<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-9199</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Relações Internacionais (R:I)]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Relações Internacionais]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-9199</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[IPRI-UNL]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-91992018000500001</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.23906/ri2018.60a01</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Nota introdutória: A ordem internacional pós-americana: respostas à constituição do mundo multipolar]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Daehnhardt]]></surname>
<given-names><![CDATA[Patrícia]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,Universidade NOVA de Lisboa Instituto Português de Relações Internacionais ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<numero>60</numero>
<fpage>05</fpage>
<lpage>11</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-91992018000500001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-91992018000500001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-91992018000500001&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>A ORDEM INTERNACIONAL PÓS-AMERICANA</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota introdut&oacute;ria:&nbsp; A ordem internacional p&oacute;s-americana:    respostas &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do mundo multipolar</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Patr&iacute;cia Daehnhardt</b></p>     <p>IPRI-NOVA | Rua de D. Estef&acirc;nia, 195, 5.&ordm; Dt.&ordm;, 1000-155 Lisboa    | <a href="mailto:patricia.daehnhardt@ipri.pt">patricia.daehnhardt@ipri.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A nova ordem internacional, projetada pelo Presidente norte-americano George    W. H. Bush, em 1991, tardou em constituir-se e &eacute; ainda hoje um work in    progress: a polaridade e a distribui&ccedil;&atilde;o de poder entre os estados    no sistema internacional encontra-se algures entre uma ordem p&oacute;s-unipolar    num mundo p&oacute;s-ocidental, uma multipolaridade pouco concertada e uma bipolaridade    global entre os Estados Unidos e a China, e no enfraquecimento do multilateralismo    como instrumento da pol&iacute;tica externa dos estados e no refor&ccedil;o    do unilateralismo e nacionalismo como elementos da estrat&eacute;gia internacional    das grandes pot&ecirc;ncias.</p>     <p>Na Europa e nas rela&ccedil;&otilde;es transatl&acirc;nticas, a imprevisibilidade    da pol&iacute;tica externa da Administra&ccedil;&atilde;o Trump &ndash; ligada    ao retraimento estrat&eacute;gico global dos Estados Unidos e a uma abordagem    mais transacional na sua pol&iacute;tica de alian&ccedil;as &ndash; tem implica&ccedil;&otilde;es    s&eacute;rias e inadi&aacute;veis para a seguran&ccedil;a europeia e transatl&acirc;ntica.    A transforma&ccedil;&atilde;o da Alian&ccedil;a Atl&acirc;ntica resulta principalmente    desta nova atitude norte-americana, cujos principais respons&aacute;veis sublinham    a condicionalidade das garantias de seguran&ccedil;a e fazem depender a aplica&ccedil;&atilde;o    da cl&aacute;usula de defesa coletiva da capacidade dos aliados para cumprir    as suas obriga&ccedil;&otilde;es. Por outro lado, o Brexit levanta s&eacute;rias    d&uacute;vidas sobre o futuro da defesa europeia e evidencia a fragilidade e    potencial fragmenta&ccedil;&atilde;o da Europa. Os termos da separa&ccedil;&atilde;o    do Reino Unido da Uni&atilde;o Europeia (UE) &ndash; meramente institucional    ou tamb&eacute;m pol&iacute;tica e estrat&eacute;gica &ndash; ainda est&atilde;o    por definir, mas ter&atilde;o implica&ccedil;&otilde;es para a coes&atilde;o    da UE e da Alian&ccedil;a Atl&acirc;ntica com o risco de uma divis&atilde;o    entre um eixo europeu continental franco-alem&atilde;o e um eixo atl&acirc;ntico    anglo-sax&oacute;nico.</p>     <p>Por seu turno, a pol&iacute;tica revisionista da R&uacute;ssia levou Moscovo    a passar de uma estrat&eacute;gia de coopera&ccedil;&atilde;o com o Ocidente,    na d&eacute;cada de 1990, a uma estrat&eacute;gia de coopera&ccedil;&atilde;o    e competi&ccedil;&atilde;o, na primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI,    e finalmente a uma estrat&eacute;gia de conflitualidade. Presentes na crise    da Ucr&acirc;nia desde a anexa&ccedil;&atilde;o da Crimeia e a &laquo;guerra    h&iacute;brida&raquo; no Leste do pa&iacute;s, assim como na guerra civil na    S&iacute;ria, estas novas din&acirc;micas representam um fator disruptivo da    ordem internacional liberal, ilustrando uma postura russa mais intervencionista,    e menos relutante em recorrer ao uso da for&ccedil;a militar na prossecu&ccedil;&atilde;o    dos seus interesses, com impacto na seguran&ccedil;a europeia, transatl&acirc;ntica    e global.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Dentro do espa&ccedil;o euro-atl&acirc;ntico alargado, a Turquia tem igualmente    contribu&iacute;do, se bem que em moldes diferentes, para o enfraquecimento    desta ordem definida pelo Ocidente, numa tentativa de estabelecer uma nova pol&iacute;tica    externa multivetorial que concilia a manuten&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o    de alian&ccedil;a com os Estados Unidos e os pa&iacute;ses europeus na Alian&ccedil;a    Atl&acirc;ntica, com o aprofundar de novas rela&ccedil;&otilde;es com a R&uacute;ssia,    o Ir&atilde;o e a China.</p>     <p>Por &uacute;ltimo, a China emerge como a principal pot&ecirc;ncia desafiadora    da ordem liberal internacional, que a levou a assumir uma estrat&eacute;gia    de afirma&ccedil;&atilde;o regional j&aacute; h&aacute; d&eacute;cadas e num    percurso independente dos condicionalismos da bipolaridade da Guerra Fria at&eacute;    &agrave; atual defini&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica chinesa de proje&ccedil;&atilde;o    econ&oacute;mica global atrav&eacute;s da competi&ccedil;&atilde;o, do institucionalismo    seletivo e do unilateralismo preferencial.</p>     <p>Para tentar descodificar e compreender as transforma&ccedil;&otilde;es desta    ordem internacional liberal, os artigos dos v&aacute;rios autores neste n&uacute;mero    especial da <i>Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais</i> analisam a problem&aacute;tica    da forma&ccedil;&atilde;o da ordem internacional e as estrat&eacute;gias das    grandes pot&ecirc;ncias, das pot&ecirc;ncias regionais e da UE, numa &oacute;tica    de manuten&ccedil;&atilde;o e contesta&ccedil;&atilde;o da ordem internacional    e de constitui&ccedil;&atilde;o de um mundo multipolar e p&oacute;s-ocidental.</p>     <p>Nas rela&ccedil;&otilde;es transatl&acirc;nticas, a transforma&ccedil;&atilde;o    de uma ordem unipolar para uma ordem multipolar, num enquadramento multipolar    ainda pouco concertado, desafia a solidez e coes&atilde;o da comunidade de seguran&ccedil;a    transatl&acirc;ntica, uma vez que, por defini&ccedil;&atilde;o, na multipolaridade    as alian&ccedil;as tornam-se incertas porque mais flex&iacute;veis. A comunidade    de seguran&ccedil;a, que representa mais que uma alian&ccedil;a, deveria sobreviver    &agrave; passagem para a multipolaridade. Contudo, dado que foi a pot&ecirc;ncia    hegem&oacute;nica &ndash; os Estados Unidos &ndash; que deixou de ter ambi&ccedil;&atilde;o    em custear a responsabilidade que a lideran&ccedil;a de uma ordem implica, o    fim volunt&aacute;rio da <i>Pax Americana</i> tem implica&ccedil;&otilde;es    para a perman&ecirc;ncia da comunidade de seguran&ccedil;a transatl&acirc;ntica,    e, dentro dela, para a rela&ccedil;&atilde;o entre os Estados Unidos e a Alemanha,    as duas pot&ecirc;ncias centrais desta comunidade.</p>     <p>Na realidade, a rela&ccedil;&atilde;o entre os Estados Unidos e a Alemanha    poderia afirmar-se como uma das principais rela&ccedil;&otilde;es bilaterais    na defini&ccedil;&atilde;o de respostas ocidentais aos desafios &agrave; ordem    internacional liberal. A proposta de uma &laquo;partnership in leadership&raquo;    feita pelo Presidente norte-americano George Bush ao chanceler da Rep&uacute;blica    Federal da Alemanha, Helmut Kohl, em 1989, implicava que os Estados Unidos e    a Alemanha unificada se tornassem o principal parceiro um do outro e assumissem    a lideran&ccedil;a internacional conjunta da comunidade de seguran&ccedil;a    transatl&acirc;ntica no mundo do p&oacute;s-Guerra Fria que estava a ent&atilde;o    a emergir. Contudo, uma redefini&ccedil;&atilde;o conjunta das prioridades estrat&eacute;gicas    destas duas pot&ecirc;ncias n&atilde;o se concretizou, tendo a gest&atilde;o    conjunta da crise da Ucr&acirc;nia sido a exce&ccedil;&atilde;o que parecia    confirmar a regra, quando os Estados Unidos e a Alemanha assumiram uma posi&ccedil;&atilde;o    de &laquo;parceria em lideran&ccedil;a&raquo; face &agrave; interven&ccedil;&atilde;o    da R&uacute;ssia no Leste da Ucr&acirc;nia e &agrave; anexa&ccedil;&atilde;o    da Crimeia, em 2014. Washington e Berlim convergiram na sua avalia&ccedil;&atilde;o    de que a R&uacute;ssia representava agora uma amea&ccedil;a num quadro de uma    nova rivalidade estrat&eacute;gica de longo prazo para a ordem europeia e transatl&acirc;ntica.    Desde o in&iacute;cio da presid&ecirc;ncia de Trump, contudo, as posi&ccedil;&otilde;es    dos Estados Unidos e da Alemanha demarcam-se mais pela aus&ecirc;ncia de lideran&ccedil;a    do que por uma coopera&ccedil;&atilde;o bilateral ou contesta&ccedil;&atilde;o    pela mesma, devido &agrave;s diverg&ecirc;ncias acentuadas sobre a relev&acirc;ncia    do multilateralismo, das alian&ccedil;as e de interesses entre aliados crescentemente    divergentes.</p>     <p>Simultaneamente, temas de seguran&ccedil;a europeia t&ecirc;m um novo impacto    junto do eleitorado europeu, que se sente cada vez mais frustrado com as elites    pol&iacute;ticas, e que apoia partidos populistas que n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o    se identificam com os projetos &ndash; tanto transatl&acirc;ntico como europeu    &ndash; como os combatem. A consequ&ecirc;ncia &eacute; uma crescente polariza&ccedil;&atilde;o    do sistema pol&iacute;tico partid&aacute;rio em v&aacute;rios pa&iacute;ses    europeus, com os partidos centristas tradicionais incapazes de recuperar eleitorado    perdido e de impedir a interliga&ccedil;&atilde;o entre os v&aacute;rios partidos    populistas europeus. Logo, h&aacute; um duplo enfraquecimento externo e interno    das democracias ocidentais e da ordem internacional liberal.</p>     <p>A n&iacute;vel te&oacute;rico, o fim desta comunidade significa o fracasso    da teoria liberal institucionalista nas rela&ccedil;&otilde;es transatl&acirc;nticas    e o regresso &agrave; era cl&aacute;ssica das alian&ccedil;as da teoria realista.    Quanto ao futuro da comunidade de seguran&ccedil;a, na perspetiva de Trump,    num mundo competitivo de soma zero, onde afinidades hist&oacute;ricas s&atilde;o    desvalorizadas e os lucros comerciais t&ecirc;m de ser imediatos, uma comunidade    de seguran&ccedil;a como a Alian&ccedil;a Atl&acirc;ntica n&atilde;o s&oacute;    n&atilde;o reproduz o poder dos Estados Unidos, como &eacute; limitadora do    mesmo. A Estrat&eacute;gia de Seguran&ccedil;a Nacional de dezembro de 2017    refere que a NATO &eacute; uma vantagem dos Estados Unidos em rela&ccedil;&atilde;o    aos seus competidores, enquanto &agrave; UE pouco ou nenhuma import&acirc;ncia    &eacute; atribu&iacute;da, mas isto pouco tem a ver com os fundamentos de uma    comunidade de seguran&ccedil;a.</p>     <p>Assim, a defesa europeia volta a ser uma quest&atilde;o priorit&aacute;ria    e as tr&ecirc;s pot&ecirc;ncias europeias &ndash; a Fran&ccedil;a, o Reino Unido    e a Alemanha &ndash; t&ecirc;m agora de responder aos desafios estrat&eacute;gicos    externos. N&atilde;o pretendendo constituir uma for&ccedil;a de defesa que rivalize    com os Estados Unidos, de todo imposs&iacute;vel, ou substituir a NATO, os europeus    sabem que o recuo externo norte-americano e o fim da comunidade de seguran&ccedil;a    transatl&acirc;ntica podem representar o fim da ordem internacional liberal,    sen&atilde;o o fim do projeto europeu, uma vez que significa que os Estados    Unidos j&aacute; n&atilde;o consideram necess&aacute;ria a prote&ccedil;&atilde;o    europeia que advinha da sua lideran&ccedil;a da comunidade de seguran&ccedil;a    transatl&acirc;ntica. Assim, as altera&ccedil;&otilde;es da pol&iacute;tica    externa da Administra&ccedil;&atilde;o Trump e as incertezas relacionadas com    o Brexit serviram de catalisador para um aprofundamento do processo de integra&ccedil;&atilde;o    europeia em mat&eacute;ria de defesa, j&aacute; em curso desde o Conselho Europeu    de dezembro de 2013 e da crise da Ucr&acirc;nia em 2014, e mais acentuado desde    a ado&ccedil;&atilde;o da Estrat&eacute;gia Global da UE, em 2016.</p>     <p>No seio da Pol&iacute;tica Comum de Seguran&ccedil;a e Defesa da UE, como observa    Liliana Reis no seu artigo sobre a defesa europeia, os</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;&ldquo;avan&ccedil;os na defesa europeia poder&atilde;o traduzir    diferentes velocidades, reflexo das capacidades heterog&eacute;neas dos estados-membros,    o que poderia dar azo a pa&iacute;ses de primeira que t&ecirc;m possibilidades    e pa&iacute;ses de segunda que n&atilde;o t&ecirc;m essas capacidades&rdquo;,    instituindo uma esp&eacute;cie de n&uacute;cleo duro da defesa europeia a que    s&oacute; um grupo restrito de pa&iacute;ses pudesse verdadeiramente aderir&raquo;.</blockquote>     <p></p>     <p>Neste contexto, a autora ressalta que &laquo;o eixo Paris-Londres &ndash; que    tinha iniciado a Pol&iacute;tica Comum de Seguran&ccedil;a e Defesa em Saint-Malo    &ndash;, parece ter-se deslocado para Paris-Berlim, depois da pesco (Coopera&ccedil;&atilde;o    Estruturada Permanente)&raquo;. Como sustenta Liliana Reis,</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Ainda que se opte por uma vis&atilde;o edificante e positiva    do futuro da PCSD, a necessidade de compromisso ao n&iacute;vel de capacidades    operacionais, bem como o desenvolvimento da pesco, vem revelar o princ&iacute;pio    da subsidiariedade e da matriz intergovernamental, assente na manuten&ccedil;&atilde;o    da soberania por parte dos governos nacionais na defini&ccedil;&atilde;o dos    objetivos da comunidade e o afastamento da UE <i>ever closer union of people</i>,    entrando numa nova realidade que assegurando a diversidade poder&aacute; levar    &agrave; sua dilui&ccedil;&atilde;o.&raquo;</blockquote>     <p></p>     <p>Fora da UE, mas sua vizinha, a Turquia afirma-se como outro ator regional relevante    cuja estrat&eacute;gia internacional se tem vindo a alterar. Na sequ&ecirc;ncia    da Primavera &Aacute;rabe e da tentativa infrut&iacute;fera da Turquia de emergir    como ator ordenador de um novo enquadramento pol&iacute;tico do M&eacute;dio    Oriente, Laura Bastos define a atual pol&iacute;tica externa de Ancara como    orientada pela &laquo;alian&ccedil;a estrat&eacute;gica com diversos atores&raquo;,    nomeadamente com a R&uacute;ssia, na perspetiva de que os Estados Unidos perderam    o seu lugar de destaque nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais e de que o    mundo &eacute; hoje multipolar. Rejeitando o idealismo do antigo ministro dos    Neg&oacute;cios Estrangeiros turco, Ahmet Davutoglu e recorrendo ao crescente    nacionalismo do Presidente Recep Erdogan, a Turquia, como refere a autora, &laquo;n&atilde;o    abandona as tradicionais alian&ccedil;as com os Estados Unidos ou com a Uni&atilde;o    Europeia&raquo;, mas mostra uma posi&ccedil;&atilde;o mais firme quando os seus    interesses s&atilde;o postos em causa, estabelecendo alian&ccedil;as com a R&uacute;ssia,    o Ir&atilde;o ou a China, para &laquo;aliar-se a novos centros de poder numa    nova ordem global&raquo;. O objetivo de Ancara em obter armamento russo &ndash;,    o que levanta s&eacute;rias quest&otilde;es sobre o papel da Turquia enquanto    Estado-Membro da NATO e aliado dos Estados Unidos &ndash;, &eacute; apenas um    dos exemplos real&ccedil;ados pela autora para demonstrar as mudan&ccedil;as    em curso na Turquia. Laura Bastos conclui que</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Se a Turquia parece hoje ter uma atitude desafiante face aos    Estados Unidos e a institui&ccedil;&otilde;es internacionais, como a NATO ou    UE, &eacute; tamb&eacute;m em parte devido &agrave; posi&ccedil;&atilde;o inconsistente    de Washington e Bruxelas. Tendo em conta o apoio americano &agrave;s for&ccedil;as    curdas na S&iacute;ria e a incapacidade de Ancara em influenciar os desenvolvimentos    pol&iacute;ticos no M&eacute;dio Oriente a seu favor, a Turquia foi for&ccedil;ada    a procurar novos aliados, como a R&uacute;ssia e o Ir&atilde;o&raquo;.</blockquote>     <p></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Perante esta din&acirc;mica de coopera&ccedil;&atilde;o de defesa europeia,    e incerteza quanto ao futuro da Alian&ccedil;a Atl&acirc;ntica, a R&uacute;ssia    prefere o regresso a uma pol&iacute;tica de grande pot&ecirc;ncia tradicional.    Como refere Lu&iacute;s Tom&eacute;,</p>     <p>     <blockquote>&laquo;A ambi&ccedil;&atilde;o de restaurar a sua &ldquo;esfera de    influ&ecirc;ncia&rdquo; &eacute; uma prioridade da R&uacute;ssia de Putin e    certas pr&aacute;ticas evidenciam, para muitos, um comportamento &ldquo;expansionista&rdquo;    russo numa l&oacute;gica de impor um &ldquo;espa&ccedil;o vital&rdquo;. O paradoxo    &eacute; que, na &oacute;tica russa, foi o &ldquo;Ocidente&rdquo; que se expandiu    na &ldquo;vizinhan&ccedil;a comum&rdquo; numa estrat&eacute;gia anti-R&uacute;ssia,    pelo que a R&uacute;ssia n&atilde;o est&aacute; a expandir-se mas, ao inv&eacute;s,    a &ldquo;defender-se&rdquo;. O dilema &eacute; que os pa&iacute;ses ex-sovi&eacute;ticos    est&atilde;o agora divididos em dois &ldquo;eixos&rdquo;. Estas linhas divis&oacute;rias    s&atilde;o extraordinariamente vol&aacute;teis e sobram muitos &ldquo;conflitos    congelados&rdquo; onde a posi&ccedil;&atilde;o da R&uacute;ssia &eacute; incontorn&aacute;vel    &ndash; negligenciar esta realidade geopol&iacute;tica criar&aacute; novas tens&otilde;es    e, muito provavelmente, um novo remapeamento do espa&ccedil;o p&oacute;s-sovi&eacute;tico.&raquo;</blockquote>     <p></p>     <p>O Presidente russo Vladimir Putin, certamente, est&aacute; empenhado em ver    a ordem multipolar consolidada, onde a R&uacute;ssia assume novamente o estatuto    de grande pot&ecirc;ncia, saudosista da grandeza da antiga Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica,    como escreve Lu&iacute;s Tom&eacute; neste n&uacute;mero:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;A R&uacute;ssia &eacute; uma pot&ecirc;ncia essencialmente    regional, mas um ator relevante noutras regi&otilde;es e em certas quest&otilde;es    da agenda global; n&atilde;o &eacute; um gigante econ&oacute;mico, mas &eacute;    um colosso energ&eacute;tico e no mercado de armamentos. Isto sustenta a ambi&ccedil;&atilde;o    de Putin de refundar a arquitetura de seguran&ccedil;a global e de a R&uacute;ssia    ser um dos polos numa estrutura de poder verdadeiramente multipolar.&raquo;</blockquote>     <p></p>     <p>A China parece ser a grande pot&ecirc;ncia mais bem posicionada na constitui&ccedil;&atilde;o    de um mundo multipolar e p&oacute;s-ocidental: encontra-se numa posi&ccedil;&atilde;o    favor&aacute;vel ao aumento da sua capacidade de influ&ecirc;ncia global que    a projetou, entretanto, para a posi&ccedil;&atilde;o de segunda maior pot&ecirc;ncia    global. Se porventura se pensa que uma pol&iacute;tica afirmativa da China no    sistema internacional &eacute; uma caracter&iacute;stica do per&iacute;odo do    p&oacute;s-Guerra Fria, o artigo de Sofia Fernandes lembra-nos que, relativamente    aos interesses chineses no continente africano, &laquo;A pol&iacute;tica da    China para &Aacute;frica n&atilde;o &eacute; uma novidade do novo s&eacute;culo:    a China tem mantido uma diplomacia ativa com pa&iacute;ses africanos desde meados    da d&eacute;cada de 1950&raquo;. No caso concreto de Angola, nas &uacute;ltimas    duas d&eacute;cadas, a China aumentou a sua influ&ecirc;ncia no pa&iacute;s,    atrav&eacute;s de acordos de financiamento para fornecimento de petr&oacute;leo    &agrave; China, da aquisi&ccedil;&atilde;o de direitos de explora&ccedil;&atilde;o    de blocos petrol&iacute;feros em &aacute;guas ultraprofundas angolanas, ou atrav&eacute;s    de contratos de financiamento para a reconstru&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s    com a adjudica&ccedil;&atilde;o dos contratos a empresas chinesas.</p>     <p>Constata-se, como refere Sofia Fernandes, que</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>&laquo;A cria&ccedil;&atilde;o de um ambiente internacional favor&aacute;vel    aos interesses chineses tem vindo a ser assumida pela lideran&ccedil;a de uma    forma cada vez mais assertiva nos &uacute;ltimos anos. O ponto de viragem ocorreu    com a inaugura&ccedil;&atilde;o da &ldquo;nova era&rdquo; (&hellip;) de Xi Jinping    e a defini&ccedil;&atilde;o de aspira&ccedil;&otilde;es para uma &ldquo;Global    China&rdquo;&raquo;,</blockquote>     <p></p>     <p>n&atilde;o j&aacute; confinada ao lugar anteriormente defendido de pot&ecirc;ncia    regional. O conceito de &laquo;China&rsquo;s Rise&raquo; (2003) remetia para    o papel de lideran&ccedil;a da China na regi&atilde;o asi&aacute;tica, ao passo    que a &laquo;Global China&raquo; apresentada por Xi Jinping, configura ambi&ccedil;&otilde;es    a uma escala mais alargada, de recupera&ccedil;&atilde;o do &laquo;lugar adequado/de    direito da China no mundo&raquo;.</p>     <p>O dinamismo da China reflete-se ainda nas suas rela&ccedil;&otilde;es com a    UE, em especial a n&iacute;vel da dimens&atilde;o da paradiplomacia entre regi&otilde;es    nas rela&ccedil;&otilde;es UE-China. Miguel Santos Neves argumenta que &laquo;a    efic&aacute;cia da estrat&eacute;gia europeia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    China tem sido baixa&raquo;, o que se explica pela</p>     <p>     <blockquote>&laquo;n&atilde;o considera&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel subnacional    de rela&ccedil;&otilde;es diretas entre as regi&otilde;es da UE e as prov&iacute;ncias    chinesas, que paradoxalmente permanece invis&iacute;vel apesar da sua signific&acirc;ncia    e da din&acirc;mica e implica&ccedil;&otilde;es do funcionamento de um quadro    de tr&ecirc;s n&iacute;veis que implica a coexist&ecirc;ncia e intera&ccedil;&atilde;o    entre o n&iacute;vel macro da UE, um n&iacute;vel interm&eacute;dio nacional    dos estados-membros e o n&iacute;vel mais baixo da paradiplomacia entre regi&otilde;es&raquo;.</blockquote>     <p></p>     <p>Como resultado, emergiram contradi&ccedil;&otilde;es entre os estados-membros    da UE na rela&ccedil;&atilde;o com a China, que se intensificaram &laquo;em    resultado da influ&ecirc;ncia econ&oacute;mica e pol&iacute;tica sem precedentes    que a China alcan&ccedil;ou junto de alguns estados-membros, nomeadamente Portugal,    Gr&eacute;cia, Malta, Finl&acirc;ndia, Hungria e Rep&uacute;blica Checa, desde    a crise da d&iacute;vida soberana&raquo;. Para al&eacute;m disso, existe &laquo;uma    depend&ecirc;ncia significativa da Alemanha em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    China, o que aumentou o poder de Pequim e tornou Berlim mais vulner&aacute;vel    a retalia&ccedil;&otilde;es&raquo;, na medida em que &laquo;a China se tornou    o principal parceiro comercial da Alemanha e as exporta&ccedil;&otilde;es para    a China tornaram-se fundamentais para o crescimento econ&oacute;mico da Alemanha&raquo;.    Contudo, Miguel Santos Neves identifica</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;sinais de mudan&ccedil;a, pois a Alemanha percebeu que a abordagem    &ldquo;cooperativa&rdquo; adotada durante a crise, (&hellip;), ignorou o facto    de a China ser tamb&eacute;m concorrente e abriu as portas para Pequim consolidar    uma posi&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica forte em v&aacute;rios pa&iacute;ses    da UE e obter um grau de influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica sem precedentes, que    desafia e enfraquece a coes&atilde;o da UE, bem como o dom&iacute;nio da Alemanha    na sua pr&oacute;pria &aacute;rea de influ&ecirc;ncia.&raquo;</blockquote>     <p></p>     <p>Em 2019, os defensores da ordem internacional liberal ir&atilde;o celebrar    30 anos da queda do Muro de Berlim, e lamentar os cinco anos da anexa&ccedil;&atilde;o    russa da Crimeia. &Eacute; paradoxal e um infort&uacute;nio transatl&acirc;ntico    que no momento em que, com o culminar das a&ccedil;&otilde;es russas na Ucr&acirc;nia    e na S&iacute;ria, o revisionismo russo n&atilde;o seja suficientemente aglutinador    para refor&ccedil;ar a comunidade de seguran&ccedil;a transatl&acirc;ntica,    e que, adicionalmente, as pr&oacute;prias divis&otilde;es transatl&acirc;nticas    contribuam para a crescente irrelev&acirc;ncia geoestrat&eacute;gica da Europa.    Pelo contr&aacute;rio, no momento em que as crispa&ccedil;&otilde;es entre as    grandes pot&ecirc;ncias aumentam de intensidade, parece confirmar-se o fim das    alian&ccedil;as permanentes entre as democracias pluralistas (com a manuten&ccedil;&atilde;o    de alian&ccedil;as flex&iacute;veis). Com isto, os Estados Unidos regressam    aos avisos do Presidente George Washington que, no seu discurso de despedida,    em 1796, exortou os Estados Unidos a &laquo;afastarem-se de alian&ccedil;as    permanentes com qualquer parte do mundo estrangeiro&raquo;, e do Presidente    Thomas Jefferson para que os Estados Unidos evitem as <i>entangling aliances</i>    porque poderiam ser demasiadamente comprometedoras para a liberdade de a&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica. Por outras palavras, os Estados Unidos regressam &agrave; normalidade    internacional, ap&oacute;s um excecionalismo de setenta anos, e os europeus,    uma vez mais, ao desequil&iacute;brio europeu num mundo mais fragmentado e menos    euro-atl&acirc;ntico, onde estados como a R&uacute;ssia, a Turquia e, <i>last    but not least</i>, a China assumem um protagonismo mais assertivo na redefini&ccedil;&atilde;o    multipolar dos enquadramentos regionais e na ordem internacional.</p>      ]]></body>
</article>
