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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Primeiro de Maio: trajetória, dimensões e sentidos]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de Filosofia e Ciências Sociais Departamento de Sociologia]]></institution>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio de Janeiro Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"> <b>DAT&Aacute;RIO</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Primeiro de Maio - trajet&oacute;ria, dimens&otilde;es e sentidos</b> </p>     <p> <b>Primero de Mayo - trayectoria, dimensiones y sentidos</b> </p>     <p> <b>Premier Mai - trajectoire, dimensions et sens </b> </p>     <p> <b>First of May - trajectory, dimensions and senses </b> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Marco Aur&eacute;lio Santana [1], Alexandre Barbosa Fraga [2]</b> </p>     <p> [1] Departamento de Sociologia e Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia e Antropologia; Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Sociais (IFCS); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Largo de S&atilde;o Francisco de Paula, 1, sala 416 – Centro. Rio de Janeiro, Brasil, 20051-070. E-mail: <a href="mailto:marcosilvasantana@gmail.com.br">marcosilvasantana@gmail.com.br</a> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> [2] Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia e Antropologia da UFRJ. E-mail: <a href="mailto:alexbfraga@yahoo.com.br">alexbfraga@yahoo.com.br</a> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr>     <p> As comemora&ccedil;&otilde;es do Primeiro de Maio j&aacute; t&ecirc;m duradoura e rica trajet&oacute;ria na hist&oacute;ria do trabalho e dos/as trabalhadores/as. Ao longo de seus cerca de 130 anos, elas assumiram diversas formas, sentidos e conte&uacute;dos, internacionalizando-se de maneira que impressiona. Contudo, isso n&atilde;o se deu de forma lisa e linear, sem sobressaltos. Toda a efem&eacute;ride, por ser uma inven&ccedil;&atilde;o das tradi&ccedil;&otilde;es (Hobsbawm &amp; Ranger, 2008), mostra-se resultado de investimentos materiais e simb&oacute;licos de indiv&iacute;duos e grupos com interesses pr&oacute;prios e, por vezes, conflitantes. Nesse sentido, a transforma&ccedil;&atilde;o de um acontecimento em algo a ser lembrado envolve a constru&ccedil;&atilde;o consciente de um conjunto de ideias e de a&ccedil;&otilde;es n&atilde;o apenas nos primeiros anos em que uma data passa a ser considerada importante, mas durante toda a trajet&oacute;ria de sua celebra&ccedil;&atilde;o. Ao longo desse percurso hist&oacute;rico, quando existem orienta&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas e interesses distintos rivalizando em torno de um mesmo evento, frequentemente ocorrem, em menores ou maiores propor&ccedil;&otilde;es, batalhas da mem&oacute;ria (Pollak, 1989, p. 4), nas quais h&aacute; disputas pelas representa&ccedil;&otilde;es de uma efem&eacute;ride, pelos sentidos atribu&iacute;dos a ela e, como consequ&ecirc;ncia, pelas formas de comemor&aacute;-la. </p>     <p> Esse permanente confronto em torno dos significados atribu&iacute;dos a uma data que se quer rememorar est&aacute; presente fortemente em rela&ccedil;&atilde;o ao Primeiro de Maio. A an&aacute;lise dos quase cento e trinta anos em que o dia do trabalhador &eacute; celebrado no mundo permite constatar a exist&ecirc;ncia de concep&ccedil;&otilde;es divergentes defendidas tanto por grupos end&oacute;genos &agrave; classe trabalhadora (em suas diferentes correntes ideol&oacute;gicas, como anarquistas, socialistas, comunistas e conservadores) quanto ex&oacute;genos a ela (empresariado, grande imprensa, Estado e Igreja), ainda que a configura&ccedil;&atilde;o desses atores sociais e as representa&ccedil;&otilde;es formuladas por eles variem de acordo com o pa&iacute;s e a &eacute;poca. Entre esses distintos sentidos sobre o 1&ordm; de Maio produzidos em contextos diversos, &eacute; poss&iacute;vel destacar alguns mais salientes: luto e lembran&ccedil;a daqueles que morreram na defesa da causa oper&aacute;ria; protesto, luta e consci&ecirc;ncia de classe; dia de festa, descanso e feriado nacional; e comemora&ccedil;&atilde;o da coopera&ccedil;&atilde;o entre empregados e empregadores. Portanto, enquanto os dois primeiros sentidos compreendem o 1&ordm; de Maio como <i>dia do trabalhador</i> e apresentam uma vis&atilde;o mais combativa, de luto e luta do trabalho contra o capital; os dois &uacute;ltimos enxergam a data como <i>dia do trabalho</i> e indicam uma vis&atilde;o mais harm&ocirc;nica e confraternizadora, de integra&ccedil;&atilde;o do trabalho com o capital. </p>     <p> Como nos lembra Danielle Tartakowsky (2005), os 1&ordm; de Maio se sucedem na hist&oacute;ria, mas n&atilde;o se parecem. Se pud&eacute;ssemos tomar a experi&ecirc;ncia francesa como elucidativa de um dos percursos poss&iacute;veis seguidos na trajet&oacute;ria do Primeiro de Maio, ter&iacute;amos que ele se conecta, ainda que criticamente, com um conjunto das chamadas <i>festas do trabalho</i> que remontam desde o per&iacute;odo da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, no s&eacute;culo XVIII. Uma sucess&atilde;o de datas foi sendo indicada como comemorativa do trabalho, o que em breve seria questionado e disputado para ser mais uma data dos/as trabalhadores/as do que do trabalho. </p>     <p> J&aacute; mais pr&oacute;xima das tradi&ccedil;&otilde;es recentes, segundo Rosa Luxemburgo (1894), uma das origens do Primeiro de Maio poderia ser encontrada no movimento realizado por trabalhadores/as da Austr&aacute;lia. Em 1856, trabalhadores/as daquele pa&iacute;s decidiram paralisar, em 21 de abril, suas atividades por um dia, organizando reuni&otilde;es e divers&atilde;o, em sua luta pela jornada de oito horas de trabalho. A proposta serviria apenas para aquele ano. Contudo, dado o sucesso da a&ccedil;&atilde;o nos meios oper&aacute;rios, ela acabou sendo replicada em anos seguintes. Segundo Luxemburgo, a ideia de uma <i>festa prolet&aacute;ria</i> nesses moldes se espalha para outros pa&iacute;ses ao redor do mundo. </p>     <p> O surgimento do Primeiro de Maio, conforme celebrado at&eacute; os nossos dias, tem suas origens hist&oacute;ricas ligadas a movimentos grevistas ocorridos nos Estados Unidos no s&eacute;culo XIX. Ap&oacute;s d&eacute;cadas reivindicando a redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho para oito horas di&aacute;rias, em 1886 os sindicatos oper&aacute;rios convocaram uma greve geral para o 1&ordm; de Maio, data considerada nacionalmente de renova&ccedil;&atilde;o dos contratos de trabalho e de alugu&eacute;is ( <i>Moving Day</i>). A greve paralisou cerca de duzentos mil trabalhadores/as. A palavra de ordem era &#8220;redu&ccedil;&atilde;o da jornada, sem redu&ccedil;&atilde;o do sal&aacute;rio&#8221;, a partir da concep&ccedil;&atilde;o de que o dia deveria estar dividido em oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de lazer e estudo. No dia 3 daquele m&ecirc;s, milhares de trabalhadores, ainda em greve, reuniram-se em frente &agrave; f&aacute;brica McCornick, em Chicago, cidade mais industrializada dos EUA &agrave; &eacute;poca. Nessa ocasi&atilde;o, a pol&iacute;cia disparou contra um grupo de oper&aacute;rios, deixando um saldo de mortos, feridos e presos (Del Roio, 1986; Avrich, 1986). </p>     <p> No dia seguinte, as lideran&ccedil;as dos protestos, sobretudo anarquistas, organizaram um com&iacute;cio na Pra&ccedil;a Haymarket contra a repress&atilde;o sofrida. &Agrave; noite, quando a concentra&ccedil;&atilde;o j&aacute; estava se dispersando, policiais atacaram com viol&ecirc;ncia o movimento. Nesse momento, uma bomba explodiu entre os guardas, ocasionando a morte de alguns deles. Refor&ccedil;os chegaram e come&ccedil;aram uma brutal repress&atilde;o, atirando em todas as dire&ccedil;&otilde;es, matando dezenas de trabalhadores, ferindo e prendendo outros milhares. Sedes sindicais foram incendiadas. O epis&oacute;dio ficou conhecido como massacre de Chicago ou massacre de Haymarket. Como consequ&ecirc;ncia direta desses acontecimentos, em junho do mesmo ano, l&iacute;deres do movimento oper&aacute;rio foram presos, julgados e, ainda que n&atilde;o houvesse provas do envolvimento deles nem se conhecesse a autoria da explos&atilde;o, condenados &agrave; morte por enforcamento (Del Roio, 1986; Avrich, 1986). </p>     <p> Como o massacre e os m&aacute;rtires de Chicago tornaram-se s&iacute;mbolos mundiais das injusti&ccedil;as do Estado capitalista contra a classe oper&aacute;ria, influenciaram a 2&ordf; Internacional, organiza&ccedil;&atilde;o prolet&aacute;ria que buscou superar as fronteiras nacionais, reunindo partidos oper&aacute;rios de v&aacute;rios pa&iacute;ses, sobretudo, europeus. No seu primeiro Congresso, iniciado em 14 de julho de 1889 em Paris, adotou-se uma resolu&ccedil;&atilde;o para que o 1&ordm; de Maio fosse celebrado como Dia Internacional do Trabalho e marcasse a luta pela redu&ccedil;&atilde;o legal da jornada laboral para oito horas di&aacute;rias. A data, aprovada por aclama&ccedil;&atilde;o, nascia sob o signo do luto pelos trabalhadores mortos em Chicago e da revolta e da luta por melhores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de vida, tais como maior tempo de lazer e de descanso (Del Roio, 1986; Kocher, 1987). Interessante notar que, da mesma forma que na experi&ecirc;ncia australiana, ningu&eacute;m, nesse momento, pensou que esse ato deveria ser repetido nos anos seguintes. Mas, dado o sucesso em sua efetiva&ccedil;&atilde;o, a data entraria de vez no calend&aacute;rio pol&iacute;tico e social da classe trabalhadora ao redor do mundo. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> O ano de 1890 marcou, portanto, o in&iacute;cio dessa efem&eacute;ride em n&iacute;vel mundial, ainda que, em alguns pa&iacute;ses, a data escolhida para comemorar o dia do trabalhador fosse outra que n&atilde;o o 1&ordm; de maio. Nos Estados Unidos, por exemplo, os seguidores da Segunda Internacional realizaram seus atos &agrave; parte, j&aacute; que a maioria dos sindicatos at&eacute; hoje d&aacute; prefer&ecirc;ncia ao <i>Labor Day</i>, na primeira segunda-feira de setembro. Segundo Hobsbawm (1998), houve um &ecirc;xito extraordin&aacute;rio das manifesta&ccedil;&otilde;es do Primeiro de Maio de 1890 na Europa, reunindo-se as massas oper&aacute;rias para vivenciarem um sentimento de poder, reconhecimento e esperan&ccedil;a, ainda que existissem entre os partidos e movimentos locais discuss&otilde;es e divis&otilde;es ideol&oacute;gicas sobre as formas leg&iacute;timas desse tipo de manifesta&ccedil;&atilde;o. A quest&atilde;o fundamental em pauta era se os oper&aacute;rios deveriam fazer greve nesse dia. Na Inglaterra, entendeu-se que n&atilde;o e optou-se por uma manifesta&ccedil;&atilde;o no primeiro domingo de maio (dia 4), em vez de no primeiro dia do m&ecirc;s. </p>     <p> Ainda que na Inglaterra tenha havido cautela, o Primeiro de Maio foi transformado em v&aacute;rios pa&iacute;ses, j&aacute; na sua experi&ecirc;ncia inicial, em algo mais do que uma ocasi&atilde;o comemorativa, justamente pelo ato de suspender simbolicamente o trabalho, pois abster-se de trabalhar em um dia &uacute;til era uma afirma&ccedil;&atilde;o do poder da classe oper&aacute;ria. Foi o que ocorreu, por exemplo, na &Aacute;ustria. O Congresso da Segunda Internacional em Bruxelas, em 1891, aprovou a manuten&ccedil;&atilde;o da manifesta&ccedil;&atilde;o no dia primeiro de maio e a suspens&atilde;o do trabalho onde fosse poss&iacute;vel, defendendo tamb&eacute;m comemorar a data, ou seja, reconhecendo-a n&atilde;o apenas como uma atividade pol&iacute;tica, mas como uma festa, ideia &agrave; qual os anarquistas se opuseram completamente. Para eles, era dia de luto pelos m&aacute;rtires e de luta, e n&atilde;o de comemora&ccedil;&atilde;o (Hobsbawm, 1998). </p>     <p> J&aacute; na Fran&ccedil;a, o Primeiro de Maio de 1890 tamb&eacute;m se tornou, segundo Michelle Perrot (1988), objeto de disputas e de tens&otilde;es entre seu entendimento como dia de festa e como dia de reivindica&ccedil;&atilde;o. Essa dupla concep&ccedil;&atilde;o deu origem a estrat&eacute;gias diferentes, das quais fizeram parte grandes desfiles em pra&ccedil;as p&uacute;blicas, de forma a reclamar em uma imensa e &uacute;nica voz o direito ao bem-estar e &agrave; redu&ccedil;&atilde;o das horas de trabalho, impressionando a opini&atilde;o p&uacute;blica com tal espet&aacute;culo. E das quais fizeram parte tamb&eacute;m ondas de greves inesperadas, com a&ccedil;&otilde;es diretas e violentas contra as f&aacute;bricas. Al&eacute;m desses sentidos de manifesta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e de greve, houve ainda grupos defendendo um feriado pac&iacute;fico, no qual se pudesse passear com a fam&iacute;lia, persuadindo os patr&otilde;es a fecharem os locais de trabalho e converterem o Primeiro de Maio em um dia de dispensa, e n&atilde;o de greve. </p>     <p> No caso brasileiro, as manifesta&ccedil;&otilde;es de 1&ordm; de Maio tiveram in&iacute;cio na Primeira Rep&uacute;blica (1889-1930). Em 1890 e nos anos seguintes, elas foram marcadas por sess&otilde;es solenes, passeatas, fogos de artif&iacute;cio, visitas a t&uacute;mulos de l&iacute;deres e de oper&aacute;rios, atividades de lazer e desfiles das categorias profissionais acompanhados de bandas de m&uacute;sica. O sentido atribu&iacute;do &agrave; data era o de luto pelos companheiros mortos e de comemora&ccedil;&atilde;o, congregando car&aacute;ter festivo e de manifesta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Com o processo de crescimento da classe oper&aacute;ria e o aumento da influ&ecirc;ncia anarquista no movimento, o dia foi passando a ser visto menos como de festa, aumentando o seu entendimento como de recorda&ccedil;&atilde;o aos m&aacute;rtires de Chicago, de greve e de luta. Quanto mais o 1&ordm; de Maio ultrapassava o sentido festivo e tomava as ruas na forma de protestos e atos violentos, mais a grande imprensa mudava a forma de trat&aacute;-lo, observando-o com preocupa&ccedil;&atilde;o (Del Roio, 1986; Kocher, 1987). </p>     <p> Sobretudo no decorrer do s&eacute;culo XX, a celebra&ccedil;&atilde;o da data como de luta tornou-se predominante, conforme orienta&ccedil;&atilde;o do 1&ordm; Congresso Oper&aacute;rio Brasileiro, realizado em 1906. Nele, incitou-se o operariado a celebrar o 1&ordm; de Maio n&atilde;o como festa, mas como protesto e reivindica&ccedil;&atilde;o de direitos, inclusive a redu&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho sem diminui&ccedil;&atilde;o dos sal&aacute;rios. Passaram a ocorrer greves e paralisa&ccedil;&otilde;es e uma celebra&ccedil;&atilde;o mais combativa. Com isso, acirrou-se a disputa pelo significado da data, n&atilde;o apenas entre os trabalhadores, mas por outros atores sociais. A Igreja Cat&oacute;lica, a imprensa e o Estado buscavam retirar os contornos pol&iacute;ticos da celebra&ccedil;&atilde;o, enfatizados nos discursos anarquista e comunista, e incentivar seu car&aacute;ter festivo e de integra&ccedil;&atilde;o capital-trabalho. Essas tentativas culminaram na transforma&ccedil;&atilde;o do Primeiro de Maio em feriado nacional pelo presidente Artur Bernardes, em 1924. Com essa estrat&eacute;gia, a paralisa&ccedil;&atilde;o nesse dia deixou de ser iniciativa dos trabalhadores, como demonstra&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a, e passou a ser uma concess&atilde;o do Estado em homenagem &agrave; <i>festa do trabalho</i> (Del Roio, 1986; Kocher, 1987; Ar&ecirc;as, 1997/1998). </p>     <p> O controle da data pelo Estado e a sua apropria&ccedil;&atilde;o para atender a interesses governamentais tiveram como &aacute;pice a Era Vargas, sobretudo durante o Estado Novo (1937-1945). Nos constantes discursos de Primeiro de Maio proferidos por Get&uacute;lio Vargas, em diferentes locais, e a partir de 1939 no est&aacute;dio de S&atilde;o Janu&aacute;rio, o sentido de um dia de luta do trabalho contra o capital foi substitu&iacute;do por um dia de festividade oficial conduzida pelo governo, de alegrias e de confraterniza&ccedil;&atilde;o das classes sociais com o Estado, celebrando a colabora&ccedil;&atilde;o entre trabalho e capital e a promulga&ccedil;&atilde;o de leis trabalhistas (Lima, 1990; Gomes, 2005). Nas comemora&ccedil;&otilde;es, os trabalhadores ocupavam um lugar de destaque, mas o protagonismo foi deslocado para o Estado, na figura de Vargas, e para o desenvolvimento econ&ocirc;mico, conquistado, nessa concep&ccedil;&atilde;o, pela coopera&ccedil;&atilde;o entre empregados e empregadores. </p>     <p> Deve-se indicar tamb&eacute;m que, mesmo no per&iacute;odo da Ditadura militar (1964-1985), a classe trabalhadora brasileira buscou, nessa data, apresentar suas reivindica&ccedil;&otilde;es e sua posi&ccedil;&atilde;o sobre o estado de coisas em que vivia. O ano de 1968 &eacute; um marco nesse sentido. Organizado por uma coaliza&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as de esquerda e setores conservadores, o Primeiro de Maio desse ano, em S&atilde;o Paulo, foi uma das componentes do 1968 oper&aacute;rio no Brasil. Contrariando os setores de esquerda, alguns j&aacute; conectados com grupos revolucion&aacute;rios armados, os setores conservadores decidiram convidar autoridades pol&iacute;ticas, inclusive o governador do Estado. Durante a fala dessas autoridades, as for&ccedil;as de esquerda resolveram tomar de assalto o ato p&uacute;blico, entoando palavras de ordem radicais, atirando pedras e, finalmente, ateando fogo ao palanque. </p>     <p> Todos esses sentidos atribu&iacute;dos ao Primeiro de Maio ao longo do tempo apresentam-se n&atilde;o na forma de uma linearidade, mas como uma espiral de concep&ccedil;&otilde;es que fazem parte tanto da mem&oacute;ria oper&aacute;ria quanto de um imagin&aacute;rio social mais amplo e que, portanto, podem ser defendidas simultaneamente por grupos diversos atualmente: luto pelos trabalhadores que sucumbiram; luta por melhores condi&ccedil;&otilde;es de trabalho ou pela emancipa&ccedil;&atilde;o; festa, feriado e comemora&ccedil;&atilde;o; e concilia&ccedil;&atilde;o de classes. A nomea&ccedil;&atilde;o como <i>dia do trabalhador</i> ou <i>dia do trabalho</i> revela, ent&atilde;o, uma disputa pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica. Se pende para a segunda forma, demonstra um afastamento do significado pol&iacute;tico que lhe deu origem. Se, ao contr&aacute;rio, pende de maneira cr&iacute;tica para a primeira forma, possibilita que os trabalhadores reflitam sobre o seu lugar e a respeito de suas experi&ecirc;ncias (Thompson, 1987), em uma conjuga&ccedil;&atilde;o de passado, presente e futuro, a qual evoca mais a luta do que a comemora&ccedil;&atilde;o. </p>     <p> Levando em considera&ccedil;&atilde;o essa espiral de concep&ccedil;&otilde;es, duas indica&ccedil;&otilde;es finais importantes precisam ser feitas em termos dessas disputas, em tempos mais recentes e considerando os atores sociais e pol&iacute;ticos presentes. Apesar de situa&ccedil;&otilde;es particulares, podem lan&ccedil;ar luz sobre os mesmos processos que t&ecirc;m ocorrido em outras experi&ecirc;ncias. De um lado, a tentativa de setores e partidos conservadores de ocuparem o seu espa&ccedil;o nessas celebra&ccedil;&otilde;es, buscando lhe imprimir seu pr&oacute;prio vi&eacute;s. O caso da Fran&ccedil;a (Tartakowsky, 2013) &eacute; bastante interessante. J&aacute; desde 1988 o <i>Front National </i>dos Le Pen vem fazendo aproxima&ccedil;&otilde;es continuadas nesse sentido. Em 2012, os partid&aacute;rios de Nicolas Sarkozy buscaram empreender um Primeiro de Maio do &#8220;verdadeiro trabalho&#8221;. Em 2013, a direita francesa buscou sincretizar sua luta contra o <i>casamento para todos</i> com essa data. </p>     <p> Por outro lado, e, a&iacute;, com vi&eacute;s progressista, &eacute; sentida a tentativa de setores da classe trabalhadora, que t&ecirc;m experimentado as agruras das novas formas de produ&ccedil;&atilde;o e acumula&ccedil;&atilde;o capitalista em sua ponta da exclus&atilde;o e precariza&ccedil;&atilde;o, e que nem sempre tiveram aten&ccedil;&atilde;o devida das engrenagens sindicais e, muitas vezes, organizaram-se para al&eacute;m e at&eacute; contra elas, buscarem tamb&eacute;m seus espa&ccedil;os no Primeiro de Maio. Em 2018, por exemplo, os <i>Prec&aacute;rios Inflex&iacute;veis </i>sinalizavam que naquele 1&ordm; de maio em Portugal &#8220;tamb&eacute;m a voz de quem est&aacute; desempregado se far&aacute; sentir&#8230; No primeiro de Maio a voz dos prec&aacute;rios encontra-se na rua!&#8221;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Pode-se dizer, portanto, que, a partir de certo ponto de vista, o Primeiro de Maio, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelas for&ccedil;as sociais do trabalho nessa quadra do capitalismo, tem seu espa&ccedil;o garantido em termos futuros. Como assinala Rosa Luxemburgo (1894), o Primeiro de Maio reivindicava a instaura&ccedil;&atilde;o das 8 horas, mas, mesmo depois de atingido esse objetivo, a data n&atilde;o foi abandonada. Segundo ela, enquanto durar a luta entre os trabalhadores e a burguesia, e enquanto as reivindica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o forem aceitas, a data permanecer&aacute;. E, mesmo quando dias melhores vierem, e a classe oper&aacute;ria obtiver sua vit&oacute;ria final, &#8220;ainda assim a humanidade festejar&aacute; o 1&ordm; de Maio, em honra das lutas encarni&ccedil;adas travadas e dos numerosos sofrimentos sofridos no passado&#8221; (Luxemburg, 1894, p. 3, tradu&ccedil;&atilde;o livre). </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b> </p>     <!-- ref --><p> Ar&ecirc;as, L. (1997/1998). As comemora&ccedil;&otilde;es do primeiro de maio no Rio de Janeiro (1890-1930). <i>Hist&oacute;ria Social</i>, 1, 4/5, 9-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631593&pid=S1646-5237201900010001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Avrich, P. (1986). <i>The Haymarket tragedy</i>. New Jersey: Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631595&pid=S1646-5237201900010001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Del Roio, J. (1986). <i>1&ordm; de maio. Cem anos de luta. 1886-1986</i>. S&atilde;o Paulo: Global Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631597&pid=S1646-5237201900010001200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Gomes, A. (2005). <i>A inven&ccedil;&atilde;o do trabalhismo</i>. Rio de Janeiro: Editora FGV.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631599&pid=S1646-5237201900010001200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Hobsbawm, E. (1998). O nascimento de um feriado: o primeiro de maio. In E. Hobsbawm (Ed.). <i>Pessoas extraordin&aacute;rias: resist&ecirc;ncia, rebeli&atilde;o e jazz</i> (pp. 169-190). S&atilde;o Paulo: Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631601&pid=S1646-5237201900010001200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Hobsbawm, E., &amp; Ranger, T. (Orgs.) (2008). <i>A inven&ccedil;&atilde;o das tradi&ccedil;&otilde;es</i>. Rio de Janeiro: Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631603&pid=S1646-5237201900010001200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Kocher, B. (1987). <i>Luto-luta: o primeiro de maio no Rio de Janeiro (1890-1940)</i>. Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado. Instituto de Hist&oacute;ria da Universidade Federal Fluminense, Niter&oacute;i.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631605&pid=S1646-5237201900010001200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Lima, M. (1990). <i> A constru&ccedil;&atilde;o discursiva do povo brasileiro: os discursos de 1&ordm; de maio de Get&uacute;lio Vargas </i> . Campinas: Editora da UNICAMP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631607&pid=S1646-5237201900010001200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Luxemburg, R. (1894). Quelles sont les origines du 1er mai? <i>Sprawa Robotnicza</i>, 8 f&eacute;vrier, 2-3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631609&pid=S1646-5237201900010001200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Perrot, M. (1988). O primeiro Primeiro de Maio na Fran&ccedil;a (1890): nascimento de um rito oper&aacute;rio. In M. Perrot (Ed.). <i>Os exclu&iacute;dos da hist&oacute;ria: oper&aacute;rios, mulheres e prisioneiros</i> (pp. 127-164). Rio de Janeiro: Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631611&pid=S1646-5237201900010001200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Pollak, M. (1989). Mem&oacute;ria, esquecimento, sil&ecirc;ncio. <i>Estudos Hist&oacute;ricos</i>, 2, 3, 3-15.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631613&pid=S1646-5237201900010001200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Tartakowsky, D. (2005). <i>La part du r&ecirc;ve. </i> <i>Histoire du 1er Mai en France</i>. Paris: Hachette Litt&eacute;ratures.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631615&pid=S1646-5237201900010001200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Tartakowsky, D. (2013). Les Premiers mai se suivent&#8230; <i>Le Huffington Post</i>, 1er mai.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631617&pid=S1646-5237201900010001200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Thompson, E. (1987). <i>A Forma&ccedil;&atilde;o da Classe Oper&aacute;ria Inglesa</i>. Rio de Janeiro: Paz e Terra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1631619&pid=S1646-5237201900010001200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Manuscrito recebido em:</b> dezembro/2018 </p>     <p> <b>Aceite ap&oacute;s peritagem:</b> fevereiro/2019 </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO?</b> </p>     <p> Santana, M., &amp; Fraga, A. (2019). Primeiro de Maio - trajet&oacute;ria, dimens&otilde;es e sentidos. <i>Laboreal, 15 (1). </i></p>      ]]></body><back>
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