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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Recensão crítica do livro de Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patrícia Martins Goulart e Virginia Junqueira (2017) - Trabalhar no SUS: gestão, repercussões psicossociais e política de proteção à saúde]]></article-title>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Análisis crítico de la obra de Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patrícia Martins Goulart y Virginia Junqueira (2017) - Trabajar en el SUS: gestión, repercusiones psicosociales y política de protección de la salud]]></article-title>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Analyse critique de l'ouvrage de Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patrícia Martins Goulart et Virginia Junqueira (2017) - Travailler au SUS : gestion, répercussions psychosociales et politique de protection de la santé]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Review of the book of Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patrícia Martins Goulart and Virginia Junqueira (2017) -Working at SUS: management, psychosocial repercussions and health protection policy]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right" target="_blank"> <b>RECENS&Otilde;ES CR&Iacute;TICAS DE LIVROS</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="left" target="_blank">     <p>     <p><b> Recens&atilde;o cr&iacute;tica do livro de Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patr&iacute;cia Martins Goulart e Virginia Junqueira (2017) - Trabalhar no SUS: gest&atilde;o, repercuss&otilde;es psicossociais e pol&iacute;tica de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de </b></p>     <p><b> An&aacute;lisis cr&iacute;tico de la obra de Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patr&iacute;cia Martins Goulart y Virginia Junqueira (2017) - Trabajar en el SUS: gesti&oacute;n, repercusiones psicosociales y pol&iacute;tica de protecci&oacute;n de la salud <b></b> </b></p>     <p><b> Analyse critique de l&rsquo;ouvrage de Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patr&iacute;cia Martins Goulart et Virginia Junqueira (2017) - Travailler au SUS : gestion, r&eacute;percussions psychosociales et politique de protection de la sant&eacute; </b></p>     <p><b> Review of the book of Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patr&iacute;cia Martins Goulart and Virginia Junqueira (2017) -Working at SUS: management, psychosocial repercussions and health protection policy <b></b> </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b> Arthur Chioro</b></p>     <p> Universidade Federal de S&atilde;o Paulo. Escola Paulista de Medicina. Departamento de Medicina Preventiva. Rua Botucatu, 740, Vila Clementino, S&atilde;o Paulo-SP (Brasil). CEP 04023-062; <a href="mailto:arthur.chioro@unifesp.br">arthur.chioro@unifesp.br</a> </p>     <p>&nbsp;</p> <hr>     <p> Refer&ecirc;ncia do livro : Lacaz, F. A. de C., Goulart, P. M., &amp; Junqueira, V. (2017). <i> Trabalhar no SUS: gest&atilde;o, repercuss&otilde;es psicossociais e pol&iacute;tica de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de </i> . S&atilde;o Paulo: Hucitec </p>     <p>&nbsp;</p> <hr>     <p><b> 1. Como ser&aacute; a vida no mundo p&oacute;s-pandemia de Sars-Cov-2? </b></p>     <p> Como ser&aacute; a vida no mundo p&oacute;s-pandemia de Sars-Cov-2 &eacute; ainda uma inc&oacute;gnita, repleta de d&uacute;vidas e, por enquanto, poucas respostas. Entre as certezas que emergem de uma an&aacute;lise preliminar da crise sanit&aacute;ria a que fomos submetidos em escala global, duas est&atilde;o diretamente relacionadas ao livro aqui resenhado. A primeira, &eacute; o in&eacute;dito e elevado grau de visibilidade que a pandemia de Covid-19 proporcionou aos sistemas nacionais de sa&uacute;de, seus servi&ccedil;os de sa&uacute;de e, em particular, aos trabalhadores da sa&uacute;de. As cenas transmitidas em tempo real expressam insufici&ecirc;ncias, desorganiza&ccedil;&atilde;o e a necessidade de improvisar frente &agrave; satura&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os de cuidados cr&iacute;ticos, mesmo em pa&iacute;ses do hemisf&eacute;rio norte considerados ricos. Mostram, por outro lado, a &aacute;rdua labuta de m&eacute;dicos, enfermeiros e outros profissionais, dedicando-se a extenuantes jornadas laborais, fortemente paramentados, an&ocirc;nimos e muitas vezes at&ocirc;nitos, como pe&ccedil;as de uma grande engrenagem, expostos a riscos, para cada um e suas fam&iacute;lias. O reconhecimento p&uacute;blico da dedica&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores da sa&uacute;de, identificados como her&oacute;is e hero&iacute;nas p&oacute;s-modernas (j&aacute; que a maioria &eacute; constitu&iacute;da por mulheres), aos cuidados dos enfermos, protegendo e lutando por suas vidas, abre a possibilidade de lan&ccedil;ar luz sobre o valor de uso da sa&uacute;de e a necessidade de reconhecer o car&aacute;ter essencial da sa&uacute;de na produ&ccedil;&atilde;o da vida, bem como a de valorizar o trabalho e de garantir condi&ccedil;&otilde;es dignas de trabalho em sa&uacute;de. Tornou-se poss&iacute;vel, como nunca antes, fazer o debate e a disputa p&uacute;blica sobre o direto &agrave; sa&uacute;de como um direito social, universal e integral, e reivindicar os investimentos necess&aacute;rios para o fortalecimento e sustentabilidade de sistemas nacionais de sa&uacute;de, temas interditados at&eacute; ent&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da hegemonia do discurso econ&ocirc;mico que imp&ocirc;s, em todo o mundo, a ado&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de sa&uacute;de centradas na austeridade fiscal e na privatiza&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de, que se demonstraram incapazes de responder aos imperativos de proteger a vida e a sa&uacute;de das popula&ccedil;&otilde;es (Menezes et al., 2019). Trata-se de c&aacute;lculo apartado ou negligenciado na formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, num mundo cada vez mais pautado pela l&oacute;gica neoliberal, agora colocada em xeque pela pandemia de Sars-Cov-2 e pelos efeitos da crise econ&ocirc;mica por ela potencializados. A segunda certeza &eacute; a de que o trabalho, como hoje entendido, ser&aacute; profundamente reconfigurado no &ldquo;novo normal&rdquo;, tanto para atender exig&ecirc;ncias advindas das transforma&ccedil;&otilde;es nas condi&ccedil;&otilde;es e na organiza&ccedil;&atilde;o do processo de trabalho, como aquelas resultantes da invas&atilde;o do teletrabalho no mundo da vida, em escala at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o experimentada. Ferramentas digitais utilizadas durante o per&iacute;odo de isolamento social se associam agora aos diferentes dispositivos e estrat&eacute;gias de explora&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho, tomando conta de todos os dom&iacute;nios, invadindo a privacidade, o lar e cada segundo do tempo dispon&iacute;vel dos trabalhadores. Tais mudan&ccedil;as indicam profundas transforma&ccedil;&otilde;es no mundo do trabalho e o uso intensivo da inform&aacute;tica se coloca como mais um dispositivo permitindo dar sustenta&ccedil;&atilde;o e aprofundar aquilo que Bourdieu (1998) denominou &ldquo;restaura&ccedil;&atilde;o da ordem conservadora&rdquo;, em curso h&aacute; v&aacute;rias d&eacute;cadas nos pa&iacute;ses capitalistas centrais e agora, de forma cada vez mais voraz, nos pa&iacute;ses de baixa e m&eacute;dia renda. &Eacute; nesse contexto que se inscrevem os ataques ao trabalho em sa&uacute;de, antecipados j&aacute; no pref&aacute;cio do livro, de autoria de &Aacute;quilas Mendes, operados a partir da l&oacute;gica da expropria&ccedil;&atilde;o do trabalho, privatiza&ccedil;&atilde;o e mercantiliza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de, precariza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es e v&iacute;nculos de trabalho, extens&atilde;o das jornadas, entre outras caracter&iacute;sticas, que repercutem e est&atilde;o diretamente relacionadas com o adoecimento f&iacute;sico e mental dos trabalhadores. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b> 2. O legado de Francisco Lacaz </b></p>     <p> O livro <i> &ldquo;Trabalhar no SUS: gest&atilde;o, repercuss&otilde;es psicossociais e pol&iacute;tica de prote&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de&rdquo; </i> , organizado pelos pesquisadores brasileiros Francisco Antonio de Castro Lacaz, Patr&iacute;cia Martins Goulart e Virginia Junqueira e publicado pela Hucitec, foi produzido por autores reconhecidos do campo da Sa&uacute;de Coletiva e da Sa&uacute;de do Trabalhador. Busca apresentar os resultados da pesquisa - e os produtos acad&ecirc;micos dela resultante, como tr&ecirc;s disserta&ccedil;&otilde;es de mestrado e duas teses de doutorado -, de car&aacute;ter qualiquantitativo, realizada entre 2012 e 2014 em dois munic&iacute;pios brasileiros de grande porte populacional pelo grupo de pesquisa da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo liderado por Francisco Lacaz. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Na verdade, o livro coroa o legado de mais de quatro d&eacute;cadas dedicadas ao ensino, &agrave; pesquisa e interven&ccedil;&otilde;es militantes junto ao movimento oper&aacute;rio realizadas no campo da Sa&uacute;de do Trabalhador pelo Professor Francisco Lacaz, constituindo uma refer&ecirc;ncia obrigat&oacute;ria no campo da Sa&uacute;de do Trabalhador no Brasil. </p>     <p> Trata-se assim de uma produ&ccedil;&atilde;o implicada, produzida por sujeitos epist&ecirc;micos militantes (Merhy, 2004) que buscam analisar criticamente a gest&atilde;o do trabalho em sa&uacute;de e ao mesmo tempo fornecer subs&iacute;dios aos gestores municipais na perspectiva do estabelecimento de pol&iacute;ticas de preven&ccedil;&atilde;o de agravos e de promo&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de dos trabalhadores da sa&uacute;de. </p>     <p> O referencial te&oacute;rico-conceitual utilizado se assenta no campo de pr&aacute;ticas e saberes denominado <i>Sa&uacute;de do Trabalhador</i>, que toma como objeto de estudo as rela&ccedil;&otilde;es entre processos de trabalho e sa&uacute;de, e como categoria central o conceito de processo de trabalho sob a perspectiva marxista, buscando uma abordagem para al&eacute;m da medicina do trabalho e da sa&uacute;de ocupacional. Lan&ccedil;a m&atilde;o, ainda, das contribui&ccedil;&otilde;es: da Sa&uacute;de Coletiva, considerando a determina&ccedil;&atilde;o social do processo sa&uacute;de/doen&ccedil;a e, nesta, a categoria trabalho como essencial; do Modelo Oper&aacute;rio Italiano; das contribui&ccedil;&otilde;es da Medicina Social Latino-americana e da pr&oacute;pria Sa&uacute;de P&uacute;blica. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b> 3. Um livro em oito cap&iacute;tulos </b></p>     <p> O livro est&aacute; disposto em oito cap&iacute;tulos. <b>No cap&iacute;tulo 1</b>, a gest&atilde;o do trabalho e o Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS) s&atilde;o discutidos, j&aacute; sob o &ldquo;reinado do mercado&rdquo;, &agrave; luz da produ&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas neoliberais, da perspectiva de reformas e atualiza&ccedil;&atilde;o do papel do Estado (de empres&aacute;rio a gerente), da tens&atilde;o entre o p&uacute;blico e o privado e do gerencialismo, que permeiam toda a obra, que dialoga consistente e criticamente seus fundamentos e principais consequ&ecirc;ncias, com &ecirc;nfase para a precariza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es e processos de trabalho, privatiza&ccedil;&atilde;o e privilegiamento de resultados em detrimento de processos. <b>No cap&iacute;tulo 2</b> s&atilde;o apresentados os aspectos metodol&oacute;gicos e instrumentos da pesquisa. <b>No cap&iacute;tulo 3,</b> diferentes aspectos te&oacute;ricos e emp&iacute;ricos da gest&atilde;o do trabalho em sa&uacute;de s&atilde;o abordados, apontando para a discuss&atilde;o da precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho na sa&uacute;de para al&eacute;m da dimens&atilde;o burocr&aacute;tico-administrativa, e da din&acirc;mica interior do processo de trabalho, envolvendo as formas de contrata&ccedil;&atilde;o e v&iacute;nculo, a organiza&ccedil;&atilde;o da jornada de trabalho, as rela&ccedil;&otilde;es de mando e do estranhamento no trabalho contempor&acirc;neo. <b>O cap&iacute;tulo 4</b> destina-se &agrave; an&aacute;lise das repercuss&otilde;es da gest&atilde;o do trabalho sobre a sa&uacute;de e o sofrimento f&iacute;sico e mental dos trabalhadores da sa&uacute;de dos dois munic&iacute;pios, apontando dados de afastamento do trabalho por doen&ccedil;a, suas poss&iacute;veis causas e sugest&otilde;es de interven&ccedil;&atilde;o. <b>O Cap&iacute;tulo 5</b>, produzido a partir de uma consistente revis&atilde;o sistem&aacute;tica da literatura, aborda as repercuss&otilde;es psicossociais e as estrat&eacute;gias de resist&ecirc;ncia e de enfrentamento adotadas pelos trabalhadores em rela&ccedil;&atilde;o aos constrangimentos da gest&atilde;o e seus reflexos sobre os processos e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho, a partir de contribui&ccedil;&otilde;es da Psicologia Social, da Psicopatologia, da Psicodin&acirc;mica do Trabalho e da Qualidade de Vida n(d)o Trabalho. J&aacute; <b>no Cap&iacute;tulo 6</b>, s&atilde;o consideradas a estrutura e atua&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;o existente num dos munic&iacute;pios estudados na &aacute;rea da assist&ecirc;ncia, preven&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de dos trabalhadores municipais. Em seguida, <b>no Cap&iacute;tulo7</b>, a partir da aplica&ccedil;&atilde;o do question&aacute;rio Estudo de Qualidade de Vida no Trabalho (EQVT) adaptado, s&atilde;o analisadas a Gest&atilde;o do Trabalho em Sa&uacute;de e as repercuss&otilde;es psicossociais na vis&atilde;o de m&eacute;dicos e enfermeiros. Finalmente, <b>no oitavo e &uacute;ltimo cap&iacute;tulo</b>, as recomenda&ccedil;&otilde;es da pesquisa embasam a proposi&ccedil;&atilde;o de uma Pol&iacute;tica de Sa&uacute;de do Trabalhador da Sa&uacute;de no &acirc;mbito municipal, concebida a partir da atua&ccedil;&atilde;o intra e intersetorial; da ruptura da dicotomia entre assist&ecirc;ncia e vigil&acirc;ncia em sa&uacute;de, na perspectiva da preven&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o; do envolvimento de distintos &oacute;rg&atilde;os, de diferentes esferas de governo, que atuam na sa&uacute;de dos trabalhadores nos munic&iacute;pios; e, do protagonismo e ampla participa&ccedil;&atilde;o social dos sujeitos diretamente interessados. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b> 4. Duas quest&otilde;es sens&iacute;veis</b></p>     <p> Dois temas real&ccedil;ados nesta obra nos parecem merecer toda a aten&ccedil;&atilde;o dos leitores. </p>     <p> O primeiro &eacute; relativo &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o de Planos de Cargos, Carreiras e Sal&aacute;rios (PCCS), em contexto pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico cr&iacute;tico. Ainda que seja de fato um interessante dispositivo anal&iacute;tico, &eacute; necess&aacute;rio reconhecer que o PCCS &eacute; uma ferramenta de gest&atilde;o que foi pouco considerada na administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica brasileira, seja por gestores seja pelos pr&oacute;prios trabalhadores e suas representa&ccedil;&otilde;es sindicais, como o emp&iacute;rico produzido na pesquisa evidencia. Mas &eacute; preciso considerar que a Administra&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica nunca tratou como prioridade a implanta&ccedil;&atilde;o dos PCCS, em particular no &acirc;mbito do SUS, porque seus postulados antagonizam com os princ&iacute;pios fundantes da Nova Gest&atilde;o P&uacute;blica. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Outro quest&atilde;o para a qual quer&iacute;amos abrir aqui o debate, diz respeito ao projeto de constru&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica de sa&uacute;de do trabalhador da sa&uacute;de no &acirc;mbito municipal no quadro de uma interven&ccedil;&atilde;o da pesquisa participante que acaba por nem sempre poder contar com o efetivo protagonismo dos trabalhadores e/ou de suas representa&ccedil;&otilde;es sindicais. Tal constata&ccedil;&atilde;o, analisada pelos autores, &eacute; provavelmente fruto e reflexo dos tempos que vivemos, marcados pelo individualismo e pela fragiliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o de redes coletivas e solid&aacute;rias capazes de incidir na correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as dos processos sociais em disputa. Mas &eacute; verdade que as situa&ccedil;&otilde;es em causa foram moldadas por diretrizes e dispositivos da Pol&iacute;tica Nacional de Sa&uacute;de do Trabalhador que, embora resultantes do ac&uacute;mulo produzido pelos diferentes atores envolvidos, acabaram por reproduzir o desenho tradicional de formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, do tipo <i>top-down</i>. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b> 5. Um legado que ter&aacute; os seus continuadores </b></p>     <p> O livro termina sem<b> </b>um cap&iacute;tulo destinado &agrave;s conclus&otilde;es ou considera&ccedil;&otilde;es finais, deixando o leitor instigado e convidado a refletir sobre os desdobramentos, a partir de 2016, tomados pela politica de sa&uacute;de do trabalhador da sa&uacute;de no a&#094;mbito municipal, desencadeada a partir dos resultados do estudo e impactadas pela pesquisa participante. Para compreender tal &ldquo;deslize editorial&rdquo; imp&otilde;e-se o reconhecimento de um pressuposto que margeia explicitamente o referencial te&oacute;rico adotado pelos autores, para quem a gest&atilde;o do trabalho em sa&uacute;de &eacute;, para al&eacute;m de uma quest&atilde;o de tecnicidade, um constructo pol&iacute;tico. Aqui, n&atilde;o podemos deixar de referir que o Brasil enfrentou um agravamento da crise econ&ocirc;mica, que atingira o pa&iacute;s a partir de 2014, e sua democracia foi abalada por um golpe jur&iacute;dico-pol&iacute;tico-midi&aacute;tico que dep&ocirc;s a presidente legitimamente eleita, em 2016, em um movimento alinhado com a onda conservadora que varreu o mundo, atingindo fortemente, em particular, governos democr&aacute;ticos e populares da Am&eacute;rica Latina. Ao lado disso ocorreu a aprova&ccedil;&atilde;o de uma emenda &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, em dezembro de 2016, a qual resultou na ado&ccedil;&atilde;o de um Novo Regime Fiscal (Or&ccedil;amental) que instituiu um regime de austeridade, com o congelamento dos gastos p&uacute;blicos por 20 anos, al&eacute;m da aprova&ccedil;&atilde;o de uma reforma trabalhista e da previd&ecirc;ncia social que desregulamentaram direitos elementares, resultantes de conquistas hist&oacute;ricas dos trabalhadores, agravando as condi&ccedil;&otilde;es de precariza&ccedil;&atilde;o, inseguran&ccedil;a e explora&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho (Reis et al., 2016). Os efeitos dessas medidas para a pol&iacute;tica de sa&uacute;de e o SUS s&atilde;o extremamente graves (Reis, 2018). Na esteira de uma reforma dessa magnitude, o diagn&oacute;stico que se delineia &eacute; a destrui&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, com forte impacto sobre os servi&ccedil;os e os trabalhadores da sa&uacute;de, inclusive os trabalhadores do servi&ccedil;o p&uacute;blico, apontados como bodes expiat&oacute;rios pelos males da sociedade. Al&eacute;m disso, a conjuntura conservadora e a demoniza&ccedil;&atilde;o das esquerdas abriram espa&ccedil;o para o cen&aacute;rio tra&ccedil;ado e discutido em profundidade no livro organizado por Lacaz, Goulart &amp; Junqueira. </p>     <p> O Brasil, para al&eacute;m das contradi&ccedil;&otilde;es e resist&ecirc;ncias experimentadas desde a redemocratiza&ccedil;&atilde;o e da aprova&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988, enquadrou-se definitivamente na ordem neoliberal. Todavia, coerente com o prop&oacute;sito condutor do livro, que se pauta fortemente no materialismo hist&oacute;rico e na vis&atilde;o de que a pol&iacute;tica &eacute; determinante dos processos sociais, e que a a&ccedil;&atilde;o humana (e coletiva) &eacute; decisiva para delinear o desfecho da hist&oacute;ria, parece-nos restar um desafio que termina em aberto, como uma esp&eacute;cie de convite para que os pesquisadores mais jovens do grupo e outros investigadores brasileiros e de outros pa&iacute;ses, que se dedicam a estudar os processos de gest&atilde;o do trabalho em sa&uacute;de, possam escrever, a partir do esfor&ccedil;o investigativo e da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos engajados com uma certa vis&atilde;o de mundo, ainda contra-hegem&ocirc;nica, os pr&oacute;ximos cap&iacute;tulos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Refer&ecirc;ncias biogr&aacute;ficas</b></p>     <p> Menezes A. P. R., Moretti B., &amp; Reis, A. A. C. (2019). O futuro do SUS: impactos das reformas neoliberais na sa&uacute;de p&uacute;blica &ndash; austeridade versus universalidade. <i>Sa&uacute;de </i><i>D</i><i>ebate</i>, <i>43</i>(5), 58-70. <a href="http://dx.doi.org/10.1590/0103-11042019S505" target="_blank"> http://dx.doi.org/10.1590/0103-11042019S505 </a> </p>     <p>Bourdieu, P. (1998). <i>Contrafogos: t&aacute;ticas para enfrentar a invas&atilde;o neoliberal</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. </p>     <!-- ref --><p> Merhy, E. E. (2004). O Conhecer Militante do Sujeito Implicado: O Desafio em Reconhec&ecirc;-lo como saber v&aacute;lido. In: Franco, T.B. e col. <i> Acolher Chapec&oacute;: uma experi&ecirc;ncia de mudan&ccedil;a do modelo assistencial, com base no processo de trabalho </i> (pp. 21-45). S&atilde;o Paulo: Editora Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1640427&pid=S1646-5237202000020001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p> Reis, A. A. C., Soter, A. P. M., Furtado, L. A. C., &amp; Pereira, S. S. S. (2016). Tudo a temer: financiamento, rela&ccedil;&atilde;o p&uacute;blico e privado e o futuro do SUS. <i>Sa&uacute;de Debate</i>, <i>40</i>, 122-135. <a href="http://dx.doi.org/10.1590/0103-%2011042016s11" target="_blank"> http://dx.doi.org/10.1590/0103- 11042016s11 </a> </p>     <p> Reis, A. A. C. (2018). O que ser&aacute; do Brasil e do SUS? <i>Reciis &ndash; Rev Eletron Comun Inf Inov Sa&uacute;de</i>, <i>12</i>(2), 119-24. <a href="https://doi.org/10.29397/reciis.v12i2.1551" target="_blank"> https://doi.org/10.29397/reciis.v12i2.1551 </a> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b> Manuscrito recebido em</b> : 17/06/2020 <br/>     <b> Aceite ap&oacute;s peritagem </b>: 06/08/2020 </p>      ]]></body><back>
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