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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Quase delfins</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pedro Aires Oliveira</b></p>     <p>Professor no Departamento de Historia da FCSH-NOVA, investigador integrado no IHC e investigador associado no IPRI&ndash;UNL. Entre 2004 e 2008 foi chefe de reda&ccedil;&atilde;o da R:I. Os seus interesses de investiga&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m incidido principalmente na hist&oacute;ria das rela&ccedil;&otilde;es externas portuguesas e na hist&oacute;ria do colonialismo e da descoloniza&ccedil;&atilde;o. O seu &uacute;ltimo livro &eacute; <i>Hist&oacute;ria da Expans&atilde;o e do Imp&eacute;rio Portugu&ecirc;s</i> (Esfera dos Livros, 2014), em coautoria com Jo&atilde;o P. Oliveira e Costa e Jos&eacute; Dami&atilde;o Rodrigues.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Manuel de Lucena<i>. Os Lugar-Tenentes de Salazar. Biografias</i>. Lisboa: Al&ecirc;theia, 2015, 371 p&aacute;ginas</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Manuel de Lucena, que nos deixou em fevereiro deste ano, foi justamente celebrado como um dos intelectuais mais originais e livres da sua gera&ccedil;&atilde;o, aquela que teve o seu &laquo;batismo de fogo&raquo; na crise acad&eacute;mica de 1962. De forma&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica e mon&aacute;rquica, destacou-se nesse e noutros combates contra a ditadura. A rejei&ccedil;&atilde;o da guerra colonial conduziu-o a um ex&iacute;lio de mais de uma d&eacute;cada, repartido entre It&aacute;lia, Fran&ccedil;a e Arg&eacute;lia. Foi no decurso desses anos que empreendeu um estudo aturado do corporativismo salazarista, assinando um livro que permanece uma refer&ecirc;ncia para qualquer abordagem ao Estado Novo &ndash; <i>A Evolu&ccedil;&atilde;o do Sistema Corporativo Portugu&ecirc;s</i> (Perspetivas &amp; Realidades, 2 vols., 1976). Regressado a Portugal ap&oacute;s o 25 de Abril, desenvolveu a sua vida acad&eacute;mica no quadro do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, onde ingressou em 1975, pela m&atilde;o de Ad&eacute;rito Sedas Nunes. O desmantelamento e sobreviv&ecirc;ncias do corporativismo no per&iacute;odo p&oacute;s-autorit&aacute;rio, o estudo comparado dos fascismos, a evolu&ccedil;&atilde;o do ordenamento pol&iacute;tico-constitucional p&oacute;s1976, os grupos de interesses e a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da democracia, foram alguns dos seus temas de elei&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em meados da d&eacute;cada de 1990, os coordenadores do suplemento ao <i>Dicion&aacute;rio de Hist&oacute;ria de Portugal </i>(ed. Figueirinhas), Ant&oacute;nio Barreto e Maria Filomena M&oacute;nica, propuseram-lhe que redigisse um conjunto de entradas biogr&aacute;ficas sobre personalidades cimeiras do Estado Novo, bem como sobre o pr&oacute;prio Salazar. Lucena era um perfecionista, caracter&iacute;stica que nem sempre se compagina com o cumprimento rigoroso de prazos. O seu sentido de exig&ecirc;ncia levou-o a ir muito al&eacute;m daquilo a que habitualmente se espera de um dicion&aacute;rio hist&oacute;rico, i.e., oferecer aos leitores o &laquo;estado da arte&raquo; sobre um determinado tema, geralmente a partir da bibliografia especializada dispon&iacute;vel. Para produzir os ensaios aqui reunidos (a sua entrada dedicada a Salazar, dividida com Ant&oacute;nio Barreto, ficou de fora deste volume), Lucena assimilou praticamente toda a bibliografia ativa e passiva dos seus biografados, tarefa complementada com alguma investiga&ccedil;&atilde;o em arquivos particulares e oficiais. As figuras aqui retratadas foram todas elas prol&iacute;ficas no uso da palavra &ndash; ora como oradores, legisladores, acad&eacute;micos ou literatos. Numa &eacute;poca em que muitas comunica&ccedil;&otilde;es se faziam ainda por carta ou telegrama, aqueles que exerceram fun&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas no estrangeiro mantiveram extensa correspond&ecirc;ncia com Salazar, alguma dela publicada quando Lucena estava j&aacute; embrenhado neste projeto.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>HOMENS EM LUGARES-CHAVE</b></p>     <p>Os textos que a Al&ecirc;theia agora d&aacute; &agrave; estampa, numa edi&ccedil;&atilde;o apoiada pelo Instituto Diplom&aacute;tico, s&atilde;o as vers&otilde;es expandidas que o <i>Dicion&aacute;rio de Hist&oacute;ria de Portugal </i>originalmente publicou das biografias de Armindo Monteiro, Pedro Teot&oacute;nio Pereira, Franco Nogueira, Jos&eacute; Gon&ccedil;alo Correia de Oliveira e Adriano Moreira, indiv&iacute;duos que se ocuparam de &aacute;reas nevr&aacute;lgicas da pol&iacute;tica do Estado Novo &ndash; o estabelecimento do aparato corporativo, a pol&iacute;tica colonial/ultramarina e as rela&ccedil;&otilde;es internacionais. A sua atividade ao servi&ccedil;o do regime cobre todo o per&iacute;odo salazarista, ou seja, as d&eacute;cadas de 1930 a 1960, circunst&acirc;ncia que levou Carlos Gaspar a designar o presente volume como &laquo;a melhor biografia pol&iacute;tica do regime fascista portugu&ecirc;s&raquo; &ndash; a express&atilde;o que Lucena preferia para caracterizar o salazarismo, embora com as necess&aacute;rias qualifica&ccedil;&otilde;es (um &laquo;fascismo sem movimento fascista&raquo;). Com a exce&ccedil;&atilde;o de Teot&oacute;nio Pereira, todas estas figuras protagonizaram carreiras cujo desfecho n&atilde;o ter&aacute; sido aquele que ambicionavam. Saber porque falharam, ou porque nunca foram al&eacute;m da sua condi&ccedil;&atilde;o de lugar-tenentes de Salazar (pois chamar-lhes delfins ser&aacute; pouco rigoroso, dado o cuidado do ditador em n&atilde;o permitir que algu&eacute;m se guindasse a essa posi&ccedil;&atilde;o), poder&aacute; esclarecer-nos melhor acerca dos meandros, contradi&ccedil;&otilde;es e impasses do salazarismo.</p>     <p>Prefiro chamar-lhes ensaios biogr&aacute;ficos n&atilde;o para sugerir um qualquer impressionismo, mas mais pelo tipo de reflexividade, de interpela&ccedil;&atilde;o ao leitor, que esse registo muitas vezes comporta. Um dos aspetos mais aliciantes destes retratos &eacute; a forma como Lucena nos convida a tentar descobrir com ele os pensamentos rec&ocirc;nditos ou as declara&ccedil;&otilde;es mais sibilinas dos seus biografados. Pontualmente, arrisca tamb&eacute;m uma conjetura, insinuando, aqui e ali, um elemento de &laquo;what if ?&raquo;, de &laquo;hist&oacute;ria virtual&raquo;. Mas sem nunca resvalar para os psicologismos f&aacute;ceis ou para a especula&ccedil;&atilde;o gratuita.</p>     <p>Lucena, que tinha uma forma&ccedil;&atilde;o em direito e ci&ecirc;ncias sociais, procurou compreender o Estado Novo a partir sobretudo dos conceitos e m&eacute;todos da ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica. Doutrinas, ideias, conceitos e institui&ccedil;&otilde;es foram o principal foco das suas reflex&otilde;es, e n&atilde;o tanto o lado mais <i>&eacute;v&eacute;nementielle </i>da hist&oacute;ria pol&iacute;tica &ndash; muito embora a aten&ccedil;&atilde;o ao acidental e &agrave;s conting&ecirc;ncias n&atilde;o fosse algo que menosprezasse. As cinco personalidades s&atilde;o fundamentalmente estudadas enquanto homens pol&iacute;ticos, alguns de pendor mais intelectual, outros mais orientados para a a&ccedil;&atilde;o. A dimens&atilde;o mais privada ou familiar est&aacute; aqui reduzida ao estritamente indispens&aacute;vel, e geralmente centrada nas facetas acad&eacute;mica ou empresarial &ndash; nada de <i>petite histoire</i>, portanto.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>PARADOXOS E AMBIGUIDADES</b></p>     <p>Talvez pela sua costela de ensa&iacute;sta, a reconstitui&ccedil;&atilde;o do pensamento dos biografados &eacute; porventura o aspeto mais bem conseguido destes retratos. Embora seja generoso com o uso de cita&ccedil;&otilde;es, nunca temos a sensa&ccedil;&atilde;o de estar perante um mero resumo ou glosa daquilo que o biografado disse ou escreveu. De forma sempre judiciosa, Lucena procura descortinar a coer&ecirc;ncia dos trajetos, mas tamb&eacute;m o sentido menos evidente de certas interven&ccedil;&otilde;es, bem como alguns paradoxos e ambiguidades. Assim, o grande int&eacute;rprete da &laquo;m&iacute;stica do imp&eacute;rio&raquo;, Armindo Monteiro (1896-1955), ministro das Col&oacute;nias, depois dos Estrangeiros, e finalmente embaixador de Portugal em Londres, &eacute; tamb&eacute;m aquele cuja vis&atilde;o exuberante da voca&ccedil;&atilde;o ultramarina do Pa&iacute;s n&atilde;o deixava de conter tra&ccedil;os de ambival&ecirc;ncia que poderiam, eventualmente, ter viabilizado uma abordagem mais flex&iacute;vel e criativa aos desafios que as mudan&ccedil;as do p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial colocaram aos imp&eacute;rios europeus.</p>     <p>Pedro Teot&oacute;nio Pereira (1902-1972) &eacute; um integralista de matriz reacion&aacute;ria, intolerante e trauliteiro na sua juventude, um dos mentores da Legi&atilde;o Portuguesa, mas, ao mesmo tempo, um reformador de sentido modernizante, respons&aacute;vel pelo lan&ccedil;amento das bases de um sistema de previd&ecirc;ncia social, e algu&eacute;m que, dentro de uma vis&atilde;o paternalista, procurou prevenir abusos e prepot&ecirc;ncias contra as classes trabalhadoras.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Alberto Franco Nogueira (1918-1993) &eacute; o rosto da resist&ecirc;ncia &agrave; descoloniza&ccedil;&atilde;o nos are&oacute;pagos internacionais, mas tamb&eacute;m um taticista flex&iacute;vel, dentro da tradi&ccedil;&atilde;o realista cl&aacute;ssica, que procurou romper o cerco que se ia fechando sobre Portugal atrav&eacute;s de manobras menos ortodoxas, como a sua tentativa de aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; Rep&uacute;blica Popular da China (1964), ou o patroc&iacute;nio a iniciativas que promovessem a desestabiliza&ccedil;&atilde;o de pa&iacute;ses africanos hostis &agrave; pol&iacute;tica ultramarina portuguesa. E &ndash; naquela que &eacute; uma das intui&ccedil;&otilde;es mais arriscadas de Lucena &ndash; o autor de uma teoriza&ccedil;&atilde;o geopol&iacute;tica sobre as &laquo;tr&ecirc;s &Aacute;fricas&raquo; (a &aacute;rabe, a negra e a austral) que, se levada at&eacute; &agrave;s suas &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias, talvez tivesse permitido ao regime encontrar uma solu&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica para o impasse na Guin&eacute;.</p>     <p>Jos&eacute; Gon&ccedil;alo Correia de Oliveira (1921-1976) &eacute; um partid&aacute;rio irredut&iacute;vel do integracionismo ultramarino, o mentor do &laquo;Espa&ccedil;o Econ&oacute;mico Portugu&ecirc;s&raquo;, mas, simultaneamente, o art&iacute;fice da aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; Europa, por via da ades&atilde;o &agrave; efta, decis&atilde;o cujas incid&ecirc;ncias pol&iacute;ticas dificilmente poder&aacute; ter deixado de equacionar, e um dos ministros mais relutantes em aprovar a barragem de Cahora Bassa, a grande aposta dos &laquo;falc&otilde;es&raquo; do regime em finais da d&eacute;cada de 1960.</p>     <p>E, finalmente, Adriano Moreira (n. 1922) &eacute; o ministro do Ultramar que lidera e organiza a resposta aos levantamentos da upa em Angola em 1961, o entusiasta de um novo surto de povoamento branco, mas, igualmente, o governante que procura modernizar o sistema imperial, enfrentando os interesses instalados que encarnavam alguns dos aspetos mais indefens&aacute;veis do dom&iacute;nio portugu&ecirc;s em &Aacute;frica.</p>     <p>Redigidos h&aacute; mais de d&eacute;cada e meia, estes textos mereciam porventura uma introdu&ccedil;&atilde;o que Lucena j&aacute; n&atilde;o p&ocirc;de preparar. Desde a sua publica&ccedil;&atilde;o abreviada no <i>dhp</i>, surgiram entretanto novos estudos e materiais sobre algumas destas figuras. O autor desta recens&atilde;o publicou, em 2000, uma biografia pol&iacute;tica de Armindo Monteiro, ao passo que Pedro Teot&oacute;nio Pereira foi objeto de uma tese de doutoramento apresentada na Universidade de &Eacute;vora por Fernando Martins, em 2004, tendo tamb&eacute;m sido editado o que faltava da sua correspond&ecirc;ncia trocada com Salazar ( Jo&atilde;o Miguel Almeida (ed.), <i>Correspond&ecirc;ncia Pol&iacute;tica entre Oliveira Salazar e Pedro Teot&oacute;nio Pereira</i>, Temas e Debates, 2008). E tamb&eacute;m em 2008 Adriano Moreira publicou o seu volume de mem&oacute;rias (<i>A Espuma do Tempo. Mem&oacute;ria do Tempo de V&eacute;speras</i>, Almedina). H&aacute; portanto zonas que Lucena deixou na penumbra, ou sobre as quais p&ocirc;de apenas conjeturar, que foram de algum modo iluminadas por esta literatura.</p>     <p>De uma maneira geral, por&eacute;m, estes retratos envelheceram bem. S&atilde;o excelentes s&iacute;nteses e cont&ecirc;m uma s&eacute;rie de hip&oacute;teses que merecem ser aprofundadas, como o jogo de cumplicidades que se foi estabelecendo entre figuras imbu&iacute;das de preocupa&ccedil;&otilde;es reformistas no tocante ao Ultramar, como D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende, bispo da Beira (1943-1967), Sarmento Rodrigues, governador-geral de Mo&ccedil;ambique (1961-1964), e Adriano Moreira, para citarmos apenas uma entre v&aacute;rias.</p>     <p>Se tivesse de apontar algo menos satisfat&oacute;rio, mencionaria apenas dois aspetos. O primeiro tem a ver com a excessiva depend&ecirc;ncia, em mat&eacute;ria de fontes consultadas, dos textos dos pr&oacute;prios biografados, com tudo o que isso pode implicar em termos de preval&ecirc;ncia do seu discurso autolegitimador. O segundo prende-se com uma certa rever&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos mesmos. Ter&aacute; isso resultado de um impulso revisionista de Lucena face a uma historiografia de pendor &laquo;antifascista&raquo; (talvez fruto da sua pr&oacute;pria evolu&ccedil;&atilde;o para posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas mais conservadoras, a partir de finais da d&eacute;cada de 1970)? Ou do natural pudor de quem escreve sobre indiv&iacute;duos, como Adriano Moreira, que alcan&ccedil;aram um estatuto quase consensual no nosso panorama pol&iacute;tico e intelectual (veja-se, por exemplo, a omiss&atilde;o do papel deste na reabertura do campo do Tarrafal em 1961)? Aos leitores, que esta obra bem merece, fica a &uacute;ltima palavra.</p>      ]]></body>
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