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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>TRINTA ANOS DO FIM DO COMUNISMO: O REGRESSO DOS NACIONALISMOS</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota introdut&oacute;ria</b></p>     <p><b>Trinta anos do fim do comunismo: o regresso dos nacionalismos na Europa Central e Oriental</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sandra Fernandes* e Madalena Meyer Resende**</b></p>     <p>* Universidade do Minho | Campus Universit&aacute;rio de Gualtar, 4710-057 Braga | <a href="mailto:sfernandes@eeg.uminho.pt">sfernandes@eeg.uminho.pt</a></p>     <p>** NOVA FCSH e IPRI-NOVA | Avenida de Berna 26-C, 1069-061 Lisboa | <a href="mailto:madalena.resende@ipri.pt">madalena.resende@ipri.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Trinta anos depois da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, o famoso diagn&oacute;stico de Francis Fukuyama de que o fim do leninismo significava a vit&oacute;ria final do liberalismo parece definitivamente contestado. O regresso do nacionalismo, particularmente expressivo na Europa Central e Oriental, d&aacute; antes raz&atilde;o aos que, como Ken Jowitt, o anunciaram como resposta ao vazio ideol&oacute;gico deixado pelo leninismo. J&aacute; no in&iacute;cio dos anos 1990 a alta fragmenta&ccedil;&atilde;o social que o comunismo e a transi&ccedil;&atilde;o impunham a estas sociedades e sistemas pol&iacute;ticos faziam prever o apelo das pol&iacute;ticas de identidade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; a esta regi&atilde;o que voltamos, trinta anos passados das revolu&ccedil;&otilde;es de 1989, e num momento em que o regresso global do nacionalismo enterrou a assun&ccedil;&atilde;o do fim das ideologias. Neste n&uacute;mero da <i>R:I </i>abordamos n&atilde;o s&oacute; o fen&oacute;meno em si, como regressamos tamb&eacute;m a alguma da literatura que no in&iacute;cio dos anos 1990 analisava j&aacute; o fen&oacute;meno. Desde 1989, e apesar do entusiasmo em aderir &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es europeias e transatl&acirc;nticas, a mudan&ccedil;a pol&iacute;tica determinou que o nacionalismo se tornasse numa ideologia duradoura que determina tanto o debate pol&iacute;tico interno quanto o posicionamento externo dos pa&iacute;ses da Europa Central e Oriental.</p>     <p>Tamb&eacute;m a integra&ccedil;&atilde;o europeia e a alian&ccedil;a transatl&acirc;ntica, que entretanto se alargaram a esta regi&atilde;o, s&atilde;o afetadas pela chegada ao poder dos partidos nacionalistas e a viragem autorit&aacute;ria que a acompanha. Tamb&eacute;m na Europa Ocidental estas for&ccedil;as se constituem como amea&ccedil;as ao modelo liberal e democr&aacute;tico, como &eacute; o caso da It&aacute;lia e da Fran&ccedil;a.</p>     <p>Hoje, as m&uacute;ltiplas crises que afetam a Uni&atilde;o Europeia (UE) t&ecirc;m evidenciado como pa&iacute;ses como os estados b&aacute;lticos e o Grupo de Visegrado contribu&iacute;ram para mudar as orienta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas da Europa. O Brexit, as rela&ccedil;&otilde;es com a R&uacute;ssia e a crise do Espa&ccedil;o Schengen face &agrave;s press&otilde;es migrat&oacute;rias desafiam criticamente o projeto da UE e a sua capacidade de produzir pol&iacute;ticas eficientes. Em 2019, num ano de mudan&ccedil;a pol&iacute;tica &ndash; elei&ccedil;&otilde;es para o Parlamento Europeu, Brexit e renova&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Europeia &ndash;, h&aacute; poucas d&uacute;vidas de que novas formas de nacionalismo afetar&atilde;o o espetro pol&iacute;tico e as pol&iacute;ticas da UE. A nova legislatura europeia confirma o crescimento de partidos com programas que promovem uma narrativa nacionalista, identit&aacute;ria e eurocr&iacute;tica. &Eacute; ilustrativo o forte crescimento do grupo Identidade e Democracia, criado apenas em 2015, e que cresce de 37 para 73 eurodeputados, refor&ccedil;ado pelos membros da Liga italiana. Apesar da perda de assentos parlamentares, o grupo conservador e reformista (antifederalista), composto por polacos e brit&acirc;nicos, mant&eacute;m a sua representa&ccedil;&atilde;o. No entanto, a mudan&ccedil;a mais assinal&aacute;vel reside na exist&ecirc;ncia de 57 eurodeputados sem filia&ccedil;&atilde;o a nenhum grupo parlamentar, origin&aacute;rios na sua maioria de partidos nacionais de extrema-direita.</p>     <p>O objetivo deste n&uacute;mero especial &eacute; dar visibilidade &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o recente sobre o impacto das novas formas de nacionalismos em quest&otilde;es relacionadas com a integra&ccedil;&atilde;o europeia. Deste modo, os artigos cient&iacute;ficos coligidos neste n&uacute;mero propiciam um maior acesso a esta agenda de investiga&ccedil;&atilde;o por parte da comunidade cient&iacute;fica de l&iacute;ngua portuguesa e do p&uacute;blico em geral. O conjunto de artigos articula dois contributos complementares. Por um lado, aborda as novas din&acirc;micas nacionalistas numa perspetiva mais global do fen&oacute;meno no espa&ccedil;o europeu e numa proposta de conceptualiza&ccedil;&atilde;o dos &laquo;novos&raquo; nacionalismos; por outro lado, esclarece realidades mais particulares ao comparar pa&iacute;ses do Leste como a Est&oacute;nia, a Pol&oacute;nia e a Rom&eacute;nia. Deste modo, evidenciam-se as caracter&iacute;sticas p&oacute;s-comunistas e p&oacute;s-sovi&eacute;ticas dos nacionalismos nestes pa&iacute;ses e a forma como estas afetam o seu posicionamento enquanto estados-membros e as pol&iacute;ticas da UE. No que diz respeito &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es com a R&uacute;ssia, a heran&ccedil;a p&oacute;s-sovi&eacute;tica manifesta-se de formas diferentes. Por exemplo, os estados b&aacute;lticos desenvolveram pol&iacute;ticas existenciais no que diz respeito aos assuntos russos, ao contr&aacute;rio da Hungria, que promove posi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;-russas e uma ado&ccedil;&atilde;o do modelo mais autorit&aacute;rio e conservador de governa&ccedil;&atilde;o. No caso da Pol&oacute;nia, existem perce&ccedil;&otilde;es antirrussas mas o modelo de governa&ccedil;&atilde;o atual desafia o ide&aacute;rio liberal promovido por Bruxelas.</p>     <p>Assim, Isabel Estrada Carvalhais apresenta uma reflex&atilde;o sobre as teses que alimentam o nacionalismo de modo a localizar os novos contornos do fen&oacute;meno. Enquanto elemento portador e criador de identidade coletiva, a autora sublinha a primazia das teses primordialistas que fazem do nacionalismo uma fonte natural (biol&oacute;gica) de identidade, por oposi&ccedil;&atilde;o a algo socialmente constru&iacute;do e adapt&aacute;vel. Partindo da premissa do nacionalismo como uma constru&ccedil;&atilde;o pass&iacute;vel de altera&ccedil;&otilde;es mediante uma &laquo;vontade coletiva&raquo;, a autora sugere o interculturalismo como meio de criar pontes entre culturas e identidades diferentes. Jean-Yves Camus, por sua vez, complementa este prop&oacute;sito de melhor defini&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno nacionalista na atualidade. Observando uma profus&atilde;o de literatura sobre a extrema-direita e a atual sobreposi&ccedil;&atilde;o deste termo com o &laquo;populismo&raquo;, o autor esclarece os conte&uacute;dos dos termos &agrave; luz da evolu&ccedil;&atilde;o destes fen&oacute;menos pol&iacute;ticos na Europa. Camus sublinha a aliena&ccedil;&atilde;o das extremas-direitas em rela&ccedil;&atilde;o aos valores democr&aacute;ticos, contrariamente aos populismos radicais de direita que se advogam defensores desses valores face a elites corruptas. Embora os populismos possam ser de esquerda ou de direita, este &uacute;ltimo distingue-se pelo estatuto dado aos estrangeiros no sentido da &laquo;prefer&ecirc;ncia nacional&raquo;. O artigo esclarece, no detalhe, as novas din&acirc;micas populistas e de extrema-direita no Parlamento Europeu no recente per&iacute;odo p&oacute;s-eleitoral de maio de 2019.</p>     <p>Andrey Makarychev e Illimar Ploom analisam a dimens&atilde;o etnopol&iacute;tica do nacionalismo ao abordar as din&acirc;micas pol&iacute;ticas desencadeadas pela crise dos refugiados na Est&oacute;nia, tendo em considera&ccedil;&atilde;o que existe uma minoria de l&iacute;ngua russa expressiva no pa&iacute;s e que a identidade est&oacute;nia se baseia em din&acirc;micas de securitiza&ccedil;&atilde;o face &agrave; R&uacute;ssia no sentido de necessidade de prote&ccedil;&atilde;o. Ao comparar as narrativas em l&iacute;ngua russa e em est&oacute;nio &ndash; as quais constituem esferas semi&oacute;ticas distintas &ndash;, os autores esclarecem a forma como a Est&oacute;nia tem percecionado a crise e o discurso da R&uacute;ssia sobre a mesma, assim como a natureza liberal do regime est&oacute;nio. Por sua vez, Alexandra Iancu coloca a &ecirc;nfase na contesta&ccedil;&atilde;o dos novos estados-membros em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; centralidade de Bruxelas sobre a defini&ccedil;&atilde;o dos valores europeus e em particular sobre a democracia. Olhando para os casos da Pol&oacute;nia e da Rom&eacute;nia, em estudo comparado, a autora evidencia semelhan&ccedil;as nos argumentos soberanistas dos dois pa&iacute;ses na sua interpreta&ccedil;&atilde;o dos valores europeus e o papel do Tribunal Europeu em defender os valores europeus. Tendo por pano de fundo um desencanto geral sobre as promessas de prosperidade da integra&ccedil;&atilde;o europeia, a consequ&ecirc;ncia deste tipo de nacionalismo faz-se sentir na reinterpreta&ccedil;&atilde;o dos tratados num sentido minimalista.</p>     <p>O n&uacute;mero tamb&eacute;m inclui um ensaio bibliogr&aacute;fico da autoria de Alberto Cunha sobre dois livros fundamentais do in&iacute;cio dos anos 1990, que anunciam e preveem a fun&ccedil;&atilde;o do nacionalismo nos Balc&atilde;s e na Europa Central e Oriental <i>&ndash; The New World Disorder: The Leninist Extinction</i>, de Ken Jowitt, e <i>Imagining the Balkans</i>, de Maria Todorova &ndash;, complementando assim os artigos que se debru&ccedil;am sobre os temas do nacionalismo contempor&acirc;neo.</p>     <p>Com este conjunto de artigos, a<i> R:I </i>oferece uma an&aacute;lise atualizada dos novos contornos do nacionalismo na UE, dando &ecirc;nfase &agrave;s realidades no Centro e no Leste europeus. Estas reflex&otilde;es alimentam o debate sobre a crise europeia e as resist&ecirc;ncias que emergem em rela&ccedil;&atilde;o aos valores liberais que subjazem ao projeto de integra&ccedil;&atilde;o. <i>Para al&eacute;m do impacto que as for&ccedil;as pol&iacute;ticas nacionalistas t&ecirc;m na eros&atilde;o da democracia liberal a n&iacute;vel nacional</i>, importa tamb&eacute;m compreender a forma como estas se posicionam em rela&ccedil;&atilde;o a diversos temas europeus, das quest&otilde;es institucionais &agrave;s v&aacute;rias pol&iacute;ticas da UE. Do passado europeu, j&aacute; sabemos, nas palavras de Fran&ccedil;ois Mitterrand &ndash; no seu fim de mandato e fim de vida em 1995 &ndash; que &laquo;le nationalisme, c&rsquo;est la guerre&raquo;.</p>      ]]></body>
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