e a uma noção de liberdade, que o separam do realismo. Apesar disso, não parece correto considerá-lo como um autor idealista ou liberal das Relações Internacionais. O argumento é que o pensamento de Aron ganha em ser visto como o resultado de uma tensão entre realismo e liberalismo, que embora partindo de uma posição próxima do realismo clássico apresenta uma evolução para aquilo que é considerado a via media nas Relações Internacionais.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The intention is to challenge the common perception that Raymond Aron is a realist author. Indeed, despite the author's close affinities with classical realism Aron's thinking displays a Kantian dimension and an idealist thinking concerned with moral issues and with a certain notion of freedom that set him apart from realism. The argument is that within the realm of International Relations the thinking of Raymond Aron is best seen as resulting from the existing tension between realism and liberalism, starting from a position close to classical realism that evolved towards what is considered to be the via media in International Relations.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Raymond Aron]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[epistemologia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[ontologia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[poder]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Raymond Aron]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Epistemology]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Ontology]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Power]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>SISTEMAS POLÍTICO-PARTIDÁRIOS: OS CASOS ITALIANO E ESPANHOL</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Ontologia e epistemologia da ordem internacional </B><B>em Raymond Aron</B></p>     <p><B>Ontology and epistemology of the international order in Raymond Aron&#39;s thought</B></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>V&iacute;tor Ramon-Fernandes </B></p>     <p>Professor Auxiliar de Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais na Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais da Universidade Lus&iacute;ada de Lisboa. Doutorado em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pela FCSH-UNL. Auditor do Curso de Defesa Nacional do Instituto de Defesa Nacional. Mestre em Economia pela Universidade de Kent at Canterbury, Reino Unido e em Gest&atilde;o de Empresas pelo ISCTE &ndash; IUL. Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Lecionou na Universidade de Cambridge no Reino Unido, em Jesus College, onde esteve como <i>Graduate Visiting Student</i> e membro de Robinson College, e tamb&eacute;m na University of Kent at Canterbury. Presentemente, &eacute; tamb&eacute;m <i>Visiting Scholar</i> na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, no <i>Department of Politics and International Studies</i>, e em Wolfson College, do qual &eacute; membro.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>RESUMO</B></p>     <p>O objeto deste artigo &eacute; desafiar a ideia mais frequentemente avan&ccedil;ada de que Raymond Aron &eacute; um autor realista. De facto, apesar das fortes afinidades com o realismo cl&aacute;ssico o pensamento de Aron apresenta uma dimens&atilde;o kantiana e um idealismo, atento a quest&otilde;es morais e a uma no&ccedil;&atilde;o de liberdade, que o separam do realismo. Apesar disso, n&atilde;o parece correto consider&aacute;-lo como um autor idealista ou liberal das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais. O argumento &eacute; que o pensamento de Aron ganha em ser visto como o resultado de uma tens&atilde;o entre realismo e liberalismo, que embora partindo de uma posi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima do realismo cl&aacute;ssico apresenta uma evolu&ccedil;&atilde;o para aquilo que &eacute; considerado a <i>via media </i>nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>Palavras-chave:</B><i> </i>Raymond Aron, epistemologia, ontologia, poder.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>ABSTRACT</B></p>     <p>The intention is to challenge the common perception that Raymond Aron is a realist author. Indeed, despite the author&rsquo;s close affinities with classical realism Aron&rsquo;s thinking displays a Kantian dimension and an idealist thinking concerned with moral issues and with a certain notion of freedom that set him apart from realism. The argument is that within the realm of International Relations the thinking of Raymond Aron is best seen as resulting from the existing tension between realism and liberalism, starting from a position close to classical realism that evolved towards what is considered to be the <i>via media</i> in International Relations.</p>     <p><B>Keywords:</B> Raymond Aron; Epistemology; Ontology; Power.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Raymond Aron &eacute; frequentemente considerado como um autor realista devido &agrave;s afinidades que o seu pensamento internacionalista apresenta com o realismo cl&aacute;ssico nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. No entanto, e apesar disso, o seu pensamento apresenta tamb&eacute;m uma dimens&atilde;o kantiana e um liberalismo, muito atentos a quest&otilde;es morais e a uma no&ccedil;&atilde;o de liberdade que o afastam dessa corrente de pensamento. O presente artigo pretende desafiar essa ideia de que Raymond Aron &eacute; um autor realista. Um olhar mais atento revela v&aacute;rias afinidades com autores como Martin Wight e Hedley Bull, embora tamb&eacute;m n&atilde;o seja poss&iacute;vel considerar Raymond Aron como um membro da Escola Inglesa. O argumento &eacute; que o pensamento de Aron ganha em ser visto como o resultado de uma tens&atilde;o entre realismo e liberalismo, que embora partindo de uma posi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima do realismo cl&aacute;ssico apresenta uma evolu&ccedil;&atilde;o para aquilo que &eacute; considerado a <i>via media</i> nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais. No entanto, as in&uacute;meras tens&otilde;es e antinomias presentes no seu pensamento dificultam a sua classifica&ccedil;&atilde;o numa ou noutra corrente de pensamento internacionalista.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A IMPORT&Acirc;NCIA DA FILOSOFIA CR&Iacute;TICA DA HIST&Oacute;RIA NAS RELA&Ccedil;&Otilde;ES INTERNACIONAIS</b></p>     <p>Raymond Aron considerava o conhecimento hist&oacute;rico, e o conceito do que &eacute; a hist&oacute;ria ao longo dos tempos, fundamental em rela&ccedil;&atilde;o ao pensamento humano, e essa import&acirc;ncia advinha do facto de a hist&oacute;ria proporcionar um conhecimento mais eficaz sobre a natureza humana, e do homem sobre si pr&oacute;prio. Esse conhecimento, que a abrange tamb&eacute;m as rela&ccedil;&otilde;es internacionais, &eacute; adquirido por interm&eacute;dio da compreens&atilde;o das for&ccedil;as, das escolhas, e das circunst&acirc;ncias que antecederam e estiveram na base daquilo que &eacute; o nosso presente a cada momento, e que nos permite Raymond Aron tamb&eacute;m pensar que &eacute; poss&iacute;vel, enquanto seres humanos, aprendermos atrav&eacute;s da hist&oacute;ria. Para prosseguir este objetivo, Raymond Aron faz em <i>Introduction &agrave; la philosophie de l&rsquo;histoire: Essai sur les limites de l&rsquo;objectivit&eacute; de l&rsquo;histoire</i><sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>uma cr&iacute;tica tanto &agrave; filosofia especulativa de Hegel, muito particularmente no que respeita &agrave; exist&ecirc;ncia de uma filosofia da hist&oacute;ria global e totalizante que explica de forma sistem&aacute;tica todo o passado humano atrav&eacute;s de um movimento determin&iacute;stico de causalidades &uacute;nicas e preestabelecidas, como ao positivismo<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. A sua filosofia cr&iacute;tica da hist&oacute;ria<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>pretendia cumprir uma dupla fun&ccedil;&atilde;o: por um lado, confirmar a objetividade do conhecimento hist&oacute;rico, definindo as pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es dessa objetividade, e, por outro, perceber os limites dessa mesma objetividade, isto &eacute;, o seu alcance<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O argumento fundamental no pensamento de Aron que aqui nos interessa passa por admitir a exist&ecirc;ncia de duas l&oacute;gicas na aquisi&ccedil;&atilde;o de conhecimento no campo das ci&ecirc;ncias sociais e no conhecimento do passado: a l&oacute;gica da compreens&atilde;o, no sentido da palavra alem&atilde; <i>Verstehen</i>, que se encontra ligada &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de Dilthey e de Max Weber, e que tem em considera&ccedil;&atilde;o o facto de as quest&otilde;es relacionadas com os seres humanos terem de ser estudadas de uma forma diferente dos objetos, isto &eacute;, que tem em conta as suas especificidades, assim como a sua componente hist&oacute;rica, e uma outra l&oacute;gica, da &laquo;explica&ccedil;&atilde;o&raquo;, que faz apelo a rela&ccedil;&otilde;es de causalidade e procura estabelecer qual a causa ou causas que s&atilde;o respons&aacute;veis por produzirem determinados efeitos. Raymond Aron sublinha a necessidade de distinguir entre as no&ccedil;&otilde;es de &laquo;compreens&atilde;o&raquo; e de &laquo;explica&ccedil;&atilde;o&raquo;, enquanto formas de proceder no estudo da hist&oacute;ria<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. &Eacute; poss&iacute;vel explicar a natureza, mas no que respeita ao conhecimento humano este tem de ser compreendido de forma intelig&iacute;vel, sem necessidade de estabelecer rela&ccedil;&otilde;es causais. O compreender (<i>Verstehen</i>) n&atilde;o se refere ao entendimento de uma concep&ccedil;&atilde;o racional, como por exemplo um problema de matem&aacute;tica, mas sim ao processo mental atrav&eacute;s do qual compreendemos a experi&ecirc;ncia humana. &Eacute; algo que n&atilde;o se confunde com um processo puramente cognitivo. E &eacute; atrav&eacute;s desse processo que nos compreendemos e compreendemos os outros. Apenas a compreens&atilde;o consegue captar as entidades individuais sem encarar for&ccedil;osamente o individual como um meio para atingir o geral,o que permite tamb&eacute;m transcender a objetividade reducionista e n&atilde;o ficar como que espartilhada nela, tal como acontece com as ci&ecirc;ncias f&iacute;sicas e da natureza. Este &eacute; o ponto de partida para o desenvolvimento da sua reflex&atilde;o epistemol&oacute;gica e que me parece ser essencial para entender a forma como Raymond Aron aborda o estudo das rela&ccedil;&otilde;es internacionais.</p>     <p>Raymond Aron encara a hist&oacute;ria como uma reconstitui&ccedil;&atilde;o elaborada por um sujeito vivo, o historiador, que acaba por ser, simultaneamente, sujeito e objeto dessa mesma hist&oacute;ria. Trata-se, pois, de pensar a hist&oacute;ria como uma reconstitui&ccedil;&atilde;o, efetuada pelos vivos<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>, cujo processo de constru&ccedil;&atilde;o ocorre de modo distinto da forma de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento no campo das ci&ecirc;ncias exatas. Nessa perspetiva, o conhecimento hist&oacute;rico n&atilde;o surge atrav&eacute;s de um ser transcendental, exterior &agrave; quest&atilde;o hist&oacute;rica, que se limita a observar ou a relatar a hist&oacute;ria, mas sim atrav&eacute;s de um homem do presente, de um ser hist&oacute;rico que tenta compreender o seu passado e o contexto em que se encontra.</p>     <p>&Eacute; este quadro que permite compreender a import&acirc;ncia da hist&oacute;ria e da filosofia da hist&oacute;ria no pensamento internacionalista de Raymond Aron, conjugada com a sociologia<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>, com a ideia de singularidade, e de compreens&atilde;o dessa mesma singularidade. A quest&atilde;o da singularidade, do car&aacute;cter &uacute;nico dos acontecimentos, &eacute; um elemento fundamental na an&aacute;lise que empreende sobre as rela&ccedil;&otilde;es internacionais. E &eacute; tamb&eacute;m essa singularidade da hist&oacute;ria que constitui um elemento-chave que condiciona a forma como devem ser analisadas as rela&ccedil;&otilde;es internacionais, em particular n&atilde;o permitindo generaliza&ccedil;&otilde;es e extrapola&ccedil;&otilde;es simplistas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RAYMOND ARON E O ESTUDO DAS RELA&Ccedil;&Otilde;ES INTERNACIONAIS</b></p>     <p>As implica&ccedil;&otilde;es de natureza ontol&oacute;gica e epistemol&oacute;gica desta posi&ccedil;&atilde;o relativamente &agrave; filosofia da hist&oacute;ria s&atilde;o v&aacute;rias e determinantes para compreender o pensamento internacionalista de Aron, na medida em que configuram um tipo de posicionamento espec&iacute;fico em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo, ao que &eacute; o conhecimento do homem sobre si mesmo, e ao seu devir. Ao questionar a universalidade do conhecimento hist&oacute;rico e, consequentemente, a sua objetividade, enuncia tamb&eacute;m pressupostos gnosiol&oacute;gicos contr&aacute;rios a uma vis&atilde;o de tipo positivista, como escreveu na introdu&ccedil;&atilde;o da sua tese de doutoramento: &laquo;No plano superior, o nosso livro conduz a uma filosofia hist&oacute;rica que se op&otilde;e ao racionalismo cientista ao mesmo tempo que ao positivismo.&raquo;<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a></p>     <p>&Eacute; tamb&eacute;m por essa raz&atilde;o que submete a um olhar cr&iacute;tico as tentativas de elabora&ccedil;&atilde;o de uma teoria geral das rela&ccedil;&otilde;es internacionais, no sentido em que &eacute; feito, designadamente na teoria walrasiana na Economia, atrav&eacute;s de sistemas hipot&eacute;tico-dedutivos<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>. Esta an&aacute;lise de Aron pretende fundamentalmente, embora n&atilde;o de forma exclusiva, avaliar de um modo cr&iacute;tico a primeira tentativa de elabora&ccedil;&atilde;o de uma teoria geral por Hans Morgenthau e exposta em <i>Politics Among Nations</i><sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>, obra publicada pela primeira vez em 1948. Morgenthau pretendia que a sua an&aacute;lise e forma de conceber a pol&iacute;tica internacional se traduzissem numa teoria que pudesse ser analisada e julgada de uma forma emp&iacute;rica e pragm&aacute;tica, segundo princ&iacute;pios l&oacute;gicos e n&atilde;o abstratos<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>. Enquanto cr&iacute;tica epistemol&oacute;gica, esta teoria deveria ser capaz de testar os seus conceitos, em especial o de poder, segundo princ&iacute;pios semelhantes aos seguidos em economia para testar conceitos como o de utilidade<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>     <p>Ao refletir sobre esta teoria, Aron tendeu a consider&aacute;-la um falhan&ccedil;o e um limite da pr&oacute;pria teoria, concluindo que seria imposs&iacute;vel conceber uma teoria geral das rela&ccedil;&otilde;es internacionais pela evidente dificuldade em atribuir aos atores um objetivo &uacute;nico e a vontade, consciente ou inconsciente, de o maximizar, tanto ao longo dos s&eacute;culos, como num dado sistema<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>. Na sua opini&atilde;o, e esta &eacute; uma marca muito pr&oacute;pria da contribui&ccedil;&atilde;o de Raymond Aron em rela&ccedil;&atilde;o ao estudo das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, e que se aplica a todos os fen&oacute;menos do social, o estudo das rela&ccedil;&otilde;es internacionais tem uma componente sociol&oacute;gica importante, e n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel isolar um sistema de rela&ccedil;&otilde;es internacionais, na medida em que o comportamento dos atores envolvidos &eacute; determinado por um conjunto amplo de vari&aacute;veis, cuja racionalidade n&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel com a elabora&ccedil;&atilde;o de uma teoria geral, com um sistema de rela&ccedil;&otilde;es de causalidade bem definido.</p>     <p>Mas n&atilde;o se pode entender esta posi&ccedil;&atilde;o de Raymond Aron como uma nega&ccedil;&atilde;o da possibilidade de teoriza&ccedil;&atilde;o nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, pois ao referir-se &agrave; teoria de Morgenthau, Aron afirma que &eacute; essa an&aacute;lise te&oacute;rica que enfatiza os limites da teoria no seu sentido puro<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>. Assim, teorizar &eacute; sem d&uacute;vida poss&iacute;vel, mas &eacute; tamb&eacute;m necess&aacute;rio ter consci&ecirc;ncia dos seus limites. E Raymond Aron n&atilde;o se limita a criticar aqueles que pretendem elaborar teorias de natureza cient&iacute;fica relativas &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es internacionais, e d&aacute;-nos a conhecer a sua posi&ccedil;&atilde;o sobre o modo de abordar este campo disciplinar:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;Podemos determinar o campo das rela&ccedil;&otilde;es internacionais de duas maneiras. Ou nos esfor&ccedil;amos para apreender aquilo que faz a <i>originalidade</i>, a singularidade desse campo, entre os outros campos sociais; ou ent&atilde;o partimos de conceitos que se aplicam a outros dom&iacute;nios que n&atilde;o ao das rela&ccedil;&otilde;es internacionais.&raquo;<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Raymond Aron opta abertamente pela primeira forma<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>. Mas a preocupa&ccedil;&atilde;o com o cient&iacute;fico, e com a replica&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;todos das ci&ecirc;ncias naturais ou f&iacute;sicas no campo das ci&ecirc;ncias sociais nunca deixou de estar presente em diversos autores que procuraram dotar a disciplina das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais de um car&aacute;cter cient&iacute;fico atrav&eacute;s da elabora&ccedil;&atilde;o de uma teoria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais unificadora da disciplina, o que, como anteriormente referi, Aron considerava n&atilde;o ser poss&iacute;vel.</p>     <p>Essa tentativa surge com Kenneth Waltz, em 1979, no livro <i>Theory of Internacional Politics</i><sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>. Tendo em considera&ccedil;&atilde;o as exig&ecirc;ncias associadas ao m&eacute;todo cient&iacute;fico, esta formula&ccedil;&atilde;o &eacute; bem mais elaborada do que a de Hans Morgenthau e obedece aos crit&eacute;rios cient&iacute;ficos acima referidos<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>.</p>     <p>Tal como Morgenthau, as considera&ccedil;&otilde;es de Waltz em rela&ccedil;&atilde;o ao estudo das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, de um modo geral, e respeitantes &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de teoria, em particular, revelam um posicionamento ontol&oacute;gico e epistemol&oacute;gico completamente oposto ao de Raymond Aron. Enquanto este &uacute;ltimo considera que o mais importante &eacute; a compreens&atilde;o dos detalhes e dos elementos que distinguem e singularizam as Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais face a outros campos de estudo das realidades sociais, Waltz procura elementos aglutinadores e comuns que permitam sintetizar, simplificando, as vari&aacute;veis relevantes ou tidas como tal. A pretens&atilde;o de Waltz &eacute; apresentar explica&ccedil;&otilde;es para a continuidade, e n&atilde;o para a exce&ccedil;&atilde;o, ou para os casos particulares<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>.</p>     <p>Estas diferen&ccedil;as entre Aron, por um lado, e Morgenthau e Waltz, por outro, tamb&eacute;m se consubstanciaram em diferen&ccedil;as metodol&oacute;gicas, muito particularmente nas discuss&otilde;es que se verificaram no &laquo;segundo grande debate&raquo;<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>, e s&atilde;o demonstrativas de um afastamento de Aron do pensamento realista, seja na sua vers&atilde;o cl&aacute;ssica ou neorrealista, e de uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao pensamento de Wight e Bull, no sentido da Escola Inglesa<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A TENS&Atilde;O ENTRE SISTEMA, SOCIEDADE E COMUNIDADE INTERNACIONAL</b></p>     <p>Importa ter em conta a an&aacute;lise de Raymond Aron relativamente ao sistema internacional, quando define no&ccedil;&otilde;es como a homogeneidade ou heterogeneidade do sistema, que conduzem, por interm&eacute;dio das t&eacute;cnicas de a&ccedil;&atilde;o utilizadas, a diferentes rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as no sistema. No meu entender, estas duas no&ccedil;&otilde;es s&atilde;o fundamentais na medida em que o primeiro tipo re&uacute;ne os estados que t&ecirc;m uma concep&ccedil;&atilde;o semelhante da pol&iacute;tica, e em que existe uma partilha de valores e regras, enquanto os sistemas heterog&eacute;neos se caracterizam por uma concep&ccedil;&atilde;o oposta. Trata-se de uma diferen&ccedil;a fulcral, pois tem implica&ccedil;&otilde;es completamente diferentes ao n&iacute;vel do relacionamento entre estados, assim como entre a exist&ecirc;ncia da paz e da guerra entre os mesmos. O que isto significa &eacute; que existe uma esp&eacute;cie de circularidade em que o c&aacute;lculo de for&ccedil;as e toda a dial&eacute;tica que est&aacute; associada aos regimes, ou &agrave;s ideias, se revelam essenciais para interpretar a conduta diplom&aacute;tico-estrat&eacute;gica em, cada momento e circunst&acirc;ncia, tendo a reparti&ccedil;&atilde;o de poder como um fator determinante no que respeita ao desenvolvimento do sistema. Trata-se de considerar uma vers&atilde;o da balan&ccedil;a do poder como um aspeto fundamental, regulador do sistema internacional, mas que n&atilde;o est&aacute; isolado de outras institui&ccedil;&otilde;es, designadamente, a diplomacia, o direito internacional e a guerra, o que estabelece um ponto de converg&ecirc;ncia com Hedley Bull<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a>.</p>     <p>A converg&ecirc;ncia entre Raymond Aron e Hedley Bull pode tamb&eacute;m ser corroborada pela import&acirc;ncia que Aron atribui &agrave;s ideias e &agrave;s emo&ccedil;&otilde;es na rela&ccedil;&atilde;o entre os estados<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>, as quais n&atilde;o ocorrem nunca num estado de arbitrariedade pura, tal como refere Aron<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a>. N&atilde;o obstante, atribui tamb&eacute;m grande relev&acirc;ncia &agrave; rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as entre os estados. Nas civiliza&ccedil;&otilde;es, existem regras e com frequ&ecirc;ncia um c&oacute;digo que rege, de alguma forma, essas rela&ccedil;&otilde;es designadamente no que respeita a forma de tratar os embaixadores de cada pa&iacute;s ou, inclusive, os prisioneiros durante e ap&oacute;s as guerras. Existem conven&ccedil;&otilde;es e tratados que condicionam os comportamentos dos estados, o que n&atilde;o significa, nem implica, que exista um direito internacional que regulamenta as rela&ccedil;&otilde;es entre os estados, com um sentido semelhante ao que ocorre com as leis internas de um Estado. As emo&ccedil;&otilde;es e as ideias a que Raymond Aron faz refer&ecirc;ncia, que podem existir em maior ou menor grau, s&atilde;o vistas em fun&ccedil;&atilde;o do grau de homogeneidade que existe num dado sistema em determinada altura, definindo sistemas internacionais homog&eacute;neos ou heterog&eacute;neos. Esta forma de caracterizar um sistema internacional, quando considerado homog&eacute;neo (isto &eacute;, que favorece uma maior solidariedade e uma limita&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia), estabelece tamb&eacute;m pontos de converg&ecirc;ncia com a no&ccedil;&atilde;o de sociedade internacional de Martin Wight e de Hedley Bull, na medida em que num sistema internacional homog&eacute;neo os homens regem-se por padr&otilde;es semelhantes, frequentemente enraizados na tradi&ccedil;&atilde;o e nos costumes<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a>. Quanto mais homog&eacute;neo for o sistema, maior ser&aacute; a solidariedade entre os seus membros e a limita&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a>. Por outro lado, um sistema heterog&eacute;neo tem consequ&ecirc;ncias contr&aacute;rias. Mas tamb&eacute;m nunca existe uma forma de autorregula&ccedil;&atilde;o e de solidariedade mais abrangente entre os membros do sistema.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por seu lado, Martin Wight sublinha que a hist&oacute;ria internacional tem sido f&eacute;rtil em guerras, e que o contexto internacional deve ser descrito como an&aacute;rquico, com uma multiplicidade de soberanos, e sem um poder central, ao contr&aacute;rio do que ocorre no contexto interno dos estados<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a>. N&atilde;o obstante esta posi&ccedil;&atilde;o, existe da parte de Martin Wight o reconhecimento da exist&ecirc;ncia de uma sociedade internacional, e a rejei&ccedil;&atilde;o da ideia de que esta n&atilde;o poderia existir devido &agrave; possibilidade de ocorr&ecirc;ncia de guerras e &agrave; aus&ecirc;ncia de um poder soberano<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a>. Mas a aus&ecirc;ncia de uma autoridade central n&atilde;o impede que exista coopera&ccedil;&atilde;o entre os estados, assim como uma lei internacional, um sistema diplom&aacute;tico, e outras institui&ccedil;&otilde;es, tais como a balan&ccedil;a de poderes e, obviamente, a guerra. Estas institui&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m um impacto no sistema internacional e na &laquo;pol&iacute;tica de poder&raquo; que n&atilde;o &eacute; negligenci&aacute;vel. Na opini&atilde;o de Wight, admitir a exist&ecirc;ncia de um sistema internacional, definido como um conjunto de unidades pol&iacute;ticas que estabelecem e mant&ecirc;m rela&ccedil;&otilde;es entre si, independentemente de poderem entrar em conflito, acaba por nos ajudar a &laquo;admitir a exist&ecirc;ncia de uma sociedade; pois uma sociedade consiste num conjunto de indiv&iacute;duos juntos num sistema de rela&ccedil;&otilde;es, com vista a prosseguirem certos objetivos comuns&raquo;<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a>.</p>     <p>Apesar deste coment&aacute;rio, para Martin Wight a sociedade internacional difere de todas as outras, pois apresenta caracter&iacute;sticas que a distinguem, em especial o facto de ser composta por estados, de possuir um n&uacute;mero reduzido de membros, e uma heterogeneidade pr&oacute;pria<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a>. A mesma constata&ccedil;&atilde;o &eacute; v&aacute;lida para Raymond Aron e para Hedley Bull. Esta no&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia de objetivos comuns &agrave; sociedade internacional, composta por um grupo de estados que partilham valores e interesses comuns, tem assim v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es: leis internacionais, tratados e pactos entre estados, que embora n&atilde;o tenham as mesmas caracter&iacute;sticas da lei interna dos estados, delimitam e condicionam, de forma consider&aacute;vel, o comportamento e a a&ccedil;&atilde;o dos estados.</p>     <p>A realidade &eacute; que o objetivo da lei internacional n&atilde;o deixa de ser o de definir normas e regras de comportamento e a&ccedil;&atilde;o dos estados, delimitando de alguma forma as esferas de atua&ccedil;&atilde;o destas entidades. Por esse motivo, o facto de essas normas e regras estarem largamente baseadas nos usos e costumes da a&ccedil;&atilde;o internacional tamb&eacute;m lhes confere uma legitimidade na regula&ccedil;&atilde;o, independentemente de n&atilde;o existir por parte de nenhuma entidade a capacidade de as fazer cumprir e de sancionar os estados infratores. Mesmo as institui&ccedil;&otilde;es internacionais que possam ter a pretens&atilde;o de o fazer, e que re&uacute;nam a capacidade de condicionar as a&ccedil;&otilde;es dos estados, n&atilde;o possuem recursos compar&aacute;veis aos dos estados nacionais. &Eacute; nesse contexto que a guerra, tal como as alian&ccedil;as, a diplomacia, e a neutralidade, pode ser considerada parte integrante das institui&ccedil;&otilde;es da sociedade internacional<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a>. Na mesma linha de pensamento de Martin Wight, importa tamb&eacute;m salientar a caracteriza&ccedil;&atilde;o de um sistema internacional por parte de Hedley Bull como um conjunto de dois ou mais estados independentes que mant&ecirc;m rela&ccedil;&otilde;es regulares entre si, e em que esse contacto &eacute; suficiente para afetar as decis&otilde;es de ambos<sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a>. Este tipo de intera&ccedil;&atilde;o pode assumir v&aacute;rias vertentes, designadamente de natureza pol&iacute;tica, estrat&eacute;gica, econ&oacute;mica ou social<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O PROBLEMA DA ORDEM EM RAYMOND ARON</b></p>     <p>Na sua an&aacute;lise sobre a sociedade internacional, Hedley Bull faz refer&ecirc;ncia a Raymond Aron distinguindo-o de outros autores, nomeadamente realistas, indiciando que considerava existir em Aron alguma evolu&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica para a <i>via media</i>, no sentido em que &eacute; vulgarmente considerado nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, isto &eacute;, um posicionamento entre realismo e idealismo<sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a>no sentido de Martin Wight e Hedley Bull. Em minha opini&atilde;o, existe em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; possibilidade do recurso &agrave; guerra uma diferen&ccedil;a significativa entre a posi&ccedil;&atilde;o acima referida e a que se verifica nas correntes realistas, em que a luta pelo poder surge como o objetivo principal. Na caracteriza&ccedil;&atilde;o que faz do sistema internacional, Hedley Bull<sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a> sublinha que uma das quest&otilde;es predominantes se prende com a natureza das intera&ccedil;&otilde;es entre os estados, em que a influ&ecirc;ncia de uns sobre outros gera um sistema em que todos fazem parte de um todo. Numa situa&ccedil;&atilde;o de eventual conflito, a guerra surge como uma sa&iacute;da, podendo ocorrer de forma generalizada<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a>.</p>     <p>Mas a envolvente internacional sofre altera&ccedil;&otilde;es ao longo do tempo, em fun&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias circunst&acirc;ncias. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es que podem ocorrer no contexto internacional, considero que merece destaque a an&aacute;lise que Martin Wight faz sobre a pol&iacute;tica internacional, na qual distingue tr&ecirc;s tradi&ccedil;&otilde;es: a realista, a racionalista e a revolucion&aacute;ria<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a>. Na mesma linha de pensamento, embora mais atenta a no&ccedil;&otilde;es como solidariedade e comunidade do que a de Martin Wight, encontra-se a obra de Hedley Bull, <i>The Anarchical Society</i>, em que o autor define e elabora sobre as tradi&ccedil;&otilde;es realista, grociana e kantiana, ou universalista. O seu argumento &eacute; que a sociedade internacional reflete as tr&ecirc;s tradi&ccedil;&otilde;es, mas que em determinados momentos ou geografias, e tendo em considera&ccedil;&atilde;o diferentes pol&iacute;ticas adotadas pelos estados, um desses elementos pode preponderar sobre os demais<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a>. A ideia fundamental subjacente a esta perspetiva racionalista, ou grociana, &eacute; a de que as rela&ccedil;&otilde;es entre os estados s&atilde;o condicionadas pela prud&ecirc;ncia, mas tamb&eacute;m por imperativos morais e de coopera&ccedil;&atilde;o. Tanto Martin Wight como Hedley Bull consideram que esta perspetiva se situa entre as perspetivas realista e kantiana, e da&iacute; a designa&ccedil;&atilde;o de <i>via media</i>.</p>     <p>&Eacute; verdade que na sua defini&ccedil;&atilde;o base de sistema internacional Raymond Aron n&atilde;o faz nenhuma refer&ecirc;ncia a objetivos comuns por parte dos estados ou a qualquer partilha de valores comuns ou outros prop&oacute;sitos. Por essa raz&atilde;o, n&atilde;o pressup&otilde;e ou implica nenhum tipo de rela&ccedil;&atilde;o compar&aacute;vel ao que se encontra na defini&ccedil;&atilde;o de Hedley Bull de sociedade internacional. Mas &eacute; meu argumento que a no&ccedil;&atilde;o de sistema internacional homog&eacute;neo de Aron apresenta pontos de contacto e de converg&ecirc;ncia com a defini&ccedil;&atilde;o de sociedade internacional<sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a>, em que &eacute; admitida a no&ccedil;&atilde;o de coopera&ccedil;&atilde;o e progresso entre os estados. Ao contr&aacute;rio, um sistema heterog&eacute;neo assemelha-se mais &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o realista. Isto &eacute;, o sistema internacional definido por Raymond Aron n&atilde;o tem for&ccedil;osamente, nem apenas, a mesma interpreta&ccedil;&atilde;o que lhe &eacute; dada pelas correntes realistas, que consideram que ocorre uma constante luta pelo poder. Esta interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; refor&ccedil;ada com a no&ccedil;&atilde;o de sistema homog&eacute;neo de Raymond Aron, que assim se aproxima de forma mais &oacute;bvia da no&ccedil;&atilde;o de sociedade internacional de Bull e de Wight, o que reafirma o v&iacute;nculo entre Raymond Aron e estes autores, apesar de n&atilde;o ser poss&iacute;vel classific&aacute;-lo como um membro da Escola Inglesa, e apesar dos pontos de converg&ecirc;ncia com o pensamento realista cl&aacute;ssico. A Escola Inglesa tem sofrido uma grande evolu&ccedil;&atilde;o ao longo do tempo, mas na vers&atilde;o de Bull e Wight a discuss&atilde;o essencial centra-se &agrave; volta da exist&ecirc;ncia de uma sociedade internacional e da sua natureza, na tradi&ccedil;&atilde;o de Hugo Grotius, e, mais concretamente, das institui&ccedil;&otilde;es que constroem essa sociedade, tais como a guerra, a diplomacia e a balan&ccedil;a do poder. Aron tem uma vis&atilde;o diferente destas institui&ccedil;&otilde;es, com uma &oacute;tica mais pluralista, enquanto Hedley Bull e Martin Wight t&ecirc;m uma vis&atilde;o mais solidarista. Para al&eacute;m disso, a verdade &eacute; que Aron nunca participou em qualquer das reuni&otilde;es do British Committee nem teve nenhuma contribui&ccedil;&atilde;o a n&iacute;vel dos seus estudos e an&aacute;lises<sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a>.</p>     <p>Do que se trata tamb&eacute;m &eacute; de reconhecer que o pensamento de Aron resulta de um conjunto de tens&otilde;es e antinomias<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a>, que dificultam a sua classifica&ccedil;&atilde;o numa ou noutra corrente de pensamento internacionalista, e que podem ser consideradas como uma tens&atilde;o entre realismo e idealismo. Esse idealismo a que fa&ccedil;o refer&ecirc;ncia, ocorre num sentido kantiano do termo, manifestando-se na sua preocupa&ccedil;&atilde;o com a liberdade<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a>designadamente nos di&aacute;logos que estabeleceu com Jacques Maritain em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s antinomias de Max Weber<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a>, entre a &eacute;tica da responsabilidade e a &eacute;tica da convic&ccedil;&atilde;o, optando por uma &laquo;moral de bom senso&raquo;<sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a>, como que estabelecendo um ponto interm&eacute;dio entre o maquiavelismo absoluto e o moralismo, optando por uma perspetiva de um maquiavelismo moderado<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a>. Raymond Aron apresenta, assim, esta moral que classifico como um compromisso entre os dois extremos acima referidos, e que, na sua opini&atilde;o, se coaduna mais com a natureza da pol&iacute;tica internacional, tomando em considera&ccedil;&atilde;o tanto a dimens&atilde;o social como a antissocial das rela&ccedil;&otilde;es internacionais e da conduta diplom&aacute;tico-estrat&eacute;gica. Comparada com o moralismo, ela n&atilde;o exclui a for&ccedil;a e os elementos associados ao poder, refugiando-se em elementos abstratos e gen&eacute;ricos. Mas, por outro lado, e ao contr&aacute;rio do maquiavelismo absoluto, tamb&eacute;m n&atilde;o ignora completamente aspetos morais e &eacute;ticos. O que isto significa tamb&eacute;m &eacute; que a balan&ccedil;a do poder n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico mecanismo para a cria&ccedil;&atilde;o e a manuten&ccedil;&atilde;o da ordem internacional, tal como ocorre com o pensamento realista.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></p>     <p>Em jeito de conclus&atilde;o, e desafiando a ideia de que Raymond Aron &eacute; um autor realista, considero importante salientar que para o autor as intera&ccedil;&otilde;es entre os estados s&atilde;o mais complexas do que meras rela&ccedil;&otilde;es de coexist&ecirc;ncia e equil&iacute;brio de poderes. As intera&ccedil;&otilde;es entre os estados demonstram uma institucionaliza&ccedil;&atilde;o de normas e regras visando a obten&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o da ordem pol&iacute;tica que serve interesses comuns de configura&ccedil;&atilde;o vari&aacute;vel. Idealismo e realismo n&atilde;o s&atilde;o contradit&oacute;rios, entre si, mas complementares, o que &eacute; tamb&eacute;m indicativo das tens&otilde;es normativas e antinomias que estruturam o pensamento de Raymond Aron. E &eacute; nesse sentido que, embora pr&oacute;ximo do pensamento realista cl&aacute;ssico, o autor tamb&eacute;m apresenta tra&ccedil;os daquilo que em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais &eacute; visto como idealismo (a cren&ccedil;a no efeito &laquo;causal&raquo; das ideias, da consci&ecirc;ncia, da normatividade) e que o aproxima do que intitulei de <i>via media</i>.</p>     <p>Neste &acirc;mbito, importa salientar as implica&ccedil;&otilde;es normativas, para al&eacute;m das explicativas, do pensamento de Raymond Aron para a compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es internacionais. O pr&oacute;prio salienta que existem sempre implica&ccedil;&otilde;es normativas numa teoria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a>. Neste contexto, o que tamb&eacute;m est&aacute; em causa &eacute; a possibilidade de mudan&ccedil;a ou transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade internacional, elemento que decorre do pensamento de Aron, mas n&atilde;o &eacute; contemplado pelos realistas para quem a mudan&ccedil;a se restringe a altera&ccedil;&otilde;es na balan&ccedil;a de poderes.</p>     <p>Finalmente, vale a pena salientar ainda que, para al&eacute;m de rejeitar o positivismo e aceitar o pluralismo metodol&oacute;gico, Raymond Aron levantou quest&otilde;es que apenas foram objeto de maior aten&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s a sua morte, com o terceiro debate nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, que &eacute; um debate essencialmente epistemol&oacute;gico. A verdade &eacute; que muitas dessas quest&otilde;es encontram-se atualmente nas teses construtivistas. Aron foi precursor de muitas dessas ideias que apenas foram mais discutidas no terceiro debate ap&oacute;s a sua morte em 1983. Verifica-se alguma converg&ecirc;ncia, em particular, em rela&ccedil;&atilde;o ao construtivismo de Alexander Wendt. Essa converg&ecirc;ncia respeita &agrave; possibilidade de aquisi&ccedil;&atilde;o de conhecimento objetivo, que &eacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o de natureza epistemol&oacute;gica, mas, simultaneamente, uma dimens&atilde;o de intersubjetividade, relativa &agrave; aceita&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia das ideias partilhadas, das normas, numa dimens&atilde;o ontol&oacute;gica que oscila entre objetivismo e subjetivismo. E aqui existe tamb&eacute;m uma dimens&atilde;o normativa, tal como ocorre com Raymond Aron. Nesse contexto, a no&ccedil;&atilde;o de anarquia em Wendt apresenta semelhan&ccedil;as not&oacute;rias com a de Aron, na medida em que &eacute; vista como resultado do entendimento e da compreens&atilde;o que os estados fazem da situa&ccedil;&atilde;o em que se encontram. Para l&aacute; do realismo mais estrito, Aron certamente subscreveria que a anarquia &eacute; aquilo que os estados fazem dela<sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 28 de maio de 2014 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 5 de mar&ccedil;o de 2015 </i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> No presente texto, utilizo em letra min&uacute;scula a express&atilde;o &laquo;rela&ccedil;&otilde;es internacionais&raquo; sempre que me refiro &agrave;s din&acirc;micas que se estabelecem entre os atores da comunidade internacional, utilizando a mesma express&atilde;o em letra mai&uacute;scula quando me refiro &agrave; disciplina que estuda essas mesmas din&acirc;micas e que est&aacute; associada &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do departamento de Pol&iacute;tica Internacional, em 1919, na Universidade de Aberystwyth no Pa&iacute;s de Gales.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Introduction &agrave; la philosophie de l&rsquo; histoire: Essai sur les limites de l&rsquo;objectivit&eacute; de l&rsquo;histoire</i>. Paris: &Eacute;ditions Gallimard, 1986 (1938). Trata-se da sua tese de doutoramento principal apresentada e defendida em 26 de mar&ccedil;o de 1938 na Sorbonne.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Tal como indica Sylvie Mesure, que reviu e anotou a edi&ccedil;&atilde;o de 1986 de Aron, Raymond &ndash; <i>Introduction &agrave; la philosophie de l&rsquo;histoire: Essai sur les limites de l&rsquo;objectivit&eacute; de l&rsquo;histoire</i>, p. 464, o positivismo deve ser aqui visto como a corrente te&oacute;rica que entende a hist&oacute;ria como um conjunto de factos hist&oacute;ricos que j&aacute; existem, e apenas podem ser descritos e relatados pelo historiador. A edi&ccedil;&atilde;o de 1986 &eacute; anotada e comentada por Sylvie Mesure, contendo um extenso anexo da autoria dessa investigadora.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Express&atilde;o tamb&eacute;m consagrada no t&iacute;tulo de uma das suas obras, Aron, R. &ndash; <i>La philosophie critique de l&rsquo;histoire</i>. Paris: &Eacute;ditions du Seuil, 1969 (1938), que &eacute; tamb&eacute;m a sua tese de doutoramento complementar.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> ARON, Raymond &ndash; <i>M&eacute;moires</i>. Paris: &Eacute;ditions Robert Laffont, 2003 (1983), p. 110.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Introduction &agrave; la philosophie de l&rsquo; histoire: Essai sur les limites de l&rsquo;objectivit&eacute; de l&rsquo;histoire</i>, p. 58.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Dimensions de la conscience historique</i>. Paris: Plon, 1964 (1961), p. 12.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>La sociologie allemande contemporaine</i>. Paris:Presses Universitaires de France, 1966 (1935).</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Introduction &agrave; la philosophie de l&rsquo; histoire: Essai sur les limites de l&rsquo;objectivit&eacute; de l&rsquo;histoire</i>, p. 13. No original, &laquo;Sur le plan sup&eacute;rieur, notre livre conduit &agrave; une philosophie historique qui s&rsquo;oppose au rationalisme scientiste en m&ecirc;me temps qu&rsquo;au positivisme&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; &laquo;Qu&rsquo;est-ce qu&rsquo;une th&eacute;orie des relations internationales?&raquo;. <i>In</i> Aron, R. (ed. 1972). <i>&Eacute;tudes politiques</i>. Paris: &Eacute;ditions Gallimard, 1967, PP. 357-381. Os estudos a que fa&ccedil;o refer&ecirc;ncia assumem que estamos perante simplifica&ccedil;&otilde;es da realidade, substituindo os atores reais por representa&ccedil;&otilde;es simplificadas, com carac-ter&iacute;sticas tamb&eacute;m elas simplificadas, e muitas vezes homog&eacute;neas, o que n&atilde;o ocorre na realidade, mas &eacute; considerado como essencial para a elabora&ccedil;&atilde;o dessa teoria.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Morgenthau, Hans &ndash; <i>Politics among Nations </i>&ndash;<i> The Struggle for Power and Peace</i>. Nova York: McGraw-Hill, 1985 (1948).</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 10.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> A ideia de Morgenthau era que, partindo da no&ccedil;&atilde;o de que o conceito de utilidade surge na economia como relativamente un&iacute;voco, com uma l&oacute;gica bem definida, e que &eacute; aceite como o elemento que cada indiv&iacute;duo pretende maximizar, se poderia transpor esta mesma l&oacute;gica para o conceito de poder no &acirc;mbito dos estudos nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Aron, Raymond, 1967 &ndash; &laquo;Qu&rsquo;est-ce qu&rsquo;une th&eacute;orie des relations internationales?&raquo;, p. 368.</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 368.</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 362. No original, &laquo;On peut d&eacute;terminer le champ propre des relations internationales de deux mani&egrave;res. Ou bien on s&rsquo;efforce de saisir ce qui fait l&rsquo;<i>originalit&eacute;</i>, la singularit&eacute; de ce champ parmi les champs sociaux; ou bien on part de concepts qui s&rsquo;appliquent &agrave; d&rsquo;autres domaines que celui des relations internationales&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 368.</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> Waltz, Kenneth &ndash; <i>Theory of International Politics</i>. Nova York: McGraw-Hill, 1979.</p>     <p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> <i>Ibidem</i>. Na opini&atilde;o de Waltz, o trabalho de investiga&ccedil;&atilde;o inicia-se com as quest&otilde;es te&oacute;ricas que s&atilde;o colocadas, pois as respostas a quest&otilde;es factuais constituem perplexidades a que a teoria poder&aacute; responder e fornecer material para a investiga&ccedil;&atilde;o. Uma teoria tem de indicar os fatores que s&atilde;o mais importantes e especificar a rela&ccedil;&atilde;o entre eles. N&atilde;o se pode ter a pretens&atilde;o de responder a quest&otilde;es espec&iacute;ficas, e muito menos acidentais, ou fora do habitual. Por esse motivo, a teoria necessita de isolar um campo ou subsistema determinado dos outros para o poder analisar e explicar, sendo essa uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para a elabora&ccedil;&atilde;o de teoria.</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> A quest&atilde;o pode ainda colocar-se, como fez Raymond Aron, em Aron, R., 1967. &laquo;Qu&rsquo;est-ce qu&rsquo;une th&eacute;orie des relations internationales?&raquo;, PP. 357-381, em saber se a dificuldade n&atilde;o adv&eacute;m da pr&oacute;pria natureza do campo das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais. Sobre esta quest&atilde;o, podemos recorrer-nos do argumento de Stanley Hoffman (Hoffman, S., 1977. &laquo;An American social science: International Relations&raquo;. <i>In</i> Derian, J. Der (ed. 1995). <i>International Theory: Critical Investigations</i>. Londres: Macmillan, PP. 212-241), quando na p. 229 salienta que o pr&oacute;prio Raymond Aron tinha demonstrado por que raz&atilde;o uma teoria de comportamentos que n&atilde;o s&atilde;o facilmente determin&aacute;veis n&atilde;o podia dar origem a um conjunto de proposi&ccedil;&otilde;es que explicassem leis gerais e com as quais se poderia fazer previs&otilde;es.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> Este debate &eacute; sobretudo conhecido pela oposi&ccedil;&atilde;o que ocorreu entre Hedley Bull pelo lado tradicionalista e Morton Kaplan pelo lado behaviorista.</p>     <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> De notar, no entanto, que com esta refer&ecirc;ncia ao segundo debate n&atilde;o estou a sugerir que Morgenthau e Waltz sejam behavioristas ou tenham uma posi&ccedil;&atilde;o semelhante a Morton Kaplan no que concerne as metodologias a utilizar para o estudo das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais. O ponto que pretendo salientar &eacute; sobretudo relativo &agrave; abordagem de Aron que se assemelha &agrave; de Hedley Bull e Martin Wight.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></Sup> Bull, Hedley &ndash; <i>The Anarchical Society</i>: <i>A Study of Order in World Politics.</i> Nova York: Palgrave, 2002 (1977), em especial PP. 71 e 102.</p>     <p><Sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Paix et guerre entre les nations</i>. Paris: Calmann-l&eacute;vy, 2004 (1962), p. 108.</p>     <p><Sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 115.</p>     <p><Sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></Sup> Em boa verdade, o pr&oacute;prio Hedley Bull (Bull, H., <i>The Anarchical Society</i>: <i>A Study of Order in World Politics</i>, p. 238) faz refer&ecirc;ncia &agrave; caracteriza&ccedil;&atilde;o de Raymond Aron sobre esta quest&atilde;o, referindo que &laquo;the states system in the past, as Raymond Aron has noted, have undergone phases at least of relative ideological homogeneity in the intervals between the wars of religion (...)&raquo;. E afirma concordar com Raymond Aron quando este diz que nestes per&iacute;odos a coincid&ecirc;ncia entre os per&iacute;odos de grandes guerras e de heterogeneidade da sociedade internacional n&atilde;o &eacute; acidental, n&atilde;o s&oacute; por considerar que os sucessivos conflitos ideol&oacute;gicos s&atilde;o as principais causas dessas guerras, mas tamb&eacute;m por essas guerras tenderem a agravar e acentuar essas diverg&ecirc;ncias de natureza ideol&oacute;gica. Ao inv&eacute;s, os per&iacute;odos de homogeneidade t&ecirc;m sido caracterizados por uma maior toler&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s diferen&ccedil;as ideol&oacute;gicas, mais do que por uma uniformidade das mesmas.</p>     <p><Sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Paix et guerre entre les nations</i>, p. 109.</p>     <p><Sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></Sup> Wight, Martin &ndash; <i>In</i> Bull, H., e Holbraad, C. (eds.), &ndash; <i>Power Politics</i>. Londres: Continuum, 2004 (1978), PP. 100-101.</p>     <p><Sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></Sup> Vale a pena notar que a aceita&ccedil;&atilde;o da ideia de que a guerra constitui um dos modos de resolver conflitos entre estados, leva Martin Wight (<i>Ibidem</i>, p. 104), a referir que Clausewitz tem alguma raz&atilde;o ao afirmar que a guerra &eacute; a continua&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica por outros meios. &Eacute; tamb&eacute;m conhecida a admira&ccedil;&atilde;o de Aron por Clausewitz que &eacute;, ali&aacute;s, um dos autores mais citados por Aron em <i>Paix et guerre entre les nations</i>.</p>     <p><Sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></Sup> Wight, Martin &ndash; <i>In</i> Bull, H., e Holbraad, C. (eds.), &ndash; <i>Power Politics</i>, p. 105. No original, &laquo;to admitting that there is a society; for a society is a number of individuals joined in a system of relationships for certain common purposes&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 106.</p>     <p><Sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 111.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></Sup> Bull, Hedley &ndash; <i>The Anarchical Society</i>: <i>A Study of Order in World Politics</i>, PP. 9-10.</p>     <p><Sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></Sup> A este prop&oacute;sito, &eacute; relevante assinalar que n&atilde;o ser&aacute; casual a refer&ecirc;ncia feita por Hedley Bull (<i>Ibidem</i>, p. 10) relativamente a Raymond Aron, quando afirma que:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;pode ser suficiente, tal como subjaz &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de sistema internacional de Raymond Aron, que as comunidades pol&iacute;ticas independentes &ldquo;mantenham rela&ccedil;&otilde;es regulares entre si&rdquo; e &ldquo;possam estar implicadas numa guerra generalizada&rdquo;&raquo;. No original, &laquo;it may be enough, as Raymond Aron&rsquo;s definition of an international system implies, that the independent political communities &lsquo;maintain regular relations with each other&rsquo; and &ldquo;are capable of being implicated in a generalized war&rdquo;&raquo;.</blockquote>     <p></p>     <p><Sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></Sup> Opta-se aqui pela express&atilde;o idealismo porque essa &eacute; a express&atilde;o normalmente utilizada por Raymond Aron, designadamente em Aron, Raymond &ndash; <i>Paix et guerre entre les nations</i>, se bem que a revisita&ccedil;&atilde;o dos grandes debates em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais privilegie a express&atilde;o liberalismo e limite o idealismo a uma das suas fases, entre-guerras. Sobre o debate entre idealistas e realistas ver, por exemplo, Schmidt, B. &ndash; &laquo;On the history and historiography of International Relations&raquo;. <i>In</i> Carlsnaes, W., Risse, T., e Simmons, B. A. (eds.) 2005 &ndash; <i>Handbook of International Relations</i>. 2.&ordf; ed. Londres: Sage Publications, PP. 3-22. Sobre liberalismo ver, por exemplo, Dunne, T. &ndash; &laquo;Liberalism&raquo;. <i>In</i> Baylis, J., e Smith, S. (eds.) 2014. <i>The Globalization of World Politics</i>. Oxford e Nova York: Oxford University Press, 2005 (2013), cap. 7, PP. 113-125.</p>     <p><Sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></Sup> Bull, Hedley &ndash; <i>The Anarchical Society</i>: <i>A Study of Order in World Politics</i>.</p>     <p><Sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></Sup> Na l&oacute;gica de Raymond Aron, este facto constitui uma caracter&iacute;stica autonomizadora da disciplina das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais.</p>     <p><Sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></Sup> Wight, Martin, 1994. Edi&ccedil;&atilde;o e notas de Wight, G., e Porter, B. &ndash; <i>International Theory </i>&ndash; <i>The Three Traditions</i>. Londres: Leicester University Press.</p>     <p><Sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></Sup> Bull, Hedley &ndash; <i>The Anarchical Society</i>: <i>A Study of Order in World Politics</i>, p. 39.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></Sup> Tal como definida por Hedley Bull e Martin Wight.</p>     <p><Sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></Sup> Sobre a Escola Inglesa merece a pena consultar, Dunne, Tim &ndash; <i>Inventing International Society: A Histor y of the English School</i>, Houndmills: MacMillan Press, Ltd, 1998; Linklater, A., e Suganami, H., &ndash; <i>The English School of International Relations: A Contemporary Reassessment</i>. Cambridge University Press, 2006.</p>     <p><Sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></Sup> Designadamente, paz <i>versus</i> guerra, o todo <i>versus</i> as partes, o singular <i>versus</i> o recorrente, o problema maquiav&eacute;lico <i>ver-sus</i> o problema kantiano, idealismo <i>versus</i> realismo.</p>     <p><Sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></Sup> Este tema &eacute; tratado com detalhe no seu texto publicado em 1964 no <i>European Journal of Sociology</i> com o t&iacute;tulo &laquo;La d&eacute;finition de la libert&eacute;&raquo;, texto tamb&eacute;m publicado em Aron, R., 1998 (1965) &ndash; <i>Essai sur les libert&eacute;s</i>. Paris: Hachette Litt&eacute;ratures. Nesse texto, Raymond Aron confronta o pensamento de Tocqueville e de Marx sobre a liberdade, mais precisamente sobre as liberdades formais e as liberdades reais.</p>     <p><Sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></Sup> Que se encontram, designadamente, num artigo intitulado &laquo;La querelle du Machiav&eacute;lisme&raquo;, publicado a 15 de junho de 1943 na <i>Fr ance Libre</i>, durante a Segunda Grande Guerra, sob o pseud&oacute;nimo de Ren&eacute; Avord, e de novo publicado em 1993 na obra p&oacute;stuma Aron, R., 1993 &ndash; <i>Machiavel et les t y r annies modernes</i> (edi&ccedil;&atilde;o de texto, apresenta&ccedil;&atilde;o e anota&ccedil;&otilde;es de R&eacute;my Freymond. Paris: &Eacute;ditions de Fallois), e num conjunto de outras notas, designadamente, a de Jacques Maritain sobre a querela do maquiavelismo, que foi originalmente publicada no seu livro <i>&OElig;uvres, 1940-1963</i>, e poste-riormente inclu&iacute;da num anexo do livro de Aron (1993) &ndash; <i>Machiavel et les tyrannies modernes</i> com o t&iacute;tulo &laquo;Note de J. Maritain sur la querelle sur le machiav&eacute;-lisme&raquo; e a carta de Maritain a Aron, com o t&iacute;tulo &laquo;Lettre de Jacques Maritain &agrave; Raymond Aron&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></Sup> No original, &laquo;morale de la sagesse&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Paix et guerre entre les nations</i>, p. 596. &Eacute; no quadro desta an&aacute;lise que mais facilmente se compreendem os dois problemas praxiol&oacute;gicos identificados por Raymond Aron, em Aron, R. &ndash; <i>Paix et guerre entre les nations</i>, p. 565, e a que o autor se refere como o problema maquiav&eacute;lico e o problema kantiano. O problema maquiav&eacute;lico decorre, essencialmente, da problem&aacute;tica sobre os meios leg&iacute;timos que podem ser utilizados pelos estados nas suas rela&ccedil;&otilde;es, enquanto o problema kantiano decorre da eventualidade de a for&ccedil;a ser banida dessas mesmas rela&ccedil;&otilde;es, atingindo-se a paz universal.</p>     <p><Sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></Sup> Aron, Raymond &ndash; <i>Paix et guerre entre les nations</i>, p. 563.</p>     <p><Sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></Sup> Wendt, A., 1992 &ndash; &laquo;Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics&raquo;. In <i>International Organization</i>. N.&ordm; 46, Vol. 2, p. 395.</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Aron]]></surname>
<given-names><![CDATA[Raymond]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Introduction à la philosophie de l' histoire: Essai sur les limites de l'objectivité de l'histoire]]></source>
<year>1986</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Aron]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La philosophie critique de l'histoire]]></source>
<year>1969</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions du Seuil]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARON]]></surname>
<given-names><![CDATA[Raymond]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Mémoires]]></source>
<year>2003</year>
<page-range>110</page-range><publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions Robert Laffont]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Aron]]></surname>
<given-names><![CDATA[Raymond]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La sociologie allemande contemporaine]]></source>
<year>1966</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Presses Universitaires de France]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Aron]]></surname>
<given-names><![CDATA[Raymond]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Qu'est-ce qu'une théorie des relations internationales?]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Aron]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Études politiques]]></source>
<year>1967</year>
<page-range>357-381</page-range><publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Morgenthau]]></surname>
<given-names><![CDATA[Hans]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Politics among Nations - The Struggle for Power and Peace]]></source>
<year>1985</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[McGraw-Hill]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Waltz]]></surname>
<given-names><![CDATA[Kenneth]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Theory of International Politics]]></source>
<year>1979</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[McGraw-Hill]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bull]]></surname>
<given-names><![CDATA[Hedley]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Anarchical Society: A Study of Order in World Politics]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Palgrave]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Schmidt]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[On the history and historiography of International Relations]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Carlsnaes]]></surname>
<given-names><![CDATA[W.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Risse]]></surname>
<given-names><![CDATA[T.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Simmons]]></surname>
<given-names><![CDATA[B. A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Handbook of International Relations]]></source>
<year>2005</year>
<edition>2</edition>
<page-range>3-22</page-range><publisher-loc><![CDATA[Londres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Sage Publications]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dunne]]></surname>
<given-names><![CDATA[T.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Liberalism]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Baylis]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Smith]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Globalization of World Politics]]></source>
<year>2014</year>
<page-range>113-125</page-range><publisher-loc><![CDATA[OxfordNova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Oxford University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dunne]]></surname>
<given-names><![CDATA[Tim]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Inventing International Society: A History of the English School]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[Houndmills ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[MacMillan Press, Ltd]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Linklater]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Suganami]]></surname>
<given-names><![CDATA[H.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The English School of International Relations: A Contemporary Reassessment]]></source>
<year>2006</year>
<publisher-name><![CDATA[Cambridge University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Wendt]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics]]></article-title>
<source><![CDATA[International Organization]]></source>
<year>1992</year>
<volume>2</volume>
<numero>46</numero>
<issue>46</issue>
<page-range>395</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
