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</front><body><![CDATA[ <p style="text-align: right;"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>Cem anos que se esperavam sem confrontos</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Rosa Ana Pato</b></p>     <p>ISCTE-IUL | Av. das For&ccedil;as Armadas, 1649-026 Lisboa | <a href="mailto:rasrp@iscte-iul.pt">rasrp@iscte-iul.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ALAN SHARP, Versailles 1919: A Centennial Perspective, Londres, Haus Publishing, 2018, 320 p&aacute;ginas</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Com a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919, o esperado era que a Primeira Guerra Mundial fosse a &uacute;ltima grande guerra; por&eacute;m, n&atilde;o foi isso que veio a ocorrer.</p>     <p><i>Versailles 1919: A Centennial Perspective </i>&eacute; uma obra da autoria de Alan Sharp que foi novamente reeditada em 2018. Sharp &eacute; professor em&eacute;rito de Hist&oacute;ria Internacional e autor de v&aacute;rias obras, de entre as quais <i>The Versailles Settlement: Peacemaking after the First World War 1919-1923</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A obra que aqui se analisa remete-nos para alguns dos legados e contribui&ccedil;&otilde;es do tratado que terminou com a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes. A obra come&ccedil;a com uma vis&atilde;o global do tratado, uma vez que as consequ&ecirc;ncias da Primeira Guerra Mundial foram muito mais profundas do que aquilo que se podia esperar quando se iniciou em 1914. Segundo Sharp, n&atilde;o existe qualquer d&uacute;vida de que a Primeira Guerra Mundial foi o evento decisivo do s&eacute;culo XX. Em 1919, no P&oacute;s-Guerra, a Alemanha j&aacute; n&atilde;o era um imp&eacute;rio naval rival e quatro grandes imp&eacute;rios tinham colapsado, deixando a Europa de Leste e Central sem governo e fazendo aumentar o medo de que o bolchevismo preenchesse o v&aacute;cuo de poder se os mediadores das confer&ecirc;ncias de Paris n&atilde;o agissem rapidamente. Por seu lado, a Alemanha n&atilde;o via este tratado como um sucesso, interpretando-o antes como injusto devido aos altos custos econ&oacute;micos, territoriais e populacionais que acarretava.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A QUEST&Atilde;O ALEM&Atilde;, O PODER DOS ESTADOS UNIDOS E A FIGURA DE WILSON </b></p>     <p>Os mediadores das confer&ecirc;ncias de Paris no final da Primeira Guerra Mundial preocuparam-se em incorporar o Estado alem&atilde;o no sistema europeu. O futuro da Europa dependia da resolu&ccedil;&atilde;o desta quest&atilde;o, que ocupou os primeiros seis meses de negocia&ccedil;&otilde;es. Woodrow Wilson, Presidente americano, e David Lloyd George, primeiro-ministro ingl&ecirc;s, reconheciam que a Alemanha tinha de ser parte da solu&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o o problema. Era necess&aacute;rio encontrar meios que permitissem &agrave; Alemanha reconfigurar as suas ind&uacute;strias e contribuir para o desenvolvimento europeu, assim como transform&aacute;-la num &laquo;good european neighbour&raquo; (p. 37).</p>     <p>Sharp explora, tamb&eacute;m, a ascens&atilde;o de Hitler ao poder e a Segunda Guerra Mundial. O autor investiga as quest&otilde;es do imediato P&oacute;s-Guerra, com a divis&atilde;o da Alemanha em zonas de ocupa&ccedil;&atilde;o militar que se tornaram na Rep&uacute;blica Federal da Alemanha e na Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica Alem&atilde;, duas partes desiguais, com a Alemanha Ocidental a constituir perto de dois ter&ccedil;os do territ&oacute;rio. O surgimento de institui&ccedil;&otilde;es como a Comunidade Europeia do Carv&atilde;o e do A&ccedil;o, criada em 1951, e a Comunidade Econ&oacute;mica Europeia, em 1957, s&atilde;o temas igualmente abordados.</p>     <p>Alan Sharp dedica um cap&iacute;tulo ao poder dos Estados Unidos. Este pa&iacute;s emergiu como l&iacute;der mundial ao entrar no conflito europeu com a declara&ccedil;&atilde;o de guerra &agrave; Alemanha e ao Imp&eacute;rio Austro-H&uacute;ngaro, em 1917. Desta forma, os Estados Unidos envolveram-se em assuntos internacionais e ganharam influ&ecirc;ncia na Europa, principalmente no per&iacute;odo entre as duas guerras mundiais. Influ&ecirc;ncias americanas, como a m&uacute;sica, os filmes, os m&eacute;todos industriais e marcas como a <i>Coca-Cola</i>, penetravam no mercado europeu.</p>     <p>Sharp aborda diversos epis&oacute;dios da Guerra Fria no decorrer da sua obra, dos quais se evidenciam o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro, a Doutrina Truman ou o Plano Marshall. Explora ainda o estabelecimento da nato, a 4 de abril de 1949, cujo objetivo seria a prote&ccedil;&atilde;o da Europa Ocidental de uma amea&ccedil;a sovi&eacute;tica.</p>     <p>&Eacute; ainda destacada a figura do Presidente norte-americano, Woodrow Wilson, que deu visibilidade &agrave; autodetermina&ccedil;&atilde;o nacional colocando-a na agenda da ordem internacional. Wilson indicou a falta de oportunidades para v&aacute;rios nacionalismos europeus como a causa principal da guerra em 1914. Esta guerra trouxe o colapso de quatro imp&eacute;rios multinacionais que tinham a autodetermina&ccedil;&atilde;o como princ&iacute;pio alternativo. A autodetermina&ccedil;&atilde;o nacional colocou grandes problemas aos mediadores de 1919, impostos pela ra&ccedil;a, linguagem ou religi&atilde;o. Fatores lingu&iacute;sticos, administrativos, econ&oacute;micos e comunicacionais tornaram claro que, mais importante que um tratamento de igualdade, era um tratamento baseado na equidade e que as popula&ccedil;&otilde;es locais deveriam ser chamadas a decidir situa&ccedil;&otilde;es-limite. Mesmo assim, surgiram minorias descontentes abrindo a porta ao poder de Hitler e &agrave; Segunda Guerra Mundial. Desde essa &eacute;poca, as quest&otilde;es da autodetermina&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m vindo a ser discutidas, pois as suas respostas n&atilde;o s&atilde;o simples. O m&eacute;rito da introdu&ccedil;&atilde;o e consciencializa&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia destas quest&otilde;es &eacute; de Woodrow Wilson, considerado incontorn&aacute;vel na obra de Sharp.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A LIGA DAS NA&Ccedil;&Otilde;ES E AS NA&Ccedil;&Otilde;ES UNIDAS </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A Liga das Na&ccedil;&otilde;es, criada ap&oacute;s a Primeira Guerra Mundial, e as Na&ccedil;&otilde;es Unidas, criadas depois da Segunda Guerra Mundial, foram tentativas para constituir uma nova ordem internacional e deveriam impedir a humanidade de entrar num novo conflito. Ambas representam uma evolu&ccedil;&atilde;o na diplomacia anterior a 1914.</p>     <p>A Liga das Na&ccedil;&otilde;es foi a mais ambiciosa tentativa que os mediadores fizeram para garantir que a Primeira Guerra Mundial n&atilde;o se repetiria. A paz e a seguran&ccedil;a eram responsabilidade de todos. No entanto, a proposta de Woodrow Wilson nos chamados &laquo;14 Pontos&raquo;, em 1918, n&atilde;o convenceu os seus aliados. Para al&eacute;m disto, a rejei&ccedil;&atilde;o por parte do Senado americano fez com que os Estados Unidos ficassem fora da organiza&ccedil;&atilde;o, significando que a Fran&ccedil;a e a Gr&atilde;-Bretanha ficariam como defensoras dos ideais de Wilson. Apesar de ter sido a primeira organiza&ccedil;&atilde;o verdadeiramente internacional, a Liga das Na&ccedil;&otilde;es n&atilde;o cumpriu o seu objetivo &ndash; a inibi&ccedil;&atilde;o da guerra &ndash;,e a sua dissolu&ccedil;&atilde;o veio a ocorrer em 18 de abril de 1946.</p>     <p>Tamb&eacute;m as Na&ccedil;&otilde;es Unidas, organiza&ccedil;&atilde;o internacional sucessora da Liga das Na&ccedil;&otilde;es, foram criadas com o patroc&iacute;nio de um presidente americano, Franklin D. Roosevelt. A Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, antiga Assembleia da Liga das Na&ccedil;&otilde;es, conta com cinco membros permanentes: China, Fran&ccedil;a, Gr&atilde;-Bretanha, Estados Unidos e R&uacute;ssia, cada qual com poder de veto. Se, por seu lado, a Liga das Na&ccedil;&otilde;es foi projetada para impedir o conflito que precedeu a Primeira Guerra Mundial, as Na&ccedil;&otilde;es Unidas procuraram desencorajar o engrandecimento territorial que desencadeou a Segunda Guerra Mundial e fornecer uma resposta efetiva &agrave; pol&iacute;tica agressiva, proibindo o uso da for&ccedil;a nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais.</p>     <p>A Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas serviu como um importante aux&iacute;lio humanit&aacute;rio, de alimenta&ccedil;&atilde;o e ajuda m&eacute;dica em &aacute;reas atingidas por conflitos. Muitos destes locais onde as Na&ccedil;&otilde;es Unidas trabalham nos dias de hoje, s&atilde;o locais reconhecidos pelos mediadores das confer&ecirc;ncias de Paris de 1919.</p>     <p>Apesar da pretens&atilde;o da promo&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos e da lei internacional, bem como o incentivo ao desarmamento, as Na&ccedil;&otilde;es Unidas, assim como anteriormente a Liga das Na&ccedil;&otilde;es, desapontaram os seus aliados. Contudo, estas organiza&ccedil;&otilde;es permanecem associadas aos conceitos de prote&ccedil;&atilde;o minorit&aacute;ria, desarmamento e lei internacional, explorados por Sharp ao longo da sua obra. Pretendiam evitar conflitos e dist&uacute;rbios que impedissem a paz, que s&atilde;o trabalhos em progresso ainda nos dias de hoje.</p>     <p>Os pontos fortes da obra de Sharp n&atilde;o se esgotam naqueles aqui mencionados. &Eacute; uma obra imprescind&iacute;vel para quem deseja saber mais sobre o desenrolar dos acontecimentos ap&oacute;s a Primeira Guerra Mundial, e obrigat&oacute;ria para quem deseja compreender os acontecimentos do s&eacute;culo XXI, uma vez que o autor vai para al&eacute;m do que acontece imediatamente ap&oacute;s a Primeira Guerra e explora acontecimentos mais recentes fazendo refer&ecirc;ncia ao ataque ao World Trade Center em 2001, aos referendos da Esc&oacute;cia em 2014 e da Catalunha em 2017, bem como ao Brexit. Quest&otilde;es t&atilde;o atuais como estas s&atilde;o alguns epis&oacute;dios da guerra civil da S&iacute;ria e da Presid&ecirc;ncia de Donald Trump, a partir de novembro de 2018.</p>     <p>Esta &eacute; uma obra que demonstra as dificuldades nas negocia&ccedil;&otilde;es de paz nas confer&ecirc;ncias de Paris de 1919 e reflete sobre a reputa&ccedil;&atilde;o e o legado do Tratado de Versalhes. Tal como o autor afirma, a perce&ccedil;&atilde;o existente &eacute; a de uma oportunidade desperdi&ccedil;ada e este tratado &eacute; visto como respons&aacute;vel pelo estabelecimento de ditaduras no deflagrar da Segunda Guerra Mundial, em 1939, e nos acontecimentos decorrentes do per&iacute;odo da Guerra Fria, ou seja, &laquo;the legacy of 1919 would continue beyond 1945&raquo; (p. 32).</p>      ]]></body>
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