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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>Quatro teses sobre a integra&ccedil;&atilde;o europeia</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Madalena Meyer Resende</b></p>     <p>FCSH/NOVA e IPRI-NOVA | Rua de D. Estef&acirc;nia, 195, 5.&ordm; Dt.&ordm;,    1000-155 Lisboa | <a href="mailto:madalena.resende@ipri.pt">madalena.resende@ipri.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>CARLOS GASPAR, <i>A Balan&ccedil;a da Europa</i>, Lisboa, Al&ecirc;theia    Editores, 2017, 170 p&aacute;ginas, ISBN: 9789896229368</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Escrito no rescaldo do Brexit, o ensaio <i>A Balan&ccedil;a da Europa</i> contribui    de forma s&oacute;bria para o diagn&oacute;stico das causas das crises que t&ecirc;m    vindo a assolar a Europa na &uacute;ltima d&eacute;cada, apresentando tamb&eacute;m    pistas para que a Europa resista a estas. Naturalmente, diagn&oacute;stico e    cura t&ecirc;m origem nas mesmas quatro teses, que o ensaio exp&otilde;e ao    longo de tr&ecirc;s partes: na Segunda Guerra Mundial, no per&iacute;odo do    p&oacute;s-guerra (at&eacute; 1955) e no per&iacute;odo do p&oacute;s-Guerra    Fria (1989).</p>     <p>A primeira tese &eacute; a de que a estabilidade da Europa pressup&otilde;e    um equil&iacute;brio de poder das tr&ecirc;s grandes pot&ecirc;ncias europeias:    a Gr&atilde;-Bretanha, a Fran&ccedil;a e a Alemanha.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Brexit p&otilde;e em causa o restabelecimento desse equil&iacute;brio, mas    o ensaio lembra-nos que tanto a Segunda Guerra Mundial e o per&iacute;odo que    logo se seguiu (at&eacute; 1955), como o p&oacute;s-1989 (at&eacute; 2001) foram    momentos de transi&ccedil;&atilde;o do sistema internacional que resultaram    em novas f&oacute;rmulas de ordena&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es    entre os estados europeus. Na Segunda Guerra Mundial a Europa deixou de ser    o centro do sistema internacional para se tornar num espa&ccedil;o regional    (entre outros). O fim da Guerra Fria significou que a regi&atilde;o perdeu a    centralidade geopol&iacute;tica que o conflito lhe impunha. &Eacute;, pois,    natural que a atual mudan&ccedil;a de ordem do sistema internacional, com a    retra&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos e a emerg&ecirc;ncia de pot&ecirc;ncias    revisionistas, da qual o Brexit &eacute; um sintoma, tamb&eacute;m exijam o    restabelecimento de outras formas de relacionamento entre as pot&ecirc;ncias.</p>     <p>A segunda tese &eacute; a de que a integra&ccedil;&atilde;o europeia deve ser    vista como um equil&iacute;brio parcial, isto &eacute;, obedece a uma l&oacute;gica    interna, mas n&atilde;o independente do jogo global das superpot&ecirc;ncias.    A emerg&ecirc;ncia das institui&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a e de integra&ccedil;&atilde;o    econ&oacute;mica na Europa do p&oacute;s-Guerra foi constru&iacute;da como resposta    improvisada &agrave;s crises provocadas pelos conflitos entre as pot&ecirc;ncias    (Estados Unidos e URSS) na d&eacute;cada p&oacute;s-1945. Tamb&eacute;m as atuais    crises internacionais, externas &agrave; Uni&atilde;o Europeia (UE), podem servir    de contexto &agrave; tomada de decis&otilde;es necess&aacute;rias para reconstruir    os equil&iacute;brios da Europa. De resto, fica claro que a Gr&atilde;-Bretanha    fazia parte do concerto europeu antes da entrada em 1973 nas Comunidades, desde    que tomou a lideran&ccedil;a &ndash; na Europa &ndash; na constru&ccedil;&atilde;o    da nato em 1948-1949. A reconstru&ccedil;&atilde;o da balan&ccedil;a da Europa    implica um concerto da UE com a Gr&atilde;-Bretanha, nomeadamente no campo da    seguran&ccedil;a.</p>     <p>A terceira tese &eacute; a de que a integra&ccedil;&atilde;o europeia n&atilde;o    resulta apenas das mudan&ccedil;as geopol&iacute;ticas, mas responde tamb&eacute;m    a uma necessidade econ&oacute;mica. A integra&ccedil;&atilde;o regional, atrav&eacute;s    de mecanismos (institui&ccedil;&otilde;es) de coordena&ccedil;&atilde;o, surge    por necessidade de responder &agrave; emerg&ecirc;ncia de novas superpot&ecirc;ncias    de escala continental: os Estados Unidos e a URSS. Mas a emerg&ecirc;ncia das    novas superpot&ecirc;ncias &eacute;, j&aacute; por si, resposta ao novo est&aacute;dio    da industrializa&ccedil;&atilde;o, que exige novos mecanismos de gest&atilde;o    da economia e da defesa a n&iacute;vel continental &ndash; tal como a teoria    de James Burnham sobre a emerg&ecirc;ncia dos espa&ccedil;os continentais tinha    preconizado.</p>     <p>O ensaio relembra tamb&eacute;m o diagn&oacute;stico de E. H. Carr &ndash;    primeiro, no panfleto de 1941<i>, The Future of Nations: Independence or Interdependence</i>,    e, depois, no livro <i>The Conditions of Peace</i> &ndash; que considerava que,    na Europa, os pequenos estados eram elementos de desestabiliza&ccedil;&atilde;o,    pela inviabilidade da sua sobreviv&ecirc;ncia, tanto do ponto de vista econ&oacute;mico    como de seguran&ccedil;a, no novo contexto econ&oacute;mico e militar. Carr    faz a cr&iacute;tica da teoria de autodetermina&ccedil;&atilde;o nacional (cada    na&ccedil;&atilde;o um Estado) de Woodrow Wilson como condi&ccedil;&atilde;o    da paz na Europa. Ao contr&aacute;rio, Carr considera que a Paz de Versalhes,    ao basear-se nos princ&iacute;pios wilsonianos, contribuiu para a instabilidade    na Europa. A prolifera&ccedil;&atilde;o de pequenos estados na Europa Central    em 1919 &ndash; cada vez mais obviamente invi&aacute;veis do ponto de vista    da seguran&ccedil;a e da economia quando se criavam os estados continentais    &ndash; deu origem a uma situa&ccedil;&atilde;o de desigualdade que se tornou    fonte de conflitos. Os estados nacionais europeus deviam, na idade dos espa&ccedil;os    continentais, unir-se em espa&ccedil;os maiores e assim criar unidades pol&iacute;ticas    mais amplas. Carr sugere que a integra&ccedil;&atilde;o se deve fazer aproveitando    muitas das estruturas de coopera&ccedil;&atilde;o entre os Aliados durante a    guerra, e mesmo imitando algumas das f&oacute;rmulas &ndash; como a integra&ccedil;&atilde;o    financeira &ndash; da Alemanha nazi nos pa&iacute;ses ocupados. E. H. Carr teoriza    pela primeira vez que a paz no p&oacute;s-guerra deve ser baseada na cria&ccedil;&atilde;o    de mecanismos de coordena&ccedil;&atilde;o continental da economia e da seguran&ccedil;a    na Europa, que permitissem manter os estados de tamanho m&eacute;dio e pequeno    como entidades soberanas, mas integradas por uma burocracia supranacional que    gerisse a economia e a defesa &agrave; escala continental.</p>     <p>A quarta tese parte das contribui&ccedil;&otilde;es de Carl Schmitt e Raymond    Aron sobre as bases da ordem da Europa, num debate entre intelectuais europeus    que precede as manobras diplom&aacute;ticas (p&oacute;s-1943) sobre a reconstru&ccedil;&atilde;o    da ordem europeia. Tanto Schmitt como Aron focam-se na forma de legitima&ccedil;&atilde;o    da nova ordem europeia: Schmitt prop&otilde;e a constitui&ccedil;&atilde;o de    um espa&ccedil;o alargado (Grossraum) constitu&iacute;do pelos povos europeus;    Aron considera que a nova ordem ter&aacute; de ser assente na restaura&ccedil;&atilde;o    dos estados europeus democr&aacute;ticos &laquo;definitivamente constitu&iacute;dos&raquo;.</p>     <p>A tese de Carlos Gaspar &eacute; que o desacordo sobre a base da constru&ccedil;&atilde;o    europeia &ndash; se os povos (entidade amb&iacute;gua), se os estados nacionais    &ndash; permanece uma fonte de desentendimento no p&oacute;s-Guerra Fria, como    se tornou patente na elabora&ccedil;&atilde;o de uma Constitui&ccedil;&atilde;o    Europeia, e, mais tragicamente, durante o processo falhado da sua ratifica&ccedil;&atilde;o    por referendo em Fran&ccedil;a e na Holanda em 2005. A confus&atilde;o dos esp&iacute;ritos    sobre as bases da unifica&ccedil;&atilde;o europeia (devem ser os estados democr&aacute;ticos)    resulta muitas vezes em dificuldades em consolidar o processo de integra&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><i>A Balan&ccedil;a da Europa</i> ganha pelas suas teses claras, mas tamb&eacute;m    por n&atilde;o tentar ultrapassar o paradoxo em que se baseia a integra&ccedil;&atilde;o    europeia. Apesar de argumentar que reconstruir a balan&ccedil;a entre as tr&ecirc;s    pot&ecirc;ncias europeias foi essencial para recompor a nova ordem democr&aacute;tica    do p&oacute;s-guerra e do p&oacute;s-Guerra Fria, Carlos Gaspar sustenta que    a emerg&ecirc;ncia das burocracias supranacionais que gerem o mercado europeu    e a alian&ccedil;a de seguran&ccedil;a transatl&acirc;ntica se mant&eacute;m    hoje central para que as rela&ccedil;&otilde;es entre os estados europeus permane&ccedil;am    pac&iacute;ficas e as democracias sobrevivam &agrave; deriva nacionalista e    autorit&aacute;ria. Para isso, as mesmas &laquo;paix&otilde;es da liberdade    e da confian&ccedil;a, da toler&acirc;ncia e da fraternidade, do pluralismo    e da dignidade&raquo; devem animar os europeus que as enfrentam.</p>      ]]></body>
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