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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL EM ÁFRICA</b></p>     <p><strong>Nota introdut&oacute;ria: O Tribunal Penal Internacional em &Aacute;frica</strong></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>Filipa Raimundo* e Ana L&uacute;cia S&aacute;**</strong></p>     <p>* Doutorada em Ci&ecirc;ncias Pol&iacute;ticas e Sociais pelo Instituto Universit&aacute;rio Europeu de Floren&ccedil;a. Atualmente &eacute; investigadora no ICS-UL e Professora Auxiliar Convidada no Departamento de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas do ISCTE-IUL. Tem publicado nas revistas&nbsp;<em>Democratization</em>,&nbsp;<em>South&nbsp;European&nbsp;Society&nbsp;and&nbsp;Politics, An&aacute;lise Social</em>, entre outras&nbsp;e nas editoras&nbsp;Palgrave/Macmillan, Routledge e Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira. Os seus interesses de pesquisa incluem a justi&ccedil;a transicional, democratiza&ccedil;&otilde;es e decis&atilde;o pol&iacute;tica.</p>     <p>**&nbsp;Doutorada em Sociologia. Atualmente &eacute; Professora Auxiliar Convidada no ISCTE-IUL e diretora do Mestrado em Estudos Africanos. &Eacute; investigadora no Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL). A sua investiga&ccedil;&atilde;o centra-se nas rela&ccedil;&otilde;es sociedade-Estado em regimes autorit&aacute;rios em &Aacute;frica, especialmente em Angola e na Guin&eacute; Equatorial, e nas heran&ccedil;as coloniais nas atuais idiossincrasias sociais, culturais e pol&iacute;ticas em contextos africanos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O Tribunal Penal Internacional (o Tribunal / TPI) foi fundado pelo Estatuto de Roma em 1998, e tem sede em A Haia desde 2002. &Eacute; um mecanismo global e concertado criado para que a comunidade internacional possa combater crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de genoc&iacute;dio. Fazem parte do Estatuto 124 pa&iacute;ses, 34 dos quais em &Aacute;frica.</p>     <p>Foram precisamente tr&ecirc;s pa&iacute;ses africanos partes no Estatuto que, em outubro de 2016, anunciaram a inten&ccedil;&atilde;o de sair do TPI: Burundi, &Aacute;frica do Sul e G&acirc;mbia. Estes pa&iacute;ses sustentam o seu argumento na quest&atilde;o da seletividade do Tribunal, j&aacute; que apenas um dos casos julgados at&eacute; hoje se reportou a um pa&iacute;s n&atilde;o africano (o conflito na Oss&eacute;tia do Sul, Ge&oacute;rgia, em 2008). O Burundi foi o primeiro a manifestar esta inten&ccedil;&atilde;o, num contexto dom&eacute;stico de desrespeito pelas institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas por parte do incumbente Pierre Nkurunziza e de insist&ecirc;ncia por parte do TPI em investigar crimes de persegui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no pa&iacute;s. Seguiu-se a &Aacute;frica do Sul e, por fim, a G&acirc;mbia, pa&iacute;s de origem da atual procuradora Fatou Bensouda. Os argumentos centrais destas tomadas de posi&ccedil;&atilde;o s&atilde;o a alegada pr&aacute;tica de justi&ccedil;a de vencedores e um comportamento discriminat&oacute;rio por parte do TPI, cr&iacute;ticas que j&aacute; haviam sido feitas pela Uni&atilde;o Africana (UA) ao Tribunal. O caso mais emblem&aacute;tico da hostilidade da UA em rela&ccedil;&atilde;o ao TPI diz respeito ao mandato de captura internacional por genoc&iacute;dio e crimes contra a humanidade a Omar al-Bashir, Presidente do Sud&atilde;o desde 1989<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. Aquando da 25.&ordf; sess&atilde;o ordin&aacute;ria de chefes de Estado e de governo da UA, em Joanesburgo em junho de 2015, a &Aacute;frica do Sul recusou extradit&aacute;-lo.</p>     <p>As declara&ccedil;&otilde;es de inten&ccedil;&atilde;o de abandono do TPI por parte da &Aacute;frica do Sul, Burundi e G&acirc;mbia receberam grande destaque medi&aacute;tico no final de 2016, mas, ainda que a desintegra&ccedil;&atilde;o regional e o abandono de tratados n&atilde;o seja um fen&oacute;meno sem precedentes, ele tende a ser pouco comum. Os recentes desenvolvimentos no caso dos pa&iacute;ses africanos versus TPI parecem apontar nesse sentido.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em janeiro de 2017, a UA aprovou uma resolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vinculativa designada &laquo;Estrat&eacute;gia de Abandono do TPI&raquo; que parecia apelar ao abandono em massa do Tribunal<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. No entanto, aquela resolu&ccedil;&atilde;o declarava acima de tudo a inten&ccedil;&atilde;o de propor ao Conselho de Seguran&ccedil;a das Na&ccedil;&otilde;es Unidas a reforma daquele organismo, particularmente no que diz respeito ao conceito de imunidade e impunidade. N&atilde;o s&oacute; a posi&ccedil;&atilde;o assumida pela UA n&atilde;o remete de forma clara para o abandono, como essa posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; consensual entre os seus estados-membros. Por exemplo, o Botswana, o Gab&atilde;o e a Tanz&acirc;nia t&ecirc;m demonstrado diversas vezes o seu apoio ao TPI, e a Nig&eacute;ria, o Senegal e Cabo Verde apresentaram reservas formais relativamente &agrave; resolu&ccedil;&atilde;o aprovada. Para al&eacute;m disso, o novo Presidente da G&acirc;mbia, eleito em dezembro, decidiu reverter a decis&atilde;o do seu antecessor<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>, bem como a &Aacute;frica do Sul anunciou em mar&ccedil;o que iria rever a sua decis&atilde;o na sequ&ecirc;ncia de o Supremo Tribunal sul-africano ter declarado o abandono inconstitucional e inv&aacute;lido, mesmo que isso n&atilde;o signifique necessariamente que a &Aacute;frica do Sul ir&aacute; permanecer no TPI<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.</p>     <p>Existe, portanto, um historial que aponta para uma rela&ccedil;&atilde;o conturbada entre o TPI e certos pa&iacute;ses africanos, cujo desfecho &eacute; ainda incerto. Na realidade, a decis&atilde;o de estados africanos n&atilde;o cooperarem com o TPI n&atilde;o &eacute; recente, mas pertence a um modo de relacionamento entre estes estados e A Haia, sede de um tribunal acusado de ser manietado pelas grandes pot&ecirc;ncias, pautado pela parcialidade e humilha&ccedil;&atilde;o a l&iacute;deres africanos e, tamb&eacute;m, pela imposi&ccedil;&atilde;o neocolonial que faz ao mundo n&atilde;o ocidental. Quinze anos ap&oacute;s a sua funda&ccedil;&atilde;o, interessa refletir sobre os desafios que se colocam e apresentar perspetivas sobre a rela&ccedil;&atilde;o existente entre o TPI e institui&ccedil;&otilde;es e pa&iacute;ses africanos. Este dossi&ecirc; tem esse objetivo e traz abordagens multidisciplinares, do direito &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es internacionais, sobre o TPI, as quest&otilde;es que enfrenta e o papel de jurisdi&ccedil;&otilde;es penais regionais africanas de prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos.</p>     <p>No primeiro artigo deste dossi&ecirc;, Alexandre Guerreiro, ap&oacute;s apresentar a hist&oacute;ria da cria&ccedil;&atilde;o do TPI e debater os seus fundamentos, reflete sobre a atual posi&ccedil;&atilde;o do Tribunal, que oscila entre o desinteresse e a manifesta vontade de sair por parte de estados partes no Estatuto de Roma, alinhados com posi&ccedil;&otilde;es da UA. O autor aponta algumas fragilidades ao TPI, como o &oacute;nus que se coloca sobre os estados no momento em que um condenado &eacute; colocado em liberdade, n&atilde;o estando previstos mecanismos de prote&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s julgamento e ap&oacute;s liberta&ccedil;&atilde;o. Refere os desafios que se colocam em termos de se pensar uma justi&ccedil;a internacional e no contrabalan&ccedil;o aos sistemas nacionais e aos jogos dom&eacute;sticos de interesses e de impunidades, mas tamb&eacute;m salienta a possibilidade de justi&ccedil;a em contextos nos quais reina a impunidade.</p>     <p>O TPI &eacute; um tribunal de vig&ecirc;ncia permanente, que tem uma compet&ecirc;ncia potencialmente universal e que atua com base no princ&iacute;pio de complementaridade com os tribunais nacionais, cingindo-se ao julgamento de indiv&iacute;duos, como podemos ler neste primeiro artigo de Alexandre Guerreiro. Patr&iacute;cia Galv&atilde;o Teles e Daniela Martins, no segundo artigo deste dossi&ecirc;, debatem o princ&iacute;pio da complementaridade como um dos desafios que atualmente se coloca ao tribunal. A complementaridade cria-se por mecanismos regionais, como o Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos (TADHP), e leva a terem de questionar-se a forma como os mecanismos regionais e nacionais trabalham com o TPI, nomeadamente considerando que este possa intervir apenas quando as demais jurisdi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o conseguem/podem atuar ou atendendo a que as legisla&ccedil;&otilde;es nacionais dever&atilde;o ser consent&acirc;neas com os princ&iacute;pios do TPI.</p>     <p>A complementaridade &eacute; um dos quatro desafios que se colocam ao TPI, de acordo com as autoras. Os restantes s&atilde;o a universalidade, a coopera&ccedil;&atilde;o e o crime de agress&atilde;o. Em primeiro lugar, universalidade do Estatuto de Roma coloca-se como uma fragilidade do TPI a partir do momento em que continua a ser necess&aacute;rio criarem-se tribunais <em>ad hoc</em>. Em segundo lugar, no que respeita &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o, o TPI depende da coopera&ccedil;&atilde;o dos estados partes. O caso do Presidente sudan&ecirc;s Omar al-Bashir, que j&aacute; referimos nesta nota introdut&oacute;ria, mostrou como a coopera&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda um premente desafio, j&aacute; que &eacute; exemplo da tens&atilde;o entre a imunidade de um chefe de Estado, as prote&ccedil;&otilde;es nacionais e a justi&ccedil;a internacional. Este n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico caso de deten&ccedil;&otilde;es e processos de entrega pendentes. Saif Al-Islam Gaddafi, posto em liberdade pela justi&ccedil;a l&iacute;bia no dia 10 de junho de 2017, ou o senhor da guerra ugand&ecirc;s Joseph Kony s&atilde;o dois exemplos de indiv&iacute;duos aos quais o TPI ainda n&atilde;o acedeu. Por fim, o crime de agress&atilde;o como crime internacional relevante, a par de crimes contra a humanidade, liga-se ao princ&iacute;pio da coopera&ccedil;&atilde;o e ao papel da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) como promotora do Estado de direito e da paz e &agrave; import&acirc;ncia da posi&ccedil;&atilde;o dos membros permanentes do Conselho de Seguran&ccedil;a como fundamentais para o funcionamento do pr&oacute;prio TPI.</p>     <p>Os temas da universalidade, da coopera&ccedil;&atilde;o e da complementaridade s&atilde;o recuperados no artigo de Mbuyi Kabunda, que detalha a inefic&aacute;cia das jurisdi&ccedil;&otilde;es nacionais e regionais africanas na prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos, tanto ao n&iacute;vel legal como de atua&ccedil;&atilde;o. De acordo com o acad&eacute;mico congol&ecirc;s, assiste-se, no continente africano, &agrave; impunidade, ao sil&ecirc;ncio e ao pouco respeito pelos direitos humanos, mesmo considerando regimes democr&aacute;ticos e os mecanismos e textos pr&oacute;prios, como a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (ou Carta de Banjul) e o TADHP, que nunca julgou um crime. Ali&aacute;s, o Protocolo de Malabo, que cria o Tribunal Africano de Justi&ccedil;a e Direitos Humanos e alarga a jurisdi&ccedil;&atilde;o do tribunal a crimes de justi&ccedil;a penal internacional, como genoc&iacute;dios, tr&aacute;ficos diversos ou crimes de guerra, ainda n&atilde;o foi ratificado por nenhum Estado. De acordo com Kabunda, a debilidade da Carta reside na consagra&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio de n&atilde;o inger&ecirc;ncia da UA e no cariz autorit&aacute;rio de muitos regimes e de estados que enfrentam problemas de desenvolvimento e de constru&ccedil;&atilde;o estatal. No seu artigo, destaca as caracter&iacute;sticas dos sistemas normativos africanos de direitos humanos como forma de se compreender a tens&atilde;o entre alguns governos africanos e o TPI.</p>     <p>A m&aacute;xima &laquo;solu&ccedil;&otilde;es africanas para problemas africanos&raquo;, que revela a inefici&ecirc;ncia das institui&ccedil;&otilde;es africanas na prote&ccedil;&atilde;o de v&iacute;timas e na luta contra a impunidade no artigo de Mbuyi Kabunda, &eacute; aprofundada por Rui Garrido, cujo artigo trata da cria&ccedil;&atilde;o de um tribunal penal africano como mecanismo institucional mais forte no continente no combate &agrave; impunidade e como uma resposta &agrave;s estrat&eacute;gias de n&atilde;o coopera&ccedil;&atilde;o com o TPI. O artigo trata da cria&ccedil;&atilde;o do Tribunal Africano de Justi&ccedil;a e Direitos Humanos, resultado da fus&atilde;o do Tribunal de Justi&ccedil;a da Uni&atilde;o Africana com o TADHP, e das perspetivas que se abrem em termos de prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos no continente. O autor conclui que este mecanismo pertence a uma estrat&eacute;gia de refor&ccedil;o de institui&ccedil;&otilde;es africanas e de demonstra&ccedil;&atilde;o na arena internacional de que o continente disp&otilde;e de institui&ccedil;&otilde;es fortes e consent&acirc;neas com os princ&iacute;pios internacionais, n&atilde;o deixando de destacar a possibilidade de replicar o modelo africano de prote&ccedil;&atilde;o de direitos humanos a outros sistemas regionais. No entanto, coloca tamb&eacute;m algumas d&uacute;vidas que a cria&ccedil;&atilde;o de um tribunal penal africano pode suscitar, nomeadamente ao n&iacute;vel da rela&ccedil;&atilde;o que ter&aacute; com o TPI que, como se l&ecirc; nos cinco artigos deste dossi&ecirc;, tem sido alvo de rep&uacute;dio por alguns dos pa&iacute;ses que comp&otilde;em a UA.</p>     <p>Por fim, Filomena Capela apresenta o caso de Jean-Pierre Bemba, l&iacute;der do Movimento de Liberta&ccedil;&atilde;o do Congo e antigo Vice-Presidente da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo, condenado pelo TPI a 18 anos de pris&atilde;o pelo envolvimento do seu ex&eacute;rcito no conflito na Rep&uacute;blica Centro-Africana que op&ocirc;s o ent&atilde;o Presidente Ange-F&eacute;lix Patass&eacute; a Fran&ccedil;ois Boziz&eacute;, antigo chefe das For&ccedil;as Armadas e l&iacute;der do golpe de Estado de 2003. Jean-Pierre Bemba foi um dos quatro condenados pelo TPI at&eacute; ao presente (os restantes s&atilde;o os tamb&eacute;m congoleses Germain Katanga e Thomas Lubanga e o maliano Ahmad Al Faqi Al Mahdi, membro da mil&iacute;cia tuaregue Ansar Dine que destruiu patrim&oacute;nio hist&oacute;rico em Tombuctu). Filomena Capela examina a forma como o caso contra Jean-Pierra Bemba se construiu no TPI como um processo destinado a condenar o l&iacute;der por todo o movimento e como processo condenat&oacute;rio de crimes sexuais enquanto arma de guerra. A exemplaridade da condena&ccedil;&atilde;o e a sua liga&ccedil;&atilde;o ao contexto pol&iacute;tico da inst&aacute;vel regi&atilde;o dos Grandes Lagos permitiu criar jurisprud&ecirc;ncia nestes dois &acirc;mbitos.</p>     <p>Todos os autores destacam a import&acirc;ncia do TPI para a prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos e no quadro das institui&ccedil;&otilde;es internacionais, mesmo considerando problemas de credibilidade (ainda h&aacute; deten&ccedil;&otilde;es pendentes) e o incumprimento de objetivos para os quais fora criado. O TPI &eacute;, ainda, e atendendo &agrave; poss&iacute;vel complementaridade com as jurisdi&ccedil;&otilde;es penais regionais e nacionais, um mecanismo que a comunidade internacional tem para proteger os cidad&atilde;os de abusos de poder e de crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de genoc&iacute;dio.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Sobre este caso, ver MILLS, Kurt &ndash; &laquo;&ldquo;Bashir is Dividing Us&rdquo;: Africa and the International Criminal Court&raquo;. In <i>Human Rights Quarterly</i>. Vol. 34, N.&ordm; 2, 2012, pp. 404-447.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup><i>Withdrawal Strategy Document. </i><i>Uni&atilde;o Africana. (</i>Consultado em: 20 de junho de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.hrw.org/sites/default/files/supporting_resources/ICC_withdrawal_strategy_jan._2017.pdf" target="_blank" rel="noopener">https://www.hrw.org/sites/default/files/supporting_resources/ICC_withdrawal_strategy_jan._2017.pdf</a>.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> &laquo;Gambia announces plans to stay in International Criminal Court&raquo;. In <i>Reuters</i>. (Consultado em: 20 de junho de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.reuters.com/article/us-gambia-justice-ICC-idUSKBN15S2HF" target="_blank" rel="noopener">http://www.reuters.com/article/us-gambia-justice-ICC-idUSKBN15S2HF</a>.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> &laquo;ICC Withdrawal revoked after Court ruling: un&raquo;. In <i>Aljazeera</i>. (Consultado em: 20 de junho de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.aljazeera.com/news/2017/03/ICC-withdrawal-revoked-court-ruling170308084628230.html/" target="_blank" rel="noopener">http://www.aljazeera.com/news/2017/03/ICC-withdrawal-revoked-court-ruling170308084628230.html/</a>.</p>      ]]></body>
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