<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1645-9199</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Relações Internacionais (R:I)]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Relações Internacionais]]></abbrev-journal-title>
<issn>1645-9199</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[IPRI-UNL]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1645-91992019000300002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.23906/ri2019.63a02</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sobre a «grandeza» americana o legado de woodrow wilson e a urgência de um novo internacionalismo]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[On American «greatness»: Woodrow Wilson's legacy and the urgency of a new internationalism]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dias]]></surname>
<given-names><![CDATA[Mónica]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,Universidade Católica Portuguesa Instituto de Estudos Políticos ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2019</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2019</year>
</pub-date>
<numero>63</numero>
<fpage>09</fpage>
<lpage>25</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1645-91992019000300002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1645-91992019000300002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1645-91992019000300002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Muito se tem falado nos últimos anos sobre a «grandeza» americana, invocada em nome de um novo nacionalismo, virado contra o tempo e conta o mundo. Contudo, essa invocação parece fundada num enorme equívoco, pois muita da «grandeza» americana deriva precisamente do seu internacionalismo liberal que se consagrou há cem anos e que marcou todo um «século americano». No artigo que aqui apresentamos veremos que a grande prosperidade americana que caracterizou o século passado se fundou na capacidade de projeção dos valores americanos, afirmados não como narrativa imperial e exclusiva, mas como desafio liberal e partilhado rumo a uma ordem internacional guiada por conceitos como a autodeterminação, a segurança coletiva e leis transparentes válidos para todos os povos. A partir da visão internacionalista e institucionalista do Presidente Woodrow Wilson, que entendia que só a pura ignorância poderia levar a imaginar o isolacionismo como porto seguro para os Estados Unidos, esclareceremos qual a origem do projeto para uma Sociedade das Nações e qual a sua absoluta razão de ser num mundo globalizado – tanto em 1919 como hoje.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the last few years, a lot has been said on American “greatness”, prophesized in the name of a new nationalism that is both invoiced against the world and against the global momentum. However, this nationalist appeal seems to rest on a tremendous misunderstanding, since much of the American greatness derives precisely from its liberal internationalism which consolidated 100 years ago and characterized a whole “American century”. In our paper, we will show that the great American prosperity that marked the last century was based on the capacity to project American values declared not as imperial or exclusive narrative, but as shared and liberal challenge towards an international order guided by concepts such as self-determination, collective security and transparent common laws, applied to all peoples of the world. Departing from President Woodrow Wilson`s internationalist and institutionalist worldview, who considered that only pure ignorance could lead to the idea that isolationism would be a safe harbor for the USA, we will focus on the origin of his project for a League of Nations and its ultimate raison d'être in a globalized world – whether in 1919 or today.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[ordem internacional/internacionalismo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[estudos da paz e da democracia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[liberalismo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[organizações internacionais]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[international order/internationalism]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[peace and democracy studies]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[liberalism]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[international organizations]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>DO TRATADO DE VERSALHES &Agrave; CRISE DO INTERNACIONALISMO LIBERAL</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sobre a &laquo;grandeza&raquo; americana o legado de woodrow wilson e a urg&ecirc;ncia de um novo internacionalismo</b></p>     <p><b>On American &laquo;greatness&raquo;: Woodrow Wilson&rsquo;s legacy and the urgency of a new internationalism</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>M&oacute;nica Dias</b></p>     <p>IEP-UCP | Palma de Cima, 1649-023 Lisboa | <a href="mailto:moni@ucp.pt">moni@ucp.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Muito se tem falado nos &uacute;ltimos anos sobre a &laquo;grandeza&raquo; americana, invocada em nome de um novo nacionalismo, virado contra o tempo e conta o mundo. Contudo, essa invoca&ccedil;&atilde;o parece fundada num enorme equ&iacute;voco, pois muita da &laquo;grandeza&raquo; americana deriva precisamente do seu internacionalismo liberal que se consagrou h&aacute; cem anos e que marcou todo um &laquo;s&eacute;culo americano&raquo;. No artigo que aqui apresentamos veremos que a grande prosperidade americana que caracterizou o s&eacute;culo passado se fundou na capacidade de proje&ccedil;&atilde;o dos valores americanos, afirmados n&atilde;o como narrativa imperial e exclusiva, mas como desafio liberal e partilhado rumo a uma ordem internacional guiada por conceitos como a autodetermina&ccedil;&atilde;o, a seguran&ccedil;a coletiva e leis transparentes v&aacute;lidos para todos os povos. A partir da vis&atilde;o internacionalista e institucionalista do Presidente Woodrow Wilson, que entendia que s&oacute; a pura ignor&acirc;ncia poderia levar a imaginar o isolacionismo como porto seguro para os Estados Unidos, esclareceremos qual a origem do projeto para uma Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es e qual a sua absoluta raz&atilde;o de ser num mundo globalizado &ndash; tanto em 1919 como hoje.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b>: ordem internacional/internacionalismo, estudos da paz e da democracia, liberalismo, organiza&ccedil;&otilde;es internacionais</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>In the last few years, a lot has been said on American &ldquo;greatness&rdquo;, prophesized in the name of a new nationalism that is both invoiced against the world and against the global momentum. However, this nationalist appeal seems to rest on a tremendous misunderstanding, since much of the American greatness derives precisely from its liberal internationalism which consolidated 100 years ago and characterized a whole &ldquo;American century&rdquo;. In our paper, we will show that the great American prosperity that marked the last century was based on the capacity to project American values declared not as imperial or exclusive narrative, but as shared and liberal challenge towards an international order guided by concepts such as self-determination, collective security and transparent common laws, applied to all peoples of the world. Departing from President Woodrow Wilson`s internationalist and institutionalist worldview, who considered that only pure ignorance could lead to the idea that isolationism would be a safe harbor for the USA, we will focus on the origin of his project for a League of Nations and its ultimate <i>raison d&rsquo;&ecirc;tre </i>in a globalized world &ndash; whether in 1919 or today.</p>     <p><b>Keywords</b><i>: </i>international order/internationalism, peace and democracy studies, liberalism, international organizations.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p style="text-align: right;">&laquo;(...) Apenas aqueles entre v&oacute;s que ignoram o mundo podem acreditar que uma qualquer na&ccedil;&atilde;o, mesmo t&atilde;o grande como os Estados Unidos, pode erguer-se sozinha e desempenhar um papel assinal&aacute;vel na hist&oacute;ria universal.&raquo;</p>     <p style="text-align: right;"><b>Woodrow Wilson, discurso proferido em St. Louis, setembro de 1919.</b></p>     <p style="text-align: right;">&nbsp;</p>     <p>Muito se tem falado nos &uacute;ltimos anos sobre a &laquo;grandeza&raquo; americana, invocada em nome de um novo nacionalismo ensimesmado e virado contra o mundo. Contudo, essa invoca&ccedil;&atilde;o parece fundada num enorme equ&iacute;voco, pois muita da &laquo;grandeza&raquo; americana deriva precisamente do seu internacionalismo liberal que se consagrou h&aacute; cem anos e que marcou todo um &laquo;s&eacute;culo americano&raquo;, se considerarmos a expans&atilde;o dos interesses dos Estados Unidos no mundo &ndash; mas, por essa via, tamb&eacute;m a expans&atilde;o do institucionalismo e da cria&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es internacionais globais, da afirma&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da autodetermina&ccedil;&atilde;o a par da ideia da liberdade dos mares e do com&eacute;rcio livre, do crescimento econ&oacute;mico e do desenvolvimento cient&iacute;fico, da difus&atilde;o dos direitos humanos ou ainda das diferentes vagas de democratiza&ccedil;&atilde;o em todo o mundo. O que queremos real&ccedil;ar aqui &eacute; que a grande prosperidade americana que caracterizou o s&eacute;culo passado se fundou na capacidade de proje&ccedil;&atilde;o dos valores americanos, fosse pelo seu <i>hard power </i>(tendo em conta a sua capacidade militar e tecnol&oacute;gica, bem como o seu poder econ&oacute;mico), ou pelo seu h&aacute;bil <i>soft power </i>(se pensarmos na sua capacidade de persuas&atilde;o diplom&aacute;tica ou na for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e cultural), afirmados n&atilde;o como narrativa imperial e exclusiva, mas como desafio liberal e partilhado. Parece assim ir&oacute;nico que em 2019, justamente cem anos ap&oacute;s a apresenta&ccedil;&atilde;o por parte do Presidente americano Thomas Woodrow Wilson de uma proposta para uma &laquo;Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es&raquo; &ndash; pautada pela ideia de uma &laquo;seguran&ccedil;a coletiva&raquo; (<i>avant la lettre</i>) e de um mecanismo de resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos atrav&eacute;s da permanente negocia&ccedil;&atilde;o e coopera&ccedil;&atilde;o sustentada por regras e leis internacionais &ndash;, se pretenda regressar a um isolacionismo pr&eacute;-moderno que, curvando-se sob um provincianismo profundo, nega a ess&ecirc;ncia do americanismo e, assim, de um s&eacute;culo genuinamente americano.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como Wilson alertava em 1919, s&oacute; a pura ignor&acirc;ncia poderia levar a imaginar que o isolacionismo seria um porto seguro para os Estados Unidos. Em seu entender, as na&ccedil;&otilde;es estariam cada vez mais interdependentes, pois as novas tecnologias criavam outras formas de comunica&ccedil;&atilde;o e de mobilidade, gerando grandes transforma&ccedil;&otilde;es (pol&iacute;ticas e sociais) com repercuss&atilde;o a uma escala mundial. Provavelmente, Wilson foi um dos primeiros estadistas a conceber o mundo como espa&ccedil;o verdadeiramente global. Essa globalidade aproximava os povos e constitu&iacute;a, por isso mesmo, uma oportunidade para a Am&eacute;rica, que deveria lan&ccedil;ar-se no palco internacional e assumir a&iacute; a sua responsabilidade enquanto &laquo;ap&oacute;stolo da liberdade e da autogoverna&ccedil;&atilde;o&raquo;, como afirmava j&aacute; em 1901<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. Era pois precisamente a grandeza americana (fundada na sua excecionalidade) que a impelia &laquo;moralmente&raquo; a combater as autocracias que violavam o direito &agrave; autodetermina&ccedil;&atilde;o e a liderar a constru&ccedil;&atilde;o de uma ordem internacional guiada por leis transparentes, v&aacute;lidas para todos os povos, e que equivaleria a uma esp&eacute;cie de &laquo;&eacute;tica p&uacute;blica internacional&raquo;. &Eacute; importante recordar que fora por essa raz&atilde;o que os Estados Unidos tinham entrado na Primeira Guerra Mundial. Sem qualquer inten&ccedil;&atilde;o de participar nas disputas dos europeus (que desprezava) e sem reclamar para si nem terras, nem recompensas, Wilson tinha anunciado a entrada da Am&eacute;rica na guerra com o objetivo de &laquo;acabar com todas as guerras&raquo;<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>, o que pressupunha n&atilde;o apenas mais um tratado e um novo equil&iacute;brio fr&aacute;gil entre beligerantes, mas a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova ordem capaz de assegurar uma paz justa e duradoura e fundada na autodetermina&ccedil;&atilde;o dos povos e na coopera&ccedil;&atilde;o internacional. Est&aacute;vamos perante um programa liberal concebido pelos institucionalistas e os legalistas da viragem do s&eacute;culo<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a> a partir de uma longa tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fico-pol&iacute;tica e que Wilson projetava agora para a esfera pol&iacute;tica internacional em nome dos mais elevados interesses dos Estados Unidos.</p>     <p>Enquanto Estado militar e economicamente mais poderoso ap&oacute;s a Grande Guerra e, na verdade, enquanto Estado que decidira o fim deste conflito, a Am&eacute;rica poderia ter imposto qualquer tratado e escolhido para si um papel hegem&oacute;nico ou imperial, mas Wilson quis insistir numa ordem muito mais complexa e ainda nunca experimentada, uma ordem de partilha de poder, de leis internacionais e de coopera&ccedil;&atilde;o permanente como via mais eficiente para a resolu&ccedil;&atilde;o de conflitos. Tratava-se de todo um programa liberal que viria, de facto, a mudar a pol&iacute;tica internacional, como John Ikenberry muito bem o define:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Era isto que estava no centro do programa liberal de Wilson: criar uma ordem p&oacute;s-guerra est&aacute;vel e leg&iacute;tima, organizada em torno de pa&iacute;ses democr&aacute;ticos que funcionassem no &acirc;mbito de institui&ccedil;&otilde;es e que defendessem a seguran&ccedil;a coletiva. A constela&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-guerra foi vista por Wilson como uma oportunidade &uacute;nica no tempo para constituir um fundamento institucional que pudesse persistir durante d&eacute;cadas. Esta oportunidade &ndash; e a sua pr&oacute;pria vis&atilde;o moral &ndash; permitiu a Wilson articular um interesse americano de longo prazo que seria assegurado pelo estabelecimento de rela&ccedil;&otilde;es institucionalizadas entre as democracias.&raquo;<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a></blockquote>     <p></p>     <p>A prop&oacute;sito da nossa reflex&atilde;o sobre a &laquo;grandeza&raquo; americana, parece-nos interessante olhar com mais aten&ccedil;&atilde;o para este &laquo;programa liberal&raquo;, que vem anunciar o &laquo;internacionalismo americano&raquo;. Propomo-nos a analisar em particular dois aspetos que contribuem para uma explica&ccedil;&atilde;o mais sustentada desse internacionalismo, mas que geralmente n&atilde;o s&atilde;o muito referidos, nem conhecidos. Por um lado, importa chamar aten&ccedil;&atilde;o para as influ&ecirc;ncias que deram origem a este des&iacute;gnio internacionalista e institucionalista do Presidente americano, incluindo a sua forma&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica e pol&iacute;tica; por outro lado, &eacute; nosso objetivo ilustrar como Wilson se (de)bate pela ratifica&ccedil;&atilde;o da sua agenda de paz nos Estados Unidos, quando regressa no ver&atilde;o de 1919 da longa e dif&iacute;cil Confer&ecirc;ncia de Paris &ndash; onde conseguira alcan&ccedil;ar sob grande esfor&ccedil;o a aprova&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o da Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es (SdN). Se a Confer&ecirc;ncia de Paz j&aacute; tinha sido muito dif&iacute;cil, deixando o Presidente Wilson &agrave; beira da exaust&atilde;o, o processo de ratifica&ccedil;&atilde;o do tratado que o esperava na Am&eacute;rica iria constituir o &uacute;ltimo ato de um drama pol&iacute;tico mundial, pois, como sabemos, os Estados Unidos decidem ficar de fora da <i>league of nations</i>, condenando esta institui&ccedil;&atilde;o (e tamb&eacute;m a paz mundial) ainda antes de nascer. Contudo, &eacute; curiosamente nesta derradeira campanha pela SdN, praticamente desconhecida entre n&oacute;s, que Woodrow Wilson apresenta provavelmente os mais relevantes argumentos para a raz&atilde;o de ser e a funda&ccedil;&atilde;o desta institui&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A &laquo;PEDRA DE TOQUE&raquo; DA POL&Iacute;TICA INTERNACIONAL DOS ESTADOS UNIDOS</b></p>     <p>A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial representa um corte com toda uma tradi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica americana, firmada no c&eacute;lebre discurso de George Washington. Contudo, j&aacute; desde o in&iacute;cio desta guerra que o Presidente Wilson observa com preocupa&ccedil;&atilde;o os acontecimentos na Europa, tentando contribuir para o fim do conflito atrav&eacute;s das vias da diplomacia convencional, mas tamb&eacute;m de v&aacute;rias tentativas de media&ccedil;&atilde;o mais imediatas, nomeadamente atrav&eacute;s de contactos com chefes de Estado por parte do seu emiss&aacute;rio Edward Mandell House. Recusando inicialmente uma participa&ccedil;&atilde;o militar, admite, no entanto, j&aacute; em 1916, e logo no in&iacute;cio do seu segundo mandato, que esta hip&oacute;tese apenas faria sentido por uma causa superior, ou seja, pelo estabelecimento de uma (nova) ordem de paz e de liberdade democr&aacute;tica. Tendo em conta a sua vis&atilde;o de um mundo &laquo;global&raquo;, declara numa confer&ecirc;ncia perante a Legue to Enforce Peace &ndash; e precisamente a partir da alus&atilde;o &agrave; recomenda&ccedil;&atilde;o de George Washington (que &laquo;ajusta&raquo; ao s&eacute;culo XX) &ndash; que a Am&eacute;rica est&aacute; disposta a assumir o seu papel no mundo, mas que esse passo lhe exige uma &laquo;pedra de toque&raquo;:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&laquo;Isto n&atilde;o significa (...) que devemos evitar os envolvimentos do mundo, porque n&oacute;s somos parte do mundo e nada que diz respeito ao mundo no seu todo nos pode ser indiferente. Queremos sempre assegurar a capacidade da Am&eacute;rica para lutar &ndash; para qu&ecirc;? N&atilde;o meramente pelos direitos &agrave; propriedade ou por ambi&ccedil;&atilde;o nacional, mas pelos direi tos dos Homens. Nada que diga respeito &agrave; humanidade, nada que diga respeito aos direitos fundamentais dos Homens poder&aacute; ser para n&oacute;s estranho ou indiferente. Mas para lutarmos por estas causas, meus caros concidad&atilde;os, <i>temos de ter uma pedra de toque</i>.&raquo;<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a></blockquote>     <p></p>     <p>Anuncia-se aqui j&aacute; uma viragem no posicionamento da Am&eacute;rica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; guerra &ndash; e a &laquo;pedra de toque&raquo; sugere metaforicamente toda uma nova arquitetura da pol&iacute;tica internacional, em que o &laquo;equil&iacute;brio&raquo; de poder &ndash; que apoiara durante anos o velho edif&iacute;cio das na&ccedil;&otilde;es at&eacute; levar ao seu desabamento &ndash; dever&aacute; ser substitu&iacute;do por uma nova for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o, uma for&ccedil;a que capte a dimens&atilde;o global e universal da civiliza&ccedil;&atilde;o moderna.</p>     <p>Em 1917, este projeto toma forma, ap&oacute;s um per&iacute;odo de matura&ccedil;&atilde;o (marcado por ausculta&ccedil;&atilde;o e debates com v&aacute;rios grupos de reflex&atilde;o) e que leva &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o do c&eacute;lebre discurso &laquo;Peace without Victory&raquo;, atrav&eacute;s do qual o Presidente Wilson apela &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o, por parte do Congresso dos Estados Unidos, &agrave; entrada na guerra e cujo cerne se encontra essencialmente neste passo:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Se a paz mundial por estabelecer agora &eacute; para perdurar, ter&aacute; de ser uma paz garantida pela for&ccedil;a maior organizada da humanidade. Os termos da paz por estabelecer de imediato v&atilde;o determinar se esta ser&aacute; uma paz que pode ser assegurada por uma tal garantia. A quest&atilde;o sobre a qual depende toda a paz e toda a pol&iacute;tica mundial depende disto: &Eacute; a presente guerra um combate por uma paz justa e sustent&aacute;vel ou apenas por um novo equil&iacute;brio de poder? Se for apenas um combate por um novo equil&iacute;brio de poder &ndash; quem &eacute; que vai garantir, quem &eacute; que pode garantir a estabilidade da harmonia do novo arranjo mundial? S&oacute; uma Europa tranquila pode ser uma Europa est&aacute;vel. Ter&aacute; de haver n&atilde;o um equil&iacute;brio de poder, mas sim uma comunidade de poder; n&atilde;o rivalidades organizadas, mas sim uma paz comum organizada.&raquo;<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a></blockquote>     <p></p>     <p>O apelo a uma &laquo;Paz sem Vit&oacute;ria&raquo; pode ser entendido como o verdadeiro momento de viragem da pol&iacute;tica internacional do s&eacute;culo XX, pois &eacute; nesta justifica&ccedil;&atilde;o (muito americana) para a guerra apresentada em nome de uma nova ordem de paz que se anuncia todo um programa liberal que ser&aacute; tamb&eacute;m apelidado de wilsonianismo (internacional)<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Como &eacute; f&aacute;cil de entender, as ideias aqui postuladas encontram, depois, a sua formaliza&ccedil;&atilde;o no &laquo;Discurso dos 14 Pontos&raquo; (1918), que foi um dos mais importantes fatores para o fim da guerra e que previa j&aacute;, como sua principal raz&atilde;o de ser, a institui&ccedil;&atilde;o de uma &laquo;comunidade de poder&raquo; e uma &laquo;paz comum&raquo;, ou seja, um compromisso maior (ou uma &laquo;liga&raquo;) entre as na&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>&Eacute; precisamente com este prop&oacute;sito que o Presidente americano viaja para a Confer&ecirc;ncia de Paris e &eacute; tamb&eacute;m com este firme compromisso que inicia as negocia&ccedil;&otilde;es para um suposto &laquo;novo&raquo; tratado de paz. Os l&iacute;deres europeus est&atilde;o, por&eacute;m, mais interessados em quest&otilde;es territoriais e de repara&ccedil;&otilde;es que possam manter o <i>statu quo ante bellum </i>(como tinha acontecido ap&oacute;s as guerras napole&oacute;nicas) do que na &laquo;inven&ccedil;&atilde;o&raquo; de uma nova ordem p&oacute;s-guerra. Mas, para Woodrow Wilson, a SdN &eacute; uma exig&ecirc;ncia absoluta, que deve ser parte integrante e fundamental do tratado a assinar. Curiosamente, Georges Clemenceau n&atilde;o d&aacute; qualquer valor a esta ideia, que considera uma obsess&atilde;o do Presidente Wilson. Teria preferido avan&ccedil;ar primeiro com o tratado, deixando a quest&atilde;o da liga para depois, o que revela bem n&atilde;o s&oacute; a diferen&ccedil;a entre os dois estadistas, mas tamb&eacute;m a grande diverg&ecirc;ncia entre &laquo;culturas pol&iacute;ticas&raquo; agora em confronto. Na verdade, o &laquo;institucionalismo&raquo; a um n&iacute;vel mundial era, nesta &eacute;poca, ainda uma quimera, particularmente depois de uma guerra t&atilde;o mort&iacute;fera. Para Wilson, pelo contr&aacute;rio, era uma necessidade bem real e precisamente a &uacute;nica forma de se evitar uma guerra de dimens&otilde;es t&atilde;o devastadoras.</p>     <p>Como declara j&aacute; na segunda sess&atilde;o de plen&aacute;rio da confer&ecirc;ncia, a 25 de janeiro, a sociedade das na&ccedil;&otilde;es a erguer seria como um panopticon<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>, um mecanismo de vigil&acirc;ncia da ordem internacional que, atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o permanente e m&uacute;tua dos interesses das na&ccedil;&otilde;es e das ambi&ccedil;&otilde;es dos povos, iria condicionar a sua natural conflitualidade, substituindo gradualmente a anarquia (eterna e absurdamente submetida ao desequil&iacute;brio e &agrave; vontade do mais forte), por um sistema de responsabilidade mundial partilhada em que as disputas pudessem ser resolvidas por vias n&atilde;o violentas. O Tribunal Permanente de Justi&ccedil;a Internacional, previsto no artigo XIV desta organiza&ccedil;&atilde;o, era disso um bom exemplo, mas tamb&eacute;m j&aacute; os (mais complexos) artigos X e XI, que apontavam para um sistema de prote&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua a partir de um f&oacute;rum comum em que todas as vozes (de pequenos ou grandes estados) pudessem ser ouvidas. Repercutindo os argumentos com que Kant imaginara um <i>foedus pacificum</i>, Wilson explicava ent&atilde;o que a SdN n&atilde;o seria um &laquo;governo mundial&raquo;, estruturado hegemonicamente de cima para baixo, &agrave; merc&ecirc; de um concerto de bastidores, mas sim um organismo de coopera&ccedil;&atilde;o, fundado na autodetermina&ccedil;&atilde;o e na participa&ccedil;&atilde;o plural submetida a regras gerais e transparentes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, Woodrow Wilson decide presidir pessoalmente &agrave; comiss&atilde;o constituinte do primeiro esbo&ccedil;o para esta organiza&ccedil;&atilde;o internacional, o pol&iacute;tico franc&ecirc;s mant&eacute;m-se afastado deste assunto e nomeia figuras de menor destaque pol&iacute;tico<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>, esperando que possa permanecer uma constru&ccedil;&atilde;o adi&aacute;vel e de pouca relev&acirc;ncia. Com Wilson a dirigir esta comiss&atilde;o, os trabalhos avan&ccedil;am, no entanto, rapidamente e a proposta final &eacute; apresentada logo a 14 de fevereiro, tendo o Presidente americano a esperan&ccedil;a que pudesse estimular, orientar (e facilitar) os posteriores trabalhos em torno do tratado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O LONGO PERCURSO E AS INFLU&Ecirc;NCIAS PLURAIS DO PROJETO DE PAZ DE WOODROW WILSON</b></p>     <p>A celeridade com a qual esta comiss&atilde;o trabalha tem que ver com afinidades entre os seus membros, quase todos internacionalistas e institucionalistas que j&aacute; se conheciam entre si. &Eacute;, pois, importante ter em conta que o projeto da SdN que agora se erguia no palco pol&iacute;tico tem a sua origem muito antes da entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial (e mesmo j&aacute; antes desta guerra), e que &eacute; caracterizado por influ&ecirc;ncias plurais. Para melhor entendermos estas influ&ecirc;ncias, parece-nos indispens&aacute;vel observarmos a forma&ccedil;&atilde;o de Wilson, pois &eacute; ele sem d&uacute;vida o grande impulsionador desta organiza&ccedil;&atilde;o e que &eacute; uma express&atilde;o da sua vis&atilde;o para a ordena&ccedil;&atilde;o do mundo. Mas esta vis&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m ela o resultado de um longo percurso acad&eacute;mico e pol&iacute;tico em que a reflex&atilde;o sobre a possibilidade da constru&ccedil;&atilde;o da paz &eacute; o grande <i>leitmotif</i>. E se bem que a sua obra ensa&iacute;stica (que se expande ao longo de mais de quarenta anos de trabalho) seja aqui um testemunho t&atilde;o importante como a sua intensa e carism&aacute;tica atividade pol&iacute;tica, quer como presidente da Universidade de Princeton, quer como governador e Presidente dos Estados Unidos, a verdade &eacute; que a sua vida foi marcada desde a mais tenra idade pela guerra e a paz. Nascido a 28 de dezembro de 1856 em Staunton, Virginia, as suas primeiras mem&oacute;rias pol&iacute;ticas datam da not&iacute;cia da investidura de Abraham Lincoln e da Guerra Civil. Como filho de um pastor presbiteriano que disponibiliza a sua casa como lazareto para os soldados da Confedera&ccedil;&atilde;o, Thomas Woodrow Wilson j&aacute; em crian&ccedil;a &eacute; confrontado com a brutalidade da guerra que arrastava consigo sofrimento e morte, seguido de um dif&iacute;cil per&iacute;odo de mis&eacute;ria, viol&ecirc;ncia e ressentimento na &eacute;poca da reconstru&ccedil;&atilde;o. &Eacute; durante esta altura que o jovem t&iacute;mido e introvertido com grande voca&ccedil;&atilde;o para a ret&oacute;rica come&ccedil;a a escrever &laquo;constitui&ccedil;&otilde;es&raquo; imagin&aacute;rias, como se a ordena&ccedil;&atilde;o do mundo fosse uma forma de consertar os escombros &agrave; sua volta e a fragmenta&ccedil;&atilde;o de sentido de um mundo em transforma&ccedil;&atilde;o. Esta voca&ccedil;&atilde;o revela certamente a forte influ&ecirc;ncia religiosa da sua educa&ccedil;&atilde;o que se repercute tamb&eacute;m numa perce&ccedil;&atilde;o do mundo em que pol&iacute;tica e moral est&atilde;o inextricavelmente ligadas e a paz &eacute; um dos objetivos mais importantes por alcan&ccedil;ar.</p>     <p>O prop&oacute;sito de restabelecer uma unidade perdida faz da paz uma tarefa concreta e que est&aacute; ao alcance dos Homens, pois ser&aacute; poss&iacute;vel cumpri-la com o estabelecimento de uma ordem pol&iacute;tica que &eacute; identificada como &laquo;ordem de liberdade democr&aacute;tica&raquo;. Esta ideia implica que a paz s&oacute; seja conceb&iacute;vel em comunidade, e, muito concretamente, numa comunidade que j&aacute; tenha conquistado um alto grau de maturidade individual e civilizacional definida como obedi&ecirc;ncia &agrave;s leis e como capacidade de autogoverna&ccedil;&atilde;o. Segundo Woodrow Wilson, a paz depende, por&eacute;m, n&atilde;o s&oacute; desta maturidade pol&iacute;tico-cultural, mas ainda da unidade de toda uma comunidade. Assim, s&oacute; &eacute; realmente poss&iacute;vel numa comunidade que se organiza numa ordem pol&iacute;tica de liberdade e de obedi&ecirc;ncia, sendo a democracia a express&atilde;o mais madura desta ordem pol&iacute;tica de liberdade<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a> . Da&iacute; que seja crucial instituir no espa&ccedil;o internacional um mecanismo que, sob a forma de regras e leis internacionais, possa originar h&aacute;bitos de coopera&ccedil;&atilde;o e de confian&ccedil;a, bem como de pr&aacute;ticas de negocia&ccedil;&atilde;o, e que contribua para o desenvolvimento, a longo prazo, de uma &laquo;comunidade&raquo; internacional. Fortemente influenciado pela escola de pensamento do constitucionalista Johann Caspar Bluntschli, um dos te&oacute;ricos mais relevantes nas academias americanas desta &eacute;poca, Wilson entende que a paz tem, tal como as comunidades (e a pr&oacute;pria democracia), uma origem &laquo;org&acirc;nica&raquo;, o que significa que n&atilde;o pode ser &laquo;institu&iacute;a por decreto&raquo;, mas que tem de ser semeada e crescer. A funda&ccedil;&atilde;o da SdN seria, assim, apenas o in&iacute;cio (mas n&atilde;o o fim) de um processo para uma paz mais justa e duradoura. Este &eacute; talvez um dos maiores equ&iacute;vocos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; SdN que &ndash; para Woodrow Wilson &ndash; n&atilde;o seria na sua funda&ccedil;&atilde;o um produto acabado e perfeito, mas apenas um mecanismo em aperfei&ccedil;oamento e ainda com muitos defeitos, mas, ainda assim, o melhor recurso para o desenvolvimento de uma comunidade de na&ccedil;&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o e confian&ccedil;a, e tamb&eacute;m da possibilidade de supera&ccedil;&atilde;o das guerras. Para al&eacute;m desta origem muito pessoal (e inextricavelmente ligada &agrave; personalidade de Wilson) da ideia que mais tarde se vem materializar no &laquo;internacionalismo liberal&raquo;, h&aacute; que considerar tamb&eacute;m outras influ&ecirc;ncias e correntes que marcaram a conce&ccedil;&atilde;o wilsoniana da SdN.</p>     <p>Como Martti Koskenniemi descreve em <i>The Gentle Civilizer of Nations </i>(2004)<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a> , este per&iacute;odo finissecular tinha sido muito f&eacute;rtil para esbo&ccedil;os, mas tamb&eacute;m para o estabelecimento concreto de leis para a &laquo;civiliza&ccedil;&atilde;o&raquo; (ou pacifica&ccedil;&atilde;o) das rela&ccedil;&otilde;es entre os povos e para a garantia da paz. Nos Estados Unidos, &eacute; provavelmente a American Society of International Law (dirigida inicialmente por Elihu Root e, depois, por James Brown Scott) que mais se dedica ao estabelecimento de uma nova vis&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es internacionais &ndash; bem como do papel dos Estados Unidos na reordena&ccedil;&atilde;o do mundo. Quando, em 1908, Lasse Oppenheim, um dos mais destacados acad&eacute;micos da &eacute;poca, publica o ensaio &laquo;The sience of international law: its task and method&raquo; (<i>American Journal of International Law</i>) &ndash; que se torna de imediato uma refer&ecirc;ncia fundamental para a corrente legalista &ndash;, o debate sobre a possibilidade da constru&ccedil;&atilde;o da paz atrav&eacute;s do direito j&aacute; n&atilde;o era uma exclusividade de juristas e intelectuais, mas entusiasmava cada vez mais a opini&atilde;o p&uacute;blica americana. No &iacute;mpeto do esp&iacute;rito progressista da &eacute;poca e na convic&ccedil;&atilde;o de que a guerra seria um ato de pura irracionalidade, a causa da paz cativava mais e mais simpatias, o que levava &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de in&uacute;meras funda&ccedil;&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es para a paz, das quais destacamos a Carnegie Endowment for Peace, a League to Enforce Peace, da iniciativa de William Howard Taft, ou a Association for International Conciliation, fundada por Estournelles de Constant. Wilson conhece bem esta corrente legalista, n&atilde;o s&oacute; atrav&eacute;s de publica&ccedil;&otilde;es que l&ecirc;, como tamb&eacute;m atrav&eacute;s de contactos pessoais com algumas associa&ccedil;&otilde;es e alguns dos seus protagonistas. Em seu entender, a paz representaria uma importante etapa civilizacional que ainda estaria por alcan&ccedil;ar. Todavia, a sua institui&ccedil;&atilde;o exigiria recursos mais complexos, uma vez que os instrumentos jur&iacute;dicos convencionais n&atilde;o teriam sido pensados para o contexto de uma era global. A paz transformava-se numa &laquo;tarefa&raquo; que obrigava a uma atualiza&ccedil;&atilde;o inadi&aacute;vel da premissa kantiana da &laquo;paz pelo direito&raquo;. &Eacute; leg&iacute;timo dizer que Immanuel Kant exerceu a maior influ&ecirc;ncia sobre os pacifistas e os internacionalistas &ndash; e s&oacute; atrav&eacute;s deles tamb&eacute;m sobre Wilson<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a> .</p>     <p>Entre os internacionalistas que h&aacute; muito aspiravam a uma poss&iacute;vel pacifica&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es interestaduais, o in&iacute;cio da Primeira Guerra Mundial n&atilde;o levou &agrave; resigna&ccedil;&atilde;o da esperan&ccedil;a na civiliza&ccedil;&atilde;o. Apesar da grande consterna&ccedil;&atilde;o relativamente ao in&iacute;cio da guerra, a maioria dos intelectuais empenhados num ideal internacionalista estava pois bem consciente de que, no s&eacute;culo XX, a possibilidade de uma guerra continuava a assombrar as perspetivas de progresso tal como Norman Angell advertia em <i>The Great Illusion </i>(1910). Era ali&aacute;s a amea&ccedil;a de uma guerra muito mais devastadora e &laquo;industrial&raquo; que tornava os esfor&ccedil;os pela salvaguarda da paz atrav&eacute;s de leis validadas por todas as na&ccedil;&otilde;es t&atilde;o urgentes. A apreens&atilde;o perante as consequ&ecirc;ncias terr&iacute;veis que a guerra poderia ter no presente levou, ent&atilde;o, rapidamente ao surgimento de novas iniciativas para a promo&ccedil;&atilde;o da paz.</p>     <p>Especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos formavam-se novos grupos de orienta&ccedil;&atilde;o, quer conservadora quer progressista, unindo por vezes figuras de destaque pol&iacute;tico num trabalho conjunto ainda mais comprometido com a esperan&ccedil;a na raz&atilde;o dos Homens e na paz entre as na&ccedil;&otilde;es. Atrav&eacute;s de declara&ccedil;&otilde;es e manifesta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas &ndash; e n&atilde;o raramente atrav&eacute;s de apelos diretos que lhe s&atilde;o dirigidos em cartas e artigos de jornal, &eacute; praticamente de imediato que Wilson conhece estes grupos. Os la&ccedil;os que estabelece a partir de 1914 com estes intelectuais ter&atilde;o um papel importante na sua conce&ccedil;&atilde;o de uma nova ordem mundial, mas as afinidades entre Woodrow Wilson e os internacionalistas j&aacute; h&aacute; muito tinham sido tra&ccedil;adas<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a> .</p>     <p>Neste contexto, um dos grupos muito pr&oacute;ximos de Wilson parece-nos ser a Uni&atilde;o de Controlo Democr&aacute;tico (Union of Democratic Control &ndash; doravante UDC), fundada logo no ver&atilde;o de 1914 por acad&eacute;micos de Oxford e de Cambridge, bem como por jornalistas, juristas e pol&iacute;ticos ingleses, que ficaram conhecidos como &laquo;Radicais Brit&acirc;nicos&raquo; por terem uma vis&atilde;o pol&iacute;tica bem mais progressista, liberal e internacionalista do que era habitual no universo de Westminster. Partindo da iniciativa de Arthur Ponsonby de definir uma pol&iacute;tica externa democr&aacute;tica, intelectuais como Charles Trevelyan, H. N. Brailsford, Bertrand Russell ou Norman Angell associavam-se na cr&iacute;tica do sistema de equil&iacute;brio de poder &ndash; que culpabilizavam pelo in&iacute;cio da guerra rejeitando a tese da responsabilidade da Alemanha e do Imp&eacute;rio Austro-H&uacute;ngaro &ndash; bem como na oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; euforia da guerra e ao alegado belicismo do Governo Asquith-Grey<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a> . No seu prop&oacute;sito de apontar uma alternativa &agrave; pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a vigente, a UDC encontrava em Goldsworthy Lowes Dickinson um aliado natural. Acad&eacute;mico conceituado de Cambridge e pacifista convicto, Lowes Dickinson (1862-1932) trabalhava h&aacute; muito sobre esta tem&aacute;tica publicando em setembro um plano para uma &laquo;Liga das Na&ccedil;&otilde;es&raquo; na Europa. &Eacute; em torno deste plano que se constitui pouco depois o influente &laquo;Bryce Group&raquo;<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a> , um grupo de reflex&atilde;o sobre as perspetivas do estabelecimento de um sistema de salvaguarda da paz atrav&eacute;s da coopera&ccedil;&atilde;o internacional que apresentava as suas conclus&otilde;es no documento &laquo;Proposals for the avoidance of war&raquo; (1915). Este comunicado estimula, por sua vez, a constitui&ccedil;&atilde;o da League of Nations Society em maio de 1915, assim como o estudo da Fabian Society sobre a institui&ccedil;&atilde;o de uma organiza&ccedil;&atilde;o internacional para regula&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a mundial<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a> . A liga&ccedil;&atilde;o entre todos estes grupos (que se distinguiam por orienta&ccedil;&otilde;es <i>mais </i>ou <i>menos </i>progressistas) e a livre circula&ccedil;&atilde;o dos seus membros revela a sintonia das expetativas numa nova ordem mundial e na edifica&ccedil;&atilde;o da paz civilizacional.</p>     <p>Tendo em conta a agenda da UDC, n&atilde;o admira que as propostas para uma nova regula&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre os estados viessem ao encontro da ace&ccedil;&atilde;o de Woodrow Wilson. Como o comprovam as suas anota&ccedil;&otilde;es<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a> , &eacute; com grande interesse que examina o projeto da UDC, que conhece atrav&eacute;s do artigo &laquo;The war and the way out&raquo; de Lowes Dickinson, publicado a 14 de dezembro no <i>New York Times</i>. Na UDC, Wilson encontrava um grupo de intelectuais e <i>opinion-makers </i>do outro lado do Atl&acirc;ntico que partilhava com ele ace&ccedil;&otilde;es fundamentais sobre as causas da guerra e, consequentemente, sobre a necessidade de uma nova arquitetura do espa&ccedil;o internacional. Para ambos, o alicerce dessa nova constru&ccedil;&atilde;o de seguran&ccedil;a coletiva era o princ&iacute;pio da paz democr&aacute;tica (interna e externa). Quando Edward Mandell House viaja para a Europa, entra, assim, rapidamente em contacto com estes novos internacionalistas em torno de Lowes Dickinson e fica com a melhor impress&atilde;o dos seus prop&oacute;sitos. A partir de ent&atilde;o, estabelece-se uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a m&uacute;tua: se Wilson conquistava um apoio importante na Europa, os &laquo;Radicais Brit&acirc;nicos&raquo; viam no Presidente americano o protagonista da sua mundivis&atilde;o democr&aacute;tica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; neste pano de fundo multifacetado do movimento pacifista, dos projetistas da paz na tradi&ccedil;&atilde;o kantiana, bem como dos internacionalistas e legalistas, que melhor se explica o pensamento internacionalista de Woodrow Wilson. Na sua ess&ecirc;ncia, &eacute; daqui que parte o seu projeto para uma nova ordem internacional e que anuncia, como j&aacute; vimos, no discurso seminal e program&aacute;tico &laquo;Peace without Victory&raquo;. A partir daqui, sabe cativar juristas e jornalistas que coordena j&aacute; ap&oacute;s a entrada na guerra numa comiss&atilde;o de peritos que tem como prop&oacute;sito formular (e apresentar) os seus objetivos num plano claro e transparente para a ordem do P&oacute;s-Guerra. Conhecido como &laquo;The Inquiry&raquo;, este grupo de estudo<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a> teria um papel fundamental na elabora&ccedil;&atilde;o dos &laquo;14 Pontos&raquo; e de uma nova ordem geopol&iacute;tica p&oacute;s-guerra que se viria a traduzir no Pacto da Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Para entendermos melhor o internacionalismo de Wilson n&atilde;o basta, por&eacute;m, olhar para o surgimento da ideia da SdN. Tragicamente, &eacute; no momento da derradeira defesa da SdN, h&aacute; precisamente cem anos, que Woodrow Wilson apresenta os argumentos mais relevantes para a sua raz&atilde;o de ser e da qual vai depender, como explica, a verdadeira grandeza americana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O &Uacute;LTIMO COMBATE PELA SOCIEDADE DAS NA&Ccedil;&Otilde;ES E A RAZ&Atilde;O DE SER (DA GRANDEZA AMERICANA)</b></p>     <p>Em setembro de 1919, Woodrow Wilson parte para uma viagem por v&aacute;rias cidades do Centro e do Oeste dos Estados Unidos com o prop&oacute;sito de conseguir uma ampla vaga de apoio popular para a ratifica&ccedil;&atilde;o do Tratado de Versalhes pelo Congresso. Trata-se de um empreendimento singular na hist&oacute;ria dos Estados Unidos que assume os contornos de uma cl&aacute;ssica narrativa americana sobre a demanda de justi&ccedil;a e reden&ccedil;&atilde;o. Numa verdadeira &laquo;campanha&raquo; em defesa da SdN, o Presidente Wilson percorre aproximadamente dez mil milhas de comboio proferindo, ao longo de tr&ecirc;s semanas, 40 discursos, por vezes dois ou mais por dia, e dirige-se sem texto de suporte e geralmente sem qualquer instala&ccedil;&atilde;o de som a grandes audit&oacute;rios. O enorme esfor&ccedil;o deste <i>tour </i>&eacute; digno das personagens mais tarde imortalizadas no cinema por Capra &ndash; n&atilde;o fosse o seu final verdadeiramente tr&aacute;gico.</p>     <p>Se de um ponto de vista pragm&aacute;tico n&atilde;o parecia fazer sentido lan&ccedil;ar-se numa dif&iacute;cil campanha pelo Oeste (a maioria dos senadores j&aacute; tinha anunciado a sua obje&ccedil;&atilde;o ao Tratado de Versalhes e as hostilidades entre Wilson e o senador republicano Lodge, que se opunha especialmente ao artigo X do Pacto da SdN, revelavam-se j&aacute; como irreconcili&aacute;veis<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a> ), a viagem tinha toda a import&acirc;ncia do ponto de vista pol&iacute;tico-pessoal. Tendo dado a sua palavra aos soldados (e aos familiares destes) de que a Grande Guerra tinha sido empreendida por uma nova ordem de paz justa, sentia que era uma obriga&ccedil;&atilde;o fazer tudo que estivesse ao seu alcance para cumprir a sua promessa. Um outro fator que ter&aacute; motivado Wilson a dirigir-se diretamente &agrave; popula&ccedil;&atilde;o era a sua esperan&ccedil;a no povo americano, pois acreditava que conseguiria reunir o necess&aacute;rio apoio suprapartid&aacute;rio para uma causa que ultrapassava a dimens&atilde;o da mera l&oacute;gica de governa&ccedil;&atilde;o e assumia uma import&acirc;ncia universal. &Eacute; nesses termos que justifica o seu combate:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Venho aqui para lutar por uma causa. Essa causa &eacute; maior do que o Senado. &Eacute; maior do que o Governo. &Eacute; t&atilde;o grandiosa como a pr&oacute;pria causa da Humanidade e &eacute; minha inten&ccedil;&atilde;o, enquanto Presidente ou depois, lutar por essa batalha at&eacute; ao fim da minha vida.&raquo;<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a> </blockquote>     <p></p>     <p>Se Knock afirma a prop&oacute;sito dos discursos proferidos por Wilson em setembro de 1919 que estes constituem no seu conjunto um verdadeiro &laquo;tratado de internacionalismo progressista&raquo;<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a> , n&oacute;s poder&iacute;amos acrescentar que revelam tamb&eacute;m a urg&ecirc;ncia de os Estados Unidos se associarem a esta nova ordem, que simplesmente n&atilde;o seria sustent&aacute;vel sem a lideran&ccedil;a da Am&eacute;rica. O isolamento americano n&atilde;o teria, no entanto, unicamente consequ&ecirc;ncias graves sobre a estabilidade da SdN, mas tamb&eacute;m sobre a paz nos Estados Unidos. Assim, o que estava em causa n&atilde;o era apenas a oportunidade para se instituir um sistema que permitiria o fim das guerras <i>em geral </i>(&laquo;The heart of that Covenant is that there shall be no war&raquo;<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a> ), mas que impediria <i>em concreto </i>um novo envolvimento dos Estados Unidos numa guerra mundial. E a seu ver seria, pois, isso que aconteceria, se a paz acordada no tratado n&atilde;o fosse aprovada pelos Estados Unidos:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>&laquo;E a gl&oacute;ria das for&ccedil;as armadas e navais dos Estados Unidos desvanece como um sonho na noite &ndash; e segue-se-lhe, na pr&oacute;pria escurid&atilde;o da noite, o pesadelo do terror que pairava sobre as na&ccedil;&otilde;es antes desta guerra chegar. E vir&aacute; um tempo (...) e um novo combate no qual ter&atilde;o de morrer n&atilde;o alguns cem mil nobres homens da Am&eacute;rica, mas tantos milh&otilde;es quanto ser&atilde;o necess&aacute;rios para cumprir a liberdade final dos povos do mundo.&raquo;<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a> </blockquote>     <p></p>     <p>Como adverte atrav&eacute;s desta formula&ccedil;&atilde;o eloquente, a paz alcan&ccedil;ada teria de ser garantida, pois o armist&iacute;cio de 1918 n&atilde;o se preservaria por si s&oacute;. Da&iacute; que a institui&ccedil;&atilde;o da SdN se impusesse como uma tarefa crucial. A ratifica&ccedil;&atilde;o do tratado seria, neste cen&aacute;rio, a &uacute;nica garantia poss&iacute;vel para salvaguardar a paz. Na mem&oacute;ria daqueles que teriam morrido por um mundo sem guerras, valeria a pena aceitar a proposta acordada, uma proposta certamente fr&aacute;gil, fr&aacute;gil como a pr&oacute;pria natureza da paz, mas, ainda assim, a melhor estrat&eacute;gia para a alcan&ccedil;ar:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Considerar-me-ia irrespons&aacute;vel perante cada m&atilde;e e pai, cada esposa e namorada deste pa&iacute;s, se desse o meu consentimento ao fim desta guerra sem uma garantia de que n&atilde;o iria haver mais nenhuma. Dizeis: &ldquo;&Eacute; uma garantia absoluta?&rdquo; N&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; uma garantia absoluta contra a paix&atilde;o humana; mas mesmo que houvesse apenas dez por cento de garantia, n&atilde;o prefer&iacute;eis ter dez por cento de garantia contra a guerra do que nenhuma?&raquo;<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a> </blockquote>     <p></p>     <p>Wilson est&aacute; bem consciente de que o projeto aprovado em Paris n&atilde;o &eacute; perfeito, mas, apesar de reconhecer problemas e assimetrias no texto, considera que esta ter&aacute; sido a melhor vers&atilde;o poss&iacute;vel no dif&iacute;cil contexto das negocia&ccedil;&otilde;es de Paris. Na verdade, que alternativa haveria &agrave; paz acordada? Se este projeto fosse rejeitado, de que outro modo se pensava garantir a paz? Esta quest&atilde;o afigura-se como um dos argumentos cruciais em defesa da SdN, como podemos observar a partir do apelo incisivo do Presidente:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;Este pacto (...) &eacute; o &uacute;nico acordo conceb&iacute;vel que prevenir&aacute; um novo embarque dos nossos homens a curto prazo. (...) Opor-se a ele n&atilde;o vai salvar o mundo. Neg&aacute;-lo n&atilde;o vai levar &agrave; constru&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios da Humanidade. (...) Apenas um programa melhor poder&aacute; igualar-se a este programa organizado. Se esta solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; a via para garantir a paz, imploro que me apontem o caminho certo. Se rejeitarmos esta via, ent&atilde;o imploro que (...) me deem instru&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas para definir que esp&eacute;cie de paz deve ser erguida. Se os cavalheiros que n&atilde;o gostam do que foi feito em Paris acham que s&atilde;o capazes de fazer algo melhor, imploro que realizem j&aacute; a sua conven&ccedil;&atilde;o para o fazerem de imediato. Em consci&ecirc;ncia e de boa-f&eacute; n&atilde;o podem privar-nos desta grande obra da paz sem substitu&iacute;-la por uma outra que seja melhor.&raquo;<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p>     <p>Como o Presidente est&aacute; seguro de que a paz n&atilde;o surgiria naturalmente da &laquo;boa vontade&raquo; das na&ccedil;&otilde;es, entende que teria de ser fundada sobre uma institui&ccedil;&atilde;o comum que servi ria de base para a constru&ccedil;&atilde;o da nova ordem. Depois do &laquo;compromisso&raquo; que os Estados Unidos teriam assumido quando embarcaram na guerra, n&atilde;o seria poss&iacute;vel voltar atr&aacute;s. A miss&atilde;o da paz, que ainda n&atilde;o estaria conclu&iacute;da, teria de ser levada a bom porto &ndash; o que significava que a Am&eacute;rica tinha de continuar os seus esfor&ccedil;os na sua concretiza&ccedil;&atilde;o. Enquanto institui&ccedil;&atilde;o que garante uma ordem de paz democr&aacute;tica, a funda&ccedil;&atilde;o da SdN &eacute; considerada como um des&iacute;gnio providencial da Am&eacute;rica, da qual n&atilde;o se pode afastar. A participa&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica &eacute;, assim, encarada por Wilson como uma quest&atilde;o de maior necessidade pol&iacute;tica e de honra nacional &ndash; e pessoal. E sob este alicerce internacional assentaria a pr&oacute;pria &laquo;grandeza&raquo; americana. A liga&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica &agrave; nova ordem mundial (e vice-versa) constitui provavelmente o des&iacute;gnio mais relevante da batalha de Wilson, como se pode depreender do seu apelo: &laquo;A Am&eacute;rica pode ficar de fora, mas eu quero que sejam testemunhas de que a paz do mundo n&atilde;o pode ser institu&iacute;da sem a Am&eacute;rica. A Am&eacute;rica &eacute; necess&aacute;ria para a paz do mundo. E revertam esta proposi&ccedil;&atilde;o: a paz e a boa-f&eacute; do mundo s&atilde;o necess&aacute;rias &agrave; Am&eacute;rica.&raquo;<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a> </p>     <p>Olhando para o in&iacute;cio do s&eacute;culo XX com um entusiasmo quase modernista e que entende como nova era inevitavelmente &laquo;global&raquo;, Wilson est&aacute; convicto de que a Am&eacute;rica j&aacute; n&atilde;o se poderia isolar do mundo. Na verdade, o destino da Am&eacute;rica estaria profundamente ligado ao destino das outras na&ccedil;&otilde;es, motivo pelo qual a participa&ccedil;&atilde;o americana na constru&ccedil;&atilde;o da ordem mundial (e tamb&eacute;m da reconstru&ccedil;&atilde;o da Europa) n&atilde;o seria apenas pol&iacute;tica e economicamente necess&aacute;ria, mas moralmente imperativa: &laquo;Am&eacute;rica &ndash; o mais glorioso, mais rico, mais livre povo do mundo tem de comprometer-se com esta causa. N&atilde;o podemos viver sem comprometermo-nos. Devotamo-nos &agrave; justi&ccedil;a e liberdade quando nascemos e n&atilde;o vamos ficar senis e esquecer tudo isto&raquo;<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a> .</p>     <p>Consequentemente, a n&atilde;o ratifica&ccedil;&atilde;o do Tratado de Versalhes representaria uma trai&ccedil;&atilde;o da &laquo;promessa americana&raquo;. No plano das rela&ccedil;&otilde;es internacionais, significaria um retrocesso do processo agora iniciado e que levaria inevitavelmente ao prec&aacute;rio sistema de 1914, pois sem a participa&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos, todo o projeto de paz iria certamente falhar. Assim, adverte de modo inequ&iacute;voco e quase prof&eacute;tico: &laquo;Sou capaz de prever com uma certeza absoluta que, dentro de uma gera&ccedil;&atilde;o, haver&aacute; uma nova Guerra Mundial se as na&ccedil;&otilde;es do mundo &ndash; se a Sociedade das Na&ccedil;&otilde;es &ndash; n&atilde;o o prevenir por uma a&ccedil;&atilde;o concertada.&raquo;<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a> Esta lideran&ccedil;a &eacute; tanto mais importante quanto o Tratado de Versalhes apresenta, como Wilson o admite abertamente, muitas falhas e insufici&ecirc;ncias<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a> que est&atilde;o por corrigir. Assim, considera que o verdadeiro trabalho da paz est&aacute; ainda por fazer, devendo-se assumir o esfor&ccedil;o de &laquo;conserta&ccedil;&atilde;o&raquo; (e concerta&ccedil;&atilde;o) com a maior urg&ecirc;ncia e determina&ccedil;&atilde;o. Neste contexto, recorda frequentemente que, enquanto resultado de um compromisso dif&iacute;cil, o tratado n&atilde;o &eacute; um documento perfeito, mas apenas o melhor acordo poss&iacute;vel num cen&aacute;rio de grandes tens&otilde;es e confronta&ccedil;&otilde;es<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a> .</p>     <p>Ao reconhecer os problemas que o Tratado de Versalhes tinha deixado por resolver, num trabalho posterior Woodrow Wilson chama a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de se estar apenas no in&iacute;cio de um processo. Em seu entender, a guerra n&atilde;o tinha chegado verdadeiramente ao fim, uma vez que os trabalhos da garantia da paz s&oacute; agora estavam a come&ccedil;ar. E se essa garantia tinha sido a verdadeira raz&atilde;o da interven&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos, a sua miss&atilde;o ainda estava longe de ser cumprida. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, implicava n&atilde;o s&oacute; um compromisso pol&iacute;tico e (se necess&aacute;rio) militar com o mundo, mas igualmente um apoio econ&oacute;mico e financeiro que seria absolutamente indispens&aacute;vel para se conseguir garantir a paz. No fundo, este per&iacute;odo de p&oacute;s-guerra era para o Presidente americano um novo per&iacute;odo de reconstru&ccedil;&atilde;o que se revelaria como processo bifacetado: por um lado, a reconstru&ccedil;&atilde;o da Europa dependia fortemente da ajuda dos Estados Unidos, o maior ator econ&oacute;mico da &eacute;poca; por outro, a capacidade econ&oacute;mica dos Estados Unidos acabaria por depender de uma Europa reconstru&iacute;da com mercados pr&oacute;speros:</p>     <p>     <blockquote>&laquo;(...) pode ler-se (...) na declara&ccedil;&atilde;o do Senhor Herbert Hoover &ndash; uma opini&atilde;o que respeito sempre muito &ndash; que ser&aacute; necess&aacute;rio aos Estados Unidos avan&ccedil;arem imediatamente com quatro ou cinco milh&otilde;es de d&oacute;lares para a reabilita&ccedil;&atilde;o do cr&eacute;dito e das ind&uacute;strias do outro lado do mar (...). E no meu entender a refer&ecirc;ncia a esta soma &eacute; uma estimativa razo&aacute;vel e prudente. (...) Se quisermos salvar os nossos pr&oacute;prios mercados e reabilitar as nossas ind&uacute;strias, temos de salvar a situa&ccedil;&atilde;o financeira do mundo e reabilitar os mercados do mundo.&raquo;<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a> </blockquote>     <p></p>     <p>&Agrave; luz da ideia da reconstru&ccedil;&atilde;o da Europa transparece tamb&eacute;m a mem&oacute;ria da Guerra Civil americana que &eacute;, para Wilson, uma refer&ecirc;ncia constante. S&atilde;o particularmente as declara&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Alemanha que justificam esta perce&ccedil;&atilde;o. Conhecendo bem os problemas que o per&iacute;odo de reconstru&ccedil;&atilde;o poderia suscitar ao lado &laquo;perdedor&raquo; de uma guerra &ndash; problemas esses que apontara t&atilde;o certeiramente nos seus ensaios <i>Division and Reunion </i>(1892) ou &laquo;The reconstruction of the Southern States&raquo; (1900) &ndash;, chama aten&ccedil;&atilde;o para os erros que os &laquo;vencedores&raquo; e, em particular, os Estados Unidos, teriam de saber evitar. Assim, sublinha incansavelmente que as medidas punitivas inscritas no Tratado de Versalhes em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Alemanha eram muito severas e, se bem que compreens&iacute;veis no presente, seriam apenas tempor&aacute;rias, uma vez que n&atilde;o se dirigiam ao povo alem&atilde;o, mas &agrave; lideran&ccedil;a autocr&aacute;tica do regime agora deposto. Antecipando j&aacute; os planos concretizados mais tarde por Franklin Delano Roosevelt (seu assessor durante a Primeira Guerra Mundial) e Harry Truman, considera que a revitaliza&ccedil;&atilde;o industrial e econ&oacute;mica da Alemanha seria, assim, um fator charneira para a possibilidade da paz na Europa<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a> . O internacionalismo wilsoniano est&aacute; assim comprometido com a inger&ecirc;ncia no mundo, com a participa&ccedil;&atilde;o na resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas comuns, e este compromisso deriva diretamente da responsabilidade da Am&eacute;rica, ou seja, da sua capacidade para <i>responder</i>. Ou, por outras palavras: da sua &laquo;grandeza&raquo;.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ADVERT&Ecirc;NCIAS &Agrave; GRANDEZA AMERICANA HOJE</b></p>     <p>Na &eacute;poca, as advert&ecirc;ncias intempestivas do Presidente Wilson n&atilde;o foram ouvidas na Am&eacute;rica. A seguir &agrave; rejei&ccedil;&atilde;o do Tratado de Versalhes e da recusa de associar-se &agrave; SdN, que tinham sido concebidas a partir das mais nobres aspira&ccedil;&otilde;es americanas, os Estados Unidos voltaram a isolar-se, como se fosse poss&iacute;vel recuar no tempo. O resultado foi, para al&eacute;m de uma presid&ecirc;ncia breve e pouco significativa do republicano e na altura muito popular Warren G. Harding (que prometera na campanha um &laquo;regresso &agrave; normalidade&raquo;), a perda da capacidade de influ&ecirc;ncia americana e a consequente desestabiliza&ccedil;&atilde;o da Europa, fustigada por ressentimentos e rivalidades, por necessidade e inseguran&ccedil;a, levando, por fim, ao descr&eacute;dito das ainda muito fr&aacute;geis novas democracias e &agrave; ascens&atilde;o dos totalitarismos. Como Wilson tinha previsto, h&aacute; cem anos, o isolacionismo da Am&eacute;rica acabou provavelmente por conduzir &agrave; barb&aacute;rie e a uma nova e mais terr&iacute;vel Guerra Mundial.</p>     <p>Devemos, por isso, refletir de um modo mais atento sobre a nova tend&ecirc;ncia isolacionista dos Estados Unidos no presente, sobretudo tendo em considera&ccedil;&atilde;o as novas amea&ccedil;as autorit&aacute;rias e iliberais por parte da R&uacute;ssia e da China que destabilizam a centen&aacute;ria ordem internacional em tempo de crise e restrutura&ccedil;&atilde;o, apresentando propostas civilizacionais muito diferentes. Se a ONU ainda continua a refletir o legado wilsoniano, as aceleradas transforma&ccedil;&otilde;es provocadas pelas inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas e a hiperglobaliza&ccedil;&atilde;o apontam j&aacute; para reformas inadi&aacute;veis e toda uma revitaliza&ccedil;&atilde;o da ordem (e da paz) liberal &agrave; escala mundial. Contudo, esta urgente reinven&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o internacional enquanto f&oacute;rum de coopera&ccedil;&atilde;o global e seguran&ccedil;a comum fundada na liberdade (tanto dos mares como dos indiv&iacute;duos) n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel sem a Am&eacute;rica &ndash; e, numa era global, a Am&eacute;rica n&atilde;o recuperar&aacute; mais a sua grandeza sem assumir esta sua t&atilde;o genu&iacute;na dimens&atilde;o internacional, ou seja, sem o seu compromisso por uma nova &laquo;liga&raquo; das na&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Face aos novos nacionalismos &eacute; urgente pensar e defender um novo internacionalismo para o s&eacute;culo XXI. Nos cem anos da batalha pela SdN (que tamb&eacute;m se travou em nome de uma Am&eacute;rica aberta ao mundo e sens&iacute;vel &agrave;s vozes dos povos), n&atilde;o podemos deixar de aprender com os erros do passado &ndash; mas muito menos podemos deixar de inspirar-nos na determina&ccedil;&atilde;o de quem olhou para al&eacute;m dos muros e dos escombros da guerra e ousou imaginar um novo rumo para a paz.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p>AMBROSIUS, Lloyd E. &ndash; <i>Wilsonianism: Woodrow Wilson and His Legacy in American Foreign Relations</i>. Nova York: Macmillan, 2002.</p>     <p>ANGELL, Norman &ndash; <i>The Great Illusion</i>. Londres: W. Heinemann, 1910.</p>     <p>BAKER, Ray Stannard &ndash; <i>Woodrow Wilson, Life and Letters</i>. Nova York: Garden City, 1927-1939, 8 vols.</p>     <p>BELL, Sidney &ndash; <i>Righteous Conquest. Woodrow Wilson and the Evolution of the New Diplomacy</i>. Nova York: Kennikat Press, 1972.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BLUNTSCHLI, Johann Casper &ndash; <i>Allgemeine Staatslehre</i>. 6.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Estugarda: Edgar Loening Verlag, 1886.</p>     <p>COOPER, John Milton Jr. &ndash; &laquo;An irony of fate: Woodrow Wilson&rsquo;s Pre-World War I diplomacy&raquo;. In <i>Diplomatic History</i>. Vol. III, 1979, pp. 425-438.</p>     <p>COOPER, John Milton Jr. &ndash; <i>Breaking the Heart of the World</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.</p>     <p>EGERTON, George W. &ndash; <i>Great Britain and the Creation of the League of Nations</i>. Londres: Scolar Press, 1979.</p>     <p>GELFAND, Lawrence E. &ndash; <i>The Inquiry. American Preparations for Peace, 1917-1919. </i>New Haven: Yale University Press, 1963.</p>     <p>IKENBERRY, John &ndash; <i>After Victory</i>. Princeton: Princeton University Press, 2001.</p>     <p>KANT, Immanuel &ndash; <i>Kants Werke</i>. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1998.</p>     <p>KNOCK, Thomas J. &ndash; <i>To End All Wars</i>. Princeton: Princeton University Press, 1995.</p>     <p>KOSKENNIEMI, Martti &ndash; <i>The Gentle Civilizer of Nations</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.</p>     <p>LINK, Arthur, ed. &ndash; <i>The Public Papers of Woodrow Wilson. </i>Nashville: Vanderbilt University Press, 1971, vols. X-LXIII.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>NINKOVICH, Frank &ndash; <i>The Wilsonian Century: American Foreign Policy Since 1900</i>. Chicago: Chicago University Press, 1999.</p>     <p>OPPENHEIM, Lassa &ndash; &laquo;The science of international law: its task and method&raquo;. In <i>American Journal of International Law</i>. Vol. II, 1908, pp. 313-356.</p>     <p>PIERCE, Anne R. &ndash; <i>Woodrow Wilson and Harry Truman: Mission and Power in American Foreign Policy</i>. Londres-Nova York: Routledge, 2017.</p>     <p>SMITH, Tony &ndash; <i>America&rsquo;s Mission. The United States and the Worldwide Struggle for Democracy in the Twentieth Century. </i>Princeton: Princeton University Press, 1994.</p>     <p>STEIGERWALD, David &ndash; <i>Wilsonian Idealism in America. </i>Ithaca-Londres: Cornell University Press, 1994.</p>     <p>WALWORTH, Arthur &ndash; <i>America&rsquo;s Moment: 1918. American Diplomacy at the End of World War I. </i>Nova York: Norton &amp; Company, 1977.</p>     <p>WELLS, H. G. &ndash; <i>The War that Will End War</i>. Londres: Frank &amp;Cecil Palmer, 1914.</p>     <p>WOODROW Wilson, Thomas &ndash; <i>Division and Reunion. 1829-1889</i>. Nova York: Longmans, Green &amp; Co, 1892.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data de rece&ccedil;&atilde;o: 27 de junho de 2019 | Data de aprova&ccedil;&atilde;o: 1 de agosto de 2019</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> No ensaio &laquo;The ideals of America&raquo; (1901) Wilson postulava este des&iacute;gnio em tom de miss&atilde;o nacional: &laquo;A vida do novo mundo cresce com a mesma complexidade que a vida do velho mundo. Uma na&ccedil;&atilde;o at&eacute; ao momento completamente dedicada ao desenvolvimento interno, v&ecirc; agora esta sua primeira miss&atilde;o praticamente conclu&iacute;da, e ergue-se j&aacute; para olhar com curiosidade para os des&iacute;gnios do grande mundo no seu todo, procurando o seu papel especial e um espa&ccedil;o de poder. Chegou uma nova era que nenhum Homem poder&aacute; antever. Mas o passado &eacute; a chave para aceder a ela; e o passado da Am&eacute;rica est&aacute; no centro da Hist&oacute;ria moderna.&raquo; (LINK, Arthur, ed. &ndash; <i>The Public Papers of Woodrow Wilson. </i>Nashville: Vanderbilt University Press, 1971, vol. XII, p. 230). .A tradu&ccedil;&atilde;o desta e das demais cita&ccedil;&otilde;es em portugu&ecirc;s &eacute; da responsabilidade da autora.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> A express&atilde;o &laquo;uma guerra para acabar com todas as guerras&raquo; deriva de uma reflex&atilde;o que o jornalista e escritor H. G. Wells publica em 1914 no livro <i>The War that Will End War</i>. A frase aqui referida volta a ser citada no artigo &laquo;The State&raquo;, que o autor publica em 1915 no <i>American Journal of Sociology</i>.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Veja-se aqui em particular o estudo revelador de Martti Koskenniemi: KOSKENNIEMI, Martti &ndash; <i>The Gentle Civilizer of Nations</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> IKENBERRY, John &ndash; After Victory. Princeton: Princeton University Press, 2001.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> LINK, Arthur, ed. &ndash; The Public Papers of Woodrow Wilson (referenciado aqui como PWW). Nesta cita&ccedil;&atilde;o, o it&aacute;lico &eacute; da nossa autoria.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> LINK, Arthur, ed. &ndash; The Public Papers of Woodrow Wilson, vol. XLI, p. 34.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Note-se que a entrada na guerra dos Estados Unidos em nome de uma ordem p&oacute;s-guerra liberal tamb&eacute;m se justificava pela urg&ecirc;ncia de propor &agrave; Europa em crise uma mundivis&atilde;o alternativa &agrave; ideologia comunista que amea&ccedil;ava contaminar a pol&iacute;tica europeia atrav&eacute;s do r&aacute;pido avan&ccedil;o das revolu&ccedil;&otilde;es bolcheviques.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Wilson retomava aqui um conceito de Jeremy Bentham e projeta o seu des&iacute;gnio reformador e institucionalista desenvolvido em 1791 metaforicamente para a &aacute;rea internacional. N&atilde;o quer isto dizer que a SdN se assemelharia a uma pris&atilde;o, nem como mais tarde Michel Foucault (1975) vem sugerir, uma forma extrema de exercer/estimular &laquo;disciplina e castigo&raquo;, mas transmite-se certamente a no&ccedil;&atilde;o de que esta organiza&ccedil;&atilde;o internacional teria uma fun&ccedil;&atilde;o corretiva (e provavelmente tamb&eacute;m disciplinadora) em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s constantes viola&ccedil;&otilde;es de tratados e agress&otilde;es entre estados.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> A carreira pol&iacute;tica do principal delegado franc&ecirc;s, L&eacute;on Bourgeois, que j&aacute; participara nas confer&ecirc;ncias de A Haia em 1899 e 1907, j&aacute; tinha perdido, em 1919, o seu fulgor. Curiosamente, Bourgeois ser&aacute; assistido por um ainda jovem Jean Monnet, que mais tarde dirigir&aacute; a representa&ccedil;&atilde;o francesa na SdN. Outros membros desta comiss&atilde;o instaladora composta por 19 delegados s&atilde;o, por exemplo, Robert Cecil e Jan Christiaan Smuts, David Hunt Miller ou Cecil Hurst, j&aacute; conhecedores desta mat&eacute;ria e muito alinhados com as ideias e inten&ccedil;&otilde;es do Presidente Wilson.</p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> &Eacute; assim que podemos entender a liga&ccedil;&atilde;o entre a ideia de paz afirmada no prop&oacute;sito de se alcan&ccedil;ar uma ordem que garanta a paz a n&iacute;vel mundial e o apelo &laquo;o mundo tem de ser libertado para a democracia&raquo; (no original, &laquo;the world must be made free for democracy&raquo;) lan&ccedil;ado no j&aacute; citado discurso &laquo;Peace without Victory&raquo;.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> KOSKENNIEMI, Martti &ndash; The Gentle Civilizer of Nations.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Note-se que a rece&ccedil;&atilde;o de Zum Ewigen Frieden, a obra mais importante neste contexto, &eacute; indireta, pois Wilson n&atilde;o se refere a ela em concreto, apesar de conhecer os editores e tradutores desta obra nos Estados Unidos.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Al&eacute;m da perspetiva da institui&ccedil;&atilde;o de organismos internacionais de arbitragem e de coopera&ccedil;&atilde;o, Wilson denunciava, por exemplo, com os pacifistas/internacionalistas, o perigo do aumento exponencial do armamento, o imperialismo colonizador (europeu) ou o sistema de equil&iacute;brio de poder considerado inadequado ao s&eacute;culo XX.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> A rela&ccedil;&atilde;o entre os diferentes grupos internacionalistas, entre os quais tamb&eacute;m a UDC, e o surgimento da Liga das Na&ccedil;&otilde;es est&aacute; muito bem explorada na obra de Egerton: EGERTON, George W. &ndash; <i>Great Britain and the Creation of the League of Nations</i>. Londres: Scolar Press, 1979.</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Uma vez que Lord Bryce (que tinha sido embaixador em Washington entre 1907 e 1913) era o presidente deste <i>think tank</i>, no qual tamb&eacute;m participavam Lowes Dickinson e outros elementos da UDC, o grupo ficou conhecido por este nome.</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Este estudo ficou a cargo de Leonard Woolf, marido de Virginia Woolf, que apresentou o seu primeiro relat&oacute;rio exaustivo em complementos da revista <i>New Statesman </i>em julho de 1915, desenvolvendo seguidamente os resultados do seu trabalho no estudo de refer&ecirc;ncia <i>International Government </i>(1916)</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> Como podemos verificar por exemplo em LINK, Arthur, ed. &ndash; <i>The Public Papers of Woodrow Wilson</i>, vol. XXXI, pp. 24 e 53.</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> A comiss&atilde;o que conta aproximadamente mente 150 especialistas sob a coordena&ccedil;&atilde;o de House elabora in&uacute;meros mapas e estudos geogr&aacute;ficos, econ&oacute;micos, hist&oacute;ricos e pol&iacute;ticos sobre as na&ccedil;&otilde;es direta e indiretamente envolvidas na guerra. &Eacute; com esses mapas (e com uma vasta equipa) que Wilson viaja em 1919 para a Confer&ecirc;ncia de Paris. Para um estudo aprofundado do &laquo;Inquiry&raquo; veja-se a obra de refer&ecirc;ncia de Gelfand ou Egerton: GELFAND, Lawrence E. &ndash; <i>The Inquiry. </i><i>American Preparations for Peace, 1917-1919. </i>New Haven: Yale University Press, 1963; EGERTON, George W. &ndash; <i>Great Britain and the Creation of the League of Nations.</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> Para um estudo mais detalhado do debate em torno da ratifica&ccedil;&atilde;o do tratado no Senado, que n&atilde;o podemos desenvolver aqui, veja-se, entre muitos outros, Ambrosius, Cooper ou Knock: AMBROSIUS, Lloyd E. &ndash; <i>Wilsonianism: Woodrow Wilson and His Legacy in American Foreign Relations</i>. Nova York: Macmillan, 2002; COOPER, John Milton Jr. &ndash; <i>Breaking the Heart of the World</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2001; KNOCK, Thomas J. &ndash; <i>To End All Wars</i>. Princeton: Princeton University Press, 1995.</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> As grandes expetativas nas virtudes pol&iacute;ticas dos cidad&atilde;os eram, no entanto, dif&iacute;ceis de cumprir, tendo em conta um ano politicamente muito complexo, marcado por v&aacute;rios dist&uacute;rbios pol&iacute;ticos (e sociais que a Administra&ccedil;&atilde;o Wilson n&atilde;o soube resolver), bem como pela natural agita&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria gerada na v&eacute;spera das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 1920: LINK, Arthur, ed. &ndash; <i>The Public Papers of Woodrow Wilson</i>, vol. LXIII, p. 75.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> KNOCK, Thomas J. &ndash; <i>To End All Wars</i>, p. 251.</p>     <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> LINK, Arthur, ed. &ndash; <i>The Public Papers of Woodrow Wilson</i>, vol. LXIII, p. 100.</p>     <p><Sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 42.</p>     <p><Sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 101.</p>     <p><Sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 28.</p>     <p><Sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 115.</p>     <p><Sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 103.</p>     <p><Sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 102.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></Sup> <i>Ibidem</i>, p. 97.</p>     <p><Sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></Sup> Wilson gostaria de ter ido mais longe nas negocia&ccedil;&otilde;es de Paris, reconhecendo que h&aacute; muitas quest&otilde;es delicadas que n&atilde;o foram contempladas pelo tratado ou relativamente &agrave;s quais n&atilde;o foi poss&iacute;vel alcan&ccedil;ar uma solu&ccedil;&atilde;o satisfat&oacute;ria. Como exemplo, cita o caso de Shantung, que considera injusto, uma vez que repercute a l&oacute;gica dos acordos secretos provenientes da antiga diplomacia (que a SdN ir&aacute; substituir), bem como o delineamento das fronteiras da Sil&eacute;sia e de muitos territ&oacute;rios entre as popula&ccedil;&otilde;es eslavas e italianas. Por outro lado, a puni&ccedil;&atilde;o severa da Alemanha dever&aacute; ser atenuada com o passar do tempo, uma vez que o objetivo maior ser&aacute; integrar, um dia, tamb&eacute;m esta na&ccedil;&atilde;o (como ali&aacute;s tamb&eacute;m a Turquia) na SdN.</p>     <p><Sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></Sup> LINK, Arthur, ed. &ndash; <i>The Public Papers of Woodrow Wilson</i>, vol. LXIII, p. 44.</p>     <p><Sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></Sup> Veja-se, a este prop&oacute;sito, o interessante estudo de Anne R. Pierce: PIERCE, Anne R. &ndash; <i>Woodrow Wilson and Harry Truman: Mission and Power in American Foreign Policy</i>. Londres-Nova York: Routledge, 2017.</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[AMBROSIUS]]></surname>
<given-names><![CDATA[Lloyd E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Wilsonianism: Woodrow Wilson and His Legacy in American Foreign Relations]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Macmillan]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ANGELL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Norman]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Great Illusion]]></source>
<year>1910</year>
<publisher-loc><![CDATA[Londres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[W. Heinemann]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BAKER]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ray Stannard]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Woodrow Wilson, Life and Letters]]></source>
<year></year>
<volume>8</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Garden City]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BELL]]></surname>
<given-names><![CDATA[Sidney]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Righteous Conquest. Woodrow Wilson and the Evolution of the New Diplomacy]]></source>
<year>1972</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Kennikat Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BLUNTSCHLI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Johann Casper]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Allgemeine Staatslehre]]></source>
<year>1886</year>
<edition>6</edition>
<publisher-loc><![CDATA[Estugarda ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edgar Loening Verlag]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[COOPER]]></surname>
<given-names><![CDATA[John Milton Jr.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[An irony of fate: Woodrow Wilson's Pre-World War I diplomacy]]></article-title>
<source><![CDATA[Diplomatic History]]></source>
<year>1979</year>
<volume>III</volume>
<page-range>425-438</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[COOPER]]></surname>
<given-names><![CDATA[John Milton Jr.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Breaking the Heart of the World]]></source>
<year>2001</year>
<publisher-loc><![CDATA[Cambridge ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Cambridge University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[EGERTON]]></surname>
<given-names><![CDATA[George W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Great Britain and the Creation of the League of Nations]]></source>
<year>1979</year>
<publisher-loc><![CDATA[Londres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Scolar Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[GELFAND]]></surname>
<given-names><![CDATA[Lawrence E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Inquiry. American Preparations for Peace, 1917-1919]]></source>
<year>1963</year>
<publisher-loc><![CDATA[New Haven ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Yale University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[IKENBERRY]]></surname>
<given-names><![CDATA[John]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[After Victory]]></source>
<year>2001</year>
<publisher-loc><![CDATA[Princeton ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Princeton University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[KANT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Immanuel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Kants Werke]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[Darmstadt ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Wissenschaftliche Buchgesellschaft]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[KNOCK]]></surname>
<given-names><![CDATA[Thomas J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[To End All Wars]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-loc><![CDATA[Princeton ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Princeton University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[KOSKENNIEMI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Martti]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Gentle Civilizer of Nations]]></source>
<year>2004</year>
<publisher-loc><![CDATA[Cambridge ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Cambridge University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[LINK]]></surname>
<given-names><![CDATA[Arthur]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Public Papers of Woodrow Wilson]]></source>
<year>1971</year>
<volume>X-LXIII</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Nashville ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vanderbilt University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[NINKOVICH]]></surname>
<given-names><![CDATA[Frank]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Wilsonian Century: American Foreign Policy Since 1900]]></source>
<year>1999</year>
<publisher-loc><![CDATA[Chicago ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Chicago University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[OPPENHEIM]]></surname>
<given-names><![CDATA[Lassa]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The science of international law: its task and method]]></article-title>
<source><![CDATA[American Journal of International Law]]></source>
<year>1908</year>
<volume>II</volume>
<page-range>313-356</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B17">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[PIERCE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Anne R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Woodrow Wilson and Harry Truman: Mission and Power in American Foreign Policy]]></source>
<year>2017</year>
<publisher-loc><![CDATA[LondresNova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Routledge]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B18">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[SMITH]]></surname>
<given-names><![CDATA[Tony]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[America's Mission. The United States and the Worldwide Struggle for Democracy in the Twentieth Century]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-loc><![CDATA[Princeton ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Princeton University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B19">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[STEIGERWALD]]></surname>
<given-names><![CDATA[David]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Wilsonian Idealism in America]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-loc><![CDATA[IthacaLondres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Cornell University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B20">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WALWORTH]]></surname>
<given-names><![CDATA[Arthur]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[America's Moment: 1918. American Diplomacy at the End of World War I]]></source>
<year>1977</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Norton & Company]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B21">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WELLS]]></surname>
<given-names><![CDATA[H. G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The War that Will End War]]></source>
<year>1914</year>
<publisher-loc><![CDATA[Londres ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Frank and Cecil Palmer]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B22">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WOODROW Wilson]]></surname>
<given-names><![CDATA[Thomas]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Division and Reunion. 1829-1889]]></source>
<year>1892</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Longmans, Green & Co]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
