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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>25 ANOS DOS ACORDOS DE BICESSE</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bicesse: Uma vis&atilde;o estrat&eacute;gica inteligente<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></b></p>     <p><i>&nbsp;</i></p>     <p><b>Paulo Vizeu Pinheiro</b></p>     <p>Licenciado em Direito pela Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa de Lisboa; aprovado no concurso de admiss&atilde;o aos lugares de adido de embaixada, aberto em 16 de dezembro de 1987; adido de embaixada, na Secretaria de Estado, em 16 de fevereiro de 1989; adjunto do gabinete do secret&aacute;rio de Estado dos Neg&oacute;cios Estrangeiros e da Coopera&ccedil;&atilde;o, na mesma data; na miss&atilde;o tempor&aacute;ria de Portugal junto das estruturas do processo de paz em Angola, em junho de 1991; secret&aacute;rio de embaixada, em 7 de junho de 1991; na Secretaria de Estado, em 31 de mar&ccedil;o de 1993; adjunto do gabinete do ministro dos Neg&oacute;cios Estrangeiros, em 1 de abril do mesmo ano; na Embaixada em Washington, em 16 de setembro de 1993; primeiro-secret&aacute;rio de embaixada, em 2 de mar&ccedil;o de 1998; na Embaixada de Moscovo, em 14 de outubro de 1998; conselheiro de embaixada, em 18 de abril de 2002; adjunto diplom&aacute;tico do gabinete do primeiro-ministro, em 1 de agosto de 2002; diretor-geral adjunto do Servi&ccedil;o de Informa&ccedil;&otilde;es Estrat&eacute;gicas, de Defesa e Militares, em 26 de novembro de 2002; diretor-geral interino do Servi&ccedil;o de Informa&ccedil;&otilde;es Estrat&eacute;gicas e de Defesa, em 1 de mar&ccedil;o de 2005; representante permanente adjunto na Delega&ccedil;&atilde;o de Portugal junto da OCDE, em 1 de setembro de 2005; diretor-geral de Pol&iacute;tica de Defesa Nacional, em 23 de janeiro de 2006; assessor diplom&aacute;tico do presidente da Comiss&atilde;o Europeia, em 6 de maio de 2010; assessor diplom&aacute;tico do primeiro-ministro, em 11 de julho de 2011; representante permanente de Portugal junto da OCDE, em 18 de fevereiro de 2013; presidente do Comit&eacute; das Rela&ccedil;&otilde;es Externas da OCDE, em 21 de novembro de 2014.</p>     <p><i>&nbsp;</i></p>     <p>Ao entrar h&aacute; vinte e cinco anos no gabinete do secret&aacute;rio de Estado dos Neg&oacute;cios Estrangeiros e da Coopera&ccedil;&atilde;o, ao Largo do Rilvas, para a minha primeira experi&ecirc;ncia profissional como diplomata, estava longe de pensar que essa primeira experi&ecirc;ncia fosse tamb&eacute;m a mais empolgante e dramaticamente relevante de toda a minha carreira. E muito longe de imaginar que iria ser um dos colaboradores na negocia&ccedil;&atilde;o dos Acordos de Paz do Estoril (vulgo Bicesse). Ou ainda de poder testemunhar n&atilde;o s&oacute; a sua assinatura em maio de 1991, mas tamb&eacute;m a sua concretiza&ccedil;&atilde;o no terreno na qualidade de observador e delegado &agrave; Comiss&atilde;o Pol&iacute;tica, sob a chefia do embaixador Ant&oacute;nio Monteiro.</p>     <p>Olhemos para o dia 31 de maio de 1991, para a cerim&oacute;nia de assinatura. Para a fotografia do momento da assinatura. Ela diz muito sobre a natureza do processo. O local: o Pal&aacute;cio das Necessidades, sede do Minist&eacute;rio dos Neg&oacute;cios Estrangeiros (mne) (sendo Dur&atilde;o Barroso o mediador, embora secret&aacute;rio de Estado e n&atilde;o ainda ministro). Os signat&aacute;rios: o Presidente da Rep&uacute;blica Popular de Angola, engenheiro Jos&eacute; Eduardo dos Santos, e o l&iacute;der da&nbsp;UNITA, Dr. Jonas Malheiro Savimbi. Ou seja, as partes executantes do Acordo. No centro da fotografia, o primeiro-ministro Cavaco Silva, que seguiu a par e passo o processo e endossou a orienta&ccedil;&atilde;o &laquo;macro&raquo;. Na assist&ecirc;ncia, antes de mais o secret&aacute;rio-geral da&nbsp;ONU, Javier Perez de Cuellar (a pouco mais de seis meses de passar o testemunho ao eg&iacute;pcio Boutros-Ghali), ou seja, as Na&ccedil;&otilde;es Unidas enquanto primeiro observador pol&iacute;tico e militar, sobretudo no enquadramento do cessar-fogo e acantonamento e desmobiliza&ccedil;&atilde;o; os Estados Unidos e a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, representados a n&iacute;vel pol&iacute;tico das rela&ccedil;&otilde;es externas e enquanto observadores pol&iacute;ticos; a Fran&ccedil;a e o Reino Unido enquanto futuros assistentes &agrave; forma&ccedil;&atilde;o das For&ccedil;as Armadas unificadas, e organiza&ccedil;&otilde;es internacionais como a Cruz Vermelha Internacional, e at&eacute; a pr&oacute;pria Igreja Cat&oacute;lica.<i>&nbsp;Mas atente-se: a paz em Angola competiu desde a primeira hora &agrave;s partes angolanas, com assist&ecirc;ncia e enquadramento internacionais &eacute; certo, mas estas sem fun&ccedil;&otilde;es supletivas, injuntivas ou de sobreposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s partes.</i>&nbsp;Portugal passaria doravante de mediador a observador, constituindo-se como o assistente de refer&ecirc;ncia na forma&ccedil;&atilde;o das novas For&ccedil;as Armadas conjuntas (as&nbsp;FAA).</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>COMO FOI POSS&Iacute;VEL CHEGAR AT&Eacute; BICESSE?</b></p>     <p>Antes de Bicesse houve &Eacute;vora, Oeiras, Pedrou&ccedil;os, Sintra, Lisboa, todas rondas negociais importantes sob media&ccedil;&atilde;o portuguesa conduzidas por Dur&atilde;o Barroso e sua equipa.&nbsp;<br />   A de &Eacute;vora apanhou de surpresa as duas superpot&ecirc;ncias (incluindo naturalmente a&nbsp;CIA&nbsp;e o&nbsp;KGB) e o resto do mundo (incluindo os incontorn&aacute;veis europeus em &Aacute;frica, como a Fran&ccedil;a e o Reino Unido). &Eacute;vora foi o segredo diplom&aacute;tico melhor guardado de que tenho conhecimento.</p>     <p>E antes de Bicesse tiveram tamb&eacute;m lugar v&aacute;rias goradas tentativas negociais regionais,&nbsp;<i>maxime</i>&nbsp;o acordo de Gbadolite (rubricado a 22 de junho de 1989, perante dezoito estadistas africanos), um acordo mediado pelo l&iacute;der zairense Mobutu, com largo apoio regional africano, mas que afinal tinha duas vers&otilde;es consoante o destinat&aacute;rio.</p>     <p>Naturalmente que o processo de Bicesse come&ccedil;a antes ainda da grande mentira de Gbadolite. Come&ccedil;a em 87-88 com os primeiros sinais de degelo americano-sovi&eacute;tico, com Bush pai e Gorbatchov, com uma nova postura de maior abertura da parte de Washington mas tamb&eacute;m de Cuba, de Luanda e Pret&oacute;ria, com apoio pol&iacute;tico portugu&ecirc;s, no processo de retirada de tropas cubanas de Angola e autodetermina&ccedil;&atilde;o da Nam&iacute;bia, com a&nbsp;ONU&nbsp;a lan&ccedil;ar em finais de 1988 a&nbsp;UNAVEM&nbsp;(United Nations Angola Verification Mission) para Angola (que depois deu origem &agrave;&nbsp;UNAVEM II&nbsp;do processo de Bicesse) e &agrave;&nbsp;UNTAG&nbsp;(United Nations Transition Assistance Group) para apoiar a transi&ccedil;&atilde;o para a independ&ecirc;ncia da Nam&iacute;bia. Duas faces de uma mesma moeda, uma troca entre &laquo;desinternacionaliza&ccedil;&atilde;o&raquo; militar de Angola e a independ&ecirc;ncia da Nam&iacute;bia. Por vezes penso que esta posi&ccedil;&atilde;o de Luanda, viabilizando a independ&ecirc;ncia da Nam&iacute;bia (mas tamb&eacute;m abrindo caminho para o refor&ccedil;o internacional da luta anti<i>apartheid</i>) n&atilde;o foi, n&atilde;o &eacute;, historicamente e politicamente valorizada.</p>     <p>Em &Aacute;frica, o Muro de Berlim come&ccedil;ou a desmoronar-se um ano antes de novembro de 1989 e Portugal teve a capacidade de ler estrategicamente a evolu&ccedil;&atilde;o internacional nos diversos tabuleiros geogr&aacute;ficos (n&atilde;o excluindo naturalmente a Europa).</p>     <p>Quando entrei para o gabinete de Dur&atilde;o Barroso fui incumbido por este de discutir, analisar e integrar informa&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas, econ&oacute;micas, militares e de seguran&ccedil;a, trabalhando de forma transversal com outros departamentos do Estado, mas com particular enfoque em algumas regi&otilde;es geogr&aacute;ficas, que inclu&iacute;am &agrave; cabe&ccedil;a &Aacute;frica (Angola, Pret&oacute;ria, Maputo, Kinshasa, Abidjan) mas tamb&eacute;m os Estados Unidos, a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, Cuba, China e a Europa mais envolvida em &Aacute;frica (Londres, Paris, Bruxelas, Roma). Pude por isso acompanhar os diferentes sinais de abertura, confesso que por vezes de dif&iacute;cil an&aacute;lise pol&iacute;tica, e identificar poss&iacute;veis motiva&ccedil;&otilde;es geopol&iacute;ticas (entre os dois blocos mundiais e jogadores europeus e africanos relevantes) e interesses assentes em evolu&ccedil;&otilde;es do pensamento pol&iacute;tico interno. E acompanhar naturalmente a situa&ccedil;&atilde;o e pensamento militares (com base nos desenvolvimentos no terreno e elabora&ccedil;&atilde;o de cen&aacute;rios de poss&iacute;vel evolu&ccedil;&atilde;o). Foi o meu primeiro contacto com o que se designa de &laquo;Intelig&ecirc;ncia&raquo;. Portugal &eacute; um pa&iacute;s pequeno &agrave; escala global, mas sempre teve uma vis&atilde;o paraglobal, um pensamento estruturado e coerente multicontinental, podendo agir de forma muito eficiente e eficaz. E havia uma lideran&ccedil;a que &laquo;pensava e sentia estrat&eacute;gia&raquo;. E uma equipa capaz de refletir e agir num curto espa&ccedil;o de tempo, de forma inclusiva (sem esquecer protagonistas principais e atores secund&aacute;rios mas indispens&aacute;veis).</p>     <p>A n&iacute;vel interno, Portugal estabeleceu condi&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas para ser um&nbsp;<i>honest broker</i>, ao estabelecer s&oacute;lidas e muito pr&oacute;ximas rela&ccedil;&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o de Estado a Estado, tanto com o Presidente, Governo e Parlamento angolanos liderados pelo&nbsp;MPLA, mas tamb&eacute;m ao manter naturais ou adquiridas afei&ccedil;&otilde;es e familiaridades pol&iacute;ticas no estrito campo partid&aacute;rio. A separa&ccedil;&atilde;o do Estado dos partidos foi um aspeto essencial da estrat&eacute;gia de Dur&atilde;o Barroso. Portugal na &aacute;rea externa s&oacute; tinha pol&iacute;tica de Estado. Mas no campo da a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, Lisboa era metropolitana, cosmopolita, plural, em que n&atilde;o havia delito de opini&atilde;o e onde a liberdade de imprensa era religiosamente respeitada. A&nbsp;UNITA&nbsp;tinha em Lisboa um dos seus principais palcos de interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, contando com simpatias pol&iacute;ticas, partid&aacute;rias e de importantes fazedores de opini&atilde;o, algumas situadas at&eacute; ao mais alto n&iacute;vel. E era de Lisboa que Savimbi falava para o interior da &laquo;Angola al&eacute;m Jamba&raquo;.</p>     <p>Numa palavra, deve-se a Dur&atilde;o Barroso, com o apoio de Cavaco Silva, uma leitura estrat&eacute;gica da evolu&ccedil;&atilde;o mundial adivinhando muito antes de qualquer outro as suas poss&iacute;veis consequ&ecirc;ncias para a paz em Angola (e Mo&ccedil;ambique), a an&aacute;lise dos sinais pol&iacute;ticos e militares das partes beligerantes (por outras palavras, uma leitura integradora dos instrumentos pol&iacute;ticos, diplom&aacute;ticos e de intelig&ecirc;ncia) a cria&ccedil;&atilde;o de condi&ccedil;&otilde;es internas de legitimidade (rela&ccedil;&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o de Estado a Estado) e de confian&ccedil;a (liberdade dos escrit&oacute;rios de representa&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria da&nbsp;UNITA) que acabaram por viabilizar, fracassada a solu&ccedil;&atilde;o africana protagonizada por Mobutu, o processo de paz de Bicesse, sobre o qual assentou Lusaka.</p>     <p>&Eacute; certamente &laquo;caso de estudo&raquo; a forma como se chegou a &Eacute;vora, e como Lisboa integrou progressivamente todos os atores estrat&eacute;gicos e t&aacute;ticos, numa linguagem cinematogr&aacute;fica, os atores principais e secund&aacute;rios, estabelecendo os principais eixos dos Acordos de Bicesse em torno de um princ&iacute;pio t&atilde;o simples quanto complexo que se poderia resumir na f&oacute;rmula &laquo;paz em troca da democracia&raquo; visando um Estado de direito.</p>     <p>&Agrave;s vezes interrogo-me como foi poss&iacute;vel vencer manobras, intrigas, sede de protagonismos, manipula&ccedil;&otilde;es, press&otilde;es pol&iacute;ticas e militares, com tantos conselheiros externos dos beligerantes e tantas c&acirc;maras de resson&acirc;ncia em Lisboa. A come&ccedil;ar pelos sul-africanos do regime segregacionista de Botha, que certamente viram na paz de Bicesse o risco do total isolamento internacional do regime do&nbsp;<i>apartheid</i>. E tinham raz&atilde;o. Ap&oacute;s a Nam&iacute;bia e o come&ccedil;o do processo de paz de Roma relativo a Mo&ccedil;ambique (constru&iacute;do em larga medida sobre a oportunidade e alicerces do acordo de paz de Angola, e neste largamente inspirado), Bicesse representou n&atilde;o s&oacute; o fim do internacionalismo do regime do&nbsp;<i>apartheid</i>&nbsp;mas tamb&eacute;m o in&iacute;cio do debate interno sobre o futuro do sistema pol&iacute;tico sul-africano, que iria levar &agrave; liberta&ccedil;&atilde;o de Mandela e &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o de elei&ccedil;&otilde;es livres em 1994. Nunca esquecerei a viol&ecirc;ncia verbal de Pik Botha em algumas reuni&otilde;es com Dur&atilde;o Barroso, e a firmeza absoluta por este demonstrada. Assim como n&atilde;o esquecerei a clarivid&ecirc;ncia de alguns l&iacute;deres norte-americanos, de Chester Crocker a Herman Cohen. Neste aspeto, a &Aacute;frica do Sul, democr&aacute;tica e livre, deve muito a Angola e Portugal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas h&aacute; naturalmente dois nomes que importa destacar no caminho at&eacute; Bicesse &ndash; o do Presidente Jos&eacute; Eduardo dos Santos, porventura o que arriscou mais, pois era aquele que mais teria a perder numa eventual derrota eleitoral tendo presente a maioria Umbuntu; e o de Jonas Malheiro Savimbi, que apostou na paz acreditando que as elei&ccedil;&otilde;es o iriam favorecer, o que n&atilde;o veio a suceder. Sem eles, os decisores &uacute;ltimos, os que apuseram a sua assinatura no acordo de Bicesse, este n&atilde;o se teria tornado realidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> O texto aqui apresentado &eacute; um testemunho pessoal, e vincula apenas o seu autor.</p>      ]]></body>
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