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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[15 anos de Tribunal Penal Internacional: À espera de Godot]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The 1st of July of 2017 marks the 15th anniversary since the Rome Statute of the International Criminal Court (ICC) entered into force. Over these years many were the achievements registered by an ICC motivated by global expectation. Nevertheless, the Court faced reality and was not able to overcome the obstacles imposed by international order. In the present article it is suggested an analytical reflection on the reasons behind the establishment of the ICC, its achievements and the weaknesses of international justice over the last 15 years as well as the elements that can compromise the future of the Hague-based Court.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL EM ÁFRICA</b></p>     <p><strong>15 anos de Tribunal Penal Internacional: &Agrave; espera de Godot</strong></p>     <p><strong>15 years of International Criminal Court: waiting for Godot</strong></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>Alexandre Guerreiro</strong></p>     <p>Doutorando na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, incidindo a sua investiga&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea do Direito Internacional. Mestre em Ci&ecirc;ncias Jur&iacute;dicas Internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Ex-Analista do Servi&ccedil;o de Informa&ccedil;&otilde;es Estrat&eacute;gicas de Defesa (SIED). Autor de diversos artigos na &aacute;rea do Direito publicados em revista cient&iacute;ficas e autor das obras <em>A Resist&ecirc;ncia dos Estados Africanos &agrave; Jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal Penal Internacional</em> (Almedina, 2012) e <em>Isl&atilde;o, o Estado Isl&acirc;mico e os Refugiados: quebrar mitos e desvendar mist&eacute;rios</em> (Quimera, 2016). Desenvolve um projeto de ida &agrave;s escolas para partilhar conte&uacute;dos relacionados com terrorismo, direitos humanos e pol&iacute;tica internacional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>RESUMO</strong></p>     <p>O dia 1 de julho de 2017 assinala o d&eacute;cimo quinto anivers&aacute;rio do in&iacute;cio de fun&ccedil;&otilde;es do Tribunal Penal Internacional (TPI). Desde ent&atilde;o, algumas foram as interven&ccedil;&otilde;es marcantes de um TPI galvanizado pela expectativa global. Todavia, o choque com a realidade da ordem internacional acabou por expor obst&aacute;culos que impediram que se concretizasse o muito que podia ter sido feito. No presente artigo propomos uma reflex&atilde;o anal&iacute;tica sobre as motiva&ccedil;&otilde;es que justificaram a cria&ccedil;&atilde;o do TPI, os feitos alcan&ccedil;ados e as vulnerabilidades da justi&ccedil;a internacional ao longo dos &uacute;ltimos 15 anos e ainda os aspetos pass&iacute;veis de comprometer o futuro do Tribunal.</p>     <p><strong>Palavras-chave:</strong> TPI, justi&ccedil;a internacional, &Aacute;frica, direitos humanos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><strong>ABSTRACT</strong></p>     <p>The 1st of July of 2017 marks the 15th anniversary since the Rome Statute of the International Criminal Court (ICC) entered into force. Over these years many were the achievements registered by an ICC motivated by global expectation. Nevertheless, the Court faced reality and was not able to overcome the obstacles imposed by international order. In the present article it is suggested an analytical reflection on the reasons behind the establishment of the ICC, its achievements and the weaknesses of international justice over the last 15 years as well as the elements that can compromise the future of the Hague-based Court.</p>     <p><strong>Keywords:</strong> ICC, international justice, Africa, human rights.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</strong></p>     <p>O dia 1 de julho de 2017 assinala o d&eacute;cimo quinto anivers&aacute;rio da entrada em funcionamento do Tribunal Penal Internacional (TPI), ap&oacute;s ter sido depositado o 60.&ordm; instrumento de ratifica&ccedil;&atilde;o, de aceita&ccedil;&atilde;o, de aprova&ccedil;&atilde;o ou de ades&atilde;o ao Estatuto de Roma, tratado que criou o tribunal estabelecido n&rsquo;A Haia, em cumprimento com o seu artigo 126.&ordm;.</p>     <p>Ap&oacute;s uma intensa campanha em favor da constitui&ccedil;&atilde;o de um tribunal permanente e com jurisdi&ccedil;&atilde;o global capaz de perseguir, deter e condenar crimes que a comunidade global de estados tenha interesse em combater, por atentarem contra interesses comuns &agrave; humanidade, assiste-se, atualmente, a uma tend&ecirc;ncia de conten&ccedil;&atilde;o do entusiasmo evidenciado at&eacute; ao in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; de tal forma cr&iacute;tica que &eacute; not&oacute;rio um relativo desinteresse de alguns estados partes no Estatuto de Roma, comportamento este que se manifesta atrav&eacute;s da falta de colabora&ccedil;&atilde;o com o Tribunal e ainda, em alguns casos, na insistente manifesta&ccedil;&atilde;o de vontade de romper os la&ccedil;os com A Haia<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.</p>     <p>Esta realidade contrasta com os esfor&ccedil;os do Tribunal e at&eacute; de algumas pot&ecirc;ncias e organiza&ccedil;&otilde;es regionais e mundiais com vista &agrave; invers&atilde;o do panorama atual marcado pelo relativo descr&eacute;dito e pela exposi&ccedil;&atilde;o de fragilidades da justi&ccedil;a internacional. Ora, tal cen&aacute;rio ensombra e compromete a afirma&ccedil;&atilde;o plena do TPI enquanto autoridade judicial com capacidade para prosseguir os fins para os quais foi constitu&iacute;do: a realiza&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a internacional e a supress&atilde;o (ou, no m&iacute;nimo, a crescente diminui&ccedil;&atilde;o) de crimes de natureza humanit&aacute;ria.</p>     <p>Em apenas 15 anos, algumas foram as interven&ccedil;&otilde;es marcantes de um TPI galvanizado pela expectativa global. Todavia, o choque com a realidade da ordem internacional acabou por impor obst&aacute;culos que impediram que se concretizasse o muito que podia ter sido feito. Justi&ccedil;a morosa? Justi&ccedil;a dos vencedores? Justi&ccedil;a p&iacute;rrica? Justi&ccedil;a deficiente? Justi&ccedil;a seletiva? &Eacute; a resposta a estas e a outras perguntas que nos propomos a dar no presente artigo, atrav&eacute;s de uma reflex&atilde;o anal&iacute;tica sobre as motiva&ccedil;&otilde;es que subjazem &agrave; cria&ccedil;&atilde;o do TPI, os feitos alcan&ccedil;ados e as vulnerabilidades da justi&ccedil;a internacional evidenciados ao longo dos &uacute;ltimos 15 anos e ainda os aspetos mais controversos pass&iacute;veis de comprometer o futuro do Tribunal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para este efeito, o presente artigo dedicar&aacute; uma primeira sec&ccedil;&atilde;o aos antecedentes do TPI, justificada com a necessidade de enquadrar o leitor com as raz&otilde;es que conduziram &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o de um tribunal internacional desta natureza. Uma vez conhecida a hist&oacute;ria do Tribunal, uma outra sec&ccedil;&atilde;o permitir&aacute; conhecer as motiva&ccedil;&otilde;es que leva(ra)m os estados africanos a manifestar a sua aproxima&ccedil;&atilde;o ou afastamento do TPI, bem como as raz&otilde;es que ainda hoje dividem e geram tens&atilde;o no continente africano face &agrave; interven&ccedil;&atilde;o d&rsquo;A Haia.</p>     <p>Neste seguimento, est&atilde;o reunidos os elementos necess&aacute;rios para poder examinar-se o Tribunal, nomeadamente as suas caracter&iacute;sticas e, com base no exposto, conduzir uma aprecia&ccedil;&atilde;o relativamente ao que era esperado e ao que efetivamente foi alcan&ccedil;ado pelo TPI nos &uacute;ltimos 15 anos.</p>     <p>Este exerc&iacute;cio de reflex&atilde;o n&atilde;o terminar&aacute; sem uma an&aacute;lise prospetiva, com inclus&atilde;o de breves notas sobre os aspetos que poder&atilde;o comprometer ou conduzir &agrave; consagra&ccedil;&atilde;o do TPI enquanto organiza&ccedil;&atilde;o protetora das v&iacute;timas de viola&ccedil;&otilde;es de direito humanit&aacute;rio num contexto caracterizado pela supremacia da realpolitik enquanto princ&iacute;pio norteador das rela&ccedil;&otilde;es entre as for&ccedil;as vivas que comp&otilde;em a comunidade internacional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>AS ORIGENS DO TPI</strong></p>     <p>Alegar que o atual TPI corresponde a um projeto idealizado e concebido pela ordem internacional e delineado com o objetivo de constituir uma jurisdi&ccedil;&atilde;o internacional nos termos em que acabou por ser aprovado &eacute; um argumento desfasado da realidade. Com efeito, o TPI &eacute; o produto de um desvio do processo causal, um fen&oacute;meno que, embora n&atilde;o sendo um caso de <em>aberratio ictus</em>, &eacute; um desvio significativo ao objetivo que inicialmente se pretendeu alcan&ccedil;ar.</p>     <p>Assim, importa recordar que a ideia de um tribunal penal com jurisdi&ccedil;&atilde;o supranacional efetivamente documentado data de 1474, para o qual foi convocado um coletivo de 28 ju&iacute;zes da Als&aacute;cia, &Aacute;ustria, Ren&acirc;nia e Su&iacute;&ccedil;a, tendo em vista a realiza&ccedil;&atilde;o do julgamento de Peter von Hagenbach, na cidade alem&atilde; de Breisach, por um tribunal <em>ad hoc</em> composto por 28 magistrados de aliados do Imp&eacute;rio Romano, por homic&iacute;dio, viola&ccedil;&atilde;o e pilhagem no cumprimento de ordens superiores<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>     <p>O processo de cria&ccedil;&atilde;o de um tribunal penal internacional teve como base uma proposta de Trindade e Tobago, em 1989, a Resolu&ccedil;&atilde;o 44/39, formulada em sede de Assembleia Geral da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU). Este impulso, por&eacute;m, foi motivado pela tentativa de constituir um tribunal capaz de julgar o crime de tr&aacute;fico internacional de estupefacientes, il&iacute;cito este que, todavia, n&atilde;o veio a integrar a tipologia de crimes dispostos no Estatuto de Roma<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.</p>     <p>Ao longo de todo o s&eacute;culo XX, prevaleceu o modelo de tribunais <em>ad hoc</em> como forma de julgar, sobretudo, crimes de guerra. Com efeito, recorde-se que o Tratado de Versalhes, de 1919, j&aacute; reconhecia aos Aliados o direito de constitu&iacute;rem tribunais militares para julgarem soldados alem&atilde;es acusados de crimes de guerra (artigos 228.&ordm; a 230.&ordm;), ainda que na pr&aacute;tica a ideia tenha sido concretizada atrav&eacute;s da elabora&ccedil;&atilde;o de listas de suspeitos alem&atilde;es pelos Aliados que seriam julgados por tribunais germ&acirc;nicos<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.</p>     <p>Quase simultaneamente, o Tratado de S&egrave;vres, de 1920, tamb&eacute;m reconhecia aos Aliados o direito de estabelecerem um tribunal especial para julgar os atos cometidos por oficiais do Imp&eacute;rio Otomano contra pessoas, incluindo o genoc&iacute;dio arm&eacute;nio (artigo 230.&ordm;). Tal acabou por n&atilde;o passar do papel, j&aacute; que a Turquia n&atilde;o ratificou o tratado e este viria a ser substitu&iacute;do pelo Tratado de Lausana, de 1923, em que foi introduzida uma declara&ccedil;&atilde;o de amnistia por todos os crimes cometidos entre 1 de agosto de 1914 e 20 de novembro de 1922.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os resultados, por&eacute;m, ficaram aqu&eacute;m do esperado. Ainda que tenham sido levados a julgamento in&uacute;meros oficiais e de ter sido produzida prova dos crimes cometidos contra arm&eacute;nios, no final, os respons&aacute;veis por crimes de guerra permaneceram impunes, tendo sido condenados tr&ecirc;s funcion&aacute;rios de baixa patente.</p>     <p>Os constrangimentos com que a ordem internacional se deparou para aplicar uma justi&ccedil;a correspondente &agrave; gravidade dos atos cometidos motivaram o bar&atilde;o Descamps, do Conselho Consultivo de Juristas nomeados pelo Conselho da Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es, a sugerir a constitui&ccedil;&atilde;o de um &laquo;tribunal superior de justi&ccedil;a internacional&raquo;, de car&aacute;ter permanente, que inclu&iacute;sse nas suas compet&ecirc;ncias o julgamento de crimes reconhecidos pela generalidade da humanidade. Esta ideia foi descartada por ser considerada prematura<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>.</p>     <p>N&atilde;o obstante, a morte de Alexandre, rei da Jugosl&aacute;via, em 1934, inspirou uma das primeiras campanhas globais contra atos de terrorismo e redundou mesmo numa proposta de Conven&ccedil;&atilde;o para a Cria&ccedil;&atilde;o de um Tribunal Penal Internacional, de 1937. Todavia, a conven&ccedil;&atilde;o nunca entraria em vigor, por n&atilde;o ter sido ratificada por um n&uacute;mero suficiente de estados, em resultado de, pouco depois, ter eclodido a Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, ter sido extinta a Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Afastada a ideia de uma inst&acirc;ncia de jurisdi&ccedil;&atilde;o internacional permanente, na &uacute;ltima metade da d&eacute;cada de 1940 regressaram os tribunais <em>ad hoc</em>, um modelo de aplica&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a que nem sempre &eacute; reconhecido universalmente como tal, mas que se afigura suficiente para impor a vis&atilde;o de justi&ccedil;a dos vencedores de um conflito ou de determinadas elites dominantes num contexto global. Assim foram constitu&iacute;dos os tribunais de Nuremberga e T&oacute;quio no p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial.</p>     <p>Foi j&aacute; bastante mais tarde, durante a d&eacute;cada de 1990, que foi efetivamente retomada e se acelerou a ideia de constitui&ccedil;&atilde;o de um tribunal penal internacional, embora com mudan&ccedil;a do escopo e da miss&atilde;o de uma organiza&ccedil;&atilde;o desta magnitude quando comparados com a proposta de Trindade e Tobago. De facto, inspiraram esta ambi&ccedil;&atilde;o eventos como os crimes de genoc&iacute;dio, de guerra e contra a humanidade cometidos no decorrer da Guerra do Vietname e outros conflitos armados com foco regional e as consequ&ecirc;ncias da ascens&atilde;o ao poder de algumas juntas militares, durante as d&eacute;cadas de 1960 e 1970, as atrocidades cometidas durante a lideran&ccedil;a de Pol Pot, no Camboja, os crimes cometidos pelo poder iraquiano na d&eacute;cada de 1980 e o conflito na ex-Jugosl&aacute;via.</p>     <p>A estes acresceram ainda os epis&oacute;dios de horror ocorridos no Ruanda enquanto factos que motivaram a cria&ccedil;&atilde;o do atual TPI, sem menosprezar as rea&ccedil;&otilde;es face aos avultados custos que implica a constitui&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o de um tribunal <em>ad hoc</em>. Era imperativo agir e dispor dos meios para o fazer, sobretudo face aos receios de novas viola&ccedil;&otilde;es graves poderem ocorrer noutros territ&oacute;rios<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>.</p>     <p>Paralelamente, a controv&eacute;rsia em torno dos processos de constitui&ccedil;&atilde;o dos tribunais<em> ad hoc </em>para a ex-Jugosl&aacute;via e para o Ruanda impulsionou a ideia de cria&ccedil;&atilde;o de um tribunal permanente para que pudesse atuar de forma mais c&eacute;lere e servir como dissuasor de crimes internacionais<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Pretendia-se evitar, assim, o modelo daqueles dois tribunais que obrigavam a uma rea&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o dos acontecimentos e a negocia&ccedil;&otilde;es de tal forma complexas, por for&ccedil;arem o consenso no Conselho de Seguran&ccedil;a (CS), que, n&atilde;o s&oacute; colocavam em risco a constitui&ccedil;&atilde;o de um tribunal, como, caso este efetivamente viesse a ser estabelecido, poderia intervir tardiamente, concorrendo, deste modo, para a impunidade dos infratores<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>.</p>     <p>Foi com estas premissas que, em 1994, a Comiss&atilde;o de Direito Internacional aprovou os estatutos de um tribunal internacional cujas compet&ecirc;ncias ficaram dependentes do projeto de &laquo;C&oacute;digo de Crimes contra a Paz e Seguran&ccedil;a da Humanidade&raquo;, aprovado pela mesma entidade, em 1996, que trouxe, tamb&eacute;m, a ambi&ccedil;&atilde;o de positivar de forma permanente e com car&aacute;ter global a perda de imunidades de altas hierarquias do Estado. N&atilde;o obstante, s&oacute; num encontro realizado entre estados-membros da ONU, ONG e outras entidades, em Zutphen, na Holanda, em janeiro de 1998, as bases do acordo &ndash; que viria a ter como corol&aacute;rio a Confer&ecirc;ncia Diplom&aacute;tica de Plenipotenci&aacute;rios para a Cria&ccedil;&atilde;o do Tribunal Penal Internacional, iniciada a 15 de junho desse mesmo ano, em Roma, e conclu&iacute;da, com a aprova&ccedil;&atilde;o do texto final do tratado, a 17 de julho &ndash; seriam estabelecidas.</p>     <p>A reda&ccedil;&atilde;o adotada n&atilde;o alcan&ccedil;ou a unanimidade desejada, sendo aprovada com 120 votos a favor, 21 absten&ccedil;&otilde;es e sete votos contra, encontrando-se Estados Unidos, China e Israel nesta &uacute;ltima posi&ccedil;&atilde;o. Todavia, estava aberto o caminho para a assinatura e ratifica&ccedil;&atilde;o por parte de todos os estados, tendo o 60.&ordm; instrumento de ratifica&ccedil;&atilde;o, aceita&ccedil;&atilde;o, aprova&ccedil;&atilde;o ou ades&atilde;o ao Estatuto de Roma sido formalizado a 1 de julho de 2002, data em que o TPI iniciou, assim, fun&ccedil;&otilde;es. Atualmente, s&atilde;o 124 os estados que ratificaram e integram a Assembleia dos Estados Partes no Estatuto de Roma, o &uacute;ltimo dos quais foi El Salvador, a 3 de mar&ccedil;o de 2016.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><strong>AS MOTIVA&Ccedil;&Otilde;ES PARA A ADES&Atilde;O AO TPI</strong></p>     <p>As motiva&ccedil;&otilde;es dos estados para aderirem ou rejeitarem o Estatuto de Roma prende(ra)m-se com variados fatores. Desde logo, al&eacute;m das iniciativas espont&acirc;neas dos estados em formalizar a assinatura do Estatuto de Roma desde que o tratado foi aprovado, assistiu-se a uma corrida &agrave; assinatura nos &uacute;ltimos seis meses do ano 2000. Durante este per&iacute;odo, 43 estados assinaram o Estatuto de Roma, tr&ecirc;s dos quais no &uacute;ltimo dia poss&iacute;vel para o fazerem (Ir&atilde;o, Israel e Estados Unidos). Tal deveu-se ao facto de o n.&ordm; 1 do artigo 125.&ordm; do Estatuto admitir a assinatura dos estados at&eacute; 31 de dezembro de 2000, sem a obrigatoriedade de o ratificarem, sendo que, a partir desta data, passou a estar dispon&iacute;vel apenas &agrave; ratifica&ccedil;&atilde;o, aceita&ccedil;&atilde;o ou aprova&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Ora, com a mera assinatura, embora os estados n&atilde;o possam obstruir o seu cumprimento, os signat&aacute;rios n&atilde;o est&atilde;o obrigados a colaborar com o Tribunal, nem sujeitam o seu territ&oacute;rio &agrave; jurisdi&ccedil;&atilde;o do TPI, aliviando, deste modo, a press&atilde;o da comunidade internacional no sentido de integrarem nos seus ordenamentos instrumentos de prote&ccedil;&atilde;o de direitos humanos e assumindo, concomitantemente, a qualidade de estados observadores (artigo 112.&ordm;), o que lhes permite prolongar, por tempo indeterminado, a ratifica&ccedil;&atilde;o como parte.</p>     <p>Por outro lado, um dos fundamentos que justificam a ades&atilde;o plena ao TPI est&aacute; associado &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o e maturidade das respetivas sociedades e, consequentemente, ao compromisso com os instrumentos que garantam uma prote&ccedil;&atilde;o mais s&oacute;lida dos direitos humanos e reforcem a confian&ccedil;a da comunidade internacional quanto &agrave; sua estabilidade pol&iacute;tica e social<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>.</p>     <p>Assim, quanto mais intensos forem os n&iacute;veis de repress&atilde;o com que um governo administra o Estado, menos prov&aacute;vel &eacute; a sua ades&atilde;o ao Estatuto de Roma, denotando-se um afastamento evidente por parte de regimes caracterizados pela supress&atilde;o de direitos fundamentais e viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos por receio de os titulares de fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e militares poderem cair na al&ccedil;ada do Tribunal.</p>     <p>Estados com estas caracter&iacute;sticas t&ecirc;m em comum o facto de prosseguirem governa&ccedil;&otilde;es tendencialmente repressivas, dominadas, na maior parte dos casos, pela concentra&ccedil;&atilde;o de poderes numa elite ou num s&oacute; homem, personalidades que, n&atilde;o raras vezes, se assumem como os principais respons&aacute;veis pela viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos e pela implementa&ccedil;&atilde;o do terror, o que elimina, naturalmente, o interesse pelo comprometimento com o Estatuto de Roma, sabendo-se que a a&ccedil;&atilde;o do TPI recai, exclusivamente, nos altos funcion&aacute;rios do Estado, podendo uma ades&atilde;o ao Estatuto ter como poss&iacute;vel consequ&ecirc;ncia a sua inclus&atilde;o nas a&ccedil;&otilde;es do Tribunal.</p>     <p>H&aacute;, igualmente, que considerar o facto de estados onde se verifica uma maior separa&ccedil;&atilde;o e equil&iacute;brio entre os poderes executivo e judici&aacute;rio manifestarem maior propens&atilde;o para se tornarem parte no Estatuto de Roma, por se entender como remota uma eventual a&ccedil;&atilde;o do TPI no pa&iacute;s, enquanto meio necess&aacute;rio para garantir a resposta a viola&ccedil;&otilde;es do direito internacional humanit&aacute;rio, sendo suficiente, &agrave; partida, a a&ccedil;&atilde;o dos tribunais internos destes estados.</p>     <p>Aqui, se o TPI tende a ser avaliado como &oacute;rg&atilde;o verdadeiramente subsidi&aacute;rio, a ades&atilde;o servir&aacute;, meramente, como instrumento de proje&ccedil;&atilde;o internacional da imagem do Estado ratificante, enquanto promotor dos direitos humanos.</p>     <p>Paralelamente, &eacute; ainda not&oacute;ria a tend&ecirc;ncia de algumas personalidades terem em vista a instrumentaliza&ccedil;&atilde;o do Tribunal em benef&iacute;cio pr&oacute;prio, quer enquanto forma de intimidar grupos armados e opositores pol&iacute;ticos internos, quer como solu&ccedil;&atilde;o para refrear o apoio de pa&iacute;ses vizinhos a entidades que desenvolvem agendas subversivas no pa&iacute;s respetivo<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>.</p>     <p>A t&iacute;tulo exemplificativo, a situa&ccedil;&atilde;o na Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo (RDC) &eacute; paradigm&aacute;tica desta realidade, na medida em que, relativamente &agrave; a&ccedil;&atilde;o de grupos armados, o Presidente da RDC, Joseph Kabila, colaborou ativamente com o TPI no desmantelamento e na entrega de elementos das mil&iacute;cias a operar nas prov&iacute;ncias do Kivu Norte e do Kivu Sul, lan&ccedil;ando um aviso, simultaneamente, contra as autoridades ruandesas e ugandesas que, durante d&eacute;cadas, t&ecirc;m insistido no apoio a algumas destas organiza&ccedil;&otilde;es.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tamb&eacute;m na situa&ccedil;&atilde;o na Rep&uacute;blica Centro-Africana (RCA) o Presidente Kabila colaborou ativamente com o Tribunal. Afinal, o principal suspeito da investiga&ccedil;&atilde;o do TPI era o seu principal opositor pol&iacute;tico, Jean-Pierre Bemba, tendo a proatividade de Kinshasa na entrega do antigo Vice-Presidente do pa&iacute;s deixado a oposi&ccedil;&atilde;o interna privada da principal amea&ccedil;a &agrave; perpetua&ccedil;&atilde;o de Kabila no poder.</p>     <p>Outro exemplo que justifica a falta de interesse no TPI diz respeito a estados cuja organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e social est&aacute; ref&eacute;m de tradi&ccedil;&otilde;es e valores religiosos que possam revelar-se incompat&iacute;veis com o cumprimento das obriga&ccedil;&otilde;es decorrentes do Estatuto &ndash; casos estes dos pa&iacute;ses mu&ccedil;ulmanos<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>. Exce&ccedil;&atilde;o feita &agrave; Tun&iacute;sia, que &eacute; parte no Estatuto de Roma desde 22 de junho de 2011, meses ap&oacute;s a queda do regime liderado pelo Presidente Zine el Abidine Ben Ali, em janeiro de 2011 &ndash; sendo que aqui &eacute; evidente que a ades&atilde;o ao Estatuto de Roma representa uma a&ccedil;&atilde;o de charme da nova lideran&ccedil;a pol&iacute;tica tunisina junto da comunidade internacional, pretendendo demonstrar as poss&iacute;veis mudan&ccedil;as resultantes da Primavera &Aacute;rabe.</p>     <p>Neste contexto, ainda que Arg&eacute;lia, L&iacute;bia, Marrocos, Egito e Maurit&acirc;nia mantenham o estatuto de observadores, entre as motiva&ccedil;&otilde;es que concorrem para que estes estados, juntamente com o Sud&atilde;o, n&atilde;o fa&ccedil;am parte do Estatuto de Roma, encontram-se fatores como a acusa&ccedil;&atilde;o de &laquo;ocidentaliza&ccedil;&atilde;o&raquo; do Tribunal, que leva a que ignore valores e princ&iacute;pios isl&acirc;micos, a exist&ecirc;ncia de ordenamentos jur&iacute;dicos que se baseiam, &uacute;nica ou conjuntamente, em fontes religiosas como forma de diminuir a influ&ecirc;ncia colonialista e ocidental, e a aus&ecirc;ncia de setor judici&aacute;rio independente<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.</p>     <p>Al&eacute;m da Tun&iacute;sia, constituem ainda exce&ccedil;&atilde;o a esta regra o Afeganist&atilde;o, a Jord&acirc;nia e a Palestina. No primeiro caso, a ades&atilde;o ao Estatuto de Roma foi uma consequ&ecirc;ncia da ocupa&ccedil;&atilde;o militar pelos Estados Unidos e da ascens&atilde;o de uma nova lideran&ccedil;a pol&iacute;tica no pa&iacute;s que constatou que atrav&eacute;s do TPI poderia diminuir a tens&atilde;o e conflitualidade interna<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>     <p>Relativamente &agrave; Jord&acirc;nia, admite-se como mais prov&aacute;vel que as motiva&ccedil;&otilde;es se prendam com o compromisso do reino haxemita para com as iniciativas de direito humanit&aacute;rio mais vanguardistas. De facto, a Jord&acirc;nia &eacute; o &uacute;nico Estado do M&eacute;dio Oriente que &eacute; parte no Estatuto de Roma e caso raro no mundo &aacute;rabe de um Estado ratificante de importantes conven&ccedil;&otilde;es, entre as quais a Conven&ccedil;&atilde;o sobre a Nacionalidade das Mulheres Casadas (de 1957) e a Conven&ccedil;&atilde;o sobre o Consentimento para Casamento, Idade M&iacute;nima para Casamento e Registo dos Casamentos (1962).</p>     <p>No caso da Palestina, as motiva&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m como base uma estrat&eacute;gia assente em dois vetores: de um lado, prosseguir a campanha de afirma&ccedil;&atilde;o como Estado soberano &ndash; j&aacute; que apenas os estados internacionalmente reconhecidos como tal podem ser parte no Estatuto de Roma &ndash;, do outro lado, uma condena&ccedil;&atilde;o de Israel por crimes cometidos em solo palestiniano &eacute; pass&iacute;vel de afetar a imagem de Telavive ao mesmo tempo que alerta a comunidade internacional para as atrocidades contra a Palestina. Com estes dois pressupostos, o Estatuto de Roma tende a funcionar como elemento dissuasor de eventuais ocorr&ecirc;ncias futuras de viola&ccedil;&atilde;o do direito humanit&aacute;rio por parte de Israel.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>CARACTER&Iacute;STICAS E BALAN&Ccedil;O DE 15 ANOS DE TPI</strong></p>     <p>Com o in&iacute;cio de fun&ccedil;&otilde;es, o TPI assume-se pioneiro face aos tribunais penais internacionais que o antecederam por se tratar de um tribunal de vig&ecirc;ncia permanente<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a> com compet&ecirc;ncia geogr&aacute;fica ampla e tendencialmente universal. Com efeito, &agrave; luz do artigo 12.&ordm; do Estatuto de Roma, a jurisdi&ccedil;&atilde;o do TPI circunscreve-se aos estados que sejam partes no Estatuto (n.os 1 e 2), ou, n&atilde;o o sendo, aceitem a compet&ecirc;ncia do Tribunal (n. os 2 e 3).</p>     <p>Tais disposi&ccedil;&otilde;es, embora concorram para a crescente &aacute;rea sob jurisdi&ccedil;&atilde;o do TPI, n&atilde;o garantem a sua universalidade. Se &eacute; certo que o elevado n&uacute;mero de estados que s&atilde;o parte no Estatuto de Roma concorre para o aumento da &aacute;rea sob sua jurisdi&ccedil;&atilde;o, a aceita&ccedil;&atilde;o da sua compet&ecirc;ncia pode conduzir a uma expans&atilde;o territorial. Todavia, o TPI s&oacute; se afirmar&aacute; como tribunal de &acirc;mbito universal, a exemplo do que sucede com o Tribunal Internacional de Justi&ccedil;a, se for aceite por todos os estados, o que n&atilde;o se verifica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o obstante, a tendencial instrumentaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do TPI pelo CS tende a criar exce&ccedil;&otilde;es ao Estatuto de Roma e a reconhecer jurisdi&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica ilimitada ao Tribunal, em virtude de este &oacute;rg&atilde;o poder referir ao procurador &laquo;qualquer situa&ccedil;&atilde;o em que haja ind&iacute;cios de ter ocorrido a pr&aacute;tica de um ou v&aacute;rios desses crimes&raquo; (artigo 13.&ordm;, al&iacute;nea b)).</p>     <p>Paralelamente, ao Tribunal &eacute; atribu&iacute;da compet&ecirc;ncia <em>ratione temporis </em>limitada aos crimes cometidos ap&oacute;s a entrada em vigor do tratado (artigo 11.&ordm;), sublinhando-se ainda a imprescritibilidade dos crimes que examina (artigo 29.&ordm;). Ainda que projetado sob o ausp&iacute;cio das Na&ccedil;&otilde;es Unidas &ndash; e parcialmente dependente desta organiza&ccedil;&atilde;o por dela depender o financiamento do Tribunal (artigo 115.&ordm;, al&iacute;nea b)), bem como derivado do facto de o Estatuto admitir a influ&ecirc;ncia do CS &ndash;, o Estatuto de Roma &eacute; regulado pela Conven&ccedil;&atilde;o de Viena sobre o Direito dos Tratados (1969), pretendendo-se que o TPI assente, n&atilde;o na vontade de um n&uacute;mero reduzido de estados, mas num acordo de vontades amplo.</p>     <p>O facto de o artigo 12.&ordm; remeter tacitamente para a regula&ccedil;&atilde;o do Estatuto de Roma pela Conven&ccedil;&atilde;o de Viena refor&ccedil;a o crit&eacute;rio de aplica&ccedil;&atilde;o limitada do Estatuto no espa&ccedil;o, o que n&atilde;o &eacute; mais do que o reconhecimento do princ&iacute;pio da relatividade das conven&ccedil;&otilde;es internacionais (artigo 34.&ordm; da Conven&ccedil;&atilde;o de Viena), segundo o qual &laquo;um Tratado n&atilde;o cria obriga&ccedil;&otilde;es nem direitos para um terceiro Estado sem o consentimento deste &uacute;ltimo&raquo;.</p>     <p>Paralelamente, o TPI prossegue os seus fins com recurso a outros dois instrumentos normativos &ndash; as &laquo;Regras de Processo e Prova&raquo; e os &laquo;Elementos dos Crimes&raquo; &ndash;, tem como pedra basilar da sua a&ccedil;&atilde;o o princ&iacute;pio da complementaridade face aos tribunais nacionais e cinge a sua a&ccedil;&atilde;o ao julgamento de indiv&iacute;duos, primordialmente ligados ao aparelho estatal, num claro refor&ccedil;o da responsabilidade penal internacional do indiv&iacute;duo e da indiferen&ccedil;a da justi&ccedil;a &agrave; qualidade oficial que este representa.</p>     <p>De facto, conforme sublinha Paula Escarameia, &laquo;como v&aacute;rios dos crimes em causa s&oacute; podem efetivar-se com o empenhamento e mesmo iniciativa do Estado (&hellip;) o Tribunal passa a ser um &oacute;rg&atilde;o com poderes para julgar pol&iacute;ticas de governos e regimes, em nome da defesa dos direitos fundamentais de indiv&iacute;duos e comunidades humanas&raquo;<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>.</p>     <p>Por forma a n&atilde;o colidir com a soberania dos estados &ndash; cuja relut&acirc;ncia em abdicar do <em>jus puniendi</em> em favor de uma institui&ccedil;&atilde;o jurisdicional supranacional sobre a qual n&atilde;o t&ecirc;m controlo poderia comprometer a aprova&ccedil;&atilde;o e reconhecimento do tribunal d&rsquo;A Haia &ndash;, entendeu-se atribuir compet&ecirc;ncia ao TPI apenas nos casos em que os tribunais nacionais n&atilde;o queiram ou n&atilde;o tenham condi&ccedil;&otilde;es para exercer a sua jurisdi&ccedil;&atilde;o. Tal entendimento encontra-se materializado no artigo 1.&ordm; do Estatuto de Roma, sendo refor&ccedil;ado pelos artigos 17.&ordm;, n&uacute;mero 1, 20.&ordm; e 80.&ordm; <sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>.</p>     <p>Outros aspetos fundamentais dizem ainda respeito &agrave; obrigatoriedade de coopera&ccedil;&atilde;o incondicional dos estados partes no Estatuto de Roma com o TPI (artigos 12.&ordm;, n.&ordm; 3, e 89.&ordm;), &agrave; reformula&ccedil;&atilde;o do conceito de <em>jus puniendi</em>, e aos conflitos entre o seu tratado constitutivo e as constitui&ccedil;&otilde;es nacionais, em aspetos como a extradi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os nacionais, a dura&ccedil;&atilde;o das penas, as amnistias decretadas por lei e o reconhecimento de categorias de tribunais al&eacute;m das revistas na respetiva constitui&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Imp&otilde;e-se salientar a controv&eacute;rsia em torno das imunidades de altos funcion&aacute;rios dos estados. Com efeito, a garantia de imunidades a estas personalidades tem vindo a cair em desuso, dada a crescente preocupa&ccedil;&atilde;o dos estados e da comunidade internacional em garantirem a prote&ccedil;&atilde;o da pessoa acima da prote&ccedil;&atilde;o do poder pol&iacute;tico em exerc&iacute;cio<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>.</p>     <p>Contudo, muitos estados africanos continuam a prever imunidades aos seus l&iacute;deres, entre os quais alguns de express&atilde;o portuguesa<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>. Exemplo disso &eacute; Angola, cuja Constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o admite a responsabilidade criminal do Presidente da Rep&uacute;blica no exerc&iacute;cio das suas fun&ccedil;&otilde;es para todos os crimes tipificados no Estatuto de Roma. J&aacute; Mo&ccedil;ambique, embora reconhe&ccedil;a a responsabilidade criminal do chefe de Estado, impede a sua pris&atilde;o preventiva durante o exerc&iacute;cio de fun&ccedil;&otilde;es, o que inviabilizaria a coopera&ccedil;&atilde;o das autoridades mo&ccedil;ambicanas com A Haia.</p>     <p>N&atilde;o deixa de ser assinal&aacute;vel, todavia, que, por um lado, o artigo 27.&ordm; do Estatuto de Roma reconhe&ccedil;a a irrelev&acirc;ncia da qualidade oficial para efeitos de a&ccedil;&atilde;o do TPI, enquanto, por outro lado, o n.&ordm; 1 do artigo 98.&ordm; sustenta que, neste aspeto, o Tribunal est&aacute; sempre dependente da aceita&ccedil;&atilde;o do Estado do cidad&atilde;o que goze de imunidade. Ou seja, ao chefe de Estado n&atilde;o &eacute; reconhecida a imunidade, enquanto um diplomata pode ver a sua imunidade ser respeitada, mesmo apesar de, em pa&iacute;ses como Portugal, ser o primeiro a nomear os embaixadores e os enviados extraordin&aacute;rios (cf. artigo 135.&ordm;, al&iacute;nea a) da Constitui&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Portuguesa).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste quadro, entre 2002 e a atualidade, o TPI conduziu investiga&ccedil;&otilde;es em dez situa&ccedil;&otilde;es, divididas num total de 23 processos. Com exce&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o na Ge&oacute;rgia, as restantes situa&ccedil;&otilde;es e processos incidem sobre incidentes ocorridos no continente africano. Presentemente, o TPI investiga ou julga as situa&ccedil;&otilde;es em: Uganda, Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo, Sud&atilde;o (Darfur), Rep&uacute;blica Centro-Africana, Qu&eacute;nia, L&iacute;bia, Costa do Marfim, Mali e Rep&uacute;blica Centro-Africana (II). Encontram-se ainda sob avalia&ccedil;&atilde;o preliminar dez outras situa&ccedil;&otilde;es, quatro das quais tamb&eacute;m em solo africano<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>.</p>     <p>Ao longo de 15 anos de atividade, a a&ccedil;&atilde;o do TPI tem sido marcada por lacunas e incongru&ecirc;ncias as quais o Tribunal tem-se revelado incapaz de contrariar. Com efeito, merece reflex&atilde;o que um &oacute;rg&atilde;o jurisdicional tenha no &laquo;princ&iacute;pio da justi&ccedil;a seletiva&raquo; o fator decisivo para a sua a&ccedil;&atilde;o e para justificar a sua ina&ccedil;&atilde;o ou desinteresse por alguns casos. Este crit&eacute;rio, que, na pr&aacute;tica, se traduz numa dualidade de crit&eacute;rios, prejudica, desde logo, o cumprimento do direito internacional na sua plenitude, na medida em que dificilmente vinga a justifica&ccedil;&atilde;o dada pelo Tribunal de que alguns casos s&atilde;o de mais f&aacute;cil resolu&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Embora o Estatuto de Roma admita a aplica&ccedil;&atilde;o da lei &laquo;de forma igual a todas as pessoas&raquo; (artigo 27.&ordm;, n.&ordm; 1), a incapacidade de um tribunal de tamanha envergadura em assegurar o julgamento de todos os envolvidos &ndash; sobretudo pela elevada complexidade dos casos, que poderia perpetuar as investiga&ccedil;&otilde;es, adiando a aplica&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a &ndash; leva o procurador a incidir as investiga&ccedil;&otilde;es sobre &laquo;os principais respons&aacute;veis&raquo;<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>, ressuscitando, aqui, os crit&eacute;rios dos tribunais ad hoc, apesar de o Estatuto j&aacute; exigir que a a&ccedil;&atilde;o do Tribunal considere a &laquo;gravidade do crime&raquo; (Pre&acirc;mbulo e artigos 1.&ordm; e 53.&ordm; n.&ordm; 1, al&iacute;nea c))<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>.</p>     <p>Aqui, &eacute; pass&iacute;vel de ser invocado o princ&iacute;pio <em>exceptio non adimpleti contractus</em>, que determina a cessa&ccedil;&atilde;o da vig&ecirc;ncia de um tratado quando ocorre a sua inexecu&ccedil;&atilde;o por uma das partes (artigo 60.&ordm; da Conven&ccedil;&atilde;o de Viena), o que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, pode resultar na recusa de um Estado Parte em cumprir o Estatuto de Roma se entender que a discricionariedade conferida ao Tribunal para interpretar a express&atilde;o &laquo;gravidade do crime&raquo; possa servir de fundamento para afastar a aplica&ccedil;&atilde;o do Estatuto das grandes pot&ecirc;ncias ou de casos ocorridos em palcos extra-africanos.</p>     <p>Este mesmo &laquo;princ&iacute;pio da justi&ccedil;a seletiva&raquo; n&atilde;o se resume &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o alvo do TPI, antes estende-se tamb&eacute;m aos indiv&iacute;duos, ao incidir as investiga&ccedil;&otilde;es sobre um n&uacute;mero residual de personalidades &ndash; essencialmente, aqueles que exer&ccedil;am fun&ccedil;&otilde;es de comando. Questiona-se a efetividade da justi&ccedil;a e o seu car&aacute;ter dissuasor ou pedag&oacute;gico<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a> ao saber-se que os autores materiais dos crimes poder&atilde;o eximir-se &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a, mantendo-se na disponibilidade de cometerem novos crimes no futuro ou at&eacute; motivarem terceiros a organizar-se com este fim, se se considerar que o TPI apenas age quando os estados n&atilde;o querem ou n&atilde;o conseguem julgar os prevaricadores.</p>     <p>Paralelamente, ao CS &eacute; reconhecido o poder de referir situa&ccedil;&otilde;es para an&aacute;lise do TPI, apesar de o Tribunal n&atilde;o ser um produto da ONU. Tal &eacute; pass&iacute;vel de se traduzir num exerc&iacute;cio de influ&ecirc;ncia excessiva reconhecida pelo Estatuto de Roma ao CS, j&aacute; que, &agrave; luz do Estatuto, o CS tem poder para &laquo;denunciar ao procurador qualquer situa&ccedil;&atilde;o em que haja ind&iacute;cios de ter ocorrido a pr&aacute;tica de um ou v&aacute;rios (dos) crimes&raquo; previstos no Estatuto (artigo 13.&ordm; al&iacute;nea b)) e suspender os procedimentos do Tribunal, por um per&iacute;odo de 12 meses, renov&aacute;veis sem limites, bastando para tal uma &laquo;resolu&ccedil;&atilde;o aprovada nos termos do disposto no cap&iacute;tulo VII da Carta das Na&ccedil;&otilde;es Unidas&raquo; (artigo 16.&ordm;).</p>     <p>Ainda que esta situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se tenha verificado at&eacute; ao momento, tanto o Sud&atilde;o como o Qu&eacute;nia desenvolveram iniciativas diplom&aacute;ticas com vista a suspender temporariamente a a&ccedil;&atilde;o do TPI, fazendo-o pelo envolvimento de altas hierarquias dos respetivos estados nas investiga&ccedil;&otilde;es do Tribunal.</p>     <p>Este poder ser&aacute;, no m&iacute;nimo, moralmente injustificado, uma vez que estamos perante um &oacute;rg&atilde;o cuja maioria dos membros permanentes (tr&ecirc;s em cinco) n&atilde;o &eacute; parte no Estatuto<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a>. Embora a composi&ccedil;&atilde;o desequilibrada do CS resulte de uma imperfei&ccedil;&atilde;o da Carta das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, este pecado &eacute; imputado ao TPI pelo facto de os estados partes no Estatuto de Roma terem optado, voluntariamente, pela manuten&ccedil;&atilde;o de preceitos que deixam o Tribunal ref&eacute;m daquele &oacute;rg&atilde;o, quando apenas as quest&otilde;es relacionadas com o crime de agress&atilde;o poderiam colidir com a Carta.</p>     <p>Assiste-se, desta forma, a um sistema ins&oacute;lito, segundo o qual, por um lado, vigora a Conven&ccedil;&atilde;o de Viena sobre o direito dos tratados, cabendo aos estados que sejam partes no Estatuto de Roma a tomada de decis&atilde;o no &acirc;mbito deste instrumento; por&eacute;m, por outro lado, vigora um sistema paralelo sustentado na Carta das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, como se de uma constitui&ccedil;&atilde;o universal se tratasse, emergindo a a&ccedil;&atilde;o do CS como uma esp&eacute;cie de garante do cumprimento da legalidade, n&atilde;o no &acirc;mbito jur&iacute;dico, mas meramente pol&iacute;tico, comprometendo a efic&aacute;cia do direito internacional. Afinal, estados que fazem quest&atilde;o de se imiscuir na jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal podem decidir que outros sejam a ele conduzidos mesmo que tenham igualmente decidido n&atilde;o reconhecer esta autoridade? E quem disp&otilde;e de autoridade para referir um caso contra os cinco membros permanentes?</p>     <p>Esta realidade contribui, em larga medida, para a descredibiliza&ccedil;&atilde;o do TPI e para a qualifica&ccedil;&atilde;o do Tribunal como &laquo;colonial&raquo;<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>. Paralelamente, alimenta a campanha de afirma&ccedil;&atilde;o da soberania africana e que afasta estes estados de iniciativas e instrumentos n&atilde;o africanos como forma de afirma&ccedil;&atilde;o da soberania que combata, entre outros, a opini&atilde;o de conceituados juristas como Robert H. Jackson, que sustenta que &laquo;os Estados africanos s&atilde;o artefactos jur&iacute;dicos de um sistema bastante flex&iacute;vel de pol&iacute;tica e direito internacional que consiste na express&atilde;o de uma ideologia de autodetermina&ccedil;&atilde;o anticolonial do s&eacute;culo XX&raquo;<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Simultaneamente, apesar de os procuradores insistirem em piscar o olho a outros palcos, sobretudo sul-americanos, &eacute; certo que os casos at&eacute; agora visados pelo Tribunal incidem praticamente apenas naqueles ocorridos no continente africano, desencadeando o agravamento das hostilidades destes estados, como um todo, contra o Tribunal.</p>     <p>Por outro lado, importa n&atilde;o esquecer que, se China e R&uacute;ssia procuram demarcar-se dos poderes que o Estatuto de Roma lhes reserva, enquanto membros permanentes do Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU &ndash; manifestando-se contra quaisquer a&ccedil;&otilde;es do TPI que sejam entendidas como atos de inger&ecirc;ncia na situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica interna dos estados &ndash;, n&atilde;o &eacute; menos verdade que os Estados Unidos insistem em pressionar outros estados, sobretudo africanos, a colaborarem com A Haia, quando a posi&ccedil;&atilde;o norte-americana tem sido marcadamente hostil face ao Estatuto de Roma.</p>     <p>Depois da campanha em favor do TPI, sustentando que seria um instrumento importante para reduzir a viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos em estados e, consequentemente, a necessidade de interven&ccedil;&otilde;es humanit&aacute;rias, os Estados Unidos alteraram radicalmente a sua postura para com o Tribunal e votaram contra o Estatuto de Roma. Viriam a assin&aacute;-lo, posteriormente, a 31 de dezembro de 2000 &ndash; &uacute;ltimo dia para o poder fazer e garantir o estatuto de observador, sem proceder &agrave; sua confirma&ccedil;&atilde;o &ndash;, de modo a que qualquer administra&ccedil;&atilde;o futura fosse livre de reavaliar o posicionamento de Washington face ao TPI sem ser for&ccedil;ada a ratificar o Estatuto de Roma.</p>     <p>Paralelamente, foi tamb&eacute;m aprovado o &laquo;American Servicemembers Protection Act&raquo; (ASPA), um diploma de 7 de dezembro de 2001, que, n&atilde;o s&oacute; veta a possibilidade de colabora&ccedil;&atilde;o de qualquer &oacute;rg&atilde;o interno com o TPI, como prev&ecirc; a cessa&ccedil;&atilde;o do apoio militar a estados que se recusem a celebrar acordos bilaterais com os Estados Unidos para impedir a deten&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os norte-americanos sem o consentimento de Washington.</p>     <p>Esta tend&ecirc;ncia de as grandes pot&ecirc;ncias se recusarem a ser partes no Estatuto de Roma justifica-se com o facto de se tratar de atores ativos em v&aacute;rios palcos geopol&iacute;ticos, pretendendo evitar a aplica&ccedil;&atilde;o de um instrumento que n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o refor&ccedil;a os poderes de que disp&otilde;em em sede de CS, como potencia a ocorr&ecirc;ncia de tentativas de responsabiliza&ccedil;&atilde;o por parte dos restantes estados ou do pr&oacute;prio Tribunal.</p>     <p>Se estes casos constituem exemplos de resist&ecirc;ncia passiva, outros h&aacute; que s&atilde;o situa&ccedil;&otilde;es de resist&ecirc;ncia ativa, como o comportamento dos estados africanos e dos isl&acirc;micos, que, como forma de afastar a aplica&ccedil;&atilde;o da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos, criaram e adotaram instrumentos adequados &agrave;s respetivas realidades, como a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e a Declara&ccedil;&atilde;o de Direitos do Homem do Isl&atilde;o<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a>.</p>     <p>Assinala-se ainda a fragilidade do Tribunal, que, por um lado, obriga ao cumprimento incondicional do Estatuto de Roma (artigo 12.&ordm;, n.&ordm; 3), mas, por outro, admite a celebra&ccedil;&atilde;o de acordos bilaterais que permitem eximir os cidad&atilde;os de um Estado &agrave; responsabilidade do TPI. Assim, os Estados Unidos t&ecirc;m ido mais longe para garantir que o Estatuto de Roma nunca ser&aacute; aplic&aacute;vel ao pa&iacute;s: Washington insiste na celebra&ccedil;&atilde;o de acordos bilaterais de n&atilde;o transfer&ecirc;ncia de cidad&atilde;os norte-americanos para o TPI, ao abrigo do n.&ordm; 2 do artigo 98.&ordm; do Estatuto<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a>.</p>     <p>Tal op&ccedil;&atilde;o n&atilde;o constitui um reconhecimento da jurisdi&ccedil;&atilde;o do TPI aos Estados Unidos, antes trata-se de uma manobra preventiva com o objetivo de evitar que estados partes no Estatuto de Roma ousem cumprir os seus deveres com o Tribunal e entreguem cidad&atilde;os norte-americanos que o TPI pretenda julgar, j&aacute; que a a&ccedil;&atilde;o d&rsquo;A Haia n&atilde;o exclui nacionalidades se a situa&ccedil;&atilde;o sob investiga&ccedil;&atilde;o tiver ocorrido no territ&oacute;rio de um Estado Parte ou de um terceiro Estado que tenha solicitado a a&ccedil;&atilde;o do Tribunal.</p>     <p>N&atilde;o menos importante &eacute; o facto de o cumprimento das decis&otilde;es do TPI estar ref&eacute;m do <em>animus</em> dos estados, nem sempre dispostos a colaborar incondicionalmente, dada a aus&ecirc;ncia dos meios coercivos necess&aacute;rios para prosseguir os seus fins com efici&ecirc;ncia, nomeadamente for&ccedil;as de seguran&ccedil;a com jurisdi&ccedil;&atilde;o tendencialmente universal que assegurem a deten&ccedil;&atilde;o dos suspeitos em qualquer parte. Ou seja, no campo pr&aacute;tico, o TPI convive de perto com as dificuldades resultantes do facto de se tratar de um tribunal sem Estado.</p>     <p>Igual preocupa&ccedil;&atilde;o merece a prova produzida pelo TPI, desde logo, pelo papel decisivo das ONG na busca da verdade material, constituindo os documentos resultantes do seu acesso privilegiado ao terreno fontes de refer&ecirc;ncia para a atua&ccedil;&atilde;o do Tribunal, num contexto em que a prova testemunhal assume car&aacute;ter imprescind&iacute;vel e tende a n&atilde;o deixar alternativa a n&atilde;o ser confiar nos relatos apresentados quando n&atilde;o resta outra prova poss&iacute;vel.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por outro lado, a idoneidade e a imparcialidade dos julgamentos realizados com base no produto das ONG podem estar comprometidas, j&aacute; que v&aacute;rias destas entidades representam verdadeiros instrumentos de <em>soft power</em> ao servi&ccedil;o das agendas de determinados estados e interesses sem que sejam por isso responsabilizadas.</p>     <p>Concomitantemente, verifica-se uma tend&ecirc;ncia dos estados partes para utilizarem o Tribunal enquanto &laquo;arma pol&iacute;tica&raquo; ao servi&ccedil;o de personalidades que pretendem afastar rivais pol&iacute;ticos ao mesmo tempo que colhem louros junto da comunidade internacional, uma vez que a ades&atilde;o ao Estatuto de Roma tem tido como leitura o interesse do Estado signat&aacute;rio em proteger os direitos humanos.</p>     <p>Simultaneamente, &eacute; evidente o conflito resultante da ambiguidade entre a complementaridade substantiva do TPI face aos estados &ndash; independentemente da pena que apliquem aos crimes, por mais simb&oacute;lica que esta seja &ndash; e a poss&iacute;vel viola&ccedil;&atilde;o deste princ&iacute;pio se o Tribunal &laquo;entender&raquo; que aqueles pretendem &laquo;subtrair o arguido &agrave; sua responsabilidade criminal por crimes da compet&ecirc;ncia do Tribunal&raquo; (artigo 20.&ordm;, n.&ordm; 3, al&iacute;nea a)) ou que o julgamento dos tribunais nacionais &laquo;n&atilde;o tenha sido conduzido de forma independente e imparcial (&hellip;) ou tenha sido conduzido de maneira a que (&hellip;) se revele incompat&iacute;vel com a inten&ccedil;&atilde;o de submeter a pessoa &agrave; a&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a&raquo; (al&iacute;nea b).</p>     <p>Sabendo-se que a justi&ccedil;a pode ser relativa<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a>, tendo mesmo inclu&iacute;do, em casos ocorridos num passado recente, o envolvimento de comiss&otilde;es de justi&ccedil;a alternativa de car&aacute;ter transit&oacute;rio ou meramente reconciliat&oacute;rio<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a>, desconhecem-se os padr&otilde;es utilizados pelo TPI no estabelecimento de limites que tornem estes crit&eacute;rios mais exatos e menos aptos a instrumentaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.</p>     <p>Finalmente, as fragilidades do TPI s&atilde;o ainda expostas pelas lacunas normativas, algumas delas graves, sobre um conjunto de normas que se pretendem inovadoras e protetoras dos direitos humanos. Em concreto, estas defici&ecirc;ncias prejudicam os direitos do arguido ao n&atilde;o preverem solu&ccedil;&atilde;o para quest&otilde;es como o prazo m&aacute;ximo de pris&atilde;o preventiva<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a> ou o destino a dar ao indiv&iacute;duo ao qual seja concedida liberdade provis&oacute;ria, fazendo depender esta liberta&ccedil;&atilde;o da disponibilidade dos estados.</p>     <p>Com efeito, esta situa&ccedil;&atilde;o ocorreu de forma ins&oacute;lita e censur&aacute;vel durante o per&iacute;odo de deten&ccedil;&atilde;o provis&oacute;ria de Jean-Pierre Bemba, no &acirc;mbito da &laquo;Situa&ccedil;&atilde;o na Rep&uacute;blica Centro-Africana&raquo;, no qual, a 14 de agosto de 2009, e findos 13 meses de deten&ccedil;&atilde;o, a magistrada Ekaterina Trendafilova acedeu ao pedido de liberdade provis&oacute;ria do ent&atilde;o arguido, &agrave; luz do artigo 119.&ordm; das Regras de Processo. Por&eacute;m, o ato da magistrada seria recusado pela sec&ccedil;&atilde;o de recurso por, entre outros motivos, n&atilde;o ter sido identificado nenhum Estado que se mostrasse dispon&iacute;vel para receber o antigo Vice-Presidente da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo no seu territ&oacute;rio, permanecendo este, assim, detido.</p>     <p>O mesmo problema coloca-se no sentido oposto, pois o artigo 107.&ordm;, n.&ordm; 1, do Estatuto de Roma obriga um Estado Parte a aceitar a transfer&ecirc;ncia de um condenado para o seu territ&oacute;rio depois de cumprida a pena, o que entendemos constituir uma viola&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio de soberania dos estados ao pronunciar-se sobre quest&otilde;es que v&atilde;o para l&aacute; do direito internacional penal e humanit&aacute;rio, impondo condi&ccedil;&otilde;es aos estados no que respeita ao acolhimento de estrangeiros no seu territ&oacute;rio.</p>     <p>Outra quest&atilde;o coloca-se com o artigo 60.&ordm;, n.&ordm; 4, do Estatuto de Roma. Afinal, o que se entende por &laquo;deten&ccedil;&atilde;o prolongada&raquo;? Quais s&atilde;o os limites temporais a um crit&eacute;rio t&atilde;o vago? N&atilde;o deixa de chocar que at&eacute; hoje o entendimento deste conceito dependa do bom senso e da disponibilidade de um Estado para receber o suspeito.</p>     <p>Finalmente, apesar de o artigo 72.&ordm; do Estatuto pretender limitar a colabora&ccedil;&atilde;o dos estados com o Tribunal quando tal possa afetar a sua seguran&ccedil;a nacional, este preceito poder&aacute; ser utilizado como instrumento de prote&ccedil;&atilde;o de interesses por parte daqueles que pretendam influenciar o rumo das investiga&ccedil;&otilde;es. Este poss&iacute;vel problema &eacute; comum a todos os estados, mas destacamos aqui os africanos, que, n&atilde;o raras vezes, fazem uma interpreta&ccedil;&atilde;o amb&iacute;gua de conceitos como terrorismo, subvers&atilde;o e seguran&ccedil;a nacional.</p>     <p>Como nota final, acrescente-se que o <em>soft power</em> n&atilde;o se resume &agrave; a&ccedil;&atilde;o das ONG. Os estados, enquanto partes no Estatuto de Roma e sempre suscet&iacute;veis a influ&ecirc;ncias externas, acabam por condicionar a a&ccedil;&atilde;o do TPI, em &uacute;ltimo caso, por via de altera&ccedil;&otilde;es aos instrumentos normativos que norteiam a atividade do Tribunal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Importa, neste caso, recordar a Assembleia dos Estados Partes no Estatuto de Roma realizada entre 20 e 28 de novembro de 2013, em que foram aprovadas oito resolu&ccedil;&otilde;es, incluindo a que rev&ecirc; as Regras de Procedimento e de Prova, quer alterando os artigos 68.&ordm; (Declara&ccedil;&otilde;es para mem&oacute;ria futura) e 100.&ordm; (Local dos atos), quer aditando os novos artigos 134.&ordm;bis (Presen&ccedil;a do arguido atrav&eacute;s de videoconfer&ecirc;ncia), 134.&ordm;ter (Dispensa de presen&ccedil;a em julgamento) e 134.&ordm;quater (Dispensa de presen&ccedil;a em julgamento por deveres p&uacute;blicos extraordin&aacute;rios).</p>     <p>Ora, a grande maioria destas altera&ccedil;&otilde;es teve uma motiva&ccedil;&atilde;o n&atilde;o anunciada publicamente e que s&oacute; foi conhecida em c&iacute;rculos diplom&aacute;ticos restritos: adaptar o TPI aos circunstancialismos pol&iacute;ticos de Uhuru Kenyatta e William Ruto (Presidente e Vice-Presidente do Qu&eacute;nia), que corriam o risco de suspender fun&ccedil;&otilde;es para responderem n&rsquo;A Haia no &acirc;mbito da &laquo;situa&ccedil;&atilde;o no Qu&eacute;nia&raquo;, o que, no futuro, poderia trazer consequ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas para duas personalidades &ndash; em particular Kenyatta &ndash; que gozavam de reputa&ccedil;&atilde;o apreciavelmente positiva junto da generalidade da comunidade internacional.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>CONCLUS&Otilde;ES E AN&Aacute;LISE PROSPETIVA</strong></p>     <p>No espa&ccedil;o de 15 anos, a a&ccedil;&atilde;o do TPI resultou na condena&ccedil;&atilde;o de quatro pessoas (Germain Katanga, Thomas Lubanga, Jean-Pierre Bemba e Ahmad Al Faqi Al Mahdi), na absolvi&ccedil;&atilde;o de uma (Mathieu Ngudjolo Chui), na n&atilde;o pron&uacute;ncia de tr&ecirc;s (Bahar Idris, Abu Garda e Callixte Mbarushimana) e no arquivamento das investiga&ccedil;&otilde;es contra outras tr&ecirc;s (Uhuru Kenyatta, William Ruto e Joshua Arap Sang).</p>     <p>Entre os casos julgados pelo TPI encontram-se feitos in&eacute;ditos da justi&ccedil;a internacional como a investiga&ccedil;&atilde;o e julgamento de viol&ecirc;ncia perpetrada em contexto eleitoral (Qu&eacute;nia), a condena&ccedil;&atilde;o por ataques contra patrim&oacute;nio hist&oacute;rico e religioso (Mali) e as iniciativas contra um chefe de Estado em exerc&iacute;cio (Sud&atilde;o/Darfur). &Eacute; ainda ineg&aacute;vel que, com o TPI, a justi&ccedil;a pode hoje chegar a localidades remotas onde at&eacute; um passado muito recente reinava a impunidade e a descren&ccedil;a no sistema de justi&ccedil;a.</p>     <p>Todavia, as fragilidades evidenciadas pelo TPI t&ecirc;m justificado a revolta de estados que manifestam a sua insatisfa&ccedil;&atilde;o pela instrumentaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica feita pelo Tribunal. &Eacute; neste contexto que diversos estados africanos t&ecirc;m insistido em expressar a sua insatisfa&ccedil;&atilde;o face &agrave; dualidade de crit&eacute;rios demonstrada por A Haia. Esta corrente conheceu recentemente um novo impulso com o an&uacute;ncio de retirada do Estatuto de Roma por parte da &Aacute;frica do Sul e do Burundi, adensando-se as d&uacute;vidas sobre a posi&ccedil;&atilde;o a adotar por Nam&iacute;bia, Chade, Uganda e Filipinas. A justi&ccedil;a internacional &ndash; que se traduz num modelo do que Hedley Bull apelidou de &laquo;justi&ccedil;a cosmopolita&raquo;<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a> &ndash; est&aacute; em crise e pode ter o seu futuro em risco.</p>     <p>Apesar do quadro atual, n&atilde;o &eacute; expect&aacute;vel uma tomada de posi&ccedil;&atilde;o massificada de retirada do Estatuto de Roma no curto e no m&eacute;dio prazo, uma vez que a posi&ccedil;&atilde;o da generalidade dos estados partes continua a ser, claramente, a de confian&ccedil;a no Tribunal. Uma a&ccedil;&atilde;o destas, tendo em considera&ccedil;&atilde;o o anteriormente dito, tender&aacute; a ser determinada por fatores que permitam concluir que o poder pol&iacute;tico dominante num determinado Estado correr&aacute; mais riscos de garantir a sua continuidade caso permane&ccedil;a como Estado Parte no TPI. At&eacute; que tal aconte&ccedil;a, ser&aacute; de esperar que o comportamento mais racional a seguir por um Estado vise a resist&ecirc;ncia ao cumprimento dos seus compromissos com o Tribunal e reconhe&ccedil;a prioridade a &oacute;rg&atilde;os regionais, uma vez que um cen&aacute;rio de incumprimento poucas consequ&ecirc;ncias pr&aacute;ticas acarreta.</p>     <p>Com efeito, o incumprimento das obriga&ccedil;&otilde;es resultantes do Estatuto de Roma poder&aacute; ter como consequ&ecirc;ncias repres&aacute;lias pol&iacute;ticas ou a&ccedil;&otilde;es por responsabilidade internacional junto do Tribunal Internacional de Justi&ccedil;a. Entre cumprir o Estatuto de Roma e privilegiar as rela&ccedil;&otilde;es com terceiros estados, a escolha parece ser relativamente f&aacute;cil, prevalecendo a realpolitik.</p>     <p>Em suma, apesar de a justi&ccedil;a internacional ter dado alguns (poucos) sinais daquilo que dela se pode esperar, a forma como se tem revelado lan&ccedil;a d&uacute;vidas quanto &agrave; amplitude e &agrave; defini&ccedil;&atilde;o do conceito de justi&ccedil;a internacional quando muitos respons&aacute;veis por atrocidades cometidas globalmente permanecem por julgar e o pr&oacute;prio conceito de justi&ccedil;a est&aacute; ref&eacute;m da vontade dos estados, que insistem em alterar o seu posicionamento e at&eacute; as regras do jogo em fun&ccedil;&atilde;o dos seus interesses, alheios, por vezes, aos interesses da humanidade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste quadro, os 15 primeiros anos do TPI resultaram num crescente aumento da press&atilde;o sobre o Tribunal, perspetivando-se que entre numa fase cr&iacute;tica durante a qual ser&aacute; chamado a responder a situa&ccedil;&otilde;es ocorridas noutros continentes que n&atilde;o os africanos e contra atores habitualmente vistos como intoc&aacute;veis e considerados &laquo;cisnes negros&raquo;. Em conclus&atilde;o, o Tribunal atingiu um ponto de n&atilde;o retorno,&nbsp;onde&nbsp;dificilmente ter&aacute; outra alternativa que n&atilde;o seja a de avan&ccedil;ar com as investiga&ccedil;&otilde;es a casos como o Afeganist&atilde;o e a Palestina &ndash; processos nos quais est&aacute; em causa a a&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos e de Israel, dois atores tremendamente influentes e at&eacute; agora imunes &agrave; justi&ccedil;a internacional &ndash;, uma vez que tal teria como efeito demonstrar for&ccedil;a e imparcialidade, algo que os estados africanos consideram uma miragem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>BIBLIOGRAFIA</strong></p>     <p>BADAR, Mohamed Elewa &ndash; &laquo;Islamic law (Sharia) and the jurisdiction of the International Criminal Court&raquo;. In <em>Leiden Journal of International Law</em>. Holanda. Vol. 24, N.&ordm; 2, 2011, pp. 411-433.</p>     <p>BASSIOUNI, M. Cherif &ndash; <em>Crimes Against Humanity: Historical Evolution and Contemporary Application.</em> Estados Unidos: Cambridge University Press, 2011.</p>     <p>BRITO, Wladimir <em>&ndash; Direito Internacional P&uacute;blico</em>. Coimbra: Coimbra Editora, 2008.</p>     <p>BRITO, Wladimir &ndash; &laquo;Processo penal internacional&raquo;. In <em>Que Futuro Para o Direito Processual Penal &ndash; Simp&oacute;sio em Homenagem a Jorge de Figueiredo Dias, por ocasi&atilde;o dos 20 Anos do C&oacute;digo de Processo Penal Portugu&ecirc;s. </em>Coimbra: Coimbra Editora, 2009.</p>     <p>BULL, Hedley &ndash; <em>The Anarchical Society: A Study of Order in World Politics</em>. 3.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Nova York: Palgrave, 2002</p>     <p>CLARKE, Kamari Maxine &ndash; <em>Fictions of Justice: The International Criminal Court and the Challenge of Legal Pluralism in Sub-Saharan Africa</em>. Nova York: Cambridge University Press, 2009.</p>     <p>DADRIAN, Vahakn N. &ndash; &laquo;Genocide as a problem of national and international law: the World War I Armenian case and its contemporary legal ramifications&raquo;. In <em>The Yale Journal of International Law. </em>Vol. 14, N.&ordm; 2, ver&atilde;o de 1989.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>DORIA, Jos&eacute;, GASSER, Hans-Peter, e BASSIOUNI, M. Cherif (eds.) &ndash; <em>The Legal Regime of the International Criminal Court: Essays in Honour of Professor Igor Blishchenko. </em><em>International Humanitarian Law Series.</em> Vol. 19. Leida: Martinus Nijhoff, 2009.</p>     <p>ESCARAMEIA, Paula &ndash; <em>O Direito Internacional P&uacute;blico nos Princ&iacute;pios do S&eacute;culo XXI.</em> Coimbra: Almedina, 2009.</p>     <p>FISHER, Kirsten J., e ESTEWART, Robert &ndash; <em>Transitional Justice and the Arab Spring</em>. Nova York/Oxon: Routledge, 2014.</p>     <p>FORSYTHE, David P. &ndash; <em>Human Rights in International Relations</em>. 2.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.</p>     <p>GUERREIRO, Alexandre &ndash; <em>A Resist&ecirc;ncia dos Estados Africanos &agrave; Jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal Penal Internacional</em>. Coimbra: Almedina, 2012.</p>     <p>GUERREIRO, Alexandre &ndash; &laquo;Interven&ccedil;&atilde;o militar na S&iacute;ria e o Conselho de Seguran&ccedil;a das Na&ccedil;&otilde;es Unidas: Obligatio erga omnes ou a descredibiliza&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es internacionais?&raquo;. In <em>O Direito</em>. Coimbra. Vol. iv, Ano 147.&ordm;, 2015.</p>     <p>JACKSON, Robert H. &ndash; &laquo;Quasi-states, dual regimes, and neoclassical theory: international jurisprudence and the Third World&raquo;. In <em>International Organization</em>. Vol. 41. N.&ordm; 4, setembro de 1987.</p>     <p>KOPYLOVA, Ekaterina A. &ndash; <em>The Offence of Giving False Testimony under Solemn Declaration in the Rome Statute. </em>(Consultado em: 22 de mar&ccedil;o de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://link.springer.com/article/10.1007/s10609-017-9301-3" target="_blank" rel="noopener">http://link.springer.com/article/10.1007/s10609-017-9301-3</a>.</p>     <p>LAUTERBACH, Claire &ndash; &laquo;Commitment to the International Criminal Court among sub-Saharan African states&raquo;. In <em>Eyes on the ICC.</em> Nova York. Vol. 5, N.&ordm; 1, s. d.</p>     <p>MORENO-OCAMPO, Lu&iacute;s &ndash; I<em>nformal meeting of Legal Advisors of Ministries of Foreign Affairs. </em>(Consultado em: 22 de mar&ccedil;o de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.ICC-cpi.int/NR/rdonlyres/9D70039E-4BEC-4F32-9D4A-CEA8B6799E37/143836/LMO_%2020051024_English.pdf" target="_blank" rel="noopener">https://www.ICC-cpi.int/NR/rdonlyres/9D70039E-4BEC-4F32-9D4A-CEA8B6799E37/143836/LMO_</a><a href="https://www.ICC-cpi.int/NR/rdonlyres/9D70039E-4BEC-4F32-9D4A-CEA8B6799E37/143836/LMO_%2020051024_English.pdf" target="_blank" rel="noopener"> 20051024_English.pdf</a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>NOWAK, Andrew &ndash; <em>The International Criminal Court: An Introduction</em>. Su&iacute;&ccedil;a: Springer, 2015.</p>     <p>P&Uacute;BLICO &ndash; &laquo;Quando h&aacute; crimes em massa n&atilde;o se pode condenar toda a gente&raquo;. (Consultado em: 22 de mar&ccedil;o de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.publico.pt/mundo/jornal/quando-ha-crimes-em-massa-nao--se-pode-condenar-toda-a-gente%2070804" target="_blank" rel="noopener">http://www.publico.pt/mundo/jornal/quando-ha-crimes-em-massa-nao--se-pode-condenar-toda-a-gente</a><a href="http://www.publico.pt/mundo/jornal/quando-ha-crimes-em-massa-nao--se-pode-condenar-toda-a-gente%2070804" target="_blank" rel="noopener"> 70804</a>.</p>     <p>RAIMUNDO, Filipa &ndash; &laquo;A justi&ccedil;a de transi&ccedil;&atilde;o e a mem&oacute;ria do autoritarismo em Portugal&raquo;. In <em>Revista Contempor&acirc;nea &ndash; dossi&ecirc; redemocratiza&ccedil;&otilde;es e transi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas no mundo contempor&acirc;neo.</em> Vol. 1, N.&ordm; 7, Ano 5, 2015.</p>     <p>ROACH, Steven C. &ndash; &laquo;Arab states and the role of Islam in the International Criminal Court&raquo;. In <em>Political Studies</em>. Vol. 53, N.&ordm; 1, 2005.</p>     <p>ROACH, Steven C. (ed.) &ndash; <em>Governance, Order, and the International Criminal Court: Between Realpolitik and a Cosmopolitan Court</em>. Nova York: Oxford University Press, 2009.</p>     <p>SCHABAS, William A. &ndash; <em>An Introduction to the International Criminal Court</em>. 4.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Nova York: Cambridge University Press, 2011.</p>     <p>SCHIFF, Benjamin N. &ndash; <em>Building the International Criminal Court</em>. Nova York: Cambridge University Press, 2008.</p>     <p>SCHWARZENBERGER, Georg &ndash; <em>A Manual of International Law</em>. 25.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Londres: Stevens &amp; Sons, 1967.</p>     <p>SZABLEWSKA, Natalia, e BACHMANN, Sascha-Dominik (eds.) &ndash; <em>Current Issues in Transitional Justice: Towards a More Holistic Approach</em>. Su&iacute;&ccedil;a: Springer, 2015.</p>     <p>TEITEL, Ruti G. &ndash; <em>Globalizing Transitional Justice: Contemporary Essays</em>. Nova York: Oxford University Press, 2014.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>TRIFFTERER, Otto, e AMBOS, Kai (eds.) &ndash; <em>The Rome Statute of the International Criminal Court: A Commentary</em>. 3.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Reino Unido: Beck-Hart-Nomos, 2015.</p>     <p>VIEBIG, Petra &ndash; <em>Illicitly Obtained Evidence at the International Criminal Court</em>. A Haia: Springer, 2016.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 6 de mar&ccedil;o de 2017 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 29 de maio de 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Al&eacute;m das decis&otilde;es individuais, importa recordar as tomadas de posi&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel regional, como &eacute; o caso da Uni&atilde;o Africana, cuja Assembleia j&aacute; adotou, at&eacute; ao momento, 15 decis&otilde;es no sentido de condenar ou boicotar a a&ccedil;&atilde;o do TPI.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Cf. GUERREIRO, Alexandre &ndash; <i>A Resist&ecirc;ncia dos Estados Africanos &agrave; Jurisdi&ccedil;&atilde;o do Tribunal Penal Internacional</i>. Coimbra: Almedina, 2012, p. 21.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Cf. ZIMMERMAN, Andreas &ndash; &laquo;Article 5&raquo;. In TRIFFTERER, Otto, e AMBOS, Kai (eds.) &ndash; <i>The Rome Statute of the International Criminal Court: A Commentary</i>. 3.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Reino Unido: Beck-Hart-Nomos, 2015, p. 115.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Cf. SCHABAS, William A. &ndash; <i>An Introduction to the International Criminal Court</i>. 4.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Nova York: Cambridge University Press, 2011, p. 4.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Ibidem, p. 5.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Neste sentido, MORENO-OCAMPO, Luis &ndash; &laquo;Preface&raquo;. In DORIA, Jos&eacute;, GASSER, Hans-Peter, e BASSIOUNI, M. Cherif (eds.) &ndash; <i>The Legal Regime of the International Criminal Court: Essays in Honour of Professor Igor Blishchenko</i>. International Humanitarian Law Series. Vol. 19. Leida: Martinus Nijhoff, 2009, p. xv.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Cf. KIRSCH, Philippe &ndash; &laquo;Foreword II&raquo;. In DORIA, Jos&eacute;, GASSER, Hans-Peter, e BASSIOUNI, M. Cherif (eds.) &ndash; <i>The Legal Regime of the International Criminal Cour</i>, p. ix.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Cf. SCHIFF, Benjamin N. &ndash; <i>Building the International Criminal Court</i>. Nova York: Cambridge University Press, 2008, p. 31.</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Neste sentido, cf. LAUTERBACH, Claire &ndash; &laquo;Commitment to the International Criminal Court among sub-Saharan African states&raquo;. In <i>Eyes on the ICC</i>. Nova York. Vol. 5, N.&ordm; 1, s. d., pp. 85-124.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Cf. GUERREIRO, Alexandre &ndash; <i>A Resist&ecirc;ncia dos Estados Africanos</i>, p. 47.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Cf. BADAR, Mohamed Elewa &ndash; &laquo;Islamic law (Sharia) and the jurisdiction of the International Criminal Court&raquo;. In <i>Leiden Journal of International Law</i>. Holanda. Vol. 24, N.&ordm; 2, 2011, pp. 411-433.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Neste sentido, cf. KELLY, Michael J. &ndash; &laquo;Islam &amp; international criminal law: a brief (in) compatibility study&raquo;. In <i>Pace International Law Review Online Companion. Estados Unidos.</i> Vol. 1, N.&ordm; 8, mar&ccedil;o de 2010; BADAR, Mohamed Elewa &ndash; &laquo;Islamic law (Sharia) and the jurisdiction of the International Criminal Court&raquo;, pp. 411-433.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Deste modo, cf. SCHABAS, William A.,e EPECORELLA, Giulia &ndash; &laquo;Article 12&raquo;. In TRIFFTERER, Otto, e AMBOS, Kai (eds.) &ndash; <i>The Rome Statute of the International Criminal Court: A Commentary</i>. 3.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Reino Unido: Beck-Hart-Nomos, 2015, p. 689.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Os magistrados que comp&otilde;em a estrutura organizacional do TPI variam em fun&ccedil;&atilde;o do cumprimento dos mandatos respetivos e com base em regras de proporcionalidade geogr&aacute;fica e de g&eacute;nero, garantindo-se sempre a operacionalidade do Tribunal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Cf. ESCARAMEIA, Paula &ndash; <i>O Direito Internacional P&uacute;blico nos Princ&iacute;pios do S&eacute;culo XXI</i>. Coimbra: Almedina, 2009, p. 166.</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Cf. BRITO, Wladimir &ndash; <i>Direito Internacional P&uacute;blico</i>. Coimbra: Coimbra Editora, 2008, pp. 559-563.</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> A imunidade dos chefes de Estado era um dogma ainda na d&eacute;cada de 1960. Georg Schwarzenberger, por exemplo, reconhecia que &laquo;um Chefe de Estado em desloca&ccedil;&atilde;o ao estrangeiro tem direito a usufruir de total imunidade da jurisdi&ccedil;&atilde;o local em qualquer pa&iacute;s que visite e qualquer edif&iacute;cio por ele ocupado torna-se extraterritorial durante o per&iacute;odo de perman&ecirc;ncia&raquo;. Cf. SCHWARZENBERGER, Georg &ndash; <i>A Manual of International Law</i>. 25.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Londres: Stevens &amp; Sons, 1967, p. 81.</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> Neste sentido, cf. ESCARAMEIA, Paula &ndash; <i>O Direito Internacional P&uacute;blico</i>, pp. 171-174.</p>     <p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> As situa&ccedil;&otilde;es em apre&ccedil;o dizem respeito ao Afeganist&atilde;o, ao Burundi, &agrave; Col&ocirc;mbia, ao Gab&atilde;o, &agrave; Guin&eacute; Conacri, ao Iraque, &agrave; Nig&eacute;ria, &agrave; Palestina, &agrave; Ucr&acirc;nia e aos navios com bandeira das Ilhas Comoros, da Gr&eacute;cia e do Camboja.</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> Cf. P&Uacute;BLICO &ndash; &laquo;Quando h&aacute; crimes em massa n&atilde;o se pode condenar toda a gente&raquo;. (Consultado em: 22 de mar&ccedil;o de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.publico.pt/mundo/jornal/quando-ha-crimes-em-massa-nao--se-pode-condenar-toda-a-gente70804" target="_blank" rel="noopener">http://www.publico.pt/mundo/jornal/quando-ha-crimes-em-massa-nao--se-pode-condenar-toda-a-gente70804</a>.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> Cf. MORENO-OCAMPO, Lu&iacute;s &ndash; <i>Informal meeting of Legal Advisors of Ministries of Foreign Affairs</i>. (Consultado em: 22 de mar&ccedil;o de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.ICC-cpi.int/NR/rdonlyres/9D70039E-4BEC-4F32-9D4A-CEA8B6799E37/%20143836/LMO_20051024_English.pdf" target="_blank" rel="noopener">https://www.ICC-cpi.int/NR/rdonlyres/9D70039E-4BEC-4F32-9D4A-CEA8B6799E37/</a><a href="https://www.ICC-cpi.int/NR/rdonlyres/9D70039E-4BEC-4F32-9D4A-CEA8B6799E37/%20143836/LMO_20051024_English.pdf" target="_blank" rel="noopener"> 143836/LMO_20051024_English.pdf</a>.</p>     <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> Recorde-se a entrevista em que Moreno-Ocampo refere que a atua&ccedil;&atilde;o do TPI assume car&aacute;ter did&aacute;tico, pois &laquo;os julgamentos ensinam (e) as pessoas aprendem&raquo;. Cf. FAVARO, Thomaz &ndash; VEJA <i>Entrevista: Luis Moreno-Ocampo</i>. (Consultado em: 22 de mar&ccedil;o de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://arquivoetc.blogspot.pt/2008/07/veja-entrevista-luis-moreno-ocampo.html" target="_blank" rel="noopener">http://arquivoetc.blogspot.pt/2008/07/veja-entrevista-luis-moreno-ocampo.html</a>.</p>     <p><Sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></Sup> Dos chamados P5 (Permanent 5), apenas Reino Unido e Fran&ccedil;a s&atilde;o partes no Estatuto de Roma. Estados Unidos, R&uacute;ssia e China recusaram fazer parte do TPI.</p>     <p><Sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></Sup> Cf. FORSYTHE, David P. &ndash; <i>Human Rights in International Relations</i>. 2.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Cambridge: Cambridge University Press, 2006, pp. 106-110.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></Sup> Assim, JACKSON, Robert H. &ndash; &laquo;Quasi-states, dual regimes, and neoclassical theory: international jurisprudence and the Third World&raquo;. In <i>International Organization</i>. Vol. 41. N.&ordm; 4, setembro de 1987, p. 519.</p>     <p><Sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></Sup> Cf. GUERREIRO, Alexandre &ndash; <i>A Resist&ecirc;ncia dos Estados Africanos</i>, pp. 105-112.</p>     <p><Sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></Sup> S&oacute; &agrave; data de hoje s&atilde;o 95 os estados que t&ecirc;m em vigor um acordo de n&atilde;o entrega com os Estados Unidos.</p>     <p><Sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></Sup> O relativismo cultural ou regionalismo faz com que o conceito de justi&ccedil;a varie, sendo mesmo reconhecida, em alguns estados, nomeadamente na Som&aacute;lia, a faculdade de escolha de aplica&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a pela v&iacute;tima ou pelos seus representantes.</p>     <p><Sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></Sup> Importa recordar que a depend&ecirc;ncia da vontade pol&iacute;tica influencia o recurso a mecanismos de justi&ccedil;a transit&oacute;ria, concorrendo para que &laquo;tanto o perd&atilde;o como o esquecimento, ou a aus&ecirc;ncia de debate pol&iacute;tico em torno destes temas, continuem a ser dominantes em algumas sociedades p&oacute;s-autorit&aacute;rias e p&oacute;s-conflito&raquo;. Neste sentido, cf. RAIMUNDO, Filipa &ndash; &laquo;A justi&ccedil;a de transi&ccedil;&atilde;o e a mem&oacute;ria do autoritarismo em Portugal&raquo;. In <i>Revista Contempor&acirc;nea &ndash; dossi&ecirc; redemocratiza&ccedil;&otilde;es e transi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas no mundo contempor&acirc;neo</i>. Vol. 1, N.&ordm; 7, Ano 5, 2015, p. 3.</p>     <p><Sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></Sup> Este ponto &eacute; t&atilde;o ou mais preocupante se se considerar o ritmo lento a que funciona a justi&ccedil;a do TPI. Recorde-se que a primeira senten&ccedil;a condenat&oacute;ria foi decretada dez anos ap&oacute;s o in&iacute;cio de fun&ccedil;&otilde;es do Tribunal. Igualmente relevante &eacute; considerar que a situa&ccedil;&atilde;o na Col&ocirc;mbia encontra-se em avalia&ccedil;&atilde;o preliminar desde 2004, concluindo-se que foi mais c&eacute;lere o processo de paz entre o Governo e as For&ccedil;as Armadas Revolucion&aacute;rias da Col&ocirc;mbia (FARC) do que a avalia&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via do Tribunal.</p>     <p><Sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></Sup> Entre outras conclus&otilde;es, Hedley Bull afirma que &laquo;o atual sistema de Estados &eacute; avesso &agrave;s no&ccedil;&otilde;es de mundo ou justi&ccedil;a cosmopolita, estando apenas recetivo a ideias seletivas e amb&iacute;guas de justi&ccedil;a individual ou humana&raquo;. Cf. BULL, Hedley &ndash; <i>The Anarchical Society: A Study of Order in World Politics</i>. 3.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Nova York: Palgrave, 2002, pp. 80-89, 139.</p>      ]]></body><back>
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