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</front><body><![CDATA[ <p align="right"> <b>DOSSIER TEM&Aacute;TICO</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Trabalho e coopera&ccedil;&atilde;o: apresenta&ccedil;&atilde;o do dossi&ecirc;</b> </p>     <p> <b> Trabajo y cooperaci&oacute;n: presentaci&oacute;n del dossier</b> </p>     <p> <b> Travail et coop&eacute;ration: pr&eacute;sentation du dossier </b> </p>     <p> <b>Work and cooperation: presentation of the dossier</b> <b> </b> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b> Cirlene de Souza Christo [1], Jussara Brito [2], Let&iacute;cia Pessoa Masson [3], Marcelo Gon&ccedil;alves Figueiredo [4], Paulo C&eacute;sar Zambroni-de-Souza [5] </b> </p>     <p> [1] Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Av. Pasteur, 250 - Urca, Rio de Janeiro, RJ, CEP: 22290-902, Brasil; <a href="mailto:cirlenechr@gmail.com">cirlenechr@gmail.com</a>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> [2] Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz; Rua Leopoldo Bulh&otilde;es 1480, Manguinhos, Rio de Janeiro, RJ, CEP: 21041-210, Brasil; <a href="mailto:jussara@ensp.fiocruz.br">jussara@ensp.fiocruz.br</a>. </p>     <p> [3] Centro de Estudos da Sa&uacute;de do Trabalhador e Ecologia Humana, Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica S&eacute;rgio Arouca, Fiocruz; Rua Leopoldo Bulh&otilde;es 1480, Manguinhos, Rio de Janeiro, RJ, CEP: 21041-210, Brasil; <a href="mailto:leticiamasso@ensp.fiocruz.br">leticiamasso@ensp.fiocruz.br</a>. </p>     <p> [4] Escola de Engenharia - Departamento de Engenharia de Produ&ccedil;&atilde;o, Universidade Federal Fluminense Av. Passo da P&aacute;tria 156, S&atilde;o Domingos, Niter&oacute;i, RJ, CEP: 22210-240, Brasil; <a href="mailto:marceloparada@uol.com.br">marceloparada@uol.com.br</a>. </p>     <p> [5] Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia Social - Departamento de Psicologia, Universidade Federal da Para&iacute;ba; Cidade Universit&aacute;ria, s/n&ordm;, Bairro Castelo Branco, Jo&atilde;o Pessoa, PB, CEP: 58051-900, Brasil; <a href="mailto:paulozamsouza@yahoo.com.br">paulozamsouza@yahoo.com.br</a>. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> A propens&atilde;o dos seres humanos para a coopera&ccedil;&atilde;o tem ra&iacute;zes evolutivas antigas (Maturana; Rezepka, 2000). Se eles s&atilde;o o resultado de um processo hist&oacute;rico e n&atilde;o o produto de um plano pr&eacute;-estabelecido, cabe destacar a import&acirc;ncia da coopera&ccedil;&atilde;o para sua preserva&ccedil;&atilde;o e evolu&ccedil;&atilde;o ao longo desse processo. Um percurso em que o trabalho, como um elemento constitutivo de nossa esp&eacute;cie, revela-se um fator decisivo, seja em n&iacute;vel filogen&eacute;tico ou ontogen&eacute;tico. </p>     <p> Assim como os outros mam&iacute;feros, desde o in&iacute;cio da sua vida, os humanos n&atilde;o conseguem sobreviver sem o amparo de outrem, como bem mostrou Winnicott (2006). O trabalho, por sua vez, permite reviver, de forma transformada, o que se viveu nos teatros da inf&acirc;ncia (Dejours, 1996), de tal modo que &eacute; necess&aacute;rio a presen&ccedil;a de outrem, n&atilde;o somente fisicamente, mas de algu&eacute;m com quem se possa efetivamente cooperar. Apenas assim ser&aacute; poss&iacute;vel a cada um desenvolver suas potencialidades, gerando uma zona de desenvolvimento (Vygotski, 1997; Clot, 2006) que a todos favorece. Ao contr&aacute;rio, a realiza&ccedil;&atilde;o da atividade com &ecirc;nfase na competi&ccedil;&atilde;o certamente traz um potencial de nocividade para quem a desempenha, refor&ccedil;ando o individualismo negativo (Castel, 1995) e gerando resultados delet&eacute;rios para os sujeitos e para a sociedade. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>1. COOPERA&Ccedil;&Atilde;O, TRABALHO E SA&Uacute;DE</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Com o intuito de obter a maximiza&ccedil;&atilde;o dos lucros no setor privado e uma suposta melhoria de desempenho na esfera p&uacute;blica – neste caso, sobretudo a partir da l&oacute;gica da <i>new public management</i> (Hood, 1995) –, a organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho baseada no est&iacute;mulo &agrave; competi&ccedil;&atilde;o tem implementado algumas iniciativas de modo recorrente: a avalia&ccedil;&atilde;o individual de desempenho, a busca por metas cada vez mais elevadas e a responsabiliza&ccedil;&atilde;o do trabalhador sem as condi&ccedil;&otilde;es adequadas para a realiza&ccedil;&atilde;o de seu trabalho, entre outras medidas que compelem homens e mulheres a trabalhar sob exig&ecirc;ncias cada vez maiores. </p>     <p> Em uma conjuntura na qual se disseminam de modo acentuado, tanto rela&ccedil;&otilde;es contratuais, quanto formas de gerenciamento do trabalho flex&iacute;veis, e n&atilde;o raro prec&aacute;rias, constata-se o agravamento de um quadro potencialmente nocivo &agrave; sa&uacute;de dos trabalhadores. Com a consolida&ccedil;&atilde;o progressiva no imagin&aacute;rio social de valores baseados no individualismo e na competi&ccedil;&atilde;o, delineia-se um cen&aacute;rio cujo teor dominante aponta para uma divis&atilde;o crescente das categorias de representa&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o coletiva dos trabalhadores, assim como para a dissolu&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os sociais e a fragmenta&ccedil;&atilde;o dos coletivos de trabalho. Al&eacute;m disso, o recrudescimento de tais pr&aacute;ticas, distantes de uma perspectiva de gerenciamento que contemple a gest&atilde;o coletiva das atividades, pode trazer implica&ccedil;&otilde;es nefastas para o trabalho, posto que tendem a comprometer aquilo que a coopera&ccedil;&atilde;o e os coletivos teriam de crucial (ou de positivamente diferencial) para a efic&aacute;cia dos processos produtivos. </p>     <p> Como defendem diversos autores (Yves Schwartz, Yves Clot, Christophe Dejours, Alain Wisner, entre outros), h&aacute; elementos na atividade de trabalho – dentre os quais a coopera&ccedil;&atilde;o ocupa lugar central - que s&atilde;o indispens&aacute;veis para que se atinja qualidade e produtividade, sem negligenciar a sa&uacute;de e a seguran&ccedil;a. Um compromisso assaz desafiador e que n&atilde;o pode perder de vista os contingentes populacionais diversos que vivem em localidades que circundam as organiza&ccedil;&otilde;es e suas instala&ccedil;&otilde;es (Oddone; Marri; Gloria; Briante; Chiattella; &amp; Re, 1986). Neste sentido, cabe lembrar as duas trag&eacute;dias ocorridas nos anos de 2015 e 2019, no estado brasileiro de Minas Gerais, associadas ao rompimento de barragens utilizadas no setor de minera&ccedil;&atilde;o, e que resultaram na morte de mais de 300 pessoas, entre trabalhadores e moradores, al&eacute;m de ocasionarem consequ&ecirc;ncias ambientais catastr&oacute;ficas. N&atilde;o obstante tais eventos n&atilde;o encontrarem preced&ecirc;ncia no territ&oacute;rio brasileiro e terem adquirido enorme repercuss&atilde;o internacional, at&eacute; o momento n&atilde;o se verificou a responsabiliza&ccedil;&atilde;o devida dos principais envolvidos, em especial as empresas. </p>     <p> Defende-se, neste dossi&ecirc; tem&aacute;tico, que a coopera&ccedil;&atilde;o contribui para a produ&ccedil;&atilde;o de reservas de alternativas (Schwartz, 2001; Schwartz, Fyad, &amp; Rufino, 2008) que podem oferecer espa&ccedil;o para elaborar e dar visibilidade a formas de organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho que n&atilde;o sejam delet&eacute;rias e possibilitem o desenvolvimento de sociedades mais justas (Schwartz, 2001; Schwartz, Fyad, &amp; Rufino, 2008; Dejours, 2015). Nessa dire&ccedil;&atilde;o, destaca-se a import&acirc;ncia de se construir ferramentas te&oacute;rico-pr&aacute;ticas que possam amparar projetos de desenvolvimento que n&atilde;o tenham como par&acirc;metro valores meramente mercantis, mas sim que recoloquem a atividade humana em seu centro (Schwartz, 2018) e, dessa forma, estejam a servi&ccedil;o da vida, da sa&uacute;de, do meio ambiente e da conquista de sentido no trabalho. </p>     <p> Foi com o intuito de contribuir para a discuss&atilde;o sobre a coopera&ccedil;&atilde;o no trabalho, e o que adv&eacute;m quando ela est&aacute; ausente ou &eacute; comprometida, que se convocou a comunidade acad&ecirc;mica a compor este dossi&ecirc;. Como ela pode contribuir para a efic&aacute;cia e a confiabilidade dos sistemas complexos? De que modo seu fortalecimento, assim como a solidariedade nos coletivos de trabalho se relaciona com os conte&uacute;dos do trabalho, a sa&uacute;de e a seguran&ccedil;a dos(as) trabalhadores(as)? Que implica&ccedil;&otilde;es para ela adv&ecirc;m das pr&aacute;ticas gerenciais baseadas na concorr&ecirc;ncia e prioritariamente orientadas por resultados e metas, frequentemente valendo-se dos sistemas individualizados de avalia&ccedil;&atilde;o do desempenho? De que forma ela comparece e/ou precisa ser constru&iacute;da em espa&ccedil;os informais de trabalho? De que modo ela se manifesta ou &eacute; deliberadamente negligenciada horizontal ou verticalmente, em espa&ccedil;os tomados ou n&atilde;o pela terceiriza&ccedil;&atilde;o? Como se operam as rela&ccedil;&otilde;es fortemente intermediadas por ferramentas com diversos n&iacute;veis de desenvolvimento tecnol&oacute;gico? </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>2. O QUE AS PESQUISAS INDICAM</b> </p>     <p> Os textos aqui presentes resultam de reflex&otilde;es surgidas a partir de pesquisas emp&iacute;ricas em diversos meios de trabalho, em diferentes setores produtivos e de formas distintas de organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho, como elencamos a seguir. </p>     <p>O artigo de Vanessa Barros e Fabiana Oliveira abre bem a discuss&atilde;o, contribuindo para dar visibilidade ao trabalho de catadores de materiais recicl&aacute;veis, cuja import&acirc;ncia do ponto de vista social e ambiental no quadro brasileiro deve ser destacada. O estudo toma como <i>l&oacute;cus</i> duas cooperativas geridas pela l&oacute;gica da Economia Solid&aacute;ria. Nesse contexto, as autoras indicam que a coopera&ccedil;&atilde;o e a solidariedade s&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es engendradas no cotidiano das rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, que se d&atilde;o em meio a in&uacute;meras contradi&ccedil;&otilde;es e conflitos. Utilizando abordagem calcada na etnografia e na pesquisa-a&ccedil;&atilde;o, o estudo apresentado analisa especificamente o trabalho de catadoras que atuam na triagem do material que chega &agrave; sede do empreendimento, considerada o cora&ccedil;&atilde;o dos processos de reciclagem. Segundo as autoras, embora as express&otilde;es &#8220;cooperativa&#8221; e &#8220;solid&aacute;ria&#8221; estejam no princ&iacute;pio do funcionamento desses empreendimentos, a coopera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; um elemento dado <i>a priori</i>. Nesse sentido, identificam a produ&ccedil;&atilde;o de arranjos pelas cooperadas que buscam atender, ao mesmo tempo, as necessidades do coletivo e as especificidades de cada trabalhadora. Tais arranjos se configurariam a partir da experi&ecirc;ncia pr&aacute;tica e se baseariam em valores n&atilde;o mercantis, como, por exemplo, a considera&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de cada um na gest&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> Em seguida, apresentamos dois artigos que tratam da atividade na minera&ccedil;&atilde;o: um de autoria de Fernanda Ara&uacute;jo, Vicente Nepomuceno e Denise Alvarez, outro escrito por Jo&atilde;o C&eacute;sar Fonseca, Jos&eacute; Newton de Ara&uacute;jo, Carlos Eduardo Vieira e Rodrigo Monteiro. O primeiro deles relata parte de uma experi&ecirc;ncia de pesquisa-a&ccedil;&atilde;o em uma mineradora de carv&atilde;o, localizada no Sul do Brasil, que vem sendo gerida pelos pr&oacute;prios trabalhadores, tamb&eacute;m organizados na forma de cooperativa. A (des)estrutura&ccedil;&atilde;o dos coletivos de trabalho &eacute; tomada pelos autores como via de an&aacute;lise das varia&ccedil;&otilde;es dos &iacute;ndices de produtividade da empresa. Por meio de investiga&ccedil;&atilde;o pautada pela An&aacute;lise Ergon&ocirc;mica do Trabalho (AET), foram identificados fatores organizacionais que interpelam a atividade de operadores de trator que comp&otilde;em as equipes de produ&ccedil;&atilde;o nas frentes de explora&ccedil;&atilde;o subterr&acirc;nea do carv&atilde;o. A press&atilde;o por produ&ccedil;&atilde;o imediata e a falta de reconhecimento do esfor&ccedil;o, acentuadas pela dificuldade de manter fixas as equipes de produ&ccedil;&atilde;o, exerceriam forte influ&ecirc;ncia na prioriza&ccedil;&atilde;o (por parte dos operadores) do alcance de metas individuais. No entanto, constata-se que isto se d&aacute; em detrimento da totalidade e continuidade do ciclo de opera&ccedil;&otilde;es que comp&otilde;em o processo produtivo, indicando dificuldades na coopera&ccedil;&atilde;o, apesar da prescri&ccedil;&atilde;o desta constar do modelo de gest&atilde;o adotado. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> No segundo estudo, que se passa nas instala&ccedil;&otilde;es de uma grande empresa de explora&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rio de ferro com atua&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o Norte do Brasil, discute-se a atividade de mineradores que atuam em dupla para operar uma escavadeira el&eacute;trica a cabo. Tomando por base a Cl&iacute;nica da Atividade, os autores argumentam que, para al&eacute;m do conhecimento t&eacute;cnico na realiza&ccedil;&atilde;o desta atividade, e em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave; vis&atilde;o individualizante da empresa, a dimens&atilde;o coletiva da atividade, inst&acirc;ncia propiciadora da coopera&ccedil;&atilde;o no trabalho, &eacute; um elemento estrutural do processo produtivo. Esse elemento seria intr&iacute;nseco ao desenvolvimento do operador, envolvendo tanto o trabalho em duplas, quanto o fazer solid&aacute;rio com os demais membros das equipes de produ&ccedil;&atilde;o na extra&ccedil;&atilde;o mineral estudada. </p>     <p> Na sequ&ecirc;ncia, figuram dois artigos que tamb&eacute;m evidenciam a coopera&ccedil;&atilde;o como um componente essencial do desenvolvimento das atividades de trabalho. Ambos remetem &agrave; qualidade da presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os p&uacute;blicos. </p>     <p> Realizando uma investiga&ccedil;&atilde;o junto a magistrados, Ruri Giannini, Laerte Sznelwar, Seiji Uchida e Selma Lancman apresentam materiais que demonstram que o trabalho dos magistrados da Justi&ccedil;a do Trabalho do munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo, Brasil, conquanto possua um car&aacute;ter aparentemente solipsista, requer o estabelecimento de redes entre eles. Tais redes, mesmo que informais, revelam-se necess&aacute;rias para enfrentar aquilo que ultrapassa o que &eacute; exigido no concurso para tal fun&ccedil;&atilde;o e o que &eacute; oferecido no treinamento da Escola de Magistratura. Munidos do olhar da Ergonomia da Atividade e da Psicodin&acirc;mica do Trabalho, sinalizam que, al&eacute;m das formas de avalia&ccedil;&atilde;o de ju&iacute;zes serem basicamente quantitativas e individuais, n&atilde;o h&aacute; mecanismos institucionais que potencializem as trocas entre pares e valorizem o retorno da experi&ecirc;ncia, o que, segundo os autores, pode comprometer a qualidade e a produtividade dos servi&ccedil;os. </p>     <p> As an&aacute;lises empreendidas por Yana Felix, An&iacute;sio Ara&uacute;jo e Tha&iacute;s M&aacute;ximo v&atilde;o nesta mesma dire&ccedil;&atilde;o, ao mostrarem que a coopera&ccedil;&atilde;o &eacute; determinante para a qualidade da assist&ecirc;ncia prestada pelas equipes do Servi&ccedil;o de Atendimento M&oacute;vel de Urg&ecirc;ncia (SAMU) em um estado da regi&atilde;o Nordeste do Brasil. Lan&ccedil;ando m&atilde;o dos aportes da Psicodin&acirc;mica do Trabalho e da Sociologia (em especial Bruno Maggi e Philippe Zarifian), referem-se &agrave; demanda intr&iacute;nseca por coopera&ccedil;&atilde;o, no desenvolvimento das atividades, que n&atilde;o se restringe &agrave; estabelecida pelos diferentes trabalhadores da sa&uacute;de – condutores, m&eacute;dicos e enfermeiros(as). Com efeito, tamb&eacute;m enfatizam a necess&aacute;ria coopera&ccedil;&atilde;o dos usu&aacute;rios (do pr&oacute;prio paciente, assim como dos familiares e, em muitos momentos, de pessoas que estejam pr&oacute;ximas ao local de atendimento) para a realiza&ccedil;&atilde;o de atendimentos dessa natureza e a efic&aacute;cia dos servi&ccedil;os prestados. Os autores indicam que a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; um componente essencial da coopera&ccedil;&atilde;o nesse contexto espec&iacute;fico, que se desenvolve com a experi&ecirc;ncia pr&aacute;tica e no viver juntos, seja em espa&ccedil;os formais ou informais. A leitura do artigo nos remete a uma reflex&atilde;o sobre as graves implica&ccedil;&otilde;es de eventuais obst&aacute;culos ao estabelecimento de coopera&ccedil;&atilde;o entre os protagonistas das atividades desenvolvidas no atendimento de casos de urg&ecirc;ncia e emerg&ecirc;ncia, tanto no que tange a seu &ecirc;xito, quanto no que diz respeito &agrave; sa&uacute;de dos trabalhadores envolvidos. </p>     <p> Por fim, dois artigos demonstram o papel fundamental da coopera&ccedil;&atilde;o na gest&atilde;o dos riscos e nas a&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de e seguran&ccedil;a do trabalho. O primeiro, de Marcelle La Guardia e Francisco Lima, aborda a atividade de eletricistas de manuten&ccedil;&atilde;o de linhas de transmiss&atilde;o de energia. O texto debru&ccedil;a-se sobre uma controv&eacute;rsia ocorrida em uma concession&aacute;ria estatal do setor (no Sudeste do Brasil) e que dividia opini&otilde;es a respeito da reorganiza&ccedil;&atilde;o (redu&ccedil;&atilde;o) das equipes de eletricistas. A solu&ccedil;&atilde;o passou por uma pesquisa que se valeu da an&aacute;lise ergon&ocirc;mica do trabalho (AET) e colocou o trabalho real no centro do estudo, voltando-se o olhar para a atividade e as rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas, o que possibilitou desvendar como a coopera&ccedil;&atilde;o e a confian&ccedil;a s&atilde;o constru&iacute;das no dia a dia, e como atuam como base para a efici&ecirc;ncia da gest&atilde;o coletiva dos riscos em situa&ccedil;&otilde;es complexas. </p>     <p> Em uma perspectiva afim, o texto de Pamela Astudillo e Carlos Ibarra parte da hip&oacute;tese que a precariza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho no Chile, que acompanha o modelo neoliberal, tem enfraquecido o trabalho coletivo e a coopera&ccedil;&atilde;o entre o(a)s trabalhadore(a)s. Traz uma discuss&atilde;o sobre a forma&ccedil;&atilde;o em ergonomia institu&iacute;da no Chile, ap&oacute;s a ado&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica nacional de sa&uacute;de e seguran&ccedil;a do trabalho (SST), impulsionada pelo acidente dos 33 mineiros na mina de San Jos&eacute; em 2010. Diferentemente do que predominou, segundos os autores – uma forma&ccedil;&atilde;o &#8220;t&eacute;cnica&#8221; calcada na transmiss&atilde;o cl&aacute;ssica de conhecimentos por especialistas –, sua pesquisa prop&ocirc;s a forma&ccedil;&atilde;o-a&ccedil;&atilde;o em ergonomia (da atividade) e g&ecirc;nero, valorizando o conhecimento e a experi&ecirc;ncia dos trabalhadores. </p>     <p> O estudo contemplou diversos setores produtivos (da ind&uacute;stria do salm&atilde;o aos transportes, passando pelos servi&ccedil;os de sa&uacute;de), em que se deram forma&ccedil;&otilde;es curtas de dirigentes sindicais e profissionais de SST. Para o artigo, os autores elegeram casos mais fortemente relacionados a trabalhos em que havia o pagamento de incentivos por produ&ccedil;&atilde;o, indicando sua associa&ccedil;&atilde;o ao elevado n&uacute;mero de les&otilde;es musculoesquel&eacute;ticas e ao enfraquecimento das rela&ccedil;&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o, devido &agrave; falta de coes&atilde;o e &agrave; competi&ccedil;&atilde;o geradas pelo sistema de trabalho. Para os autores, a an&aacute;lise da atividade no contexto de forma&ccedil;&atilde;o permitiu gerar mudan&ccedil;as na representa&ccedil;&atilde;o do problema, a partir, por exemplo, da compreens&atilde;o de que a coopera&ccedil;&atilde;o entre colegas pode representar um fator de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; SST. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>3. CONVITE &Agrave; LEITURA</b> </p>     <p> Entendemos que os textos que comp&otilde;em o dossi&ecirc; evidenciam a atualidade e a import&acirc;ncia do tema da coopera&ccedil;&atilde;o, indicando desafios relativos &agrave; sua melhor compreens&atilde;o, tanto nas situa&ccedil;&otilde;es em que as atividades possuem um car&aacute;ter aparentemente solipsista, quanto naquelas em que se pressup&otilde;e o trabalho coletivo. Os autores dos artigos tamb&eacute;m trazem questionamentos sobre situa&ccedil;&otilde;es supostamente favor&aacute;veis &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o, como em cooperativas, ressaltando que esse aspecto do trabalho nunca est&aacute; dado <i>a priori</i>, envolvendo a cria&ccedil;&atilde;o de rearranjos para a realiza&ccedil;&atilde;o das atividades. Al&eacute;m disso, incorporam como ponto comum o fato de que um olhar cuidadoso e detido sobre a atividade – a partir de m&eacute;todos diversos de an&aacute;lise do trabalho e forma&ccedil;&atilde;o-a&ccedil;&atilde;o – pode ser bastante frut&iacute;fero para a instala&ccedil;&atilde;o do di&aacute;logo sobre o trabalho e para o questionamento das normas e valores muitas vezes impostos pela organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho e que s&atilde;o delet&eacute;rias para a constru&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os de coopera&ccedil;&atilde;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Se, por um lado, os artigos trazem elementos que indicam os efeitos negativos dos bloqueios &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o no trabalho para a efici&ecirc;ncia e efic&aacute;cia dos processos produtivos, para a gest&atilde;o dos riscos e para a sa&uacute;de dos trabalhadores envolvidos; por outro, revelam formas de coopera&ccedil;&atilde;o tecidas no desenvolvimento das atividades, que se constroem e se consolidam com o tempo, com a experi&ecirc;ncia e o fortalecimento dos v&iacute;nculos. </p>     <p> Por fim, esperando que esse dossi&ecirc; contribua para uma melhor compreens&atilde;o do trabalho em suas configura&ccedil;&otilde;es na contemporaneidade, convidamos voc&ecirc;, leitor, a usufruir de sua leitura, salientando que: se o individualismo e a competi&ccedil;&atilde;o se colocam como tend&ecirc;ncias hegem&ocirc;nicas, novos caminhos podem ser constru&iacute;dos, pois, &#8220;no que diz respeito aos sujeitos humanos, ningu&eacute;m conhece nem conhecer&aacute; integralmente as condi&ccedil;&otilde;es iniciais de seu objeto de estudo, como tamb&eacute;m ningu&eacute;m conhece as suas pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es. &Eacute; por isso que a hist&oacute;ria sempre nos reserva surpresas&#8221; (Schwartz, 1992, p. 64). </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas </b>     <!-- ref --><p> Castel, R. (1995). <i>Les m&eacute;tamorphoses de la question sociale: une chronique du salariat </i>. Paris: Fayard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629319&pid=S1646-5237201900010000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Clot, Y. (2006). <i>La fonction psychologique du travail</i>. Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629321&pid=S1646-5237201900010000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Dejours, C. (2015). <i>Le choix, Souffrir au travail n&#8217;est pas une fatalit&eacute;</i>. Montrouge: Bayard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629323&pid=S1646-5237201900010000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> Dejours, Y. (1996). Uma nova vis&atilde;o do sofrimento nas organiza&ccedil;&otilde;es. In J.-F. Chanlat (Org.). <i>O indiv&iacute;duo na organiza&ccedil;&atilde;o: dimens&otilde;es esquecidas </i> (pp. 150-173). S&atilde;o Paulo: Atlas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629325&pid=S1646-5237201900010000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Hood, C. (1995). The &#8220;new public management&#8221; in the 1980s: Variations on a theme. <i>Accounting, Organizations and Society</i>. 20 (2–3), 93-109. <a href="https://doi.org/10.1016/0361-3682(93)E0001-W"target="_blank">https://doi.org/10.1016/0361-3682(93)E0001-W</a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629327&pid=S1646-5237201900010000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p> Maturana, H.; Rezepka, Sima (2000). <i>Forma&ccedil;&atilde;o humana e capacita&ccedil;&atilde;o</i>. Petr&oacute;polis: Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629328&pid=S1646-5237201900010000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Oddone, I., Marri, G., Gloria, S., Briante, G., Chiattella, M., &amp; Re, A. (1986). <i>Ambiente de trabalho: a luta dos trabalhadores pela sa&uacute;de</i>. S&atilde;o Paulo: Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629330&pid=S1646-5237201900010000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Schwartz, Y. (2018). Pref&aacute;cio. In R. Di Ruzza, M. Lacomblez, &amp; M. Santos (Orgs). <i>Ergologia, Trabalho, Desenvolvimentos</i> (pp. 16-24). Belo Horizonte: Fabrefactum.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629332&pid=S1646-5237201900010000200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Schwartz, Y. (2001). Introduction aux III&egrave;mes Rencontres. In Association pour la Promotion des Recherches Interdisciplinaires sur le Travail - APRIT (Eds) <i> Actes des III&egrave;mes Rencontres: Travail et civilisation: penser l'ouverture des espaces, des m&eacute;tiers, des pratiques </i> (pp. 21-28). Universit&eacute; de Provence: Marseille.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629334&pid=S1646-5237201900010000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Schwartz, Y. (1992). Travail et usage de soi. In Y. Schwartz (Org.). <i>Travail et philosophie – convocations mutuelles</i> (pp. 43-66). Toulouse: Octar&egrave;s.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629336&pid=S1646-5237201900010000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Schwartz, Y. &amp; Adriano, R., Abderrahmane, F. (cols.) (2008). Revisitar a actividade humana para colocar as quest&otilde;es do desenvolvimento: projecto de uma sinergia franco-lus&oacute;fona. Laboreal, <i>4</i>(1), 10-22. <a href="http://laboreal.up.pt/revista/artigo.php?id=48u56oTV658223439657"target="_blank">http://laboreal.up.pt/revista/artigo.php?id=48u56oTV658223439657</a> ; 8:3872 &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629338&pid=S1646-5237201900010000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p> Vygotski, L. S. (1997). <i>Pens&eacute;e et Langage</i>. Paris: La Dispute.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629339&pid=S1646-5237201900010000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Winnicott, D. (2006). <i>The family and individual development</i>. London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1629341&pid=S1646-5237201900010000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO?/</b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Christo, C., Brito, J., Masson, L., Figueiredo, M., &amp; Zambroni-de-Souza, P. (2019). Trabalho e coopera&ccedil;&atilde;o: apresenta&ccedil;&atilde;o do dossi&ecirc;. <i>Laboreal, 15</i>(1). </p>      ]]></body><back>
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