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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>A CRISE DA DEMOCRACIA</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota introdut&oacute;ria: A crise da democracia</b></p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>Carmen Fonseca*,&nbsp;Madalena Meyer Resende**</b></p>     <p>* Professora auxiliar na FCSH-NOVA e investigadora do IPRI-NOVA. Doutorada em Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais pela FCSH-NOVA.</p>     <p>** Professora auxiliar na FCSH-NOVA e investigadora do IPRI-NOVA. Doutorada em Ci&ecirc;ncia Politica pela London School of Economics (2005). Tem numerosas publica&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais, incluindo o livro Nationalism and Catholicism: Changing Party Politics in Europe (Routledge, 2015). A sua investiga&ccedil;&atilde;o foca a Europa Central e Oriental e a Europa do Sul, e as tem&aacute;ticas do nacionalismo e das rela&ccedil;&otilde;es Igreja-Estado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Desde 1989 que uma assun&ccedil;&atilde;o otimista preconizava que a democracia iria ganhar terreno e estabelecer&#8209;se como o sistema pol&iacute;tico. Alguns argumentavam que n&atilde;o havia nenhuma alternativa ideol&oacute;gica &agrave; democracia liberal (a narrativa do fim da hist&oacute;ria), outros conclu&iacute;ram que em pa&iacute;ses de rendimento m&eacute;dio com governos democr&aacute;ticos ela era irrevers&iacute;vel.</p>     <p>A revis&atilde;o desta assun&ccedil;&atilde;o imp&otilde;e&#8209;se. Com todos os &iacute;ndices a mostrarem uma deteriora&ccedil;&atilde;o da qualidade da democracia em v&aacute;rios pa&iacute;ses, os partidos radicais de esquerda e de direita em ascens&atilde;o na Europa e os estudos de opini&atilde;o a apontarem para um ceticismo crescente na popula&ccedil;&atilde;o sobre o direito &agrave; democracia, torna-se &oacute;bvio que o otimismo se desvaneceu. Disto t&ecirc;m dado conta os <i>media </i>internacionais, chamando a aten&ccedil;&atilde;o para um debate que se adensa sobre as causas, os mecanismos e as consequ&ecirc;ncias dos processos pol&iacute;ticos em causa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na Europa, o fen&oacute;meno de revis&atilde;o ganha contornos pr&aacute;ticos, uma vez que em dois dos estados-membros, a Pol&oacute;nia e a Hungria, a eros&atilde;o dos mecanismos de controlo democr&aacute;tico est&aacute; em fase avan&ccedil;ada. Na Hungria desde 2010 que o Governo de Viktor Orb&aacute;n tem desmantelado o sistema constitucional de controlo democr&aacute;tico para criar um Estado que centraliza o controlo pol&iacute;tico nas m&atilde;os de um &uacute;nico partido. Em 2014, depois de ter alterado a lei eleitoral a favor do seu partido, o Fidesz transformou uma vit&oacute;ria de 45 por cento dos votos numa maioria absoluta, consolidando o seu controlo do poder. Na Pol&oacute;nia est&aacute; em curso um ataque sem precedentes ao Estado de direito, &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es de controlo democr&aacute;tico e &agrave; independ&ecirc;ncia judicial, assim como &agrave; liberdade de imprensa e de reuni&atilde;o. O ano de 2016 acaba com uma crise constitucional. Os eventos dram&aacute;ticos no Parlamento e nas ruas, com uma enorme mobiliza&ccedil;&atilde;o militar, corroboram que a Pol&oacute;nia est&aacute; a caminho da autocracia. Sendo a Uni&atilde;o Europeia uma comunidade fundada na partilha dos valores da democracia liberal, torna-se aqui premente que tamb&eacute;m os decisores pol&iacute;ticos e as institui&ccedil;&otilde;es europeias revejam os instrumentos de pol&iacute;tica externa no sentido de responder a este fen&oacute;meno.</p>     <p>Perante este cen&aacute;rio, torna&#8209;se crucial discutir sobre a evolu&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno da democracia, atentando em alguns casos n&atilde;o apenas na Europa mas tamb&eacute;m, por exemplo, na Am&eacute;rica Latina.</p>     <p>Com este intuito, o dossi&ecirc; &laquo;A crise da democracia&raquo; tem como objetivo principal refletir sobre a evolu&ccedil;&atilde;o da democracia quer a um n&iacute;vel te&oacute;rico e conceptual quer a um n&iacute;vel emp&iacute;rico. Assim, o dossi&ecirc; inicia&#8209;se com um artigo de Pedro T. Magalh&atilde;es que, recorrendo aos trabalhos de Max Weber e Carl Schmitt, faz uma an&aacute;lise da democracia contempor&acirc;nea. A dupla ilus&atilde;o a que o autor se refere no t&iacute;tulo do artigo sugere a ilus&atilde;o liberal de Weber, nos prim&oacute;rdios da Rep&uacute;blica de Weimar, e a ilus&atilde;o totalit&aacute;ria de Schmitt, cunhada na oposi&ccedil;&atilde;o irrevers&iacute;vel entre democracia e parlamentarismo. Atrav&eacute;s dessa conceptualiza&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria do per&iacute;odo entre guerras, Pedro T. Magalh&atilde;es tenta demonstrar os limites da democracia. Admitindo que a democracia se tornou um fen&oacute;meno global e que nunca existiram tantos regimes democr&aacute;ticos como na atualidade, o autor n&atilde;o tem d&uacute;vidas, por&eacute;m, de que a democracia est&aacute; em crise. Reflexo disso &eacute; a &laquo;tens&atilde;o entre seguran&ccedil;a e liberdades democr&aacute;ticas&raquo; ou a &laquo;aus&ecirc;ncia de expectativas de crescimento e prosperidade&raquo;, e a persist&ecirc;ncia de desafios imposs&iacute;veis de solucionar.</p>     <p>O artigo de Ant&oacute;nio Dias concentra&#8209;se nas an&aacute;lises sobre a crise das democracias acerca da qual o autor aponta dois problemas principais. Por um lado, a aus&ecirc;ncia de clareza conceptual. Se a defini&ccedil;&atilde;o de democracia sempre foi palco de confus&atilde;o e imprecis&atilde;o, o mesmo se tem verificado com as an&aacute;lises sobre a chamada eros&atilde;o democr&aacute;tica. Por outro lado, o autor considera tamb&eacute;m que se tem atribu&iacute;do pouca relev&acirc;ncia &agrave;s conclus&otilde;es da literatura sobre a terceira vaga da democratiza&ccedil;&atilde;o. Na verdade, os principais casos de &laquo;deteriora&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica&raquo; aconteceram precisamente na Europa Central e do Leste e na Am&eacute;rica Latina. No artigo &ndash; &laquo;Sobre &ldquo;desconsolida&ccedil;&atilde;o&rdquo; e retrocesso democr&aacute;tico&raquo; &ndash;, o autor elabora uma resenha dos conceitos e respetivas defini&ccedil;&otilde;es apresentadas por diversos te&oacute;ricos para propor uma defini&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria, com o objetivo de se compreenderem melhor e de se utilizarem adequadamente os conceitos de eros&atilde;o democr&aacute;tica, retrocesso democr&aacute;tico ou desconsolida&ccedil;&atilde;o da democracia. A partir dessa defini&ccedil;&atilde;o apresenta uma tipologia que permite descrever os processos de eros&atilde;o das democracias sa&iacute;das da terceira vaga de democratiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Para ilustrar a contextualiza&ccedil;&atilde;o inicial, s&atilde;o depois apresentados dois casos da Am&eacute;rica Latina: o Brasil e a Venezuela. O Brasil viveu o segundo <i>impeachment </i>presidencial tr&ecirc;s d&eacute;cadas depois da redemocratiza&ccedil;&atilde;o. Em setembro de 1992, o Presidente Collor de Mello foi afastado da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, e em agosto de 2016 o Senado brasileiro voltou a votar a favor do <i>impeachment </i>presidencial, pondo fim ao segundo mandato da Presidente Dilma Rousseff. Rousseff tinha iniciado este &uacute;ltimo sob fortes cr&iacute;ticas e protestos da sociedade civil, ao que se juntaram acusa&ccedil;&otilde;es de corrup&ccedil;&atilde;o e de fraudes fiscais. Sem uma base pol&iacute;tica de apoio forte, Dilma n&atilde;o resistiu ao processo de <i>impeachment </i>instaurado. &Eacute; este processo que Octavio Amorim Neto analisa no artigo &laquo;A crise pol&iacute;tica brasileira de 2015&#8209;2016: diagn&oacute;stico, sequelas e profilaxia&raquo;. Recuperando o modelo de James Mahoney, Amorim Neto avan&ccedil;a potenciais fatores explicativos da crise analisando o peso de cada um deles, nomeadamente a fragmenta&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria, a rigidez or&ccedil;amental, a economia internacional ou os erros de pol&iacute;tica interna. O autor concentra&#8209;se depois na an&aacute;lise das consequ&ecirc;ncias da crise, cujo principal alvo foi o pr&oacute;prio Partido dos Trabalhadores e consequentemente o sistema partid&aacute;rio que poder&aacute; sofrer uma r&aacute;pida desagrega&ccedil;&atilde;o. A par disto, tamb&eacute;m o sistema presidencialista brasileiro foi enfraquecido assim como a democracia brasileira, pois, no entender de Amorim Neto, o atual governo de Michel Temer &laquo;padece de um d&eacute;fice democr&aacute;tico&raquo;. Para que as consequ&ecirc;ncias sejam minoradas, a proposta de Octavio Amorim Neto &eacute; que seja implementado um conjunto de reformas que pode ir desde a altera&ccedil;&atilde;o do sistema pol&iacute;tico at&eacute; &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o de transforma&ccedil;&otilde;es no sistema partid&aacute;rio.</p>     <p>O caso da Venezuela &eacute; analisado por Laura Gamboa, no artigo &laquo;Venezuela: aprofundamento do autoritarismo ou transi&ccedil;&atilde;o para a democracia?&raquo;. Partindo do facto de que a Venezuela foi, na d&eacute;cada de 1990, uma das democracias latino&#8209;americanas mais est&aacute;veis, a evolu&ccedil;&atilde;o verificada apresenta a Venezuela como &laquo;um caso perfeito de eros&atilde;o democr&aacute;tica&raquo;. Nesse sentido, Laura Gamboa tenta perceber de que forma a Venezuela se tornou um pa&iacute;s autorit&aacute;rio e se &eacute; poss&iacute;vel, no curto prazo, voltar a ser uma democracia. O argumento da autora &eacute; que a eros&atilde;o da democracia na Venezuela pode ser explicada pelo papel desempenhado pela oposi&ccedil;&atilde;o contra Hugo Ch&aacute;vez entre 1998 e 2013, assim como na atualidade. A oposi&ccedil;&atilde;o utilizou estrat&eacute;gias institucionais e extrainstitucionais, mas tem sido a combina&ccedil;&atilde;o de elei&ccedil;&otilde;es com as manifesta&ccedil;&otilde;es que surtiu melhores efeitos. A an&aacute;lise de Gamboa conclui que a redemocratiza&ccedil;&atilde;o da Venezuela ser&aacute;, por certo, um processo muito complexo pois a perman&ecirc;ncia do chavismo no governo s&oacute; ser&aacute; poss&iacute;vel se se tornar totalmente autorit&aacute;rio.</p>     <p>Como fica claro, o dossi&ecirc; n&atilde;o esgota de todo a tem&aacute;tica tratada. Representa apenas um contributo importante para o debate que tem vindo a ser feito, e porventura continuar&aacute; a fazer&#8209;se, sobre o estado da democracia e as reformas por que eventualmente ter&aacute; de passar para que continue a ser uma garantia da paz.</p>      ]]></body>
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