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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Eleições na Europa pós-crise: o começo de um novo ciclo?]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>ELEIÇÕES NA EUROPA PÓS-CRISE</b></p>     <p><b>Nota introdut&oacute;ria</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Elei&ccedil;&otilde;es na Europa p&oacute;s-crise: o come&ccedil;o de um novo ciclo?</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marco Lisi</b></p>     <p>IPRI/FCSH-NOVA&nbsp;| Avenida de Berna, 26-C /1069-061 Lisboa | <a href="mailto:marcolisi@fcsh.unl.pt">marcolisi@fcsh.unl.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Na Uni&atilde;o Europeia (UE) realiza-se, anualmente, um n&uacute;mero consider&aacute;vel de elei&ccedil;&otilde;es de &acirc;mbito nacional (legislativas ou presidenciais). Contudo, o ano de 2017 pode ser considerado an&oacute;malo, pelo menos por duas raz&otilde;es. Em primeiro lugar, &eacute; raro que no mesmo ano haja elei&ccedil;&otilde;es nas tr&ecirc;s maiores economias da&nbsp;UE&nbsp;(Alemanha, Fran&ccedil;a e Gr&atilde;-Bretanha) e, ao mesmo tempo, noutros pa&iacute;ses importantes como, por exemplo, a Holanda ou a &Aacute;ustria. Deste ponto de vista, a an&aacute;lise do ciclo eleitoral de 2017 &eacute; um elemento importante para perceber melhor os novos equil&iacute;brios a n&iacute;vel europeu. Apesar de se tratar de elei&ccedil;&otilde;es nacionais, este ciclo eleitoral tem implica&ccedil;&otilde;es significativas em termos da governa&ccedil;&atilde;o europeia e das din&acirc;micas de coopera&ccedil;&atilde;o entre os v&aacute;rios pa&iacute;ses, sobretudo para o futuro da&nbsp;UE.</p>     <p>Em segundo lugar, as elei&ccedil;&otilde;es de 2017 realizaram-se num contexto claramente diferente face aos anos anteriores. Do ponto de vista econ&oacute;mico, v&aacute;rios indicadores mostram claros sinais de recupera&ccedil;&atilde;o e melhoria da situa&ccedil;&atilde;o europeia. O n&iacute;vel de desemprego recuou para 9,1 por cento, o valor mais baixo desde 2009<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. O&nbsp;PIB&nbsp;cresceu acima das expetativas, registando o valor (previsto) de 2,1 por cento em 2017 e continuando a trajet&oacute;ria positiva come&ccedil;ada em 2015. Como sublinhou o presidente da Comiss&atilde;o Europeia Juncker no seu discurso sobre o Estado da Uni&atilde;o, &laquo;os ventos voltaram a favor da Europa&raquo;. Esta viragem reflete-se tamb&eacute;m na avalia&ccedil;&atilde;o feita pelos cidad&atilde;os europeus, com uma evolu&ccedil;&atilde;o positiva na imagem da&nbsp;UE, na confian&ccedil;a das institui&ccedil;&otilde;es europeias e nas perspetivas futuras<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. Do ponto de vista eleitoral, seria expect&aacute;vel que este cen&aacute;rio de p&oacute;s-crise inaugurasse um novo ciclo, consolidando o poder dos incumbentes e limitando a emerg&ecirc;ncia de novos partidos. Por outras palavras, as elei&ccedil;&otilde;es &laquo;p&oacute;s-crise&raquo; deveriam contrariar algumas das tend&ecirc;ncias emergentes durante a crise como, por exemplo, a crescente fragmenta&ccedil;&atilde;o parlamentar, a emerg&ecirc;ncia de partidos de protesto e a rejei&ccedil;&atilde;o das formas tradicionais de mobiliza&ccedil;&atilde;o baseada nas organiza&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Os maiores benefici&aacute;rios da crise econ&oacute;mica foram os partidos populistas, a esquerda radical e, em geral, novos partidos que tiveram sucesso atrav&eacute;s da politiza&ccedil;&atilde;o de novas clivagens ou da rejei&ccedil;&atilde;o da &laquo;carteliza&ccedil;&atilde;o&raquo; dos sistemas partid&aacute;rios.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este n&uacute;mero tem&aacute;tico &eacute; dedicado &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es (presidenciais ou legislativas) que se realizaram num conjunto de diferentes pa&iacute;ses europeus ao longo do ano de 2017. As elei&ccedil;&otilde;es que deram a vit&oacute;ria a Emmanuel Macron constitu&iacute;ram talvez a maior rutura hist&oacute;rica dentro do panorama pol&iacute;tico europeu. Por um lado, o car&aacute;ter &laquo;revolucion&aacute;rio&raquo; destas elei&ccedil;&otilde;es prende-se com o facto de um candidato sem uma base partid&aacute;ria conseguir ganhar a presid&ecirc;ncia e, subsequentemente, a maioria parlamentar. Por outro, as elei&ccedil;&otilde;es francesas foram at&iacute;picas ao trazerem para o centro do debate n&atilde;o apenas o futuro da&nbsp;UE, mas tamb&eacute;m a import&acirc;ncia do processo de integra&ccedil;&atilde;o para a esfera nacional. Para al&eacute;m das elei&ccedil;&otilde;es francesas, foram inclu&iacute;das neste dossi&ecirc; an&aacute;lises das elei&ccedil;&otilde;es legislativas na Holanda, Gr&atilde;-Bretanha, Bulg&aacute;ria e Alemanha. Apesar da especificidade que cada elei&ccedil;&atilde;o apresenta, h&aacute; tr&ecirc;s aspetos que marcaram este ciclo eleitoral. O primeiro &eacute; uma crescente incerteza e instabilidade eleitoral; o segundo prende-se com a emerg&ecirc;ncia de uma clivagem antissistema e a consolida&ccedil;&atilde;o de partidos de protesto; sendo o terceiro a crescente dificuldade dos partidos convencionais em garantir solu&ccedil;&otilde;es de governo est&aacute;veis.</p>     <p>O primeiro aspeto que merece ser sublinhado &eacute; que as elei&ccedil;&otilde;es &laquo;p&oacute;s-crise&raquo; de 2017 continuam a ser caracterizadas por uma elevada instabilidade eleitoral. Quando a propor&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos que se sentem muito pr&oacute;ximos de um partido equivale na Europa a 5,1 por cento<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, quando a taxa de ades&atilde;o aos partidos &eacute;, em m&eacute;dia, de 4,7 por cento e a confian&ccedil;a tamb&eacute;m alcan&ccedil;a os n&iacute;veis mais baixos de sempre<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>, &eacute; dif&iacute;cil esperar que as din&acirc;micas eleitorais sejam caracterizadas pela estabilidade. Como evidencia um estudo recente sobre os n&iacute;veis de volatilidade eleitoral na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, &laquo;nalguns pa&iacute;ses a mudan&ccedil;a ocorrida desde 2010 &eacute; maior do que a mudan&ccedil;a acumulada entre o fim da Segunda Guerra Mundial e 2009&raquo;<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. Mas as elei&ccedil;&otilde;es de 2017 sugerem que n&atilde;o s&atilde;o apenas os pa&iacute;ses mais afetados pela &laquo;grande recess&atilde;o&raquo; que registam um maior n&iacute;vel de instabilidade. A Holanda, por exemplo, tem mostrado elevados n&iacute;veis de volatilidade de forma constante nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. A Fran&ccedil;a tamb&eacute;m tem sido caracterizada por elevada volatilidade, assim como a Alemanha, um pa&iacute;s considerado tradicionalmente est&aacute;vel que tem mostrado uma crescente instabilidade e uma maior oscila&ccedil;&atilde;o eleitoral a partir dos anos 1990<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Neste sentido, h&aacute; outros fatores para al&eacute;m da crise que influenciam esta instabilidade e que merecem ser considerados,&nbsp;<i>in primis</i>&nbsp;o crescente desalinhamento partid&aacute;rio e a mudan&ccedil;a de valores que afeta sobretudo as gera&ccedil;&otilde;es mais novas.</p>     <p>Embora a emerg&ecirc;ncia dos partidos populistas n&atilde;o seja um fen&oacute;meno recente, nos &uacute;ltimos anos adquiriu uma dimens&atilde;o in&eacute;dita tanto ao n&iacute;vel da opini&atilde;o p&uacute;blica como a n&iacute;vel da produ&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica. As elei&ccedil;&otilde;es europeias de 2014 constitu&iacute;ram um marco importante para a ascens&atilde;o deste fen&oacute;meno, sobretudo com o sucesso de partidos como o Podemos, o&nbsp;UKIP&nbsp;e a Frente Nacional. Sucessivamente, foi a elei&ccedil;&atilde;o de Trump e o referendo sobre o Brexit a refor&ccedil;ar o interesse dos especialistas sobre a difus&atilde;o e sucesso do populismo<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>.</p>     <p>A afirma&ccedil;&atilde;o da clivagem antissistema aparece ainda mais evidente se considerarmos duas elei&ccedil;&otilde;es que, por raz&otilde;es de constrangimentos temporais, n&atilde;o foi poss&iacute;vel incluir neste n&uacute;mero tem&aacute;tico. Por um lado, as elei&ccedil;&otilde;es austr&iacute;acas realizadas em outubro de 2017, viram a afirma&ccedil;&atilde;o do jovem l&iacute;der conservador, Sebastian Kurz, com uma plataforma program&aacute;tica bastante conservadora baseada na diminui&ccedil;&atilde;o dos impostos, na redu&ccedil;&atilde;o da burocracia, na continua&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de austeridade e na oposi&ccedil;&atilde;o ao casamento de homossexuais. Mas o ponto que atraiu mais a aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica foi sem d&uacute;vida a quest&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o. Algumas propostas &ndash; como, por exemplo, o fecho da entrada de imigrantes na Europa atrav&eacute;s do corredor dos Balc&atilde;s ou a concess&atilde;o de apoios estatais aos estrangeiros que moram na &Aacute;ustria s&oacute; depois de cinco anos &ndash;, aproximam a&nbsp;&Ouml;VP&nbsp;&agrave;s posi&ccedil;&otilde;es do partido populista de extrema-direita&nbsp;FP&Ouml;&nbsp;(Partido Liberal Austr&iacute;aco), tornando-o o mais prov&aacute;vel parceiro de coliga&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Por outro, na Rep&uacute;blica Checa as elei&ccedil;&otilde;es viram o sucesso de um&nbsp;outsider, Andrej Babis, um empres&aacute;rio popular, dono de uma parte consistente de meios de comunica&ccedil;&atilde;o e l&iacute;der do partido populista&nbsp;ano (Alian&ccedil;a dos Cidad&atilde;os Descontentes). Atrav&eacute;s do&nbsp;slogan&nbsp;&laquo;n&atilde;o fa&ccedil;o pol&iacute;tica, fa&ccedil;o neg&oacute;cios&raquo;, Babis conseguiu atrair a simpatia de boa parte da popula&ccedil;&atilde;o, sobretudo dos jovens insatisfeitos com os partidos tradicionais. Apesar dos esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o relativos &agrave; sua trajet&oacute;ria profissional, &eacute; previs&iacute;vel que o l&iacute;der do&nbsp;ano&nbsp;prossiga uma pol&iacute;tica de reforma institucional que lhe permita &laquo;blindar&raquo; o seu poder, nomeadamente atrav&eacute;s da reforma do sistema eleitoral, da elimina&ccedil;&atilde;o do Senado e do refor&ccedil;o dos poderes do presidente.</p>     <p>O impacto destas mudan&ccedil;as a n&iacute;vel europeu &eacute; dif&iacute;cil de prever, mas considerando as recentes din&acirc;micas &eacute; f&aacute;cil observar um reequil&iacute;brio a favor da direita e uma maior instabilidade da ordem europeia. As medidas antiliberais recentemente aprovadas na Pol&oacute;nia e na Hungria e a fraca confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas continuam a p&ocirc;r em causa n&atilde;o apenas a institucionaliza&ccedil;&atilde;o dos sistemas partid&aacute;rios, mas tamb&eacute;m a ades&atilde;o a uma economia de mercado e o apoio &agrave; integra&ccedil;&atilde;o europeia. O refor&ccedil;o dos sentimentos nacionalistas que caracteriza a popularidade das for&ccedil;as pol&iacute;ticas que sa&iacute;ram recentemente vencedoras das urnas p&otilde;e em causa alguns dos valores centrais das democracias europeias e desafia a componente liberal dos regimes representativos. No caso dos pa&iacute;ses da Europa de Leste, as din&acirc;micas recentes questionam tamb&eacute;m o consenso entre as elites pol&iacute;ticas que conduziram &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o e &agrave; possibilidade de criar la&ccedil;os est&aacute;veis de coopera&ccedil;&atilde;o com os outros parceiros europeus.</p>     <p>O terceiro aspeto que ajuda a interpretar melhor as elei&ccedil;&otilde;es de 2017 tem por base a crise dos partidos tradicionais e a dificuldade na forma&ccedil;&atilde;o de solu&ccedil;&otilde;es governamentais est&aacute;veis. A eros&atilde;o da popularidade dos partidos&nbsp;mainstream&nbsp;&eacute; uma tend&ecirc;ncia de longo prazo que teve origem principalmente no desalinhamento partid&aacute;rio e nas mudan&ccedil;as sociais que alteraram o sentido de voto das principais classes sociais. O decl&iacute;nio dos partidos moderados foi acelerado pela crise econ&oacute;mica que levou os eleitores a responsabilizar as principais for&ccedil;as pol&iacute;ticas, as quais pareciam n&atilde;o oferecer alternativas claras &agrave;s pol&iacute;ticas de austeridade adotadas pelos pa&iacute;ses europeus. Para al&eacute;m disso, uma tend&ecirc;ncia clara das &uacute;ltimas elei&ccedil;&otilde;es &eacute; a rejei&ccedil;&atilde;o dos partidos convencionais enquanto instrumentos de intermedia&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>.</p>     <p>Contudo, foram os partidos social-democratas que ficaram mais marcados por esta crise. Depois do apogeu alcan&ccedil;ado no fim do s&eacute;culo&nbsp;XX, os partidos de centro-esquerda enfrentaram uma profunda crise de identidade e uma acentuada queda dos consensos. O ano de 2017 foi particularmente negativo: na Holanda, os socialistas registaram uma perda de votos recorde, o partido socialista franc&ecirc;s de Beno&icirc;t Hamon tornou-se uma for&ccedil;a irrelevante, enquanto na Noruega e na &Aacute;ustria os partidos de centro-esquerda foram claramente derrotados. Para al&eacute;m disso, os socialistas continuam fora do governo em Inglaterra (desde 2005), Espanha (desde 2011), B&eacute;lgica e Finl&acirc;ndia. Esta din&acirc;mica tem implica&ccedil;&otilde;es relevantes na esfera governamental, devido &agrave; dificuldade de os partidos tradicionais assegurarem solu&ccedil;&otilde;es de governo relativamente est&aacute;veis. As negocia&ccedil;&otilde;es para a forma&ccedil;&atilde;o de governos de coliga&ccedil;&atilde;o tornaram-se mais longas e incertas (ver, por exemplo, os recentes casos da Espanha, Holanda e Alemanha), enquanto houve necessidade de experimentar novas solu&ccedil;&otilde;es e f&oacute;rmulas in&eacute;ditas, muitas vezes com a entrada de novos partidos na arena governamental. Alguns autores v&atilde;o ainda mais longe, afirmando que o &laquo;decl&iacute;nio do centro-esquerda feriu a democracia ocidental&raquo;<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>, pois constitui uma derrota das pol&iacute;ticas e dos valores que contribu&iacute;ram para a afirma&ccedil;&atilde;o dos regimes democr&aacute;ticos na Europa.</p>     <p>Embora estas &uacute;ltimas elei&ccedil;&otilde;es tenham registado, em geral,&nbsp;uma maior participa&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>, os aspetos aqui evidenciados sugerem que a emerg&ecirc;ncia de uma nova clivagem &laquo;antissistema&raquo;, a afirma&ccedil;&atilde;o de novos partidos, elevados n&iacute;veis de volatilidade e a maior dificuldade de formar coliga&ccedil;&otilde;es governamentais est&aacute;veis constituem provavelmente o &laquo;novo normal&raquo; das democracias europeias, independentemente do desempenho econ&oacute;mico e da resolu&ccedil;&atilde;o dos principais problemas que emergiram durante a crise econ&oacute;mica.</p>     <p>Este n&uacute;mero tem&aacute;tico procura refletir sobre as recentes elei&ccedil;&otilde;es para compreender melhor um conjunto de quest&otilde;es, tais como as din&acirc;micas sociol&oacute;gicas do voto, o impacto a curto prazo da crise econ&oacute;mica e, mais em geral, as mudan&ccedil;as na representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e nas liga&ccedil;&otilde;es entre partidos e eleitores. Ademais, as elei&ccedil;&otilde;es examinadas neste dossi&ecirc; permitem analisar as continuidades e mudan&ccedil;as emergentes ao longo da &uacute;ltima d&eacute;cada e evidenciar algumas das tend&ecirc;ncias mais transversais experimentadas pelas democracias europeias. Para terminar esta introdu&ccedil;&atilde;o, iremos apresentar brevemente os ensaios que constam deste n&uacute;mero tem&aacute;tico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O texto de Petar Bankov sobre as elei&ccedil;&otilde;es b&uacute;lgaras ilustra algumas das tend&ecirc;ncias dos pa&iacute;ses da Europa Centro-Oriental. Em primeiro lugar, as elei&ccedil;&otilde;es de 2017 confirmaram a relativa hegemonia da direita conservadora e a fragmenta&ccedil;&atilde;o da esquerda. O&nbsp;GERB, apesar da derrota nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 2016, conseguiu recuperar e afirmar-se como principal partido, liderando um novo governo de coliga&ccedil;&atilde;o. Contudo, not&aacute;vel &eacute; tamb&eacute;m o sucesso dos partidos nacionalistas e populistas que conseguiram mobilizar importantes setores da popula&ccedil;&atilde;o, nomeadamente no meio rural e nas faixas et&aacute;rias mais novas. O sucesso das for&ccedil;as antissistema &eacute; o segundo tra&ccedil;o caracter&iacute;stico, n&atilde;o apenas destas elei&ccedil;&otilde;es, mas desta &aacute;rea geogr&aacute;fica em geral. Finalmente, regista-se um retrocesso democr&aacute;tico, an&aacute;logo &agrave;s tend&ecirc;ncias verificadas na Hungria e na Pol&oacute;nia, baseado na incapacidade de conter a corrup&ccedil;&atilde;o e no forte conluio entre pol&iacute;tica e neg&oacute;cios, sobretudo no setor da comunica&ccedil;&atilde;o social. A fase de instabilidade inaugurada em 2009 parece destinada a continuar, enquanto o governo de coliga&ccedil;&atilde;o mant&eacute;m uma base muito fraca e os partidos mostram-se incapazes de assegurar uma orienta&ccedil;&atilde;o program&aacute;tica clara e coerente para a a&ccedil;&atilde;o do executivo. Neste contexto, a perspetiva de a Bulg&aacute;ria liderar o semestre europeu a partir de janeiro de 2018 levanta algumas d&uacute;vidas sobre a capacidade de dar um impulso relevante para resolver os principais problemas que os pa&iacute;ses europeus ir&atilde;o defrontar.</p>     <p>As elei&ccedil;&otilde;es holandesas confirmaram o per&iacute;odo de volatilidade eleitoral come&ccedil;ado nos anos 1990 e a crise dos partidos tradicionais, em particular para o partido socialista que sofreu uma pesada derrota eleitoral. Otjes e Krouwel evidenciam como a principal din&acirc;mica subjacente a esta volatilidade tenha origem na emerg&ecirc;ncia de uma nova clivagem de car&aacute;ter cultural. O espa&ccedil;o de competi&ccedil;&atilde;o eleitoral caracteriza-se pela multidimensionalidade, tornando as din&acirc;micas de intera&ccedil;&atilde;o extremamente incertas e complexas, com implica&ccedil;&otilde;es relevantes a n&iacute;vel dos padr&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o entre os partidos. Como noutros pa&iacute;ses europeus, a campanha eleitoral na Holanda centrou-se sobretudo na quest&atilde;o da emigra&ccedil;&atilde;o e da&nbsp;UE. Neste sentido, estas elei&ccedil;&otilde;es foram um exemplo de como a economia est&aacute; longe de constituir o &uacute;nico fator importante na escolha dos eleitores. Outros aspetos mais estritamente &laquo;pol&iacute;ticos&raquo;, tais como a identidade, os sentimentos de perten&ccedil;a a uma comunidade pol&iacute;tica e/ou os medos transmitidos pelos l&iacute;deres partid&aacute;rios podem ser igualmente &ndash; ou at&eacute; mais &ndash; importantes para influenciar as din&acirc;micas eleitorais.</p>     <p>O ensaio de Philippe Marli&egrave;re foca-se nas elei&ccedil;&otilde;es francesas de 2017, examinando em particular a candidatura de M&eacute;lenchon, o candidato do movimento Fran&ccedil;a Insubmissa. Muito se tem escrito e falado sobre a novidade do Presidente Macron; no entanto, n&atilde;o menos interessante &eacute; a forma como M&eacute;lenchon lan&ccedil;ou e elaborou a sua candidatura. Inspirado pelo sucesso das for&ccedil;as (e candidatos) populistas da Am&eacute;rica Latina, M&eacute;lenchon inovou a linguagem da esquerda francesa e introduziu uma nova forma de relacionamento com os eleitores, mais direta, participativa e &laquo;antissistema&raquo;. A ado&ccedil;&atilde;o da mensagem de protesto por um candidato de esquerda evidencia o processo de cont&aacute;gio do fen&oacute;meno populista, favorecido por um contexto de grande insatisfa&ccedil;&atilde;o a n&iacute;vel econ&oacute;mico e pol&iacute;tico. A ado&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicas de campanha sofisticadas baseadas nas novas tecnologias de comunica&ccedil;&atilde;o contribuiu tamb&eacute;m para a mobiliza&ccedil;&atilde;o do eleitorado jovem. O artigo refor&ccedil;a a interpreta&ccedil;&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es francesas de 2017 como uma verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o. Para al&eacute;m do sucesso do candidato Macron, sem um percurso pol&iacute;tico-partid&aacute;rio consolidado, as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais foram caracterizadas pela grande competitividade e pela emerg&ecirc;ncia de candidatos at&iacute;picos e imprevis&iacute;veis. Neste sentido, estas elei&ccedil;&otilde;es confirmaram a tend&ecirc;ncia para uma forte personaliza&ccedil;&atilde;o e polariza&ccedil;&atilde;o do sistema pol&iacute;tico franc&ecirc;s.</p>     <p>Contrariamente &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es holandesas e francesas, as elei&ccedil;&otilde;es no Reino Unido, analisadas por Eunice Goes, surgiram de forma inesperada, com a tentativa da primeira-ministra Theresa May de refor&ccedil;ar os consensos do Partido Conservador e a coes&atilde;o da maioria governamental perante as negocia&ccedil;&otilde;es com a&nbsp;UE. Os resultados finais constitu&iacute;ram outra surpresa, com a recupera&ccedil;&atilde;o do Labour e a redu&ccedil;&atilde;o significativa do voto nos terceiros partidos, refor&ccedil;ando assim a polariza&ccedil;&atilde;o do sistema partid&aacute;rio e o bipartidarismo. Para al&eacute;m dos resultados finais, a campanha foi interessante por duas raz&otilde;es. A primeira &eacute; relativa &agrave; import&acirc;ncia do Brexit como tema que condicionou o debate e a agenda eleitoral. A segunda consiste na utiliza&ccedil;&atilde;o dos novos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo por parte do l&iacute;der trabalhista, que conseguiu mobilizar uma parte consistente do eleitorado jovem.</p>     <p>As elei&ccedil;&otilde;es na Alemanha, analisadas no artigo de Patr&iacute;cia Daehnhardt, caracterizaram-se por tr&ecirc;s fatores importantes. O primeiro &eacute; o sucesso do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha), que conseguiu pela primeira vez eleger representantes no Parlamento alem&atilde;o, aumentando assim a fragmenta&ccedil;&atilde;o do sistema partid&aacute;rio. O sucesso do partido esteve ligado n&atilde;o apenas &agrave; quest&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m &agrave; rejei&ccedil;&atilde;o do<i>&nbsp;establishment</i>, competindo nesta dimens&atilde;o com o Die Linke para atrair o eleitorado mais insatisfeito e cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o aos partidos&nbsp;mainstream. O segundo &eacute; a significativa diminui&ccedil;&atilde;o do voto dos dois principais partidos que dominaram a pol&iacute;tica alem&atilde; no per&iacute;odo posterior &agrave; Segunda Guerra Mundial. Apesar do facto significativo de a chanceler sair vencedora pela quarta vez consecutiva &ndash; igualando o seu mentor Helmut Kohl (1982-1998) &ndash;, o partido de centro-direita perdeu oito pontos percentuais relativamente &agrave; elei&ccedil;&atilde;o anterior, enquanto houve uma queda abrupta do voto dos socialistas. Finalmente, o terceiro aspeto a sublinhar &eacute; a complexidade e a dificuldade em encontrar uma plataforma que possa sustentar a a&ccedil;&atilde;o de um governo de coliga&ccedil;&atilde;o para os pr&oacute;ximos anos, com implica&ccedil;&otilde;es relevantes ao n&iacute;vel das din&acirc;micas europeias para a constitui&ccedil;&atilde;o de um novo eixo franco-alem&atilde;o. Tamb&eacute;m neste caso a Europa emergiu como um tema central na campanha e nos encontros para a forma&ccedil;&atilde;o do governo, determinando o desfecho negativo das negocia&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>O cen&aacute;rio pol&iacute;tico e partid&aacute;rio da Europa permanece extremamente incerto e vol&aacute;til mesmo num contexto de recupera&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica. A n&iacute;vel internacional, o maior desafio consiste na lideran&ccedil;a do projeto europeu e no impacto que os novos equil&iacute;brios dos sistemas partid&aacute;rios t&ecirc;m no futuro da integra&ccedil;&atilde;o europeia. Este cen&aacute;rio &eacute; agravado pela incerteza das elei&ccedil;&otilde;es italianas, a realizar-se no primeiro semestre de 2018, em que a posi&ccedil;&atilde;o euroc&eacute;tica de v&aacute;rias for&ccedil;as pol&iacute;ticas (Liga Norte, Movimento 5 Estrelas, etc.) pode enfraquecer ou influenciar a ado&ccedil;&atilde;o de novas pol&iacute;ticas para relan&ccedil;ar a&nbsp;UE&nbsp;como ator global. A n&iacute;vel interno, o enfraquecimento do centro &ndash; devido sobretudo &agrave; crise dos partidos social-democratas &ndash; pode refor&ccedil;ar ainda mais a radicaliza&ccedil;&atilde;o dos sistemas partid&aacute;rios, sobretudo se a quest&atilde;o da imigra&ccedil;&atilde;o continuar a dominar o debate medi&aacute;tico e se n&atilde;o forem implementadas solu&ccedil;&otilde;es adequadas para estancar a crise dos refugiados. Finalmente, ainda n&atilde;o sabemos quais os efeitos pol&iacute;ticos e eleitorais que poder&aacute; ter o Brexit e a quest&atilde;o catal&atilde; nos pa&iacute;ses europeus. Um cont&aacute;gio para outros pa&iacute;ses poder&aacute; refor&ccedil;ar as din&acirc;micas centr&iacute;fugas e a polariza&ccedil;&atilde;o dos sistemas partid&aacute;rios, acelerando a destabiliza&ccedil;&atilde;o dos sistemas pol&iacute;ticos e aumentando a dist&acirc;ncia entre elite pol&iacute;tica e eleitores.&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>NOTAS</B></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Dados da Comiss&atilde;o Europeia. (Consultado em: 27 de novembro de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="https://ec.europa.eu/info/business-economy-euro/economic-performance-and-forecasts/economic-forecasts_en" target="_blank">https://ec.europa.eu/info/business-economy-euro/economic-performance-and-forecasts/economic-forecasts_en</a>.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Ver Eurobar&oacute;metro. N.&ordm; 87, maio de 2017. (Consultado em: 23 de novembro de 2017). Dispon&iacute;vel em: <a href="http://ec.europa.eu/commfrontoffice/publicopinion/index.cfm/General/index" target="_blank">http://ec.europa.eu/commfrontoffice/publicopinion/index.cfm/General/index</a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Sobre isso ver, por exemplo, HERN&Aacute;NDEZ, E., e KRIESI, H.&nbsp;&ndash; &laquo;The electoral consequences of the financial and economic crisis in Europe&raquo; (2015). In&nbsp;<i>European Journal of Political Research</i>.&nbsp;Vol. 55, N.&ordm; 2, 2016,&nbsp;pp. 203-224. DOI: 10.1111/1475-6765.12122 (2015); BOSCO, A., e VERNEY, S. (orgs.) &ndash;&nbsp;<i>Crisis Elections, New Contenders and Government Formation: Breaking the Mould in Southern Europe</i>.&nbsp;Londres: Routledge, 2017.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Dados do European Social Survey (<a href="http://www.europeansocialsurvey.org/" target="_blank">http://www.europeansocialsurvey.org/</a>), revelados em 2016 (8.&ordf; vaga). A propor&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos bastante pr&oacute;ximos &eacute; de 28,9 por cento.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Em maio de 2017, a propor&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos na Uni&atilde;o Europeia que tendem a n&atilde;o confiar nos partidos corresponde a 77 por cento (ver Eurobar&oacute;metro. N.&ordm; 87, maio de 2017). Este indicador alcan&ccedil;ou o n&iacute;vel historicamente mais baixo em 2011, com 83 por cento dos indiv&iacute;duos a n&atilde;o confiarem nos partidos pol&iacute;ticos.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> EMANUELE, V., e CHIARAMONTE, A. &ndash; &laquo;A growing impact of new parties: myth or reality? Party system innovation in Western Europe after 1945&raquo;. In&nbsp;<i>Party Politics</i>. (Primeira publica&ccedil;&atilde;o em linha). 2016. DOI:10.1177/1354068816678887.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> POGUNTKE, T. &ndash; &laquo;Towards a new party system: the vanishing hold of the catch-all&nbsp;parties in Germany&raquo;. In&nbsp;<i>Party Politics</i>. Vol.&nbsp;20, N.&ordm; 6, 2014, pp. 950-963.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Ver, entre outros, INGLEHART, R., e NORRIS, N. &ndash; &laquo;Trump, Brexit, and the rise of populism: economic have-nots and cultural backlash&raquo;.&nbsp;<i>Faculty Research Working Paper Series</i>, 2016.</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Apesar de o caso mais evidente ser o movimento En Marche, fundado por Macron, &eacute; not&aacute;vel o facto de Kurz, l&iacute;der de um dos partidos mais antigos da &Aacute;ustria, afirmar, no rescaldo da vit&oacute;ria eleitoral, a &laquo;constru&ccedil;&atilde;o dum movimento&raquo; como base de uma mudan&ccedil;a radical da pol&iacute;tica.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Ver a introdu&ccedil;&atilde;o de Sheri Berman ao livro de Rob Manwaring e Paul Kennedy (orgs.) &ndash;&nbsp;<i>Why the Left Loses: The Decline of the Centre-Left in Comparative Perspetive</i>.&nbsp;Londres: Polity Press, 2017.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> A exce&ccedil;&atilde;o &eacute; a Fran&ccedil;a, onde a participa&ccedil;&atilde;o nas elei&ccedil;&otilde;es de 2017 registou um n&iacute;vel mais baixo do que nas elei&ccedil;&otilde;es anteriores (74,6 e 80,3 por cento, respetivamente).</p>      ]]></body>
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