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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÕES</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Uma reflex&atilde;o oportuna a prop&oacute;sito do projeto europeu</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;s Lobo-Fernandes</b></p>     <p>Professor catedr&aacute;tico na Universidade do Minho e titular da c&aacute;tedra internacional <i>Jean Monnet </i>de integra&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica europeia</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Isabel Camis&atilde;o, <i>Comiss&atilde;o Europeia: L&iacute;der ou Seguidora? &ndash; O Papel da Institui&ccedil;&atilde;o no Processo de Reforma dos Tratados</i>, Juru&aacute; Editora, Lisboa, 2015, 304 p&aacute;ginas.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A Comiss&atilde;o &eacute; porventura o exemplo mais <i>sui generis </i>da constru&ccedil;&atilde;o institucional europeia. Definida comummente como a guardi&atilde; dos tratados, sendo tecnicamente independente dos estados-membros, constitui no plano internacional uma intrigante forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de cariz p&oacute;s-vestefaliano. &Eacute; esta independ&ecirc;ncia da Comiss&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o aos governos nacionais &ndash; um dos seus mais caracter&iacute;sticos atributos &ndash; que a distingue, ali&aacute;s, de outras institui&ccedil;&otilde;es internacionais. Funcionando como o &oacute;rg&atilde;o executivo da Uni&atilde;o Europeia (UE), os pap&eacute;is mais complexos da Comiss&atilde;o est&atilde;o normalmente associados &agrave;s suas importantes prerrogativas aut&oacute;nomas de iniciativa e de propositura de pol&iacute;ticas comuns, e de lhes conferir conte&uacute;do e coer&ecirc;ncia. Respons&aacute;vel por impulsionar e fazer prevalecer os objetivos fundamentais do projeto europeu, atua como uma esp&eacute;cie de <i>consci&ecirc;ncia </i>do interesse geral.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Refira-se que at&eacute; julho de 1967, as tr&ecirc;s comunidades &ndash; CECA, CEE e Euratom &ndash; tinham comiss&otilde;es executivas distintas (sendo o Parlamento Europeu e o Tribunal de Justi&ccedil;a j&aacute; comuns &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias). Somente a partir da fus&atilde;o de 1967 passa a existir uma comiss&atilde;o conjunta &ndash; tal como um s&oacute; Conselho &ndash; exercendo a totalidade das atribui&ccedil;&otilde;es estipuladas nos tratados. Nas palavras de &Eacute;mile No&euml;l, o seu primeiro prestigiado secret&aacute;rio-geral, a Comiss&atilde;o mant&eacute;m um trabalho de &laquo;c&atilde;o de guarda&raquo; devendo velar pelo interesse comunit&aacute;rio no quadro da a&ccedil;&atilde;o geral das institui&ccedil;&otilde;es, ao mesmo tempo que assegura a manuten&ccedil;&atilde;o de um clima de confian&ccedil;a entre elas, tendo ainda a responsabilidade de contribuir decisivamente para a harmoniza&ccedil;&atilde;o diligente dos v&aacute;rios pontos de vista. Por outro lado, enquanto organismo imparcial, compete &agrave; Comiss&atilde;o investigar e pronunciar-se de maneira objetiva sobre a correta aplica&ccedil;&atilde;o e cumprimento das disposi&ccedil;&otilde;es dos tratados e, em articula&ccedil;&atilde;o com o Tribunal de Justi&ccedil;a, dar a conhecer as medidas necess&aacute;rias &agrave; regulariza&ccedil;&atilde;o de eventuais faltas e inobserv&acirc;ncias dos princ&iacute;pios e normas comuns, com especial relev&acirc;ncia no &acirc;mbito do direito de livre concorr&ecirc;ncia e do mercado interno. Por seu turno, o presidente da Comiss&atilde;o det&eacute;m uma posi&ccedil;&atilde;o nuclear de lideran&ccedil;a e influ&ecirc;ncia, competindo-lhe articular o exerc&iacute;cio e a implementa&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas acordadas.</p>     <p>O funcionamento adequado do edif&iacute;cio comunit&aacute;rio implica um di&aacute;logo intenso e permanente com todas as outras institui&ccedil;&otilde;es, nomeadamente com o Conselho, que re&uacute;ne os representantes dos estados-membros, e com o Parlamento Europeu, que det&eacute;m hoje significativas compet&ecirc;ncias. Concomitantemente, o Conselho Europeu &ndash; que integra os chefes de Estado e de governo e &eacute; coordenado por um presidente designado cada dois anos e meio &ndash; tem um peso pol&iacute;tico que n&atilde;o cessou de aumentar desde a sua cria&ccedil;&atilde;o em 1974, fixando orienta&ccedil;&otilde;es gerais e impulsionando a agenda global da Uni&atilde;o. Na arquitetura da atual UE, o concurso das v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es torna-se, assim, imprescind&iacute;vel para se alcan&ccedil;arem decis&otilde;es mais eficazes, no &acirc;mbito dos existentes procedimentos de codecis&atilde;o.</p>     <p>Ora, este quadro institucional de inilud&iacute;vel complexidade tem sido marcado por novos debates e controv&eacute;rsias, n&atilde;o s&oacute; no seio da vasta comunidade de especialistas, mas tamb&eacute;m entre os pr&oacute;prios estados-membros, sobre o <i>lugar </i>da Comiss&atilde;o no processo de integra&ccedil;&atilde;o europeia e enquanto entidade nuclear no estabelecimento e preserva&ccedil;&atilde;o dos necess&aacute;rios equil&iacute;brios internos. &Eacute; precisamente neste esfor&ccedil;o cr&iacute;tico de dilucida&ccedil;&atilde;o dos v&aacute;rios <i>pap&eacute;is </i>da Comiss&atilde;o que o oportuno livro da professora Isabel Camis&atilde;o se apresenta ao leitor. A obra, que tem na sua g&eacute;nese a tese de doutorado cuja elabora&ccedil;&atilde;o tivemos o privil&eacute;gio de orientar, &iacute;nsita numa linha de investiga&ccedil;&atilde;o rigorosa da evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica dispon&iacute;vel, coloca a necessidade de ultrapassar alguma circularidade argumentativa em que, n&atilde;o raras vezes, desaguam os estudos europeus. A linha seguida por Camis&atilde;o visa ultrapassar as insufici&ecirc;ncias dos argumentos te&oacute;ricos tradicionais, procurando estabelecer novas vias explicativas dos dilemas e das importantes transforma&ccedil;&otilde;es ocorridas no processo de integra&ccedil;&atilde;o, centrando&#8209;se mais especificamente na avalia&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o multimodal da Comiss&atilde;o Europeia na reforma dos tratados &ndash; o centro de gravidade da sua pesquisa.</p>     <p>Mas a presente publica&ccedil;&atilde;o assume, na nossa &oacute;tica, uma pertin&ecirc;ncia ainda maior no atual cen&aacute;rio de bifurca&ccedil;&atilde;o institucional, porquanto &eacute; fundamental compreender que o &laquo;m&eacute;todo do Conselho&raquo; substituiu, numa medida n&atilde;o despicienda, o convencional &laquo;m&eacute;todo da Comiss&atilde;o&raquo; no processo de decis&atilde;o, refor&ccedil;ando o pendor intergovernamental embora numa l&oacute;gica paradoxal, no qual a Alemanha det&eacute;m uma ascend&ecirc;ncia &iacute;mpar. Por outro lado, as mais recentes iniciativas conducentes &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de uma uni&atilde;o banc&aacute;ria representam um importante passo para a salvaguarda e o desenvolvimento do projeto comum no sentido do aperfei&ccedil;oamento de um sistema financeiro europeu, alargando a pertin&ecirc;ncia do aprofundamento dos estudos europeus numa fase especialmente delicada da sua exist&ecirc;ncia, decorrente da governa&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria &ndash; o euro &ndash; e da chamada crise das d&iacute;vidas soberanas.</p>     <p>O aprofundamento at&iacute;pico da integra&ccedil;&atilde;o europeia na atual fase levado a cabo, diga-se, sob a quase exclusiva lideran&ccedil;a da Alemanha, pode constituir n&atilde;o obstante uma oportunidade de refor&ccedil;o institucional e pol&iacute;tico da UE. Em que medida? Os desafios globais com que a Europa est&aacute; confrontada n&atilde;o podem ser resolvidos por um &uacute;nico Estado-membro, antes exigem respostas concertadas. S&oacute; a UE, no quadro europeu contempor&acirc;neo, aparenta ter a experi&ecirc;ncia acumulada suficiente capaz de empreender pol&iacute;ticas para al&eacute;m do Estado-na&ccedil;&atilde;o, e para manter uma posi&ccedil;&atilde;o de relevo no palco mundial, sendo fundamental que os seus membros explorem aquilo que j&aacute; possuem: um modelo virtuoso de soberanias compartilhadas, mas cuja coer&ecirc;ncia &eacute; propiciada justamente pelo elemento <i>motor </i>e <i>agregador </i>da Comiss&atilde;o. Como sublinha a autora, a chave para a &laquo;centralidade especial da Comiss&atilde;o&raquo; est&aacute; principalmente na sua capacidade para se metamorfosear e ajustar &agrave; din&acirc;mica evolutiva do pr&oacute;prio processo de integra&ccedil;&atilde;o. O sistema de governa&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;rio p&otilde;e em evid&ecirc;ncia, segundo Camis&atilde;o, um menor grau de utilidade do conceito mon&iacute;stico de soberanias territoriais, pensado no &acirc;mbito do sistema cl&aacute;ssico de estados, com um n&uacute;mero limitado de atores, mas que s&oacute; muito parcialmente tem correspond&ecirc;ncia na realidade internacional contempor&acirc;nea. Num quadro pol&iacute;tico de grande complexidade, marcado, de novo, por &iacute;mpetos nacionalistas exacerbados, a UE concebe-se a si mesma como for&ccedil;a estabilizadora a n&iacute;vel mundial, beneficiando de uma imagem <i>civilista</i>. Podemos considerar que a UE &eacute;, por conseguinte, uma importante preventora de instabilidade e um fator de modera&ccedil;&atilde;o no sistema das rela&ccedil;&otilde;es internacionais.</p>     <p>Aquilo que poder&iacute;amos definir, nesta inst&acirc;ncia, como o <i>crit&eacute;rio da </i>UE, tem precisamente na a&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o um dos seus &laquo;cais&raquo; mais seguros, na medida em que o seu trabalho corporiza maioritariamente a articula&ccedil;&atilde;o do interesse comum, ainda que de delicada prossecu&ccedil;&atilde;o, que podemos caracterizar como extraordinariamente positivo, assegurando perman&ecirc;ncia e continuidade &agrave; a&ccedil;&atilde;o europeia. A governa&ccedil;&atilde;o global tem, assim, na Comiss&atilde;o Europeia uma das suas express&otilde;es pioneiras mais interessantes.</p>     <p>Num tempo em que, de novo, a regra mais vesga dos interesses nacionais e as manifesta&ccedil;&otilde;es populistas de v&aacute;rios matizes reemergem no horizonte europeu, a sociedade internacional pode encontrar no modelo aberto da UE uma vis&atilde;o inspiradora no sentido do respeito dos direitos humanos, das aspira&ccedil;&otilde;es societais de moderniza&ccedil;&atilde;o e dos anseios de uma prosperidade global mais compartilhada. &Eacute; este porventura o sentido mais forte deste livro, publicado simultaneamente em Portugal e no Brasil, e que representa mais um contributo importante da Universidade do Minho para a reflex&atilde;o sobre alguns dos atuais dilemas europeus.</p>     <p>Pode, em suma, o leitor atento encontrar nesta obra um dos contributos mais interessantes sobre uma entidade que talvez constitua a primeira manifesta&ccedil;&atilde;o verdadeiramente p&oacute;s-nacional de <i>governan&ccedil;a</i>.</p>      ]]></body>
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