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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>O FIM DA TERCEIRA VAGA DE DEMOCRATIZA&Ccedil;&Atilde;O?</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota introdut&oacute;ria:&nbsp;Que crise? Que democracia?</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Madalena Meyer Resende* e Ant&oacute;nio Lu&iacute;s Dias**</b></p>     <p>* NOVA FCSH e IPRI-NOVA | Avenida de Berna, 26-C/1069-061 Lisboa | <a href="mailto:madalena.resende@ipri.pt">madalena.resende@ipri.pt</a></p>     <p>** NOVA FCSH e IPRI-NOVA | Avenida de Berna, 26-C /1069-061 Lisboa | <a href="mailto:antoniolvdias@fcsh.unl.pt">antoniolvdias@fcsh.unl.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>J&aacute; &eacute; um lugar-comum nas reflex&otilde;es sobre o estado da democracia    no mundo, considerar que o in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI representou um    volte-face significativo ao otimismo que encerrou o s&eacute;culo anterior.    A combina&ccedil;&atilde;o da emerg&ecirc;ncia de populismos em democracias    consolidadas, da eros&atilde;o de alguns pilares democr&aacute;ticos em novas    democracias, do fracasso de transi&ccedil;&otilde;es em certas regi&otilde;es    e da ascens&atilde;o do prest&iacute;gio internacional de formas autorit&aacute;rias    de governo parece ter colocado em cheque, pelo menos no espa&ccedil;o p&uacute;blico,    o valor democr&aacute;tico. E a literatura especializada em ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica    respondeu a este pessimismo democr&aacute;tico, proliferando livros e artigos    que discorrem sobre a <i>malaise</i> democr&aacute;tica vigente.</p>     <p>Perante tal contexto, o presente n&uacute;mero especial da R:I procura responder    a este desafio &agrave; democracia. No entanto, procura faz&ecirc;-lo oferecendo    reflex&otilde;es que n&atilde;o se deixam levar pelos debates atuais, frequentemente    demasiado circunstanciais, mas dando um passo atr&aacute;s e oferecendo uma    perspetiva alargada da situa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o que com isto se procure    revalidar o ing&eacute;nuo otimismo democr&aacute;tico anterior; ali&aacute;s,    nos textos deste n&uacute;mero o mesmo n&atilde;o est&aacute; presente. Antes    procuramos que impere nestas avalia&ccedil;&otilde;es a an&aacute;lise sistem&aacute;tica    e rigorosa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; exatamente isso que podemos encontrar no artigo de Antonino Castaldo,    &laquo;A crise da democracia: uma revis&atilde;o seletiva do debate acad&eacute;mico    atual&raquo;. Neste, est&aacute; presente uma discuss&atilde;o s&oacute;lida    sobre a forma como esta tem&aacute;tica da crise da democracia tem sido abordada    pela literatura especializada, oferecendo uma tipologia global que pode ser    aplicada para mapear as dimens&otilde;es deste debate, onde proliferam diferentes    conceitos que raramente se relacionam entre si. Sublinhamos a import&acirc;ncia    dada &agrave; dicotomia subjetiva/objetiva que Castaldo frisa na sua tipologia.    Como o autor nota, &eacute; na primeira dimens&atilde;o que a crise da democracia    atual parece residir de forma mais profunda, mesmo que existam alguns indicadores    preocupantes de deteriora&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o objetiva da democracia.</p>     <p>Na mesma senda de clarifica&ccedil;&atilde;o conceptual, o artigo de Michael    Meyer-Resende, &laquo;Maioritarismo iliberal ou o autoritarismo encapotado:    qual o problema da Europa?&raquo;, oferece uma an&aacute;lise muito interessante    sobre os processos de deriva autorit&aacute;ria na Pol&oacute;nia e na Hungria.    Nomeadamente, a capacidade do autor de distinguir estes processos de conceitos    propostos, como o de democracia iliberal, oferece uma clareza te&oacute;rica    importante para outros exerc&iacute;cios an&aacute;logos. No mesmo sentido,    a distin&ccedil;&atilde;o feita entre estes dois percursos pol&iacute;ticos    e outros percursos problem&aacute;ticos que afetam outras democracias surge    como crucial para uma melhor compreens&atilde;o deste fen&oacute;meno.</p>     <p>Podemos encontrar uma outra perspetiva sobre este debate da crise da democracia    na recens&atilde;o de Adam Standring &agrave; obra de Levistky e Ziblatt, <i>How    Democracies Die: What History Reveals about our Future.</i> Tal como nos textos    anteriores, aqui o que Standring salienta &eacute; como a pr&oacute;pria conceptualiza&ccedil;&atilde;o    da crise da democracia tem sido sonegada e adulterada pela vis&atilde;o excessivamente    positiva das democracias existentes, nomeadamente a norte-americana. Este enviesamento    relativizou os problemas reais que existiam ainda antes da emerg&ecirc;ncia    dos populismos nacionalistas e levanta a quest&atilde;o de se n&atilde;o ser&aacute;    ing&eacute;nua a nossa surpresa com os populismos emergentes.</p>     <p>As quest&otilde;es levantadas por estes tr&ecirc;s textos s&atilde;o relevantes    para qualquer reflex&atilde;o s&eacute;ria sobre o debate do debate da crise    da democracia. Mas achamos que este n&atilde;o deve terminar aqui e por isso    complementamos esta an&aacute;lise com dois artigos sobre a democracia em &Aacute;frica,    continente onde algumas democracias parecem florescer, n&atilde;o obstante os    claros obst&aacute;culos que ali encontram. N&atilde;o o fazemos porque procuramos    deixar uma nota positiva para finalizar este n&uacute;mero especial, mas sim    porque achamos que devemos reduzir o debate atual sobre a democracia &agrave;    sua crise, sobretudo na Europa e Estados Unidos.</p>     <p>No artigo &laquo;Uma vaga de democratiza&ccedil;&atilde;o em &Aacute;frica?&raquo;,    de Ant&oacute;nio Lu&iacute;s Dias, &eacute; reavaliado se as transi&ccedil;&otilde;es    que ocorreram na &Aacute;frica Subsariana constitu&iacute;ram uma vaga distinta    ou apenas representam uma continua&ccedil;&atilde;o da terceira vaga. Sublinhamos    aqui a rela&ccedil;&atilde;o com os textos anteriores, pois os processos de    transi&ccedil;&atilde;o para regimes h&iacute;bridos que ocorreram nesta regi&atilde;o    s&atilde;o frequentemente apontados como exemplos da crise global democr&aacute;tica.    Mas, ao lermos este artigo, conclu&iacute;mos que as democracias que emergiriam    a partir de 1990 parecem sobreviver e at&eacute; evitaram os processos de eros&atilde;o    democr&aacute;tica que encontramos noutros pontos do planeta.</p>     <p>Uma an&aacute;lise diferente est&aacute; presente no artigo &laquo;O papel    da Igreja Cat&oacute;lica na trajet&oacute;ria de paz e democratiza&ccedil;&atilde;o    em Angola e Mo&ccedil;ambique&raquo;, de Madalena Resende e Cl&aacute;udia Almeida.    Neste, as autoras analisam o papel da Igreja Cat&oacute;lica nos processos de    transi&ccedil;&atilde;o dupla &ndash; para a paz e para a democracia &ndash;    que ocorreram nos dois pa&iacute;ses. Aqui encontramos de forma mais clara uma    tentativa de expans&atilde;o do debate atual da democracia. Ao salientar tanto    o papel das transi&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas para a constru&ccedil;&atilde;o    da paz como o papel da Igreja Cat&oacute;lica &ndash; ator que parece estar    num segundo plano no que toca &agrave;s democracias contempor&acirc;neas mas    cujo papel j&aacute; Huntington salientava na sua <i>terceira vaga</i> &ndash;,    este artigo relembra-nos que n&atilde;o devemos permitir que o contexto pol&iacute;tico    afunile a nossa an&aacute;lise das democracias contempor&acirc;neas.</p>     <p>No final deste n&uacute;mero n&atilde;o apresentamos nem vis&otilde;es alternativas    &agrave; <i>malaise</i> democr&aacute;tica, nem solu&ccedil;&otilde;es f&aacute;ceis    para esta. Mas reafirmamos que mesmo perante os desafios atuais, o papel da    ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica &eacute; continuar a sua an&aacute;lise rigorosa    e sistem&aacute;tica pois, como estes textos nos demonstram, s&oacute; assim    poderemos compreender melhor o nosso presente.</p>     <p>Madalena Meyer Resende Professora auxiliar na NOVA FCSH e investigadora no    IPRI-NOVA desde 2007. &Eacute; doutorada pela London School of Economics em    2005 em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica. Foi visiting scholar na equipa do Professor    Michael Minkenberg na Europa Universitaet Viadrina, Frankfurt Oder, Alemanha    (2012-2016). Dedica-se a quest&otilde;es na interse&ccedil;&atilde;o entre religi&atilde;o    e pol&iacute;tica, em particular nos pa&iacute;ses de maioria cat&oacute;lica    na Europa (Pol&oacute;nia, Espanha e Portugal). Publicou, em 2015, <i>Nationalism    and Catholicism: Changing Nature of Party Politics</i> (Routldge), em 2015 (com    Anja Hennig), &laquo;Shunning direct intervention: Explaining the exceptional    behaviour of the Portuguese Church hierarchy in morality politics&raquo; (<i>New    Diversities</i>), e em 2018 &laquo;A holy alliance between the Catholic Church    and constitution drafters? The diffusion of the clause of cooperation in third    wave democracies&raquo; (<i>Politics and Religion</i>).</p>      ]]></body>
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