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<article-id pub-id-type="doi">10.23906/ri2018.58a04</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Estado Mundial e direito internacional em Hans Morgenthau]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article revisits one of the central topics of Hans Morgenthau’s realism – the world state – as a major gateway to one of the most neglected areas in the current historiography of the realist tradition: that of international law. The article thus argues that Morgenthau’s realism can be read in light of Locke’s metaphysical challenge to Hobbes’ view of the state of nature. National interest can in this light be seen as highly conditioned by the republican ideal of popular sovereignty – akin to that of limited government – where law is already operating socially, even before being posited by the state. By developing this parallel with Locke – shared in part by German legal philosophy that preceded Morgenthau – we are in a better position to understand how he accommodates the functional approach in his realist take on international law and on the social prerequisites of a world state.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>HANS MORGENTHAU E <I>POLITICS AMONG NATIONS</I></b></p>     <p><b>Estado Mundial e direito internacional em Hans Morgenthau</b></p>     <p><b>The world state and international law in Morgenthau&rsquo;s IR theory</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Guilherme Marques Pedro</b></p>     <p>Departamento de Filosofia, Universidade de Uppsala | Box 627, 751 &ndash; 26    Uppsala, Su&eacute;cia | <a href="mailto:guilhermemarquespedro@gmail.com">guilhermemarquespedro@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>A proposta de releitura aqui sugerida retoma um dos temas centrais do realismo    de Hans Morgenthau &ndash; o Estado Mundial &ndash; como forma de abordar uma    das &aacute;reas mais negligenciadas da historiografia revisionista: o direito    internacional e o seu poder normativo. O argumento desenvolvido &eacute; que    o realismo de Morgenthau recupera a digress&atilde;o metaf&iacute;sica de Locke    contra o contratualismo individualista de Hobbes. Este desvio metaf&iacute;sico    funda um ideal de soberania popular que qualifica o conceito de interesse nacional    proposto por Morgenthau. S&oacute; tra&ccedil;ando este paralelo com Locke podemos    compreender o modo como Morgenthau acomoda o funcionalismo na sua teoria realista    do direito internacional, e na sua reflex&atilde;o sobre as condicionantes sociais    da constru&ccedil;&atilde;o de um Estado Mundial.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Estado Mundial, realismo, funcionalismo, direito internacional.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article revisits one of the central topics of Hans Morgenthau&rsquo;s    realism &ndash; the world state &ndash; as a major gateway to one of the most    neglected areas in the current historiography of the realist tradition: that    of international law. The article thus argues that Morgenthau&rsquo;s realism    can be read in light of Locke&rsquo;s metaphysical challenge to Hobbes&rsquo;    view of the state of nature. National interest can in this light be seen as    highly conditioned by the republican ideal of popular sovereignty &ndash; akin    to that of limited government &ndash; where law is already operating socially,    even before being posited by the state. By developing this parallel with Locke    &ndash; shared in part by German legal philosophy that preceded Morgenthau &ndash;    we are in a better position to understand how he accommodates the functional    approach in his realist take on international law and on the social prerequisites    of a world state.</p>     <p><b>Keywords:</b> World state, realism, functionalism, international law.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p style="text-align: right;">&laquo;Splitting the atom means uniting the world.&raquo;<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>     <p style="text-align: right;">George Jaffin, revis&atilde;o do livro Anatomia    da Paz, 1946</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Einstein chamou-lhe a &laquo;resposta pol&iacute;tica&raquo; da era at&oacute;mica,    a &uacute;nica capaz de prevenir a &uacute;ltima de todas as guerras. O nobel    acabara de ler Anatomia da Paz, escrito pelo ent&atilde;o agente liter&aacute;rio    de Churchill, Emery Reeves, que advogava um Estado Mundial como a &uacute;nica    possibilidade de conter um holocausto &agrave; escala global<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>    . Para muitos a bomba nuclear n&atilde;o reenviava a pol&iacute;tica internacional    para o estado de natureza onde o homem fora um lobo de si pr&oacute;prio. Pior    que isso, ela fazia das pot&ecirc;ncias nucleares aut&ecirc;nticos monstros    com uma capacidade destrutiva global nunca vista. A tem&aacute;tica do Estado    Mundial ganhava assim um destaque sem precedentes nas listas de bestsellers    americanos e nas mentes de muitos te&oacute;ricos e acad&eacute;micos norte-americanos    &ndash; quais arquitectos desta nova criatura metapol&iacute;tica &ndash;, chegando    mesmo a vigorar como um dos pontos da ordem de trabalhos do subcomit&eacute;    do Senado americano para a pol&iacute;tica externa, encarregado de elaborar    v&aacute;rias mo&ccedil;&otilde;es para pressionar a Administra&ccedil;&atilde;o    Truman no sentido do planeamento de um projecto federalista global<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.    Nem Dante nem Kant poderiam ter antecipado que a &laquo;inevitabilidade de um    Estado Mundial&raquo; surgiria n&atilde;o pelo &iacute;mpeto imperialista ou    tir&acirc;nico dos estados, mas pela m&atilde;o do cen&aacute;rio poss&iacute;vel    de um apocalipse. Foi precisamente no contexto de uma ang&uacute;stia t&atilde;o    radioactiva como a &laquo;Bomba&raquo;, que Hans Morgenthau decidiu aflorar    o tema. A tecnologia nuclear tinha transformado a perspectiva de uma terceira    guerra mundial numa possibilidade permanente. O seu monop&oacute;lio parecia    pois a &uacute;nica forma de a colocar ao servi&ccedil;o da paz.</p>     <p>Desde ent&atilde;o, o Estado Mundial tem sido objecto de alguma revisita&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rico-normativa no pensamento pol&iacute;tico internacional e em particular    por refer&ecirc;ncia &agrave; <i>opus magna</i> de Hans Morgenthau, <i>Politics    among Nations</i>, que celebra agora setenta anos desde a sua primeira edi&ccedil;&atilde;o.    Entre v&aacute;rias genealogias do realismo cl&aacute;ssico &ndash; algumas    delas remetendo precisamente para a influ&ecirc;ncia do pai do m&eacute;todo    geneal&oacute;gico<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> &ndash; destacam-se    aquelas que, com enfoque em Morgenthau, procuram ou reavaliar radicalmente a    obra do realista americano como cont&iacute;gua &agrave; de um certo cosmopolitismo    liberal, ou reconfirmar o diagn&oacute;stico cl&aacute;ssico da sua oposi&ccedil;&atilde;o    antipelagiana ao idealismo wilsoniano<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>.    A proposta te&oacute;rica aqui desenvolvida &eacute; nem mais nem menos a de    reler o cap&iacute;tulo dedicado ao Estado Mundial &agrave; luz do t&iacute;tulo    imagin&aacute;rio <i>Law among Nations</i>, na convic&ccedil;&atilde;o de que    o seu realismo n&atilde;o constitui uma cruzada rom&acirc;ntica contra o direito    internacional, mas sim uma reconceptualiza&ccedil;&atilde;o deste &agrave; luz    do funcionalismo ent&atilde;o emergente na filosofia do direito. &Eacute; s&oacute;    a esta luz que &eacute; poss&iacute;vel compreender o papel fundamental que    o Estado Mundial ocupa naquela que &eacute; ainda, provavelmente, a obra mais    lida na teoria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais, mas que tanto nos    diz tamb&eacute;m sobre o direito internacional.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar das v&aacute;rias incurs&otilde;es sobre o Estado Mundial e sobre o    direito internacional a que a teoria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais    (RI) nos habituou, este artigo conjuga os dois temas para assim destacar um    dos principais eixos filos&oacute;fico-pol&iacute;ticos do realismo de Morgenthau,    e que permanece negligenciado na reciclagem do seu legado: o da prioridade ontol&oacute;gica    da comunidade moral sobre a autoridade pol&iacute;tica. Desta forma, procura    trilhar uma via m&eacute;dia, necessariamente tortuosa, entre duas tend&ecirc;ncias    internas ao revivalismo realista que tem pautado uma parte significativa da    historiografia disciplinar das RI, entre um certo cosmopolitismo de inspira&ccedil;&atilde;o    kantiana e um construtivismo que sublinha o assalto funcionalista de Morgenthau    ao positivismo reinante na teoria do direito internacional do seu tempo. Esta    traject&oacute;ria supera, por um lado, a insist&ecirc;ncia numa leitura excessivamente    nietzscheana de um realismo que, dado o seu apelo a uma aparente resigna&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rico-pol&iacute;tica, teria pouco a oferecer &agrave;s RI de hoje,    tanto do ponto de vista dos seus instrumentos conceptuais, como no que respeita    &agrave; sua imagina&ccedil;&atilde;o normativa em geral. Por outro lado, ela    suplanta a ideia preconcebida de um realismo investido no desprezo &ndash; dito    &laquo;pol&iacute;tico&raquo; &ndash; pelo direito internacional. A conclus&atilde;o    a que chegamos n&atilde;o poderia ser mais contr&aacute;ria a este <i>strawman</i>,    donde o imperativo de reconstituir detalhadamente o r&oacute;tulo de &laquo;realista&raquo;    a que Morgenthau apelara com propriedade renovada. Essa conclus&atilde;o &eacute;    a de que o Estado Mundial, como tema de uma tradi&ccedil;&atilde;o t&atilde;o    vocacionada para a sua destitui&ccedil;&atilde;o enquanto utopia pol&iacute;tica,    constitui uma etapa fundamental da estrat&eacute;gia argumentativa de Morgenthau    para redireccionar os holofotes epist&eacute;micos das RI para uma componente    essencial da esfera internacional. Essa componente diz respeito n&atilde;o &agrave;    &laquo;pol&iacute;tica entre na&ccedil;&otilde;es&raquo;, mas sim ao tipo espec&iacute;fico    de direito poss&iacute;vel entre na&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>A teoriza&ccedil;&atilde;o do direito internacional, a par com a moral e a    &eacute;tica, desempenha um papel fundamental na injun&ccedil;&atilde;o da ideia    de anarquia na est&eacute;tica internacionalista de Morgenthau &ndash; precisamente,    aquela que pinta as implica&ccedil;&otilde;es, os riscos e as amea&ccedil;as    inerentes &agrave; aus&ecirc;ncia de um Estado Mundial. S&oacute; a partir dele    podemos compreender o poder ordenador de um direito cuja validade reside precisamente    no seu car&aacute;cter n&atilde;o soberano, n&atilde;o positivo e funcional.    Este artigo responde pois &agrave; quest&atilde;o do que fazer da idiossincrasia    da tradi&ccedil;&atilde;o realista que Morgenthau resume magistralmente com    a apari&ccedil;&atilde;o do Estado Mundial como tema central do Politics among    Nations. O que podemos afinal retirar desta manobra ilus&oacute;ria numa tradi&ccedil;&atilde;o    que se auto-intitula realista precisamente porque procura desfazer-se de todas    as ilus&otilde;es e utopias?</p>     <p>Desde logo, este artigo aborda este tema no contexto de uma das fontes intelectuais,    qui&ccedil;&aacute; a mais transbordante, do r&oacute;tulo &laquo;realista&raquo;.    Como veremos, este surge inicialmente n&atilde;o apenas por oposi&ccedil;&atilde;o    ao idealismo liberal, mas pela urg&ecirc;ncia intelectual de trazer quer a filosofia    pol&iacute;tica, quer a sociologia hist&oacute;rica para a an&aacute;lise te&oacute;rica    &ndash; e mesmo para uma pragm&aacute;tica &ndash; do direito internacional,    dominado ao tempo por um positivismo rigidamente legalista e assim inconsequente    face aos desafios da guerra e da paz<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>.    O corol&aacute;rio do argumento aqui desenhado &eacute; o de que o imperativo    filos&oacute;fico de uma teoria social &ndash; traduzida na aten&ccedil;&atilde;o    aos factos sociais concretos da esfera internacional que, segundo ele, permanecem    em tens&atilde;o com o direito internacional positivado nos tratados &ndash;    n&atilde;o redunda nunca num imperativo cient&iacute;fico ou moral de abandono    da normatividade jur&iacute;dica internacionalista. Pelo contr&aacute;rio, este    imperativo &eacute; ele pr&oacute;prio construtivo de uma concep&ccedil;&atilde;o    normativa do direito internacional e da ordem pol&iacute;tica global.</p>     <p>O presente artigo mostra como esta concep&ccedil;&atilde;o &laquo;realista&raquo;    do direito internacional deve ser lida em paralelo com a altera&ccedil;&atilde;o    de fundo que John Locke opera sobre o contratualismo de Thomas Hobbes, onde    o estado de natureza &eacute; caracterizado por uma normatividade imanente que    &eacute; pr&eacute;via &agrave; institui&ccedil;&atilde;o do Estado soberano    e assim do direito positivo. &Agrave; luz desta revolu&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gico-pol&iacute;tica,    o direito internacional readquire um papel essencial na resolu&ccedil;&atilde;o    de conflitos: este n&atilde;o tem que ser nem codificado, nem positivo, nem    soberano, para alcan&ccedil;ar a paz e a ordem. &Eacute; esta filosofia &laquo;funcionalista&raquo;    que abre caminho &agrave; revitaliza&ccedil;&atilde;o &laquo;realista&raquo;    do direito internacional segundo uma abordagem procedimental e pragm&aacute;tica,    altamente investida na promo&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es essenciais    da ordem internacional: a comunidade de interesses e a balan&ccedil;a de poder<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>.</p>     <p>N&atilde;o se trata pois aqui de revisitar o realismo de entre guerras para    compreender melhor a hist&oacute;ria da disciplina, o que nos remeteria para    um exerc&iacute;cio de hist&oacute;ria intelectual altamente museol&oacute;gico.    Igualmente in&uacute;til para uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica capaz de enriquecer    o imagin&aacute;rio conceptual e normativo das RI, seria uma aproxima&ccedil;&atilde;o    a-hist&oacute;rica &agrave; obra de Morgenthau assente no pressuposto de que    poder&iacute;amos antecipar o que ele teria a dizer sobre os tempos que vivemos,    e em particular sobre a gest&atilde;o err&aacute;tica do regime de n&atilde;o    prolifera&ccedil;&atilde;o nuclear da actual Administra&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Nenhuma destas abordagens faria justi&ccedil;a ao seu legado. Resta-nos portanto    a reprodu&ccedil;&atilde;o, controlada mas imaginativa, de uma grelha conceptual    e anal&iacute;tica que, acautelado o contexto, podemos ainda assim reciclar,    e reclamar como &laquo;realista&raquo;. N&atilde;o para caracterizar um &laquo;problema    actual&raquo;, mas como lembran&ccedil;a de que, pelo menos nas rela&ccedil;&otilde;es    internacionais, a actualidade n&atilde;o &eacute; nunca sem lastro hist&oacute;rico.    Ao tempo em que Morgenthau escrevia, a teoria do direito internacional atravessava    um debate metodol&oacute;gico que &eacute; n&atilde;o apenas revelador da forma&ccedil;&atilde;o    intelectual de Morgenthau, como permite mostrar, com a devida reserva contextual,    que o seu realismo pol&iacute;tico se traduz numa concep&ccedil;&atilde;o funcionalista    do direito internacional, uma rela&ccedil;&atilde;o que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel,    na vis&atilde;o deste artigo, &agrave; luz da base ontol&oacute;gico-pol&iacute;tica    lockeana que Morgenthau adopta, e que foi t&atilde;o fundamental para o pensamento    federalista dos pais fundadores da Am&eacute;rica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMUNIDADE PRIMEIRO, ESTADO DEPOIS</b></p>     <p>Comecemos por seguir a coordenada que o pr&oacute;prio Morgenthau sugere de    recuo metaf&iacute;sico para a &laquo;funda&ccedil;&atilde;o&raquo; do conhecimento    que &eacute;, segundo o pr&oacute;prio, um requisito metodol&oacute;gico de    qualquer teoria, mas que o positivismo teima em n&atilde;o reconhecer. Como    observara Morgenthau num artigo de 1940, simbolicamente intitulado &laquo;<i>Positivism,    Functionalism, and international law</i>&raquo;: &laquo;o conceito positivista    da esfera normativa revela ele pr&oacute;prio uma atitude metaf&iacute;sica,    um tipo de metaf&iacute;sica negativa que contradiz plenamente as pr&oacute;prias    assun&ccedil;&otilde;es de uma ci&ecirc;ncia positiva&raquo;<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>.    N&atilde;o admitir os postulados metaf&iacute;sicos da abordagem n&atilde;o-cognitivista    torna-a suscept&iacute;vel a infiltra&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas que    se albergam na sua aura militante de neutralidade. Importa por isso mesmo explorar    um pressuposto metate&oacute;rico que &eacute;, no entender deste artigo, a    base normativa da abordagem te&oacute;rica de Morgenthau ao Estado Mundial,    e que contribui de forma decisiva para a sua filosofia do direito internacional.    Afinal, se cabe ao Estado actuar na defesa do interesse nacional<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>,    qual &eacute; o fundamento ontol&oacute;gico do Estado? Uma multid&atilde;o    an&oacute;nima de indiv&iacute;duos atomizados? Ou uma comunidade que j&aacute;    os socializou e na medida em que antecede o Estado pode limitar e fiscalizar    a sua ac&ccedil;&atilde;o?</p>     <p>Morgenthau inicia o c&eacute;lebre cap&iacute;tulo intitulado &laquo;Estado    Mundial&raquo; com a primeira op&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica, mas acaba    a escolher a segunda. Esta tens&atilde;o no seio da filosofia pol&iacute;tica    de Morgenthau &eacute; reveladora do papel que o pr&oacute;prio quer reconhecer    ao direito internacional na constitui&ccedil;&atilde;o de uma comunidade mundial    &ndash; precisamente os dois temas que se seguem na estrutura do livro. A quest&atilde;o,    pela primeira vez levantada num artigo antigo<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>,    releva de facto para a teoria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais de Morgenthau    e para a sua abordagem ao tema do Estado Mundial. O pr&oacute;prio afirma naquele    cap&iacute;tulo o corol&aacute;rio da l&oacute;gica contratualista de Hobbes,    segundo a qual</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>&laquo;as sociedades nacionais aparentavam-se &agrave; cena internacional    e a guerra &ldquo;de todos os homens contra todos os homens&rdquo; tornar-se-ia    a condi&ccedil;&atilde;o universal da humanidade. Desta premissa era logicamente    inevit&aacute;vel concluir que a paz e a ordem entre as na&ccedil;&otilde;es    s&oacute; estariam asseguradas dentro de um Estado Mundial que compreenda todas    as na&ccedil;&otilde;es da terra.&raquo;<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Morgenthau acrescenta que, seguindo este racioc&iacute;nio, &laquo;o que seria    pois necess&aacute;rio &eacute; uma transforma&ccedil;&atilde;o radical da actual    sociedade internacional de na&ccedil;&otilde;es para uma comunidade supranacional    de indiv&iacute;duos&raquo;<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.    Contudo, como este artigo demonstra, Morgenthau ser&aacute; obrigado a abandonar    esta ontologia individualista de Hobbes para poder, como o pr&oacute;prio anuncia,    estudar &laquo;a maneira segundo a qual um Estado Mundial poderia ser criado&raquo;<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.    O que est&aacute; em causa pois &eacute; saber se um Estado Mundial pode nascer    sem uma comunidade que o anteceda, ou seja, emergindo de uma transfer&ecirc;ncia    directa (dos direitos naturais) de indiv&iacute;duos &ndash; a quem o medo de    morte for&ccedil;a ao contrato<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>    &ndash; para um Leviat&atilde; global. Coloquemos pois a tem&aacute;tica &agrave;    luz da hist&oacute;ria do contratualismo, pois s&oacute; essa panor&acirc;mica    nos permitir&aacute; analisar a quest&atilde;o do Estado Mundial no contexto    pr&oacute;prio n&atilde;o apenas da teoria das RI de Morgenthau, mas tamb&eacute;m    da sua mais negligenciada teoria do direito internacional. &Eacute; precisamente    nesta &uacute;ltima que o c&acirc;none realista que Morgenthau reclama encontra    a sua funda&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica.</p>     <p>De facto, o paradoxo que caracteriza este cap&iacute;tulo de <i>Politics among    Nations</i> poderia ser, mal comparado, apontado ao fil&oacute;sofo ingl&ecirc;s    John Locke, a quem Morgenthau nunca recorre directamente mas em cujos escritos    o estado de natureza n&atilde;o apresenta as mesmas caracter&iacute;sticas beligerantes    que em Hobbes. Recordemos que para este &uacute;ltimo, a inseguran&ccedil;a    latente ao estado de natureza &ndash; o risco de morte enquanto indutor do &laquo;medo    de morte&raquo;<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a> &ndash; &eacute;    a raz&atilde;o de fundo para a contratualiza&ccedil;&atilde;o de uma autoridade    soberana, com o poder de coagir os indiv&iacute;duos &laquo;naturais&raquo;,    e de os fazer conformar com a &uacute;nica lei positiva capaz de os preservar    em condi&ccedil;&otilde;es de co-exist&ecirc;ncia. Neste particular, Morgenthau    est&aacute; aparentemente alinhado com Hobbes: sem Estado n&atilde;o h&aacute;    paz duradoura porque o instinto de autopreserva&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos    destr&oacute;i qualquer possibilidade de ordem. A ordem poss&iacute;vel &eacute;    portanto aquela que serve precisamente esse prop&oacute;sito: o da seguran&ccedil;a    individual.</p>     <p>Mas o que fazer do estado de natureza que a antecede? No caso de Hobbes, o    contrato social institui um Estado soberano cuja lei &eacute; a &uacute;nica    moral poss&iacute;vel capaz de vingar num mundo dominado por uma natureza que    deu tudo a todos (natura dedit omina omnibus) e onde o &laquo;direito a usar    algo&raquo; e o pr&oacute;prio &laquo;uso&raquo; s&atilde;o &laquo;a mesma coisa&raquo;<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>.    A lei positiva do soberano absorve assim, pelo contrato, o direito natural de    &aacute;tomos humanos que de outra forma seriam reenviados ao seu estado bruto    de Homo homini lupus, onde &laquo;n&atilde;o h&aacute; poder comum e por isso    n&atilde;o h&aacute; lei&raquo;<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>.    Sublinhe-se que o Estado serve a sobreviv&ecirc;ncia daqueles que, confrontados    com a morte &agrave;s m&atilde;os de outros, consentem que o Estado exer&ccedil;a    autoridade sobre eles, na condi&ccedil;&atilde;o de que esta se exer&ccedil;a    tamb&eacute;m sobre todos.</p>     <p>Como realista, Morgenthau reafirma esta voca&ccedil;&atilde;o securit&aacute;ria    do Estado de que Hobbes fora o pioneiro e que marca indelevelmente a tradi&ccedil;&atilde;o    realista, o pensamento liberal, e toda a ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica moderna.    Contudo, as gera&ccedil;&otilde;es que se seguiram a Hobbes alargaram o leque    de supostos direitos naturais que o Estado p&oacute;s-contratual deveria proteger,    a come&ccedil;ar desde logo pelo direito &agrave; propriedade. Para Locke existem    j&aacute; no estado pr&eacute;-civil certos direitos naturais que devem ser    positivados na lei aquando da institui&ccedil;&atilde;o da ordem jur&iacute;dica    soberana. A raz&atilde;o &oacute;bvia para o serem &eacute; que n&atilde;o s&oacute;    n&atilde;o constituem uma amea&ccedil;a para outros indiv&iacute;duos no estado    de natureza, como contribuem, isso sim, para assegurar a sua sobreviv&ecirc;ncia    em condi&ccedil;&otilde;es de civilidade. O papel segurador do Estado &eacute;    refor&ccedil;ado, e o objecto dessa securitiza&ccedil;&atilde;o ampliado. Mas    o facto de, entre Hobbes e Locke, existir uma discord&acirc;ncia fundamental    sobre que direitos naturais assegurar atrav&eacute;s da lei positiva que emana    do contrato social, leva a que ambos adoptem modelos de base muito distintos,    pelo menos no que &agrave; configura&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica do estado    de natureza diz respeito. E &eacute; neste ponto que Morgenthau parece optar    por Locke, de uma forma que &eacute; particularmente reveladora do seu tipo    espec&iacute;fico de realismo. Visto que Morgenthau cita Hobbes e n&atilde;o    Locke, importa retomar aqui a ideia de fundo deste &uacute;ltimo para percebermos    de que forma Morgenthau partilha com este a preocupa&ccedil;&atilde;o fundamental    que tanto marcou a Inglaterra do s&eacute;culo xvii e que &eacute; a da limita&ccedil;&atilde;o    constitucional do poder soberano. Afinal as rela&ccedil;&otilde;es internacionais    reenviam-nos para que estado de natureza?</p>     <p>Para Locke, o estado de natureza &eacute; de facto caracterizado pela liberdade    individual, mas, ao contr&aacute;rio de Hobbes que a entende famosamente como    &laquo;aus&ecirc;ncia de impedimentos externos&raquo;<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>,    Locke afirma que a liberdade natural &laquo;n&atilde;o &eacute; um estado de    licen&ccedil;a&raquo; e &laquo;o estado de natureza tem uma lei da natureza    para o governar, que a todos obriga&raquo;<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>.    Esta lei natural &eacute;, segundo Locke, &laquo;a lei da raz&atilde;o, aquela    lei que ensina toda a humanidade (&hellip;) que n&atilde;o devemos ofender o    outro na sua vida, sa&uacute;de ou propriedade&raquo;<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>.    A raz&atilde;o individual &eacute; segundo este fil&oacute;sofo ingl&ecirc;s    uma raz&atilde;o vocacionada para os outros e Locke revela aqui a sua grande    diverg&ecirc;ncia com Hobbes: os indiv&iacute;duos naturais coabitam numa &laquo;comunidade    de natureza&raquo; onde existem j&aacute; mecanismos de pena e castigo que s&atilde;o    leg&iacute;timos na medida em que servem a justi&ccedil;a que &eacute; a da    prote&ccedil;&atilde;o de outr&eacute;m. Este poder ordenador do direito natural    n&atilde;o &eacute; derivado de uma autoridade superior, mas sim da pr&oacute;pria    &laquo;naturalidade&raquo; da comunidade (de interesses). Para Locke, o estado    de natureza n&atilde;o &eacute; sem direito ou ordem e apesar de n&atilde;o    existir um &aacute;rbitro &uacute;ltimo, cada agente pode reclamar um poder    retributivo ou sancionat&oacute;rio &laquo;proporcional &agrave; transgress&atilde;o&raquo;.    Locke sublinha ainda que &laquo;a execu&ccedil;&atilde;o da lei da natureza,    naquele estado (natural), &eacute; colocada nas m&atilde;os de cada homem&raquo;    e da sua &laquo;raz&atilde;o calma&raquo; que respeita ao seu sentido de &laquo;equidade&raquo;    pelos outros membros da &laquo;comunidade natural&raquo;<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>.</p>     <p>Locke acrescenta que os indiv&iacute;duos n&atilde;o vivem, no estado de natureza,    num estado de guerra, ou de predisposi&ccedil;&atilde;o permanente para tal,    como teorizara Hobbes. A op&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica de Locke surge    antes como um conservadorismo, por contraste com o radicalismo de Hobbes: os    direitos naturais s&atilde;o uma linguagem que permite articular uma justifica&ccedil;&atilde;o    moral sobre quais os elementos do estado de natureza que devem ser preservados.    A lei positiva &eacute; pois uma extens&atilde;o do direito natural, n&atilde;o    uma cesura com este. Este ponto &eacute; muito semelhante &agrave; ontologia    pol&iacute;tica de Morgenthau porque significa que o estado civil n&atilde;o    opera um corte existencial com o estado de natureza, e n&atilde;o serve portanto    o prop&oacute;sito anestesiante da bestialidade humana que Hobbes promove atrav&eacute;s    da equipara&ccedil;&atilde;o hiperb&oacute;lica do soberano a um &laquo;deus    mortal&raquo; que faz da multid&atilde;o um povo. Em Hobbes, &eacute; o Estado    que cria o povo a partir de uma <i>multitude of men</i><sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a>.    Em Locke, pelo contr&aacute;rio, h&aacute; uma dimens&atilde;o h&iacute;brida    normativa que medeia entre selvagens detentores de direitos subjectivos e o    momento em que esses direitos s&atilde;o objectivados num estado civil ou <i>Commonwealth</i>.    Como refere Lee Ward, num refrescante resumo da dimens&atilde;o internacional    do pensamento de Locke,</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;No curso normal dos eventos, governo civil e sociedade s&atilde;o    praticamente insepar&aacute;veis. Como comunidades independentes interagem com    outras internacionalmente e governam-se a si pr&oacute;prias por leis gerais    internamente, a grande parte representa o todo numa aparente rede de conex&otilde;es    consensuais. A dissolu&ccedil;&atilde;o do estado por conquista ou revolu&ccedil;&atilde;o    exp&otilde;e a distin&ccedil;&atilde;o fundamental entre dois modos de exist&ecirc;ncia    inter-relacionados mas separados. As sociedades reconstituem os estados. A implica&ccedil;&atilde;o    para as rela&ccedil;&otilde;es internacionais &eacute; que n&atilde;o &eacute;    apenas o estabelecimento de um poder legislativo comum que separa uma comunidade    independente de todas as outras no estado de natureza internacional. Pelo contr&aacute;rio,    o compromisso pr&eacute;vio com a uni&atilde;o social, para formar uma &ldquo;sociedade&rdquo;,    reflecte a realidade social e moral que preexiste e sobrevive claramente &agrave;    dissolu&ccedil;&atilde;o de qualquer estado que um povo possa criar. Para Locke,    a sociedade &eacute; onde o povo existe.&raquo;<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Morgenthau n&atilde;o despreza esta dimens&atilde;o h&iacute;brida, poder&iacute;amos    dizer quase sociol&oacute;gica, do pensamento lockeano: a de uma comunidade    moral pr&eacute;-estatal. Claro que mesmo Hobbes tem presente que o Estado soberano    n&atilde;o nasce da t&aacute;bula rasa do estado de natureza e que a sua proposta    te&oacute;rica n&atilde;o tem correspond&ecirc;ncia hist&oacute;rica. Mas Morgenthau    opta claramente pelo modelo te&oacute;rico de Locke porque permite acomodar    a experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica n&atilde;o apenas numa teoria da soberania,    mas tamb&eacute;m numa filosofia do direito positivo, apesar dos conte&uacute;dos    idealizados que tamb&eacute;m encontramos nos T<i>reatises</i>. Resta saber    porqu&ecirc;.</p>     <p>Ao contr&aacute;rio de Hobbes, todo o peso te&oacute;rico do modelo lockeano    recai sobre a comunidade que institui o Estado, e n&atilde;o sobre o Estado    como agente fundador da comunidade. Ainda que em ambos os cl&aacute;ssicos a    prioridade ontol&oacute;gica seja dada aos indiv&iacute;duos &laquo;naturais&raquo;,    Locke abandona o princ&iacute;pio da &laquo;insociabilidade&raquo; humana no    estado de natureza, o que lhe permite conceber o Estado soberano menos como    emanando de um contrato entre indiv&iacute;duos que se amea&ccedil;am mutuamente,    e mais enquanto um &laquo;pacto&raquo; que opera no seio de uma comunidade preexistente    e j&aacute; comunicante. Ao contr&aacute;rio de Hobbes, onde a <i>suprema lex</i>    se afirma transcendente e assertiva contra um<i> ius</i> violento e imanente,    em Locke a lei positiva do Estado emana da natureza que &eacute; j&aacute; de    si soci&aacute;vel. A positividade do Estado deve limitar-se a dar continuidade    a direitos que j&aacute; existem por direito natural &ndash; ainda que n&atilde;o    por lei. De resto, &eacute; s&oacute; do ponto de vista dos direitos individuais    que j&aacute; obt&ecirc;m no contexto de uma moral comunit&aacute;ria que se    justifica instaurar uma autoridade: o direito positivo n&atilde;o existe em    Locke apenas para assegurar a sobreviv&ecirc;ncia de uns contra outros, mas    para garantir, para al&eacute;m disso, que o pr&oacute;prio Estado n&atilde;o    viola direitos que j&aacute; estavam adquiridos por natureza.</p>     <p>Ora, &eacute; precisamente neste sentido que Morgenthau pensa o interesse nacional:    este deve ser concebido em termos de poder na medida em que ao Estado cabe o    poder de assegurar os interesses da comunidade da qual emana historicamente    &ndash; mas que tamb&eacute;m limita o poder do Estado<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>.    Dizer que o interesse nacional &eacute; definido em termos de poder equivale    por isso a dizer que o poder tamb&eacute;m &eacute; limitado por esse interesse    &ndash; e n&atilde;o deve ir al&eacute;m dele. Como n&atilde;o h&aacute; povo    mundial n&atilde;o existe comunh&atilde;o de interesses a essa escala, mas a    inexist&ecirc;ncia de um Estado Mundial e de uma constitui&ccedil;&atilde;o    que o limita n&atilde;o quer dizer que n&atilde;o h&aacute; direito internacional    ou que este &eacute; totalmente inoperante &ndash; uma conclus&atilde;o que    poder&iacute;amos derivar do paradigma hobbesiano. &Eacute; nesta medida que    Daniel Deudney, naquela que &eacute; provavelmente a melhor recupera&ccedil;&atilde;o    do tema do Estado Mundial da actualidade, coloca Morgenthau na esteira do republicanismo    ingl&ecirc;s ao qual Hobbes ripostara com o seu Leviat&atilde;:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Esta soberania popular deve ser entendida n&atilde;o como governo    da maioria mas pelo contr&aacute;rio segundo a ideia que todo o governo leg&iacute;timo    &eacute; constitu&iacute;do por delega&ccedil;&otilde;es de autoridade do povo    como um todo. A &ecirc;nfase em limita&ccedil;&otilde;es m&uacute;tuas e soberania    p&uacute;blica geral significa que as rep&uacute;blicas implicam, nalgum grau,    rela&ccedil;&otilde;es simetricamente rec&iacute;procas de restri&ccedil;&atilde;o    de todos os membros de uma associa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica leg&iacute;tima.    (&hellip;) Os te&oacute;ricos republicanos insistem que h&aacute; uma diferen&ccedil;a    estrutural fundamental entre ordens pol&iacute;ticas republicanas e ordens pol&iacute;ticas    hier&aacute;rquicas. A autoridade em comunidades pol&iacute;ticas hier&aacute;rquicas    flui de cima para baixo a partir de um centro unificado, enquanto em rep&uacute;blicas    a autoridade &eacute; constitu&iacute;da pela delega&ccedil;&atilde;o da legitimidade    governativa, de sentido ascendente, do povo como um todo.&raquo;<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Para Morgenthau, o Estado servir&aacute; o interesse da comunidade pol&iacute;tica    sobre a qual exerce a sua autoridade, ou seja, o Estado &eacute; um meio. A    comunidade moral &eacute; pr&eacute;-estatal e por isso mesmo a realidade social    n&atilde;o &eacute; indiferente &agrave; forma&ccedil;&atilde;o do Estado. Esta    n&atilde;o pode por isso ser descartada quando estudamos e praticamos o direito    &ndash; precisamente o passo em falso que Morgenthau acusa no positivismo jur&iacute;dico,    e que, segundo ele, concebe ainda o direito internacional por analogia com os    sistemas legais nacionais, onde &eacute; contingente &laquo;a correspond&ecirc;ncia    entre conceitos legais e contexto sociol&oacute;gico&raquo; e onde pode ser    negligenciada ou at&eacute; justificada a &laquo;assun&ccedil;&atilde;o de auto-sufici&ecirc;ncia    da lei escrita&raquo;<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a>. Indo    ao encontro de Locke, o realismo de Morgenthau &eacute; menos estatoc&ecirc;ntrico    do que pareceria &agrave; primeira vista porque opta claramente por uma concep&ccedil;&atilde;o    lockeana da rela&ccedil;&atilde;o entre comunidade e Estado: ao mesmo tempo    que o Estado &eacute; o &uacute;ltimo garante da paz interna, a sua capacidade    para exercer esse papel atrav&eacute;s de um monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia    que assegure o <i>rule of law</i> depende de uma certa harmonia cultural, identit&aacute;ria    e moral pr&eacute;via que garantam a sua legitima&ccedil;&atilde;o. Se, por    um lado, Morgenthau segue Hobbes na ideia de que sem Estado n&atilde;o h&aacute;    paz, apontando no sentido da necessidade ontol&oacute;gico-pol&iacute;tica da    coer&ccedil;&atilde;o e interven&ccedil;&atilde;o estatal para resolver conflitos    que s&atilde;o inerentes &agrave; natureza humana, por outro lado a reflex&atilde;o    de Morgenthau sobre o Estado Mundial desagua na conclus&atilde;o de que a comunidade    precede o Estado ontologicamente, e que existem formas de co-exist&ecirc;ncia    pac&iacute;fica entre indiv&iacute;duos antes da positiva&ccedil;&atilde;o securit&aacute;ria    da ordem jur&iacute;dica soberana.</p>     <p>Como veremos, &eacute; a pr&oacute;pria ambival&ecirc;ncia em que Morgenthau    navega que o predisp&otilde;e para o h&iacute;brido pol&iacute;tico-ontol&oacute;gico    de Locke, t&atilde;o caro ao pensamento federalista americano mas a que Morgenthau    acede pelas portas travessas da filosofia do direito alem&atilde;. &Eacute;    o primado at&eacute; aqui revisitado da comunidade moral sobre o Estado e o    direito que torna imperativo aportar &agrave; &laquo;ci&ecirc;ncia do direito    internacional&raquo;, por um lado, uma carga sociol&oacute;gica traduzida num    funcionalismo, e, por outro lado, um realismo pol&iacute;tico que permite aproximar    as suas categorias conceptuais &agrave; &laquo;realidade das normas&raquo; internacionais<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a>.    &Eacute; sobre estas duas componentes que as pr&oacute;ximas partes se debru&ccedil;am    para concluir que o momento fundador que Morgenthau reclama na tradi&ccedil;&atilde;o    realista &eacute; mais frut&iacute;fero naquela frente onde se esperava ser    mais an&oacute;dino, precisamente a do direito internacional como instrumento    da constru&ccedil;&atilde;o de um Estado Mundial.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>FUNCIONALISMO E ESTADO MUNDIAL</b></p>     <p>Retomemos o ponto principal da parte anterior. Na esteira da concep&ccedil;&atilde;o    lockeana do contrato social, e mesmo n&atilde;o elidindo algumas reca&iacute;das    hobbesianas, Morgenthau afirma sobremaneira que a autoridade pol&iacute;tica    depende, para cumprir o objectivo de assegurar a paz, da exist&ecirc;ncia de    uma comunidade moral pr&eacute;via. A essa comunidade &eacute; portanto dada    prioridade ontol&oacute;gica face ao Estado, como &eacute; tamb&eacute;m dada    primazia &agrave; &eacute;tica social sobre o direito positivo. &Eacute; neste    ponto que Morgenthau &ndash; como Reinhold Niebuhr j&aacute; o tinha feito antes    dele<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a> &ndash; se demarca daquele    que &eacute; normalmente apontado como um te&oacute;rico basilar da tradi&ccedil;&atilde;o    realista, Thomas Hobbes, para quem a comunidade pol&iacute;tica e moral se instaura    pela m&atilde;o do (direito) soberano. A quest&atilde;o est&aacute; pois em    saber como &eacute; que para Morgenthau a comunidade constitui o Estado, por    um lado, e como &eacute; que a primeira se auto constitui enquanto um todo coerente    regido por mores e por uma &eacute;tica comum que antecedem o direito positivo,    por outro.</p>     <p>A resposta de Morgenthau n&atilde;o &eacute; clara mas aponta pelo menos um    caminho: o de que nunca poderemos entender esta quest&atilde;o atrav&eacute;s    de uma concep&ccedil;&atilde;o positivista do direito em que este &eacute; visto    como a lei que s&oacute; o monop&oacute;lio de viol&ecirc;ncia leg&iacute;tima    do Estado pode asseverar. Pelo contr&aacute;rio, &eacute; a tradu&ccedil;&atilde;o    desse monop&oacute;lio em <i>suprema lex</i> &ndash; ou seja, a constitui&ccedil;&atilde;o    de um &laquo;monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia leg&iacute;tima&raquo; &agrave;    la Weber<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a> &ndash; que tem    que pressupor j&aacute; uma comunidade legitimadora, e nessa medida um &laquo;direito&raquo;    dessa comunidade para dar o seu assentimento ao soberano. Este consentimento    n&atilde;o opera atrav&eacute;s de um contrato de indiv&iacute;duos isolados    que passam a estar socialmente e moralmente vinculados pela m&atilde;o de uma    positividade coerciva que o soberano inaugura por estar a ela obrigado. Ao contr&aacute;rio    de Hobbes, Morgenthau n&atilde;o acha que cabe ao Estado criar a comunidade,    nem a moral, nem o direito. Ora, se estes antecedem o Estado, ent&atilde;o Morgenthau    n&atilde;o &eacute; o hobbesiano que pensa ser. Pelo contr&aacute;rio, como    conclui o cap&iacute;tulo sobre o Estado Mundial &ndash; bem como o cap&iacute;tulo    seguinte dedicado &agrave; comunidade mundial &ndash; &laquo;Uma comunidade    mundial deve anteceder um Estado Mundial&raquo;<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a>.</p>     <p>Morgenthau refor&ccedil;a esta ideia por analogia com o desenvolvimento hist&oacute;rico    dos pr&oacute;prios Estados Unidos que &laquo;foram fundados sobre uma comunidade    moral e pol&iacute;tica que a Constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o criou mas    encontrou j&aacute; em exist&ecirc;ncia&raquo;<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a>.    Assim, conclui Morgenthau, &laquo;a comunidade do povo americano antecedeu o    Estado americano&raquo; e Morgenthau generaliza esta regra para todas as autoridades    pol&iacute;ticas que tenham sido, ou venham a ser, constru&iacute;das<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a>.    Como vimos, esta concep&ccedil;&atilde;o republicana de soberania popular e    governo limitado aponta no sentido de uma triangula&ccedil;&atilde;o entre comunidade,    Estado e direito, em que este &uacute;ltimo n&atilde;o surge a jusante dos primeiros:    como o direito n&atilde;o passa de uma institucionaliza&ccedil;&atilde;o em    sede pr&oacute;pria de uma moral que j&aacute; opera socialmente no contexto    de uma comunidade &ndash; donde o enfoque de Morgenthau na natureza costumeira    do direito (internacional) &ndash; &eacute; err&oacute;neo conceber o direito    como ponta final do processo constituinte do Estado, ou de forma ainda mais    redutora, como mero meio de que o soberano &eacute; o detentor exclusivo e &uacute;ltimo.    Ora &eacute; precisamente pelo direito, isto &eacute;, seguindo os trilhos da    filosofia jur&iacute;dica de Morgenthau, que podemos compreender melhor a funda&ccedil;&atilde;o    republicana do seu pensamento, que deriva de uma longa tradi&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rica alem&atilde; &ndash; e que Morgenthau traz para o cora&ccedil;&atilde;o    da sua analogia entre a funda&ccedil;&atilde;o de um Estado Mundial e a funda&ccedil;&atilde;o    dos Estados Unidos.</p>     <p>De facto, quer a ideia de uma comunidade natural quer mesmo a no&ccedil;&atilde;o    de uma moralidade natural pr&eacute;-estatais eram um tema central do grande    jurista alem&atilde;o Georg Jellinek, cuja no&ccedil;&atilde;o de governo autolimitado    (<i>Selbstverpflichtungslehre</i>) tinha sido por ele trazida para o centro    do debate acad&eacute;mico d&eacute;cadas antes. Numa detalhada revisita&ccedil;&atilde;o    do pensamento jur&iacute;dico de Morgenthau, Oliver Juters&ouml;nke lembra-nos    como esta ideia &eacute; fruto de um paralelo com &laquo;a submiss&atilde;o    do sujeito kantiano &agrave; lei moral (<i>Sittengesetz</i>)&raquo; onde &laquo;o    Estado se submete &agrave; lei que ele pr&oacute;prio cria &ndash; dito de outra    forma, o Estado s&oacute; se realiza completamente por meio da sua vincula&ccedil;&atilde;o    legal &agrave;s leis que imp&otilde;e a si pr&oacute;prio&raquo;<sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a>.    Como observa Juters&ouml;nke, numa passagem que &eacute; fundamental para compreender    o contexto intelectual em que Morgenthau escreve, Jellinek concebera</p>     <p>     <blockquote>&laquo;o direito dom&eacute;stico e internacional como dois sistemas    normativos separados que est&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua    de coordena&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o de subordina&ccedil;&atilde;o. Por    outras palavras, foi capaz de caracterizar as rela&ccedil;&otilde;es intra-estatais    como sendo ora uma luta pelo poder ora a administra&ccedil;&atilde;o de um sistema    legal. Atrav&eacute;s daquilo a que chamava &ldquo;o poder normativo do factual&rdquo;    (<i>die normative Kraft des Faktischen</i>), Jellinek argumentava que todas    as ordens legais s&atilde;o baseadas na validade pr&aacute;tica (<i>praktische    Geltung</i>) de normas legais que recebem a sua for&ccedil;a vinculativa da    vontade do sujeito legal, psicologicamente concebida.&raquo;<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a></blockquote>     <p></p>     <p>&Eacute; partindo desta formaliza&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica da preced&ecirc;ncia    ontol&oacute;gica de uma comunidade natural, dita &laquo;factual&raquo;, sobre    o Estado, que Morgenthau pode chamar &laquo;realista&raquo; &agrave;quela que    &eacute;, no fundo, como veremos a seguir, uma concep&ccedil;&atilde;o pluralista    e funcionalista do direito internacional, e que foi a base quer da sua tese    de doutoramento, quer do seu livro simbolicamente intitulado <i>La r&eacute;alit&eacute;    des normes</i><sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a>. Com Jellinek    como pano de fundo, Kelsen e Schmitt ir&atilde;o extremar o mapa filos&oacute;fico    estabelecido por aquele gigante da filosofia alem&atilde; do direito, apostando,    respectivamente, ou no direito como ci&ecirc;ncia das normas, ou na factualidade    espec&iacute;fica de uma normatividade naturalmente &laquo;excepcional&raquo;.    Neste contexto, como &eacute; que Morgenthau concebe ent&atilde;o o direito?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Precisamente como uma fun&ccedil;&atilde;o desse processo sociopol&iacute;tico    que desemboca na constitui&ccedil;&atilde;o do Estado, ou seja, uma opera&ccedil;&atilde;o    levada a cabo por actores sociais cuja sociabilidade &eacute; ora o produto    de uma comunh&atilde;o org&acirc;nica de interesses, ora de uma balan&ccedil;a    de poder. &Eacute; por isso que, para ele, a forma&ccedil;&atilde;o do Estado    soberano e da paz social de que este &eacute; quer o principal protagonista,    quer tamb&eacute;m o produto &uacute;ltimo, s&oacute; pode ser concebida a partir    de um direito entendido de forma &laquo;funcionalista&raquo;. Morgenthau segue    neste cap&iacute;tulo as palavras de David Mitrany &ndash; a que o realismo    de Carr j&aacute; tinha aderido<sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a>    &ndash; e cuja rejei&ccedil;&atilde;o funcionalista de um Estado Mundial imposto    a partir de um direito positivo, &eacute; transposta &agrave; letra:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;se o mal do conflito e da guerra nascem a partir da divis&atilde;o    do mundo em v&aacute;rias unidades pol&iacute;ticas desligadas e competitivas,    ser&aacute; esse mal exorciz&aacute;vel simplesmente atrav&eacute;s da mudan&ccedil;a    ou da redu&ccedil;&atilde;o das linhas de divis&atilde;o? (&hellip;) S&oacute;    h&aacute; duas formas de alcan&ccedil;ar esse fim. Uma seria atrav&eacute;s    de um Estado Mundial que aniquilaria &agrave; for&ccedil;a as divis&otilde;es    pol&iacute;ticas; a outra (&hellip;) iria sobrepor a essas divis&otilde;es pol&iacute;ticas    uma rede alargada de actividades e ag&ecirc;ncias internacionais, nas quais    e atrav&eacute;s das quais os interesses e a vida de todas as na&ccedil;&otilde;es    seriam gradualmente integrados. Essa &eacute; a mudan&ccedil;a fundamental para    a qual qualquer sistema internacional deve aspirar e contribuir: tornar o governo    internacional co-extensivo com actividades internacionais (&hellip;) Deve preocupar-se    o mais poss&iacute;vel com necessidades comuns que s&atilde;o evidentes, enquanto    pressup&otilde;e o m&iacute;nimo poss&iacute;vel sobre a unidade social que    para j&aacute; &eacute; apenas latente e irreconhec&iacute;vel.&raquo;<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Mitrany conclui este racioc&iacute;nio com a oposi&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o    central a todo o argumento de <i>Politics among Nations</i>, entre positividade    e organicidade no que &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o da ordem internacional    diz respeito, e que corresponde precisamente &agrave; vis&atilde;o realista-funcionalista    que Morgenthau adopta do direito:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;A comunidade tornar-se-&aacute; um corpo vivo n&atilde;o atrav&eacute;s    de acto de f&eacute; escrito mas atrav&eacute;s de um desenvolvimento org&acirc;nico    activo. (&hellip;) Essa tend&ecirc;ncia consiste em organizar o governo em torno    de fins e necessidades espec&iacute;ficos, e de acordo com a condi&ccedil;&atilde;o    do seu tempo e espa&ccedil;o, em lugar da organiza&ccedil;&atilde;o tradicional    baseada numa divis&atilde;o constitucional que determina as jurisdi&ccedil;&otilde;es    de direitos e poderes. (&hellip;) A abordagem funcional (&hellip;) ajudaria    ao crescimento de um trabalho positivo e construtivo, de h&aacute;bitos e interesses    comuns, tornando as linhas de fronteira insignificantes, ao lhes sobrepor um    crescimento natural de actividades comuns e ag&ecirc;ncias administrativas comuns.&raquo;<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a></blockquote>     <p></p>     <p>A insist&ecirc;ncia de Mitrany no adjectivo &laquo;comum&raquo; parece de facto    estar em tens&atilde;o com a ideia c&eacute;lebre de Morgenthau de interesse    nacional &laquo;definido em termos de poder&raquo;<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a>.    Mas ambos os te&oacute;ricos parecem acreditar que quer os interesses dos actores    internacionais, quer o seu poder para fazer valer esses interesses, podem ser    comunitarizados &ndash; desde que n&atilde;o o sejam de forma coerciva, inorg&acirc;nica,    por decreto. &Eacute; na f&oacute;rmula de comunitariza&ccedil;&atilde;o que    reside ent&atilde;o a aten&ccedil;&atilde;o aos interesses e poderes dos estados    e &eacute; l&aacute; tamb&eacute;m que o direito tem um papel na media&ccedil;&atilde;o    e produ&ccedil;&atilde;o desses interesses, e na acultura&ccedil;&atilde;o dos    actores a uma moral institu&iacute;da numa lei que n&atilde;o &eacute; imposta    do topo para a base, mas emerge naturalmente da intera&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea    dos actores sociais, e dos regimes informais e din&acirc;micos de normas a que    essa interac&ccedil;&atilde;o est&aacute; sujeita. Neste particular, Morgenthau    est&aacute; nos ant&iacute;podas de realistas mais recentes que reivindicam    o seu legado para sustentar a suposta irredutibilidade do interesse nacional,    n&atilde;o fosse este, para Morgenthau, uma constru&ccedil;&atilde;o social    pass&iacute;vel de transforma&ccedil;&atilde;o via coopera&ccedil;&atilde;o.    O acrescento propriamente &laquo;realista&raquo; de Morgenthau a este funcionalismo    reside apenas na sua insist&ecirc;ncia de que essa coopera&ccedil;&atilde;o    deve ser volunt&aacute;ria, at&eacute; voluntariosa, e n&atilde;o imposta a    partir de fora pelo <i>fiat</i> de uma tratad&iacute;stica que negligencia o    princ&iacute;pio da <i>bona fide</i>, isto &eacute;, de um franco reconhecimento    dos interesses das partes e de um c&aacute;lculo, sempre prec&aacute;rio e fal&iacute;vel,    das necessidades atend&iacute;veis das comunidades originais. O primado comunit&aacute;rio    que a express&atilde;o &laquo;comunidade de interesses&raquo; indicia, sugere    que a raiz social do interesse nacional admite que os estados possam ter em    conta ganhos absolutos nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais e que a l&oacute;gica    an&aacute;rquica da ordem internacional n&atilde;o esteja condenada ao ciclo    vicioso de ganhos relativos<sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a>.    Morgenthau conclui por isso que</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;este &eacute; de facto o modo atrav&eacute;s do qual as comunidades    crescem, e os governos crescem a partir de dentro dessas comunidades (&hellip;)    De acordo com o Professor Mitrany, uma comunidade internacional tem de crescer    da satisfa&ccedil;&atilde;o de necessidades comuns partilhadas pelos membros    de diferentes na&ccedil;&otilde;es. As ag&ecirc;ncias especializadas das Na&ccedil;&otilde;es    Unidas, servindo povos por todo o mundo apesar das fronteiras nacionais, podem    criar, pelo mero facto da sua exist&ecirc;ncia e performance, uma comunidade    de interesses, valores, e ac&ccedil;&otilde;es. Em &uacute;ltimo caso, se estas    ag&ecirc;ncias internacionais fossem numerosas o suficiente para servir as vontades    mais importantes da maioria dos povos da terra, as lealdades para com estas    institui&ccedil;&otilde;es e para com a comunidade internacional superariam    as lealdades &agrave;s sociedades nacionais e suas institui&ccedil;&otilde;es&raquo;<sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a>.</blockquote>     <p></p>     <p>Esta descri&ccedil;&atilde;o aponta para uma concep&ccedil;&atilde;o de ordem    internacional que j&aacute; podemos encontrar em Locke. Como refere Ward, &laquo;para    Locke as normas deduzidas das leis da natureza governam o estado de natureza    internacional mesmo quando sociedades independentes permanecem os primeiros    executores do direito natural na sociedade internacional&raquo;<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a>.    Nesta linha, <i>Politics among Nations </i>explica-nos, afinal, que a for&ccedil;a    do direito internacional reside no modo como certas formas org&acirc;nicas de    regulamenta&ccedil;&atilde;o e ordena&ccedil;&atilde;o podem at&eacute; institucionalizar    autoridades jur&iacute;dico-pol&iacute;ticas supra-estatais como &eacute; o    caso da integra&ccedil;&atilde;o europeia. Aqui, as ag&ecirc;ncias mobilizadoras    deste tipo de direito</p>     <p>     <blockquote>&laquo;come&ccedil;am da base e n&atilde;o do topo. Tentam criar uma    unidade funcional numa esfera de actua&ccedil;&atilde;o limitada, na esperan&ccedil;a    de que a opera&ccedil;&atilde;o dessa unidade dentro dessa esfera limitada possa    levar, primeiro, a uma comunidade de interesses dentro dessa esfera particular,    e que esse exemplo se expanda depois para campos funcionais&raquo;<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a>,</blockquote>     <p></p>     <p>no que viria a ser designado pelos funcionalistas como <i>spillover effect.</i></p>     <p>Morgenthau conclui que &laquo;quando todas as organiza&ccedil;&otilde;es funcionais    tenham sido estabelecidas como preocupa&ccedil;&otilde;es correntes, a soberania    ter&aacute; sido transferida de facto para um governo europeu comum de passos    graduais&raquo;<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a>. O exemplo    da integra&ccedil;&atilde;o europeia mostra como a contiguidade ontol&oacute;gica    e implica&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica entre comunidade &laquo;natural&raquo;    e Estado soberano n&atilde;o determina que o direito apenas seja operante ap&oacute;s    a institui&ccedil;&atilde;o daquele. O direito internacional &eacute; j&aacute;    direito, v&aacute;lido e vinculativo, muito antes de um &laquo;omni-Estado&raquo;    mundial romper com a tragicidade pr&oacute;pria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais<sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a>.    E &eacute; por isso que podemos acreditar, com a cautela pr&oacute;pria de um    Morgenthau, no imperativo moral da constitui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o de    um Estado Mundial pela m&atilde;o de um direito positivo &ndash; esdr&uacute;xulo    porque origin&aacute;rio de um complexo jur&iacute;dico-institucional inorg&acirc;nico    como o da Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es &ndash; mas nos esfor&ccedil;os    pragm&aacute;ticos da constru&ccedil;&atilde;o <i>piecemeal,</i> com obst&aacute;culos    e retrocessos, de uma comunidade mundial capaz de criar as condi&ccedil;&otilde;es    de um Estado Mundial.</p>     <p>Scheuerman sublinha neste contexto a forma como o funcionalismo qualifica o    realismo de Morgenthau e justifica a sua adjectiva&ccedil;&atilde;o como &laquo;progressista&raquo;    recorrendo &agrave;s palavras de E. H. Carr, tamb&eacute;m ele um realista adepto    do funcionalismo de Mitrany:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;A organiza&ccedil;&atilde;o funcional contribuiu para a cria&ccedil;&atilde;o    de uma ordem social e econ&oacute;mica p&oacute;s-nacional que por si pode sustentar    uma organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica est&aacute;vel para l&aacute;    do Estado-na&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo, pode supervisionar tend&ecirc;ncias    centralizadoras potencialmente perigosas, inclusivamente os efeitos laterais    patol&oacute;gicos de um mundo dividido pela competi&ccedil;&atilde;o de blocos    de poder regionais. Um planeta dividido em blocos multinacionais rivais pode    simplesmente servir como terreno f&eacute;rtil para &ldquo;um novo imperialismo    que seria basicamente o velho nacionalismo reescalonado e abriria quase de certeza    caminho para guerras mais tit&acirc;nicas e devastadoras&rdquo;. Porque as organiza&ccedil;&otilde;es    funcionais podem potencialmente transcender as fronteiras de blocos regionais    emergentes, contribuem para a cria&ccedil;&atilde;o do tecido social entre eles,    e podem ajudar a cimentar as funda&ccedil;&otilde;es de uma uni&atilde;o mundial    eventual.&raquo;<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a></blockquote>     <p></p>     <p>A transposi&ccedil;&atilde;o a que Morgenthau recorre da organicidade social    e moral da pol&iacute;tica para a escala mundial parece minar o projecto da    &laquo;autonomia do pol&iacute;tico&raquo; a que normalmente associar&iacute;amos    o realismo. Mas Morgenthau n&atilde;o fora o &uacute;nico realista a tratar    o tema do Estado Mundial. Frederick Schuman e John Herz tamb&eacute;m haviam    aderido a esta agenda<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a> . Contudo,    a originalidade de Morgenthau reside precisamente na op&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica    pela vis&atilde;o gradualista e incrementalista, cujos laivos lockeanos Scheuerman    n&atilde;o detecta no <i>seu Realist Case for Global Reform</i><sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a>.</p>     <p>Do ponto de vista do funcionalismo, o positivismo est&aacute; assim altamente    limitado por querer explicar quer a paz, quer o Estado, quer a pr&oacute;pria    comunidade que &eacute; sujeita &agrave; normatividade jur&iacute;dica, a partir    de dentro do sistema legal. Segundo Morgenthau, esta teoria n&atilde;o &eacute;    inteiramente desavinda no que ao direito dom&eacute;stico diz respeito, pois    que as conclus&otilde;es a que chega est&atilde;o j&aacute; contidas nos seus    pr&oacute;prios pressupostos &laquo;ideol&oacute;gicos&raquo;<sup><a href="#49">49</a></sup><a name="top49"></a>.    A ideia de que uma norma jur&iacute;dica s&oacute; &eacute; v&aacute;lida na    medida em que &eacute; consagrada pelo direito positivo &eacute; precisamente    o sonho normativo de uma parte importante da primeira modernidade. Morgenthau    julga esta concep&ccedil;&atilde;o redundante porque se limita a confirmar as    suas pr&oacute;prias assun&ccedil;&otilde;es ontol&oacute;gicas ao arrogar-se    um salto, que o pr&oacute;prio caracteriza de ideol&oacute;gico, de um &laquo;dever    ser&raquo; &ndash; o ideal pol&iacute;tico de uma comunidade pol&iacute;tica    obediente ao direito soberano &ndash; para um &laquo;ser&raquo; &ndash; o da    exist&ecirc;ncia desse direito s&oacute; dentro do Estado, e a conclus&atilde;o    &oacute;bvia de que s&oacute; a&iacute; este poder&aacute; reivindicar validade    jur&iacute;dica.</p>     <p>Para Morgenthau, &eacute; pois revertendo esta concep&ccedil;&atilde;o positivista    que a pr&aacute;tica jur&iacute;dica intra-estatal reificou e banalizou &ndash;    tomando a codifica&ccedil;&atilde;o do direito como prova final da sua validade    e &laquo;realidade&raquo; &ndash;, que podemos entender o direito como um processo    social que n&atilde;o apenas rege, a partir de fora da sociedade civil, o conflito    e a coopera&ccedil;&atilde;o entre &laquo;for&ccedil;as sociais&raquo;<sup><a href="#50">50</a></sup><a name="top50"></a>    antag&oacute;nicas, mas &eacute; ele pr&oacute;prio legitimado enquanto for&ccedil;a    normativa imanente a essa sociedade e, nessa medida, constitutivo daquelas que    s&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es sine qua non de qualquer ordem pol&iacute;tico-jur&iacute;dica,    incluindo a internacional, a saber: a comunidade de interesses e a balan&ccedil;a    de poder<sup><a href="#51">51</a></sup><a name="top51"></a>. Aqui reside o m&eacute;todo    de Morgenthau para o estudo do direito internacional, que podemos designar por    realista-funcionalista. Para ele, &laquo;a jurisprud&ecirc;ncia &ldquo;realista&rdquo;    &eacute; pois uma jurisprud&ecirc;ncia &ldquo;funcionalista&rdquo;&raquo;<sup><a href="#52">52</a></sup><a name="top52"></a>.    &Eacute; na base deste enunciado que a &uacute;ltima parte deste artigo resume    a teoria do direito de Morgenthau.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REALISMO E DIREITO INTERNACIONAL</b></p>     <p>N&atilde;o sendo o objecto deste artigo escalpelizar a filosofia do direito    que Morgenthau houvera pela primeira vez exposto na sua tese de doutoramento,    importa apesar de tudo dedicar-lhe alguns par&aacute;grafos para percebermos    a forma como o Estado Mundial constitui uma lente essencial para entender o    realismo de Morgenthau como &laquo;progressista&raquo;, isto &eacute;, como    &laquo;um compromisso metodol&oacute;gico para integrar o estudo do direito    internacional numa teoria geral das rela&ccedil;&otilde;es internacionais&raquo;    que pode inclusive reclamar fins reformistas<sup><a href="#53">53</a></sup><a name="top53"></a>.</p>     <p>Arguida em 1929, a tese de Morgenthau confrontou uma das quest&otilde;es mais    centrais do direito internacional e que estava no cora&ccedil;&atilde;o quer    do conflito internacional &ndash; e da tentativa da Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es    para lhe p&ocirc;r fim &ndash;, quer do pr&oacute;prio debate intelectual nos    quais muitos positivistas de renome, incluindo o seu orientador, eram protagonistas    mores: a de saber at&eacute; que ponto os estados estavam dispostos a submeter    disputas com outros estados &agrave; arbitragem internacional<sup><a href="#54">54</a></sup><a name="top54"></a>.    O interesse desta quest&atilde;o era &oacute;bvio &agrave; luz de um quadro    hist&oacute;rico marcado pela recusa de muitos estados em se submeterem a tais    procedimentos por considerarem precisamente que os seus &laquo;interesses nacionais&raquo;    n&atilde;o seriam atend&iacute;veis ou sindic&aacute;veis nesse contexto. Mas    existe, a par com esta sali&ecirc;ncia contextual da escolha tem&aacute;tica    do jovem Morgenthau, uma dimens&atilde;o te&oacute;rica que remete precisamente    para os fundamentos filos&oacute;ficos do Estado Mundial acima explanados, e    na qual nos devemos concentrar para compreender mais a fundo a forma como aquele    tema est&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o de uma teoria realista do direito    internacional.</p>     <p>J&aacute; vimos que, para Morgenthau, os estados &ndash; sobretudo os democr&aacute;ticos    &ndash; n&atilde;o emanavam a sua concep&ccedil;&atilde;o de &laquo;interesse&raquo;    de uma comunidade alargada ao globo, mas sim da na&ccedil;&atilde;o como comunidade    em que uma moral consensual e um direito imanente a essa moral redundam na consagra&ccedil;&atilde;o    de uma autoridade soberana capaz de resolver disputas sociais de todo o tipo.    A n&iacute;vel dom&eacute;stico, a autoridade judicial do Estado &eacute; superior    aos poderes que balanceia e transcende os conflitos de interesse. Por contraposi&ccedil;&atilde;o,    as rela&ccedil;&otilde;es internacionais caracterizam-se pela afirma&ccedil;&atilde;o    do &laquo;interesse nacional entendido em termos de poder&raquo;<sup><a href="#55">55</a></sup><a name="top55"></a>.    Ou seja, os interesses sociais que formaria uma suposta comunidade mais alargada    do que a nacional n&atilde;o s&atilde;o para j&aacute; estend&iacute;veis a    toda a humanidade, e portanto n&atilde;o a mobilizam nem moralmente nem politicamente.    Mas apesar dessa aus&ecirc;ncia de comunidade de interesses &ndash; que como    vimos j&aacute; tinha extravasado as fronteiras nacionais nalguns casos &ndash;,    a insist&ecirc;ncia de Morgenthau na formula&ccedil;&atilde;o do &laquo;interesse    nacional&raquo; e do poder estatal &eacute; muito mais reveladora do que pareceria    &agrave; partida. <i>Em Politics among Nations</i>, a balan&ccedil;a de poder    e a comunidade de interesses s&atilde;o avan&ccedil;ados como base sociol&oacute;gica    e &eacute;tica da possibilidade de uma comunidade mundial &ndash; na verdade,    de qualquer comunidade &ndash; que, por sua vez, &eacute; o pr&eacute;-requisito    do florescimento de um Estado central.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ora, j&aacute; na sua tese, Morgenthau havia referido que os estados n&atilde;o    concebiam o direito internacional &ndash; e em particular os mecanismos de arbitragem    interestatal &ndash; como neutros e soberanos face aos interesses em jogo. Portanto,    a quest&atilde;o da viabilidade de um Estado Mundial remete imediatamente para    quem de direito poderia consentir &agrave; sua autoridade. Dada a inexist&ecirc;ncia    de uma comunidade mundial, sobram apenas aqueles ingredientes m&iacute;nimos    que est&atilde;o na base de qualquer sociedade humana. Como Hannah Arendt lembrara,    o conceito de interesse, qui&ccedil;&aacute; desvirtuado por algum liberalismo,    remete etimologicamente para um &laquo;estar entre&raquo; (inter-esse)<sup><a href="#56">56</a></sup><a name="top56"></a>    em que a emerg&ecirc;ncia de uma necessidade, de um valor ou de uma vantagem    corresponde a um processo de reconhecimento social e s&oacute; existe em fun&ccedil;&atilde;o    dessa interac&ccedil;&atilde;o. &Eacute; este postulado que Wendt procura revigorar    sob as vestes de um construtivismo em que a l&oacute;gica do reconhecimento    se sobrep&otilde;e &agrave; l&oacute;gica da anarquia', interpretada nos termos    hobbesianos que a primeira parte desta artigo revisitou, mas cuja a associa&ccedil;&atilde;o    ao realismo &eacute; aqui posta em causa<sup><a href="#57">57</a></sup><a name="top57"></a>.    &Agrave; escala internacional, portanto, a necessidade de os mecanismos jur&iacute;dicos    e institucionais de todo o tipo verem reconhecidos os interesses das partes    &eacute; precisamente o que permite a forma&ccedil;&atilde;o de uma comunidade,    na vis&atilde;o de Morgenthau. A sua tese doutoral concentrara-se precisamente    na forma como os estados n&atilde;o delegavam em autoridades supra-estatais    &ndash; como os tribunais internacionais &ndash; o poder de determinar o interesse    nacional, e assim justificavam a sua recusa em aceder a estes mecanismos como    uma quest&atilde;o de &laquo;interesse nacional&raquo;, n&atilde;o sindic&aacute;vel    por qualquer outra autoridade sen&atilde;o aquela que deriva da comunidade de    interessados, a na&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Como afirma Marti Koskenniemi, o facto de os estados se respaldarem no &laquo;interesse    nacional&raquo; para n&atilde;o se submeterem a mecanismos de resolu&ccedil;&atilde;o    de conflitos na justi&ccedil;a internacional, confirmava o argumento de Schmitt    quanto &agrave; falta de subst&acirc;ncia do &laquo;pol&iacute;tico&raquo;<sup><a href="#58">58</a></sup><a name="top58"></a>.    Morgenthau lembraria com desgosto o facto de Schmitt nunca ter reconhecido o    seu contributo para a defini&ccedil;&atilde;o do pol&iacute;tico como um camale&atilde;o    conceptual que apenas traz &laquo;intensidade&raquo; &agrave; realidade que    descreve, independentemente dessa realidade ser econ&oacute;mica, moral, cultural    &ndash; ou at&eacute; legal. Se para Schmitt esta carga psicol&oacute;gica estava    associada a um efeito teol&oacute;gico-messi&acirc;nico que culminava na identifica&ccedil;&atilde;o    de um inimigo existencial cuja morte valia todos os sacrif&iacute;cios, para    Morgenthau podia ser estudada a partir das circunst&acirc;ncias sociol&oacute;gicas    e das cren&ccedil;as morais que alimentam e legitimam o poder de uma determinada    comunidade face a outra. De qualquer forma, para ambos, o &laquo;pol&iacute;tico&raquo;    n&atilde;o era explic&aacute;vel &agrave; luz das categorias tradicionais do    direito, precisamente porque na sua fun&ccedil;&atilde;o adjectivante de intensificador    de uma dada realidade, o &laquo;pol&iacute;tico&raquo; se imiscui na realidade    social para a capturar e manipular no sentido de servir um prop&oacute;sito    de poder e, em &uacute;ltimo caso, de guerra<sup><a href="#59">59</a></sup><a name="top59"></a>.    Como poderia ent&atilde;o a dogm&aacute;tica jur&iacute;dica aprisionar a serpente    do pol&iacute;tico?</p>     <p>A este problema Morgenthau procurou dar a resposta indicada em cima: a realidade    normativa segundo a qual as disputas internacionais s&atilde;o dificilmente    &laquo;judici&aacute;veis&raquo;, s&oacute; pode ser colmatada se os mecanismos    de resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos forem trabalhados n&atilde;o no sentido    de se aproximarem do modelo dom&eacute;stico de um sistema de justi&ccedil;a    convencional, mas se adquirirem uma consci&ecirc;ncia funcionalista e incrementalista    do imperativo &eacute;tico-jur&iacute;dico do seu reconhecimento legal. O direito    internacional tem pois de ser estudado na porosidade da sua natureza pluralista    e funcional, e evitando uma separa&ccedil;&atilde;o estrita entre o &laquo;pol&iacute;tico&raquo;    e o &laquo;legal&raquo;. Para Morgenthau, estes n&atilde;o formam de todo &laquo;um    par de conceitos que podem ser contrastados entre si. O contraposto conceptual    do conceito do pol&iacute;tico &eacute; formado pelo conceito do n&atilde;o-pol&iacute;tico,    mas n&atilde;o pela &ldquo;quest&atilde;o legal&rdquo; que, por sua vez, pode    ser pol&iacute;tica ou n&atilde;o pol&iacute;tica&raquo;<sup><a href="#60">60</a></sup><a name="top60"></a>.</p>     <p>S&oacute; o reconhecimento de interesses divergentes entre os estados, atrav&eacute;s    da sua respectiva institucionaliza&ccedil;&atilde;o nos pr&oacute;prios instrumentos    de negocia&ccedil;&atilde;o, nos meios de representa&ccedil;&atilde;o, e nos    mecanismos de consentimento das autoridades arbitrais ou supranacionais, pode    conduzir n&atilde;o apenas &agrave; paz mas &agrave; pr&oacute;pria comunitariza&ccedil;&atilde;o    de interesses que, como Morgenthau explica, foi poss&iacute;vel na Europa Ocidental    do p&oacute;s-guerra. &Eacute; nessa medida que, como afirma em v&aacute;rios    artigos &ndash; ainda mais expl&iacute;citos a este respeito do que <i>Politics    among Nations</i> e que aqui apenas podemos ler de relance &ndash; &eacute;    necess&aacute;ria uma demarca&ccedil;&atilde;o da &laquo;ci&ecirc;ncia do direito    internacional&raquo; face ao positivismo jur&iacute;dico, falho e obsoleto no    que &agrave; compreens&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o da ordem internacional    diz respeito. S&oacute; esta demarca&ccedil;&atilde;o poder&aacute; abrir novas    portas &agrave; paz internacional na medida em que, adoptando uma traject&oacute;ria    funcionalista, pode afirmar a prioridade ontol&oacute;gica da comunidade sobre    o Estado e assim o primado da socializa&ccedil;&atilde;o de &laquo;interesses&raquo;    sobre a sua individualiza&ccedil;&atilde;o num &laquo;poder&raquo; abstracto    sem correspond&ecirc;ncia na &laquo;realidade das normas&raquo;.</p>     <p>&Eacute; nesta intersec&ccedil;&atilde;o entre a teoria pol&iacute;tica e a    filosofia do direito de Morgenthau que a ontologia pol&iacute;tica republicana    de Locke parece ganhar um ascendente discreto sobre o atomismo do estado de    natureza hobbesiano no pensamento de Morgenthau. O &laquo;interesse&raquo; &ndash;    individual ou nacional &ndash; &eacute; socialmente constitu&iacute;do e nessa    medida &eacute; suscept&iacute;vel de reconstitui&ccedil;&atilde;o se a comunidade    <i>a priori</i> se transformar. &Eacute; aquele salto metaf&iacute;sico que    permite a Morgenthau acomodar a fun&ccedil;&atilde;o social do direito como    integradora de um processo hist&oacute;rico conducente &agrave; forma&ccedil;&atilde;o    de uma comunidade moral politicamente capaz de instituir um Estado &ndash; mesmo    a n&iacute;vel mundial.</p>     <p>Qual &eacute; ent&atilde;o a oposi&ccedil;&atilde;o de fundo ao positivismo    e que Morgenthau julga vital para compreendermos as rela&ccedil;&otilde;es internacionais    e mesmo a (im)possibilidade de as governar? &Eacute; que apesar de as normas    jur&iacute;dicas que integram o direito internacional n&atilde;o derivarem a    sua validade legal, segundo Morgenthau, da capacidade monopolista de uma autoridade    para as codificar e lhes dar, por assim dizer, &laquo;for&ccedil;a de lei&raquo;,    elas n&atilde;o deixam de ser por isso &laquo;direito&raquo;. Mas como pode    ent&atilde;o este direito reivindicar validade sem &laquo;for&ccedil;a&raquo;?    Morgenthau mant&eacute;m a vis&atilde;o de Kelsen segundo a qual a validade    das normas &eacute; definida pelo seu car&aacute;cter vinculativo que est&aacute;    associado ao poder sancionat&oacute;rio de uma norma. Mas este poder s&oacute;    existe se a norma estiver respaldada por um poder f&aacute;ctico, pol&iacute;tico-social,    que imbui a san&ccedil;&atilde;o de coercividade. Morgenthau n&atilde;o foge    da quest&atilde;o da <i>bindingness </i>do direito como determinante da sua    validade. Mas a no&ccedil;&atilde;o de validade &eacute; objecto de uma redefini&ccedil;&atilde;o    que parte da reconstitui&ccedil;&atilde;o, mais sustentada do ponto de vista    hist&oacute;rico-sociol&oacute;gico, daquilo que, em dadas circunst&acirc;ncias,    torna o direito propriamente vinculativo, a saber: a capacidade de um actor    internacional determinar o comportamento de outro atrav&eacute;s da amea&ccedil;a    de san&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#61">61</a></sup><a name="top61"></a>.    &Eacute; precisamente a capacidade de criar mecanismos que permitam &agrave;    comunidade internacional acomodar interesses &ndash; inclusive o interesse de    n&atilde;o ser sancionado &ndash; e balancear o poder relativo de actores, que    valida o direito. &Eacute; portanto no entendimento de que o direito desempenha    uma fun&ccedil;&atilde;o social de reconhecimento legal de interesses que s&atilde;o    causa e consequ&ecirc;ncia de uma comunidade moral de interessados, que podemos    compreender o seu papel pol&iacute;tico e depositar nele as nossas esperan&ccedil;as    de paz internacional.</p>     <p>No cap&iacute;tulo dedicado ao direito internacional em <i>Politics among Nations</i>,    Morgenthau volta a discorrer extensamente, como fizera em tantos outros ensaios    a come&ccedil;ar pela sua tese de doutoramento, sobre v&aacute;rios casos de    conven&ccedil;&otilde;es internacionais que n&atilde;o podemos aqui retomar,    mas que demonstram bem o ponto cr&iacute;tico do positivismo aplicado ao direito    internacional: a de que a incapacidade de certas normas em vincular os estados    determina a sua invalidade, ou pelo menos coloca em d&uacute;vida o seu estatuto    enquanto direito. &Eacute; sobre estes casos hist&oacute;ricos de perda de validade    que Morgenthau critica o positivismo, por n&atilde;o os conseguir abarcar conceptualmente<sup><a href="#62">62</a></sup><a name="top62"></a>.    Assim, contra os positivistas, o realismo de Morgenthau revela-se ao mesmo tempo    pol&iacute;tico e legal na medida em que mantendo-se fiel &agrave; ideia de    direito como assente na no&ccedil;&atilde;o-chave de validade jur&iacute;dica,    procura redefinir esta &uacute;ltima &agrave; luz dos poderes sociais e pol&iacute;ticos    (e n&atilde;o apenas jur&iacute;dicos) que garantem a sua efectividade.</p>     <p>De um ponto de vista pol&iacute;tico, h&aacute; certamente um cunho realista    no sentido tradicional, dir&iacute;amos quase banal, do termo, que &eacute;    o da oposi&ccedil;&atilde;o que nos habituamos a associar a Maquiavel entre    realidade e utopia. A este respeito, &eacute; certo que a validade de uma norma    legal &eacute; determinada pela vincula&ccedil;&atilde;o dos actores que essa    norma regula, e assim pelo poder desses actores em fazer valer o seu car&aacute;cter    auto e co-regulador da conduta em causa. A discricionariedade e at&eacute; casu&iacute;stica    jur&iacute;dicas que esta concep&ccedil;&atilde;o promove n&atilde;o parecem    preocupar Morgenthau, pelo menos n&atilde;o no que diz respeito &agrave; defini&ccedil;&atilde;o    da validade das normas jur&iacute;dicas. Recuperando o ponto anterior, essa    validade refere-se &agrave; capacidade de uma norma conseguir impor a vontade    do agente normativo ao sujeito da norma atrav&eacute;s da amea&ccedil;a de uma    san&ccedil;&atilde;o no caso de o sujeito prevaricar. &Eacute; neste sentido    que Koskenniemi entende a l&oacute;gica &laquo;antropol&oacute;gica&raquo; ou    &laquo;psicol&oacute;gica&raquo; de Morgenthau quando olha para a rela&ccedil;&atilde;o    entre o direito e a sua validade como uma rela&ccedil;&atilde;o de poder:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Morgenthau adoptou de Kelsen a &ecirc;nfase na &ldquo;validade&rdquo;    como a propriedade distintiva de normas legais (por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s    morais ou sociais), mas concebe-a em termos psicol&oacute;gicos como a habilidade    abstracta de uma norma para determinar o conte&uacute;do da vontade. As rela&ccedil;&otilde;es    normativas tornam-se &ndash; como quaisquer outras rela&ccedil;&otilde;es sociais    &ndash; rela&ccedil;&otilde;es de vontade; o criador da norma procura impor    a sua vontade ao sujeito da norma. (&hellip;) Em vez de um dever-ser puro, Morgenthau    quer examinar a realidade do dever-ser legal, o sein do sollen de Kelsen&raquo;<sup><a href="#63">63</a></sup><a name="top63"></a>.</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>     <p>Como refere Koskenniemi, este sein s&oacute; podia ser psicol&oacute;gico ou    f&iacute;sico &ndash; mas com as san&ccedil;&otilde;es Morgenthau tinha encontrado    uma forma de combinar essas duas dimens&otilde;es. &laquo;O medo de san&ccedil;&atilde;o    reside na realidade psicol&oacute;gica das normas, que por sua vez traz consigo    conformidade enquanto realidade f&iacute;sica. Se a expectativa de san&ccedil;&atilde;o    faltar, ent&atilde;o a norma n&atilde;o &eacute; &ldquo;real&rdquo;&raquo;<sup><a href="#64">64</a></sup><a name="top64"></a>.    &Eacute; no car&aacute;cter social desta expectativa que vislumbramos a natureza    transindividual das san&ccedil;&otilde;es, e assim a natureza comunicativa do    direito. Koskenniemi esquece, contudo, o papel do funcionalismo na filosofia    do direito de Morgenthau e mesmo na an&aacute;lise do direito internacional    de <i>Politics among Nations</i>. Como &eacute; que este interage com a sua    teoria social das san&ccedil;&otilde;es internacionais? J&aacute; vimos que    a autoridade pol&iacute;tica &eacute; um produto quer da balan&ccedil;a de poder,    quer da comunh&atilde;o de interesses &ndash; ambos localizados numa comunidade    que precede a emerg&ecirc;ncia do Estado &ndash;, n&atilde;o existe um poder    soberano &uacute;ltimo para vincular os actores internacionais ao direito. Contudo,    as san&ccedil;&otilde;es internacionais t&ecirc;m trac&ccedil;&atilde;o internacional    e os seus guardi&otilde;es &ndash; para Morgenthau, os chefes de Estado e a    opini&atilde;o p&uacute;blica internacional &ndash; conseguem apesar de tudo    garantir a sua validade imperfeita<sup><a href="#65">65</a></sup><a name="top65"></a>.    &Eacute; &agrave; fragilidade estrutural deste direito &ndash; &agrave; sua    natureza esguia &ndash; que devemos o seu papel integrador do todo social numa    entidade propriamente &laquo;soberana&raquo;, que s&oacute; o &eacute; a jusante    de um processo hist&oacute;rico em que rela&ccedil;&otilde;es sociais espont&acirc;neas    &ndash; dir&iacute;amos &laquo;naturais&raquo; &ndash; s&atilde;o transmutadas    para o formalismo propriamente jur&iacute;dico dos estados e dos sistemas legais.    Os macro-indiv&iacute;duos da ordem internacional &ndash; os estados &ndash;    s&atilde;o um produto dessa ordem que principia na sociabilidade natural que    o republicanismo ingl&ecirc;s recupera de um certo aristotelismo medieval. E    o que evidencia esse primado socializante, &eacute; o pr&oacute;prio medo da    san&ccedil;&atilde;o enquanto expectativa social de coac&ccedil;&atilde;o. A    individua&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o num suposto &laquo;interesse    nacional&raquo; &eacute; j&aacute; um acto social, uma resposta mais ou menos    prudente ao medo, e assim uma interac&ccedil;&atilde;o. Comunidade primeiro,    Estado depois.</p>     <p>De um ponto de vista jur&iacute;dico, a op&ccedil;&atilde;o de Morgenthau pelo    m&eacute;todo funcionalista remete para a natureza mais politizada da arena    internacional e diz-nos assim que esse car&aacute;cter vinculativo n&atilde;o    obt&eacute;m, pelo menos para j&aacute;, a partir de uma autoridade independente    capaz de obrigar certos comportamentos ou de sancionar a sua aus&ecirc;ncia    ou contradi&ccedil;&atilde;o:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Os preceitos do direito internacional n&atilde;o precisam de    ser interpretados apenas &agrave; luz dos ideais e princ&iacute;pios &eacute;tico-legais    que est&atilde;o na sua base. Tamb&eacute;m precisam de ser vistos no contexto    sociol&oacute;gico dos interesses econ&oacute;micos, das tens&otilde;es sociais,    das aspira&ccedil;&otilde;es de poder, que s&atilde;o as for&ccedil;as mobilizadoras    no campo internacional, e que d&atilde;o origem a situa&ccedil;&otilde;es factuais    que formam a mat&eacute;ria-prima da regula&ccedil;&atilde;o pelo direito internacional.&raquo;<sup><a href="#66">66</a></sup><a name="top66"></a></blockquote>     <p></p>     <p>A quest&atilde;o que Morgenthau levanta &eacute; pois a de saber se a aus&ecirc;ncia    de uma autoridade pol&iacute;tica central &ndash; isto &eacute;, a anarquia    pr&oacute;pria das rela&ccedil;&otilde;es internacionais &ndash; implica dizer    que o direito n&atilde;o existe nessa esfera. A esta pergunta, Morgenthau responde    com um categ&oacute;rico n&atilde;o. E se &eacute; verdade que esta nega&ccedil;&atilde;o    poderia ser uma mera consequ&ecirc;ncia de um inqu&eacute;rito sociol&oacute;gico    sobre a realidade internacional, cuja conclus&atilde;o nos oferece v&aacute;rias    raz&otilde;es de fundo para pensarmos que h&aacute; direito mesmo l&aacute;    onde este n&atilde;o &eacute; positivado, Morgenthau n&atilde;o se fica pela    constata&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica desse &laquo;facto&raquo;. Acrescenta-lhe    um exerc&iacute;cio contrafactual que &eacute; precisamente o da miragem de    um Estado Mundial. Este exerc&iacute;cio informa-nos do estado de anarquia das    rela&ccedil;&otilde;es internacionais porque &eacute; a partir dele que vislumbramos    o que ainda falta a estas &uacute;ltimas. E o que falta &eacute;, para Morgenthau,    a constru&ccedil;&atilde;o de uma comunidade mundial que antecede essa estrutura    pol&iacute;tica global, e para a qual o direito est&aacute; j&aacute; a dar    passos importantes se interpretado de modo funcionalista. Este exerc&iacute;cio    serve portanto o prop&oacute;sito escatol&oacute;gico e indutor da constitui&ccedil;&atilde;o,    n&atilde;o de um Estado Mundial, mas sim de uma comunidade mundial como pr&eacute;-requisito    ontol&oacute;gico do Estado Mundial. A conclus&atilde;o fundamental de Morgenthau    n&atilde;o &eacute; apenas a dos riscos &ndash; tecnocr&aacute;ticos, imperialistas    ou autorit&aacute;rios &ndash; inerentes &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de    um Estado Mundial sem uma comunidade que o preceda.</p>     <p>A conclus&atilde;o fundamental &eacute; sim a de que a comunidade por vir n&atilde;o    pode ser sem Estado Mundial. &Eacute; portanto nela que devemos apostar como    caminho para a paz.</p>     <p>Como observ&aacute;mos, Morgenthau concebe algumas organiza&ccedil;&otilde;es    e regimes internacionais como agentes normativos e vanguardistas de um direito    que, enquanto fen&oacute;meno social, ora regula ora &eacute; regulado pelas    &laquo;for&ccedil;as sociais&raquo; que se movem na esfera internacional<sup><a href="#67">67</a></sup><a name="top67"></a>.    Este direito diz respeito &agrave; formaliza&ccedil;&atilde;o e institui&ccedil;&atilde;o    de normas que s&atilde;o, &agrave; partida, fruto da sociabilidade natural dos    sujeitos &ndash; e n&atilde;o uma imposi&ccedil;&atilde;o <i>ex nihilo</i> de    uma ordem coerciva estanque e externa ao seu comportamento. Claro que ap&oacute;s    a sua institui&ccedil;&atilde;o numa autoridade centralizada &ndash; precisamente    a qualidade de que o direito internacional ainda n&atilde;o goza dada a sua    natureza &laquo;descentralizada&raquo;<sup><a href="#68">68</a></sup><a name="top68"></a>    &ndash; &eacute; mais f&aacute;cil conceber o direito exclusivamente como positivo.    Mas, para Morgenthau, um te&oacute;rico que se auto-intitule &laquo;realista&raquo;    n&atilde;o pode ignorar que, quer de um ponto de vista anal&iacute;tico, quer    de um ponto de vista normativo, aquelas inst&acirc;ncias e pr&aacute;ticas que    s&atilde;o produtoras de direito n&atilde;o positivo s&atilde;o tamb&eacute;m,    umas mais do que outras &eacute; certo, bem-sucedidas na vincula&ccedil;&atilde;o    dos actores internacionais ao direito, por regularem a sua conduta no m&eacute;dio    e no longo prazo. &Eacute; neste sentido que alguns te&oacute;ricos reconhecem    hoje que a ideia recente da <i>soft law</i> como direito v&aacute;lido &laquo;teria    corrido como &aacute;gua nos moinhos dos realistas&raquo;<sup><a href="#69">69</a></sup><a name="top69"></a>.</p>     <p>Ora, &eacute; precisamente sobre estas manifesta&ccedil;&otilde;es mais ou    menos formais de normatividade no &acirc;mbito internacional &ndash; nunca despidas    obviamente dos interesses e das press&otilde;es dos actores que mais contribuem    para a sua constitui&ccedil;&atilde;o &ndash; que recai todo o poder explicativo    de uma concep&ccedil;&atilde;o funcionalista do direito, por ser capaz de captar    a capacidade vinculativa de normas e regras que s&atilde;o externas ao direito    internacional plasmado nos tratados. Esta invectiva funcionalista que Morgenthau    abra&ccedil;a sem hesita&ccedil;&atilde;o &ndash; apesar de rejeitar um realismo    legal exclusivamente sociol&oacute;gico como o de Roscoe Pound<sup><a href="#70">70</a></sup><a name="top70"></a>    &ndash; torna obsoleta a concep&ccedil;&atilde;o positivista, mais concentrada    numa vis&atilde;o excessivamente formalista e legalista da &laquo;natureza&raquo;    do direito<sup><a href="#71">71</a></sup><a name="top71"></a>. Este alvo preferencial    de Morgenthau afasta-o precisamente do estatocentrismo &ndash; que muitos cr&iacute;ticos    lhe viriam a assacar &ndash; pr&oacute;prio do direito positivo, abrindo margem    para uma reflex&atilde;o quase construtivista sobre o modus operandi do direito    internacional<sup><a href="#72">72</a></sup><a name="top72"></a>. Construtivista    no sentido em que Morgenthau opta claramente por uma teoria que explique o direito    &agrave; luz da sua fun&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica, segundo a    ideia de que o direito ser&aacute; mais aquilo que as normas &laquo;fazem&raquo;    socialmente, e menos aquilo que &laquo;s&atilde;o&raquo; ou deixam de ser de    um ponto de vista abstracto e conceptual. Contrariamente ao j&aacute; emergente    projecto de integra&ccedil;&atilde;o europeia, Morgenthau chama aten&ccedil;&atilde;o    para exemplos hist&oacute;ricos &ndash; desde os acordos de Locarno<sup><a href="#73">73</a></sup><a name="top73"></a>    ao pr&oacute;prio Tratado de Versalhes &ndash; que, &agrave; luz de uma concep&ccedil;&atilde;o    estritamente positivista, seriam casos de direito positivo, mas cuja positividade    n&atilde;o se traduz na pr&aacute;tica em validade jur&iacute;dica &ndash; e    que nessa medida, segundo esta concep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podem ser    considerados &laquo;direito&raquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>O REALISMO NORMATIVO DE MORGENTHAU</b></p>     <p>O Estado Mundial permite-nos entender como o funcionalismo influi sobre o realismo    de Morgenthau e assim o papel que o direito internacional ocupa naquela tradi&ccedil;&atilde;o.    De facto, &eacute; a conjun&ccedil;&atilde;o interdisciplinar de m&eacute;todos    origin&aacute;rios quer do direito, quer da filosofia pol&iacute;tica, quer    ainda da sociologia<sup><a href="#74">74</a></sup><a name="top74"></a>, que    o mant&eacute;m alinhado com o <i>detour </i>lockeano face ao contratualismo    de Hobbes. Segundo Morgenthau, a prioridade ontol&oacute;gica de uma comunidade    &laquo;natural&raquo; sobre o Estado &ndash; e a sua op&ccedil;&atilde;o por    uma continuidade semi-org&acirc;nica entre ambos &ndash; abre a porta para uma    concep&ccedil;&atilde;o realista da pol&iacute;tica internacional precisamente    na medida em que permite entender a fun&ccedil;&atilde;o construtiva do direito    internacional na pol&iacute;tica global. Construtiva n&atilde;o tanto de um    Estado Mundial, mas da comunidade mundial que o antecede. Semi-org&acirc;nica    porque Morgenthau adere claramente &agrave; via m&eacute;dia tra&ccedil;ada    por John Stuart Mill, mas inaugurada por Locke, entre uma concep&ccedil;&atilde;o    radicalmente org&acirc;nica da soberania &ndash; em que o Estado assume plena    continuidade com a comunidade de onde deriva a sua legitimidade &ndash; e uma    concep&ccedil;&atilde;o &laquo;artificialista&raquo; &ndash; de corte absoluto    entre Estado soberano e sociedade civil, em que o Estado &eacute; concebido    como &aacute;rbitro aut&oacute;nomo, imune face &agrave;s tais &laquo;for&ccedil;as    sociais&raquo; que ora cooperam ora rivalizam entre si.</p>     <p>Este meio-termo lockeano n&atilde;o apenas subjaz ao seu apelo metodol&oacute;gico    para entendermos o direito de um ponto de vista hist&oacute;rico-sociol&oacute;gico,    mas serve sobretudo o papel de uma normativa globalista cujo telos metapol&iacute;tico    &ndash; entendido aqui como corol&aacute;rio l&oacute;gico de uma anarquia &agrave;    procura de um arco regulador para as rela&ccedil;&otilde;es internacionais &ndash;    &eacute; o Estado Mundial. As rela&ccedil;&otilde;es internacionais emergem    assim como a esfera social por excel&ecirc;ncia onde quer o Estado soberano,    quer o direito positivo, n&atilde;o alcan&ccedil;aram ainda a sua afirma&ccedil;&atilde;o    ontol&oacute;gica e normativa. O realismo de Morgenthau &eacute; nesta medida    altamente impregnado de uma filosofia pol&iacute;tica que ele reproduz internacionalmente,    tamb&eacute;m em virtude de um potencial de abertura aos contributos das ci&ecirc;ncias    sociais para compreender o mundo, mas em que estas n&atilde;o podem perder de    vista o horizonte normativo que a pr&oacute;pria melhoria do conhecimento cient&iacute;fico    acarreta: o da procura da paz social e pol&iacute;tica. A orienta&ccedil;&atilde;o    sociol&oacute;gica desta epistemologia n&atilde;o contribui apenas para uma    anal&iacute;tica emp&iacute;rica e descritiva da realidade internacional; &eacute;    na medida em que elas nos permitem compreender os factores de transforma&ccedil;&atilde;o    da ordem &ndash; e n&atilde;o apenas da sua manuten&ccedil;&atilde;o &ndash;    que as ci&ecirc;ncias sociais revelam, a par com a ci&ecirc;ncia do direito,    a natureza essencialmente normativa do conhecimento orientada, entre outras    coisas, para a resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos e para a constru&ccedil;&atilde;o    da paz a n&iacute;vel global.</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Ao juntar-se (&agrave;s ci&ecirc;ncias sociais) neste esfor&ccedil;o    a teoria funcional do direito internacional n&atilde;o cumprir&aacute; apenas    a tarefa de qualquer doutrina cient&iacute;fica, isto &eacute;, a de saber o    que &eacute; e porque &eacute;; tamb&eacute;m preparar&aacute; as condi&ccedil;&otilde;es    de satisfa&ccedil;&atilde;o de um desejo &eacute;tico e pol&iacute;tico maior    de melhorar as rela&ccedil;&otilde;es internacionais atrav&eacute;s do direito.&raquo;<sup><a href="#75">75</a></sup><a name="top75"></a></blockquote>     <p></p>     <p>&Eacute; neste contexto ali&aacute;s que Morgenthau salienta a necessidade    de as autoridades internacionais e os ju&iacute;zes alargarem o escopo interpretativo    da sua leitura das normas, n&atilde;o no sentido de contribu&iacute;rem para    uma maior arbitrariedade dos tribunais e dos estados, mas no sentido de fazer    influir na hermen&ecirc;utica da legisla&ccedil;&atilde;o e da jurisprud&ecirc;ncia    internacionais, uma consci&ecirc;ncia hist&oacute;rica dos riscos e dos interesses    que a cada momento est&atilde;o em jogo no tabuleiro da pol&iacute;tica internacional<sup><a href="#76">76</a></sup><a name="top76"></a>.</p>     <p>A triangula&ccedil;&atilde;o entre direito, comunidade e Estado &ndash; at&eacute;    por analogia com os estados nacionais &ndash; &eacute; pois essencial para perceber    como a ordem internacional n&atilde;o pode ser abordada nem de forma kelseniana,    nem schmittiana. Contra Kelsen, este tri&acirc;ngulo ontol&oacute;gico-pol&iacute;tico    contraria a ideia de um sistema piramidal de normas que remetem sempre para    uma metanorma jur&iacute;dica hierarquicamente superior em que o Estado j&aacute;    &eacute; um adquirido, explic&aacute;vel ele pr&oacute;prio enquanto complexo    de normas logicamente interligadas. Pelo contr&aacute;rio, Morgenthau pensa    que quer o Estado quer o direito s&atilde;o em si um produto prov&aacute;vel    da articula&ccedil;&atilde;o entre a <i>grundnorm </i>e a comunidade social    que lhe antecede &ndash; numa acep&ccedil;&atilde;o que podemos especular, n&atilde;o    estaria muito longe, pelo menos neste particular, daquilo a que H. L. Hart viria    a designar como &laquo;rule of recognition&raquo;<sup><a href="#77">77</a></sup><a name="top77"></a>,    transformando a grundnorm numa normatividade social, informal e pr&eacute;-institucional.    Morgenthau explica a este prop&oacute;sito que &laquo;&eacute; por estas tentativas    in&uacute;teis de conciliar as assun&ccedil;&otilde;es legalistas com a experi&ecirc;ncia    jur&iacute;dica real que a doutrina positivista do direito internacional tende    a representar mal a realidade do direito internacional e a n&atilde;o conseguir    fazer justi&ccedil;a ao seu conte&uacute;do verdadeiro&raquo;<sup><a href="#78">78</a></sup><a name="top78"></a>.    Partilha com Carl Schmitt a ideia de que &laquo;a funda&ccedil;&atilde;o da    for&ccedil;a vinculativa do direito &ldquo;positivo&rdquo; pode logicamente    ser encontrada, n&atilde;o em si pr&oacute;prio, mas apenas fora dele&raquo;<sup><a href="#79">79</a></sup><a name="top79"></a>.    &Eacute; importante, contudo, fazer notar uma nuance fundamental. Esta dimens&atilde;o    &eacute; extrajur&iacute;dica no sentido em que se coloca, <i>ipsis verbis</i>,    &laquo;fora&raquo; do direito positivo, isto &eacute;, al&eacute;m-sistema &ndash;    e que pode nessa medida tamb&eacute;m ser anti-sist&eacute;mica e criadora de    conflitos e &laquo;tens&otilde;es&raquo;<sup><a href="#80">80</a></sup><a name="top80"></a>.    O que &eacute; diferente de dizer que o direito n&atilde;o pode ser considerado    como um elemento fundador da ordem na medida em que institui e institucionaliza    certas pr&aacute;ticas sociais que, por sua vez, v&ecirc;m a constituir, num    primeiro momento, uma comunidade mais ou menos organizada em torno de uma moral    social e, num segundo momento, em torno de uma autoridade pol&iacute;tica &agrave;    qual essa comunidade d&aacute; o seu assentimento.</p>     <p>Assim, contra Schmitt, Morgenthau adverte que a ordem pol&iacute;tica n&atilde;o    pode ser entendida na base de uma interven&ccedil;&atilde;o m&aacute;gico-teol&oacute;gica    de um evento, que por ser excepcional &eacute; soberano e fundador. Morgenthau    n&atilde;o &eacute; indiferente a esta dimens&atilde;o m&iacute;tica, como n&atilde;o    o fora tamb&eacute;m Niebuhr antes dele. Mas &eacute; a um direito de base sociol&oacute;gica,    isto &eacute;, como fen&oacute;meno social capaz de articular a organicidade    societal da comunidade com o artif&iacute;cio coercivo do Estado, que cabe um    papel n&atilde;o apenas pacificador, mas constitutivo da pr&oacute;pria ordem    jur&iacute;dico-pol&iacute;tica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; de resto esta concep&ccedil;&atilde;o mais empirista do pol&iacute;tico    &ndash; que o enfoque na quest&atilde;o da validade do direito internacional    e na vincula&ccedil;&atilde;o dos actores por via de san&ccedil;&otilde;es revela    &ndash; que explica que a cr&iacute;tica de Morgenthau &agrave; metaf&iacute;sica    <i>cach&eacute;e</i> do positivismo n&atilde;o devolva apesar disso o realismo    &agrave;s teologias pol&iacute;ticas de Schmitt ou de Niebuhr. Apesar da sua    rejei&ccedil;&atilde;o da separa&ccedil;&atilde;o positivista estrita entre    direito e moral<sup><a href="#81">81</a></sup><a name="top81"></a> &ndash; que    alguns descrevem &agrave; luz de uma &eacute;tica da virtude aristot&eacute;lica    &ndash; ela n&atilde;o serve nunca o prop&oacute;sito de refundar a ordem jur&iacute;dico-pol&iacute;tica    numa base jusnaturalista<sup><a href="#82">82</a></sup><a name="top82"></a>.    A este respeito, Morgenthau mant&eacute;m apesar de tudo a agenda secular das    ci&ecirc;ncias que critica por serem excessivamente antimetaf&iacute;sicas.    Pelo menos em <i>Politics among Nations</i>, o Estado Mundial &eacute; teorizado    sempre por refer&ecirc;ncia ao <i>summum bonum </i>minimalista da paz e da seguran&ccedil;a,    e n&atilde;o com base num apelo &agrave; ubiquidade do pecado capaz de induzir    a contri&ccedil;&atilde;o, austera e calvinista, face a novas idolatrias modernas    &ndash; que alimentara por exemplo a caracteriza&ccedil;&atilde;o niebuhriana    da comunidade mundial enquanto &laquo;possibilidade imposs&iacute;vel&raquo;,    quase sempre revertida numa vis&atilde;o dist&oacute;pica do imperialismo americano<sup><a href="#83">83</a></sup><a name="top83"></a>.</p>     <p>Para Morgenthau, o direito e a pol&iacute;tica internacional reflectem esta    tend&ecirc;ncia secularizante que viria a atingir o seu apogeu no realismo estrutural    de Kenneth Waltz. Para ser v&aacute;lido, o direito n&atilde;o precisa de abra&ccedil;ar    valores morais ou &eacute;ticos claros. Mesmo que os valores da paz e da seguran&ccedil;a    dependam, segundo Morgenthau, de uma comunidade integradora de interesses e    de um balan&ccedil;o de poder, as ra&iacute;zes morais destes remetem para uma    moralidade que ele considera meramente sociol&oacute;gica. E nessa medida o    te&oacute;rico realista mant&eacute;m-se fiel ao agnosticismo, de inspira&ccedil;&atilde;o    agostiniana &eacute; certo, que v&ecirc; na pol&iacute;tica, e sobretudo na    pol&iacute;tica externa, uma forma de evitar males maiores e que de resto viria    a caracterizar alguma milit&acirc;ncia intelectual e pol&iacute;tica interna    &agrave; pr&oacute;pria tradi&ccedil;&atilde;o liberal &ndash; de Niebuhr a    Churchill &ndash; contra o utopismo cruzadista, messi&acirc;nico e excepcionalista    que acreditava piamente na aplica&ccedil;&atilde;o directa do federalismo americano    ao resto do mundo como forma de resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos e de prosperidade    econ&oacute;mica generalizada<sup><a href="#84">84</a></sup><a name="top84"></a>.</p>     <p>Contra uma abordagem vertical do sistema jur&iacute;dico, Morgenthau encara    o direito na sua horizontalidade sist&eacute;mica, formativo ele pr&oacute;prio    da ordem estatal, como complexo mais ou menos coerente e sempre incompleto de    normas que balizam e regem o comportamento, ora cooperante, ora competitivo,    dos actores internacionais.</p>     <p>O direito pode assim ser estudado do ponto de vista hist&oacute;rico como eixo    funcional e bidireccional que gradualmente faz com que a positividade legal    do Estado, qual artif&iacute;cio que transcende a sociedade, seja correspondida    pela normatividade informal, oficiosa e imanente &agrave; comunidade dita &laquo;natural&raquo;.    &Eacute; esta pragm&aacute;tica jur&iacute;dica a que Morgenthau faz apelo que    j&aacute; encontramos, ainda que apenas em germe, na concep&ccedil;&atilde;o    de estado de natureza de Locke. Como vimos, esta &laquo;comunidade natural&raquo;    d&aacute; o seu assentimento &agrave; lei e &agrave; autoridade do Estado, mas    n&atilde;o sem que antes possua j&aacute; alguma capacidade org&acirc;nica de    estrutura&ccedil;&atilde;o socionormativa. &Eacute; este legado te&oacute;rico    que Morgenthau n&atilde;o dispensa para fazer avan&ccedil;ar uma teoria das    rela&ccedil;&otilde;es internacionais que &eacute; ao mesmo tempo uma filosofia    pol&iacute;tica (realista) e uma teoria social (funcionalista) do direito internacional,    onde as dimens&otilde;es descritivas e normativas se combinam para entender    a comunidade mundial como um processo em curso e cujo<i> telos</i> n&atilde;o    podemos estabelecer pelo <i>fiat</i> da lei positiva e da engenharia t&eacute;cnico-burocr&aacute;tica    pr&oacute;pria de um Estado soberano.</p>     <p>Morgenthau avan&ccedil;a pois v&aacute;rios argumentos para podermos pensar    o direito internacional como um instrumento essencial para a pacifica&ccedil;&atilde;o    via sociabiliza&ccedil;&atilde;o de actores internacionais; para a evolu&ccedil;&atilde;o,    ainda que n&atilde;o linear e capaz de admitir recuos pontuais ou mesmo regress&otilde;es    civilizacionais, dessa interac&ccedil;&atilde;o transit&oacute;ria e contingente    para formas mais permanentes e s&oacute;lidas de comunitariza&ccedil;&atilde;o    de riscos e partilha de interesses, em que os estados reconhecem na sua pr&oacute;pria    soberania um produto da socializa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria do sistema    internacional, e baixam a guarda soberanista para fazer valer o interesse da    comunidade que os antecede ontol&oacute;gica e moralmente; e para que, dada    a necessidade de evitar a cat&aacute;strofe nuclear que a todos os interessados    afectaria, se instituam autoridades supra-estatais &ndash; como no caso da integra&ccedil;&atilde;o    europeia &ndash; e plataformas diplom&aacute;ticas multilaterais que, n&atilde;o    estando imunes a potenciais revers&otilde;es populistas e infiltra&ccedil;&otilde;es    ideol&oacute;gicas na sua estrutura e na sua ac&ccedil;&atilde;o, constituem    etapas importantes na pacifica&ccedil;&atilde;o mas tamb&eacute;m na cria&ccedil;&atilde;o    de interdepend&ecirc;ncias econ&oacute;micas e cumplicidades culturais. Estas    n&atilde;o constituem s&oacute; por si uma comunidade mundial, nem antecipam    quer uma opini&atilde;o p&uacute;blica global, quer um povo mundial; mas fazem    transbordar as comunidades humanas para l&aacute; das suas fronteiras nacionais,    estendendo o seu &iacute;mpeto normativo para al&eacute;m do freio da jurisdi&ccedil;&atilde;o    do direito positivo de um Estado cada vez mais confrontado com um interesse    transnacional ou, pelo menos, p&oacute;s-nacional.</p>     <p>O que Morgenthau procura obviar com um cap&iacute;tulo que de resto encaixa    mal na estrutura global do livro, &eacute; a natureza essencialmente processual    e funcional do direito internacional e n&atilde;o a sua aus&ecirc;ncia, irrelev&acirc;ncia    ou obsolesc&ecirc;ncia. O que faz dele um precursor de um realismo pol&iacute;tico    que parte do direito internacional para insistir na necessidade normativa de    conceber o interesse nacional como um elemento chave na constru&ccedil;&atilde;o    de regimes e institui&ccedil;&otilde;es transnacionais capazes de construir    comunidades regionais de interesses al&eacute;m-Estado. Quando tal acontecer,    estaremos mais perto de uma comunidade mundial e o Estado Mundial deixar&aacute;    certamente de ser importante enquanto reflex&atilde;o contrafactual. Poderemos    ent&atilde;o come&ccedil;ar a concentrar-nos nas v&aacute;rias formas da sua    inevitabilidade<sup><a href="#85">85</a></sup><a name="top85"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p>ARENDT, Hannah &ndash;&nbsp;<i>The Human Condition</i>. Chicago: The University    of Chicago Press, 1958.</p>     <p>BARTEL, Fritz&nbsp;&ndash; &laquo;Surviving the years of grace: the atomic    bomb and the specter of world government&raquo;. In&nbsp;<i>Diplomatic History</i>.&nbsp;Oxford.    Vol. 39, N.&ordm; 2, 2015, pp. 275--302.&nbsp;doi: 10.1093/dh/dhu005.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BAUMGOLD, Deborah (ed.) &ndash;&nbsp;<i>Three-Text Edition of</i><i>&nbsp;</i><i>Thomas    Hobbes</i><i>&rsquo;s Political Theory</i><i>:&nbsp;</i><i>The Elements of Law,    De Cive</i><i>,&nbsp;</i><i>and Leviathan</i>.&nbsp;Cambridge: Cambridge University    Press, 2017.&nbsp;doi: 10.1017/97813166 51544.010.</p>     <p>BLITS, Jans &ndash;&nbsp;&laquo;Hobbesian fear&raquo;. In&nbsp;<i>Political    Theory</i>. Vol. 17, N.&ordm; 3,&nbsp;Agosto de&nbsp;1989, pp.417-431.&nbsp;doi:10.1177/0090591789017003003.</p>     <p>CRAIG, Campbell &ndash; &laquo;The resurgent idea of world government&raquo;.    In&nbsp;<i>Ethics and International Affairs</i>. Vol. 22, N.&ordm; 2, Ver&atilde;o    de 2008, pp. 133-142.&nbsp;doi: 10.1111/j.1747-7093.2008. 00139.x.</p>     <p>DEUDNEY, Daniel &ndash;&nbsp;<i>Bounding Power</i><i>: Republican Security    Theory from the Polis to the Global Village</i>.&nbsp;Princeton: Princeton University    Press, 2007.&nbsp;Doi: 10.1515/ 9781400837274.</p>     <p>FREI, Christoph <i>&ndash;&nbsp;Hans J. Morgenthau: An Intellectual Biography</i>.&nbsp;Baton    Rouge, LA: Louisiana State University Press, 2001.</p>     <p>GOLDMANN, Matthias &ndash; &laquo;We need to cut off the head of the king:&nbsp;past,    present, and future approaches to&nbsp;international soft law&raquo;. In&nbsp;<i>Leiden    Journal of International Law</i>.&nbsp;Leida. N.&ordm;&nbsp;25,&nbsp;2012, pp.    335-368.&nbsp;doi: 10.1017/s0922156512000064.</p>     <p>HART, H. L. &ndash;&nbsp;The Concept of Law.&nbsp;Oxford: Oxford University    Press, 2012.</p>     <p>Hobbes, Thomas &ndash;&nbsp;<i>Leviathan</i>. Oxford: Oxford University Press,&nbsp;1996.</p>     <p>JUTERS&Ouml;NKE, Oliver &ndash;&nbsp;<i>Morgenthau, Law and Realism</i>. Cambridge:    Cambridge University Press, 2010.</p>     <p>KOSKENNIEMI, Marti &ndash;&nbsp;<i>The Gentle Civilizer of Nations</i>.&nbsp;Cambridge:    Cambridge University Press, 2010.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>LOCKE, John &ndash;&nbsp;<i>Two Treatises of Government.</i>&nbsp;New Haven:&nbsp;Yale    University Press, 2003.</p>     <p>MITRANY, David &ndash;&nbsp;<i>A Working Peace System</i>.&nbsp;Londres: National    Peace Council,&nbsp;1946.</p>     <p>MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>La R&eacute;alit&eacute; des Normes</i><i>:    En particulier des normes du droit international. Fondements d</i><i>&rsquo;</i><i>une</i><i>&nbsp;th</i><i>&eacute;orie    des normes</i>. Paris: Alcan, 1934.</p>     <p>MORGENTHAU, Hans &ndash; &laquo;Positivism, functionalism, and international    law&raquo;. <i>In&nbsp;American Journal of International Law</i>.&nbsp;Nova    York. Vol. 34, N.&ordm; 2, 1940, pp. 260-284.</p>     <p>MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics among Nations</i>.&nbsp;Nova York:&nbsp;Alfred    A. Knopf,&nbsp;1948.</p>     <p>MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics among Nations</i>. Nova York: Pecking    University Press,&nbsp;1967.</p>     <p>PEDRO, Guilherme M. &ndash;&nbsp;<i>Reinhold Niebuhr and International Relations    Theory: Realism beyond Thomas Hobbes</i>.&nbsp;Londres: Routledge, 2017.&nbsp;doi:    10.4324/9781315181622.</p>     <p>PETERSEN, Ulrik E. &ndash;&nbsp;&laquo;Breathing Nietzsche&rsquo;s air&raquo;.    In&nbsp;<i>Alternatives: Global, Local, Political</i>. Vol. 24, N.&ordm; 1,    Janeiro-Mar&ccedil;o de 1999, pp. 83-118.&nbsp;doi: 10.1177/03043 7549902400104.</p>     <!-- ref --><p>POWELL, Robert &laquo;Absolute and relative gains in international relations    theory&raquo;. In&nbsp;<i>The American Political Science Review.</i> Vol. 85,    N.&ordm; 4, 1991, pp. 1303-1320.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=614716&pid=S1645-9199201800020000400021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>SARAT, Austin, DOUGLAS, Lawrence, e UMPHREY, Martha Merrill (eds.) &ndash;&nbsp;<i>How    Law Knows</i>.&nbsp;Nova York: Stanford University Press,&nbsp;2009.</p>     <p>SCHEUERMAN, Will &ndash;&nbsp;<i>The Realist Case for Global Reform</i>,&nbsp;Cambridge:&nbsp;Polity    Press, 2011.</p>     <p>SPEER&nbsp;II, James &ndash; &laquo;Hans Morgenthau and the World State&raquo;.    In&nbsp;<i>World Politics</i>.&nbsp;Cambridge.&nbsp;Vol. 20, N.&ordm; 2,&nbsp;Janeiro    de&nbsp;1968, pp.&nbsp;207-227. DOI: 10.2307/2009796</p>     <p>WARD, Lee &ndash; &laquo;Locke on the moral basis of international relations&raquo;.    In&nbsp;<i>American Journal of Political Science</i>. Vol. 50, N.&ordm; 3, Julho&nbsp;de    2006, pp. 691-705.&nbsp;doi: 10.1111/j.1540-5907.2006.00210.x.</p>     <p>WENDT, Alexander &ndash; "Why a World State is Inevitable". In&nbsp;<i>European    Journal of International Relations</i>, V. 9, n&ordm; 4, 2003, pp. 491-542.</p>     <p>WILLIAMS, Michael &ndash;&nbsp;<i>Realism Reconsidered: The Legacy of Hans    Morgenthau in International Relations</i>. Oxford: Oxford University Press,&nbsp;2007.</p>     <p>WILLIAMS, Michael &ndash;&nbsp;<i>The Realist Tradition and the Limits of International    Relations</i>. Cambridge: Cambridge University Press,&nbsp;2005.&nbsp;Doi:&nbsp;10.1017/cbo9780511491771.</p>     <p>ZAMBONI, Mauro &ndash; &laquo;Legal realisms: on law and politics&raquo;. In&nbsp;<i>Res    Publica</i>. Vol.&nbsp;12, 2006, pp.&nbsp;295-317.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 15 de abril de 2018 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o:    30 de maio de 2018</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> JAFFIN, George &ndash; &laquo;Book    reviews&raquo;. In&nbsp;COLUMBIA LAW REVIEW. N.&ordm; 46, janeiro de 1946, p.    162, citado em BARTEL, Fritz &ndash; &laquo;Surviving the years of grace: the    atomic&nbsp;bomb and the specter of world government&raquo;. In&nbsp;<i>Diplomatic    History</i>. Vol. 39, N.&ordm; 2,&nbsp;2015, p. 275.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> BARTEL, Fritz &ndash; &laquo;Surviving    the years of grace: the atomic bomb and the specter of world government&raquo;.    p. 275.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> CRAIG, Campbell &ndash; &laquo;The    resurgent idea of world government&raquo;. In&nbsp;<i>Ethics and International    Affairs</i>. Vol. 22, N.&ordm; 2, Ver&atilde;o de 2008, p. 136.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Ver a este respeito&nbsp;WILLIAMS,    Michael &ndash;&nbsp;<i>The Realist Tradition and the Limits of International    Relations</i>. Cambridge: Cambridge University Press,&nbsp;2005;&nbsp;e tamb&eacute;m    PETERSEN, Ulrik E. &ndash;&nbsp;&laquo;Breathing Nietzsche&rsquo;s air&raquo;.    In&nbsp;<i>Alternatives: Global, Local, Political</i>. Vol. 24, N.&ordm; 1,    Janeiro-Mar&ccedil;o de 1999, pp. 83-118.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> A este prop&oacute;sito consultar    a antologia de textos:&nbsp;WILLIAMS, Michael &ndash;&nbsp;<i>Realism Reconsidered:    The Legacy of Hans Morgenthau in International Relations</i>. Oxford: Oxford    University Press,&nbsp;2007.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash; &laquo;Positivism,    Functionalism, and international law&raquo;. In&nbsp;<i>American Journal of    International Law</i>.&nbsp;Nova York. Vol. 34, N.&ordm; 2,&nbsp;1940, p. 273.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p. 275.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;pp. 268-269.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>. Nova York: Pecking University Press,&nbsp;1967, p. 4.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> SPEER&nbsp;II, James &ndash;    &laquo;Hans Morgenthau and the World State&raquo;. In&nbsp;<i>World Politics</i>.&nbsp;Cambridge.&nbsp;Vol.    20, N.&ordm; 2,&nbsp;Janeiro de&nbsp;1968, pp.&nbsp;207-227.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>.&nbsp;Nova York:&nbsp;Alfred A. Knopf,&nbsp;1948, p. 391.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;pp.    391-415.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup><i> Ibidem</i>,&nbsp;p.    415.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> A prop&oacute;sito do tema    do medo de morte em Hobbes, ver PEDRO, Guilherme M. &ndash;&nbsp;<i>Reinhold    Niebuhr and International Relations Theory: Realism beyond Thomas Hobbes</i>.&nbsp;Londres:    Routledge, 2017; e ainda&nbsp;BLITS, Jans &ndash;&nbsp;&laquo;Hobbesian fear&raquo;.    In&nbsp;<i>Political Theory</i>. Vol. 17, N.&ordm; 3,&nbsp;Agosto de&nbsp;1989,    pp. 417-431.</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> HOBBES, Thomas &ndash;&nbsp;<i>Leviathan</i>.    Oxford: Oxford University Press,&nbsp;1996, p. 84.</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> HOBBES, Thomas &ndash;&nbsp;<i>Elements    of Law&nbsp;</i>(Sec. 10<i>)</i>. In&nbsp;BAUMGOLD, Deborah (ed.) <i>&ndash;&nbsp;</i><i>Three-Text    Edition of</i><i>&nbsp;</i><i>Thomas Hobbes</i><i>&rsquo;</i><i>s Political    Theory</i><i>:&nbsp;</i><i>The Elements of Law, De Cive</i><i>,&nbsp;</i><i>and    Leviathan</i>.&nbsp;Cambridge: Cambridge University Press, 2017, p. 137.</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> HOBBES, Thomas &ndash;&nbsp;<i>Leviathan</i><i>,</i>    p. 85.</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    84.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> LOCKE, John &ndash;&nbsp;<i>Two    Treatises of Government</i>.&nbsp;New Haven:&nbsp;Yale University Press, 2003,    p. 102.</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> <i>Ibidem.</i></p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;pp.    102, 156.</p>     <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> A express&atilde;o &eacute;    usada v&aacute;rias vezes em v&aacute;rias obras. Ver&nbsp;HOBBES, Thomas &ndash;&nbsp;<i>Elements    of Law</i>.</p>     <p><Sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></Sup> WARD, Lee &ndash; &laquo;Locke    on the moral basis of international relations&raquo;. In&nbsp;<i>American Journal    of Political Science.</i> Vol. 50, N.&ordm; 3, Julho de 2006, p. 698.</p>     <p><Sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1967), p. 4.&nbsp;A edi&ccedil;&atilde;o a que recorro    nesta nota, mas&nbsp;n&atilde;o&nbsp;necessariamente no resto do artigo, &eacute;    a sexta edi&ccedil;&atilde;o do&nbsp;Politics among Nations. Morgenthau integrou    partes importantes do texto nas fases mais tardias das edi&ccedil;&otilde;es    do volume com o intuito, entre outros, de actualizar os seus conte&uacute;dos,    o que passou por alargar a sua reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre o funcionalismo    e, neste contexto, sobre o processo de integra&ccedil;&atilde;o europeia &ndash;    o que pode sugerir uma aproxima&ccedil;&atilde;o ainda maior do realismo de    Morgenthau ao funcionalismo de Mitrany ao longo das v&aacute;rias edi&ccedil;&otilde;es    do livro.</p>     <p><Sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></Sup> DEUDNEY, Daniel &ndash;&nbsp;<i>Bounding    Power</i><i>: Republican Security Theory from the Polis to the Global Village</i>.&nbsp;Princeton:    Princeton University Press, 2007, p. 47.</p>     <p><Sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;p. 271.</p>     <p><Sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>La    R&eacute;alit&eacute; des Normes</i><i>: En particulier des normes du droit    international</i>. <i>Fondements d</i><i>&rsquo;</i><i>une</i><i>&nbsp;th</i><i>&eacute;orie    des normes</i>. Paris: Alcan, 1934.</p>     <p><Sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></Sup> A prop&oacute;sito da cr&iacute;tica    de Reinhold Niebuhr a Thomas Hobbes, ver PEDRO, Guilherme M. &ndash;&nbsp;<i>Reinhold    Niebuhr and International Relations Theory</i>; e ainda&nbsp;BLITS, Jans &ndash;&nbsp;&laquo;Hobbesian    fear&raquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></Sup> Para uma an&aacute;lise    da influ&ecirc;ncia de Max Weber no realismo, que o pr&oacute;prio Morgenthau    reconhece, ver FREI, Christoph &ndash;&nbsp;<i>Hans J. Morgenthau: An Intellectual    Biography</i>.&nbsp;Baton Rouge, LA: Louisiana State University Press, 2001,    p. 48.</p>     <p><Sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></Sup> MORGENTHAU, &nbsp;Hans    &ndash;&nbsp;<i>Politics among Nations</i>&nbsp;(1948), p. 407.</p>     <p><Sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    406.</p>     <p><Sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></Sup> <i>Ibidem.</i></p>     <p><Sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></Sup> JUTERS&Ouml;NKE, Oliver    &ndash;&nbsp;<i>Morgenthau, Law and Realism</i>. Cambridge: Cambridge University    Press, 2010, p. 41.</p>     <p><Sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></Sup> <i>Ibidem.</i></p>     <p><Sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>La    R&eacute;alit&eacute; des Normes</i>.</p>     <p><Sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></Sup> SCHEUERMAN, Will &ndash;&nbsp;<i>The    Realist Case for Global Reform</i>,&nbsp;Cambridge:&nbsp;Polity Press, 2011,    p. 79.</p>     <p><Sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></Sup> MITRANY, David &ndash;&nbsp;<i>A    Working Peace System</i>.&nbsp;Londres: National Peace Council,&nbsp;1946,&nbsp;pp.    14-35, citado em MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics among Nations</i>&nbsp;(1948),    p. 413.</p>     <p><Sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></Sup> <i>Ibidem.</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1967), p. 4.</p>     <p><Sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></Sup> POWELL, Robert &ndash;    &laquo;Absolute and relative gains in international relations theory&raquo;.    In&nbsp;<i>The American Political Science Review.</i> Vol. 85, N.&ordm; 4, 1991,    pp. 1303-1320.</p>     <p><Sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1948), p. 413.</p>     <p><Sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></Sup> WARD, Lee &ndash; &laquo;Locke    on the moral basis of international relations&raquo;, p. 691.</p>     <p><Sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1967), p. 556.</p>     <p><Sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    556.</p>     <p><Sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></Sup> DEUDNEY, Daniel &ndash;&nbsp;<i>Bounding    Power</i>,&nbsp;p. 571.</p>     <p><Sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></Sup> SCHEUERMAN, Will &ndash;&nbsp;<i>The    Realist Case for Global Reform,</i> p. 81.</p>     <p><Sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></Sup> <i>Ibidem</i>,&nbsp;pp.    87-90.</p>     <p><Sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></Sup> A par com a de Deudney    &ndash; e em tens&atilde;o com ela &ndash; talvez a mais estruturada proposta    te&oacute;rica da constru&ccedil;&atilde;o de um &laquo;Estado Mundial&raquo;    na base daquilo a que Scheuerman chama um &laquo;realismo progressivo&raquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;<br />   p. 264.</p>     <p><Sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    275.</p>     <p><Sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></Sup> <i>Ibidem.</i>&nbsp;</p>     <p><Sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    274.</p>     <p><Sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></Sup> SCHEUERMAN, Will &ndash;&nbsp;<i>The    Realist Case for Global Reform</i>, p. 129.</p>     <p><Sup><a name="54"></a><a href="#top54">54</a></Sup> KOSKENNIEMI, Marti &ndash;&nbsp;<i>The    Gentle Civilizer of Nations.</i>&nbsp;Cambridge: Cambridge University Press,    2010, p. 440.</p>     <p><Sup><a name="55"></a><a href="#top55">55</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1967), p. 4.</p>     <p><Sup><a name="56"></a><a href="#top56">56</a></Sup> Arendt explora historicamente    a no&ccedil;&atilde;o de interesse pol&iacute;tico situando a sua primeira formula&ccedil;&atilde;o    estatal na obra de Jean Bodin. Arendt, Hannah &ndash;&nbsp;The Human Condition.    Chicago: The University of Chicago Press, 1958, p. 193.</p>     <p><Sup><a name="57"></a><a href="#top57">57</a></Sup> WENDT, Alexander &ndash;    &laquo;Why a world state is inevitable&raquo;. In&nbsp;<i>European Journal of    International Relations.</i> Vol. 9, N.&ordm; 4, 2 003,&nbsp;pp. 491-542.</p>     <p><Sup><a name="58"></a><a href="#top58">58</a></Sup> KOSKENNIEMI, Marti &ndash;&nbsp;<i>The    Gentle Civilizer of Nations</i>, pp. 436-440.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="59"></a><a href="#top59">59</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    436.</p>     <p><Sup><a name="60"></a><a href="#top60">60</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Die    Internationale Rechtspflege:</i><i>&nbsp;ihr Wesen und ihre Grenzen</i>&nbsp;(Leipzig:&nbsp;Noske,    1929),&nbsp;citado em Koskenniemi, Marti &ndash;&nbsp;The Gentle Civilizer of    Nations, p. 442.</p>     <p><Sup><a name="61"></a><a href="#top61">61</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>La    R&eacute;alit&eacute; des Normes</i>.</p>     <p><Sup><a name="62"></a><a href="#top62">62</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1948), pp. 216-219.</p>     <p><Sup><a name="63"></a><a href="#top63">63</a></Sup> Koskenniemi, Marti &ndash;&nbsp;<i>The    Gentle Civilizer of Nations</i>, p. 455.</p>     <p><Sup><a name="64"></a><a href="#top64">64</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    455.</p>     <p><Sup><a name="65"></a><a href="#top65">65</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>La    R&eacute;alit&eacute; des Normes</i>, p. 220.</p>     <p><Sup><a name="66"></a><a href="#top66">66</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;<br />   p. 269.</p>     <p><Sup><a name="67"></a><a href="#top67">67</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    275.</p>     <p><Sup><a name="68"></a><a href="#top68">68</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1948), p. 228.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="69"></a><a href="#top69">69</a></Sup> GOLDMANN, Matthias &ndash;    &laquo;We need to cut off the head of the king:&nbsp;past, present, and future    approaches to&nbsp;international soft law&raquo;. In&nbsp;<i>Leiden Journal    of International Law</i>.&nbsp;Leida. N.&ordm;&nbsp;25,&nbsp;2012, p. 345.</p>     <p><Sup><a name="70"></a><a href="#top70">70</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;<br />   pp.&nbsp;260-284.</p>     <p><Sup><a name="71"></a><a href="#top71">71</a></Sup> Para uma perspectiva sobre    o realismo na filosofia do direito e na pol&iacute;tica ver BRAMAN, Donald,    e KAHAN, Dan M. &ndash; &laquo;Legal realism as psychological and cultural (not    political) realism&raquo;.&nbsp;In&nbsp;SARAT,&nbsp;Austin, DOUGLAS,&nbsp;Lawrence,    e UMPHREY,&nbsp;Martha Merrill&nbsp;(eds.) &ndash;&nbsp;<i>How Law Knows</i>.&nbsp;Nova    York: Stanford University Press,&nbsp;2009;&nbsp;e ZAMBONI, Mauro &ndash; &laquo;Legal    realisms: on law and politics&raquo;. In&nbsp;<i>Res Publica</i>. Vol.&nbsp;12,    2006,&nbsp;pp.&nbsp;295-317.</p>     <p><Sup><a name="72"></a><a href="#top72">72</a></Sup> Como sugere Scheuerman    em SCHEUERMAN, Will &ndash;&nbsp;<i>The Realist Case for Global Reform</i>.</p>     <p><Sup><a name="73"></a><a href="#top73">73</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;p. 277.</p>     <p><Sup><a name="74"></a><a href="#top74">74</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    261. Ver tamb&eacute;m&nbsp;KOSKENNIEMI, Marti &ndash;&nbsp;<i>The Gentle Civilizer    of Nations</i>, p. 446.</p>     <p><Sup><a name="75"></a><a href="#top75">75</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;<br />   p. 284.</p>     <p><Sup><a name="76"></a><a href="#top76">76</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    282.</p>     <p><Sup><a name="77"></a><a href="#top77">77</a></Sup> HART, H. L. &ndash;&nbsp;<i>The    Concept of Law</i>.&nbsp;Oxford: Oxford University Press, 2012.</p>     <p><Sup><a name="78"></a><a href="#top78">78</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;    &laquo;Positivism, Functionalism, and international law&raquo;,&nbsp;p. 269.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="79"></a><a href="#top79">79</a></Sup> <i>Ibidem.</i></p>     <p><Sup><a name="80"></a><a href="#top80">80</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    276.</p>     <p><Sup><a name="81"></a><a href="#top81">81</a></Sup> <i>Ibidem,</i>&nbsp;p.    268.</p>     <p><Sup><a name="82"></a><a href="#top82">82</a></Sup> A este prop&oacute;sito    ver as contribui&ccedil;&otilde;es de Nicholas Rengger e Anthony Lang para a    antologia&nbsp;WILLIAMS, Michael &ndash;&nbsp;<i>Realism Reconsidered</i>.</p>     <p><Sup><a name="83"></a><a href="#top83">83</a></Sup> A este prop&oacute;sito    ver PEDRO, Guilherme M. &ndash;&nbsp;<i>Reinhold Niebuhr and International Relations    Theory</i>.</p>     <p><Sup><a name="84"></a><a href="#top84">84</a></Sup> MORGENTHAU, Hans &ndash;&nbsp;<i>Politics    among Nations</i>&nbsp;(1948), p. 405.</p>     <p><Sup><a name="85"></a><a href="#top85">85</a></Sup> WENDT, Alexander &ndash;    &laquo;Why a world state is inevitable&raquo;, pp. 491-542.</p>      ]]></body><back>
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