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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Revisitando os preditores do comportamento eleitoral em contextos de instabilidade dos sistemas partidários]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENSÃO</b></p>     <p><b>Revisitando&nbsp;os preditores&nbsp;do comportamento eleitoral&nbsp;em contextos&nbsp;de instabilidade dos sistemas partid&aacute;rios</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Vicente Valentim</b></p>     <p>Investigador do CIES-IUL, onde trabalha no projeto &laquo;Changing degrees of Europeanization? Social Movements in the Public Debate on the EU Sovereign Debt Crisis in Portugal&raquo;, sob a coordena&ccedil;&atilde;o de Britta Baumgarten e financiado pela Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (FCT). &Eacute; tamb&eacute;m aluno do segundo ano do mestrado de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica DO ISCTE-IUL. A partir de setembro, ser&aacute; aluno de doutoramento no Instituto Universit&aacute;rio Europeu, com um projeto acerca de determinantes individuais do voto populista. Antes de ingressar no mestrado, completou a licenciatura em M&uacute;sica, vertente Piano Jazz, na Escola Superior de M&uacute;sica de Lisboa, e um minor em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica na FCSH-NOVA. Os seus principais interesses de investiga&ccedil;&atilde;o s&atilde;o participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, comportamento eleitoral, movimentos sociais e populismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>DANI MARINOVA, <i>Coping&nbsp;with Complexity: How Voters Adapt&nbsp;to Unstable&nbsp;Parties,</i> Colchester: ECPR Press,&nbsp;2016, 170 p&aacute;ginas.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Coping with Complexity: How Voters Adapt to Unstable Parties</i>&nbsp;tem como objetivo compreender de que forma os eleitores lidam com a complexidade eleitoral provocada por situa&ccedil;&otilde;es de instabilidade nos sistemas partid&aacute;rios, bem como as implica&ccedil;&otilde;es desta para o papel das elei&ccedil;&otilde;es enquanto instrumento de representa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica.</p>     <p>Para cumprir estes objetivos, o livro est&aacute; dividido em sete cap&iacute;tulos. A introdu&ccedil;&atilde;o apresenta o objeto e objetivo do estudo, a sua relev&acirc;ncia social e acad&eacute;mica, os m&eacute;todos em que se basear&atilde;o os seus cap&iacute;tulos emp&iacute;ricos e a sua organiza&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O segundo cap&iacute;tulo apresenta o quadro te&oacute;rico que servir&aacute; de base &agrave;s an&aacute;lises emp&iacute;ricas do livro. As elei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o aqui concebidas como&nbsp;<i>information environments,</i> que determinam a quantidade e claridade de informa&ccedil;&atilde;o acerca de uma dada elei&ccedil;&atilde;o que os eleitores t&ecirc;m &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o e, consequentemente, o papel que essa informa&ccedil;&atilde;o desempenha na tomada de decis&otilde;es eleitorais. A autora considera os partidos como centrais para determinar a forma atrav&eacute;s da qual a informa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; veiculada aos eleitores, desempenhando a fun&ccedil;&atilde;o fulcral de estruturar o conflito pol&iacute;tico em torno de alternativas eleitorais coerentes, assim reduzindo os custos cognitivos do acesso a informa&ccedil;&atilde;o. No entanto, se a maior parte da literatura assume que a capacidade dos partidos de cumprir essa fun&ccedil;&atilde;o se mant&eacute;m inalterada de uma elei&ccedil;&atilde;o para outra, Marinova argumenta que, quando os sistemas partid&aacute;rios sofrem altera&ccedil;&otilde;es profundas, os partidos deixam de a cumprir de forma t&atilde;o eficaz. Assim, a instabilidade dos sistemas partid&aacute;rios poder&aacute; ter dois efeitos principais sobre o comportamento eleitoral. Por um lado, torna os eleitores menos conhecedores das alternativas que lhes s&atilde;o apresentadas. Por outro lado, em resposta a este primeiro efeito, dever&aacute; fazer os eleitores reagir &agrave; instabilidade do sistema procurando mecanismos alternativos de tomada de decis&atilde;o que n&atilde;o requeiram a aquisi&ccedil;&atilde;o de grandes quantidades de informa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>O cap&iacute;tulo que se segue rev&ecirc; os indicadores de mudan&ccedil;a dos sistemas partid&aacute;rios em que a literatura tem tendido a basear-se. A autora argumenta que estes t&ecirc;m duas limita&ccedil;&otilde;es principais: ou tendem a confundir o papel das elites pol&iacute;ticas e das massas na destabiliza&ccedil;&atilde;o dos sistemas partid&aacute;rios, ou se limitam a um n&uacute;mero reduzido de casos, impossibilitando compara&ccedil;&otilde;es de larga escala. A autora prop&otilde;e um novo &iacute;ndice de instabilidade eleitoral, baseado num conjunto de indicadores: a emerg&ecirc;ncia de novos partidos, fus&otilde;es de partidos, a exist&ecirc;ncia de dissid&ecirc;ncias partid&aacute;rias e a entrada e sa&iacute;da de partidos de listas conjuntas. Marinova parte assim de dados qualitativos com alto n&iacute;vel de detalhe para construir um &iacute;ndice uniformizado que colmata as defici&ecirc;ncias dos indicadores existentes: por um lado, permite compara&ccedil;&otilde;es temporais e espaciais do n&iacute;vel de instabilidade dos sistemas partid&aacute;rios, possibilitando estudos comparativos com amostras de grande dimens&atilde;o; por outro, evita o perigo de endogeneidade entre escolhas eleitorais e transforma&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias.</p>     <p>Os tr&ecirc;s cap&iacute;tulos seguintes correspondem &agrave;s an&aacute;lises emp&iacute;ricas do estudo. A autora baseia-se no &iacute;ndice por si constru&iacute;do e em dados do <i>Comparative Study of Electoral Systems </i>(CSES) para empregar an&aacute;lises quantitativas de uma amostra de 54 elei&ccedil;&otilde;es provenientes de 27 pa&iacute;ses europeus, incluindo tanto democracias consolidadas como democracias mais recentes.</p>     <p>O quarto cap&iacute;tulo pretende perceber at&eacute; que ponto elei&ccedil;&otilde;es com sistemas partid&aacute;rios altamente inst&aacute;veis podem ser caracterizadas como&nbsp;<i>low information environments.</i> Para tal, a autora calcula quanto &eacute; que o posicionamento que cada eleitor faz dos partidos na escala esquerda-direita se afasta do posicionamento de cada um desses partidos feito pelos especialistas do&nbsp;CSES. Esta dist&acirc;ncia &eacute; ent&atilde;o usada como indicador da precis&atilde;o do conhecimento pol&iacute;tico de cada eleitor, que funciona como vari&aacute;vel dependente deste cap&iacute;tulo. Posteriormente, a autora estuda de que forma esta vari&aacute;vel &eacute; afetada pelo efeito dos seus indicadores de instabilidade dos sistemas partid&aacute;rios.</p>     <p>As suas an&aacute;lises sugerem que os eleitores tendem a ter um pior conhecimento do posicionamento ideol&oacute;gico dos partidos quando os sistemas partid&aacute;rios a que estes pertencem sofrem profundas altera&ccedil;&otilde;es. At&eacute; indiv&iacute;duos com maior n&iacute;vel de escolaridade parecem ter dificuldade em lidar com sistemas deste g&eacute;nero, j&aacute; que o efeito positivo da escolaridade sobre o conhecimento pol&iacute;tico se reduz &agrave; medida que a instabilidade do sistema partid&aacute;rio aumenta. Para al&eacute;m disso, o impacto da instabilidade parece variar consoante o tipo espec&iacute;fico de mudan&ccedil;as ocorridas nos sistemas partid&aacute;rios. Os eleitores det&ecirc;m menos informa&ccedil;&atilde;o acerca de novos partidos, mas mais acerca de fus&otilde;es e listas conjuntas, que parecem servir para consolidar e clarificar a posi&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica de cada partido. Analisados em conjunto, estes resultados levam a autora a concluir que elei&ccedil;&otilde;es cujos sistemas partid&aacute;rios apresentam altos n&iacute;veis de instabilidade podem, de facto, ser consideradas como&nbsp;<i>low information environments.</i></p>     <p>Com base nestes resultados, o cap&iacute;tulo seguinte pretende compreender de que forma os indiv&iacute;duos tomam decis&otilde;es eleitorais em sistemas partid&aacute;rios altamente inst&aacute;veis. Concretamente, a autora debru&ccedil;a-se sobre tr&ecirc;s mecanismos a que os eleitores podem recorrer para decidir o seu sentido de voto nestes contextos. Em primeiro lugar, testa a heur&iacute;stica da ideologia, procurando aferir at&eacute; que ponto os eleitores se baseiam menos na proximidade ideol&oacute;gica &ndash; operacionalizada atrav&eacute;s da dist&acirc;ncia entre o autoposicionamento de cada eleitor na escala esquerda-direita e o posicionamento do partido em que votaram, feito pelos especialistas do&nbsp;CSES&nbsp;&ndash; quando elegem partidos novos ou fortemente transformados e at&eacute; que ponto se baseiam antes em&nbsp;<i>direction-intensity&nbsp;appeals</i>&nbsp;&ndash; medidos atrav&eacute;s da f&oacute;rmula de Rabinowitz e MacDonald (1989). A autora testa tamb&eacute;m o efeito da lideran&ccedil;a, operacionalizado atrav&eacute;s do n&iacute;vel de simpatia dos eleitores pelos l&iacute;deres partid&aacute;rios, novamente de acordo com dados do&nbsp;CSES. Por &uacute;ltimo, estuda o efeito daquilo que apelida de heur&iacute;stica da instabilidade, segundo a qual os eleitores poder&atilde;o ter uma maior avers&atilde;o a votar em partidos novos e rec&eacute;m-modificados. Este &uacute;ltimo mecanismo &eacute; testado atrav&eacute;s da inclus&atilde;o na an&aacute;lise dos v&aacute;rios indicadores de instabilidade partid&aacute;ria do &iacute;ndice constru&iacute;do por Marinova.</p>     <p>Os resultados sugerem que, de facto, &agrave; medida que a instabilidade aumenta, o poder dos&nbsp;<i>direction-instensity appeals</i>&nbsp;enquanto preditor do sentido de voto aumenta. Sugerem ainda que os eleitores t&ecirc;m tamb&eacute;m uma maior probabilidade de votar de acordo com o seu n&iacute;vel de simpatia pelo l&iacute;der partid&aacute;rio em elei&ccedil;&otilde;es com alto n&iacute;vel de instabilidade dos sistemas partid&aacute;rios. Por &uacute;ltimo, os eleitores parecem realmente tender a usar a heur&iacute;stica da instabilidade, votando menos em partidos rec&eacute;m-formados ou transformados.</p>     <p>O sexto cap&iacute;tulo explora at&eacute; que ponto as expectativas das teorias acerca do voto econ&oacute;mico retrospetivo s&atilde;o v&aacute;lidas em elei&ccedil;&otilde;es com sistemas partid&aacute;rios altamente inst&aacute;veis. O teste destas teorias em contextos de grande instabilidade &eacute; particularmente pertinente dado o reduzido n&iacute;vel de informa&ccedil;&atilde;o requerido pelo mecanismo do voto econ&oacute;mico. No entanto, este mecanismo implica que os eleitores sejam capazes n&atilde;o apenas de julgar o estado da economia do seu pa&iacute;s, mas tamb&eacute;m de avaliar at&eacute; que ponto esse julgamento &eacute; um bom preditor da futura&nbsp;performance&nbsp;e capacidade governativa do incumbente. Assim, a autora considera expect&aacute;vel que os eleitores s&oacute; se baseiem em avalia&ccedil;&otilde;es retrospetivas da situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica para decidir o seu sentido de voto em elei&ccedil;&otilde;es cujos sistemas partid&aacute;rios apresentam algum n&iacute;vel de estabilidade. Novamente, a autora combina na an&aacute;lise os dados do seu &iacute;ndice de instabilidade com dados do&nbsp;CSES&nbsp;relativos &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o da&nbsp;performance&nbsp;econ&oacute;mica do incumbente.</p>     <p>Os resultados deste cap&iacute;tulo sugerem, realmente, que a associa&ccedil;&atilde;o entre a avalia&ccedil;&atilde;o retrospetiva da situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e a propens&atilde;o dos eleitores para reeleger o incumbente se reduz &agrave; medida que a instabilidade do sistema partid&aacute;rio aumenta.</p>     <p>Por &uacute;ltimo, o s&eacute;timo cap&iacute;tulo conclui o livro, refletindo acerca dos seus principais resultados e contribui&ccedil;&otilde;es para a literatura acerca do comportamento eleitoral.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>CONTRIBUTOS DA OBRA&nbsp;PARA A LITERATURA</b></p>     <p>Este &eacute; um livro de grande originalidade, que tudo faz prever vir a ter um forte e continuado contributo para os debates acad&eacute;micos no dom&iacute;nio do comportamento eleitoral, por permitir um novo olhar sobre um conjunto de teorias consolidadas. Em primeiro lugar, integra os partidos nas teorias acerca do uso de heur&iacute;sticas de informa&ccedil;&atilde;o, dotando-os de ag&ecirc;ncia para influenciar as decis&otilde;es de voto. Assim, permite compreender melhor a forma atrav&eacute;s da qual os partidos facilitam a aquisi&ccedil;&atilde;o de conhecimento pol&iacute;tico por parte dos eleitores, refor&ccedil;ando a sua import&acirc;ncia enquanto comunicadores de informa&ccedil;&atilde;o acerca das elei&ccedil;&otilde;es. Em segundo lugar, mostra que a aplica&ccedil;&atilde;o das teorias acerca do voto econ&oacute;mico retrospetivo n&atilde;o &eacute; igualmente v&aacute;lida em todas as elei&ccedil;&otilde;es, dependendo antes do n&iacute;vel de estabilidade dos sistemas partid&aacute;rios. As an&aacute;lises referentes ao voto econ&oacute;mico mostram tamb&eacute;m como o papel das elei&ccedil;&otilde;es enquanto instrumentos de<i>&nbsp;accountability</i>&nbsp;varia de elei&ccedil;&atilde;o para elei&ccedil;&atilde;o, dependendo novamente da estabilidade do sistema partid&aacute;rio. Por &uacute;ltimo, o livro d&aacute; um importante contributo metodol&oacute;gico para o estudo da instabilidade dos sistemas partid&aacute;rios, construindo um &iacute;ndice uniformizado que facilita que este estudo se baseie em an&aacute;lises quantitativas.</p>     <p>Para al&eacute;m destas quest&otilde;es substantivas, a eleg&acirc;ncia da escrita e a clareza da organiza&ccedil;&atilde;o da obra fazem com que o livro seja de leitura escorreita e agrad&aacute;vel. Num contexto em que muitos sistemas partid&aacute;rios europeus sofrem profundas altera&ccedil;&otilde;es, este livro poder&aacute; ser do interesse n&atilde;o apenas de acad&eacute;micos e estudantes, mas tamb&eacute;m de jornalistas e do grande p&uacute;blico.&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p>MARINOVA, Dani &ndash;&nbsp;<i>Coping with Complexity: How Voters Adapt to Unstable Parties</i>.&nbsp;Colchester:&nbsp;ecpr&nbsp;Press, 2016.</p>     <p>RABINOWITZ, George, e MACDONALD, Stuart Elaine &ndash; &laquo;A directional theory of issue voting&raquo;. In&nbsp;<i>American Political Science Review</i>.&nbsp;Vol. 83, N.&ordm;&nbsp;1, 1989, pp. 93-121. DOI: 10.2307/1956436.</p>      ]]></body>
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