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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>40 ANOS DA CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA: DINÂMICAS INTERNAS E EXTERNAS</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Nota introdut&oacute;ria: 40 anos da Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa &ndash; din&acirc;micas internas e externas</B></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Daniel Marcos* e Marco Lisi**</B></p>     <p>* Doutorado em Hist&oacute;ria Moderna e Contempor&acirc;nea, especialidade em Hist&oacute;ria das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais no Per&iacute;odo Contempor&acirc;neo pelo ISCTE &ndash; Instituto Universit&aacute;rio de Lisboa (2011). Actualmente, &eacute; investigador de p&oacute;s-doutoramento do IPRI-NOVA, onde desenvolve uma investiga&ccedil;&atilde;o sobre a participa&ccedil;&atilde;o de Portugal na NATO entre 1949 e 1976 (financiada pela FCT). &Eacute; professor auxiliar convidado do Departamento de Estudos Pol&iacute;ticos da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.</p>     <p>** Professor auxiliar no Departamento de Estudos Pol&iacute;ticos da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigador no IPRI. Tem publicado v&aacute;rios artigos sobre partidos e comportamento eleitoral em revistas nacionais e estrangeiras. A sua obra mais recente &eacute; <i>Party Change, Recent Democracies and Portugal: Comparative Perspectives</i> (Lexington, 2015).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Os textos constitucionais s&atilde;o elementos fundamentais para caracterizar e avaliar o funcionamento dos sistemas pol&iacute;ticos. Como base da ordem democr&aacute;tica, as constitui&ccedil;&otilde;es modernas garantem n&atilde;o apenas um poder negativo &ndash; delimitar o exerc&iacute;cio do poder pol&iacute;tico &ndash;, mas tamb&eacute;m positivo, por exemplo, atrav&eacute;s da &ecirc;nfase posta nas liberdades e direitos dos cidad&atilde;os. Neste sentido, as constitui&ccedil;&otilde;es representam uma garantia da ordem democr&aacute;tica a tr&ecirc;s diferentes n&iacute;veis: em termos de princ&iacute;pios e direitos que orientam a forma pol&iacute;tica do Estado e da sociedade; ao n&iacute;vel da organiza&ccedil;&atilde;o e separa&ccedil;&atilde;o de poderes, que faz com que a organiza&ccedil;&atilde;o do poder seja efetiva e instrumental aos objetivos estabelecidos; finalmente, na garantia de representa&ccedil;&atilde;o, ou seja, na igualdade de participa&ccedil;&atilde;o e influ&ecirc;ncia sobre as escolhas a n&iacute;vel pol&iacute;tico. Em geral, as constitui&ccedil;&otilde;es comp&otilde;em a base da ordem normativa, apresentando por isso um &laquo;car&aacute;cter absoluto&raquo; que faz com que sejam documentos que geram legitimidade, canalizam o conflito pol&iacute;tico e regulam a produ&ccedil;&atilde;o de bens p&uacute;blicos.</p>     <p>O debate acerca da maior ou menor atualidade das constitui&ccedil;&otilde;es e da necessidade de reformar os textos fundamentais &eacute; um tema constante nas ci&ecirc;ncias sociais, sobretudo na perspetiva do (neo)institucionalismo. A complexidade desta quest&atilde;o relaciona&nbsp;se com a tens&atilde;o entre regras e organiza&ccedil;&otilde;es, por um lado, e a a&ccedil;&atilde;o dos atores pol&iacute;ticos, por outro; no car&aacute;cter r&iacute;gido e, ao mesmo tempo, flex&iacute;vel, da Lei Fundamental; assim como pela incerteza que caracteriza os processos de revis&atilde;o quando come&ccedil;a a negocia&ccedil;&atilde;o entre diferentes atores envolvidos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Recentemente, o debate sobre a import&acirc;ncia das constitui&ccedil;&otilde;es adquiriu um novo dinamismo e relev&acirc;ncia n&atilde;o apenas pelo processo de integra&ccedil;&atilde;o europeia, mas tamb&eacute;m pelas novas modalidades adotadas para proceder &agrave; revis&atilde;o dos textos fundamentais. As &laquo;conven&ccedil;&otilde;es constituintes&raquo; ou &laquo;constitui&ccedil;&otilde;es do povo&raquo;<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>&ndash; termos utilizados para identificar os documentos recentemente elaborados na Isl&acirc;ndia, na Irlanda ou nalgumas prov&iacute;ncias do Canad&aacute; &ndash;, caracterizam&nbsp;se por uma intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade, pela sele&ccedil;&atilde;o aleat&oacute;ria dos &laquo;constituintes&raquo; e pelo car&aacute;cter aberto e deliberativo das discuss&otilde;es. Neste sentido, estes processos inovaram as pr&aacute;ticas de elabora&ccedil;&atilde;o e aprova&ccedil;&atilde;o das constitui&ccedil;&otilde;es que caracterizaram a &eacute;poca moderna do constitucionalismo, contrariando o car&aacute;cter mais elitista dos procedimentos adotados nas anteriores vagas de democratiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Forma e conte&uacute;do dos processos de revis&atilde;o s&atilde;o dois aspectos interligados que procuram oferecer novas solu&ccedil;&otilde;es &agrave;s patologias que afetam o funcionamento das democracias contempor&acirc;neas. Um dos problemas fundamentais das atuais democracias &eacute; a crise da legitimidade e de participa&ccedil;&atilde;o, um fen&oacute;meno que se agravou com a emerg&ecirc;ncia da &laquo;Grande recess&atilde;o&raquo;. No caso portugu&ecirc;s, o aumento da absten&ccedil;&atilde;o e da desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es e atores do sistema pol&iacute;tico tem despertado preocupa&ccedil;&otilde;es, dando origem a v&aacute;rias propostas de reformas. Como v&aacute;rios autores evidenciam, o processo de elabora&ccedil;&atilde;o da constitui&ccedil;&atilde;o tem efeitos relevantes em termos de estabilidade institucional, resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos e efic&aacute;cia das pol&iacute;ticas<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. Deste ponto de vista, um debate mais alargado e aberto sobre o legado da Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa e a sua interpreta&ccedil;&atilde;o, utilizando perspetivas e abordagens de an&aacute;lise distintas, &eacute; importante para avaliar a qualidade da democracia e discutir como as institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas podem recuperar os baixos n&iacute;veis de legitimidade e de desempenho do regime pol&iacute;tico.</p>     <p>O tema principal desenvolvido neste n&uacute;mero tem&aacute;tico relaciona&nbsp;se com o legado da Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa em v&aacute;rias &aacute;reas do sistema pol&iacute;tico, tanto na dimens&atilde;o interna quanto externa. Algumas caracter&iacute;sticas do contexto pol&iacute;tico, social e cultural tiveram um impacto determinante para as especificidades da Constitui&ccedil;&atilde;o aprovada em 2 de abril de 1976. Em primeiro lugar, pelo poder criador, ou seja, pela interven&ccedil;&atilde;o dos militares na esfera pol&iacute;tica e pelos constrangimentos que projetaram na a&ccedil;&atilde;o dos partidos pol&iacute;ticos<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Em segundo lugar, pelas orienta&ccedil;&otilde;es program&aacute;ticas adotadas em diversos setores, nomeadamente no caso das pol&iacute;ticas econ&oacute;micas, sociais e culturais. Em terceiro lugar, &eacute; importante ressaltar a especificidade da mobiliza&ccedil;&atilde;o social que Portugal experimentou nos anos de transi&ccedil;&atilde;o, na intensidade e nas modalidades &uacute;nicas de participa&ccedil;&atilde;o e de intera&ccedil;&atilde;o entre sociedade e poder pol&iacute;tico. Finalmente, o ambiente internacional colocou tamb&eacute;m Portugal no centro de tens&otilde;es e negocia&ccedil;&otilde;es que influenciaram a elabora&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o e o caminho seguido pelo novo regime pol&iacute;tico.</p>     <p>O intuito deste n&uacute;mero especial da <i>ri</i> n&atilde;o &eacute; apenas oferecer elementos de reflex&atilde;o sobre a import&acirc;ncia e o legado da Constitui&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m abrir a perspetiva de an&aacute;lise a algumas quest&otilde;es de atualidade, nomeadamente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; capacidade do texto fundamental da democracia em oferecer uma b&uacute;ssola para ultrapassar os desafios da atual crise econ&oacute;mica, melhorar o funcionamento das institui&ccedil;&otilde;es representativas, lidar com os problemas e amea&ccedil;as do contexto internacional e acompanhar as mudan&ccedil;as e evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade em diferentes dom&iacute;nios.</p>     <p>Um dos campos nos quais esta din&acirc;mica se pode observar com particular pertin&ecirc;ncia &eacute; ao n&iacute;vel da pol&iacute;tica externa. O fim do regime autorit&aacute;rio do Estado Novo abriu espa&ccedil;o para a emerg&ecirc;ncia de uma rutura a este n&iacute;vel. Os trabalhos desenvolvidos por Jos&eacute; Medeiros Ferreira, Ant&oacute;nio Jos&eacute; Telo e Nuno Severiano Teixeira mostram que a transi&ccedil;&atilde;o para a democracia, em 1974, mudou a perce&ccedil;&atilde;o tradicional de pfp<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>. A partir deste momento e at&eacute; 1986 assistiu-se a uma mudan&ccedil;a estrat&eacute;gica que desviou Portugal de uma dimens&atilde;o essencialmente atl&acirc;ntica &ndash; tanto colonial e transatl&acirc;ntica &ndash; para uma dimens&atilde;o europeia<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>. A rutura promovida pelo golpe militar de 25 de abril de 1974, alimentou o processo simult&acirc;neo de descoloniza&ccedil;&atilde;o e de democratiza&ccedil;&atilde;o. Com a Revolu&ccedil;&atilde;o a ocorrer no auge da Guerra Fria, Portugal passou por uma crise do Estado, seguida por uma intensa mobiliza&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica da esquerda, para a qual os partidos moderados s&oacute; conseguiram sobreviver com a ajuda externa dos Estados Unidos e dos pa&iacute;ses da Europa Ocidental.</p>     <p>Esta transi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deixou de ter impacto na Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa de 1976, como Ana M&oacute;nica Fonseca claramente demonstra no artigo deste dossi&ecirc;. Como a autora refere, a aprova&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o marca o in&iacute;cio do processo de consolida&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica em Portugal, trazendo consigo uma crescente normaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &agrave; vida do Pa&iacute;s. Todo este processo foi acompanhado de perto pelos diferentes atores internacionais, fossem eles estados ou organiza&ccedil;&otilde;es multilaterais. No caso particular da Rep&uacute;blica Federal da Alemanha, um dos principais parceiros no apoio &agrave;s for&ccedil;as moderadas em Portugal, a aprova&ccedil;&atilde;o constitucional significou a consagra&ccedil;&atilde;o de um regime democr&aacute;tico, pluralista e parlamentar, de estilo ocidental.</p>     <p>Esta evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se fez, contudo, sem que Bona seguisse com receio a evolu&ccedil;&atilde;o do processo revolucion&aacute;rio portugu&ecirc;s durante o per&iacute;odo pr&eacute;&nbsp;constitucional. Em primeiro lugar, devido &agrave; incerteza quanto &agrave; convoca&ccedil;&atilde;o de elei&ccedil;&otilde;es para uma futura assembleia constituinte ap&oacute;s o golpe de 25 de abril de 1974. Depois, porque mesmo ap&oacute;s a entrada em fun&ccedil;&otilde;es dessa Assembleia, o seu trabalho foi sempre limitado quer pelo Movimento das For&ccedil;as Armadas (MFA), quer pelo Conselho da Revolu&ccedil;&atilde;o. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, foi a legitimidade eleitoral da Assembleia Constituinte, garantida pelo sufr&aacute;gio universal nas elei&ccedil;&otilde;es de 25 de abril de 1975, que lhe garantiu uma legitimidade democr&aacute;tica indiscut&iacute;vel. Finalmente, ap&oacute;s o 25 de Novembro de 1975, porque a Assembleia Constituinte ganhou definitivamente o seu espa&ccedil;o no panorama pol&iacute;tico portugu&ecirc;s, contribuindo para assegurar a participa&ccedil;&atilde;o do MFA na vida pol&iacute;tica portuguesa, ao mesmo tempo que mantinha a sua independ&ecirc;ncia e autonomia.</p>     <p>A consolida&ccedil;&atilde;o da democracia portuguesa &eacute; caracterizada por uma clara op&ccedil;&atilde;o para reafirmar a posi&ccedil;&atilde;o externa de Portugal como um pa&iacute;s cuja identidade &eacute; tanto atl&acirc;ntica quanto europeia<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. Isto &eacute; exposto cabalmente pelo artigo de Maria In&aacute;cia Rezola, inclu&iacute;do neste dossi&ecirc;. Na verdade, a queda da ditadura veio colocar novos desafios a Portugal, tanto ao n&iacute;vel interno como externo. Neste campo, o fim do ciclo imperial, alcan&ccedil;ado com a descoloniza&ccedil;&atilde;o levada a cabo em 1975, abriu espa&ccedil;o para o refor&ccedil;o das liga&ccedil;&otilde;es de Portugal com a Europa. Neste processo, Jos&eacute; Medeiros Ferreira teve um papel de destaque, uma vez que desempenhou fun&ccedil;&otilde;es como secret&aacute;rio de Estado dos Neg&oacute;cios Estrangeiros no VI Governo Provis&oacute;rio, desde setembro de 1975, e porque foi o ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros do I Governo Constitucional, entre julho de 1976 e outubro de 1977.</p>     <p>Em parte, as principais linhas de pol&iacute;tica externa da Democracia ficaram definidas por Medeiros Ferreira. Ainda no seu percurso como secret&aacute;rio de Estado, procurou assumir a defesa de uma linha atlantista e europe&iacute;sta em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s derivas neutralistas e africanistas que dominavam alguns setores do Governo, em particular do ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros, Ernesto Melo Antunes. J&aacute; como ministro, Medeiros Ferreira pode refor&ccedil;ar esta din&acirc;mica, contribuindo para a defini&ccedil;&atilde;o do posicionamento externo de Portugal como pa&iacute;s ocidental, europeu e atl&acirc;ntico. S&atilde;o estas linhas que perduram at&eacute; &agrave; atualidade.</p>     <p>Para a sa&iacute;da de Jos&eacute; Medeiros Ferreira do Minist&eacute;rio dos Neg&oacute;cios Estrangeiros (MNE) muito contribuiu a sua vis&atilde;o sobre a representa&ccedil;&atilde;o internacional do Estado portugu&ecirc;s, em particular a forma como interpretou as cl&aacute;usulas constitucionais sobre o papel do Presidente da Rep&uacute;blica nesse campo. Defensor de uma representa&ccedil;&atilde;o partilhada, em que o Presidente da Rep&uacute;blica e o Governo, em particular o MNE, deveriam ter um papel de monta, Medeiros Ferreira viu com apreens&atilde;o o refor&ccedil;o da a&ccedil;&atilde;o do primeiro-ministro, no campo externo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, faz todo o sentido terminarmos este dossi&ecirc; com uma reflex&atilde;o sobre a separa&ccedil;&atilde;o de poderes em mat&eacute;ria de pol&iacute;tica externa. No artigo de Jos&eacute; Matos Correia, fica claro que, em regra, o tratamento dado pelos textos constitucionais &agrave;s quest&otilde;es externas &eacute; habitualmente vago e pouco elaborado. Esta situa&ccedil;&atilde;o leva a que, muitas vezes, os agentes pol&iacute;tico-constitucionais acabem por construir e delimitar a sua a&ccedil;&atilde;o muito para al&eacute;m do que as pr&oacute;prias constitui&ccedil;&otilde;es estabelecem. Em Portugal, os &uacute;ltimos quarenta anos foram de consolida&ccedil;&atilde;o de uma din&acirc;mica em que a representa&ccedil;&atilde;o externa do Estado cabe, sobretudo, ao poder executivo e, em particular, ao primeiro-ministro. Fragiliza-se, assim, o necess&aacute;rio controlo jur&iacute;dico e pol&iacute;tico.</p>     <p>Ao n&iacute;vel interno, as especificidades da transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica e da rutura com o regime anterior emergiram sobretudo na &aacute;rea dos direitos sociais. Como &eacute; evidenciado no texto de Filipe Carreira da Silva e M&oacute;nica Brito Vieira, a Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa caracteriza-se pela extensa inclus&atilde;o de direitos sociais e econ&oacute;micos nas garantias estabelecidas pela Lei Fundamental. Depois da revis&atilde;o cr&iacute;tica das principais abordagens te&oacute;ricas, os autores enfatizam a import&acirc;ncia de analisar o papel de atores extra-institucionais, tais como os militares e os movimentos sociais, para interpretar o conte&uacute;do da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1976. Estas conclus&otilde;es s&atilde;o relevantes n&atilde;o apenas para interpretar o caso portugu&ecirc;s, mas tamb&eacute;m outros momentos constituintes como, por exemplo, os que emergiram da &laquo;primavera &aacute;rabe&raquo;. As implica&ccedil;&otilde;es desta an&aacute;lise refletem&nbsp;se tamb&eacute;m na crescente jurisdicionaliza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica em Portugal, como se verificou recentemente nas interven&ccedil;&otilde;es do Tribunal Constitucional em mat&eacute;ria de direitos sociais e econ&oacute;micos e na quest&atilde;o da redefini&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas sociais. Neste sentido, este estudo &eacute; um contributo fundamental para compreender melhor a g&eacute;nese da segunda gera&ccedil;&atilde;o de direitos e o legado desta constitucionaliza&ccedil;&atilde;o sobre a legitimidade e o desempenho do regime democr&aacute;tico.</p>     <p>Quarenta anos depois de aprovada, a Constitui&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Portuguesa continua, assim, a moldar indiscutivelmente o sistema pol&iacute;tico portugu&ecirc;s, tanto ao n&iacute;vel interno, como externo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <P><B>BIBLIOGRAFIA</b></P>     <p>CRAVO, Teresa, e FREIRE, Maria Raquel &ndash; &laquo;La politique &eacute;trang&egrave;re du Portugal: europ&eacute;anisme, atlantisme, ou les deux?&raquo;. In <i>Revue internationale et strat&eacute;gique</i>. Vol. 62, N.&ordm; 2, 2006, pp. 23-30.</p>     <p>FERREIRA, Jos&eacute; Medeiros &ndash; <i>Cinco Regimes na Pol&iacute;tica Internacional</i>. Lisboa: Editorial Presen&ccedil;a, 2006.</p>     <p>GALLIGAN, Denis, e VERSTEEG, Mila (eds.) &ndash; <i>Social and Political Foundations of Constitutions</i>. Nova York: Cambridge University Press, 2013.</p>     <p>GINSBURG, Tom, ELKINS, Zachary, e BLOUNT, Justin &ndash; &laquo;Does the process of constitution-making matter?&raquo;. In <i>Annual Review of Law and Social Science</i>. N.&ordm; 5, 2009, pp. 201-223.</p>     <p>G&Oacute;MEZ FORTES, Braulio &ndash; <i>O Controlo Pol&iacute;tico dos Processos Constituintes</i>. Lisboa: Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2009.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O&rsquo;DOWD, John, e FERRARI, Giuseppe (eds.) &ndash; <i>Comparative Reflections on 75 Years of the Irish Constitution</i>. Dublin: Clarus Press, 2014.</p>     <p>SMITH, Graham &ndash; <i>Democratic Innovations: Designing Institutions for Citizen Participation</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2009</p>     <p>TEIXEIRA, Nuno Severiano, e Pinto, Ant&oacute;nio Costa (eds.) &ndash; <i>The Europeanization of Portuguese Democracy</i>. Boulder: Social Sciences Monographs, 2012.</p>     <p>Teixeira, Nuno Severiano &ndash; &laquo;Breve ensaio sobre a pol&iacute;tica externa portuguesa&raquo;. In <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>. N.&ordm; 28, 2010, pp. 51-60.</p>     <p>TELO, Ant&oacute;nio Jos&eacute; &ndash; <i>Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea de Portugal. Do 25 de Abril &agrave; Atualidade</i>. Lisboa: Editorial Presen&ccedil;a, 2008, vol. II.</p>     <p>&nbsp;</p>     <P><B>NOTAS</b></P>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup>SMITH, Graham &ndash; <i>Democratic Innovations: Designing Institutions for Citizen Participation</i>, Cambridge: Cambridge University Press, 2009; FARRELL, David &ndash; &laquo;The 2013 Irish Constitutional Convention&raquo;. <i>In </i>O&rsquo;DOWD, John, e FERRARI, Giuseppe (eds.) &ndash; <i>Comparative Reflections on 75 Years of the Irish Constitution</i>. Dublin: Clarus Press, 2014, pp. 197-213.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup>GINSBURG, Tom, ELKINS, Zachary, e BLOUNT, Justin &ndash; &laquo;Does the process of constitution-making matter?&raquo;. In <i>Annual Review of Law and Social Science</i>. N.&ordm; 5, 2009, pp. 201-223; GALLIGAN, Denis, e VERSTEEG, Mila (eds.) &ndash; <i>Social and Political Foundations of Constitutions</i>. Nova York: Cambridge University Press, 2013.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup>G&Oacute;MEZ FORTES, Braulio &ndash; <i>O Controlo Pol&iacute;tico dos Processos Constituintes</i>. Lisboa: Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2009.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup>FERREIRA, Jos&eacute; Medeiros &ndash; <i>Cinco Regimes na Pol&iacute;tica Internacional</i>. Lisboa: Editorial Presen&ccedil;a, 2006; TELO, Ant&oacute;nio Jos&eacute; &ndash; <i>Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea de Portugal. Do 25 de Abril &agrave; Atualidade</i>. Lisboa: Editorial Presen&ccedil;a, 2008, vol. II; e TEIXEIRA, Nuno Severiano &ndash; &laquo;Breve ensaio sobre a pol&iacute;tica externa portuguesa&raquo;. In <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i>. N.&ordm; 28, 2010, pp. 51-60.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup>CRAVO, Teresa, e FREIRE, Maria Raquel &ndash; &laquo;La politique &eacute;trang&egrave;re du Portugal: europ&eacute;anisme, atlantisme, ou les deux?&raquo;. In <i>Revue internationale et strat&eacute;gique</i>. 62-2, 2006, pp. 23-30.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup>TEIXEIRA, Nuno Severiano &ndash; &laquo;Introduction: Portugal and European Integration, 1974-2010&raquo;. <i>In </i>TEIXEIRA, Nuno Severiano, e PINTO, Ant&oacute;nio Costa (eds.) &ndash; <i>The Europeanization of Portuguese Democracy</i>. Boulder: Social Sciences Monographs, 2012, pp. 7-26.</p>      ]]></body><back>
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