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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>Pensar a guerra na primeira metade do s&eacute;culo XX</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ant&oacute;nio Horta Fernandes</b></p>     <p>NOVA FCSH e IPRI-NOVA, Avenida de Berna, 26-C / 1069-061 Lisboa, Portugal |    <a href="mailto:hortafernandes@fcsh.unl.pt">hortafernandes@fcsh.unl.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>DAVID ALEGRE, MIGUEL ALONSO E JAVIER RODRIGO (COORDS.) Europa Desgarrada.    Guerra, ocupaci&oacute;n y violencia 1900-1950. Zaragoza, Prensas de la Universidad    de Zaragoza, 2018, 454 p&aacute;ginas. ISBN: 978-84-17358-53-2</b></p>     <p>O presente livro, coordenado por David Alegre Lorenz, Miguel Alonso Ibarra    e Javier Rodrigo S&aacute;nchez, &eacute; mais um not&aacute;vel resultado fruto    de um esfor&ccedil;o conjunto de um grupo de jovens historiadores, investigadores    e professores &ndash; Javier Rodrigo &eacute; j&aacute; um investigador e professor    s&eacute;nior &ndash;, quase todos ligados ao GERD (Grupo d&rsquo;Estudis sobre    Rep&uacute;blica i Democr&agrave;cia), da Universidade Aut&oacute;noma de Barcelona,    os quais t&ecirc;m procurado com &ecirc;xito desenvolver em Espanha uma marca    pr&oacute;pria no &acirc;mbito da nova hist&oacute;ria militar e dos estudos    da guerra. N&atilde;o por acaso, est&atilde;o tamb&eacute;m por detr&aacute;s    de umas mais chamativas novas publica&ccedil;&otilde;es de hist&oacute;ria militar,    refiro-me &agrave; <i>Revista Universitaria de Historia Militar</i>. Por outro    lado, estes investigadores mant&ecirc;m liga&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas    com outro esfor&ccedil;o de vulto em Espanha, o GESI (Grupo de Estudios en Seguridad    Internacional), dirigido em Granada por Javier Jord&aacute;n, procurando dessa    forma alinhar o saber hist&oacute;rico, os estudos da guerra, com uma vertente    estrat&eacute;gica e de rela&ccedil;&otilde;es internacionais, algo que muito    se sa&uacute;da, criando uma linha de estudos transversal, como &eacute;, ali&aacute;s,    apan&aacute;gio dos estudos da guerra. De resto, a marca de &aacute;gua pr&oacute;pria    de escola vai-se construindo em torno desta transversalidade, escapando a um    especialismo excessivo que, por quest&otilde;es concorrenciais internas, tende    a pautar demasiado o mundo acad&eacute;mico anglo-sax&oacute;nico. Outrossim,    essa marca pr&oacute;pria vai-se edificando igualmente &agrave; volta de uma    nova hist&oacute;ria militar cr&iacute;tica, a qual, se bem entrando em di&aacute;logo    aturado com o melhor que se faz internacionalmente (vejam-se as contribui&ccedil;&otilde;es    da obra em causa), procura sustentar uma perspetiva cr&iacute;tica das l&oacute;gicas    de poder subjacentes a muitos autores de nomeada, nem sempre devidamente interrogadas,    antes bastas vezes supostamente neutralizadas por uma investiga&ccedil;&atilde;o    dita ass&eacute;tica inerente &agrave;s grandes correntes de investiga&ccedil;&atilde;o    impulsionadas pelo mundo anglo-sax&oacute;nico. Quer isto dizer que a uma suposta    investiga&ccedil;&atilde;o imperme&aacute;vel &agrave; ideologia mas, na pr&aacute;tica,    pressupondo uma koin&ecirc; liberal indiscutida, esta escola espanhola emergente    responde com a hermen&ecirc;utica cr&iacute;tica de todos os pressupostos. Por    fim, &eacute; imperioso salientar que esta escola espanhola de algum modo prossegue    e d&aacute; continuidade aos notabil&iacute;ssimos trabalhos pioneiros (alguns    ainda em curso) de um outro acad&eacute;mico espanhol radicados nos Estados    Unidos, de nome Nil Santi&aacute;&ntilde;ez, particularmente <i>Goya/Clausewitz.    </i><i>Paradigmas de la guerra absoluta e Topographies of Fascism: Habitus,    Space and Writing in Twentieth-century Spain</i>.</p>     <p>Ora, o esfor&ccedil;o sinerg&eacute;tico real&ccedil;ado deveria servir tamb&eacute;m    de acicate para um compromisso da mesma igualha na escola estrat&eacute;gica    portuguesa e nas institui&ccedil;&otilde;es que a deveriam acarinhar. Tanto    mais que a escola portuguesa h&aacute; muito est&aacute; sedimentada e pratica    trabalho de vanguarda, em termos mundiais, em particular no &acirc;mbito da    investiga&ccedil;&atilde;o fundamental. Mas depois deste repto, tornemos, todavia,    &agrave; obra.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>S&Uacute;MULA</b></p>     <p>Trata-se de uma obra coletiva &agrave; volta das convuls&otilde;es b&eacute;licas    da primeira metade do s&eacute;culo XX, e das implica&ccedil;&otilde;es violentas    a v&aacute;rios n&iacute;veis trazidas por essas mesmas convuls&otilde;es. Embora    falemos de uma obra coletiva, com a natural multiplicidade de pontos de vista,    no conjunto &eacute; bastante harmoniosa, significando isto n&atilde;o haver    textos muito desiguais em qualidade e profundidade. Todas as contribui&ccedil;&otilde;es    inclu&iacute;das s&atilde;o de enorme interesse para os leitores. De ressaltar    que o livro segue um fio condutor cronol&oacute;gico, antecipado por dois textos    de maior ambi&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e tem&aacute;tica, sobre os quais    me debru&ccedil;arei ami&uacute;de &agrave; frente, culminando num texto de    balan&ccedil;o sobre as repercuss&otilde;es da guerra para a paz passados os    cinquenta anos maiores de guerra quente intraeuropeia.</p>     <p>A anteceder todas essas contribui&ccedil;&otilde;es, o leitor depara-se com    uma muito clarificadora introdu&ccedil;&atilde;o, redigida pelos coordenadores    da obra, sobre a qual reservarei algumas palavras adiante.</p>     <p>Ap&oacute;s a referida introdu&ccedil;&atilde;o, surge o primeiro dos textos    de maior ambi&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, de Luca Baldissara, historiador    italiano da Universidade de Pisa, intitulado &laquo;Guerra absoluta y guerra    total, guerra civil y guerrilla. Genealog&iacute;as de las guerras del siglo    XX&raquo;, sobre o qual tenho v&aacute;rias retic&ecirc;ncias, aprofundadas    abaixo.</p>     <p>Segue-se um texto not&aacute;vel de Javier Rodrigo, um dos coordenadores e    professor de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea na Universidade Aut&oacute;noma    de Barcelona, intitulado &laquo;Sobre las ruinas del mundo. Guerra civil y guerra    total en Europa (1919-1949)&raquo;, sobre o qual tecerei adiante tamb&eacute;m    alguns coment&aacute;rios.</p>     <p>Vem depois uma muito importante contribui&ccedil;&atilde;o da historiadora    Heather Jones, da London School of Economics, intitulada &laquo;La Gran Guerra:    c&oacute;mo 1914-18 transform&oacute; la relaci&oacute;n entre guerra y civiles&raquo;.    Heather Jones mostra-nos quanto a defini&ccedil;&atilde;o (e o mito) criada    &agrave; &eacute;poca de a Grande Guerra ser uma guerra de soldados &eacute;    err&oacute;nea. O desaparecimento ou quase da distin&ccedil;&atilde;o entre    civis e militares n&atilde;o ocorre tanto pelas baixas civis decorrentes das    opera&ccedil;&otilde;es militares diretas sobre eles, nem pelo avassalamento    das popula&ccedil;&otilde;es, pelo menos no Ocidente, porque no Sudeste europeu    houve limpezas &eacute;tnicas, nem pelas consequ&ecirc;ncias para as pot&ecirc;ncias    centrais do bloqueio econ&oacute;mico, mas sobretudo porque, numa guerra industrial,    o esfor&ccedil;o indispens&aacute;vel a montante pedido a civis torna-os como    que um alvo legitim&aacute;vel. Ao mesmo tempo, a cada vez maior import&acirc;ncia    da opini&atilde;o p&uacute;blica e dos votantes em v&aacute;rios dos contendores,    converte os civis num potencial alvo militar de modo a influenciar a a&ccedil;&atilde;o    dos seus governantes, justamente por press&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica.    Mas mais ainda, com o recrutamento obrigat&oacute;rio generalizado, o cidad&atilde;o    &eacute;, para todos os efeitos, um potencial soldado, atingindo a sua m&aacute;xima    realiza&ccedil;&atilde;o como cidad&atilde;o sacrificando-se no altar da p&aacute;tria.    Paradoxalmente, no momento em que militar e civil tendem &agrave; desdiferencia&ccedil;&atilde;o    b&eacute;lica, a sobrevaloriza&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica do soldado    em detrimento do civil permite criar o mito de uma guerra de soldados. Um aspeto    ainda a ressalvar, tamb&eacute;m presente noutras contribui&ccedil;&otilde;es    deste livro, diz respeito &agrave;s reconfigura&ccedil;&otilde;es nacionais    em inst&acirc;ncia nacionalista, que uma certa cultura militarista, com coniv&ecirc;ncia    civil, estimulara. Em nome dessas reconfigura&ccedil;&otilde;es nacionais permitiu-se    a reclus&atilde;o indiscriminada de popula&ccedil;&otilde;es civis de origem    estrangeira inimiga h&aacute; muito alocadas no territ&oacute;rio, ou em tr&acirc;nsito    no pa&iacute;s, abrindo um perigoso precedente do qual s&oacute; se vieram a    revelar todas as consequ&ecirc;ncias no segundo conflito mundial.</p>     <p>Segue-se um artigo da autoria de Carolina Garc&iacute;a Sanz e Maximiliano    Fuentes Codera, sob o t&iacute;tulo &laquo;Los combates por la neutralidad en    Gran Guerra: una propuesta desde el caso espa&ntilde;ol&raquo;. Ela, historiadora    da Universidade de Sevilha, ele, um historiador argentino radicado em Espanha,    professor na Universidade de Girona. Neste artigo, os referidos historiadores,    mediante o caso espanhol, procuram apresentar uma vis&atilde;o renovada e poliss&eacute;mica    do que significou ser neutral na Grande Guerra, e de como o conceito de neutralidade    n&atilde;o pode ser encarado de modo algum como estritamente neutro em termos    diplom&aacute;ticos e pol&iacute;ticos em rela&ccedil;&atilde;o ao conflito.    Pelo contr&aacute;rio, a guerra teve um profundo impacto interno nas sociedades    dos pa&iacute;ses n&atilde;o beligerantes, e &eacute; nesse sentido que a neutralidade    deve ser reequacionada, atendendo, ademais, especificidade de cada pa&iacute;s    e ao quadro regional em que se insere.</p>     <p>Imediatamente a seguir &eacute;-nos apresentado um artigo de Dmitar Tasi, investigador    s&eacute;rvio em estudos da guerra, na Universit&agrave; degli studi di Napoli    Federico II. O seu artigo, intitulado &laquo;Un largo conflito. Qui&eacute;nes    eran los paramilitares en los Balcanes tras la Gran Guerra?&raquo;, trata de    uma longa tradi&ccedil;&atilde;o paramilitar nos Balc&atilde;s, a qual desemboca    no fim da Grande Guerra e no p&oacute;s-guerra na sua amplia&ccedil;&atilde;o.    A incapacidade do Estado para operar com normalidade em regi&otilde;es a emergir    politicamente e ainda com um formato institucional inacabado, faz com que haja    uma similitude regional extens&iacute;vel aos diversos protagonistas internos    nesta &aacute;rea do Sudeste europeu. Nas condi&ccedil;&otilde;es dos estados    balc&acirc;nicos, e dadas as convuls&otilde;es provocadas pelas guerras, com    vit&oacute;rias e derrotas, ocupa&ccedil;&otilde;es, migra&ccedil;&otilde;es    for&ccedil;adas, etc., todos estes fatores ajudaram &agrave; cria&ccedil;&atilde;o    de um clima de enorme instabilidade, terreno f&eacute;rtil para o desenvolvimento    dos grupos paramilitares, e para uma viol&ecirc;ncia societ&aacute;ria intestina    que se prolongou no tempo, e teve novos reajustamentos com os acontecimentos    da Segunda Guerra Mundial, nomeadamente as interven&ccedil;&otilde;es italiana    e alem&atilde; na regi&atilde;o.</p>     <p>Miguel Alonso Ibarra, historiador e investigador da Universidade Aut&oacute;noma    de Barcelona, apresenta-nos um texto intitulado &laquo;Combatir, ocupar, fusilar.    La evoluci&oacute;n de la violencia b&eacute;lica de los sublevados en la guerra    civil espa&ntilde;ola (1936-1939)&raquo;. Nele, o investigador espanhol mostra-nos    quanto &eacute; unilateral a imagem do combatente heroico e sem medo do soldado    sublevado, que as mem&oacute;rias do lado franquista enquistaram. O traumatismo    causado pela viol&ecirc;ncia no indiv&iacute;duo combatente &eacute; escalpelizado    para o lado nacional, fruto de uma investiga&ccedil;&atilde;o criteriosa em    v&aacute;rias frentes arquiv&iacute;sticas que n&atilde;o se cingem &agrave;s    mem&oacute;rias dulcificadas. Mostrando igualmente que as altera&ccedil;&otilde;es    no dom&iacute;nio da viol&ecirc;ncia terror&iacute;fica do lado nacional, no    sentido de a morigerarem, foram fruto das necessidades pol&iacute;tico-militares    de ganharem as popula&ccedil;&otilde;es hostis &agrave; medida que a guerra    se aproximava vitoriosamente do fim, evitando uma esp&eacute;cie de coragem    do desespero e o prolongamento in&uacute;til das hostilidades. A meu ver, as    provas apresentadas por Miguel Alonso v&atilde;o no sentido de descartar a tese    de um Franco, muito obstinadamente galego, a querer prolongar a guerra para    ir construindo o Estado, &laquo;purificando&raquo;socialmente Espanha. Uma vit&oacute;ria    esmagadora cumpre esses requisitos. Afinal, ningu&eacute;m faz um pronunciamento    militar para n&atilde;o ter &ecirc;xito logo enquanto pronunciamento.</p>     <p>Francisco Leira Casti&ntilde;era, historiador galego da Universidade de Santiago    de Compostela, num artigo intitulado &laquo;Los &ldquo;Soldados de Franco&rdquo;:    experiencias, memorias e identidades complejas&raquo;, tra&ccedil;a-nos um panor&acirc;ma    de como qu&atilde;o diversa pode ser a identidade dos combatentes franquistas,    ou melhor, de como com o tempo podem existir ou coexistir v&aacute;rias identidades.    Dadas as levas obrigat&oacute;rias muitos dos soldados franquistas, no caso    galego, n&atilde;o o eram ideologicamente, &agrave;s vezes at&eacute; o contr&aacute;rio,    mas o receio, a impot&ecirc;ncia, ou as constri&ccedil;&otilde;es ambientais    levaram-nos a fazer todo um percurso combatente nas for&ccedil;as sublevadas;    j&aacute; outros se escapuliram para o campo republicano. A ideia de duas Espanhas    perfeitamente identificadas e est&aacute;ticas, social, regional e at&eacute;    individualmente, recebe neste trabalho uma not&aacute;vel confuta&ccedil;&atilde;o    ao n&iacute;vel dos diversos eus lingu&iacute;sticos em cada uma.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Seguem-se as contribui&ccedil;&otilde;es de dois reconhecidos historiadores    a n&iacute;vel internacional, o alem&atilde;o S&ouml;nke Neitzel, com um artigo    de nome &laquo;Luchar, matar y morir: consideraciones sobre la identidade de    los combatientes en la Segunda Guerra Mundial&raquo;, e o norte-americano Jeff    Rutherford, sob o t&iacute;tulo &laquo;Los soldados alemanes y la guerra total    en el Frente Oriental, 1943&raquo;. Ambos os trabalhos tratam da perce&ccedil;&atilde;o    da guerra por parte dos soldados alem&atilde;es. Enquanto para Neitzel o report&oacute;rio    de perce&ccedil;&otilde;es alem&atilde;o n&atilde;o indica que a ideologia nazi    fosse um elemento nuclear, na esteira de um seu livro com Harald Welser &ndash;    <i>Soldados: Protocolos sobre Lutar, Matar e Morrer</i>, no seu t&iacute;tulo    em portugu&ecirc;s &ndash;, frisando antes a no&ccedil;&atilde;o profissional    de cumprimento do dever at&eacute; ao fim, em compara&ccedil;&atilde;o, Jeff    Rutherford, que no seu livro <i>Combate and Genocide on the Eastern Front. The    German Infantry&rsquo;s War, 1941-1944</i>, faz finca-p&eacute; no conceito    de necessidade militar contra uma poss&iacute;vel unilateralidade das teses    de Omar Bartov quanto &agrave; ideologiza&ccedil;&atilde;o da Wehrmacht, neste    artigo parece estabelecer um aparente contraponto a Neitzel, ao refor&ccedil;ar    implicitamente a tese de ideologiza&ccedil;&atilde;o, estando os militares alem&atilde;es    cada vez mais conscientes de que se tratava de uma luta contra a sociedade sovi&eacute;tica    no seu todo. Claro que a necessidade militar tamb&eacute;m contou, porque na    mesma forma do caso sublevado narrado por Miguel Alonso, tamb&eacute;m os alem&atilde;es    se viram na conting&ecirc;ncia de morigerar a sua a&ccedil;&atilde;o destrutiva    para aproveitar os recursos materiais e humanos sovi&eacute;ticos numa guerra    em v&aacute;rias frentes em que iam vendo a sua base de sustenta&ccedil;&atilde;o    progressivamente degradada. Ali&aacute;s, as duas posturas n&atilde;o s&atilde;o    antag&oacute;nicas, como mostra Rutherford: desmontar por completo o edif&iacute;cio    da sociedade sovi&eacute;tica, mobilizando os seus recursos para o esfor&ccedil;o    de guerra alem&atilde;o, ao mesmo tempo que um tratamento mais equilibrado da    popula&ccedil;&atilde;o e dos prisioneiros de guerra poderia servir para desvirtuar    por compara&ccedil;&atilde;o a sovietiza&ccedil;&atilde;o a que tinham sido    submetidos.</p>     <p>O texto subsequente, da autoria do jovem professor da Universidade de Girona,    David Alegre Lorenz, intitulado &laquo;Voluntariado de guerra en la Europa bajo    ocupaci&oacute;n alemana: reclutamiento, motivaciones, <i>ethos</i> y experiencias    (1941-1945)&raquo;, &eacute; um excelente estudo de micro-hist&oacute;ria, usando,    como &eacute; natural, o m&eacute;todo abdutivo, onde se procura mostrar que    o voluntariado colaboracionista nos pa&iacute;ses ocupados est&aacute; longe    de ser unilateral, antes obedecendo a uma m&uacute;ltipla causalidade, pelo    que nem todos os colaboracionista volunt&aacute;rios, muitos alistados em unidades    da Wehrmacht e das Waffen-SS, o fizeram por convic&ccedil;&atilde;o. As circunst&acirc;ncias    foram variadas, mas muitas vezes o apelo do voluntariado militar era uma sa&iacute;da    lisonjeira para a situa&ccedil;&atilde;o em que se encontravam na Alemanha enquanto    parte da m&atilde;o de obra for&ccedil;ada mobilizada para o esfor&ccedil;o    de guerra alem&atilde;o. Por fim, de salientar que o autor inclui todas estas    variegadas experi&ecirc;ncias de guerra como sintoma da crise da modernidade    tardia e do triunfo paulatino do capitalismo. Importaria um outro estudo para    designar mais em pormenor esses la&ccedil;os t&atilde;o bem salientados.</p>     <p>A pen&uacute;ltima contribui&ccedil;&atilde;o vem da historiadora alem&atilde;    Franziska Anna Zaugg, da Universidade de Berna, com um estudo intitulado &laquo;De    colonia italiana a vasallo de Alemania. Violencia en Albania durante la Segunda    Guerra Mundial&raquo;. A historiadora alem&atilde; mostra-nos como a ocupa&ccedil;&atilde;o    sucessiva da Alb&acirc;nia pelas pot&ecirc;ncias do Eixo, primeiro a italiana    depois a alem&atilde;, fomentou as rivalidades de todo o tipo j&aacute; existentes    no terreno, al&eacute;m de a Alemanha, de forma sub-rept&iacute;cia, tentar    minar a ocupa&ccedil;&atilde;o italiana, gerando uma situa&ccedil;&atilde;o    ca&oacute;tica que impulsionou uma espiral de insurrei&ccedil;&atilde;o e repress&atilde;o    cujo resultado em nada acabou por favorecer os ocupantes.</p>     <p>Finalmente, o texto de balan&ccedil;o, intitulado, &laquo;La guerra en la paz:    notas sobre olvidos, recuerdos y traumas&raquo;, do investigador galego Xos&eacute;    Manoel N&uacute;&ntilde;ez Seixas, professor na Universidade de Santiago de    Compostela, e outros dos historiadores j&aacute; com muitos cr&eacute;ditos    firmados internacionalmente. No seu not&aacute;vel artigo de s&iacute;ntese,    o historiador galego faz-nos ver que os conflitos do s&eacute;culo XX esbateram    a linha de separa&ccedil;&atilde;o entre a paz e a guerra, adentrando em muito    a cultura da guerra no espa&ccedil;o e tempo da paz, com um relativo embrutecimento    das sociedades, algo que Javier Rodrigo j&aacute; fizera notar no seu escrito.    O autor prop&otilde;e levar a cabo a sua abordagem por interm&eacute;dio de    cinco vetores cr&iacute;ticos, a saber: os veteranos de guerra, bem como as    suas culturas memoriais, organiza&ccedil;&otilde;es e visibilidade das mesmas;    o culto aos mortos; o dilema entre recordar a guerra e educar para a paz; a    desmilitariza&ccedil;&atilde;o das sociedades p&oacute;s-conflito mediante a    redu&ccedil;&atilde;o do peso social e pol&iacute;tico das for&ccedil;as armadas;    o impacto social global da guerra na paz. Em s&iacute;ntese, numa argumenta&ccedil;&atilde;o    particularmente acutilante e feliz exprime as suas d&uacute;vidas se mesmo uma    comemora&ccedil;&atilde;o das guerras passadas centrada nas v&iacute;timas,    no sofrimento e nos horrores da guerra, n&atilde;o acaba ainda assim por alimentar    atitudes favor&aacute;veis &agrave; guerra, mitificando e tornando-a esteticamente    atraente (p. 434). Acrescentaria eu, branqueando a pr&oacute;pria l&oacute;gica    da guerra e condicionando as doutrinas operacionais de guerras a haver, mediante    um ju&iacute;zo p&uacute;blico distorcido na raiz.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>DI&Aacute;LOGO CR&Iacute;TICO COM ALGUMAS PROPOSTAS DE LEITURA</b></p>     <p>Como o espa&ccedil;o &eacute; necessariamente curto e a compet&ecirc;ncia limitada,    cingir-me-ei a aduzir uns quantos coment&aacute;rios em torno da introdu&ccedil;&atilde;o    metodol&oacute;gica dos coordenadores, bem como dos textos de maior alcance    te&oacute;rico e temporal, da autoria de Luca Baldissara e Javier Rodrigo, respetivamente.</p>     <p>A introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; obra, intitulada &laquo;Ciclos b&eacute;licos,    guerra total y violencia de masas&raquo;, de autoria de David Alegre Lorenz,    Miguel Alonso Ibarra e Javier Rodrigo S&aacute;nchez, tamb&eacute;m coordenadores    da obra, &eacute; exemplar no que aos estudos da guerra concerne. Embora os    tr&ecirc;s sejam historiadores, sendo a partir desse &acirc;ngulo de an&aacute;lise    que partem, os autores n&atilde;o resumem os estudos da guerra, <i>war studies</i>,    na express&atilde;o em ingl&ecirc;s, a uma hist&oacute;ria militar renovada.    Pelo contr&aacute;rio, assumem os estudos da guerra numa dimens&atilde;o transversal    e interdisciplinar, contando com o contributo de muitas outras disciplinas,    tanto das ci&ecirc;ncias sociais quanto das humanidades, o que nem sempre acontece    quanto a estas &uacute;ltimas. Muitas vezes os historiadores t&ecirc;m uma certa    desconfian&ccedil;a para com os saberes mais normativos ou filos&oacute;ficos    das humanidades. N&atilde;o sendo este o caso, at&eacute; porque, como j&aacute;    referido, os autores n&atilde;o s&atilde;o alheios a uma posi&ccedil;&atilde;o    cr&iacute;tica empenhada de maior calado.</p>     <p>David Alegre, Miguel Alonso e Javier Rodrigo defendem ser os estudos da guerra    uma &aacute;rea cient&iacute;fica n&atilde;o apenas empenhada no estudo multifatorial    das causas da guerra, como na hermen&ecirc;utica pluridisciplinar da guerra    e de objeto alargado. Para al&eacute;m de contemplar a estrat&eacute;gia, as    doutrinas militares, t&aacute;tica, comando e lideran&ccedil;a, as batalhas    em si, os estudos da guerra ocupam-se igualmente da organiza&ccedil;&atilde;o    militar, da frente interna, do impacto da guerra na pol&iacute;tica, na economia,    na sociedade. Mas tamb&eacute;m as rela&ccedil;&otilde;es que a guerra tece    com a lei, a &eacute;tica, a literatura, a sociopsicologia dos combatentes,    os traumas gerados pelas agruras impostas pela guerra ao quotidiano, entre muitos    outros aspetos, s&atilde;o privilegiados pelos estudos da guerra. No fundo,    est&aacute; em causa o camale&atilde;o clausewitziano multicolor e multiforme    da guerra; o ir &agrave; guerra no todo da sua complexidade, da sua natureza,    digamos.</p>     <p>Saliento ent&atilde;o a compreens&atilde;o hist&oacute;rica que os autores    fazem da ata de nascimento dos estudos da guerra a seguir &agrave; Segunda Guerra    Mundial. Relevando a figura pioneira de Gaston Bouthoul e da sua polemologia    (p. 10). Na sequ&ecirc;ncia do enriquecimento progressivo dos m&eacute;todos    e das problem&aacute;ticas dos estudos da guerra, destaco a reflex&atilde;o    dos autores sobre como o estabelecimento de uma cada vez mais forte cultura    da paz nas sociedades ocidentais, em particular, as europeias, permitiu o desenvolvimento    de uma leitura mais ampla da guerra, com o objetivo de n&atilde;o tornar a repeti-la.    De forma muito perspicaz, estes historiadores espanh&oacute;is, reconhecendo    o car&aacute;ter genu&iacute;no e a legitimidade dessa cultura da paz, n&atilde;o    escamoteiam as simplifica&ccedil;&otilde;es operadas por essa cultura popularizada    na caracteriza&ccedil;&atilde;o da guerra, nem as aporias, j&aacute; referidas,    a que Xos&eacute; Manoel N&uacute;&ntilde;ez Seixas alude no cap&iacute;tulo    final; diria eu com manifestas repercuss&otilde;es negativas no desempenho de    v&aacute;rias miss&otilde;es de apoio &agrave; paz, pelo menos at&eacute; ao    Relat&oacute;rio Brahimi das Na&ccedil;&otilde;es Unidas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os autores chegam a questionar-se, usando de um not&aacute;vel argumento, se    a promo&ccedil;&atilde;o de uma cultura da paz &agrave; <i>outrance</i> e a    sobranceria acerca de outras realidades mundiais, como se s&oacute; estas estivessem    ainda mergulhadas no reino at&aacute;vico da guerra, n&atilde;o pretende mascarar    a desigualdade das nossas sociedades, desativando o descontentamento que nelas    grassa, ao desacreditar de antem&atilde;o todas as formas de dissens&atilde;o    e veem&ecirc;ncia franca e aberta, rapidamente compar&aacute;veis com formas    de guerra ou quase guerra, pr&oacute;prias de gente incivilizada (p. 13). Adicionaria    a este incontorn&aacute;vel argumento, sobre o situacionismo impositivo dos    dispositivos soberano-governamentais, um outro: quando t&ecirc;m de fazer a    guerra, porque a fazem, os poderes f&aacute;ticos das nossas sociedades cobrem-na    ideologicamente com outros ep&iacute;tetos, seja opera&ccedil;&otilde;es de    imposi&ccedil;&atilde;o da paz, ou opera&ccedil;&otilde;es outras que n&atilde;o    a guerra, ou quando n&atilde;o o podem escusar, falam em guerras limpas, guerras    imaculadas, danos colaterais, entre demais express&otilde;es, todas elas servindo    ao acionamento pol&iacute;tico liberal da guerra. Acertam pois David Alegre,    Miguel Alonso e Javier Rodrigo no centro do alvo.</p>     <p>Estes autores procuram ainda estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o estreita    entre o fen&oacute;meno da guerra e a viol&ecirc;ncia de massas, no eixo da    guerra total enquanto din&acirc;mica central para a compreens&atilde;o da guerra,    pelo menos na primeira metade do s&eacute;culo XX, aquela que os estudos de    caso abrangem. De qualquer forma, essa din&acirc;mica vir&aacute; j&aacute;    do s&eacute;culo XIX e prolonga-se para al&eacute;m de 1950. Nesse sentido,    optam pela ideia de um ciclo longo de guerras, conectadas no espa&ccedil;o e    no tempo, sem privilegiar uma ou outra conflagra&ccedil;&atilde;o como conflagra&ccedil;&atilde;o    modelo e ideal-tipo. Ora, essa an&aacute;lise transnacional em tempo longo permite    esclarecer muitos comportamentos sociopol&iacute;ticos em diferentes sociedades    mutuamente afetadas, sem uma &ecirc;nfase excessiva nas duas conflagra&ccedil;&otilde;es    mundiais e de acordo com os tempos e caracter&iacute;sticas de guerra que nestas    vigoraram, ou que habitualmente se julgava que vigoravam. Um tal desiderato    permite aos autores retomar uma ideia j&aacute; presente no pensamento de Hannah    Arendt, de que a viol&ecirc;ncia desatada nas chamadas pequenas guerras nas    col&oacute;nias ter&aacute; contribu&iacute;do para a brutaliza&ccedil;&atilde;o    (continuo a n&atilde;o ver obst&aacute;culo maior no conceito de George Mosse)    posterior, pr&oacute;pria da viol&ecirc;ncia da sociedade de massas da primeira    metade de Novecentos (pp. 29-30). As concatena&ccedil;&otilde;es implicam prova    emp&iacute;rica adicional, mas dir&aacute; um senso apurado que ter&aacute;    de haver liga&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que, por vezes, a prova expl&iacute;cita    pode vir ou nem vir mas n&atilde;o &eacute; tudo.</p>     <p>Permita-se-me, no entanto, exarar umas quantas cr&iacute;ticas &agrave; ideia    de ciclos longos de guerra e ao emprego do conceito de guerra total.</p>     <p>O risco inerente &agrave; ideia de ciclos longos de guerra, embora os autores,    conscienciosamente, procurem evit&aacute;-lo, recusando desde logo qualquer    postura teleol&oacute;gica, &eacute; o de se confundir um ciclo ininterrupto    de guerras num espa&ccedil;o amplo, com uma guerra ininterrupta. O ciclo ininterrupto,    se n&atilde;o for exageradamente alargado no espa&ccedil;o, e ainda que n&atilde;o    tenha verifica&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica total, &eacute; perfeitamente    leg&iacute;timo, porque se trata de uma constru&ccedil;&atilde;o do historiador    que pode ser muito &uacute;til para explicar certas preval&ecirc;ncias nas decis&otilde;es,    nos comportamentos e nas predisposi&ccedil;&otilde;es por parte dos atores pol&iacute;ticos    e das sociedades em geral. J&aacute; a ideia de uma guerra ininterrupta n&atilde;o    o &eacute; de todo. A guerra acontece quando acontece, perdoe-se a express&atilde;o    pleon&aacute;stica, por mais que n&atilde;o seja f&aacute;cil delimitar com    exatid&atilde;o o in&iacute;cio e o fim da contenda. Aquilo que acontece no    p&oacute;s-Primeira Guerra Mundial &eacute; que a estrat&eacute;gia passa a    operar em todos os azimutes e a tempo inteiro. A estrat&eacute;gia &eacute;    cont&iacute;nua, pela necessidade de preparar a complexa guerra industrial de    massas, a guerra em si n&atilde;o. Por mais voltas que demos, a Fran&ccedil;a    n&atilde;o esteve em guerra com Alemanha entre 1919 e 1938. Pode objetar-se    que n&atilde;o o esteve nos termos de uma guerra quente, mas houve uma guerra    fria, tecnicamente falando. Todavia, isso seria um anacronismo, pois seria retroprojetar    conceitos e pr&aacute;ticas que n&atilde;o est&atilde;o prontos para usar antes    do final da Segunda Guerra Mundial. O contr&aacute;rio, e em contradi&ccedil;&atilde;o    impl&iacute;cita com os pr&oacute;prios prop&oacute;sitos dos autores, que de    modo algum pretendem exaltar a guerra, seria fazer do estado de paz um estado    parasit&aacute;rio da guerra, algo que nem a modernidade, ao p&ocirc;r cobro    &agrave; separa&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica entre paz e guerra e transformar    a guerra, por interm&eacute;dio do soberano, numa dimens&atilde;o de acionamento    pol&iacute;tico normalizada, constitutiva, fez &ndash; &eacute; verdade que    os autores reconhecem esse risco, quando afirmam que um dos principais perigos    em optar pelos ciclos longos de guerra &eacute; dar a entender de forma err&oacute;nea    serem a conflitualidade e a guerra elementos constitutivos das sociedades e    das realidades do passado (p. 32). Um estado de guerra como frequ&ecirc;ncia    quotidiana de base equivaleria &agrave; sua preval&ecirc;ncia como estado ontol&oacute;gico    reitor, algo inverificado de todo, quanto mais n&atilde;o seja porque uma tal    continuidade levaria por certo &agrave; ascens&atilde;o aos extremos, &agrave;    guerra absoluta, porquanto esta marca a pauta, estabelece o valor marginal de    utilidade do fen&oacute;meno, estabelece o pre&ccedil;o e d&aacute; &agrave;    guerra a sua configura&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica. A guerra absoluta    est&aacute; anichada em qualquer guerra, &eacute; o extremo sempre pronto a    libertar-se por completo, a extremar-se, e a assenhorear-se do terreno. Ora    tamb&eacute;m sabemos como a guerra &eacute; ultimamente intrat&aacute;vel,    &eacute; d&iacute;scola em rela&ccedil;&atilde;o aos melhores esfor&ccedil;os    de conten&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-estrat&eacute;gicos. Uma guerra cont&iacute;nua,    tendo necessariamente de ser uma guerra quente, com tais propor&ccedil;&otilde;es,    h&aacute; muito que se teria alforriado, e certamente j&aacute; n&atilde;o estar&iacute;amos    aqui para a contar.</p>     <p>Uma palavra ainda em rela&ccedil;&atilde;o ao conceito de guerra total. Os    autores usam-no com cuidado e em geral com parcim&oacute;nia. &Eacute; verdade    que o conceito de guerra total e sua aplica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o morreu    completamente com a Segunda Guerra Mundial; a pr&oacute;pria guerra subversiva    ou insurrecional pode facilmente descambar numa esp&eacute;cie de guerra total,    como j&aacute; intentei dilucidar noutros lugares. Por&eacute;m, <i>guerra total</i>    &eacute; um conceito epocal bem datado, ainda que com proleg&oacute;menos com    raiz nas guerras da revolu&ccedil;&atilde;o e do imp&eacute;rio, como afere    Jean-Yves Guiomar, em rigor ocupa o tempo entre as duas grandes guerras, e mesmo    assim nunca se manifestando em estado puro. A guerra total enquanto utiliza&ccedil;&atilde;o    simult&acirc;nea, estrategicamente intencional (vendo-se a estrat&eacute;gia    compelida a isso pela pol&iacute;tica), de todos os meios de luta, com a m&aacute;xima    intensidade e com a invers&atilde;o da pir&acirc;mide estrat&eacute;gica, tem    o seu fim com o dealbar da era nuclear. A partir de ent&atilde;o a &eacute;poca    mais instrumental da estrat&eacute;gia cessa, e o que iremos assistir &eacute;    a uma pondera&ccedil;&atilde;o judiciosa do emprego dos meios de luta &agrave;    disposi&ccedil;&atilde;o, que, isso sim, n&atilde;o tem volta atr&aacute;s.    Doravante, podem ser empregados todos eles e n&atilde;o s&oacute; o vetor militar,    bem como a mobiliza&ccedil;&atilde;o a montante continua a ser global. Outra    coisa &eacute; achar-se que em determinados cen&aacute;rios, o mais judicioso,    ponderado e temperado &eacute; usar tudo, simultaneamente e com elevada intensidade    para atingir um objetivo, sob pena de n&atilde;o o fazendo haver uma qualquer    escalada. Nada disto obsta a que a pr&oacute;pria marcha da guerra, porque,    como disse, &eacute; sempre d&iacute;scola, acabe por configurar uma esp&eacute;cie    de guerra total e a pr&oacute;pria pol&iacute;tica, mesmo contra a pondera&ccedil;&atilde;o    estrat&eacute;gica, ser tentada pelo corrupio de viol&ecirc;ncia. Obviamente,    tamb&eacute;m nada obsta a que determinados atores pol&iacute;ticos possam ter    a tenta&ccedil;&atilde;o de reproduzir uma guerra total, nomeadamente em locais    onde as respetivas racionalidades sociais estrat&eacute;gicas exer&ccedil;am    uma retroa&ccedil;&atilde;o mais d&eacute;bil sobre a pol&iacute;tica. Contudo,    essa n&atilde;o tem sido a tend&ecirc;ncia. Assim sendo, quando os autores referem    a guerra contra o terrorismo isl&acirc;mico como uma guerra total com refinamentos    (p. 31), aqui sim equivocam-se redondamente. &Agrave; parte a quest&atilde;o    de se poder falar em guerra contra o terrorismo<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>,    tal &eacute; a disparidade de poderes entre as duas partes, que por mais que    quisessem os oponentes do terrorismo n&atilde;o poderiam de todo acometer uma    guerra total, e isto, por defini&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Duas palavras mais para referir o excelente aparato cr&iacute;tico que acompanha    o texto, com bibliografia muito atualizada e sobretudo pertinente, e para a    forma extraordinariamente elegante e sens&iacute;vel como os autores apresentam    os seus pr&oacute;prios percursos vitais na g&eacute;nese do livro. Na verdade,    se sabemos que na est&eacute;tica da rece&ccedil;&atilde;o, de Jauss a Ricoeur,    a obra quando p&uacute;blica se independentiza dos autores biográficos, n&atilde;o    &eacute; menos real os projetos n&atilde;o tomarem forma descarnados.</p>     <p>Talvez o &uacute;nico problema maior deste livro coletivo seja o artigo de    Luca Baldissara, at&eacute; porque Baldissara faz quest&atilde;o em analisar    com deten&ccedil;a a guerra como fen&oacute;meno geral da a&ccedil;&atilde;o    humana, evitando a dispers&atilde;o emp&iacute;rica (p. 55). Ora, o historiador    italiano, num artigo coerente e muito informativo, ademais de uma vis&atilde;o    gradativa de materializa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da guerra total com    a qual n&atilde;o podemos sen&atilde;o concordar, comete um pecado mortal, labora    num equ&iacute;voco estrutural, ao misturar os conceitos de guerra total e de    guerra absoluta, que exprimem duas realidades distintas. &Eacute; certo que    o uso simult&acirc;neo de todos os meios para atingir a m&aacute;xima intensidade    da for&ccedil;a, com vista a alcan&ccedil;ar o objetivo, pode bem propiciar    e municiar a ascens&atilde;o aos extremos. Todavia, as similitudes estruturais    acabam a&iacute;. O conceito de guerra total denota um modo de fazer a guerra    (<i>warfare</i>), e mesmo uma tipologia epocal da guerra, consistente, como    j&aacute; mencion&aacute;mos, no uso simult&acirc;neo e n&atilde;o temperado    de todos os meios ao dispor, com redu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica aos    objetivos estrat&eacute;gicos, sen&atilde;o mesmo a subordina&ccedil;&atilde;o    a eles. J&aacute; a guerra absoluta n&atilde;o configura nenhum modo particular    de fazer a guerra, nem nenhuma tipologia b&eacute;lica, antes afere (ali&aacute;s,    como o pr&oacute;prio Baldissara reconhece, com base em Clausewitz, p. 55) &laquo;o    ponto de refer&ecirc;ncia e a unidade de medida de toda a guerra&raquo;, o seu    n&uacute;cleo &iacute;ntimo que especifica o fen&oacute;meno na sua singularidade,    o extremo insuborn&aacute;vel de desraz&atilde;o, a ca&oacute;tica abissal presente    em qualquer guerra e em qualquer escal&atilde;o, do t&eacute;cnico-t&aacute;tico    ao estrat&eacute;gico. Quando muito, a ascens&atilde;o aos extremos em sentido    estrito configura uma forma que a guerra toma, e n&atilde;o uma modalidade de    guerra inser&iacute;vel numa qualquer taxonomia de guerras poss&iacute;veis,    porquanto &eacute; pr&oacute;prio do extremo extremar-se, materializar-se por    completo, libertar por inteiro a pot&ecirc;ncia irredenta do seu n&uacute;cleo,    quando as condi&ccedil;&otilde;es assim o permitirem. A guerra absoluta expressa    a raz&atilde;o de (des-)ser da guerra. Ora, as raz&otilde;es que Baldissara    apresenta para emparelhar os conceitos, em que a for&ccedil;a natural do elemento    guerreiro parece possuir os combatentes e governantes, o cavalo governa o cavaleiro,    a guerra gera os seus pr&oacute;prios objetivos e se alimenta de si pr&oacute;pria    sem freios, numa din&acirc;mica, na apar&ecirc;ncia, impar&aacute;vel de guerra    sem quartel, bem como a ideia de guerra de exterm&iacute;nio, s&atilde;o caracter&iacute;sticas    pr&oacute;prias da guerra absoluta e n&atilde;o da guerra total. A guerra total    n&atilde;o &eacute; necessariamente uma guerra de exterm&iacute;nio, nem visa    obrigatoriamente a pulveriza&ccedil;&atilde;o t&aacute;tica do inimigo, ou a    sua aniquila&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica, antes procura a supress&atilde;o    sem rebu&ccedil;o de qualquer resposta para atingir um objetivo de forma franca    e sem lugar a d&uacute;vidas. De resto, &eacute; isso que se extrai de Ludendorff,    o qual at&eacute; a integra num quadro defensivo, por mais que essa posi&ccedil;&atilde;o    denote sofisma ideol&oacute;gico. &Eacute; certo que Baldissara chama &agrave;    cola&ccedil;&atilde;o Jean-Yves Guiomar, mas comete precisamente os mesmos erros    deste, com a agravante de o historiador franc&ecirc;s ainda se interrogar se    o conceito de guerra total designa a mesma coisa que o conceito de guerra absoluta,    para ele uma quest&atilde;o em aberto, enquanto Baldissara d&aacute; o emparelhamento    como bom <i>a priori</i><sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>     <p>Baldissara prende-se ainda a outros equ&iacute;vocos. Por exemplo, quando remete    o conceito de guerra absoluta em Clausewitz para uma formula&ccedil;&atilde;o    geral e abstrata (p. 55), a arrepio de o considerar a unidade de medida da guerra,    dois registos incompat&iacute;veis. H&aacute; muitos exemplos, <i>pace</i> Aron,    de que <i>guerra absoluta</i> n&atilde;o &eacute; uma mera formula&ccedil;&atilde;o    ideal e teor&eacute;tica, mas basta atender ao cap&iacute;tulo XVI, do livro    III, do <i>Da Guerra</i>, quando Clausewitz argumenta que se o evolver normal    das campanhas parece o oposto a um incessante avan&ccedil;o em dire&ccedil;&atilde;o    ao alvo e a a&ccedil;&atilde;o a exce&ccedil;&atilde;o, as campanhas de Bonaparte    mostrariam o contr&aacute;rio, o ilimitado grau de energia como lei natural    do elemento guerra. E se esse grau &eacute; poss&iacute;vel ent&atilde;o &eacute;    necess&aacute;rio. Isto quer dizer que &eacute; concretiz&aacute;vel, n&atilde;o    abstrato, e como tal n&atilde;o pode ser deixado de lado, &eacute; imprescind&iacute;vel,    incontorn&aacute;vel para doar o sentido pleno &agrave; guerra, atrav&eacute;s    do qual se mostra que esta &eacute; assim e n&atilde;o pode ser doutra maneira;    exprimindo mesmo a parte mais &iacute;ntima da natureza da guerra, sendo realmente    o n&uacute;cleo da guerra em si e n&atilde;o mera hip&oacute;tese te&oacute;rica<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.</p>     <p>Baldissara parece querer carrear ainda outros argumentos para a guerra absoluta    e total ainda antes do s&eacute;culo XX, para a guerra total ainda antes da    guerra total, seguindo o racioc&iacute;nio de David Bell em <i>The First Total    War. Napoleon&rsquo;s Europe and the Birth of Warfare as We Know It</i>, de    que a separa&ccedil;&atilde;o do militar das restantes esferas sociais e a cria&ccedil;&atilde;o    de uma cultura militar implica que a guerra deixa de fazer parte da ordem social    e do curso normal da hist&oacute;ria, intensificando a propens&atilde;o para    uma viol&ecirc;ncia cada vez maior, com cada vez menos barreiras (p. 58). O    disparate que j&aacute; era de Bell, retomado por Baldissara, &eacute; enorme.    Desde logo, a separa&ccedil;&atilde;o da esfera militar &eacute; uma separa&ccedil;&atilde;o    sociol&oacute;gica inerente &agrave; complexifica&ccedil;&atilde;o e especializa&ccedil;&atilde;o    das fun&ccedil;&otilde;es do Estado, correspondente &agrave; divis&atilde;o    social do trabalho pol&iacute;tico, com a cria&ccedil;&atilde;o da estrat&eacute;gia    para gerir a conduta da guerra. E nesse sentido estrito, a cria&ccedil;&atilde;o    de uma cultura castrense em nada a afasta de outros processos de profissionaliza&ccedil;&atilde;o    e especializa&ccedil;&atilde;o que v&atilde;o ocorrendo na modernidade, desde    a diplomacia &agrave; clericiza&ccedil;&atilde;o do clero diocesano. Mas tal    acontece porque, com o soberano, a guerra &eacute; pela primeira vez inserida    na ordem social e no curso normal da hist&oacute;ria, justamente o oposto do    argumentado por Bell e Baldissara, e como se percebe que, apesar da tentativa    de normaliza&ccedil;&atilde;o da guerra por parte da l&oacute;gica soberana,    aquela continua a ser uma exce&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    vida social ordin&aacute;ria, na medida em que se procura normaliz&aacute;-la    com &ecirc;xito muito relativo em ordem &agrave; sua cabal domestica&ccedil;&atilde;o    e controlo, e j&aacute; n&atilde;o fazendo a guerra parte de um continente ontol&oacute;gico    apartado da paz, imp&otilde;e-se criar uma cultura espec&iacute;fica com um    <i>ethos</i> pr&oacute;prio &ndash; algo que nos dias de hoje esquecemos com    a aproxima&ccedil;&atilde;o da guerra e da profiss&atilde;o militar ao gestion&aacute;rio,    ao <i>management</i>.</p>     <p>Baldissara refere-se ainda &agrave; uni&atilde;o da lideran&ccedil;a pol&iacute;tica    e do comando militar, no per&iacute;odo das guerras da revolu&ccedil;&atilde;o    e do imp&eacute;rio, como outro elemento indutor da guerra total (p. 59). Todavia,    o racional s&oacute; vale se pensarmos em Napole&atilde;o e no enfeudar a pol&iacute;tica    &agrave; estrat&eacute;gia, porque unidade de comando pol&iacute;tico-militar    dir-se-ia ser quase uma constante hist&oacute;rica; a pol&iacute;tica a comandar    a guerra, o pr&iacute;ncipe a dirigir a contenda, mesmo delegando no terreno    o comando da for&ccedil;a.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As aporias te&oacute;ricas notam-se ainda quando Luca Baldissara identifica    os novos meios armament&iacute;sticos desenvolvidos no s&eacute;culo XIX para    p&ocirc;r cada vez mais homens fora de combate, dado o crescimento dos ex&eacute;rcitos,    com o ato de os matar (p. 63), estando impl&iacute;cita a ideia de exterm&iacute;nio.    Ora, p&ocirc;r fora de combate significa incapacitar e n&atilde;o matar. Provocar    um maior n&uacute;mero de feridos &eacute; muito mais remunerador em termos    psicol&oacute;gicos e da pr&oacute;pria mobilidade do inimigo do que simplesmente    mat&aacute;-los. N&atilde;o por acaso, o desenvolvimento das muni&ccedil;&otilde;es    <i>shrapnel</i> ao longo do s&eacute;culo XIX vai nesse sentido.</p>     <p>Baldissara estabelece ainda uma frut&iacute;fera liga&ccedil;&atilde;o entre    os intentos para fixar regras e limites no direito da guerra, a mobiliza&ccedil;&atilde;o    cada vez maior e mais intensa de for&ccedil;as e a brutaliza&ccedil;&atilde;o    crescente desta (pp. 66-67). Na verdade, quanto mais brutal for a guerra maiores    s&atilde;o os riscos de ascens&atilde;o aos extremos. Da mesma forma, uma mais    extensa e intensa utiliza&ccedil;&atilde;o dos meios tende a acarretar uma brutalidade    acrescida, historicamente verific&aacute;vel. Por&eacute;m, uma vez mais, guerra    absoluta e guerra total n&atilde;o se miscigenam. A brutalidade acaba sempre    por ser uma vari&aacute;vel independente, como se pode observar nas diferen&ccedil;as    entre a frente ocidental e a frente oriental na Segunda Guerra Mundial, dadas    as mesmas condi&ccedil;&otilde;es de mobiliza&ccedil;&atilde;o total. Por sua    vez, nem sempre a maior intensidade da for&ccedil;a mobilizada significa em    termos comparativos mais brutalidade; basta pensar na campanha alem&atilde;    em Fran&ccedil;a, em 1940, por compara&ccedil;&atilde;o com a guerra franco-prussiana    de 1870-1871.</p>     <p>&Eacute; igualmente excelente a rela&ccedil;&atilde;o estabelecida por Luca    Baldissara entre o crescimento da guerra irregular, a viol&ecirc;ncia sobre    civis e a cultura militar institucional em desenvolvimento, estritamente ligada    esta ao monop&oacute;lio sobre a viol&ecirc;ncia a que o Estado cada vez mais    se arroga ao longo de Oitocentos. A exist&ecirc;ncia de guerrilheiros era vista    como uma s&eacute;rie amea&ccedil;a &agrave; cultura militar e de guerra emergente    e uma amea&ccedil;a &agrave; ordem estabelecida, sendo tamb&eacute;m um bom    pretexto para exercer um controlo f&eacute;rreo sobre a popula&ccedil;&atilde;o    civil advers&aacute;ria, visto dela brotarem esmagadoramente os irregulares    (pp. 65,73,77-78). Os pr&oacute;prios guerrilheiros viam-se a seus pr&oacute;prios    olhos cada vez mais como detentores de um potencial insurgente, isto &eacute;,    de subvers&atilde;o revolucion&aacute;ria das institui&ccedil;&otilde;es do    Estado em virtude de fazerem parte de um &laquo;ex&eacute;rcito popular&raquo;.    Por&eacute;m, as similitudes acabam a&iacute; com as hodiernas guerras subversivas    ou insurrecionais, de que s&atilde;o, quando muito, proleg&oacute;menos. A guerra    irregular at&eacute; meados do s&eacute;culo XX, e por mais que os guerrilheiros    constitu&iacute;ssem em si uma quest&atilde;o eminentemente pol&iacute;tica,    era guerra militar, mesmo que estivesse em causa a possibilidade de subvers&atilde;o    do Estado &ndash; ali&aacute;s, apenas nesse sentido estrito do voc&aacute;bulo    subvers&atilde;o se pode dizer serem essas guerras subversivas. N&atilde;o s&oacute;    esse tipo de guerras n&atilde;o representava o eixo central das confronta&ccedil;&otilde;es    &ndash; sendo complementar da manobra b&eacute;lica principal, ainda que os    seus protagonistas pudessem acalentar outros des&iacute;gnios &ndash;, como,    e mais importante, as guerras subversivas requerem outras formas de coa&ccedil;&atilde;o    e outras estrat&eacute;gias que n&atilde;o a militar no papel principal. Todavia,    essas novas modalidades de guerra e concomitantes estrat&eacute;gias apenas    amadureceram no dealbar da era nuclear. Por outro lado, essas nov&eacute;is    formas de coa&ccedil;&atilde;o eram fundamentais porque eram as que melhor se    ajustavam, pelo seu car&aacute;ter mais sibilino e subtil, ao principal objetivo    das guerras subversivas: a conquista do cora&ccedil;&atilde;o e da mente do    grosso da popula&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Em suma, estamos perante um artigo que carreia excelente informa&ccedil;&atilde;o    e preciosa argumenta&ccedil;&atilde;o, mas ambas baseadas no total desajustamento    te&oacute;rico.</p>     <p>Javier Rodrigo oferece-nos um excelente artigo, tamb&eacute;m de &acirc;mbito    te&oacute;rico alargado, acerca de qu&atilde;o complexa pode ser a abordagem    &agrave;s guerras civis, no contexto da guerra total, no horizonte aberto pela    Grande Guerra, e onde se cruzam com guerras internacionais e revolu&ccedil;&otilde;es    de v&aacute;rios signos. Como manifesta o historiador espanhol nem sequer h&aacute;    consenso sobre o significado de guerra civil e se em &uacute;ltima an&aacute;lise    o conceito pode ser operativo para responder a conjunturas t&atilde;o diversas.    &Eacute; um problema hermen&ecirc;utico basilar, j&aacute; entrevisto por Braudel,    referindo-se &agrave; aplicabilidade da categoria de mercador a &eacute;pocas    distintas. Na verdade, as categorias t&ecirc;m de fazer justi&ccedil;a &agrave;    conting&ecirc;ncia hist&oacute;rica, mas n&atilde;o podem ser t&atilde;o l&aacute;beis    que se nos desfa&ccedil;am nas m&atilde;os antes de entabularmos o di&aacute;logo    hist&oacute;rico. Como n&atilde;o h&aacute; forma de escapar ao c&iacute;rculo    hermen&ecirc;utico, n&atilde;o h&aacute; instrumentos definitivos nem &acirc;ngulos    de abordagem absolutos, mas h&aacute; aqueles que permitem um maior alargamento    de horizontes e abertura &agrave; alteridade. Creio que a categoria ou o conceito    de guerra civil est&aacute; entre esses instrumentos, e por isso mesmo Javier    Rodrigo n&atilde;o abdica, e bem, dele. Desconfia sim e muito &eacute; das abordagens    conceptuais das ci&ecirc;ncias sociais, sobretudo as quantitativistas extremas    que n&atilde;o d&atilde;o raz&atilde;o da conting&ecirc;ncia, do agenciar, isto    &eacute;, do impulso da a&ccedil;&atilde;o humana nem t&atilde;o-pouco da empiria    enquanto tal (pp. 91-92). Apenas por rebu&ccedil;o extremo me contenho aqui    em seguir os racionais de Javier Rodrigo ao limite, mas a minha concord&acirc;ncia    com ele &eacute; plena. Creio que sobretudo a hist&oacute;ria, e, num outro    quadrante, as humanidades, nos oferecem conceptualiza&ccedil;&otilde;es suficientemente    profundas de todos estes fen&oacute;menos.</p>     <p>Javier Rodrigo pensa igualmente que as guerras civis t&ecirc;m sido menos atendidas    que as guerras internacionais da primeira metade do s&eacute;culo passado, de    forma indevida. Certamente ter&aacute; raz&atilde;o, apresentando uma argumenta&ccedil;&atilde;o    s&eacute;ria nesse sentido. Por outro lado, enquadra essas guerras civis no    horizonte aberto pela Grande Guerra, enquanto ponto de rutura fundamental para    a reconfigura&ccedil;&atilde;o das entidades &eacute;tnico-nacionais, e no contexto    da guerra total tamb&eacute;m promovido pela Grande Guerra, levando a que essas    reconfigura&ccedil;&otilde;es se tenham feito de forma particularmente violenta    e radical, com purifica&ccedil;&atilde;o social, resolu&ccedil;&atilde;o expedita    do problema das minorias, e um amplo etc. At&eacute; porque a Grande Guerra    criou uma tal pedagogia da viol&ecirc;ncia que esta passou a ser um eixo gravitacional    da contemporaneidade europeia (pp. 94-95). N&atilde;o poderia estar mais de    acordo, e nem sempre se frisa de maneira rotunda quanto n&oacute;s somos netos    e bisnetos dessa viol&ecirc;ncia &iacute;mpar, preparada de antanho &eacute;    certo, mas de alguma forma tamb&eacute;m nova.</p>     <p>Claro est&aacute; que a guerra total amplia a l&oacute;gica de viol&ecirc;ncia    presente nas guerras civis, mas creio que o autor tende a amalgamar um pouco    guerra total e guerra absoluta no respeitante a essa viol&ecirc;ncia (p. 96).    &Eacute; que as guerras civis s&atilde;o, pela sua pr&oacute;pria natureza de    conflagra&ccedil;&atilde;o no interior da Cidade, guerras fratricidas, em sentido    literal, sem as conten&ccedil;&otilde;es de quem j&aacute; se conhece por inteiro    e sem as media&ccedil;&otilde;es de quem n&atilde;o as pode oferecer porque    nada sabe das quest&otilde;es intr&iacute;nsecas daquela fam&iacute;lia, a n&atilde;o    ser por um excesso de otimismo ou de sobranceria, ambos inaceit&aacute;veis,    e os da fam&iacute;lia est&atilde;o por defini&ccedil;&atilde;o envolvidos.    Assim, a guerra civil &eacute; prop&iacute;cia como mais nenhuma &agrave; ascens&atilde;o    aos extremos. Os gregos referiam-se &agrave; <i>stasis</i> como o mundo &agrave;s    avessas, pois pressentiam na guerra civil como em nenhuma mais a possibilidade    de a guerra assumir o controlo, da guerra absoluta se libertar por completo    &ndash; o pecado capital da muito badalada obra recente de David Armitage, tamb&eacute;m    citada por Javier Rodrigo, <i>Civil Wars: A History in Ideas</i>, &eacute; o    de n&atilde;o incluir intencionalmente a <i>stasis</i> no quadro das guerras    civis; um dos fatores a motivar um n&uacute;mero da revista <i>Critical Analysis    of Law</i> (Vol. 4, N.&ordm; 2, 2017) dedicado ao debate cr&iacute;tico da obra    de Armitage.</p>     <p>Estou em crer que n&atilde;o outra mensagem nos quer transmitir Javier Rodrigo,    fazendo entrar na li&ccedil;a a guerra total como catalisador contempor&acirc;neo    (p. 113) &ndash; n&atilde;o sei se aqui ou ali confundindo um pouco os termos.</p>     <p>Umas quantas palavras mais relativas a um tema que se esparze por alguns artigos,    onde aparece expl&iacute;cita ou impl&iacute;cita a no&ccedil;&atilde;o de necessidade    militar, tanto mais premente quanto as cl&aacute;usulas da guerra total a parecem    endurecer, em particular no caso da Wehrmacht. Ofuscando um tanto o protagonismo    da ideologia, a necessidade militar na guerra total levaria a pr&aacute;ticas    militares extremas, refor&ccedil;aria o combate de aniquila&ccedil;&atilde;o    e acabaria numa guerra de exterm&iacute;nio um pouco sem querer. &Eacute; verdade    que a doutrina alem&atilde; da necessidade militar e do combate de aniquila&ccedil;&atilde;o    tende a deturpar por excesso as conce&ccedil;&otilde;es de Clausewitz. Mas obviamente    n&atilde;o visava a guerra absoluta, sendo a guerra de exterm&iacute;nio um    precipitado desta &uacute;ltima. Aquilo que acontece &eacute; que a necessidade    militar &eacute; (ou deve ser) flex&iacute;vel e atender &agrave;s conting&ecirc;ncias    da guerra. Ora, a guerra vai criando os seus pr&oacute;prios objetivos porque    a alimenta em fundo essa ciz&acirc;nia incontrol&aacute;vel que &eacute; a guerra    absoluta. A p&aacute;ginas tantas &eacute; esse extremo ca&oacute;tico caracterizador    da guerra absoluta que municia a necessidade militar e as medidas tomadas a    partir desta nada mais fazem do que encurtar a marcha para a ascens&atilde;o    aos extremos. O mesmo &eacute; dizer, a necessidade militar como sin&oacute;nimo    de uma prerrogativa de controlo sobre a guerra, de autonomia de comando, de    liberdade de a&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica relativa acaba por ser antes    sin&oacute;nimo de servid&atilde;o militar &agrave; guerra. A meu ver, optar    entre necessidade militar e ideologiza&ccedil;&atilde;o fan&aacute;tica n&atilde;o    &eacute; de lei, depende do quadro de refer&ecirc;ncia pol&iacute;tico, das    condi&ccedil;&otilde;es da guerra, da intensidade da mesma, e dos momentos particulares    onde a for&ccedil;a bruta parece soltar-se por completo. Afinal, o pr&oacute;prio    holocausto s&oacute; se desenrolou daquela forma num quadro b&eacute;lico de    permissividade &agrave; ascens&atilde;o aos extremos. Na pr&aacute;tica, estou    a argumentar que a guerra de exterm&iacute;nio n&atilde;o decorre sem querer    da necessidade militar, porque a intui&ccedil;&atilde;o mil vezes experimentada    de que uma qualquer esp&eacute;cie de necessidade militar levada ao limite &eacute;    a receita para o desastre est&aacute; presente (suspeito que) h&aacute; mil&eacute;nios,    e sobretudo somos muito conscientes dela desde Clausewitz. A necessidade militar    n&atilde;o &eacute; assim uma justifica&ccedil;&atilde;o que deixe melhor parada    em termos &eacute;ticos a for&ccedil;a que a invoque s&oacute; por n&atilde;o    ser eventualmente fan&aacute;tica da guerra racial.</p>     <p>Em suma, estamos diante de uma obra doravante incontorn&aacute;vel no &acirc;mbito    dos estudos da guerra; s&oacute; &eacute; pena o pecadilho de n&atilde;o ter    sido oferecida ao leitor uma ficha biogr&aacute;fica dos intervenientes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p>CLAUSEWITZ, Carl von &ndash; <i>On War.</i> Princeton: Princeton University    Press, 1986.</p>     <p>GUIOMAR, Jean-Ives &ndash; <i>L&rsquo;Invention de la Guerre Totale. XVIII-XX    si&egrave;cle</i>. Paris: F&eacute;lin, 2004.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Na presun&ccedil;&atilde;o    de que o terrorismo n&atilde;o &eacute; guerra, no m&aacute;ximo, as a&ccedil;&otilde;es    de contraterrorismo envolvendo opera&ccedil;&otilde;es de combate s&atilde;o    opera&ccedil;&otilde;es de guerra zero &ndash; <i>zero war operations</i>.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Cf. GUIOMAR, Jean-Ives &ndash;    <i>L&rsquo;Invention de la Guerre Totale. XVIII-XX si&egrave;cle</i>. Paris:    F&eacute;lin, 2004, p. 302.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Cf. CLAUSEWITZ, Carl von &ndash;    <i>On War</i>. Princeton: Princeton University Press, 1986, p. 219.</p>      ]]></body><back>
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