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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>O dilema&nbsp;de seguran&ccedil;a&nbsp;e a modernidade absoluta&nbsp;de Tuc&iacute;dides</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;s Lobo-Fernandes</b></p>     <p>Professor catedr&aacute;tico (aposentado) da Universidade do Minho, titular da C&aacute;tedra Jean Monnet de Integra&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica Europeia desde 2004, <i>visiting adjunct</i> professor na Universidade de Cincinnati, igualmente desde 2004, e <i>non-resident fellow</i> (anteriormente <i>Calouste Gulbenkian fellow</i>) na School of Advanced International Studies (SAIS), Johns Hopkins University, Washington, DC, desde 2010.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>GRAHAM ALLISON, <i>Destined for War: Can America and China Escape Thucydides&rsquo;s Trap?</i>, Nova York, Houghton Mifflin Harcourt, 2017, 364 p&aacute;ginas.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Est&atilde;o os Estados Unidos e a China a caminho da guerra? Encontram-se ambos os colossos enredados na chamada&nbsp;&laquo;armadilha de Tuc&iacute;dides&raquo;, definida pela ascens&atilde;o de uma pot&ecirc;ncia revolucion&aacute;ria no sistema internacional e pelo medo que desperta nas pot&ecirc;ncias estabelecidas? Em tal cen&aacute;rio, a probabilidade de guerra aumenta exponencialmente em fun&ccedil;&atilde;o da perce&ccedil;&atilde;o do rompimento da balan&ccedil;a de poder. Na sua lapidar&nbsp;Hist&oacute;ria da Guerra do Peloponeso, Tuc&iacute;dides aponta o crescimento impar&aacute;vel de Atenas como causa primeira de um conflito catastr&oacute;fico, que acabaria por levar &agrave; sua pr&oacute;pria derrota em 404 a.C. Como assinalou, Esparta reagiu com grande determina&ccedil;&atilde;o na defesa do&nbsp;<i>statu quo</i>, por receio de desvantagem perante a inseguran&ccedil;a manifesta que a ambi&ccedil;&atilde;o e as a&ccedil;&otilde;es expansionistas de Atenas provocaram. A reedi&ccedil;&atilde;o de tal cen&aacute;rio hist&oacute;rico marca hoje indelevelmente as rela&ccedil;&otilde;es internacionais. &Eacute; este o cerne do livro de Graham Allison, recentemente publicado. A obra, <i>intitulada&nbsp;Destined for War: Can America and China Escape Thucydides&rsquo;s Trap?</i>, percorre e atualiza os pressupostos enunciados pelo grande autor grego e explora os efeitos altamente destabilizadores sobre o sistema internacional decorrentes da ascens&atilde;o e crescente influ&ecirc;ncia da China, e a consequente emerg&ecirc;ncia de um inilud&iacute;vel&nbsp;<i>dilema de seguran&ccedil;a</i>&nbsp;com os Estados Unidos &ndash; conceito brilhantemente sugerido por Tuc&iacute;dides nos seus escritos. A modernidade absoluta de Tuc&iacute;dides &ndash; que n&oacute;s pr&oacute;prios temos tido ensejo de enfatizar<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>&nbsp;&ndash; assenta numa teoria da guerra baseada nos efeitos prov&aacute;veis de um grave desequil&iacute;brio de poder no sistema, ou seja, numa fort&iacute;ssima correla&ccedil;&atilde;o entre desequil&iacute;brio e a deflagra&ccedil;&atilde;o de conflitos. Nas m&atilde;os de Tuc&iacute;dides, a hist&oacute;ria &eacute; feita &agrave; escala de uma ci&ecirc;ncia dos fen&oacute;menos&nbsp;pol&iacute;ticos, de tal modo que o seu trabalho constitui um verdadeiro paradigma. O que nos est&aacute; a sugerir &eacute; que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel confinar a hist&oacute;ria ao mero relato dos factos. Esta formula&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, que viria a ser mais tarde designada genericamente de realismo, remete igualmente para as no&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas de&nbsp;&laquo;regra do interesse&raquo;&nbsp;e de&nbsp;&laquo;raz&atilde;o de Estado&raquo;, para sublinhar os dilemas perenes a que as pot&ecirc;ncias internacionais fazem face num ambiente externo hostil, que continua a ser fundamentalmente definido pela imagem de anarquia.</p>     <p>Segundo Allison, os Estados Unidos e a China poder&atilde;o evitar a confronta&ccedil;&atilde;o b&eacute;lica, mas s&oacute; se internalizarem duas verdades cruas. Primeiro, na atual trajet&oacute;ria, a guerra entre os dois &eacute; n&atilde;o s&oacute; poss&iacute;vel, mas muito mais real do que &eacute; reconhecido presentemente; em rigor, ao subestimar o perigo dessa eventualidade, os riscos aumentam. Segundo, a guerra n&atilde;o &eacute; inevit&aacute;vel. V&aacute;rios exemplos hist&oacute;ricos atestam como as grandes pot&ecirc;ncias podem&nbsp;gerir, sem recurso &agrave; solu&ccedil;&atilde;o b&eacute;lica, a rela&ccedil;&atilde;o com os principais rivais mesmo perante sinais amea&ccedil;adores. O registo dos sucessos e dos fracassos oferece importantes li&ccedil;&otilde;es para os decisores pol&iacute;ticos e os l&iacute;deres. Como se pode ler nos coment&aacute;rios l&uacute;cidos de Allison, igualmente autor de uma das mais influentes obras no dom&iacute;nio da ci&ecirc;ncia internacional dos &uacute;ltimos 50 anos &ndash;&nbsp;<i>Essence of Decision: Explaining the&nbsp;Cuban Missile Crisis</i>&nbsp;&ndash;,&nbsp;&laquo;s&oacute; os que falham no aprofundamento das circunst&acirc;ncias tr&aacute;gicas do passado est&atilde;o condenados a repeti-las&raquo;. Ora, &eacute; precisamente no estudo circunstanciado de 16 situa&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas de grave&nbsp;stress&nbsp;estrutural &ndash; como ele mesmo as designa &ndash; que o esfor&ccedil;o aturado do professor Allison &eacute; especialmente pungente para a conjuntura internacional que atravessamos. Este exerc&iacute;cio criterioso de verdadeira hist&oacute;ria aplicada revela que em 12 desses 16 processos de desafio ao poder ou &agrave; estrutura prevalecente nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais, o resultado foi a guerra, ou seja, em 75 por cento dos casos em apre&ccedil;o. N&atilde;o obstante a probabilidade de conflito aberto em epis&oacute;dios similares ser elevad&iacute;ssima, como se constata, Allison convida a refletir sobre quatro per&iacute;odos em que as resultantes n&atilde;o se traduziram em guerra: Portugal e Espanha nos finais do s&eacute;culo&nbsp;XV, Reino Unido e Estados Unidos nos in&iacute;cios do s&eacute;culo&nbsp;XX, o caso mais extremo e paradigm&aacute;tico do&nbsp;&laquo;equil&iacute;brio do terror&raquo;&nbsp;na Guerra Fria, e o cen&aacute;rio europeu p&oacute;s-1990, plasmado no desafio complexo que a reunifica&ccedil;&atilde;o da Alemanha colocava, quer &agrave; Fran&ccedil;a, quer ao Reino Unido. Nestes quatro marcos hist&oacute;ricos as pot&ecirc;ncias contempor&acirc;neas respetivas conseguiram escapar &agrave;&nbsp;&laquo;armadilha de Tuc&iacute;dides&raquo;, merecendo, assim, uma aten&ccedil;&atilde;o especial&iacute;ssima perante o caso vertente das ambi&ccedil;&otilde;es chinesas. S&atilde;o prova de que a guerra n&atilde;o &eacute; inevit&aacute;vel, como assinalado por Allison. Este &eacute;, ali&aacute;s, um ponto essencial alvo do esfor&ccedil;o anal&iacute;tico do autor e que as v&aacute;rias analogias aqui aprofundadas revelam. Historicamente, como sabemos, nos sistemas internacionais as grandes pot&ecirc;ncias &ndash; em fun&ccedil;&atilde;o do seu poder relativo &ndash; det&ecirc;m&nbsp;sempre&nbsp;a responsabilidade primordial de lideran&ccedil;a e de resposta a eventuais crises.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por isso, talvez mere&ccedil;a determo-nos um pouco mais detalhadamente no cen&aacute;rio n.&ordm; &#1639;&nbsp;explorado por Allison, a saber, o per&iacute;odo&nbsp;de finais do s&eacute;culo&nbsp;XVIII&nbsp;e princ&iacute;pios do s&eacute;culo&nbsp;XIX&nbsp;em que a Fran&ccedil;a revolucion&aacute;ria desafia abertamente a pot&ecirc;ncia ent&atilde;o dominante em terra e no mar &ndash;&nbsp;o Reino Unido. Sendo certo que a&nbsp;&laquo;afronta&raquo;&nbsp;napole&oacute;nica &agrave; lideran&ccedil;a brit&acirc;nica no plano internacional vai implicar um per&iacute;odo de guerras generalizadas no continente europeu e nos oceanos envolventes, o ciclo longo que se segue, maioritariamente de paz, requer mais de perto a nossa aten&ccedil;&atilde;o. A este prop&oacute;sito, a disserta&ccedil;&atilde;o de doutoramento de Henry Kissinger apresentada na Universidade de Harvard h&aacute; mais de 60 anos &ndash; publicada ulteriormente sob o <i>t&iacute;tulo&nbsp;A World Restored</i>&nbsp;&ndash; evidencia como a Fran&ccedil;a revolucion&aacute;ria &eacute; inserida numa nova arquitetura de seguran&ccedil;a pelas pot&ecirc;ncias europeias mais&nbsp;&laquo;conservadoras&raquo;. Com efeito, o protagonista principal do Congresso de Viena de 1814-1815 seria o chanceler austr&iacute;aco Metternich, que, juntamente com o brit&acirc;nico Castlereagh, definiram um virtuoso sistema de&nbsp;<i>balan&ccedil;a de poder&nbsp;</i>que permitiu manter a paz geral no continente durante quase um s&eacute;culo. No conhecido enunciado de Hedley Bull, este<i>&nbsp;regime</i>&nbsp;tem preenchido tr&ecirc;s fun&ccedil;&otilde;es essenciais no sistema moderno de estados: preveniu a sua captura e transforma&ccedil;&atilde;o num imp&eacute;rio universal; as balan&ccedil;as de poder regionais protegeram a independ&ecirc;ncia e autonomia dos estados; e, por &uacute;ltimo, propiciou as condi&ccedil;&otilde;es para o desenvolvimento de outras institui&ccedil;&otilde;es essenciais para a manuten&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio sistema, tais como a diplomacia, a gest&atilde;o de crises, o direito internacional, e a&nbsp;guerra&nbsp;enquanto meio leg&iacute;timo para impedir pol&iacute;ticas expansionistas ou a&ccedil;&otilde;es hostis de conquista.</p>     <p>Mas, como acomodar a nova ambi&ccedil;&atilde;o e proemin&ecirc;ncia da China? &Eacute; que o primeiro requisito para uma solu&ccedil;&atilde;o de&nbsp;&laquo;tipo Metternich&raquo;&nbsp;assentou na derrota pr&eacute;via da pot&ecirc;ncia revolucion&aacute;ria. Com efeito, foi o desastre de Napole&atilde;o na R&uacute;ssia em 1812 que propiciou os desenvolvimentos diplom&aacute;ticos ulteriores que levariam ao chamado&nbsp;&laquo;concerto de Viena&raquo;. A quest&atilde;o que emerge hoje, mais complexa, &eacute; a de saber se &eacute; poss&iacute;vel alcan&ccedil;ar, sem&nbsp;&laquo;derrota chinesa&raquo;, um arranjo diplom&aacute;tico que contemple os interesses de seguran&ccedil;a das pot&ecirc;ncias em causa. Como Kissinger sugere, na barganha diplom&aacute;tica que leva ao Congresso de Viena, o elemento essencial do novo equil&iacute;brio era que a Fran&ccedil;a renunciasse a pretens&otilde;es hegem&oacute;nicas ou mesmo a exercer influ&ecirc;ncia indevida para l&aacute; das suas fronteiras. No caso presente da China, o desafio de uma abertura diplom&aacute;tica mais ambiciosa requereria sempre a identifica&ccedil;&atilde;o dos interesses cr&iacute;ticos das pot&ecirc;ncias-chave e a localiza&ccedil;&atilde;o dos pontos de converg&ecirc;ncia e de diverg&ecirc;ncia, assumindo,&nbsp;<i>a fortiori,</i> que a raz&atilde;o prevalece em todos os lados. Ao inv&eacute;s, pode muito bem acontecer que o di&aacute;logo em curso revele a impossibilidade de atingir uma vers&atilde;o atualizada do entendimento conseguido em Viena. Tal seria mau para todas as partes, e, diga-se, para o mundo. A hist&oacute;ria mostra &ndash; tal como os casos de insucesso escalpelizados neste estudo de Allison comprovam &ndash; que se a China continuar a atuar como uma pot&ecirc;ncia&nbsp;&laquo;revolucion&aacute;ria&raquo;&nbsp;e pretender expandir e projetar o seu poder militar de forma imoderada e intimidat&oacute;ria, aparente j&aacute; na tentativa de cria&ccedil;&atilde;o de esferas de influ&ecirc;ncia, ent&atilde;o a possibilidade de uma guerra de&nbsp;<i>containment</i>&nbsp;pode estar no horizonte. Mas, esse curso de a&ccedil;&atilde;o seria, como tamb&eacute;m sugere Allison, profundamente errado da parte da China &ndash; tal como foi a decis&atilde;o insensata de Napole&atilde;o ao exacerbar as aspira&ccedil;&otilde;es francesas e marchar sobre Moscovo.</p>     <p>Numa &Aacute;sia crescentemente vestefaliana, os Estados Unidos det&ecirc;m o papel-chave de&nbsp;balanceador, mas simultaneamente s&atilde;o o mais importante aliado do Jap&atilde;o e um parceiro da China, uma situa&ccedil;&atilde;o algo compar&aacute;vel &agrave;quela em que Bismarck, que detinha um sentido apurad&iacute;ssimo do regime da balan&ccedil;a de poder, fez uma alian&ccedil;a com a &Aacute;ustria balanceada ao mesmo tempo com um tratado com a R&uacute;ssia. Paradoxalmente, foi essa&nbsp;&laquo;ambiguidade construtiva&raquo;&nbsp;&ndash; na conhecida express&atilde;o de Kissinger &ndash; que preservou a flexibilidade do equil&iacute;brio europeu. Em contrapartida, seria o seu abandono que desencadearia uma sequ&ecirc;ncia de confronta&ccedil;&otilde;es que culminariam na Primeira Guerra Mundial. Ora, uma deteriora&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sino-americanas, na qual os dois estados ca&iacute;ssem na&nbsp;&laquo;armadilha de Tuc&iacute;dides&raquo;, constituiria o mais prov&aacute;vel catalisador de um conflito de larga escala.</p>     <p>O livro de Graham Allison &eacute;, pois, de leitura imprescind&iacute;vel nas circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas presentes, na exata medida em que o plano global &eacute; cada vez mais marcado pela crescente volatilidade nos v&aacute;rios subsistemas internacionais e por novas vulnerabilidades e temores estrat&eacute;gicos.&nbsp; A sua fragmenta&ccedil;&atilde;o &eacute; um dado inilud&iacute;vel, revelador dos paradoxos de um modelo difuso, parcialmente globalizado, j&aacute; apodado de&nbsp;&laquo;era da n&atilde;o-polaridade&raquo;&nbsp;ou&nbsp;&laquo;apolaridade&raquo;, que continua a incluir assinal&aacute;veis componentes letais de cariz interestatal cl&aacute;ssico e de perdura&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder &ndash; que os dilemas revisitados neste trabalho projetam e amplificam de forma particularmente eficaz &ndash;, e a que se somam hodiernamente outras express&otilde;es mais h&iacute;bridas, patentes nos chamados conflitos de baixa intensidade e no ciberterrorismo. Afastando-se de qualquer conce&ccedil;&atilde;o do&nbsp;&laquo;fim da hist&oacute;ria&raquo;&nbsp;&ndash; a sua abordagem &eacute; c&iacute;clica, n&atilde;o linear, e n&atilde;o necessariamente progressiva &ndash;, Allison reconhece por isso a propens&atilde;o dos l&iacute;deres e dos estados em repetir os erros do passado, pelo que se torna ainda mais necess&aacute;rio aprofundar as circunst&acirc;ncias que conduziram &agrave;s maiores cat&aacute;strofes. Este poderia ser considerado o ep&iacute;tome deste excelente estudo, agora &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos especialistas e do p&uacute;blico mais atento.&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTA</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Cf. LOBO-FERNANDES, Lu&iacute;s &ndash;&nbsp;&laquo;Estudo Introdut&oacute;rio&raquo;. In<i>&nbsp;Hist&oacute;ria da Guerra do Peloponeso</i>. 1.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, 2.&ordf; impress&atilde;o. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es S&iacute;labo (Cl&aacute;ssicos do Pensamento Estrat&eacute;gico), 2015.</p>      ]]></body>
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