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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Coesão económica e social: Do apogeu ao crepúsculo?]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Economic and social cohesion: from the apogee to the twilight?]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The big project to rebuild and unify Europe, launched after Second World War, had been grounded on the solidarity principle which had been highlighted by European founding fathers as Monnet, Schumann and Adenauer. This principle is the base of the economic and social cohesion concept created by Jacques Delors and supported by Tommaso Paddoa&#8209;Schioppa and would become to integrate the European Single Act. The cohesion tools have been responsible for the strong real convergence and marked growth of the European economy until the end of 90's. Among other factors, the enlargement to the East and Central Europe, the financial crisis, the intergovernmental drift in the institutional system, led to the economic and social cohesion concept dilution. But without cohesion - political, economic and social - there will be no future to the Union. And there will be no &#8216;variable geometry' that could save it.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>A FACE VIS&Iacute;VEL DA EUROPA. OS FUNDOS EUROPEUS EM PORTUGAL</b></p>     <p><b>Coes&atilde;o econ&oacute;mica e social. </b><b>Do apogeu ao crep&uacute;sculo?</b></p>     <p><b>Economic and social cohesion: from the apogee to the twilight?</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>V&iacute;tor Martins</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>O grande projeto de reconstruir e unir a Europa, lan&ccedil;ado no p&oacute;s-guerra, foi alicer&ccedil;ado no princ&iacute;pio da solidariedade, princ&iacute;pio muito enfatizado pelos fundadores como Monnet, Schumann, Adenauer. E &eacute; esse princ&iacute;pio que est&aacute; na base do conceito de coes&atilde;o econ&oacute;mica e social criado por Jacques Delors com o apoio de Tommaso Paddoa&#8209;Schioppa, o qual viria a integrar o Ato &Uacute;nico Europeu. Os instrumentos de coes&atilde;o foram respons&aacute;veis pela intensa converg&ecirc;ncia real e pelo acentuado crescimento que a economia europeia conheceu at&eacute; finais dos anos 1990. O alargamento ao Centro e Leste da Europa, a crise financeira e a deriva intergovernamental no sistema institucional, entre outros fatores, conduziram &agrave; dilui&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da coes&atilde;o econ&oacute;mica e social. Ora, sem coes&atilde;o &ndash; pol&iacute;tica, econ&oacute;mica e social! &ndash; n&atilde;o haver&aacute; futuro para a Uni&atilde;o. E n&atilde;o haver&aacute; &laquo;geometria vari&aacute;vel&raquo; que a possa salvar.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Uni&atilde;o Europeia, Fundo de Coes&atilde;o, Acto &Uacute;nico Europeu, Jacques Delors.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The big project to rebuild and unify Europe, launched after Second World War, had been grounded on the solidarity principle which had been highlighted by European founding fathers as Monnet, Schumann and Adenauer. This principle is the base of the economic and social cohesion concept created by Jacques Delors and supported by Tommaso Paddoa&#8209;Schioppa and would become to integrate the European Single Act. The cohesion tools have been responsible for the strong real convergence and marked growth of the European economy until the end of 90&rsquo;s. Among other factors, the enlargement to the East and Central Europe, the financial crisis, the intergovernmental drift in the institutional system, led to the economic and social cohesion concept dilution. But without cohesion &ndash; political, economic and social &ndash; there will be no future to the Union. And there will be no &lsquo;variable geometry&rsquo; that could save it.</p>     <p><b>Keywords:</b> European Union, Cohesion Found, European Single Act, Jacques Delors.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Os Fundos Estruturais (Fundos) da Uni&atilde;o Europeia (UE) s&atilde;o um dos instrumentos das pol&iacute;ticas de coes&atilde;o. N&atilde;o s&atilde;o o &uacute;nico instrumento, mas s&atilde;o, indiscutivelmente, um dos mais importantes, como o seu hist&oacute;rico comprova com eloqu&ecirc;ncia.</p>     <p>A escorar as pol&iacute;ticas de coes&atilde;o est&aacute; o princ&iacute;pio da solidariedade que tem, no seu reverso, o princ&iacute;pio da subsidiariedade. Vale a pena compreender a sua g&eacute;nese e o seu percurso.</p>     <p>N&atilde;o &eacute; irrelevante recordar que, logo em 1950, a Declara&ccedil;&atilde;o Schumann que lan&ccedil;ou a integra&ccedil;&atilde;o europeia enfatizava a &laquo;solidariedade de facto&raquo; como um dos pilares fundamentais. N&atilde;o uma solidariedade ret&oacute;rica, declarativa, simb&oacute;lica, mas uma solidariedade efetiva, tang&iacute;vel, permanente. E foi esse conceito que o Tratado de Roma acolheu, j&aacute; l&aacute; v&atilde;o seis d&eacute;cadas. Os fundadores exprimiram, ainda que com formula&ccedil;&otilde;es diversas, a import&acirc;ncia que atribu&iacute;am &agrave; solidariedade como cimento indispens&aacute;vel para o sucesso da constru&ccedil;&atilde;o europeia. Relevo, com o expressivo e inspirador exemplo disso mesmo, palavras do chanceler Adenauer: &laquo;A ideia do direito e justi&ccedil;a, de respeito e de solidariedade, deve guiar todas as nossas a&ccedil;&otilde;es.&raquo; Nesta curta e incisiva frase de um grande l&iacute;der europeu do p&oacute;s-guerra encontramos o quadro de princ&iacute;pios que fundou a integra&ccedil;&atilde;o europeia.</p>     <p>N&atilde;o &eacute; secund&aacute;rio que nessa frase a &laquo;solidariedade&raquo; apare&ccedil;a referida em paralelo com o &laquo;respeito&raquo;. &Eacute; que a solidariedade para ser efetiva tem de respeitar as identidades, as especificidades, numa palavra, a diversidade. A &laquo;solidariedade&raquo; decidida e exercida sem ponderar, nem respeitar as condi&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas e o quadro identit&aacute;rio das na&ccedil;&otilde;es e das regi&otilde;es que a esperam e justificam, pode ter at&eacute; severas consequ&ecirc;ncias perversas nos planos pol&iacute;tico, econ&oacute;mico e social. Veja&#8209;se, como exemplo, a forma e o modo como a UE lidou com os resgates financeiros dos estados&#8209;membros que enfrentaram crises de d&iacute;vida soberana. Ora, para Adenauer era simples: o direito tem de andar alinhado com a justi&ccedil;a; e a solidariedade tem de casar com o respeito.</p>     <p>Desde o in&iacute;cio do processo de integra&ccedil;&atilde;o que se percebe bem a aten&ccedil;&atilde;o e o cuidado que era posto, na constru&ccedil;&atilde;o, passo a passo, de uma Europa coesa e solid&aacute;ria. Nas d&eacute;cadas de 1960 e 1970 era frequente a express&atilde;o &laquo;integra&ccedil;&atilde;o harmoniosa&raquo; para designar um processo que n&atilde;o devia alienar identidades, marginalizar na&ccedil;&otilde;es, cavar assimetrias. No m&eacute;todo comunit&aacute;rio &ndash; uma das originalidades bem-sucedidas das primeiras d&eacute;cadas de integra&ccedil;&atilde;o europeia &ndash; o sistema de decis&atilde;o, embora sempre sob a natural tens&atilde;o dos interesses nacionais, visava identificar e maximizar o per&iacute;metro do interesse comum, cabendo &agrave; Comiss&atilde;o Europeia (outra das originalidades da CEE), um papel central e decisivo. O pr&oacute;prio &laquo;Compromisso do Luxemburgo&raquo; t&atilde;o controverso, admitindo, fora dos tratados, a excecionalidade da invoca&ccedil;&atilde;o do &laquo;interesse vital&raquo;, pretendia garantir aos parceiros um &uacute;ltimo recurso, para fazer prevalecer interesses tidos por cr&iacute;ticos e fundamentais. Era como que um <i>safety net</i> invoc&aacute;vel em situa&ccedil;&otilde;es particularmente graves para o interesse nacional. Em nome de qu&ecirc;? Da solidariedade e da coes&atilde;o. Para prevenir o qu&ecirc;? Ruturas e distor&ccedil;&otilde;es na ades&atilde;o dos parceiros ao projeto de integra&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Embora se considerasse, e com bom fundamento, que a constru&ccedil;&atilde;o europeia era um <i>win-win project</i> em que o interesse comum era um motor que criava valor acrescentado com benef&iacute;cio para todos, sempre se quis acautelar os riscos que resultariam de efeitos assim&eacute;tricos decorrentes do processo de aprofundamento da integra&ccedil;&atilde;o. Esta preocupa&ccedil;&atilde;o cresceu &agrave; medida que as Comunidades Europeias se alargaram e aprofundaram. Logo o primeiro alargamento (Reino Unido, Irlanda e Dinamarca) induziu &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do Fundo de Desenvolvimento Regional, originalmente n&atilde;o mais do que uma <i>facility</i> financeira para apoiar regi&otilde;es que, sofrendo de vulnerabilidades e atrasos estruturais, n&atilde;o conseguiam captar todas as vantagens da integra&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica, nomeadamente do mercado comum. Contudo, foi no contexto do terceiro alargamento, aquele que h&aacute; 30 anos integrou Portugal e Espanha, que o conceito de coes&atilde;o econ&oacute;mica e social ganhou &laquo;foral&raquo;. Por um lado, construiu&#8209;se uma base conceptual bem identificada e por todos assumida. Por outro lado, transp&ocirc;s&#8209;se o conceito para o tratado, dando&#8209;lhe estatuto de direito prim&aacute;rio.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tudo isso ocorreu com o Ato &Uacute;nico Europeu, negociado nos finais de 1985, j&aacute; Portugal tinha assinado o tratado de ades&atilde;o, e que foi ratificado ainda em 1986. O Ato &Uacute;nico Europeu, hoje pe&ccedil;a quase esquecida no admir&aacute;vel percurso da integra&ccedil;&atilde;o europeia, foi dos passos mais decisivos e estruturantes da constru&ccedil;&atilde;o da unidade da Europa, ap&oacute;s o Tratado de Roma, em 1957.</p>     <p>Negociado num c&eacute;lebre Conselho Europeu, em dezembro de 1985, no Luxemburgo, onde pontificavam l&iacute;deres como Helmutt Kohl, Fran&ccedil;ois Mitterrand, Margareth Thatcher e Giulio Andreotti, o Ato &Uacute;nico Europeu fundou o mercado &uacute;nico com as quatro liberdades de circula&ccedil;&atilde;o fundamentais (produtos, capitais, servi&ccedil;os e, naturalmente, pessoas) e projetou o princ&iacute;pio da coes&atilde;o econ&oacute;mica e social.</p>     <p>Se do lado do Conselho Europeu &agrave; volta da mesa se sentavam l&iacute;deres da extraordin&aacute;ria envergadura dos j&aacute; referidos, a que se juntavam Cavaco Silva e Felipe Gonz&aacute;lez &ndash; ainda que formalmente estes com o estatuto de observadores &ndash;, do lado da Comiss&atilde;o, &eacute; bom lembr&aacute;&#8209;lo, a presid&ecirc;ncia era assumida por Jacques Delors, que tinha alcan&ccedil;ado essa nomea&ccedil;&atilde;o porque a &laquo;dama de ferro&raquo; brit&acirc;nica vetara Claude Chesson (o primeiro nome proposto pela Fran&ccedil;a). Ora, esse incidente hist&oacute;rico veio a revelar&#8209;se decisivo para o devir da integra&ccedil;&atilde;o europeia. &Eacute; que foi precisamente Delors que arrancou a integra&ccedil;&atilde;o europeia da <i>euroesclerose </i>&ndash; express&atilde;o com que na altura se definia a estagna&ccedil;&atilde;o e o marasmo europeus &ndash; para o per&iacute;odo de fulgor que se seguiu. Esp&iacute;rito sagaz, inquieto, combinando, na linha inspiradora de Monnet, a vis&atilde;o com o pragmatismo, Jacques Delors entendeu que era hora de levar a integra&ccedil;&atilde;o para outros patamares.</p>     <p>Vale a pena recordar palavras suas em 1985, logo no in&iacute;cio do seu mandato:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;A Europa chegou a uma encruzilhada. Ou avan&ccedil;a com firmeza e determina&ccedil;&atilde;o ou retorna &agrave; mediocridade. Ou nos resolvemos a levar at&eacute; ao fim a integra&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica da Europa ou ent&atilde;o abdicamos, por falta de vontade pol&iacute;tica para fazer face &agrave; imensidade da tarefa, e consentimos que a Europa se torne uma simples zona de com&eacute;rcio livre.&raquo;</blockquote>     <p></p>     <p>Como ecoam atuais estas palavras de Delors, escritas h&aacute; mais de 30 anos! E estas s&atilde;o tamb&eacute;m palavras suas:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Recordo&#8209;me das minhas interroga&ccedil;&otilde;es ao chegar &agrave; presid&ecirc;ncia da Comiss&atilde;o das Comunidades Europeias em Janeiro de 1985: dever&iacute;amos lan&ccedil;armo&#8209;nos numa reforma institucional e pol&iacute;tica da Comunidade ou propor como prioridade a unifica&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria ou, ainda, mobilizar os europeus relativamente &agrave; seguran&ccedil;a e defesa? Mas, por m&uacute;ltiplas raz&otilde;es relativas &agrave;s compet&ecirc;ncias limitadas da institui&ccedil;&atilde;o europeia e ap&oacute;s ter testado junto dos governos dos Estados membros todos os projectos de relan&ccedil;amento, optei por, de acordo com os princ&iacute;pios caros a Jean Monnet, designar um objectivo mobilizador e fixar um calend&aacute;rio para o atingir.&raquo;</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>     <p>Assim nasceu o mercado &uacute;nico, cujo livro branco apresentado na Cimeira de Mil&atilde;o de junho de 1985, veio a estar na base do Ato &Uacute;nico Europeu.</p>     <p>O impulso que a integra&ccedil;&atilde;o europeia conheceu a partir da&iacute; fundou&#8209;se num tr&iacute;ptico conceptual definido por Delors como a matriz que deveria escorar todos os passos: competi&ccedil;&atilde;o &ndash; coopera&ccedil;&atilde;o &ndash; solidariedade.</p>     <p>Um relat&oacute;rio &ndash; o Relat&oacute;rio Cecchini &ndash; mostrou aos europeus o que ent&atilde;o se designou pelos &laquo;custos da n&atilde;o Europa&raquo;. Ou, de outra maneira, o que a Europa teria a ganhar com a elimina&ccedil;&atilde;o de barreiras e o aprofundamento da constru&ccedil;&atilde;o europeia. A realiza&ccedil;&atilde;o de um &laquo;espa&ccedil;o sem fronteiras&raquo; que permitiu um verdadeiro &laquo;mercado comum&raquo;, traria acr&eacute;scimos de competitividade, relan&ccedil;amento do investimento, cria&ccedil;&atilde;o de emprego e crescimento econ&oacute;mico e, ainda, uma muito maior afirma&ccedil;&atilde;o externa pela express&atilde;o que o maior bloco econ&oacute;mico do mundo poderia assumir no contexto internacional. Tudo isso se viria a confirmar na d&eacute;cada de ouro da integra&ccedil;&atilde;o europeia entre 1985 e 1995, d&eacute;cada que Felipe Gonz&aacute;lez costuma qualificar de &laquo;a cavalgada europeia sob a lideran&ccedil;a de Delors&raquo;.</p>     <p>Para Jacques Delors, o mercado &uacute;nico teria de ser acompanhado de um refor&ccedil;o das pol&iacute;ticas de converg&ecirc;ncia. Mercado &uacute;nico e coes&atilde;o s&atilde;o as duas faces do espa&ccedil;o sem fronteiras. A coes&atilde;o foi tida como vital quando o mercado &uacute;nico foi lan&ccedil;ado. Recordo mais uma vez Delors em discurso direto: &laquo;Esta coes&atilde;o era para n&oacute;s indispens&aacute;vel. A Comiss&atilde;o Europeia, guardi&atilde; do interesse superior europeu, n&atilde;o podia considerar, e muito menos aceitar, que o grande mercado &ndash; proposta sua &ndash; viesse agravar os desequil&iacute;brios existentes<i>.</i>&raquo;</p>     <p>O saudoso Tommaso Paddoa&#8209;Schioppa foi ent&atilde;o, sob a orienta&ccedil;&atilde;o de Jacques Delors, quem elaborou o conceito de &laquo;coes&atilde;o econ&oacute;mica e social&raquo; que o Ato &Uacute;nico Europeu consagrou. Na simplicidade da sua perce&ccedil;&atilde;o, o conceito estabelecia que, a mais ambi&ccedil;&atilde;o na integra&ccedil;&atilde;o, deveria sempre corresponder mais coes&atilde;o. E mais estabelecia que a coes&atilde;o n&atilde;o chegaria apenas pelas for&ccedil;as do mercado, impunha outrossim pol&iacute;ticas voluntaristas ou &laquo;pol&iacute;ticas de acompanhamento e compensa&ccedil;&atilde;o&raquo; para usar termos do pr&oacute;prio Paddoa Schioppa. Era ent&atilde;o tamb&eacute;m entendido que o esfor&ccedil;o de coes&atilde;o econ&oacute;mica e social n&atilde;o relevava apenas de equidade e solidariedade. Era ele pr&oacute;prio um instrumento de desenvolvimento que todos beneficiava, j&aacute; que tirava partido da imensa &laquo;reserva de crescimento econ&oacute;mico&raquo; que as regi&otilde;es menos desenvolvidas poderiam potenciar.</p>     <p>O mercado &uacute;nico e a coes&atilde;o constitu&iacute;ram, ambos sublinhe&#8209;se, o motor do intenso crescimento econ&oacute;mico que a Europa conheceu nessa d&eacute;cada. Os pacotes Delors I e II, aprovados em 1988 e 1992, foram ferramentas decisivas para o crescimento econ&oacute;mico e tamb&eacute;m para a converg&ecirc;ncia que ent&atilde;o se operou. O caso de Portugal &eacute; um bom exemplo.</p>     <p>E foi ainda o conceito de coes&atilde;o econ&oacute;mica e social, que Lady Thatcher procurava sempre subestimar (&laquo;its their word for cash &hellip;&raquo;), mas que, acentue&#8209;se, nunca vetou, que permitiu fundar iniciativas que, nesse per&iacute;odo, vingaram e se revelaram de impactos positivos muito significativos para v&aacute;rios pa&iacute;ses e regi&otilde;es da Europa, como foi o caso do nosso pa&iacute;s.</p>     <p>Disso exemplo foi a flexibiliza&ccedil;&atilde;o do FEDER para apoiar investimentos no setor da educa&ccedil;&atilde;o. Exemplo maior foi tamb&eacute;m o PEDIP (Programa Espec&iacute;fico para o Desenvolvimento da Ind&uacute;stria Portuguesa). Semeado no tratado de ades&atilde;o, sob proposta portuguesa subscrita por Delors (ele mesmo escreveu pelo seu punho a declara&ccedil;&atilde;o que a esse prop&oacute;sito figurou anexa ao tratado de ades&atilde;o), o PEDIP veio a ser consagrado em 1988, na Cimeira de Bruxelas, mau grado alguma oposi&ccedil;&atilde;o da &laquo;dama de ferro&raquo; prontamente contrariada pelo triunvirato &laquo;Delors, Mitterrand, Kohl&raquo;. Recordo muitas conversas que tive com Jacques Delors na negocia&ccedil;&atilde;o do PEDIP e a sua firme determina&ccedil;&atilde;o em lev&aacute;&#8209;lo por diante. Sem o seu empenho nunca teria sido poss&iacute;vel. Foi um instrumento inovador cujo impacto, por mais pol&eacute;mico que possa ser, foi seguramente muito positivo para a ind&uacute;stria portuguesa.</p>     <p>Outro exemplo, bem expressivo, tem a ver com as &laquo;regi&otilde;es ultraperif&eacute;ricas&raquo;. Na Cimeira de Rodes, em 1989, o Professor Cavaco Silva, ent&atilde;o primeiro&#8209;ministro, apresentou a proposta da cria&ccedil;&atilde;o de um estatuto especial para as regi&otilde;es insulares distantes do continente que sofriam de vulnerabilidades espec&iacute;ficas no confronto com as exig&ecirc;ncias e as sinergias do mercado &uacute;nico. No caso portugu&ecirc;s, estavam em causa as regi&otilde;es da Madeira e dos A&ccedil;ores, mas seriam abrang&iacute;veis outras regi&otilde;es como as Can&aacute;rias (Espanha) e os PTOM e DOM (Fran&ccedil;a). Essa proposta, que viria a singrar depois de complexa negocia&ccedil;&atilde;o, fundou&#8209;se naturalmente no princ&iacute;pio da coes&atilde;o econ&oacute;mica e social e nas disposi&ccedil;&otilde;es do pr&oacute;prio Ato &Uacute;nico Europeu. Da&iacute; nasceu o POSEIMA que enquadrou apoios espec&iacute;ficos &agrave; Madeira e aos A&ccedil;ores, de modo a poderem enfrentar com sucesso o desafio do mercado &uacute;nico. O seu impacto foi extraordinariamente positivo nas duas regi&otilde;es aut&oacute;nomas. O estatuto de regi&atilde;o &laquo;ultraperif&eacute;rica&raquo; veio a ser consolidado no Tratado de Amesterd&atilde;o em 1996.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas negocia&ccedil;&otilde;es do Tratado da Uni&atilde;o Europeia, em 1991, a quest&atilde;o da coes&atilde;o econ&oacute;mica e social foi ponderada &agrave; luz do objetivo da Uni&atilde;o Econ&oacute;mica e Monet&aacute;ria (UEM). J&aacute; o Relat&oacute;rio Delors para a UEM, que foi a base do acordo de Maastricht, previa a necessidade de refor&ccedil;ar os instrumentos europeus para prevenir os riscos de agravamento das assimetrias em decorr&ecirc;ncia do aprofundamento da integra&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria. O mesmo relat&oacute;rio previa igualmente medidas anticrise para proteger a zona euro.</p>     <p>O arsenal de medidas anticrise que Delors tanto defendeu ficou adiado, tal como a uni&atilde;o econ&oacute;mica que n&atilde;o se assumiu &agrave; altura do projeto federal da uni&atilde;o monet&aacute;ria. Um erro que foi essencialmente patrocinado pela Alemanha. Quanto &agrave; coes&atilde;o econ&oacute;mica e social foi poss&iacute;vel, num quadro de negocia&ccedil;&otilde;es muito duras, refor&ccedil;&aacute;&#8209;la. A Comiss&atilde;o, apoiada essencialmente por Portugal e Espanha, p&ocirc;de fazer vingar o fundamental das suas propostas nesse tema.</p>     <p>No plano tang&iacute;vel, avulta a cria&ccedil;&atilde;o do Fundo de Coes&atilde;o que foi, de resto, proposta portuguesa. Num memorando intitulado &laquo;Fundo Europeu de Coes&atilde;o&raquo;, Portugal p&ocirc;s na mesa a cria&ccedil;&atilde;o de um novo instrumento financeiro para apoiar as redes transeuropeias e o ambiente. O tratado acabou por prever a sua cria&ccedil;&atilde;o. E foi na Cimeira de Lisboa, sob presid&ecirc;ncia do Professor Cavaco Silva, em 1992, que o Fundo de Coes&atilde;o foi constitu&iacute;do. Para a sua aprova&ccedil;&atilde;o, que teve a forte resist&ecirc;ncia dos alem&atilde;es e dos ingleses, foi decisivo o apoio de Fran&ccedil;ois Mitterrand, inclusive durante o debate ocorrido naquele Conselho Europeu, desmontando a oposi&ccedil;&atilde;o de Kohl e Major.</p>     <p>Posteriormente, no Conselho Europeu de Edimburgo, em dezembro de 1992, o Pacote Delors II foi aprovado, incluindo o maior envelope financeiro de sempre para apoio da coes&atilde;o. Com esta aprova&ccedil;&atilde;o as pol&iacute;ticas europeias para apoiar a converg&ecirc;ncia econ&oacute;mica e social garantiram um lugar de destaque no or&ccedil;amento da (UE). Diminu&iacute;a o or&ccedil;amento para a pol&iacute;tica agr&iacute;cola. Progrediam os meios or&ccedil;amentais para a coes&atilde;o. Cresciam os recursos pr&oacute;prios da Uni&atilde;o.</p>     <p>Portugal passou de um PIB <i>per capita</i>de 53 por cento face &agrave; m&eacute;dia europeia, em 1986, para cerca de 75 por cento a meados da d&eacute;cada de 1990. Essa acelerada converg&ecirc;ncia s&oacute; foi poss&iacute;vel com o apoio dos fundos europeus. A moderniza&ccedil;&atilde;o das infraestruturas, a atra&ccedil;&atilde;o de investimento estrangeiro (com a Autoeuropa como um exemplo expressivo), a internacionaliza&ccedil;&atilde;o da economia portuguesa devem muito aos apoios comunit&aacute;rios. Igualmente a qualidade de vida dos portugueses, muito particularmente nas regi&otilde;es do pa&iacute;s menos desenvolvidas. Que seria do interior do pa&iacute;s sem esses apoios?!</p>     <p>A import&acirc;ncia atribu&iacute;da ent&atilde;o &agrave;s pol&iacute;ticas de coes&atilde;o &eacute; bem evidenciada no quarto alargamento, que incluiu a Su&eacute;cia, a Finl&acirc;ndia e a &Aacute;ustria, em 1995. Nessa altura, os instrumentos de coes&atilde;o foram adaptados para poderem apoiar as regi&otilde;es menos desenvolvidas desses pa&iacute;ses. Em particular, a Finl&acirc;ndia beneficiou mesmo de um novo objetivo de coes&atilde;o (o objetivo 6) que permitiu canalizar fundos europeus para as zonas mais n&oacute;rdicas desse pa&iacute;s escandinavo. Delors empenhou&#8209;se muito nessa decis&atilde;o. Lembro&#8209;me de o ouvir argumentar que era muito importante que os novos aderentes da UE, beneficiando tamb&eacute;m dos instrumentos de coes&atilde;o, compreendessem a natureza e o alcance das pol&iacute;ticas de coes&atilde;o para o projeto de constru&ccedil;&atilde;o europeia.</p>     <p>Exemplo cimeiro &ndash; tantas vezes esquecido! &ndash; da aplica&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da coes&atilde;o econ&oacute;mica &eacute; tamb&eacute;m o da unifica&ccedil;&atilde;o da Alemanha, ap&oacute;s a queda do Muro de Berlim. Essa vit&oacute;ria pol&iacute;tica da Europa, que muito deveu &agrave; integra&ccedil;&atilde;o europeia, fez disparar, a favor do Leste da Alemanha, um poderoso arsenal de medidas de apoio e, em particular, de significativos fluxos financeiros a partir dos Fundos Estruturais. As pol&iacute;ticas de coes&atilde;o foram mobilizadas para tornar poss&iacute;vel a integra&ccedil;&atilde;o harmoniosa da Alemanha de Leste. Todos os estados&#8209;membros contribu&iacute;ram para isso. E n&atilde;o foram s&oacute; apoios financeiros. O Leste da Alemanha beneficiou ent&atilde;o, com base no conceito de coes&atilde;o, de v&aacute;rias derroga&ccedil;&otilde;es tempor&aacute;rias &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o do direito comunit&aacute;rio, em particular no dom&iacute;nio da concorr&ecirc;ncia, para facilitar ajudas de Estado ao investimento e ao refor&ccedil;o do tecido empresarial!</p>     <p>Contudo, &agrave; entrada do s&eacute;culo XXI, com o advento do euro, a coes&atilde;o econ&oacute;mica e social passou para plano secund&aacute;rio. Primeiro, de forma subtil. Depois, de forma ostensiva. Chegou a ser considerado &laquo;politicamente incorreto&raquo; invocar a coes&atilde;o econ&oacute;mica e social. As raz&otilde;es, principalmente pol&iacute;ticas, foram m&uacute;ltiplas. Desde logo, o enfraquecimento da Comiss&atilde;o Europeia no processo de decis&atilde;o, o que se agravou com o Tratado de Lisboa. A Comiss&atilde;o, principalmente sob o comando de Delors, tinha sido determinante na conce&ccedil;&atilde;o e na negocia&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de coes&atilde;o. A partir da primeira d&eacute;cada do novo mil&eacute;nio n&atilde;o mais a Comiss&atilde;o conseguiu ser o grande motor da integra&ccedil;&atilde;o europeia.</p>     <p>Em segundo lugar, o lan&ccedil;amento do euro criou um novo foco na UE que ajudou a diluir o princ&iacute;pio da coes&atilde;o econ&oacute;mica e social. Os contribuintes l&iacute;quidos consideravam que, com o euro, a responsabilidade de converg&ecirc;ncia era dos estados&#8209;membros. O euro j&aacute; era prote&ccedil;&atilde;o suficiente.</p>     <p>Em terceiro lugar, o neoliberalismo impunha&#8209;se como conce&ccedil;&atilde;o progressivamente dominante, mesmo na UE. O mercado resolve tudo. A regulamenta&ccedil;&atilde;o intensiva &eacute; inimiga do crescimento e do progresso. Os Fundos Estruturais eram vistos como &laquo;aux&iacute;lios perversos&raquo; que geravam &laquo;subs&iacute;dio&#8209;depend&ecirc;ncia&raquo; e quebravam a energia do empreendedorismo e os benef&iacute;cios da competi&ccedil;&atilde;o. A integra&ccedil;&atilde;o europeia deveria concentrar&#8209;se na liberaliza&ccedil;&atilde;o, na abertura de mercados, na desregulamenta&ccedil;&atilde;o. A coes&atilde;o era tida como voluntarismo <i>d&eacute;mod&eacute;</i>e contraproducente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em quarto lugar, o alargamento ao Leste da Europa, agravou a perce&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de coes&atilde;o. N&atilde;o s&oacute; o foco adornou para leste, como a UE n&atilde;o acautelou o impacto do alargamento nos estados&#8209;membros. O quinto alargamento da UE, absolutamente imperativo por raz&otilde;es pol&iacute;ticas e, em particular, geopol&iacute;ticas, desencadeou efeitos negativos com impacto assim&eacute;trico nos diversos estados. Portugal, em especial pela sua localiza&ccedil;&atilde;o e pelo seu perfil econ&oacute;mico, suportou, em termos relativos, a maior fatura, como diversos estudos o confirmaram. Nada disso foi prevenido, nem acautelado, pela UE.</p>     <p>Finalmente, com a crise financeira, a partir de 2008, o conceito de coes&atilde;o econ&oacute;mica e social ainda mais empalideceu. A forma desastrosa como a UE respondeu &agrave; crise das d&iacute;vidas soberanas dos pa&iacute;ses ditos &laquo;perif&eacute;ricos&raquo; gerou s&eacute;rias e perigosas clivagens entre estados&#8209;membros, uns tidos por virtuosos, e outros por incumpridores cr&oacute;nicos, fazendo alimentar uma falsa superioridade moral que cavou uma desconfian&ccedil;a que perdura. O esp&iacute;rito de solidariedade dos fundadores e o conceito racional de Delors sobre a coes&atilde;o econ&oacute;mica e social dilu&iacute;ram&#8209;se na voragem da crise.</p>     <p>Felizmente, os Fundos Estruturais perduram e continuam a financiar as regi&otilde;es menos desenvolvidas. Apoio ainda decisivo para Portugal que procura tirar partido da Agenda 2020. Mas no plano macropol&iacute;tico, os objetivos da coes&atilde;o s&atilde;o olhados com desconfian&ccedil;a, tidos erradamente como um &oacute;nus que pesa sobre os pa&iacute;ses ricos que da&iacute; nada beneficiam. Alguns creem mesmo que seria conveniente desencadearem a fuga em frente para se &laquo;libertarem&raquo; dos pa&iacute;ses da coes&atilde;o, considerados como um fardo. Se o fizessem, e estou ainda convicto que n&atilde;o o far&atilde;o, cavariam a prazo a desintegra&ccedil;&atilde;o da UE.</p>     <p>A geometria vari&aacute;vel h&aacute; muito que existe na UE. Quem n&atilde;o quer ou n&atilde;o pode acompanhar o aprofundamento da integra&ccedil;&atilde;o, fica noutro patamar. J&aacute; foi assim com Schengen e com o euro, para dar apenas dois exemplos. O que n&atilde;o pode aceitar&#8209;se &eacute; deixar cair esse pilar fundamental da integra&ccedil;&atilde;o europeia que &eacute; a coes&atilde;o econ&oacute;mica e social.</p>     <p>Geometria vari&aacute;vel, velocidades diferenciadas, c&iacute;rculos conc&ecirc;ntricos, tudo isso &eacute; poss&iacute;vel e, em muitos momentos, at&eacute; desej&aacute;vel. Todavia, a solidariedade e a coes&atilde;o, nos planos pol&iacute;tico, econ&oacute;mico e social, t&ecirc;m de ser um imperativo, permanente e transversal. E nunca um princ&iacute;pio descart&aacute;vel.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 23 de janeiro de 2017 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 21 de fevereiro de 2017</i></p>      ]]></body>
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