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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O mundo de Trump</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jos&eacute; Gomes Andr&eacute;</b></p>     <p>FLUL | Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa | <a href="mailto:josegomesandre@gmail.com">josegomesandre@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>TIAGO MOREIRA DE S&Aacute; E DIANA SOLLER, Donald Trump: O M&eacute;todo no Caos, Lisboa, Dom Quixote, 2018, 232 p&aacute;ginas</b></p>     <p><i>Donald Trump: O M&eacute;todo no Caos</i> tem um objetivo ambi-cioso, mas da maior import&acirc;ncia: lidando com um contexto amb&iacute;guo, associado ao pol&eacute;mico Presidente norte-americano, encontrar ainda assim um fio condutor ideol&oacute;gico e pol&iacute;tico que explica e orienta a sua mundivid&ecirc;ncia e a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Este n&atilde;o &eacute; portanto um livro sobre Trump, <i>o homem</i>, mas sobre Trump, <i>o pol&iacute;tico</i>, com o prop&oacute;sito de descrever as suas ideias e princ&iacute;pios, n&atilde;o como uma soma de opini&otilde;es aleat&oacute;rias, mas como poss&iacute;veis infer&ecirc;ncias l&oacute;gicas de premissas substantivas e (mais ou menos) s&oacute;lidas.</p>     <p>Tal empresa &eacute; levada a cabo por Tiago Moreira de S&aacute; e Diana Soller &ndash; dois autores muito competentes para enfrentar este desafio com sucesso. Falamos de dois acad&eacute;micos e investigadores, com vasta obra publicada e amplo conhecimento da realidade pol&iacute;tica norte-americana, curr&iacute;culo ao qual juntam grande experi&ecirc;ncia na comunica&ccedil;&atilde;o social, normalmente comentando assuntos pol&iacute;ticos ligados aos Estados Unidos. Esta combina&ccedil;&atilde;o resulta num livro de grande qualidade, que concilia o rigor de um exerc&iacute;cio acad&eacute;mico (descri&ccedil;&atilde;o de grandes doutrinas, sobretudo no dom&iacute;nio das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais; an&aacute;lise cuidada de documenta&ccedil;&atilde;o; coment&aacute;rios pertinentes sobre a bibliografia tem&aacute;tica) com uma linguagem clara e uma exposi&ccedil;&atilde;o <i>did&aacute;tica</i>, tornando o livro acess&iacute;vel ao grande p&uacute;blico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O primeiro cap&iacute;tulo, intitulado &laquo;Porqu&ecirc; Donald Trump?&raquo;, procura identificar o quadro social, ideol&oacute;gico, pol&iacute;tico e econ&oacute;mico que explica a sua r&aacute;pida ascens&atilde;o e triunfo. S&atilde;o enunciadas quatro causas estruturais, a primeira das quais se refere &agrave; descri&ccedil;&atilde;o do &laquo;jacksonianismo populista&raquo; (seguindo a taxonomia de Walter Russell Mead), que os autores consideram como express&atilde;o identit&aacute;ria m&aacute;xima de Trump. Trata-se de uma ideologia com grande tradi&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria norte-americana, que despreza os aspetos t&eacute;cnicos e institucionais do exerc&iacute;cio pol&iacute;tico, dando preval&ecirc;ncia a atores pol&iacute;ticos capazes de se identificarem com o cidad&atilde;o comum e interpretarem adequadamente as suas aspira&ccedil;&otilde;es. Baseado num radicalismo democr&aacute;tico e numa cultura individualista, o jacksonianismo populista est&aacute; obcecado com um &laquo;passado glorioso&raquo; e a necessidade de &laquo;mudar as regras do jogo&raquo;, ideias que Trump tornou em verdadeiros <i>slogans</i> de campanha.</p>     <p>Em segundo lugar, &eacute; mencionada a reemerg&ecirc;ncia da &laquo;comunidade folk&raquo;, assente numa forte tradi&ccedil;&atilde;o religiosa evang&eacute;lica, culto da fam&iacute;lia e da tradi&ccedil;&atilde;o, ideais nacionalistas, alguma xenofobia e grande desconfian&ccedil;a da hierarquia pol&iacute;tica, do governo federal e da chamada <i>identity politics</i>. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil adivinhar que esta comunidade, at&eacute; h&aacute; pouco tempo relativamente marginal na sociedade norte-americana, tem vindo a crescer exponencialmente (ou a manifestar-se de forma mais clara...), formando o n&uacute;cleo duro do eleitorado de Trump.</p>     <p>Num terceiro momento alude-se &agrave; crise econ&oacute;mica da &uacute;ltima d&eacute;cada (que muito afetou as classes m&eacute;dia e baixa), da qual resultou uma maior clivagem social e econ&oacute;mica, libertando os &laquo;dem&oacute;nios interiores&raquo; da pr&oacute;pria Am&eacute;rica, com um discurso p&uacute;blico mais agressivo contra as classes altas, certas ordens profissionais e grupos como os imigrantes, por exemplo. &Eacute; neste contexto que surge a ret&oacute;rica de Trump, sem restri&ccedil;&otilde;es do &laquo;politicamente correto&raquo;, violenta, por vezes mesmo aviltante &ndash; mas agora aceite por uma comunidade que se rev&ecirc; nessa postura, ao ponto de entender que &laquo;Trump diz o que n&oacute;s sentimos&raquo;, ainda que o agora Presidente norte-americano nada tenha a ver em termos sociais, culturais ou econ&oacute;micos com o &laquo;homem comum&raquo; dos Estados Unidos.</p>     <p>Por fim, &eacute; referida a crise do Partido Republicano, quer em termos ideol&oacute;gicos quer organizativos (pelo desgaste provocado pelo Tea Party e lutas de grupos pol&iacute;ticos com linhas de orienta&ccedil;&atilde;o muito distintas), que deixou a porta aberta para que um <i>outsider</i>, sem rela&ccedil;&otilde;es partid&aacute;rias ou pol&iacute;ticas relevantes, acabasse por ganhar as prim&aacute;rias e tornar-se o seu representante na Casa Branca.</p>     <p>Ap&oacute;s esta exposi&ccedil;&atilde;o, que nos deu conta n&atilde;o s&oacute; do contexto que &laquo;viu nascer&raquo; Trump, mas tamb&eacute;m de algumas das linhas ideol&oacute;gicas que marcam a sua mundivid&ecirc;ncia, o livro debru&ccedil;a-se, nos cap&iacute;tulos seguintes (2 a 4), a avaliar o seu impacto na pol&iacute;tica externa do Presidente norte-americano. A principal ideia a destacar &eacute; a desconfian&ccedil;a de Trump face &agrave; chamada &laquo;ordem internacional liberal&raquo;, que os pr&oacute;prios Estados Unidos ajudaram a moldar desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo XX e que tem constitu&iacute;do uma das marcas mais s&oacute;lidas n&atilde;o s&oacute; da sua estrat&eacute;gia mundial desde ent&atilde;o, mas tamb&eacute;m do que podemos designar como a &laquo;estrutura fundamental&raquo; da geopol&iacute;tica no &uacute;ltimo s&eacute;culo.</p>     <p>Esta desconfian&ccedil;a assenta na perce&ccedil;&atilde;o de que os Estados Unidos se encontram num decl&iacute;nio progressivo, tendo perdido influ&ecirc;ncia no xadrez mundial. Tal convic&ccedil;&atilde;o contrasta com a descri&ccedil;&atilde;o de um passado mais ou menos mitificado, no qual n&atilde;o s&oacute; essa relev&acirc;ncia teria sido preponderante, como decorreria de uma ascend&ecirc;ncia diretamente relacionada com os &laquo;valores americanos&raquo;, entretanto abandonados. &Eacute; neste contexto que podemos ler o c&eacute;lebre <i>slogan</i> de Trump &laquo;Make America great again&raquo;. Por outro lado, entende-se que, na constru&ccedil;&atilde;o daquela ordem internacional liberal, os Estados Unidos ter&atilde;o adotado uma postura demasiado branda face aos restantes pa&iacute;ses, assente numa l&oacute;gica &laquo;diplom&aacute;tica&raquo; que descurou a sua autoridade. Uma vez que a mundivid&ecirc;ncia de Trump assenta num pessimismo antropol&oacute;gico radical, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil concluir para o Presidente norte-americano que aquela atitude chocou com as for&ccedil;as mais <i>negativas</i> intr&iacute;nsecas aos restantes estados, enfraquecendo a posi&ccedil;&atilde;o norte-americana. Encarando o mundo numa perspetiva maquiav&eacute;lica, Trump olha para os Estados Unidos antes da sua chegada ao poder como &laquo;aquele Estado que, ao procurar comportar-se sempre como pessoa de bem, acaba por se perder no meio de tantos que n&atilde;o o s&atilde;o&raquo;, parafraseando uma passagem de <i>O Pr&iacute;ncipe</i>.</p>     <p>Como os autores do livro sublinham, destas leituras resulta a convic&ccedil;&atilde;o de que os Estados Unidos &laquo;devem ser novamente respeitados&raquo;. Pouco importa se h&aacute; uma necessidade efetiva de reposi&ccedil;&atilde;o desta autoridade, uma vez que a mundivid&ecirc;ncia jacksoniana se baseia em &laquo;intui&ccedil;&otilde;es&raquo; e n&atilde;o sobre &laquo;factos&raquo;, e uma an&aacute;lise ponderada nesta mat&eacute;ria apenas revelaria desde logo um sinal de fraqueza. Juntando a esta &iacute;ndole a sua pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o como &laquo;homem de neg&oacute;cios&raquo;, Trump prefere seguir algo a que chamaria o seu &laquo;instinto&raquo;, que no campo pol&iacute;tico se transformou numa din&acirc;mica extremamente reativa ao que julga serem os motivos do &laquo;decl&iacute;nio americano&raquo;. Mais do que uma doutrina <i>pr&oacute;pria</i>, o que est&aacute; em causa &eacute; portanto advogar o <i>oposto</i> do que est&aacute; na base da ordem internacional que tornou poss&iacute;vel esse decl&iacute;nio.</p>     <p>&Eacute; neste sentido que melhor se compreendem as suas rela&ccedil;&otilde;es privilegiadas com figuras pol&iacute;ticas marginais no quadro europeu (nomeadamente da extrema-direita), elogios a l&iacute;deres autorit&aacute;rios (Putin, Kim Jong-un, entre outros), a desvaloriza&ccedil;&atilde;o do projeto europeu, incluindo um apoio claro ao Brexit, as suas cr&iacute;ticas ao funcionamento da nato (particularmente antag&oacute;nicas &agrave;quela que sempre foi a pol&iacute;tica externa norte-americana), ou a forma como menospreza aliados permanentes ou tradicionais.</p>     <p>Paralelamente, Trump n&atilde;o perde uma oportunidade para criticar as organiza&ccedil;&otilde;es internacionais, retirar ou diminuir a participa&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos em acordos globais (o caso do Acordo de Paris &eacute; sintom&aacute;tico), defender a reorganiza&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas mundiais, propor medidas protecionistas e substituir acordos multilaterais por acordos bilaterais. Embora muito variadas, estas a&ccedil;&otilde;es fazem, no fundo, parte de uma estrat&eacute;gia coerente que se pauta por uma postura cr&iacute;tica face ao internacionalismo liberal e defesa de um certo isolacionismo ou, no m&iacute;nimo, de uma clara prefer&ecirc;ncia pelos interesses norte-americanos, que &laquo;devem ser defendidos a todo o custo&raquo;, mesmo que tal implique uma revolu&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos.</p>     <p>Curiosamente, e porventura devido &agrave; car&ecirc;ncia de uma ideologia estruturada, a &laquo;mundivid&ecirc;ncia jacksoniana&raquo; confere &agrave; pol&iacute;tica externa de Trump uma &iacute;ndole amb&iacute;gua, pois junta a esta l&oacute;gica isolacionista matizes antag&oacute;nicos, em particular uma ret&oacute;rica agressiva e refer&ecirc;ncias habituais ao <i>hard power</i>. Trump olha o mundo como um cen&aacute;rio de for&ccedil;as mais ou menos an&aacute;rquicas, repleto de estados vorazes, que se digladiam num jogo de soma nula, onde prevalecem os seus interesses e nada mais. Neste quadro, cada um est&aacute; por sua conta, podendo recorrer a alian&ccedil;as de conveni&ecirc;ncia, cabendo aos Estados Unidos fazer valer a sua superioridade moral e o seu poder pol&iacute;tico e militar (se necess&aacute;rio).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Da&iacute; ser frequente o recurso em Trump a uma vis&atilde;o manique&iacute;sta (do tipo &laquo;n&oacute;s contra os outros&raquo;), alicer&ccedil;ada num primado nacionalista, que se traduz numa ret&oacute;rica belicosa contra a China, o Ir&atilde;o e a Coreia do Norte (e por vezes a R&uacute;ssia). Estas declara&ccedil;&otilde;es, por&eacute;m, parecem ser mais subsidi&aacute;rias do princ&iacute;pio de que &laquo;&eacute; preciso fazer respeitar a Am&eacute;rica&raquo; do que planos de interven&ccedil;&otilde;es efetivas. Na pr&aacute;tica, Trump tem preferido entregar mat&eacute;rias de seguran&ccedil;a aos pa&iacute;ses envolvidos na regi&atilde;o, mesmo em zonas problem&aacute;ticas do globo (como o M&eacute;dio Oriente), sendo at&eacute; poss&iacute;vel suspeitar que esta ret&oacute;rica visa sobretudo defender os interesses comerciais e econ&oacute;micos dos Estados Unidos, e n&atilde;o um desejo de promover altera&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e institucionais dos atores envolvidos.</p>     <p>Naturalmente, esta estrat&eacute;gia consigna v&aacute;rios perigos, sendo destacados no livro sobretudo dois problemas: em primeiro lugar, a nova &laquo;geometria de alian&ccedil;as&raquo; da Administra&ccedil;&atilde;o Trump desvaloriza a import&acirc;ncia de uma rela&ccedil;&atilde;o privilegiada com pa&iacute;ses democr&aacute;ticos, que agrava n&atilde;o s&oacute; as rela&ccedil;&otilde;es com aliados tradicionais, mas parece desprezar a pr&oacute;pria ideia de democracia liberal (os ganhos potenciais das rela&ccedil;&otilde;es internacionais, sobretudo em mat&eacute;rias econ&oacute;micas e de seguran&ccedil;a, superiorizam-se a considera&ccedil;&otilde;es institucionais, quest&otilde;es de direitos humanos ou outros elementos associados ao &laquo;regime pol&iacute;tico e social&raquo;); por outro lado, este &laquo;solipsismo pol&iacute;tico&raquo; norte-americano pode criar um vazio de poder no quadro internacional, alvo da cobi&ccedil;a de pot&ecirc;ncias muito mais imprevis&iacute;veis como a R&uacute;ssia ou a China.</p>     <p>Embora n&atilde;o hesitem em expor as defici&ecirc;ncias &ndash; ou, mais exatamente, os aspetos problem&aacute;ticos do pensamento de Trump &ndash; os autores do livro adotam ao longo de toda a obra uma postura essencialmente neutra. O seu objetivo n&atilde;o &eacute; conduzir o leitor numa determinada leitura, mas sim providenciar-lhe elementos para elaborar o seu pr&oacute;prio ju&iacute;zo. Tamb&eacute;m aqui este &eacute; um livro com muitos m&eacute;ritos, escapando-se a uma tend&ecirc;ncia comum na an&aacute;lise sobre a pol&iacute;tica norte-americana, extremamente opinativa, simplista, por vezes mesmo jocosa. Os autores respeitam a mat&eacute;ria sobre a qual se debru&ccedil;aram, mostrando respeito intelectual pelo leitor &ndash; e isso &eacute; um facto de relevo no mundo editorial de hoje.</p>     <p>Ainda assim, fica a ideia de que a obra poderia ter sido mais ambiciosa. Compreende-se o enfoque dado &agrave; pol&iacute;tica externa de Trump, tanto pela forma&ccedil;&atilde;o dos autores, como pelo interesse do leitor portugu&ecirc;s, mas a aus&ecirc;ncia de refer&ecirc;ncias &agrave; pol&iacute;tica dom&eacute;stica empobrece um pouco a an&aacute;lise. Mesmo que de forma sucinta, teria sido importante fazer alus&otilde;es a mat&eacute;rias como a pol&iacute;tica ambiental e a imigra&ccedil;&atilde;o (temas que s&atilde;o ali&aacute;s interconexos com a pol&iacute;tica externa), ou sobre pol&iacute;tica de sa&uacute;de ou temas fiscais e econ&oacute;micos, de modo a melhor compreender a ideologia do Presidente norte-americano.</p>     <p>Tamb&eacute;m do ponto de vista organizativo, lamenta-se a aus&ecirc;ncia de uma conclus&atilde;o, n&atilde;o tanto como um mero resumo dos argumentos apresentados, mas talvez em jeito de an&aacute;lise prospetiva, lan&ccedil;ando de algum modo aquilo que poderemos esperar da Administra&ccedil;&atilde;o Trump no futuro, a partir dos princ&iacute;pios expostos anteriormente. Embora isso suceda ami&uacute;de ao longo do livro, poderia ser &uacute;til uma an&aacute;lise mais compacta que permitisse antever algumas das principais linhas de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de Trump nos meses (anos?) vindouros.</p>     <p>Por&eacute;m, na verdade, talvez um cap&iacute;tulo deste g&eacute;nero fosse contradit&oacute;rio com o objetivo do livro. Afinal de contas, os seus autores t&ecirc;m o prop&oacute;sito de descrever o <i>method in madness</i> de Trump, como se afirma na introdu&ccedil;&atilde;o, crendo ser poss&iacute;vel expor v&aacute;rios princ&iacute;pios de uma ideologia coerente que orienta a sua conduta. Por&eacute;m, tendo em conta aquilo que sabemos da personalidade de Trump (que n&atilde;o pode ser totalmente apartada da figura pol&iacute;tica e &eacute; marcada pelas suas diatribes pueris no Twitter, uma manifesta falta de sentido de Estado e um temperamento inst&aacute;vel) e aquilo que conhecemos da sua Presid&ecirc;ncia at&eacute; ao momento (marcada por uma instabilidade flagrante na sua Administra&ccedil;&atilde;o, pol&iacute;ticas err&aacute;ticas, avan&ccedil;os e recuos permanentes), a que se junta a sua p&eacute;ssima rela&ccedil;&atilde;o com os democratas (que agora controlam a C&acirc;mara dos Representantes), realizar esse exerc&iacute;cio prospetivo seria uma empresa herc&uacute;lea. Talvez haja simplesmente demasiada <i>madness</i> em Trump para lhe adivinhar os passos futuros.</p>      ]]></body>
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