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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[2016, a «longa caminhada»: Das eleições primárias à sucessão de Obama]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[2016, "the long walk": From primary elections to Obama's succession]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article deals with the electoral year of 2016 in the USA, especially the presidential election. We start by describing the fundamental characteristics of the &#8220;Primary elections&#8221;, in a historical and methodological perspective, which is followed by a commentary of this year results (both in the Republican and Democratic Parties). The next section evaluates prospectively the chances of the candidates in the upcoming elections in November (to the White House and Congress). In the final part of the paper, we analyze the main topics of the presidential campaign and the proposals of Hillary Clinton and Donald Trump in five areas: economy, foreign policy, justice, immigration and healthcare.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>O IMPACTO DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL NORTE-AMERICANA</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2016, a &laquo;longa caminhada&raquo;.&nbsp;</b><b>Das elei&ccedil;&otilde;es prim&aacute;rias &agrave; sucess&atilde;o de Obama</b></p>     <p><b>2016, "the long walk". From primary elections to Obama's succession</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jos&eacute; Gomes Andr&eacute;</b></p>     <p>Professor auxiliar convidado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no Instituto de Estudos Poli&#769;ticos da Universidade Cato&#769;lica Portuguesa. Doutorou-se com uma tese sobre o pensamento poli&#769;tico de James Madison. Trabalha atualmente num po&#769;s-doutoramento sobre federalismo moderno e contempora&#770;neo. Tem diversas publicac&#807;o&#771;es sobre estes temas, com especial incide&#770;ncia na ana&#769;lise da poli&#769;tica norte-americana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Neste artigo debru&ccedil;amo-nos sobre o ano eleitoral de 2016 nos Estados Unidos, com especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave; elei&ccedil;&atilde;o presidencial. Numa fase inicial, expomos as caracter&iacute;sticas fundamentais das &laquo;prim&aacute;rias&raquo;, numa perspetiva hist&oacute;rica e metodol&oacute;gica, a que se segue um coment&aacute;rio sobre os resultados verificados este ano (no Partido Republicano e no Partido Democrata). Numa sec&ccedil;&atilde;o posterior, avaliam-se prospetivamente as possibilidades dos candidatos em novembro (tanto para a Casa Branca, como nas elei&ccedil;&otilde;es para o Congresso). Na parte final, analisamos os temas dominantes na campanha presidencial e quais as propostas dos candidatos Hillary Clinton e Donald Trump em cinco dom&iacute;nios principais: economia, pol&iacute;tica externa, justi&ccedil;a, imigra&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b>: Elei&ccedil;&atilde;o presidencial, Estados Unidos, Hillary Clinton, Donald Trump, elei&ccedil;&otilde;es prim&aacute;rias.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article deals with the electoral year of 2016 in the USA, especially the presidential election. We start by describing the fundamental characteristics of the &ldquo;Primary elections&rdquo;, in a historical and methodological perspective, which is followed by a commentary of this year results (both in the Republican and Democratic Parties). The next section evaluates prospectively the chances of the candidates in the upcoming elections in November (to the White House and Congress). In the final part of the paper, we analyze the main topics of the presidential campaign and the proposals of Hillary Clinton and Donald Trump in five areas: economy, foreign policy, justice, immigration and healthcare.</p>     <p><b>Keywords</b>: USA presidential election, Hillary Clinton, Donald Trump, USA primary elections.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>UM CURIOSO INSTRUMENTO: AS PRIM&Aacute;RIAS NO SISTEMA ELEITORAL NORTE-AMERICANO</b></p>     <p>No dia 8 de novembro de 2016, os Estados Unidos escolher&atilde;o o sucessor de Obama, bem como os 435 membros da C&acirc;mara dos Representantes e 34 cargos no Senado. No entanto, o processo eleitoral iniciou-se muitos meses antes, devido &agrave; exist&ecirc;ncia de um singular instrumento: as prim&aacute;rias. De forma breve, trata-se de um m&eacute;todo de sele&ccedil;&atilde;o pr&eacute;vio &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es gerais, em que os eleitores escolhem os candidatos dos partidos a diversos cargos pol&iacute;ticos. Contrariamente a outros pa&iacute;ses, onde as c&uacute;pulas partid&aacute;rias fazem essa nomea&ccedil;&atilde;o, as prim&aacute;rias nos Estados Unidos s&atilde;o um processo eminentemente popular, permitindo aos eleitores decidir, desde logo, que indiv&iacute;duos devem figurar nos boletins de voto, esteja em causa a escolha do Presidente, congressistas ou at&eacute; cargos estaduais.</p>     <p>Adotado no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, este m&eacute;todo pretendia aproximar os candidatos dos cidad&atilde;os e enfraquecer o poder das m&aacute;quinas partid&aacute;rias, que at&eacute; a&iacute; dominavam o processo de sele&ccedil;&atilde;o dos candidatos. Inicialmente recebidas com pouco entusiasmo pelo p&uacute;blico (e renit&ecirc;ncia pelos partidos), as prim&aacute;rias s&oacute; assumiram a sua faceta moderna &ndash; tornando-se vinculativas e extensivas a todo o pa&iacute;s &ndash; nos anos 70 do s&eacute;culo passado, sendo hoje pr&aacute;tica consensual no sistema eleitoral dos Estados Unidos.</p>     <p>As caracter&iacute;sticas deste processo eleitoral s&atilde;o difusas, o que se explica em grande parte pela natureza idiossincr&aacute;tica do pr&oacute;prio sistema pol&iacute;tico norte-americano. Organizados numa federa&ccedil;&atilde;o de cinquenta estados, os Estados Unidos privilegiam a combina&ccedil;&atilde;o de instrumentos de homogeneidade (que destacam a exist&ecirc;ncia do pa&iacute;s como uma &laquo;na&ccedil;&atilde;o unida&raquo;), com o respeito pela autonomia de cada um dos estados que comp&otilde;em a federa&ccedil;&atilde;o. Esta ambival&ecirc;ncia reflete-se na organiza&ccedil;&atilde;o das prim&aacute;rias. Por um lado, h&aacute; um esfor&ccedil;o dos partidos para controlar o sistema eleitoral, impondo regras gerais quanto &agrave; calendariza&ccedil;&atilde;o do processo, distribui&ccedil;&atilde;o de delegados por cada estado e organiza&ccedil;&atilde;o das conven&ccedil;&otilde;es nacionais (onde se aclama o vencedor).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Todavia, os estados &ndash; ou melhor, as organiza&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias estaduais &ndash; ciosos das suas prerrogativas, contrap&otilde;em a este esfor&ccedil;o de uniformiza&ccedil;&atilde;o um conjunto de normas vari&aacute;veis, no que toca &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o do processo (tipo de boletins de voto, hora de abertura das urnas), m&eacute;todo de sele&ccedil;&atilde;o de delegados (proporcional, <i>winner-takes-all</i> ou distribui&ccedil;&atilde;o por distritos congressionais), condi&ccedil;&otilde;es pr&eacute;vias de admiss&atilde;o do eleitorado e ainda o formato da elei&ccedil;&atilde;o propriamente dita. Este &uacute;ltimo compreende dois modelos fundamentais. Um deles designa-se usualmente de &laquo;elei&ccedil;&otilde;es prim&aacute;rias&raquo;, um processo alargado de voto secreto, em urna fechada ou com &laquo;voto eletr&oacute;nico&raquo;. No entanto, sob esta aparente uniformidade, esconde-se uma abundante variedade metodol&oacute;gica, sobretudo no que toca &agrave; admiss&atilde;o de eleitores potenciais. Alguns estados organizam &laquo;prim&aacute;rias fechadas&raquo;, nas quais s&oacute; podem votar os eleitores registados nos partidos (testando a popularidade de um candidato entre o n&uacute;cleo duro dos seus apoiantes). Outros preferem realizar prim&aacute;rias &laquo;abertas&raquo;, sem exig&ecirc;ncia de registo de identifica&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria, avaliando-se sobretudo a capacidade de um candidato agradar aos &laquo;independentes&raquo;.</p>     <p>Como em quase tudo o que diz respeito &agrave;s prim&aacute;rias nos Estados Unidos, h&aacute; no entanto muitas exce&ccedil;&otilde;es a estas &laquo;regras b&aacute;sicas&raquo;: por exemplo, existem estados com &laquo;prim&aacute;rias fechadas&raquo;, mas que permitem fazer o registo partid&aacute;rio at&eacute; ao dia da elei&ccedil;&atilde;o, ou estados que permitem aos eleitores votar nas prim&aacute;rias de mais do que um partido. Em algumas situa&ccedil;&otilde;es, os eleitores devem solicitar um boletim de voto do partido em que desejam votar; noutras, podem decidir na privacidade da cabina de voto. Quanto aos &laquo;independentes&raquo;, nalguns casos podem registar-se temporariamente num partido; noutros, s&atilde;o autorizados a exercer o voto numa condi&ccedil;&atilde;o apartid&aacute;ria. A lista de especificidades &eacute; praticamente intermin&aacute;vel.</p>     <p>O formato de &laquo;prim&aacute;rias&raquo; foi acolhido pela maioria dos estados, pois permite uma ampla participa&ccedil;&atilde;o eleitoral. Contudo, alguns estados adotaram um m&eacute;todo alternativo, chamado de <i>caucus</i> (palavra &iacute;ndia que designava um conselho de chefes de v&aacute;rias tribos). Trata-se de um instrumento deliberativo peculiar, que promove o debate entre os participantes num singular exerc&iacute;cio de cidadania, mediante a troca de argumentos em favor de um determinado candidato. A reuni&atilde;o pode durar v&aacute;rias horas, durante as quais os partid&aacute;rios de um candidato procuram defender os seus m&eacute;ritos, para convencer os outros membros presentes a juntarem-se ao seu grupo, antes de se proceder &agrave; contagem final dos votos. Os cr&iacute;ticos consideram o processo pouco democr&aacute;tico, pois pressup&otilde;e um voto p&uacute;blico, sujeitando al&eacute;m disso os participantes a press&otilde;es de elementos politicamente mais ativos. H&aacute;, no entanto, quem defenda os <i>caucuses</i> pela forma como convidam a um aceso debate pol&iacute;tico e envolvem o eleitor comum num processo decis&oacute;rio<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.</p>     <p>Decorrendo ao longo de mais de quatro meses, em 50 estados e diversos territ&oacute;rios ultramarinos, envolvendo cerca de 60 milh&otilde;es de eleitores, as prim&aacute;rias nos Estados Unidos celebram o ideal democr&aacute;tico, ora na forma de uma participa&ccedil;&atilde;o popular em massa, ora pelo escrut&iacute;nio dos candidatos, mesmo antes de se proceder &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es gerais, nas quais se confrontam os aspirantes aos mais importantes cargos da na&ccedil;&atilde;o. A complexidade do sistema atemoriza o mais incauto espetador &ndash; as pr&oacute;prias campanhas contratam dezenas de especialistas para lidar com as minud&ecirc;ncias da log&iacute;stica eleitoral. Por&eacute;m, a referida celebra&ccedil;&atilde;o popular adscrita ao processo, e a forma como permite testar antecipadamente os candidatos, tornou as prim&aacute;rias num instrumento acarinhado pelo eleitorado, sendo hoje parte indispens&aacute;vel da democracia norte-americana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>AS PRIM&Aacute;RIAS DE 2016 EM RETROSPETIVA</b></p>     <p>Desde que as prim&aacute;rias se generalizaram, os partidos perderam quase totalmente a sua capacidade de condicionar a nomea&ccedil;&atilde;o de candidatos, uma vez que estes decidem livremente sujeitar-se de forma imediata ao voto popular. Tal facto trouxe grande diversidade &agrave;s prim&aacute;rias, nomeadamente quando &ndash; como sucede em 2016 &ndash; o Presidente est&aacute; impossibilitado de renovar o seu mandato, deixando assim &laquo;em aberto&raquo; a escolha do partido a que pertence (neste caso, o Partido Democrata) e refor&ccedil;ando as esperan&ccedil;as dos seus rivais (em 2016, o Partido Republicano) na obten&ccedil;&atilde;o de uma vit&oacute;ria.</p>     <p>N&atilde;o surpreende pois que, entre os republicanos, afastados da Casa Branca desde 2008, se tenha apresentado a votos o mais vasto elenco de candidatos da era moderna &ndash; 17 pessoas, incluindo rostos conhecidos da pol&iacute;tica norte-americana, como Jeb Bush, Ted Cruz, Marco Rubio, Rand Paul e Chris Christie, entre outros, conjunto que expressava a pr&oacute;pria diversidade ideol&oacute;gica do Partido Republicano (conservadores tradicionais, republicanos moderados, libert&aacute;rios, <i>social conservatives</i><i>,</i> aficionados do Tea Party). N&atilde;o obstante, e contra todas as expetativas, o vencedor acabou por ser Donald Trump, um milion&aacute;rio sem experi&ecirc;ncia pol&iacute;tica, mais conhecido pelo seu comportamento err&aacute;tico e participa&ccedil;&atilde;o em concursos televisivos do que propriamente por uma carreira de servi&ccedil;o p&uacute;blico.</p>     <p>Explicar a surpreendente vit&oacute;ria de Trump implica considerar diversas vari&aacute;veis. Uma das mais importantes parece ser o descontentamento generalizado do eleitorado norte-americano com a vida pol&iacute;tica no pa&iacute;s, nomeadamente o estado an&eacute;mico da economia, a sucess&atilde;o de altera&ccedil;&otilde;es sociais relevantes (aprova&ccedil;&atilde;o do casamento homossexual, despenaliza&ccedil;&atilde;o do consumo de drogas leves em v&aacute;rios estados) e a implementa&ccedil;&atilde;o do novo sistema de sa&uacute;de (nacionalizado e obrigat&oacute;rio), muito impopular junto dos setores conservadores. Os estudos de opini&atilde;o s&atilde;o inequ&iacute;vocos: o apoio ao Congresso &eacute; o mais baixo de sempre, a palavra<i> anger</i> (&laquo;zangado/a&raquo;) &eacute; a mais usada pelos eleitores para descrever o seu estado de esp&iacute;rito, o n&uacute;mero de independentes n&atilde;o para de crescer<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>     <p>Importa tamb&eacute;m recordar que, no s&eacute;culo XXI, os Estados Unidos t&ecirc;m visto a sua hegemonia questionada, em particular no plano econ&oacute;mico e demogr&aacute;fico e que, desde o 11 de Setembro, os norte-americanos experienciam uma sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a, que os atentados terroristas e o caos no M&eacute;dio Oriente apenas refor&ccedil;aram. Uma grande parcela do eleitorado, sobretudo nos setores mais conservadores, vive um momento de &laquo;perda de refer&ecirc;ncias&raquo;, num planeta inst&aacute;vel, que abalou os pilares da sua vis&atilde;o do mundo. O discurso tradicionalista de Trump &ndash; cujo <i>slogan</i> &eacute; &laquo;Make America Great Again&raquo; (Tornar a Am&eacute;rica Novamente Grande) &ndash; promete justamente reinstaurar os alicerces dessa mundivid&ecirc;ncia (uma Am&eacute;rica gloriosa e hegem&oacute;nica), o que se torna muito atrativo para este tipo de eleitores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>H&aacute; outros dados a ter em conta. Os republicanos nomearam dois moderados para enfrentar Obama em 2008 (McCain) e 2012 (Romney) e ambos perderam. Tal situa&ccedil;&atilde;o criou junto do eleitorado republicano a convic&ccedil;&atilde;o de que um candidato &laquo;centrista&raquo; n&atilde;o &eacute; necessariamente a melhor op&ccedil;&atilde;o, e que poder&aacute; ser prefer&iacute;vel mobilizar a base mais conservadora, especialmente com um nome &laquo;fora da caixa&raquo;, capaz de agitar o mapa pol&iacute;tico.</p>     <p>Este sentimento &eacute; refor&ccedil;ado pelas altera&ccedil;&otilde;es vividas no Partido Republicano nos &uacute;ltimos anos, face &agrave; emerg&ecirc;ncia do Tea Party, movimento que conjuga uma mensagem intransigente de conservadorismo fiscal com um discurso isolacionista na pol&iacute;tica externa, bem como uma cr&iacute;tica feroz &agrave; Administra&ccedil;&atilde;o Obama e aos &laquo;h&aacute;bitos&raquo; de Washington. O Tea Party provocou um terramoto na pol&iacute;tica dos Estados Unidos, elegendo v&aacute;rios congressistas e senadores comprometidos com os seus valores, mas sob a bandeira do Partido Republicano, adensando um fen&oacute;meno que a historiadora Anne Applebaum designou de &laquo;desaparecimento dos moderados&raquo;<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Na realidade, a recente radicaliza&ccedil;&atilde;o do discurso pol&iacute;tico promoveu o surgimento de pol&iacute;ticos polarizadores, os quais estiveram durante d&eacute;cadas confinados a cargos menores, mas que v&ecirc;m assumindo uma crescente preponder&acirc;ncia, sobretudo no Partido Republicano, tornando a ascens&atilde;o de algu&eacute;m como Trump &ndash; que h&aacute; uma d&eacute;cada seria considerado &laquo;n&atilde;o presidenci&aacute;vel&raquo; &ndash; numa figura aceit&aacute;vel para muitos eleitores.</p>     <p>Por outro lado, e para al&eacute;m destas quest&otilde;es estruturais, Trump foi tamb&eacute;m bafejado pela fortuna das circunst&acirc;ncias nas prim&aacute;rias de 2016, as quais contaram com um alargado conjunto de candidatos, como referimos. Durante meses, os favoritos debateram-se mutuamente, deixando Trump de fora do processo cr&iacute;tico, enquanto este recebia uma in&eacute;dita aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica, como o &laquo;candidato inesperado&raquo;. Mesmo ap&oacute;s as primeiras vit&oacute;rias de Trump, o partido tardou em reagir e os seus advers&aacute;rios continuaram a ignor&aacute;-lo. Seguindo o c&eacute;lebre princ&iacute;pio &laquo;dividir para reinar&raquo;, Trump foi amealhando vit&oacute;rias, apesar da sua percentagem de votos raramente ultrapassar os 50 por cento, aumentando o n&uacute;mero de delegados conquistados. Quando se procurou uma frente alternativa unida contra Trump, era demasiado tarde.</p>     <p>Rodeado de uma &aacute;urea de invencibilidade, ancorado numa hist&oacute;ria de sucesso profissional, e beneficiando de um cen&aacute;rio pol&iacute;tico e social f&eacute;rtil para um discurso populista, Trump surgiu como &laquo;o homem certo no momento certo&raquo;. De alguma forma, com o seu discurso f&aacute;cil e sem rodeios, mesmo repleto de tra&ccedil;os xen&oacute;fobos e machistas, assente numa confian&ccedil;a ilimitada, Trump &eacute; uma figura irresist&iacute;vel para boa parte do eleitorado.</p>     <p>A sua advers&aacute;ria &eacute; Hillary Clinton, que confirmou o seu favoritismo no campo democrata. Antiga primeira-dama, senadora de Nova Iorque, secret&aacute;ria de Estado, Hillary Clinton possui um curr&iacute;culo not&aacute;vel, ao qual junta a sua experi&ecirc;ncia eleitoral (candidata nas prim&aacute;rias em 2008 contra Obama), grande capacidade de financiamento e apoio do establishment partid&aacute;rio.</p>     <p>Estes dois &uacute;ltimos pontos s&atilde;o muito relevantes nas prim&aacute;rias. Estendendo-se ao longo de v&aacute;rios meses e decorrendo em dezenas de estados e territ&oacute;rios, o processo eleitoral norte-americano exige recursos financeiros consider&aacute;veis. Os an&uacute;ncios nos media tradicionais, uma boa visibilidade nas redes sociais e uma organiza&ccedil;&atilde;o de estruturas locais s&atilde;o indispens&aacute;veis a uma candidatura bem-sucedida, sendo no entanto muito dispendiosas. Com efeito, trata-se de um elemento problem&aacute;tico no processo eleitoral norte-americano, que se pretende o mais democr&aacute;tico poss&iacute;vel, embora na pr&aacute;tica tais exig&ecirc;ncias financeiras condicionem a liberdade das candidaturas. Os candidatos desdobram-se em eventos de angaria&ccedil;&atilde;o de fundos e, com frequ&ecirc;ncia, ficam muito dependentes das contribui&ccedil;&otilde;es de grandes companhias, que num futuro pr&oacute;ximo poder&atilde;o exigir retribui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, nem sempre plenamente leg&iacute;timas. Os &uacute;ltimos anos assistiram a v&aacute;rias tentativas, por parte do Congresso, em produzir legisla&ccedil;&atilde;o que reduzisse esta influ&ecirc;ncia na vida pol&iacute;tica, mas uma decis&atilde;o do Supremo Tribunal de 2010 (&laquo;Citizens United v. Federal Election Comission&raquo;) invalidou essas pretens&otilde;es, considerando que as mesmas violavam o direito de indiv&iacute;duos e organiza&ccedil;&otilde;es coletivas (sem fins lucrativos) a participarem livremente no financiamento do processo eleitoral, ao abrigo do 1.&ordm; Aditamento (liberdade de express&atilde;o).</p>     <p>A quest&atilde;o do &laquo;apoio partid&aacute;rio&raquo; ocupa tamb&eacute;m um lugar importante, sobretudo no Partido Democrata. Embora a larga maioria dos delegados seja obtida atrav&eacute;s do voto popular, o Partido Democrata criou o conceito de &laquo;superdelegados&raquo; &ndash; figuras relevantes do partido, que ocupam cargos pol&iacute;ticos importantes (senadores, congressistas, governadores, etc.) &ndash; os quais participam na escolha do candidato. Trata-se de um mecanismo de filtragem do voto popular, que procura adicionar-lhe a pondera&ccedil;&atilde;o adscrita ao desempenho de cargos p&uacute;blicos<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.</p>     <p>A vit&oacute;ria de Hillary Clinton alicer&ccedil;ou-se na conjuga&ccedil;&atilde;o destes fatores &ndash; bem como dos elementos fundamentais caracter&iacute;sticos das elei&ccedil;&otilde;es prim&aacute;rias em geral. Foi a candidata que angariou mais fundos (348 milh&otilde;es de d&oacute;lares, contra 229 milh&otilde;es de Sanders, o seu principal rival) e que dominou as redes sociais (contra uma perce&ccedil;&atilde;o comum, Hillary tem mais seguidores do que Sanders no Twitter, mais likes no Facebook, mais visualiza&ccedil;&otilde;es no Youtube)<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>. Triunfou em 28 estados e seis territ&oacute;rios, e obteve 16,8 milh&otilde;es de votos (55 por cento), correspondentes a 2204 delegados (4051 dos atribu&iacute;dos por voto). A sua vit&oacute;ria alicer&ccedil;ou-se sobretudo na sua popularidade junto dos afro-americanos, das mulheres e da classe oper&aacute;ria, tr&ecirc;s segmentos eleitorais fundamentais da &laquo;coliga&ccedil;&atilde;o democrata&raquo;.</p>     <p>Hillary Clinton obteve tamb&eacute;m um apoio claro dos &laquo;superdelegados&raquo; (560 em 713), traduzindo o seu favoritismo junto das figuras mais prestigiadas do partido, que a preferiram a Sanders, senador do Vermont que at&eacute; h&aacute; pouco tempo nem sequer pertencia ao Partido Democrata (a sua carreira pol&iacute;tica baseava-se na sua posi&ccedil;&atilde;o de &laquo;independente&raquo;). Sanders conseguiu resultados surpreendentes nas prim&aacute;rias, beneficiando dos excelentes resultados entre o eleitorado jovem e independente e de uma mensagem apelativa &agrave; ala mais progressista do partido (cr&iacute;tica do grande capital, defesa do ensino gratuito, pol&iacute;ticas liberais, reforma do sistema pol&iacute;tico e eleitoral, combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria). Todavia, a sua incapacidade de captar um voto mais alargado, em termos demogr&aacute;ficos (perdeu latinos e afro-americanos por largas margens) e geogr&aacute;ficos (sofreu pesadas derrotas no Sul e nos principais estados atl&acirc;nticos), condenou a sua candidatura.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOVEMBRO &ndash; O QUE ESPERAR?</b></p>     <p>Embora estejam em causa centenas de cargos p&uacute;blicos, a elei&ccedil;&atilde;o do Presidente dominar&aacute; naturalmente a aten&ccedil;&atilde;o no dia 8 de novembro. O sistema utilizado &eacute; um dos mais originais do mundo, resultado de um compromisso estabelecido na Conven&ccedil;&atilde;o de Filad&eacute;lfia de 1787, e aperfei&ccedil;oado ao longo da hist&oacute;ria norte-americana. Em tra&ccedil;os largos, trata-se de combinar os aspetos fundamentais de uma elei&ccedil;&atilde;o popular (envolvendo os cidad&atilde;os americanos legalmente aptos a votar) com a filtragem adscrita a uma rep&uacute;blica federal (sendo por isso os votos atribu&iacute;dos pelos estados, ponderado o seu peso demogr&aacute;fico e a sua presen&ccedil;a no Congresso &ndash; cada estado disp&otilde;e de um &laquo;x&raquo; n&uacute;mero de &laquo;votos eleitorais&raquo; correspondentes &agrave; soma do seu n&uacute;mero de representantes e senadores no Congresso federal, a que se juntam tr&ecirc;s votos eleitorais do distrito de Col&uacute;mbia). Este sistema procura honrar os princ&iacute;pios democr&aacute;ticos (pois traduz a prefer&ecirc;ncia dos eleitores, que escolhem livremente o candidato desejado), mas tamb&eacute;m preservar a natureza federal do sistema, acautelando tanto os interesses dos estados mais populosos (a quem cabem mais votos eleitorais), como dos estados mais pequenos (que t&ecirc;m maior preponder&acirc;ncia efetiva neste sistema misto do que se fosse considerada apenas a proporcionalidade da sua popula&ccedil;&atilde;o votante).</p>     <p>Para potenciarem a sua influ&ecirc;ncia neste complexo esquema, os estados adotaram um mecanismo suplementar que o torna ainda mais peculiar: o sistema <i>winner-takes-all</i>, segundo o qual o candidato com um maior n&uacute;mero de votos &eacute; declarado o vencedor nesse estado, conquistando todos os votos eleitorais do mesmo, pr&aacute;tica que procura evitar uma dispers&atilde;o desses votos (refor&ccedil;ando a import&acirc;ncia de estados demograficamente menos relevantes)<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>.</p>     <p>Face &agrave; exist&ecirc;ncia deste invulgar modelo, a an&aacute;lise do processo eleitoral tende a preocupar-se menos com as tend&ecirc;ncias do chamado &laquo;voto popular&raquo; (ou seja, o voto de todos os cidad&atilde;os norte-americanos em geral), e mais com o contexto pol&iacute;tico vivido nos estados mais equilibrados &ndash; os <i>swing-states</i> &ndash; onde as caracter&iacute;sticas demogr&aacute;ficas, econ&oacute;micas e sociais, bem como o hist&oacute;rico eleitoral, fazem prever uma disputa renhida. Uma vez que os estados atribuem todos os seus &laquo;votos eleitorais&raquo; ao vencedor, um triunfo por curta margem num estado relevante pode ser de import&acirc;ncia vital para as aspira&ccedil;&otilde;es dos candidatos.</p>     <p>Tradicionalmente vol&aacute;teis, as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais norte-americanas conheceram uma surpreendente estabilidade no s&eacute;culo XXI. Com efeito, nas &uacute;ltimas quatro elei&ccedil;&otilde;es (2000, 2004, 2008 e 2012), 39 dos 50 estados preferiram o candidato do mesmo partido, independentemente do nome que figurava no boletim de voto. Nessas mesmas quatro elei&ccedil;&otilde;es, a diferen&ccedil;a do voto popular entre os dois principais candidatos foi sempre inferior a 7,5 por cento (em tr&ecirc;s casos foi at&eacute; inferior a quatro por cento &ndash; a exce&ccedil;&atilde;o &eacute; o triunfo de Obama em 2008). Por motivos variados &ndash; de ordem cultural, social, econ&oacute;mica, pol&iacute;tica e demogr&aacute;fica &ndash; ocorreu uma peculiar estabiliza&ccedil;&atilde;o das prefer&ecirc;ncias eleitorais dos estados. O Partido Republicano mant&eacute;m uma forte base de apoio no Sul (com a import&acirc;ncia da chamada &laquo;direita religiosa&raquo;) e no Oeste interior, obtendo bons resultados sobretudo nos sub&uacute;rbios e nas &aacute;reas rurais, e entre o eleitorado conservador e a classe alta (devido &agrave; sua pol&iacute;tica fiscal, em particular). Os democratas, por sua vez, gozam de popularidade entre os afro-americanos, os hisp&acirc;nicos e o eleitorado urbano; conquistam mais facilmente as classes baixas e os oper&aacute;rios; e a sua base de apoio concentra-se nas cidades muito populosas, no Nordeste, na regi&atilde;o dos Grandes Lagos e na costa do Pac&iacute;fico.</p>     <p>Neste cen&aacute;rio bastante fixo, a elei&ccedil;&atilde;o tende a decidir-se nos (poucos) <i>swing-states</i>, onde os candidatos gastam milh&otilde;es de d&oacute;lares em publicidade e onde passam a maior parte da campanha. A este prop&oacute;sito, destacam-se quatro estados: Florida, Ohio, Virg&iacute;nia e Colorado, que juntos valem 69 votos eleitorais (13 por cento do total). Para al&eacute;m deste peso espec&iacute;fico, estes quatro estados s&atilde;o aut&ecirc;nticos &laquo;bar&oacute;metros&raquo; eleitorais, alinhando com o vencedor nas &uacute;ltimas quatro elei&ccedil;&otilde;es presidenciais, e registando resultados no voto popular globalmente muito pr&oacute;ximos dos n&uacute;meros verificados a n&iacute;vel nacional (desvios inferiores a tr&ecirc;s por cento, em 2012). Embora sejam estados muito distintos entre si, a sua diversidade demogr&aacute;fica, pol&iacute;tica, social e econ&oacute;mica &eacute; um reflexo da pr&oacute;pria Am&eacute;rica: a sua popula&ccedil;&atilde;o inclui por&ccedil;&otilde;es relevantes de minorias &eacute;tnicas, combinam largas &aacute;reas rurais com importantes aglomerados urbanos e possuem dados econ&oacute;micos genericamente alinhados com os Estados Unidos em geral. Dito de outro modo, s&atilde;o estados que representam, em &laquo;miniatura&raquo;, a na&ccedil;&atilde;o alargada em que se inserem; por esse motivo, os indicadores eleitorais neles registados tendem a ser reflexo de uma &laquo;vaga de fundo&raquo; que, tipicamente, se verificar&aacute; no pa&iacute;s.</p>     <p>&Agrave; data em que escrevo este artigo, as sondagens realizadas nestes estados d&atilde;o ligeira vantagem a Hillary Clinton, em linha com as &laquo;sondagens nacionais&raquo; (a 19 de julho, Hillary lidera no agregado do &laquo;RealClearPolitics&raquo; por 2,7 por cento)<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. O favoritismo de Hillary, propalado pelos analistas pol&iacute;ticos e pelos mercados eletr&oacute;nicos, parece sair ainda refor&ccedil;ado se atendermos &agrave;s altera&ccedil;&otilde;es demogr&aacute;ficas e sociais ocorridas nos &uacute;ltimos anos em estados tradicionalmente divididos, como os referidos (mas tamb&eacute;m na Carolina do Norte e no Nevada, por exemplo), onde uma popula&ccedil;&atilde;o urbana, jovem e etnicamente diversificada tem ganho terreno, aumentando as possibilidades dos democratas<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>. Todavia, 2016 tem sido um ano de grandes surpresas &ndash; quem diria, h&aacute; um ano, que Trump seria o candidato republicano? Assim sendo, recomenda a prud&ecirc;ncia que aguardemos pelos pr&oacute;ximos desenvolvimentos, nomeadamente por uma longa e feroz campanha eleitoral.</p>     <p>Embora a elei&ccedil;&atilde;o presidencial concentre a aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica, importa, por&eacute;m, recordar que em novembro ir&atilde;o a votos tamb&eacute;m 435 membros da C&acirc;mara dos Representantes e 34 senadores. O caso da C&acirc;mara dos Representantes, apesar de fundamental (devido &agrave;s suas compet&ecirc;ncias em mat&eacute;ria legislativa, nomeadamente de cariz or&ccedil;amental), parece ser menos imprevis&iacute;vel. Os republicanos t&ecirc;m obtido a&iacute; bons resultados, controlam a C&acirc;mara por larga margem (mais 60 congressistas que os democratas) e a reorganiza&ccedil;&atilde;o de distritos congressionais de 2010, operada pelos parlamentos estaduais, foi-lhes manifestamente favor&aacute;vel, pelo que n&atilde;o &eacute; de esperar altera&ccedil;&otilde;es substantivas (os republicanos dever&atilde;o perder alguns lugares, mas manter o controlo da C&acirc;mara).</p>     <p>O caso do Senado &eacute; mais complexo. Neste momento, os republicanos t&ecirc;m 54 senadores, contra 45 dos democratas (e um independente, que alinha com estes &uacute;ltimos). Dos 34 lugares em disputa, 24 s&atilde;o atualmente ocupados por republicanos, nalguns casos em estados tradicionalmente favor&aacute;veis aos democratas (Illinois, Wisconsin, Pensilv&acirc;nia). Neste cen&aacute;rio, os democratas precisariam apenas de conquistar mais cinco lugares (ou quatro, se Hillary Clinton vencer a Presid&ecirc;ncia &ndash; o vice-presidente vota em caso de empate) para reconquistarem o controlo do Senado, situa&ccedil;&atilde;o que parece razoavelmente prov&aacute;vel. Tendo em conta a import&acirc;ncia desta c&acirc;mara &ndash; para al&eacute;m do processo legislativo tradicional, o Senado tem poderes relevantes na assinatura de tratados internacionais, confirma&ccedil;&atilde;o de nomea&ccedil;&otilde;es para cargos p&uacute;blicos e composi&ccedil;&atilde;o do Supremo Tribunal &ndash; os resultados de 8 de novembro podem assumir, tamb&eacute;m aqui, grande import&acirc;ncia para o futuro das op&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas norte-americanas, designadamente no dom&iacute;nio da pol&iacute;tica externa.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>IDEIAS E PROPOSTAS. O QUE EST&Aacute; EM CAUSA?</b></p>     <p>Devido &agrave; natureza do pr&oacute;prio cargo, a elei&ccedil;&atilde;o presidencial tende a focar-se nas caracter&iacute;sticas individuais dos candidatos. Boa parte da campanha trata-se de um verdadeiro &laquo;concurso de popularidade&raquo;, com os candidatos a sublinharem as suas virtudes pessoais, o seu percurso profissional e os seus feitos pol&iacute;ticos. Por vezes, esta &laquo;espetaculariza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica&raquo; torna-se francamente excessiva, debatendo-se aspetos do foro &iacute;ntimo do candidato (a sua religi&atilde;o, rela&ccedil;&otilde;es pessoais, etc.). No caso de 2016, com a presen&ccedil;a de duas figuras muito famosas e francamente polarizadoras na sociedade norte-americana, esta tend&ecirc;ncia dever&aacute; ser ainda mais vis&iacute;vel, remetendo o debate de ideias pol&iacute;ticas para segundo plano.</p>     <p>A este respeito, destaca-se a curiosa estrat&eacute;gia de Donald Trump, cujo discurso substantivo &eacute; vago, focando-se antes na sua &laquo;hist&oacute;ria de vida&raquo;, nas suas qualidades como homem de neg&oacute;cios, algu&eacute;m capaz de &laquo;agir&raquo;, &laquo;liderar&raquo;, &laquo;triunfar&raquo;. Substitui-se a dimens&atilde;o pol&iacute;tica do debate por uma esp&eacute;cie de &laquo;marketing individual&raquo;, obtendo os eleitores, n&atilde;o tanto um conjunto de propostas espec&iacute;ficas, mas uma s&eacute;rie de &laquo;talentos pessoais&raquo; que, supostamente, garantem uma efic&aacute;cia pol&iacute;tica em geral. Embora se envolva com mais frequ&ecirc;ncia na discuss&atilde;o de propostas pol&iacute;ticas concretas, a campanha de Hillary Clinton recorre igualmente a esta abordagem mais &laquo;pessoal&raquo;, enfatizando a sua experi&ecirc;ncia, influ&ecirc;ncia, capacidade de decis&atilde;o e conhecimento dos &laquo;bastidores de Washington&raquo;, que estariam nos ant&iacute;podas da inexperi&ecirc;ncia pol&iacute;tica de Trump.</p>     <p>Apesar desta crescente despolitiza&ccedil;&atilde;o do debate, h&aacute; cinco temas principais que ocupam um lugar importante na elei&ccedil;&atilde;o presidencial, com implica&ccedil;&otilde;es relevantes no futuro da pol&iacute;tica norte-americana e, por iner&ecirc;ncia, na cena internacional. S&atilde;o eles a economia, a pol&iacute;tica externa, a justi&ccedil;a, a imigra&ccedil;&atilde;o e a sa&uacute;de.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ECONOMIA</b></p>     <p>A economia &eacute; considerada pelo eleitorado como o tema mais relevante em 2016<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>, mas os dados sobre esta mat&eacute;ria s&atilde;o algo ambivalentes. O PIB cresceu dois por cento em 2015 e as proje&ccedil;&otilde;es apontam para um aumento em 2016 (crescimento de 2,6 por cento); o desemprego situa-se em 5,5 por cento, o n&uacute;mero mais baixo desde o in&iacute;cio da recess&atilde;o em 2008; a infla&ccedil;&atilde;o &eacute; m&iacute;nima, o d&oacute;lar &eacute; uma moeda est&aacute;vel, e houve um ligeiro aumento dos sal&aacute;rios m&eacute;dios entre 2015 e 2016<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>.</p>     <p>Aparentemente positivos, estes dados s&atilde;o, todavia, vistos como insuficientes por boa parte dos norte-americanos, historicamente habituados a crescimentos substanciais do PIB e &laquo;plena empregabilidade&raquo;. Al&eacute;m do mais, estes n&uacute;meros s&atilde;o agora poss&iacute;veis em fun&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios anos de pol&iacute;ticas de austeridade, adotadas pelo Congresso, mas patrocinadas pela Administra&ccedil;&atilde;o Obama, que criaram um clima econ&oacute;mico muito duro nos Estados Unidos. &Eacute; certo que a &laquo;austeridade&raquo; norte-americana foi distinta da europeia: a redu&ccedil;&atilde;o da despesa p&uacute;blica n&atilde;o foi t&atilde;o radical como em alguns pa&iacute;ses europeus, e foi acompanhada da manuten&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios sistemas de incentivos p&uacute;blicos e de uma ligeira descida de impostos para a classe m&eacute;dia, assim aliviando as fam&iacute;lias nas suas perdas financeiras. Todavia, muitas pessoas estiveram desempregadas nos &uacute;ltimos anos, o crescimento foi reduzido, o clima econ&oacute;mico sombrio e o descontentamento permanece latente junto da popula&ccedil;&atilde;o. Com efeito, as &uacute;ltimas sondagens mostram que 69 por cento das pessoas consideram que &laquo;o pa&iacute;s est&aacute; no caminho errado&raquo; e 50 por cento entendem que a &laquo;economia est&aacute; a piorar&raquo; (contra 43 por cento que veem &laquo;melhorias&raquo;)<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>.</p>     <p>Neste cen&aacute;rio amb&iacute;guo, os dois candidatos tentam contar a sua &laquo;vers&atilde;o da hist&oacute;ria&raquo;. Hillary Clinton surge como defensora do &laquo;paradigma Obama&raquo;, enfatizando a recupera&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e a queda progressiva do desemprego, defendendo a promo&ccedil;&atilde;o do Estado social ao jeito norte-americano (ou seja, juntando investimento p&uacute;blico com uma participa&ccedil;&atilde;o moderada do governo federal na regula&ccedil;&atilde;o da atividade econ&oacute;mica). Defende ainda uma progressiva redu&ccedil;&atilde;o do peso fiscal &agrave; classe m&eacute;dia, a subida do sal&aacute;rio m&iacute;nimo federal, a manuten&ccedil;&atilde;o dos benef&iacute;cios sociais e uma coopera&ccedil;&atilde;o estreita com os sindicatos na negocia&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es laborais<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.</p>     <p>Em sentido contr&aacute;rio, Donald Trump descreve o estado da economia como &laquo;calamitoso&raquo;, criticando as pol&iacute;ticas da Administra&ccedil;&atilde;o Obama (e, por iner&ecirc;ncia, as propostas de Clinton) e destacando a perda de influ&ecirc;ncia norte-americana no quadro internacional. A plataforma do Partido Republicano prop&otilde;e diminuir a exist&ecirc;ncia de obst&aacute;culos &agrave; atividade econ&oacute;mica (redu&ccedil;&atilde;o da carga fiscal, extin&ccedil;&atilde;o de restri&ccedil;&otilde;es em mat&eacute;ria de prote&ccedil;&atilde;o ambiental, diminui&ccedil;&atilde;o de burocracia), mas tamb&eacute;m promover a revis&atilde;o de certos acordos internacionais, nomeadamente a nafta (acordos bilaterais dos Estados Unidos com o Canad&aacute; e o M&eacute;xico) e o TTP (acordo comercial entre doze pa&iacute;ses banhados pelo oceano Pac&iacute;fico), muito criticados por Trump. Trata-se de um elemento em contradi&ccedil;&atilde;o com as posi&ccedil;&otilde;es tradicionais do Partido Republicano (favor&aacute;vel ao livre com&eacute;rcio), a que se junta, ali&aacute;s, a inten&ccedil;&atilde;o de Trump em instituir pol&iacute;ticas protecionistas (punindo a deslocaliza&ccedil;&atilde;o de empresas, criando novas taxas &agrave; importa&ccedil;&atilde;o), bem como adotar um discurso mais agressivo face &agrave; China (de cujos empr&eacute;stimos e atividade econ&oacute;mica os Estados Unidos est&atilde;o muito dependentes)<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>POL&Iacute;TICA EXTERNA</b></p>     <p>Estas posi&ccedil;&otilde;es antag&oacute;nicas entre os dois candidatos s&atilde;o tamb&eacute;m vis&iacute;veis no t&oacute;pico da pol&iacute;tica externa, que ocupa um lugar fundamental na campanha de 2016. Devido sobretudo &agrave; instabilidade vivida no M&eacute;dio Oriente e no Norte de &Aacute;frica, ao aumento do terrorismo na Europa e a alguns incidentes verificados em territ&oacute;rio americano (atentados de Orlando e San Bernardino, entre outros), o problema do terrorismo em particular tem sido referido nos estudos de opini&atilde;o como um dos que mais preocupam os cidad&atilde;os americanos (em valores que n&atilde;o se registavam desde 2006)<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>, o que confere ainda maior aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica &agrave;s quest&otilde;es de pol&iacute;tica externa, j&aacute; de si muito relevantes na discuss&atilde;o pol&iacute;tica presidencial.</p>     <p>Respons&aacute;vel pela pol&iacute;tica externa no primeiro mandato da Administra&ccedil;&atilde;o Obama, Hillary Clinton surge nesta mat&eacute;ria como uma defensora da &laquo;continuidade&raquo; entre os democratas, assente em tr&ecirc;s pilares: redu&ccedil;&atilde;o de gastos na defesa e na pol&iacute;tica externa; aposta na diplomacia e no refor&ccedil;o da coopera&ccedil;&atilde;o internacional (com enfoque no eixo &Aacute;sia-Pac&iacute;fico); recurso a interven&ccedil;&otilde;es cir&uacute;rgicas em zonas problem&aacute;ticas e de grande import&acirc;ncia estrat&eacute;gica para os Estados Unidos. Este plano tripartido &ndash; que tem caracterizado a pol&iacute;tica externa norte-americana desde 2009 &ndash; comporta, por&eacute;m, grandes riscos, pois est&aacute; assente num fr&aacute;gil equil&iacute;brio entre &laquo;conten&ccedil;&atilde;o&raquo; e &laquo;afirma&ccedil;&atilde;o&raquo;, dif&iacute;cil de concretizar num quadro internacional muito vol&aacute;til.</p>     <p>Defendendo o recurso primacial ao <i>soft power</i><i>,</i> esta abordagem de redu&ccedil;&atilde;o de efetivos e despesas tem como objetivo permitir aos Estados Unidos concentrar os seus recursos em teatros de guerra mais problem&aacute;ticos e aumentar a efic&aacute;cia das suas interven&ccedil;&otilde;es (que estariam comprometidas caso disseminassem em excesso os seus planos). Neste sentido, Clinton n&atilde;o exclui uma a&ccedil;&atilde;o mais vasta na S&iacute;ria e no Iraque (nomeadamente em termos militares), mas apenas em situa&ccedil;&atilde;o de &uacute;ltimo recurso (a press&atilde;o negativa da opini&atilde;o p&uacute;blica &eacute;, a este prop&oacute;sito, um importante obst&aacute;culo a ter em conta). Noutras mat&eacute;rias importantes de pol&iacute;tica externa, como a &laquo;abertura a Cuba&raquo;, a negocia&ccedil;&atilde;o do TTIP (Acordo de Parceria Transatl&acirc;ntica de Com&eacute;rcio e Investimento) e a manuten&ccedil;&atilde;o dos compromissos com a NATO, Clinton tem fundamentalmente defendido a continua&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas levadas a cabo por Obama nos &uacute;ltimos anos.</p>     <p>Donald Trump, por seu turno, promete uma verdadeira &laquo;revolu&ccedil;&atilde;o&raquo; na pol&iacute;tica externa norte-americana, orientada segundo os princ&iacute;pios da rejei&ccedil;&atilde;o do multilateralismo e a restitui&ccedil;&atilde;o de um lugar hegem&oacute;nico aos Estados Unidos na cena internacional. O seu discurso na Conven&ccedil;&atilde;o Nacional Republicana continha, ali&aacute;s, uma frase que serve de <i>slogan</i> ao mesmo: &laquo;O americanismo, e n&atilde;o o globalismo, ser&aacute; o nosso credo&raquo;. Trump manifesta desprezo pelas institui&ccedil;&otilde;es internacionais, como a ONU, criticou o acordo com o Ir&atilde;o sobre armas nucleares, denunciando-o como &laquo;um sinal de fraqueza dos EUA&raquo;, e hostiliza pa&iacute;ses importantes dos quais os norte-americanos se aproximaram nos &uacute;ltimos anos (como a China ou o M&eacute;xico). Numa entrevista recente, o candidato republicano sugeriu mesmo que os Estados Unidos, sob o seu comando, n&atilde;o devem apenas refrear a sua contribui&ccedil;&atilde;o para a nato, como admitir at&eacute; n&atilde;o apoiar pa&iacute;ses membros da organiza&ccedil;&atilde;o se estes forem invadidos por outros pa&iacute;ses, tal como estipula o artigo 5.&ordm; do tratado, caso esses pa&iacute;ses n&atilde;o tenham feito contribui&ccedil;&otilde;es financeiras regulares para a nato. Num momento de grande instabilidade na Europa do Leste e na Turquia, tais afirma&ccedil;&otilde;es revestem-se de particular gravidade e, se concretizadas, poderiam ter consequ&ecirc;ncias de enorme magnitude no quadro internacional.</p>     <p>Relativamente ao M&eacute;dio Oriente, Trump promete um apoio inabal&aacute;vel a Israel e uma interven&ccedil;&atilde;o de grande monta com o objetivo de &laquo;aniquilar&raquo; o &laquo;Estado Isl&acirc;mico&raquo;. At&eacute; ao momento, o candidato n&atilde;o referiu, por&eacute;m, que plano estrat&eacute;gico defende para restituir estabilidade ao M&eacute;dio Oriente (por outras palavras, o que se seguiria a essa &laquo;destrui&ccedil;&atilde;o&raquo; do ISIS), nem de que forma essa dispendiosa interven&ccedil;&atilde;o seria compat&iacute;vel com o seu desejo de diminuir a d&iacute;vida p&uacute;blica dos Estados Unidos. O candidato tem sido criticado por este aparente paradoxo &ndash; ambi&ccedil;&atilde;o de manter um equil&iacute;brio or&ccedil;amental, combinando maiores gastos militares com a previs&iacute;vel diminui&ccedil;&atilde;o de receita fiscal &ndash; mas Trump recusou at&eacute; agora discutir especificamente estas quest&otilde;es. Por outro lado, muitas destas medidas ter&atilde;o de ser negociadas com as estruturas militares (que t&ecirc;m grande influ&ecirc;ncia na pol&iacute;tica externa norte-americana), bem como com o Congresso (em especial o Senado), cuja composi&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda incerta, havendo todavia desde j&aacute; manifesta&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de muitos candidatos contra a introdu&ccedil;&atilde;o destas pol&iacute;ticas &ndash; problema que, na verdade, uma &laquo;Presid&ecirc;ncia Clinton&raquo; tamb&eacute;m ter&aacute; de enfrentar, face &agrave; previs&iacute;vel manuten&ccedil;&atilde;o do controlo republicano na C&acirc;mara dos Representantes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>JUSTI&Ccedil;A, IMIGRA&Ccedil;&Atilde;O E SA&Uacute;DE</b></p>     <p>Embora porventura num &laquo;segundo n&iacute;vel&raquo; de prioridade, quest&otilde;es como a justi&ccedil;a, a imigra&ccedil;&atilde;o e a sa&uacute;de ocupar&atilde;o tamb&eacute;m um papel relevante na campanha presidencial. O tema da justi&ccedil;a centra-se na vaga criada no Supremo Tribunal pela morte de Antonin Scalia, em fevereiro de 2016. Composto por nove ju&iacute;zes, o Supremo Tribunal &eacute; a c&uacute;pula do sistema judicial federal dos Estados Unidos, tendo poderes na an&aacute;lise dos pressupostos constitucionais e tamb&eacute;m da aplica&ccedil;&atilde;o das leis em geral, uma vez que, sobretudo por motivos hist&oacute;ricos, viu a sua jurisprud&ecirc;ncia de tal forma refor&ccedil;ada que se tornou um &laquo;ator pol&iacute;tico fundamental&raquo; (quest&otilde;es como o aborto, o casamento homossexual, o consumo de drogas leves, entre outros, s&atilde;o regulamentados essencialmente por via de ac&oacute;rd&atilde;os do Supremo Tribunal, e n&atilde;o por legisla&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;ria).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Efetuadas pelo Presidente, com a aprova&ccedil;&atilde;o do Senado, as nomea&ccedil;&otilde;es para o Supremo Tribunal s&atilde;o vital&iacute;cias, podendo assim deixar uma marca duradoura nos Estados Unidos. Talvez por esta raz&atilde;o, a que acresce a pr&oacute;pria &laquo;altern&acirc;ncia hist&oacute;rica&raquo; partid&aacute;ria na Casa Branca, essas nomea&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m procurado manter um certo equil&iacute;brio ideol&oacute;gico na composi&ccedil;&atilde;o do Tribunal, entre ju&iacute;zes conservadores e progressistas. A morte do juiz Scalia, um dos mais conservadores, abre todavia a porta a uma altera&ccedil;&atilde;o substancial desse equil&iacute;brio, uma vez que, atualmente, o Supremo Tribunal &eacute; composto por quatro progressistas (Kagan, Sotomayor, Breyer e Ginsburg), tr&ecirc;s conservadores (Thomas, Alito e Roberts) e um &laquo;moderado&raquo; (Kennedy)<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>.</p>     <p>O Senado bloqueou a decis&atilde;o de Obama (que nomeou Merrick Garland, um &laquo;moderado&raquo;), por entender que deveria caber ao pr&oacute;ximo presidente a escolha, conferindo assim ao futuro inquilino da Casa Branca enorme poder na defini&ccedil;&atilde;o das tend&ecirc;ncias do Supremo Tribunal. Importar&aacute; verificar tamb&eacute;m qual a composi&ccedil;&atilde;o do Senado, ap&oacute;s a elei&ccedil;&atilde;o de novembro, mas n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que uma das mais importantes decis&otilde;es do sucessor de Obama reside na escolha deste &laquo;9.&ordm; juiz&raquo;; a introdu&ccedil;&atilde;o de um elemento com vis&otilde;es progressistas (prov&aacute;vel, se Clinton vencer) refor&ccedil;aria o pendor j&aacute; progressista do Supremo Tribunal, ao passo que a escolha de um juiz conservador (&laquo;prometido&raquo; por Trump em caso de vit&oacute;ria) reequilibraria ideologicamente esse pilar fundamental da vida p&uacute;blica norte-americana.</p>     <p>Uma outra quest&atilde;o com enorme impacto &eacute; o problema da imigra&ccedil;&atilde;o, um dos mais discutidos nos Estados Unidos, e a prop&oacute;sito do qual Trump teceu algumas das suas mais pol&eacute;micas declara&ccedil;&otilde;es. O candidato defende uma postura agressiva relativamente aos cerca de 11 milh&otilde;es de imigrantes que vivem no pa&iacute;s (chegou mesmo a falar em deporta&ccedil;&atilde;o em massa) e o refor&ccedil;o da a&ccedil;&atilde;o policial e de vigil&acirc;ncia sobre imigrantes futuros. Simultaneamente, prop&otilde;e criar um muro na fronteira mexicana, sugest&atilde;o que oscila entre o ex&oacute;tico (nomeadamente quando defende que ser&aacute; o Governo mexicano a pag&aacute;-lo) e o inveros&iacute;mil (&eacute; dif&iacute;cil imaginar o Congresso a autorizar tal empresa), e que estar&aacute;, por conseguinte, a ser usada sobretudo como &laquo;manobra eleitoral&raquo;. Tamb&eacute;m nesta categoria parecem inserir-se propostas como o refor&ccedil;o da vigil&acirc;ncia sobre as comunidades mu&ccedil;ulmanas a viver nos Estados Unidos e a restri&ccedil;&atilde;o da entrada de novos imigrantes mu&ccedil;ulmanos no pa&iacute;s, medidas que levantam s&eacute;rias d&uacute;vidas em termos constitucionais (j&aacute; para n&atilde;o mencionar o seu impacto social, ou a pol&eacute;mica que suscitaria nos &oacute;rg&atilde;os legislativos federais e estaduais).</p>     <p>Sem surpresas, Hillary Clinton condena esta abordagem como &laquo;divisiva&raquo; e &laquo;ileg&iacute;tima&raquo;, defendendo antes a progressiva integra&ccedil;&atilde;o desses imigrantes no tecido social e produtivo norte-americano, atrav&eacute;s do chamado &laquo;caminho para a cidadania&raquo;. Clinton defende a aprova&ccedil;&atilde;o do <i>dream</i><i> Act</i>, projeto-lei que intenta conferir vistos de resid&ecirc;ncia aos filhos de imigrantes ilegais que tenham frequentado institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior ou o servi&ccedil;o militar (desde que tivessem entrado no pa&iacute;s na condi&ccedil;&atilde;o de menores de idade e n&atilde;o tivessem cadastro); apoia tamb&eacute;m a ordem executiva, emitida pelo Presidente Obama, que trava a deporta&ccedil;&atilde;o de imigrantes ilegais por um per&iacute;odo de tr&ecirc;s anos (desde que tenham um filho nascido nos Estados Unidos ou autoriza&ccedil;&atilde;o de resid&ecirc;ncia no pa&iacute;s).</p>     <p>Estas propostas, designadamente o chamado &laquo;caminho para a cidadania&raquo;, s&atilde;o atacadas pelos republicanos por consagrarem o que entendem ser uma esp&eacute;cie de &laquo;amnistia&raquo;, incentivando mais imigrantes a tentar a sua sorte ilegalmente. Hillary responde sublinhando a necessidade de dar resposta a um problema existente (os 11 milh&otilde;es de imigrantes ilegais, que vivem &agrave; margem do sistema social, fiscal e pol&iacute;tico), sem que isso invalide pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para evitar a repeti&ccedil;&atilde;o desse fen&oacute;meno (como tal, Hillary defende igualmente um maior policiamento das fronteiras). Embora aparentemente sensatas, estas propostas s&atilde;o no entanto tamb&eacute;m bastante amb&iacute;guas, e nos &uacute;ltimos oito anos a Administra&ccedil;&atilde;o Obama revelou grande incapacidade para levar a cabo tais reformas. O plano de Trump &eacute; bizarro, mas o de Hillary parece incapaz de transpor as meras &laquo;boas inten&ccedil;&otilde;es&raquo;.</p>     <p>Se no campo da imigra&ccedil;&atilde;o reina a incerteza, no dom&iacute;nio da sa&uacute;de as propostas s&atilde;o muito claras. Hillary Clinton apoia o &laquo;Obamacare&raquo; (um sistema de sa&uacute;de centralizado e parcialmente pago com fundos p&uacute;blicos), defendendo a sua progressiva implanta&ccedil;&atilde;o (que teve in&iacute;cio em 2010). Trump, pelo contr&aacute;rio, manifestou inten&ccedil;&atilde;o de repelir o programa, regressando ao modelo vigente na Am&eacute;rica durante d&eacute;cadas, que combina a exist&ecirc;ncia de seguros privados com programas federais de apoio a grupos mais vulner&aacute;veis (Medicaid &ndash; pessoas de baixos rendimentos; Medicare &ndash; pessoas com mais de 65 anos).</p>     <p>Confrontam-se a este respeito duas vis&otilde;es ideol&oacute;gicas muito distintas: um paradigma social-democrata (Clinton), que defende a interven&ccedil;&atilde;o governativa em mat&eacute;rias de sa&uacute;de p&uacute;blica, canalizando fundos estatais para o pagamento de servi&ccedil;os b&aacute;sicos tendencialmente universais; e um modelo liberal (Trump), que apela aos princ&iacute;pios tradicionais americanos da &laquo;liberdade individual&raquo; e da iniciativa privada, reclamando quer o direito de as pessoas escolherem voluntariamente a oferta que desejarem (incluindo o direito a n&atilde;o terem um seguro de sa&uacute;de), quer uma participa&ccedil;&atilde;o minimalista do Governo na gest&atilde;o dos servi&ccedil;os (m&eacute;dicos, neste caso), deixando espa&ccedil;o para a atua&ccedil;&atilde;o do &laquo;livre mercado&raquo;.</p>     <p>No fundo, este antagonismo est&aacute; presente nos v&aacute;rios temas abordados e na pr&oacute;pria natureza do embate presidencial de novembro, que assinala uma disputa entre duas personalidades muito diferentes, com percursos profissionais claramente distintos e mundivid&ecirc;ncias irreconcili&aacute;veis &ndash; duelo e ambival&ecirc;ncias que traduzem na perfei&ccedil;&atilde;o a pr&oacute;pria complexidade dos Estados Unidos, que acolhem no seu interior uma impressionante pan&oacute;plia &eacute;tnica, religiosa, social, pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica. Resta aguardar por 8 de novembro para conhecer qual dessas vis&otilde;es prevalecer&aacute; nas urnas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>APPLEBAUM, Anne &ndash; &laquo;The disappearance of moderate moderates&raquo;. (Consultado em 25 de julho de 2016). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://news.nationalpost.com/full-comment/anne-applebaum-the-disappearance-of-moderate-moderates" target="_blank">http://news.nationalpost.com/full-comment/anne-applebaum-the-disappearance-of-moderate-moderates</a>.</p>     <p>JUDIS, John, e TEIXEIRA, Ruy &ndash; <i>The Emerging Democratic Majority</i>. Scribner, 2004.</p>     <p>SOROMENHO-MARQUES, Viriato &ndash; <i>O Regresso da Am&eacute;rica</i>. Lisboa: Esfera do Caos, 2008.</p>     <p><a href="http://presidential-candidates.insidegov.com/compare/35-40/Bernie-Sanders-vs-Hillary-Clinton" target="_blank">http://presidential-candidates.insidegov.com/compare/35-40/Bernie-Sanders-vs-Hillary-Clinton</a>.</p>     <p><a href="http://www.bea.gov/newsreleases/glance.htm" target="_blank">http://www.bea.gov/newsreleases/glance.htm</a>.</p>     <p><a href="http://www.gallup.com/poll/110824/gallup-daily-us-economic-outlook.aspx" target="_blank">http://www.gallup.com/poll/110824/gallup-daily-us-economic-outlook.aspx</a>.</p>     <p><a href="http://www.msnbc.com/msnbc/nbcwsj-poll-anger-defines2016-electorate" target="_blank">http://www.msnbc.com/msnbc/nbcwsj-poll-anger-defines2016-electorate</a>.</p>     <p><a href="http://www.nytimes.com/interactive/2016/02/14/us/supreme-court-justice-ideology-scalia.html?_r=0" target="_blank">http://www.nytimes.com/interactive/2016/02/14/us/supreme-court-justice-ideology-scalia.html?_r=0</a>.</p>     <p><a href="http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/" target="_blank">http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/</a>.</p>     <p><a href="http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/" target="_blank">http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/</a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="http://www.pewresearch.org/data-trend/political-attitudes/party-identification" target="_blank">http://www.pewresearch.org/data-trend/political-attitudes/party-identification</a>.</p>     <p><a href="http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/congressional_job_approval-903.html" target="_blank">http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/congressional_job_approval-903.html</a>.</p>     <p><a href="http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/direction_of_country-902.html" target="_blank">http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/direction_of_country-902.html</a>.</p>     <p><a href="https://www.demconvention.com/platform/" target="_blank">https://www.demconvention.com/platform/</a>.</p>     <p><a href="https://www.donaldjtrump.com/positions" target="_blank">https://www.donaldjtrump.com/positions</a>.</p>     <p><a href="https://www.gop.com/platform/" target="_blank">https://www.gop.com/platform/</a>.</p>     <p><a href="https://www.hillaryclinton.com/issues/" target="_blank">https://www.hillaryclinton.com/issues/</a>.</p>     <p><a href="http://www.realclearpolitics.com" target="_blank">www.realclearpolitics.com</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 17 de agosto de 2016 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 14 de setembro de 2016</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Sobre esta sec&ccedil;&atilde;o e o funcionamento das prim&aacute;rias, ver Andr&eacute;, Jos&eacute; Gomes &ndash; &laquo;Sistema pol&iacute;tico e eleitoral norte-americano&raquo;. In Soromenho-Marques, Viriato &ndash; O Regresso da Am&eacute;rica. Lisboa: Esfera do Caos, 2008, pp. 213-231.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Cf. <a href="http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/congressional_job_approval-903.html" target="_blank">http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/congressional_job_approval-903.html</a>; <a href="http://www.msnbc.com/msnbc/nbcwsj-poll-anger-defines2016-electorate" target="_blank">http://www.msnbc.com/msnbc/nbcwsj-poll-anger-defines2016-electorate</a>; <a href="http://www.pewresearch.org/data-trend/political-attitudes/party-identification" target="_blank">http://www.pewresearch.org/data-trend/political-attitudes/party-identification</a>. (Consultado em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> APPLEBAUM, Anne &ndash; &laquo;The disappearance of moderate moderates&raquo;. (Consultado em: 25 de julho de 2016). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://news.nationalpost.com/full-comment/anne-applebaum-the-disappearance-of-moderate-moderates" target="_blank">http://news.nationalpost.com/full-comment/anne-applebaum-the-disappearance-of-moderate-moderates</a>.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Esta figura n&atilde;o existe no Partido Republicano, o que tornou ainda mais dif&iacute;cil contrariar a tend&ecirc;ncia de vit&oacute;ria de Donald Trump. Foram muitos os respons&aacute;veis do partido que, durante o ciclo eleitoral de 2016, lamentaram n&atilde;o dispor deste mecanismo para contrariar um candidato indesejado pelo establishment.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Cf. <a href="http://presidential-candidates.insidegov.com/compare/35-40/Bernie-Sanders-vs-Hillary-Clinton" target="_blank">http://presidential-candidates.insidegov.com/compare/35-40/Bernie-Sanders-vs-Hillary-Clinton</a>. (Consultado em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Tive a oportunidade de escrever sobre o funcionamento do Col&eacute;gio Eleitoral (ANDR&Eacute;, Jos&eacute; Gomes &ndash; &laquo;Sistema pol&iacute;tico e eleitoral norte-americano&raquo;, pp. 161-178).</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Cf. <a href="http://www.realclearpolitics.com" target="_blank">www.realclearpolitics.com</a>. (Consultado em: 19 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Sobre a forma como as altera&ccedil;&otilde;es demogr&aacute;ficas beneficiar&atilde;o tendencialmente os democratas no futuro, ver JUDIS, John, e TEIXEIRA, Ruy &ndash; <i>The Emerging Democratic Majority</i>. Scribner, 2004.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Cf. <a href="http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/" target="_blank">http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/</a>. (Consultado em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Cf. <a href="http://www.bea.gov/newsreleases/glance.htm" target="_blank">http://www.bea.gov/newsreleases/glance.htm</a>. (Consultado em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Agregado de sondagens no <i>Real Clear Politics</i>. (Consultado em: 25 de julho de 2016) Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/direction_of_country-902.html" target="_blank">http://www.realclearpolitics.com/epolls/other/direction_of_country-902.html</a>; Sondagens da <i>Gallup</i>. (Consultado em: 25 de julho de 2016). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.gallup.com/poll/110824/gallup-daily-us-economic-outlook.aspx" target="_blank">http://www.gallup.com/poll/110824/gallup-daily-us-economic-outlook.aspx</a>.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Sobre estas mat&eacute;rias e sec&ccedil;&otilde;es futuras que analisam as propostas de Hillary Clinton, ver o s&iacute;tio oficial da candidata (<a href="https://www.hillaryclinton.com/issues/" target="_blank">https://www.hillaryclinton.com/issues/</a>) e a plataforma do Partido Democrata dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.demconvention.com/platform/" target="_blank">https://www.demconvention.com/platform/</a>) (Consultados em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Sobre estas mat&eacute;rias e sec&ccedil;&otilde;es futuras que analisam as propostas de Donald Trump, ver o s&iacute;tio oficial do candidato (<a href="https://www.donaldjtrump.com/positions" target="_blank">https://www.donaldjtrump.com/positions</a>) e a plataforma do Partido Republicano dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.gop.com/platform/" target="_blank">https://www.gop.com/platform/</a>. (Consultados em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Cf. <a href="http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/" target="_blank">http://www.people-press.org/2016/07/07/4-top-voting-issues-in2016-election/</a>. (Consultado em: 25 de julho de 2016).</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup>&laquo;Padr&atilde;o ideol&oacute;gico&raquo; dos ju&iacute;zes do Supremo Tribunal. (Consultado em: 25 de julho de 2016). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.nytimes.com/interactive/2016/02/14/us/supreme-court-justice-ideology-scalia.html?_r=0" target="_blank">http://www.nytimes.com/interactive/2016/02/14/us/supreme-court-justice-ideology-scalia.html?_r=0</a>.</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[JUDIS]]></surname>
<given-names><![CDATA[John]]></given-names>
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<surname><![CDATA[TEIXEIRA]]></surname>
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<year>2004</year>
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<surname><![CDATA[SOROMENHO-MARQUES]]></surname>
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<year>2008</year>
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<publisher-name><![CDATA[Esfera do Caos]]></publisher-name>
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