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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Crónica de um fracasso anunciado: A tentativa de institucionalização das «direitas extraparlamentares» na democracia portuguesa (1976-1980)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>Cr&oacute;nica de um fracasso anunciado: A tentativa de institucionaliza&ccedil;&atilde;o    das &laquo;direitas extraparlamentares&raquo; na democracia portuguesa (1976-1980)</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Andr&eacute; Paris</b></p>     <p>Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais &ndash; Universidade de Lisboa | Av. Professor    An&iacute;bal de Bettencourt, 9, 1600-189 Lisboa, Portugal | <a href="mailto:andre.mota.paris@hotmail.com">andre.mota.paris@hotmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RICCARDO MARCHI, <i>A Direita Nunca&nbsp;Existiu: As Direitas&nbsp;Extraparlamentares    na Institucionaliza&ccedil;&atilde;o&nbsp;da Democracia Portuguesa&nbsp;(1976-1980)</i>,    Lisboa, Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2017, 480 p&aacute;ginas, ISBN:&nbsp;978-972-671-397-5</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>A&nbsp;Direita Nunca Existiu</i>&nbsp;constitui um contributo indispens&aacute;vel    para todos aqueles que no meio acad&eacute;mico ou jornal&iacute;stico procuram    as raz&otilde;es para explicar a irrelev&acirc;ncia pol&iacute;tica e eleitoral    da extrema-direita ou da direita radical no Portugal democr&aacute;tico. O t&iacute;tulo    do livro, inspirado nas reflex&otilde;es amarguradas de dois intelectuais p&uacute;blicos    pertencentes a esta &aacute;rea pol&iacute;tica, Eduardo Freitas da Costa e    Manuel Maria M&uacute;rias,&nbsp;&eacute;&nbsp;um bom indicador daquilo que    espera o leitor.<i>&nbsp;A Direita Nunca Existiu</i>&nbsp;&eacute; a hist&oacute;ria    de um fracasso.</p>     <p>As causas deste fracasso, como referido pelo autor,&nbsp;t&ecirc;m merecido    alguma aten&ccedil;&atilde;o da literatura. Entre os factores explicativos geralmente    apontados encontramos o legado do autoritarismo, a natureza da transi&ccedil;&atilde;o    para a democracia e os entraves colocados pelo poder revolucion&aacute;rio no    processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o dos partidos surgidos &agrave;    direita do Centro Democr&aacute;tico Social (CDS)&nbsp;durante 1974-1975, o    fim do imp&eacute;rio como elo de uni&atilde;o entre as diferentes correntes    da direita nacionalista, ou, como em Espanha, a orienta&ccedil;&atilde;o tendencialmente    moderada do eleitorado e a sua fraca apet&ecirc;ncia (ou disponibilidade) para    apoiar projectos de recorte saudosista ou radical<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>    . Um dos grandes m&eacute;ritos deste livro resulta, assim, da procura de um    conjunto de raz&otilde;es alternativas e complementares para explicar o fracasso    pol&iacute;tico e eleitoral das&nbsp;&laquo;direitas extraparlamentares&raquo;&nbsp;na    democracia portuguesa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A reconstitui&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica efectuada pelo autor tra&ccedil;a-nos    o perfil dos principais partidos, movimentos, publica&ccedil;&otilde;es ou personalidades    que animaram a actividade pol&iacute;tica da direita extraparlamentar no per&iacute;odo    que mediou entre o 25 de Novembro de 1975 e as elei&ccedil;&otilde;es legislativas    de 5 de Outubro de 1980. A enumera&ccedil;&atilde;o dos principais actores das    direitas extraparlamentares &eacute; acompanhada pela descri&ccedil;&atilde;o    das respectivas bases ideol&oacute;gicas e program&aacute;ticas, dos apoios    internos ou internacionais com que contaram e das linhas estrat&eacute;gicas    gizadas ao longo do per&iacute;odo em an&aacute;lise. De interesse acrescido    &eacute; tamb&eacute;m o retrato que o livro nos traz sobre as rela&ccedil;&otilde;es    estabelecidas entre estes sectores e os partidos da direita parlamentar (Partido    Social Democrata (PSD)&nbsp;e&nbsp;CDS). &Eacute; esta reconstitui&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica que, no final do livro, permite ao autor elencar um conjunto    de raz&otilde;es, end&oacute;genas e ex&oacute;genas, respons&aacute;veis pelo    fracasso das direitas extraparlamentares na tentativa de ultrapassar o limiar    de representa&ccedil;&atilde;o e, por essa via, alcan&ccedil;ar a t&atilde;o    desejada institucionaliza&ccedil;&atilde;o na democracia portuguesa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>AS RAZ&Otilde;ES END&Oacute;GENAS</b></p>     <p>Um dos factores end&oacute;genos mais importantes sublinhado por Riccardo Marchi    para explicar o insucesso pol&iacute;tico e eleitoral das direitas extraparlamentares    encontra-se na indefini&ccedil;&atilde;o e incoer&ecirc;ncia identit&aacute;ria    dos actores que procuraram afirmar-se no espa&ccedil;o &agrave; direita do&nbsp;CDS.    Segundo o autor, nenhum dos partidos ou movimentos assume claramente o legado    do autoritarismo salazarista como marca identit&aacute;ria e, exceptuando o    grupo do seman&aacute;rio&nbsp;<i>A Rua</i>, tanto o&nbsp;PDC&nbsp;(Partido    da Democracia Crist&atilde;) como o&nbsp;MIRN&nbsp;(Movimento Independente para    a Reconstru&ccedil;&atilde;o Nacional) manifestam uma grande relut&acirc;ncia    em se assumirem abertamente como partidos de direita. Este facto, como refere    o autor, n&atilde;o deixou de alimentar uma certa disson&acirc;ncia entre as    for&ccedil;as pol&iacute;ticas situadas na direita extraparlamentar e as caracter&iacute;sticas    da sua base potencial de apoio.</p>     <p>No entanto, a constata&ccedil;&atilde;o de que&nbsp;&laquo;nenhum dos diferentes    sujeitos organizados &ndash; partidos ou movimentos &ndash; assume abertamente    o legado do regime deposto&raquo;&nbsp;parece-nos um pouco excessiva (p. 445).    &Eacute; o pr&oacute;prio autor que, em diferentes momentos do livro, nos demonstra    o contr&aacute;rio. Por exemplo, referindo-se &agrave; Frente Nacional (FN),    o autor afirma n&atilde;o s&oacute; que a&nbsp;&laquo;identidade da&nbsp;FN&nbsp;&eacute;    claramente&nbsp;anti-sistema, &agrave; luz da sua incompatibilidade com o regime    do 25 de Abril&raquo;,&nbsp;como, do ponto de vista doutrin&aacute;rio,&nbsp;&laquo;reproduz    fielmente o ide&aacute;rio nacionalista que tamb&eacute;m norteava Salazar&raquo;&nbsp;(pp.    336-337). A coliga&ccedil;&atilde;o&nbsp;PDC-MIRN/PDP-FN, nas elei&ccedil;&otilde;es    legislativas de 1980, tamb&eacute;m se apresenta como a&nbsp;&laquo;oposi&ccedil;&atilde;o    global ao sistema do 25 de Abril&raquo;&nbsp;(p. 381). N&atilde;o sendo a dimens&atilde;o    anti-sist&eacute;mica necessariamente sin&oacute;nimo de identidade salazarista,    n&atilde;o deixa, ainda assim, de ser um factor que refor&ccedil;a a tend&ecirc;ncia    generalizada para identificar os sectores da direita extraparlamentar com a    defesa dos princ&iacute;pios e valores associados ao regime deposto.</p>     <p>O segundo factor end&oacute;geno apontado por Riccardo Marchi &eacute; o&nbsp;&laquo;personalismo    da elite dirigente&raquo;&nbsp;dos partidos e movimentos que compunham o campo    da direita extraparlamentar. A utiliza&ccedil;&atilde;o dos partidos como ve&iacute;culos    de autopromo&ccedil;&atilde;o individual &eacute; uma constante em toda esta    &aacute;rea pol&iacute;tica, constituindo, ao mesmo tempo, um dos factores que    agravaram os elevados n&iacute;veis de conflitualidade interna que representaram    um dos tra&ccedil;os que mais penalizou e constrangeu a afirma&ccedil;&atilde;o    dos partidos e movimentos pol&iacute;ticos surgidos neste espa&ccedil;o. Para    al&eacute;m das incont&aacute;veis cis&otilde;es que dilaceraram partidos como    o&nbsp;PDC, o excesso de personalismo tamb&eacute;m tendeu a agravar as rivalidades    existentes entre os partidos e personalidades pertencentes aos diversos grupos    situados neste quadrante. &Eacute; not&oacute;ria, ao longo de todo o per&iacute;odo    em an&aacute;lise, a tend&ecirc;ncia para os sectores da direita extraparlamentar    se envolverem em campanhas de desqualifica&ccedil;&atilde;o pessoal m&uacute;tua.</p>     <p>O terceiro factor apresentado pelo autor prende-se com a&nbsp;&laquo;fraca    radica&ccedil;&atilde;o territorial&raquo;&nbsp;das for&ccedil;as pol&iacute;ticas    situadas &agrave; direita do&nbsp;CDS. A fragilidade organizacional dos principais    projectos pol&iacute;ticos que surgiram neste espa&ccedil;o constituiu um dos    principais constrangimentos &agrave; sua afirma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    e eleitoral. Como refere o autor, a penetra&ccedil;&atilde;o territorial destes    partidos &eacute; praticamente inexistente. Salvo alguns n&uacute;cleos nas    principais cidades (como Lisboa, Porto ou Coimbra), estas organiza&ccedil;&otilde;es    n&atilde;o chegaram a penetrar no resto do pa&iacute;s. O n&uacute;mero de filiados    &eacute; escasso e a no&ccedil;&atilde;o de milit&acirc;ncia um pouco fluida.    A pr&oacute;pria actividade&nbsp;p&uacute;blica destas for&ccedil;as (como o&nbsp;PDC&nbsp;ou    o&nbsp;MIRN) &eacute; intermitente. A dificuldade demonstrada pelos sectores    da direita extraparlamentar concorrerem autonomamente &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es    aut&aacute;rquicas realizadas durante este per&iacute;odo (1976 e 1979) constitui    talvez o melhor indicador da dimens&atilde;o das fragilidades organizacionais    acima aludidas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>OS FACTORES EX&Oacute;GENOS&nbsp;OU UMA OBSESS&Atilde;O CHAMADA CDS</b></p>     <p>Quanto &agrave;s causas ex&oacute;genas, de acordo com Riccardo Marchi, o principal    factor que condicionou o processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o das direitas    extraparlamentares foi a indisponibilidade dos partidos da direita parlamentar    para se&nbsp;&laquo;envolverem oficialmente com as direitas extraparlamentares&raquo;&nbsp;(p.    449). Uma indisponibilidade que se fez sentir a dois n&iacute;veis. Ao n&iacute;vel    do discurso pol&iacute;tico, os partidos sist&eacute;micos recusaram-se sempre    a caucionar a legitimidade democr&aacute;tica dos partidos, movimentos ou personalidades    pertencentes ao espectro da direita extraparlamentar e, ao n&iacute;vel da pr&aacute;tica    pol&iacute;tica, rejeitaram n&atilde;o s&oacute; todas as tentativas de aproxima&ccedil;&atilde;o    encetadas por esses sectores (como a estrat&eacute;gia suprapartid&aacute;ria    do&nbsp;MIRN&nbsp;em 1977 ou a inclus&atilde;o de&nbsp;MIRN, PDC&nbsp;e&nbsp;FN&nbsp;na    Alian&ccedil;a Democr&aacute;tica), como desenvolveram estrat&eacute;gias de    coopta&ccedil;&atilde;o que progressivamente foram enfraquecendo as alternativas    surgidas neste espa&ccedil;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o merece qualquer objec&ccedil;&atilde;o a import&acirc;ncia atribu&iacute;da    &agrave; indisponibilidade da direita sist&eacute;mica para se &laquo;misturar&raquo;    com as for&ccedil;as pol&iacute;ticas da direita extraparlamentar. Se uma parte    da estrat&eacute;gia concebida por estes sectores passava por uma aposta nessa    aproxima&ccedil;&atilde;o, e sendo essa estrat&eacute;gia rejeitada sistematicamente    por&nbsp;PSD&nbsp;e&nbsp;CDS, &eacute; evidente que esse facto&nbsp;n&atilde;o    podia deixar de condenar ao fracasso&nbsp;os intuitos pol&iacute;ticos dessas    for&ccedil;as. O mesmo &eacute; v&aacute;lido para o processo de coopta&ccedil;&atilde;o    que, quando feito numa l&oacute;gica org&acirc;nica, n&atilde;o s&oacute; agravou    a conflitualidade interna de alguns partidos, chegando mesmo a provocar cis&otilde;es    (caso da cis&atilde;o de Sanches Os&oacute;rio no&nbsp;PDC&nbsp;fomentada em    harmonia com a direc&ccedil;&atilde;o do&nbsp;CDS) ou, sempre que canalizada    para a coopta&ccedil;&atilde;o individual, tendeu a absorver as personalidades    mais qualificadas da &aacute;rea extraparlamentar.</p>     <p>Mas, independentemente do que fica dito, parece-nos existir aqui uma contradi&ccedil;&atilde;o    entre um dos factores end&oacute;genos apontados &ndash; a relut&acirc;ncia    dos partidos e movimentos assumirem uma identidade mais pr&oacute;xima do legado    salazarista &ndash; e o factor ex&oacute;geno apresentado como determinante    para explicar o fracasso das direitas extraparlamentares. A adop&ccedil;&atilde;o    do ide&aacute;rio salazarista n&atilde;o era compagin&aacute;vel com a estrat&eacute;gia    de aproxima&ccedil;&atilde;o aos partidos parlamentares. De resto, com maior    ou menor inclina&ccedil;&atilde;o para assumir o legado salazarista, a adop&ccedil;&atilde;o    reiterada de posi&ccedil;&otilde;es anti-sistema por parte destes sectores tamb&eacute;m    se mostrou contraproducente com essa estrat&eacute;gia.</p>     <p>Por conseguinte, quando o autor afirma&nbsp;&laquo;que nenhum dirigente centrista    &ndash; inclusive os mais &agrave; direita &ndash; alguma vez tentou legitimar    as for&ccedil;as extraparlamentares&raquo;, cai-se no risco de atribuir ao&nbsp;CDS&nbsp;uma    responsabilidade que n&atilde;o lhe pertencia (p. 451). At&eacute; porque, como    se disse, existe uma quest&atilde;o a jusante, que est&aacute; relacionada com    a natureza democr&aacute;tica ou antidemocr&aacute;tica dos partidos e movimentos    que animaram a actividade da direita extraparlamentar neste per&iacute;odo.    &Eacute; certo que tamb&eacute;m aqui a heterogeneidade de posi&ccedil;&otilde;es    e a idiossincrasia das personalidades e dos grupos envolvidos &eacute; a regra,    uma quest&atilde;o para a qual o autor n&atilde;o deixa de alertar logo na introdu&ccedil;&atilde;o.    Mas, de qualquer forma, como a leitura atenta do livro demonstra, globalmente,    existe uma rela&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil entre os sectores situados &agrave;    direita do&nbsp;CDS&nbsp;e o regime pol&iacute;tico p&oacute;s-abrilista. Uma    rela&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil que tamb&eacute;m se verifica na relut&acirc;ncia    manifestada por estas for&ccedil;as quanto &agrave; virtualidade dos princ&iacute;pios    ou dos mecanismos formais da democracia representativa.</p>     <p>Conv&eacute;m, por isso, ter algum cuidado para n&atilde;o empolar a responsabilidade    ou a import&acirc;ncia do&nbsp;CDS&nbsp;em todo este processo. Este ponto parece-nos    particularmente relevante, sobretudo porque um dos aspectos que sobressai ao    longo de todo o livro &eacute; a tend&ecirc;ncia para os principais protagonistas    da direita extraparlamentar encontrarem no&nbsp;CDS&nbsp;o&nbsp;&laquo;bode    expiat&oacute;rio&raquo;&nbsp;para justificar os seus pr&oacute;prios fracassos.</p>     <p>&Eacute; verdade que, no que concerne &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com as    for&ccedil;as &agrave; sua direita, o comportamento&nbsp;do&nbsp;CDS&nbsp;se    pautou por uma certa ambiguidade. Para reafirmar o seu car&aacute;cter de partido    centrista e moderado, o&nbsp;CDS afirmou v&aacute;rias vezes que via com bons    olhos o surgimento de um partido pol&iacute;tico que assumisse a representa&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o pol&iacute;tico da direita mas, na pr&aacute;tica, sempre que&nbsp;p&ocirc;de    e sentiu necessidade, contribuiu para boicotar os&nbsp;projectos pol&iacute;ticos    surgidos nesse espa&ccedil;o.</p>     <p>Em todo o caso, quando se diz na conclus&atilde;o que o&nbsp;CDS&nbsp;foi,    de todos os partidos da direita parlamentar,&nbsp;&laquo;o mais empenhado no    boicote &agrave; sua direita&raquo;, conv&eacute;m acrescentar &agrave;s raz&otilde;es    apresentadas o facto de o&nbsp;CDS&nbsp;tamb&eacute;m ter constitu&iacute;do    o partido mais visado pelos outros actores da direita extraparlamentar (p. 450).    N&atilde;o nos podemos esquecer que os ataques ou tentativas de boicote n&atilde;o    t&ecirc;m uma direc&ccedil;&atilde;o unilateral. O grupo do seman&aacute;rio&nbsp;<i>A    Rua</i>&nbsp;n&atilde;o s&oacute; procurou de forma sistem&aacute;tica imiscuir-se    na vida interna do&nbsp;CDS&nbsp;(empurrando o partido para a direita e promovendo    a ascens&atilde;o de Lucas Pires) como, sobretudo a partir do II Governo Constitucional,    disfere um rol de cr&iacute;ticas e coment&aacute;rios muito pouco cordatos    &agrave; direc&ccedil;&atilde;o do partido centrista, tendo como alvo principal    Adelino Amaro da Costa<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> . E quanto    &agrave;s estrat&eacute;gias de coopta&ccedil;&atilde;o, conv&eacute;m talvez    recordar que as bases militantes do&nbsp;CDS&nbsp;tamb&eacute;m foram aliciadas    por elementos do&nbsp;PDC&nbsp;e do&nbsp;MIRN. Estes factores, conjugados com    a perda de um ou outro deputado infligida pelo&nbsp;PDC&nbsp;em 1976, ajudam    a explicar o comportamento do&nbsp;CDS.</p>     <p>De resto, o&nbsp;CDS&nbsp;&ndash; ao contr&aacute;rio do que poderia parecer    de acordo com as posi&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas assumidas por v&aacute;rios    protagonistas da &aacute;rea radical &ndash; n&atilde;o teve um comportamento    diferente do&nbsp;PSD&nbsp;no que concerne &agrave; abertura a entendimentos    com os partidos &agrave; sua direita. Tanto o&nbsp;CDS&nbsp;como o&nbsp;PSD&nbsp;se    distanciam de forma categ&oacute;rica da estrat&eacute;gia suprapartid&aacute;ria    do&nbsp;MIRN&nbsp;em 1977 e, mais tarde, ambos s&atilde;o respons&aacute;veis    pela n&atilde;o abertura da Alian&ccedil;a Democr&aacute;tica aos principais    partidos e movimentos da &aacute;rea extraparlamentar.</p>     <p>A ideia de que essa exclus&atilde;o se deveu sobretudo ao&nbsp;CDS&nbsp;&eacute;    menosprezar por completo aquilo que era a vida interna do&nbsp;PSD&nbsp;nos    anos 1970. Apesar das cis&otilde;es&nbsp;dos &laquo;inadi&aacute;veis&raquo;,    continuava a existir uma tend&ecirc;ncia dentro do&nbsp;PSD&nbsp;favor&aacute;vel    a um entendimento preferencial com o Partido Socialista (PS)<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>    . Se n&atilde;o foi f&aacute;cil fazer vingar no interior do partido a op&ccedil;&atilde;o    por uma coliga&ccedil;&atilde;o com o&nbsp;CDS, n&atilde;o se vislumbra a vontade    &ndash; ou sequer a margem de manobra &ndash; da direc&ccedil;&atilde;o do&nbsp;PSD&nbsp;para    abrir as negocia&ccedil;&otilde;es a sectores conotados com a extrema-direita,    a n&atilde;o ser em casos pontuais e numa l&oacute;gica de ades&atilde;o individual,    como referido pelo autor.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O FRACASSO ELEITORAL OU O FIM&nbsp;DE UMA ILUS&Atilde;O</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os resultados eleitorais alcan&ccedil;ados pelas direitas extraparlamentares    ao longo deste per&iacute;odo demonstram bem a exiguidade do apoio popular que    secundou os projectos pol&iacute;ticos surgidos neste espa&ccedil;o. No &uacute;nico    momento em que, colocando as rivalidades de parte, os principais partidos &agrave;    direita do&nbsp;CDS&nbsp;decidem concorrer coligados n&atilde;o conseguem sequer    suplantar o escasso resultado eleitoral alcan&ccedil;ado pelo&nbsp;PDC&nbsp;em    1976, ficando-se pelos 0,4 por cento dos votos. E quanto &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es    presidenciais, que tanto entusiasmaram alguns dos protagonistas desta &aacute;rea    adeptos de um presidencialismo de cariz bonapartista, nunca surgiu um candidato    capaz de federar o apoio das diferentes direitas que compunham a &aacute;rea    extraparlamentar.</p>     <p>Como retrata o autor, a dimens&atilde;o do fracasso alcan&ccedil;ado nas elei&ccedil;&otilde;es    de 1980 abre um per&iacute;odo de crise organizativa na esfera da direita extraparlamentar.    Passado pouco tempo, uma parte dos actores (como o seman&aacute;rio&nbsp;<i>A    Rua</i>) desaparece do panorama pol&iacute;tico nacional enquanto alguns dos    quadros mais bem preparados decidem refugiar-se naquilo a que o autor chama    a&nbsp;&laquo;estrat&eacute;gia metapol&iacute;tica&raquo;, dinamizando um combate    de cariz mais cultural, como foi o caso do grupo da revista&nbsp;<i>Futuro Presente.</i></p>     <p>Para al&eacute;m de sublinhar as fragilidades intr&iacute;nsecas que minaram    as tentativas de institucionaliza&ccedil;&atilde;o das direitas extraparlamentares    e de demonstrar a incongru&ecirc;ncia das estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas    seguidas pelos seus principais protagonistas, o livro, ao retratar a forma como    esta fatia da direita olhava para o pa&iacute;s e concebia as potencialidades    da sua interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, demonstra tamb&eacute;m a    &laquo;ilus&atilde;o&raquo; que alimentou uma parte consider&aacute;vel destas    for&ccedil;as e personalidades. A tend&ecirc;ncia foi sempre para fazerem uma    leitura muito particular da &laquo;direita&raquo; e das inclina&ccedil;&otilde;es    do eleitorado. Da&iacute; que muitas vezes tendessem a inflacionar a sua import&acirc;ncia    ou o potencial eleitoral dos partidos e movimentos surgidos neste espa&ccedil;o.</p>     <p>No quadro mental de que partiam n&atilde;o era conceb&iacute;vel que o &laquo;povo    de direita&raquo; votasse esmagadoramente em partidos que semanticamente n&atilde;o    se assumiam como os seus representantes, o que os levou a alimentar a ideia    que, mais tarde ou mais cedo, liberta dos constrangimentos do voto &uacute;til,    uma parte da direita acabaria por premiar aqueles que, desde o 25 de Abril,    sem complexos nem tergiversa&ccedil;&otilde;es, tinham assumido os valores e    os princ&iacute;pios da direita pol&iacute;tica nacional. O descalabro eleitoral    de 1980 e a din&acirc;mica introduzida pela&nbsp;ad&nbsp;&ndash; ao refor&ccedil;ar    a capacidade de atrac&ccedil;&atilde;o dos partidos da coliga&ccedil;&atilde;o    no eleitorado e nos quadros pol&iacute;ticos da direita &ndash; colocam um ponto    final neste equ&iacute;voco.</p>     <p><i>A Direita Nunca Existiu</i>&nbsp;n&atilde;o &eacute; apenas a hist&oacute;ria    de um fracasso pol&iacute;tico &eacute;, tamb&eacute;m e paralelamente, a hist&oacute;ria    de uma ilus&atilde;o. S&oacute; assim se compreende o verdadeiro significado    do desabafo amargurado de Manuel Maria M&uacute;rias que autor recupera para    o t&iacute;tulo do livro.&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A pedido do autor, o texto n&atilde;o adopta as normas&nbsp;do Novo Acordo    Ortogr&aacute;fico.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p>AMARAL, Diogo Freitas do &ndash;&nbsp;<i>A Transi&ccedil;&atilde;o para a Democracia&nbsp;&ndash;&nbsp;Mem&oacute;rias    Pol&iacute;ticas II</i>. Lisboa: Bertrand, 2008.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>MARCHI, Riccardo &ndash; &laquo;A extrema-direita portuguesa na &ldquo;Rua&rdquo;:    da transi&ccedil;&atilde;o &agrave; democracia (1976-1980)&raquo;. In&nbsp;<i>Locus:    Revista de Hist&oacute;ria</i>. Vol. 18, N.&ordm; 1, 2012.</p>     <p>MARCHI, Riccardo (coord.) &ndash;&nbsp;<i>As Direitas na Democracia Portuguesa    &ndash; Origens, Percursos, Mudan&ccedil;as e Novos Desafios.</i> Alfragide:    Texto, 2016.</p>     <p>PINHEIRO, Miguel &ndash;&nbsp;<i>S&aacute; Carneiro &ndash; Biografia.</i>    3.&ordf;&nbsp;edi&ccedil;&atilde;o. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010.</p>     <p>PINTO, Jaime Nogueira &ndash;&nbsp;<i>A Direita e as Direitas</i>. Carnaxide:    Difel, 1996.</p>     <p>ROSAS, Fernando (coord.) &ndash;&nbsp;<i>Portugal e a Transi&ccedil;&atilde;o    para a Democracia, 1974-1976</i>. Lisboa: Colibri, 1999.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> &nbsp;MARCHI, Riccardo &ndash;    &laquo;&Agrave; direita da direita: o desafio da extrema-direita &agrave; democracia    portuguesa&raquo;.&nbsp;In&nbsp;MARCHI, Riccardo (coord.) &ndash;&nbsp;<i>As    Direitas na Democracia Portuguesa &ndash; Origens, Percursos,&nbsp;Mudan&ccedil;as    e Novos Desafios</i>. Alfragide: Texto, 2016, pp. 219-249. Ver tamb&eacute;m    PINTO, Jaime Nogueira &ndash;&nbsp;<i>A Direita e as Direitas</i>. Carnaxide:    Difel, 1996; PINTO, Ant&oacute;nio Costa &ndash; &laquo;Saneamentos pol&iacute;ticos    e movimentos radicais de direita na transi&ccedil;&atilde;o para a democracia,    1974-1976&raquo;.&nbsp;In&nbsp;ROSAS, Fernando (coord.) &ndash;&nbsp;<i>Portugal    e a Transi&ccedil;&atilde;o para a Democracia, 1974-1976.</i> Lisboa: Colibri,    1999, pp. 29-48.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> MARCHI, Riccardo &ndash; &laquo;A    extrema-direita portuguesa na &ldquo;Rua&rdquo;: da transi&ccedil;&atilde;o    &agrave; democracia (1976-1980)&raquo;. In&nbsp;<i>Locus:&nbsp;Revista de Hist&oacute;ria</i>.    Vol. 18, N.&ordm; 1, 2012,&nbsp;pp. 167-186.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> AMARAL, Diogo Freitas do &ndash;&nbsp;<i>A    Transi&ccedil;&atilde;o para a Democracia &ndash; Mem&oacute;rias Pol&iacute;ticas    II</i>. Lisboa: Bertrand, 2008. Veja-se tamb&eacute;m PINHEIRO, Miguel &ndash;&nbsp;<i>S&aacute;    Carneiro &ndash; Biografia</i>. 3.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Lisboa: A Esfera    dos Livros, 2010.</p>     ]]></body>
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