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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A mudança estrutural do Público e do Privado]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this essay we will try to delineate a kind of genealogy of public and private binomial identifying, first of all, the historical sense of a secular dichotomy, then turning to the eruption of the private space par excellence. In the third and last part, we will pay special attention to the democratization of intimacy without, however, forgetting how progressive mediatisation of society contributes to the confusion between public and private experiences.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A mudan&ccedil;a estrutural do P&uacute;blico e do Privado</b></p>     <p><b>The Structural Transformation of the Public and Private </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>H&eacute;lder Prior*, Jo&atilde;o Carlos Sousa**</b></p>     <p>*Online Communication Lab (LabCom) – Universidade da Beira Interior, Rua Marqu&ecirc;s D'&Aacute;vila e Bolama 6201-001 Covilh&atilde;. Observatorio Iberoamericano de la Comunicaci&oacute;n - Autonomous University of Barcelona (<a href="mailto:helder.prior@gmail.com">helder.prior@gmail.com</a>)</p>     <p> **Online Communication Lab (LabCom). Universidade da Beira Interior, Rua Marqu&ecirc;s D'&Aacute;vila e Bolama 6201-001 Covilh&atilde;. (<a href="mailto:joao.sousa@labcom.ubi.pt">joao.sousa@labcom.ubi.pt</a>)</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO </b></p>     <p>Neste ensaio procuraremos delinear uma esp&eacute;cie de genealogia do bin&oacute;mio p&uacute;blico/privado identificando, num primeiro momento, os principais sentidos hist&oacute;ricos de uma dicotomia secular para, em seguida, nos debru&ccedil;armos sobre a irrup&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o privado por excel&ecirc;ncia. Na terceira e &uacute;ltima parte, prestaremos especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da intimidade sem, no entanto, esquecer a forma como a progressiva mediatiza&ccedil;&atilde;o da sociedade contribui para a confus&atilde;o entre as experi&ecirc;ncias p&uacute;blicas e as experi&ecirc;ncias privadas. </p>     <p><b>Palavras-chave:</b> P&uacute;blico, Privado, Intimidade</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b> </p>     <p>In this essay we will try to delineate a kind of genealogy of public and private binomial identifying, first of all, the historical sense of a secular dichotomy, then turning to the eruption of the private space par excellence. In the third and last part, we will pay special attention to the democratization of intimacy without, however, forgetting how progressive mediatisation of society contributes to the confusion between public and private experiences.</p>     <p><b>Keywords</b>: Public, Private, Intimacy</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Um debate secular</b></p>     <p>Talvez n&atilde;o seja de todo despropositado iniciar esta reflex&atilde;o partindo do pressuposto de que, na contemporaneidade, o debate sobre o p&uacute;blico e o privado readquiriu uma certa densidade epistemol&oacute;gica, pol&iacute;tica, jur&iacute;dica e social. Epistemol&oacute;gica porque enfrentamos a necessidade de melhor compreender as no&ccedil;&otilde;es de p&uacute;blico e de privado na actualidade tendo em conta o conte&uacute;do conferido a cada conceito ao longo dos tempos; pol&iacute;tica e jur&iacute;dica porque n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel estudar a vida privada sem ter em conta a margem de autonomia que lhe &eacute; deixada pelo poder pol&iacute;tico e pela doutrina jur&iacute;dica; social porque as varia&ccedil;&otilde;es do bin&oacute;mio p&uacute;blico/privado s&oacute; podem ser empreendidas avaliando os comportamentos dos homens, as regras que estes imp&otilde;em a si pr&oacute;prios, ou que lhes s&atilde;o impostas pelos h&aacute;bitos das comunidades onde vivem, bem como as pr&aacute;ticas quotidianas que, naturalmente, variam segundo a pessoa, os lugares e os tempos. &Eacute; certo que tra&ccedil;ar as fronteiras entre o p&uacute;blico e o privado tem sido uma preocupa&ccedil;&atilde;o desde a antiguidade cl&aacute;ssica, facto que revela um horizonte de discuss&atilde;o bastante amplo em termos hist&oacute;ricos. Por&eacute;m, o facto de a rela&ccedil;&atilde;o p&uacute;blico/privado consistir num debate secular n&atilde;o significa que se tenha chegado a defini&ccedil;&otilde;es consensuais acerca daquilo que est&aacute; contido em cada uma das esferas, at&eacute; porque, como j&aacute; referimos, os conceitos apresentam uma variabilidade explicada por fen&oacute;menos pol&iacute;ticos, culturais e at&eacute; jur&iacute;dicos. O bin&oacute;mio p&uacute;blico/privado acabou por se converter numa “grande dicotomia”, com v&aacute;rias categorias de sentido, que tem despertado o interesse das disciplinas jur&iacute;dicas, hist&oacute;ricas e pol&iacute;ticas, mas tamb&eacute;m das Ci&ecirc;ncias Sociais, uma vez que as no&ccedil;&otilde;es de p&uacute;blico e privado t&ecirc;m funcionado, ao longo dos tempos, como componentes estruturantes do mundo simb&oacute;lico. Genericamente, podemos falar de uma grande dicotomia quando nos encontramos perante a possibilidade de dividir um universo em duas esferas “conjuntamente exaustivas” e “reciprocamente exclusivas”. Conjuntamente exaustivas no sentido de que todos os entes pertencentes a uma determinada esfera nela tenham lugar; reciprocamente exclusivas na medida em que um ente compreendido na primeira n&atilde;o pode ser, simultaneamente, compreendido na segunda. De outro modo, um dos lugares-comuns do debate sobre o p&uacute;blico e o privado consiste em afirmar que cada esfera se define em contraste com a outra, surgindo o privado muitas vezes definido como “n&atilde;o-p&uacute;blico”, e que aumentando a esfera do p&uacute;blico diminui a do privado e aumentando a do privado diminui a do p&uacute;blico (Bobbio, 2009: 13-14).    </p>     <p>Do ponto de vista geneal&oacute;gico, talvez tenha sido a civiliza&ccedil;&atilde;o hel&eacute;nica aquela que melhor demarcou o p&uacute;blico, enquanto esfera da pol&iacute;tica por excel&ecirc;ncia e governo da cidade, do privado, do dom&iacute;nio da casa e dos processos biol&oacute;gicos da vida e da morte pr&oacute;prios do reino da necessidade. No Espa&ccedil;o P&uacute;blico Cl&aacute;ssico, o privado &eacute; um lugar oposto e que existe separadamente face ao p&uacute;blico, sendo este o dom&iacute;nio por excel&ecirc;ncia da liberdade e da organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Na Esfera P&uacute;blica Ateniense, o Senhor eleva-se &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o, de <i>zoon politikon</i>, saindo do reino pr&eacute;-pol&iacute;tico da necessidade, da domina&ccedil;&atilde;o e dos processos biol&oacute;gicos. Com efeito, privadas eram as coisas que n&atilde;o diziam respeito &agrave; comunidade e que, por isso mesmo, n&atilde;o deveriam ser partilhadas, desveladas, acess&iacute;veis a olhares alheios. O privado encerra uma dimens&atilde;o de domesticidade, mas tamb&eacute;m da reserva e ocultamento pr&oacute;prias da esfera da casa (<i>oikia</i>), enquanto o p&uacute;blico denota o comum, mas tamb&eacute;m a visibilidade e a apar&ecirc;ncia do homem enquanto animal pol&iacute;tico no espa&ccedil;o p&uacute;blico da <i>agora</i> (Cf. Carvalheiro, Prior, Morais, 2013).                        </p>     <p>Esta concep&ccedil;&atilde;o helen&iacute;stica de p&uacute;blico e privado foi herdada pela civiliza&ccedil;&atilde;o romana, mas apesar da distin&ccedil;&atilde;o entre p&uacute;blico e privado continuar a servir de quadro &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do Espa&ccedil;o P&uacute;blico do <i>f&oacute;rum</i>, os conceitos sofreram o enfoque do Direito romano consagrando-se a distin&ccedil;&atilde;o entre <i>publicus</i> - <i>quod ad statum rei romanae spectat</i> -, coincidindo o p&uacute;blico com o dom&iacute;nio do Estado, e <i>privatus</i> – <i>quod ad singulorum utilitatem</i> -, apontando o privado para aquilo que se refere ao indiv&iacute;duo singular. Durante a Idade M&eacute;dia esta oposi&ccedil;&atilde;o permitiu regular a ordem feudal, mas o conceito de p&uacute;blico revestiu-se de uma nova configura&ccedil;&atilde;o. Efectivamente, os textos medievais associam o conceito de p&uacute;blico aos espa&ccedil;os que escapam &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o exclusiva ou privada, passando este a compreender os caminhos, as ruas, as pra&ccedil;as, os rios e alguns equipamentos e infra-estruturas. &Eacute;, precisamente, no contexto da ordem medieval que surge a ideia de comunidade e de espa&ccedil;os p&uacute;blicos comuns que podem ser livremente utilizados por essa mesma comunidade (Cf. Rodrigues, s/d). Como se sabe, o bin&oacute;mio p&uacute;blico/privado constitui-se como um fen&oacute;meno de fronteiras difusas e amb&iacute;guas, fronteiras que, de resto, t&ecirc;m sido sucessivamente alteradas por uma variabilidade hist&oacute;rica que importa analisar. Durante o per&iacute;odo do Absolutismo R&eacute;gio foi, precisamente, a distin&ccedil;&atilde;o <i>p&uacute;blico – n&atilde;o p&uacute;blico</i> que fundamentou e legitimou a doutrina pol&iacute;tica da raz&atilde;o de Estado. No contexto pol&iacute;tico do desenvolvimento do Estado moderno, a pr&aacute;tica racional de governa&ccedil;&atilde;o contempla o recurso aos <i>arcana imperii</i>, aos segredos de Estado, ao car&aacute;cter oculto de m&aacute;ximas de governa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o devem ser tornadas <i>p&uacute;blicas</i> por dizerem respeito &agrave; conserva&ccedil;&atilde;o do Estado, aos <i>jus defensionis</i> e &agrave; <i>salus rei publicae</i> (Meinecke, 1983, Senellart, 1995, Zarka, 1994). Historicamente n&atilde;o se deve, portanto, confundir a distin&ccedil;&atilde;o p&uacute;blico/privado, no sentido da “grande dicotomia” que temos vindo a analisar, com a distin&ccedil;&atilde;o p&uacute;blico/secreto, poder vis&iacute;vel/poder invis&iacute;vel. Do ponto de vista conceptual, o car&aacute;cter p&uacute;blico do poder, no qual por p&uacute;blico se entende aquilo que acontece &agrave; vista do P&uacute;blico, algo que &eacute;, portanto, manifesto, aberto, vis&iacute;vel, por oposi&ccedil;&atilde;o ao secreto, &eacute; um problema diferente daquele que se refere &agrave; esfera de compet&ecirc;ncia do poder pol&iacute;tico distinto do poder dos privados. Com efeito, o poder pol&iacute;tico &eacute; o poder p&uacute;blico no sentido da grande dicotomia mesmo quando n&atilde;o &eacute; p&uacute;blico, n&atilde;o age em p&uacute;blico, subtrai-se do <i>publicum</i> e n&atilde;o &eacute; controlado por este. Foi Immanuel Kant quem exp&ocirc;s com clareza o problema do car&aacute;cter p&uacute;blico do poder, contrariando o princ&iacute;pio da publicidade &agrave; teoria dos <i>arcana imperii</i> dominante na &eacute;poca do poder absoluto. Ao <i>arcanum</i> do poder autocr&aacute;tico, a filosofia do Iluminismo responde com a exig&ecirc;ncia da publicidade enquanto princ&iacute;pio apod&iacute;ctico e f&oacute;rmula transcendental do direito p&uacute;blico. Kant sustenta que a &uacute;nica forma de garantir &agrave; actividade pol&iacute;tica uma justifica&ccedil;&atilde;o &eacute;tica &eacute; a condena&ccedil;&atilde;o do segredo nos actos do governo sendo “injustas todas as ac&ccedil;&otilde;es que se referem ao direito de outros homens cujas m&aacute;ximas n&atilde;o se harmonizem com a publicidade” (Kant, 2004: 165).               </p>     <p>Deste modo, e como com acerto constata Niklas Luhmann na obra onde versa sobre <i>A Improbabilidade da Comunica&ccedil;&atilde;o</i>, s&oacute; no s&eacute;culo XVIII se reuniram as duas distin&ccedil;&otilde;es, a de p&uacute;blico/privado e a de p&uacute;blico/secreto, sendo que s&oacute; na parte final deste s&eacute;culo surgiu o conceito moderno de opini&atilde;o p&uacute;blica como soberano secreto e autoridade invis&iacute;vel da sociedade pol&iacute;tica (Luhmann, 1992: 65-66). Trata-se de um <i>publicum</i> constitu&iacute;do por pessoas privadas que procuram obrigar o poder p&uacute;blico (estatal) a legitimar-se perante o tribunal da opini&atilde;o p&uacute;blica. Na esfera p&uacute;blica burguesa o p&uacute;blico converteu-se numa inst&acirc;ncia de decis&atilde;o que procura defender os interesses privados dos cidad&atilde;os face &agrave; autoridade do Estado. A esfera p&uacute;blica que, outrora, tinha sido considerada uma esfera do poder p&uacute;blico, separa-se deste e converte-se num novo f&oacute;rum onde as pessoas privadas, reunidas em qualidade de p&uacute;blico, levam a cabo um processo de “auto-ilustra&ccedil;&atilde;o”, de exerc&iacute;cio da racionalidade e de <i>gouvernement by discussion</i>. Este conceito de esfera p&uacute;blica, tal como emergiu no esp&iacute;rito da Ilustra&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XVIII, alude &agrave; ideia de um espa&ccedil;o de ac&ccedil;&atilde;o onde os membros de uma comunidade fazem <i>uso p&uacute;blico</i> da raz&atilde;o, convertendo o conflito em debate e problematizando os assuntos de interesse comum. A Esfera P&uacute;blica burguesa, enquanto espa&ccedil;o de sociabilidade constitu&iacute;do por pessoas privadas que reclamam uma esfera regulada &agrave; margem da autoridade p&uacute;blica do Estado, viu nascer a inst&acirc;ncia do P&uacute;blico sujeito, uma entidade cr&iacute;tica que s&oacute; atrav&eacute;s do uso p&uacute;blico da raz&atilde;o consegue publicidade (<i>&Ouml;ffentlichkeit)</i>. Mas a nova esfera p&uacute;blica n&atilde;o diferenciou, apenas, o Estado da sociedade. A esfera privada tamb&eacute;m sofreu transforma&ccedil;&otilde;es, nomeadamente aquelas que resultam da diferencia&ccedil;&atilde;o entre economia (mercado) e fam&iacute;lia enquanto “esfera &iacute;ntima” e, portanto, enquanto lugar mais privado de todos (Habermas, 2012). &Eacute; neste processo de desenvolvimento da modernidade que vemos surgir um novo quadro de privatiza&ccedil;&atilde;o da vida. No s&eacute;culo XVIII surge uma altera&ccedil;&atilde;o no estilo arquitect&oacute;nico do lar burgu&ecirc;s que reserva cada vez mais import&acirc;ncia &agrave; esfera &iacute;ntima da fam&iacute;lia nuclear, isto &eacute;, &agrave; subjectividade e intimidade pr&oacute;prias dos seus membros. As casas constru&iacute;das de raiz oferecem mais espa&ccedil;o &agrave;s divis&otilde;es destinadas &agrave; salvaguarda da intimidade na vida dom&eacute;stica. Desenvolve-se, assim, o gosto pelo espa&ccedil;o privado edificando-se o sal&atilde;o como linha divis&oacute;ria entre a esfera privada e a esfera p&uacute;blica. As pessoas privadas saem da intimidade dos quartos para se projectarem no espa&ccedil;o institucional do sal&atilde;o que, por sua vez, representa o lugar de emancipa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mico-pol&iacute;tica. O <i>publicum </i>constitu&iacute;do por pessoas privadas que procuram o esclarecimento mediante o racioc&iacute;nio publicamente partilhado prov&eacute;m da subjectividade do espa&ccedil;o do lar. As altera&ccedil;&otilde;es arquitect&oacute;nicas nas casas constru&iacute;das de raiz s&atilde;o o reflexo da nova privatiza&ccedil;&atilde;o da vida. A divis&atilde;o comum para o homem, a mulher, os filhos e a criadagem tornou-se cada vez mais pequena surgindo, em contrapartida, o quarto espec&iacute;fico de cada membro da fam&iacute;lia burguesa. Efectivamente, foram os burgueses dos s&eacute;culos XVIII e XIX que defenderam, com toda a for&ccedil;a, o espa&ccedil;o privado inscrito no interior da casa, reduto de subjectividade e introspec&ccedil;&atilde;o onde os indiv&iacute;duos se v&ecirc;em a si pr&oacute;prios como seres independentes, esfera de humanidade do relacionamento &iacute;ntimo de seres humanos.                                            </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>A irrup&ccedil;&atilde;o do Privado</b></p>     <p>Derivado do latim <i>privatus</i>, que significa “despojar” ou “tirar”, pode dizer-se que o termo “privado” est&aacute; vinculado ao direito de os indiv&iacute;duos guardarem para si pr&oacute;prios o controlo de determinadas informa&ccedil;&otilde;es, isto &eacute;, a possibilidade de se manterem protegidos e &agrave; parte de qualquer conhecimento p&uacute;blico dos seus actos. A esfera privada compreende aqueles comportamentos, acontecimentos e condutas que os indiv&iacute;duos desejam que n&atilde;o se tornem do dom&iacute;nio p&uacute;blico e que, portanto, n&atilde;o est&atilde;o &agrave; vista da colectividade em geral nem de um c&iacute;rculo indeterminado de pessoas. A esfera privada refere-se, com efeito, ao indiv&iacute;duo escudado na intimidade ou no recato, um espa&ccedil;o de conv&iacute;vio com a pr&oacute;pria individualidade sem a perturba&ccedil;&atilde;o da publicidade e da intromiss&atilde;o alheia. De facto, o espa&ccedil;o privado &eacute; uma &aacute;rea particular reservada ao ref&uacute;gio e ao recolhimento, uma zona delimitada de imunidade e neglig&ecirc;ncia onde cada indiv&iacute;duo pode repousar as armas com as quais &eacute; conveniente estar provido quando se apresenta na esfera p&uacute;blica. Do ponto de vista hist&oacute;rico, Phillippe Ari&egrave;s e Georges Duby foram os precursores que abriram as primeiras brechas na explora&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o t&atilde;o vasto. Segundo Duby, “no privado encontra-se guardado o que se possui de mais precioso, que s&oacute; a n&oacute;s pertence, que n&atilde;o diz respeito a mais ningu&eacute;m, que &eacute; proibido divulgar, mostrar, porque &eacute; muito diferente das apar&ecirc;ncias que a honra exige salvar em p&uacute;blico” (Ari&egrave;s e Duby, 1989: 10).                                    </p>     <p>Para os gregos a esfera privada (<i>to idion</i>) manifestava a qualidade daquilo que, por n&atilde;o dizer respeito &agrave; comunidade, n&atilde;o deveria ser partilhado. &Eacute; por isso que a sua original acep&ccedil;&atilde;o &eacute; a de “priva&ccedil;&atilde;o”, priva&ccedil;&atilde;o do contacto com os outros e do relacionamento do indiv&iacute;duo com os seus semelhantes. Como constata Hannah Arendt, “para o indiv&iacute;duo, viver uma vida inteiramente privada significa, acima de tudo, ser destitu&iacute;do de coisas essenciais &agrave; vida verdadeiramente humana: ser privado da realidade que adv&eacute;m do facto de ser visto e ouvido por outros, privado de uma rela&ccedil;&atilde;o objectiva com eles, decorrente do facto de se ligar e separar deles atrav&eacute;s de um mundo comum de coisas, e privado da possibilidade de realizar algo mais permanente que a pr&oacute;pria vida” (Arendt, 2001: 74). Com efeito, nas circunst&acirc;ncias da antiga cidade-estado, a distin&ccedil;&atilde;o entre uma esfera da vida p&uacute;blica e uma esfera da vida privada corresponde &agrave; exist&ecirc;ncia das esferas da <i>polis</i> e da fam&iacute;lia como entidades inerentes ao mundo comum e &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da vida, respectivamente. Segundo o pensamento dos antigos, os assuntos relacionados com a sobreviv&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo e da sua fam&iacute;lia n&atilde;o eram assuntos pol&iacute;ticos, mas dom&eacute;sticos, privados, inerentes &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o familiar, uma organiza&ccedil;&atilde;o completamente diferente da <i>polis</i>.                                                        </p>     <p>No interior da esfera privada, o <i>labor</i> &eacute; a actividade que assegura a sobreviv&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo, uma actividade que tem que ver com as necessidades vitais de preserva&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie humana e que remete para os processos biol&oacute;gicos e para os imperativos de sobreviv&ecirc;ncia do <i>animal laborans</i>. Na esfera da fam&iacute;lia, os homens eram impelidos a viver em comunh&atilde;o devido &agrave;s necessidades e car&ecirc;ncias inerentes &agrave; pr&oacute;pria vida. A sobreviv&ecirc;ncia da esp&eacute;cie requeria a companhia de outros. Por conseguinte, o labor do homem na obten&ccedil;&atilde;o de alimentos para o sustento da fam&iacute;lia, e o labor da mulher no parto na sobreviv&ecirc;ncia da esp&eacute;cie, eram fun&ccedil;&otilde;es naturais do lar que decorriam da necessidade e da prem&ecirc;ncia da vida (<i>Idem</i>: 45). O labor &eacute;, assim, uma actividade pr&oacute;pria de um espa&ccedil;o privado cujo centro &eacute; constitu&iacute;do pela casa (<i>oikia</i>) e pela fam&iacute;lia. Designa uma das tr&ecirc;s actividades fundamentais da condi&ccedil;&atilde;o humana enraizadas na <i>vita activa</i>. As outras duas s&atilde;o o trabalho (<i>work</i>) e a ac&ccedil;&atilde;o. Segundo Arendt, o trabalho &eacute; a actividade correspondente ao “artificialismo” e &agrave; interven&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie humana na natureza. O trabalho produz um mundo “artificial” de coisas (<i>Idem</i>: 19) e a sua condi&ccedil;&atilde;o &eacute; a da mundanidade. Distintamente do <i>animal laborans </i>que se insere no ciclo vital da esp&eacute;cie humana, da animalidade e necessidade de sobreviv&ecirc;ncia, o <i>homo faber </i>actua sobre a materialidade das coisas para produzir um mundo artificial. &Eacute;, portanto, uma actividade especificamente humana na medida em que se refere a uma dimens&atilde;o fabricadora de mundanidade onde o homem actua directamente sobre a natureza, condicionando as coisas naturais e criando as condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas para que o homem possa “viver” e “estar” entre os homens (<i>inter homines esse</i>). Enquanto o labor pertence ao dom&iacute;nio da necessidade e &agrave; esfera privada, o trabalho &eacute; inerente &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de um mundo social e greg&aacute;rio. Ele fornece os elementos f&iacute;sicos e materiais para a condi&ccedil;&atilde;o humana da pluralidade, isto &eacute;, para a terceira actividade humana fundamental, o envolvimento do homem na pol&iacute;tica. A ac&ccedil;&atilde;o &eacute;, assim, uma condi&ccedil;&atilde;o humana eminentemente p&uacute;blica que remete para a alteridade, para a pluralidade e para a constru&ccedil;&atilde;o de um modo de vida pol&iacute;tico na <i>polis</i>. A ac&ccedil;&atilde;o &eacute; a &uacute;nica actividade que se exerce directamente entre os homens sendo a pluralidade n&atilde;o apenas a <i>conditio sine qua non</i>, mas tamb&eacute;m a <i>condition per quam</i> de toda a vida pol&iacute;tica (<i>Idem</i>: 10). A <i>raison d’&ecirc;tre </i>da ac&ccedil;&atilde;o resulta da “comparticipa&ccedil;&atilde;o de palavras e actos” (<i>Idem</i>: 248) no espa&ccedil;o p&uacute;blico atrav&eacute;s da <i>publicidade discursiva</i>. &Eacute; por isso que a <i>polis</i> &eacute; a organiza&ccedil;&atilde;o da comunidade resultante do agir e do falar de pessoas em comunh&atilde;o que assumem uma apar&ecirc;ncia expl&iacute;cita. O espa&ccedil;o p&uacute;blico cl&aacute;ssico &eacute; uma esfera de <i>epiphaneia</i>, um espa&ccedil;o onde os indiv&iacute;duos aparecem uns perante os outros, palco de visibilidade, de figura&ccedil;&atilde;o e apari&ccedil;&atilde;o, por oposi&ccedil;&atilde;o ao anonimato, ao ocultamento e &agrave; aus&ecirc;ncia de apari&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo perante os seus pares que caracteriza o car&aacute;cter privativo da esfera privada. Na antiga cidade-estado, a esfera privada era um lugar de invisibilidade e de n&atilde;o apari&ccedil;&atilde;o, uma esfera onde o indiv&iacute;duo se encontrava privado de uma rela&ccedil;&atilde;o objectiva com os outros que n&atilde;o passasse pela mera sobreviv&ecirc;ncia da esp&eacute;cie. O homem privado n&atilde;o se d&aacute; a conhecer, n&atilde;o se apresenta perante os seus pares, n&atilde;o se torna vis&iacute;vel, n&atilde;o exibe a sua apar&ecirc;ncia no espa&ccedil;o p&uacute;blico: “o que quer que ele fa&ccedil;a permanece sem import&acirc;ncia ou consequ&ecirc;ncia para os outros, e o que tem import&acirc;ncia para ele &eacute; desprovido de interesse para os outros” (<i>Idem</i>: 74). Com efeito, na civiliza&ccedil;&atilde;o hel&eacute;nica a esfera p&uacute;blica e a esfera privada constituem-se como esferas antit&eacute;ticas e apartadas que existem separadamente. O p&uacute;blico como governo da cidade e dom&iacute;nio de liberdade onde o indiv&iacute;duo exerce a sua condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o, e o privado definido como dom&iacute;nio da casa onde o indiv&iacute;duo se rege pelas leis inerentes ao reino da necessidade, &agrave; domina&ccedil;&atilde;o sobre as mulheres, as crian&ccedil;as e os escravos, e aos processos biol&oacute;gicos da vida e da morte.                                                     </p>     <p>Como vemos, os gregos entendiam as esferas p&uacute;blica e privada como entidades aut&oacute;nomas e definidas em completa oposi&ccedil;&atilde;o, sacrificando o privado em benef&iacute;cio do p&uacute;blico. A esfera privada assumia-se negativamente como a esfera do ocultamento onde os indiv&iacute;duos viviam uma exist&ecirc;ncia incerta e obscura, em contraste com o mundo comum da esfera p&uacute;blica caracterizado pela reuni&atilde;o dos indiv&iacute;duos na companhia uns dos outros. Efectivamente, foram os romanos, pelo contr&aacute;rio, que compreenderam que as esferas p&uacute;blica e privada s&oacute; poderiam subsistir sob a forma de coexist&ecirc;ncia (Arendt, 2001: 74). A casa dos romanos, desde sempre designada pelos termos gregos, <i>oikos</i> ou grupo humano residente, e <i>oikia</i> ou edif&iacute;cio que o abriga, surge como charneira dos dois dom&iacute;nios, espa&ccedil;o n&atilde;o inteiramente privado que, em certos casos, se insere no dom&iacute;nio p&uacute;blico. Nas aldeias, as chamadas “assembleias dos chefes de casa” assumiam as responsabilidades judiciais e fiscais da comunidade rural. Por outro lado, o n&uacute;cleo do <i>oikos</i> aristocr&aacute;tico, apesar de ser constitu&iacute;do por parentes, engloba, tamb&eacute;m, familiares (<i>oikeioi</i>), “servidores” (<i>ok&ecirc;toi</i>), e outros homens (<i>anthr&ocirc;poi</i>) e amigos (<i>philoi</i>) que agiam na cena pol&iacute;tica do pal&aacute;cio. Segundo Ari&egrave;s e Duby, “um tal <i>oikos</i> &eacute; um espa&ccedil;o ambivalente na medida em que, colocado na ant&iacute;poda do pal&aacute;cio, cora&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico do Imp&eacute;rio, tanto serve de base ao empreendimento p&uacute;blico como ao recolhimento. Esta ambival&ecirc;ncia estende-se &agrave;s resid&ecirc;ncias provinciais das grandes fam&iacute;lias, que a todo o momento podem adquirir um significado pol&iacute;tico” (Ari&egrave;s, Duby, 1989: 547).          </p>     <p>Os romanos colocavam o aparecimento da casa n&atilde;o apenas no quadro das necessidades individuais, mas num quadro inserido no contexto societal. A casa romana era caracterizada por graus diferenciados de opacidade, assumindo-se como local de actividades que nos dias de hoje parecem ser de &acirc;mbito p&uacute;blico. O senhor da casa recebia, frequentemente, visitas do vasto c&iacute;rculo dos seus clientes, facto que levou o arquitecto romano Vitr&uacute;vio a utilizar a express&atilde;o “locais p&uacute;blicos” para designar as partes das resid&ecirc;ncias abertas &agrave;s pessoas oriundas do exterior. Tais espa&ccedil;os n&atilde;o se constitu&iacute;am como dom&iacute;nios essencialmente privados ou essencialmente p&uacute;blicos, mas antes como o reflexo de um tipo de sociedade que manifestava uma articula&ccedil;&atilde;o entre o privado e o p&uacute;blico. “Da mesma forma que a vida no seio de uma casa conhece toda uma gama de modalidades, do isolamento individual &agrave; recep&ccedil;&atilde;o de um grande n&uacute;mero de pessoas com as quais o propriet&aacute;rio pode n&atilde;o manter qualquer tipo de rala&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, assim os espa&ccedil;os da resid&ecirc;ncia s&atilde;o caracterizados por um grau de opacidade muito vari&aacute;vel relativamente ao mundo exterior” (<i>Idem</i>: 339). As casas dos not&aacute;veis do Imp&eacute;rio, por exemplo, acolhiam v&aacute;rias circunst&acirc;ncias de vida privada, compreendendo espa&ccedil;os de retiro individual e partes residenciais destinadas &agrave; fam&iacute;lia no sentido estrito do termo. Por outro lado, quer no tempo da grandeza de Roma, quer no tempo do seu decl&iacute;nio, os romanos distinguiam muito mal fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e dignidade privada, finan&ccedil;as p&uacute;blicas e bolsa pessoal, sendo poss&iacute;vel identificar numerosas redes de clientelismo pol&iacute;tico onde as fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas eram tratadas como dignidades privadas (Cf. Ari&egrave;s, Duby, 1989: 103-105).                                                     </p>     <p>Como vemos, a natureza do espa&ccedil;o privado &eacute; caracter&iacute;stica de cada sociedade e das rela&ccedil;&otilde;es que nela se estabelecem. Assim, o estudo sobre a dicotomia p&uacute;blico/privado possibilita a compreens&atilde;o das transforma&ccedil;&otilde;es diacr&oacute;nicas, espaciais e sociais, embora seja ilus&oacute;rio tentar tra&ccedil;ar uma hist&oacute;ria cont&iacute;nua do privado e de um bin&oacute;mio de car&aacute;cter d&uacute;bio e controverso. Conforme sublinha Mattoso, apesar da dificuldade que existe na defini&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o da linha que separa os dois dom&iacute;nios, os pap&eacute;is dos homens e das mulheres, dos casados e dos solteiros, dos velhos e dos novos, dos jovens e das crian&ccedil;as, bem como os seus valores e os seus objectivos, alteram-se com o tempo e s&atilde;o distintos conforme as regi&otilde;es consideradas (Cf. Mattoso, 2011: 13). Se, por um lado, estudar a vida privada implica averiguar a autonomia que lhe &eacute; deixada pelo Estado, pelo poder e pela lei enquanto autoridades que regem a vida p&uacute;blica, por outro lado, o estudo da vida privada n&atilde;o pode ignorar as conven&ccedil;&otilde;es e as regras t&aacute;citas e manifestas que os indiv&iacute;duos e os seus c&iacute;rculos de relacionamento adoptam. Por&eacute;m, definir a linha que separa o p&uacute;blico do privado &eacute;, muitas vezes, uma tarefa bastante dif&iacute;cil.</p>     <p>N&atilde;o obstante o car&aacute;cter mutuamente exclusivo das esferas, “o sentido das mesmas ac&ccedil;&otilde;es pode ser extremamente amb&iacute;guo, conforme os actores envolvidos, o quadro em que se praticam ou as sociedades e grupos que as adoptam” (Mattoso, <i>idem</i>: 14). Deste modo, os contornos da privacidade e da publicidade manifestam-se na vida dos indiv&iacute;duos segundo as regras que estes imp&otilde;em a si pr&oacute;prios e de acordo com as conven&ccedil;&otilde;es da sociedade onde est&atilde;o inseridos, conven&ccedil;&otilde;es e h&aacute;bitos que, consciente ou inconscientemente, os indiv&iacute;duos aceitam ou transgridem. Todavia, n&atilde;o devemos esquecer que modalidades que contemporaneamente se apresentam como privadas poderiam n&atilde;o o ser nas &eacute;pocas anteriores. Segundo os historiadores, o uso do conceito de vida privada aplicado &agrave;s sociedades pr&eacute;vias ao desenvolvimento do Estado Moderno deve ser relativizado e acompanhado de precau&ccedil;&otilde;es, at&eacute; porque as informa&ccedil;&otilde;es acerca do comportamento privado dos indiv&iacute;duos s&atilde;o escassas at&eacute; ao s&eacute;culo XII e dif&iacute;ceis de discernir nos s&eacute;culos subsequentes. Apesar de na Idade M&eacute;dia se terem dado passos significativos na afirma&ccedil;&atilde;o da esfera pessoal dos indiv&iacute;duos, &eacute; dif&iacute;cil considerar que o conceito de vida privada, tal como hoje o entendemos, tenha existido naquele per&iacute;odo hist&oacute;rico. Uma vez que a escrita medieval foi, durante muito tempo, monop&oacute;lio da Igreja, as fontes dispon&iacute;veis apelam constantemente a um ideal de ordem p&uacute;blica de acordo com o modelo que a Cristandade sup&otilde;e. Neste sentido, aquilo que se passava na vida dom&eacute;stica deveria ser secreto, pertencendo ao chefe de fam&iacute;lia a obriga&ccedil;&atilde;o de zelar pelo cumprimento das normas no espa&ccedil;o privado (Cf. Mattoso, <i>idem</i>: 18-19). Os pecados cometidos na vida privada n&atilde;o deveriam ser p&uacute;blicos no sentido de evitar a sua propaga&ccedil;&atilde;o, mantendo-se a actividade do confessor como algo pertencente &agrave; &aacute;rea do privado. De entre tudo aquilo que a fam&iacute;lia burguesa tinha de privado, o que segundo os historiadores era bastante pouco, o “assentamento” assume peculiar destaque. O assentamento consistia no local onde a fam&iacute;lia rural “assentara” a sua habita&ccedil;&atilde;o, as terras de cultivo e outros espa&ccedil;os pertencentes &agrave; explora&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. A habita&ccedil;&atilde;o ou “cozinha”, como muitas vezes era denominada, era um edif&iacute;cio unicelular, bastante pequeno e com uma s&oacute; abertura para o exterior. A casa era escura, pequena e sem espa&ccedil;o para o conforto. Junto da habita&ccedil;&atilde;o estavam os edif&iacute;cios que serviam de abrigo aos animais (pocilgas, currais...), e outras depend&ecirc;ncias como os lagares, a adega e os celeiros ou palheiros (Cf. Mattoso, 2011: 39-41).                                            </p>     <p>J&aacute; no que se refere ao conceito de p&uacute;blico, os textos medievais associam-no directamente ao espa&ccedil;o p&uacute;blico urbano materializado nos caminhos, ruas, pra&ccedil;as e alguns equipamentos ou infra-estruturas que est&atilde;o ao dispor da comunidade e que por ela podem ser utilizados. Usualmente, a denomina&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico reservava-se &agrave;s vias centrais e de maior import&acirc;ncia, sendo normal encontrar alguns espa&ccedil;os p&uacute;blicos privatizados nominalmente. De referir que na &eacute;poca a atribui&ccedil;&atilde;o do nome de um indiv&iacute;duo a uma rua n&atilde;o correspondia, como acontece actualmente, a um reconhecimento p&uacute;blico ou a uma consagra&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria de um determinado indiv&iacute;duo, sendo o <i>nome</i> e o <i>dom&iacute;nio</i> crit&eacute;rios de identifica&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas privatizadas (Cf, <i>Idem</i>: 26-27). A oposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blico / privado no espa&ccedil;o urbano medieval tamb&eacute;m se encontrava patente no dom&iacute;nio dos indiv&iacute;duos sobre bens patrimoniais. O sistema jur&iacute;dico e as autoridades p&uacute;blicas garantiam o respeito pela propriedade familiar inscrita no espa&ccedil;o p&uacute;blico urbano. Do ponto de vista jur&iacute;dico, a delimita&ccedil;&atilde;o entre o p&uacute;blico e o privado era n&iacute;tida e a intrus&atilde;o alheia no espa&ccedil;o dom&eacute;stico chegava a configurar a pr&aacute;tica de crime. Por outro lado, privadas eram, tamb&eacute;m, as &aacute;reas <i>apartadas</i> ou isoladas da comunidade. Por decis&atilde;o das autoridades p&uacute;blicas, em redor das &aacute;reas urbanas encontravam-se pequenos enclaves que, para protec&ccedil;&atilde;o da comunidade, alojavam comunidades religiosas minorit&aacute;rias, como mouros ou judeus. As mulheres que se dedicavam &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o, denominadas de “mulheres p&uacute;blicas” ou “mundanais”, que “faziam pelos homens” ou “galegas”, como eram denominadas em Alc&aacute;cer do Sal, deveriam habitar em “lugar pr&oacute;prio e apartado onde os homens as procurem e n&atilde;o em vizinhan&ccedil;a com mulheres de bom porte” (<i>Idem</i>: 31). A divis&atilde;o p&uacute;blico / privado em termos de sociabilidade, de viv&ecirc;ncia e de tend&ecirc;ncia para preservar a vida &iacute;ntima &eacute;, no entanto, mais dif&iacute;cil de discernir no quadro da Idade M&eacute;dia. A preocupa&ccedil;&atilde;o individual com a reserva e preserva&ccedil;&atilde;o da intimidade era algo pontual, at&eacute; porque a viv&ecirc;ncia de pr&aacute;ticas &iacute;ntimas n&atilde;o se restringia, em exclusivo, aos espa&ccedil;os habitacionais. As <i>privadas comunit&aacute;rias</i>, os <i>banhos</i> e as <i>estalagens</i>, correspondiam a edifica&ccedil;&otilde;es mandadas erigir pelos poderes p&uacute;blicos que albergavam pr&aacute;ticas &iacute;ntimas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os banhos e as instala&ccedil;&otilde;es balneares eram, normalmente, propriedades r&eacute;gias exploradas por rendeiros, ao passo que as estalagens, exploradas por “homens ou mulheres que d&atilde;o camas”, funcionavam como locais de hospedagem para forasteiros. Privados eram, tamb&eacute;m, actos, crimes ou pecados cometidos que n&atilde;o deveriam de ser publicitados para n&atilde;o contaminar a ordem p&uacute;blica. O privado desvelava-se no dom&iacute;nio p&uacute;blico sob a f&oacute;rmula incontorn&aacute;vel do rumor e do esc&acirc;ndalo.</p>     <p>Efectivamente, p&uacute;blico e privado constituem-se como dom&iacute;nios porosos e inst&aacute;veis que sofreram profundas varia&ccedil;&otilde;es ao longo dos tempos. No decurso dos s&eacute;culos XVIII e XIX, a vida privada desenvolveu-se como um fen&oacute;meno essencialmente burgu&ecirc;s onde se assiste a uma forte investida do indiv&iacute;duo. O Estado liberal assumiu uma matriz individualista que se pautou pela explora&ccedil;&atilde;o do Eu e pelo refor&ccedil;o da identidade pessoal e de certos cuidados com a apar&ecirc;ncia. Consequentemente, o conceito de espa&ccedil;o privado renovou-se e passou a ser balizado por novos marcos jur&iacute;dico-pol&iacute;ticos. O c&iacute;rculo familiar surgiu como esfera de intimidade pessoal num contexto onde certos comportamentos privados se democratizaram. Neste ponto, saliente-se a difus&atilde;o do movimento jornal&iacute;stico, acompanhado pela pr&aacute;tica cada vez mais divulgada da leitura solit&aacute;ria do jornal, a expans&atilde;o da fotografia e a democratiza&ccedil;&atilde;o do retrato pessoal. De outro modo, a casa assumiu-se como dom&iacute;nio privado por excel&ecirc;ncia, como uma esp&eacute;cie de ref&uacute;gio onde o indiv&iacute;duo experimenta o sentimento de independ&ecirc;ncia face &agrave; vida p&uacute;blica. Sob o impulso da burguesia, a vida privada foi, no decurso do s&eacute;culo XVIII, incorporada definitivamente na ideologia pol&iacute;tica e societal.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A democratiza&ccedil;&atilde;o da intimidade</b></p>     <p>Uma asser&ccedil;&atilde;o decorrente do percurso hist&oacute;rico-te&oacute;rico empreendido at&eacute; aqui passa pela constata&ccedil;&atilde;o de que nos &uacute;ltimos s&eacute;culos as concep&ccedil;&otilde;es de p&uacute;blico e privado (re)configuram-se por via da pr&oacute;pria din&acirc;mica das estruturas sociais. Aquilo que se convencionou ao longo dos s&eacute;culos como p&uacute;blico ou como privado emerge com uma forte componente hist&oacute;rica, social e pol&iacute;tica. Neste xadrez sociopol&iacute;tico, o actor social foi sempre uma esp&eacute;cie de “vari&aacute;vel menor”. Com esta asser&ccedil;&atilde;o salienta-se o papel fortemente condicionador das diferentes estruturas sociais, como s&atilde;o os casos da religi&atilde;o, da fam&iacute;lia e at&eacute; o papel das elites (em cada contexto hist&oacute;rico particular), que limitaram e conduziram o percurso e as escolhas dos indiv&iacute;duos, competindo aos actores concretizarem, na <i>dur&eacute;e</i> quotidiana, a forte coer&ccedil;&atilde;o e controlo social que &Eacute;mile Durkheim (1977) denominou por solidariedade mec&acirc;nica. </p>     <p>Contudo, &eacute; com o advento da Modernidade que autores como Habermas (2012) assinalam uma profunda reconfigura&ccedil;&atilde;o social, pol&iacute;tica e econ&oacute;mica. Uma tal mudan&ccedil;a com implica&ccedil;&otilde;es t&atilde;o transversais levou a um substancial reequil&iacute;brio social, mormente com o fim daquilo que &eacute; designado na historiografia como Antigo Regime, abrindo espa&ccedil;o &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o das sociedades atrav&eacute;s das classes sociais. O supra mencionado autor alem&atilde;o sintetiza este processo da seguinte forma:</p>     <p>    <blockquote>“A esfera p&uacute;blica burguesa desenvolve-se no campo de tens&atilde;o entre o Estado e a sociedade, mas de tal forma que ela pr&oacute;pria continua a fazer parte do &acirc;mbito privado. A separa&ccedil;&atilde;o fundamental entre essas duas esferas, que ela tem por base, come&ccedil;a por significar o desentrosamento dos momentos de <i>reprodu&ccedil;&atilde;o social</i> e de <i>poder pol&iacute;tico</i> mantidos juntos nas formas de domina&ccedil;&atilde;o da Alta Idade M&eacute;dia” (Habermas, 2012: 257 it&aacute;lico dos autores).</p></blockquote>     <p>Com esta perspectiva, Habermas tem a inten&ccedil;&atilde;o de sublinhar o facto de ser no seio de um contexto fortemente pautado pela ordem econ&oacute;mica, nomeadamente com a ascens&atilde;o de uma nova classe, que estas transforma&ccedil;&otilde;es ocorrem. Esta nova classe brotava a partir da dinamiza&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio e assumiu uma posi&ccedil;&atilde;o interm&eacute;dia entre o chamado “povo” ou classe popular e a “velha” aristocracia com todos os seus privil&eacute;gios, conjuntamente com algum do clero. Ora, esta nova classe tinha o ensejo de se tornar um actor activo no xadrez pol&iacute;tico das sociedades modernas, o que implicou uma redefini&ccedil;&atilde;o da fronteira entre Estado e Sociedade. Com efeito, o que emana deste processo historicamente demarcado &eacute; fundamentalmente o facto de haver uma crescente dissocia&ccedil;&atilde;o de uma parte da actividade social do pr&oacute;prio dom&iacute;nio do Estado, que granjeava uma componente consider&aacute;vel da vida social e pessoal quotidiana. Como &eacute; referido por Habermas (2012: 257 e seguintes), o privado surge como um espa&ccedil;o dissociado da influ&ecirc;ncia do Estado. Compete aos actores e sobretudo ao seio familiar a “cristaliza&ccedil;&atilde;o” de pr&aacute;ticas quotidianas que anteriormente eram eminentemente de car&aacute;cter p&uacute;blico. O privado configura-se, assim, como o negativo numa pel&iacute;cula de filme, no fundo &eacute; o outro lado do espa&ccedil;o p&uacute;blico.</p>     <p>Retomando a discuss&atilde;o acerca da emerg&ecirc;ncia e separa&ccedil;&atilde;o entre p&uacute;blico e privado, resultado do percurso at&eacute; aqui empreendido, o privado e as actividades nele desenvolvidas circunscreviam-se, no decurso do s&eacute;culo XVIII, fundamentalmente ao quarto. O quarto de dormir era concebido como o derradeiro dom&iacute;nio privado, j&aacute; que todos os outros espa&ccedil;os, incluindo os do domic&iacute;lio, eram tidos como de viv&ecirc;ncia p&uacute;blica. Este &eacute;, paralelamente, um per&iacute;odo hist&oacute;rico onde, apesar das fortes muta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas, estas n&atilde;o se repercutiram no incremento do papel da mulher e de outros grupos sociais minorit&aacute;rios no debate p&uacute;blico. A dicotomia p&uacute;blico / privado passava, tamb&eacute;m, pela diferen&ccedil;a de g&eacute;nero, sendo a esfera p&uacute;blica o espa&ccedil;o privilegiado do homem e o privado ou o dom&eacute;stico o espa&ccedil;o de ac&ccedil;&atilde;o da mulher. O discurso oitocentista insiste nas qualidades e aptid&otilde;es do homem e da mulher como base das duas esferas: aos homens, o c&eacute;rebro e a capacidade de decis&atilde;o; &agrave;s mulheres, o cora&ccedil;&atilde;o, a emo&ccedil;&atilde;o e os sentimentos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Efectivamente, o estudo do p&uacute;blico e do privado, sobretudo do segundo, deve-se &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da intimidade, processo desencadeado nas sociedades da modernidade tardia, pelo menos na perspectiva de Anthony Giddens (1995). O argumento que Giddens concebe como “pano de fundo” para a sua exposi&ccedil;&atilde;o, centra-se no facto de embora a esfera privada surgir de “m&atilde;o dada” com o advento da burguesia enquanto classe social no final do Antigo Regime, &eacute; nas sociedades contempor&acirc;neas que se verifica uma verdadeira democratiza&ccedil;&atilde;o da intimidade. N&atilde;o ser&aacute; por acaso que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel reequacionar o papel da intimidade associando a esta a pr&oacute;pria viv&ecirc;ncia e consolida&ccedil;&atilde;o do regime democr&aacute;tico. Contudo, antes de continuarmos a discuss&atilde;o importa esclarecer que a intimidade deve ser entendida como um conjunto “(…) de direitos e obriga&ccedil;&otilde;es, prerrogativas e responsabilidades que norteiam modelos de actividade e pr&aacute;tica quotidiana” (1995: 131). Por outro lado, a umbicalidade entre democracia e intimidade fica patente se considerados alguns dos seguintes aspectos: em primeiro lugar, a cria&ccedil;&atilde;o de circunst&acirc;ncias em que as pessoas possam desenvolver as suas potencialidades e exprimir as suas diferentes qualidades; em segundo, a protec&ccedil;&atilde;o do uso arbitr&aacute;rio da autoridade pol&iacute;tica havendo lugar &agrave; negocia&ccedil;&atilde;o; em terceiro lugar, a aceita&ccedil;&atilde;o dos ju&iacute;zos de valor dos outros e, por fim, a liberdade econ&oacute;mica e de ac&ccedil;&atilde;o (1995).</p>     <p>A prossecu&ccedil;&atilde;o em maior ou menor escala destes aspectos apenas ficou minimamente garantida, pelo menos no contexto das sociedades ocidentais, em meados do s&eacute;culo XX, sobretudo ap&oacute;s o termo da II Guerra Mundial. Contudo, no Mediterr&acirc;neo e em particular em Portugal, o processo hist&oacute;rico-pol&iacute;tico assume contornos idiossincr&aacute;ticos. O processo de democratiza&ccedil;&atilde;o da sociedade portuguesa encetado a 25 de Abril 1974 tem progressivamente levado &agrave; defini&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica de certas liberdades, como a possibilidade do div&oacute;rcio mediante iniciativa unilateral de uma das partes, ou, mais recentemente, a despenaliza&ccedil;&atilde;o da interrup&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria da gravidez (referendo de 2007), ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo por iniciativa legislativa/parlamentar em 2010. Estes s&atilde;o casos que ilustram a estreita rela&ccedil;&atilde;o entre a democraticidade de uma sociedade e a consolida&ccedil;&atilde;o e profus&atilde;o daquilo que geralmente se convencionou como intimidade. Com efeito, estamos no patamar de discuss&atilde;o do poder condicionador das grandes estruturas sociais, relativamente &agrave; ac&ccedil;&atilde;o social de cada actor.</p>     <p>&Eacute;, precisamente, no plano da subjectividade individual que encontramos uma profunda disrup&ccedil;&atilde;o das sociedades da modernidade tardia relativamente &agrave;s suas predecessoras. Nesta linha, s&atilde;o diversos os elementos que nos fornecem pistas da crescente relev&acirc;ncia da capacidade de escolha por parte dos indiv&iacute;duos, resultando em planos biogr&aacute;ficos de car&aacute;cter mais aberto e de negocia&ccedil;&atilde;o permanente. Podemos encontrar nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas de empreendimento das ci&ecirc;ncias sociais um conjunto de autores como Beck (2000; 2006), Giddens e Lash (2000), Bourdieu (1989; 2010) e Bauman (2007) onde se nota uma clara tend&ecirc;ncia de realizar uma s&iacute;ntese entre poder condicionador das estruturas sociais e a capacidade de agir dos actores. Tamb&eacute;m no plano do estudo das atitudes, como em Inglehart (2005), &eacute; identificado o crescente car&aacute;cter individual e expressivo em termos geracionais, com a j&aacute; famosa transi&ccedil;&atilde;o dos valores materialistas para p&oacute;s-materialistas.</p>     <p>Transversalmente, todos estes autores sublinham a preponder&acirc;ncia epistemol&oacute;gica e te&oacute;rica das compet&ecirc;ncias cognitivas e sociais dos indiv&iacute;duos na negocia&ccedil;&atilde;o quotidiana. Os actores num contexto estruturalmente mais democr&aacute;tico podem accionar um conjunto diversificado de compet&ecirc;ncias e mecanismos conquistando, ainda que em permanente tens&atilde;o com a normatividade social vigente, um espa&ccedil;o de autonomia que de acordo com Anthony Giddens pode ser definido como “(…) a capacidade individual para a auto-reflex&atilde;o e para a autodetermina&ccedil;&atilde;o: “deliberar, julgar, escolher e agir de acordo com poss&iacute;veis rumos de ac&ccedil;&atilde;o” (1995: 128 aspas do original).</p>     <p>Esta crescente autonomiza&ccedil;&atilde;o est&aacute; associada a um processo hist&oacute;rico que passa pela individualiza&ccedil;&atilde;o (Beck: 210-211). Segundo Beck, este processo assenta em tr&ecirc;s grandes dom&iacute;nios: perda da estabilidade, perda da seguran&ccedil;a tradicional e um novo tipo de coes&atilde;o social. A individualiza&ccedil;&atilde;o, enquanto modelo de socializa&ccedil;&atilde;o de actores, resulta sobretudo numa maior liberdade de ac&ccedil;&atilde;o, mas paralelamente de menor seguran&ccedil;a societal. No seu empreendimento te&oacute;rico, Ulrich Beck (2003) reconhece uma esp&eacute;cie de descontinuidade entre aquilo que convencionalmente se designa como modernidade e <i>modernidade reflexiva</i>, mormente no que concerne aos modos e estilos de vida. Para o autor alem&atilde;o, estas altera&ccedil;&otilde;es ficam-se a dever, em parte, a transforma&ccedil;&otilde;es no campo dos principais eixos identit&aacute;rios, como a classe social, o g&eacute;nero ou at&eacute; a etnia, entre outros elementos. Deste modo, antagonicamente ao que se perspectivava um pouco por toda a classe cient&iacute;fica, a emerg&ecirc;ncia da modernidade reflexiva n&atilde;o trouxe consigo uma uniformiza&ccedil;&atilde;o cultural. Pelo contr&aacute;rio, de certa forma podemos at&eacute; falar de uma <i>destandardiza&ccedil;&atilde;o</i> das biografias individuais.</p>     <p>Nesta linha de racioc&iacute;nio, torna-se clara a tend&ecirc;ncia para a crescente multiplica&ccedil;&atilde;o e diversifica&ccedil;&atilde;o das op&ccedil;&otilde;es biogr&aacute;ficas dos indiv&iacute;duos, aquilo que se pode definir como uma esp&eacute;cie de bricolage-identit&aacute;ria. O que leva Beck (2003) a falar de uma crescente <i>cultura do eu</i> patente no cada vez maior n&uacute;mero de indiv&iacute;duos a viver sozinhos, tal como o aumento de n&uacute;mero de div&oacute;rcios e, tamb&eacute;m, o fomento de estilos de vida est&eacute;ticos ou ainda a consci&ecirc;ncia e pr&aacute;tica de uma maior liberdade e, consequentemente, de uma maior auto-organiza&ccedil;&atilde;o orientada para ac&ccedil;&atilde;o.                                                                    </p>     <p>Dito isto, a esfera &iacute;ntima surge na contemporaneidade como um importante dom&iacute;nio de an&aacute;lise de diversos autores. Neste rol, Anthony Giddens (1994 e 1995) localiza naquilo a que resolve definir como <i>rela&ccedil;&atilde;o pura</i> uma marca da democratiza&ccedil;&atilde;o da intimidade, nomeadamente no seio familiar e dos afectos. H&aacute;, assim, lugar &agrave; reconfigura&ccedil;&atilde;o das estruturas sociais que servem de mapeadores na gest&atilde;o que os actores fazem das suas rela&ccedil;&otilde;es pessoais e &iacute;ntimas e &agrave; multiplica&ccedil;&atilde;o e diversifica&ccedil;&atilde;o de modelos biogr&aacute;ficos, sendo que nem todos os modelos podem ser sin&oacute;nimo de mais bem-estar podendo resultar, e em &uacute;ltima an&aacute;lise, em dif&iacute;ceis escolhas. Um caso paradigm&aacute;tico &eacute; o da fam&iacute;lia enquanto institui&ccedil;&atilde;o social. Dir&iacute;amos que actualmente h&aacute; a possibilidade de a mulher ter uma carreira profissional, que lhe permite aceder a uma autonomia financeira, a qual foi restringida em gera&ccedil;&otilde;es anteriores. Contudo, esta op&ccedil;&atilde;o implica muitas vezes o sacrif&iacute;cio da maternidade, em casos extremos. Nestas circunst&acirc;ncias, e de acordo com Bauman (2007: 205), podemos considerar a individualiza&ccedil;&atilde;o como um processo ambivalente, ou por outras palavras, se por um lado abre novas possibilidades de escolha, por via da descontextualiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais, por outro lado, levanta novos dilemas traduz&iacute;veis em constrangimentos, sobretudo na esfera da intimidade.</p>     <p>Zygmunt Bauman na sua abordagem &agrave;s muta&ccedil;&otilde;es ocorridas nas esferas p&uacute;blica e privada, coloca na equa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica que ensaia o caso dos <i>media</i> e o papel que estes t&ecirc;m tido nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas na eros&atilde;o entre estes dois dom&iacute;nios. Para Bauman (2002: 75), os <i>chat-shows</i>, onde podemos incluir o Facebook, t&ecirc;m um grande potencial de divulga&ccedil;&atilde;o e publicita&ccedil;&atilde;o de considera&ccedil;&otilde;es e express&otilde;es &iacute;ntimas. Ainda assim, a quest&atilde;o que se imp&otilde;e &eacute; saber quais as motiva&ccedil;&otilde;es para essa exposi&ccedil;&atilde;o. O supramencionado autor come&ccedil;a por aduzir que nas sociedades contempor&acirc;neas h&aacute; uma incessante necessidade de aprova&ccedil;&atilde;o e divers&atilde;o relativamente ao meio envolvente. No fundo, assiste-se &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o orgulhosa do individual, do emocional e do secreto enquanto categorias que permaneciam, at&eacute; aqui, na esfera &iacute;ntima.</p>     <p>No plano &eacute;tico e relacional, este fen&oacute;meno apresenta implica&ccedil;&otilde;es relevantes como, por exemplo, um progressivo mitigar de constrangimentos relacionados com a vergonha e a humilha&ccedil;&atilde;o, sentimentos que at&eacute; aqui tinha no dom&iacute;nio da intimidade o seu derradeiro reduto. Existe, com efeito, uma constante procura de uma esp&eacute;cie de “reden&ccedil;&atilde;o social”. &Eacute; nesta linha de racioc&iacute;nio que Bauman (2002: 75) opta por designar como o “consolo pela absolvi&ccedil;&atilde;o”, um consolo que passa, fundamentalmente, pela exposi&ccedil;&atilde;o de sentimentos e afectos que outrora pertenciam exclusivamente &agrave; intimidade, &agrave; privacidade. Com efeito, podemos apontar duas importantes caracter&iacute;sticas da esfera &iacute;ntima nas sociedades contempor&acirc;neas: a <i>expressionista</i> e a <i>impressionista</i>. Ali&aacute;s, com isto, n&atilde;o estamos a negar a possibilidade de estas fazerem parte da viv&ecirc;ncia intima. O que queremos enfatizar &eacute; o facto de estas sa&iacute;rem refor&ccedil;adas e exacerbadas, sobretudo como resultado do processo de individualiza&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, s&atilde;o eixos que norteiam a gest&atilde;o e exposi&ccedil;&atilde;o dos afectos. Ora, atentando &agrave; componente expressiva da intimidade nas sociedades contempor&acirc;neas, antagonicamente ao que se passava at&eacute; aqui, a manifesta&ccedil;&atilde;o de afectos faz-se privilegiadamente por via dos <i>media</i>, mormente <i>media</i> sociais como o Facebook (Carvalheiro, Prior, Morais, 2013: 109-113). Esta plataforma digital, com a sua arquitetura de divulga&ccedil;&atilde;o (Marichal, 2012), transmite aos seus utilizadores uma sensa&ccedil;&atilde;o de seguran&ccedil;a associada &agrave; liberdade de ac&ccedil;&atilde;o e de poder de decis&atilde;o individual no que se refere aos elementos de exposi&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, na linha do que temos vindo a afirmar, est&atilde;o reunidas as condi&ccedil;&otilde;es estruturais para que os actores ajam de forma livre, ainda que reflexivamente ponderando as suas vantagens e desvantagens, resultado naquilo a que Beck (2003: 339-355) designou por “institui&ccedil;&otilde;es zombies”.</p>     <p>Deste modo, o actor fica mais liberto para agir de forma a mitigar os efeitos constrangedores da normatividade vigente, at&eacute; porque essa mesma normatividade o remete para o campo da decis&atilde;o individual e reflexiva. Este processo &eacute; aplic&aacute;vel a pr&aacute;ticas de exposi&ccedil;&atilde;o e representa&ccedil;&atilde;o, sobretudo quando estas est&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia da observa&ccedil;&atilde;o e da visibilidade inerentes ao espa&ccedil;o digital e, em particular, &agrave;s redes sociais que enfatizam a opticiza&ccedil;&atilde;o das particularidades e das experi&ecirc;ncias subjectivas dos indiv&iacute;duos. A prop&oacute;sito, Daniel Innerarity tece a seguinte constata&ccedil;&atilde;o:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>    <blockquote>“Numa sociedade articulada em redor dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, a distin&ccedil;&atilde;o fundamental &eacute; entre a aten&ccedil;&atilde;o e a ignor&acirc;ncia; tudo se decide na capacidade de perceber e ser percebido. N&atilde;o h&aacute; nada pior que passar despercebido, ser invis&iacute;vel. A pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia parece incerta enquanto n&atilde;o &eacute; confirmada pelo olhar de outros” (2009: 134).</p></blockquote>     <p>No fundo, trata-se da exalta&ccedil;&atilde;o da singularidade individual, uma exalta&ccedil;&atilde;o que concebe cada vez mais relevo aos aspectos privados da exist&ecirc;ncia e &agrave; enuncia&ccedil;&atilde;o da visibilidade identit&aacute;ria e de afectos e viv&ecirc;ncias pessoais. Como tivemos oportunidade de constatar, a preocupa&ccedil;&atilde;o que os indiv&iacute;duos sentem em se exteriorizar &eacute; uma influ&ecirc;ncia da civiliza&ccedil;&atilde;o helen&iacute;stica, mas parece evidente que este sentimento regressou mediante novas formas de exterioriza&ccedil;&atilde;o que, no entanto, mais n&atilde;o fazem do que acentuar a tend&ecirc;ncia secular da sociedade como esfera de apari&ccedil;&atilde;o, como espa&ccedil;o de ser e de aparecer para os outros. O incremento das tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o, especificamente das redes sociais digitais, intensificou a categoria da apar&ecirc;ncia presente nas interac&ccedil;&otilde;es quotidianas onde os indiv&iacute;duos representam o seu <i>self</i>. Por&eacute;m, e tal como sublinhou Joshua Meyrowitz (1986), a natureza dos <i>media </i>electr&oacute;nicos torna bastante dif&iacute;cil separar a esfera das experi&ecirc;ncias p&uacute;blicas da esfera das experi&ecirc;ncia privadas, anulando-se, consequentemente, a distin&ccedil;&atilde;o goffmaniana entre bastidores e palco e entre p&uacute;blico e privado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas </b></p>     <!-- ref --><p>Arendt, Hannah (2001). <i>A Condi&ccedil;&atilde;o Humana</i>. Lisboa: Rel&oacute;gio D’&Aacute;gua (Obra originalmente publicada 1958).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000058&pid=S1646-5954201400030000100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Ari&egrave;s, Philippe, Duby, Georges (1989). <i>Hist&oacute;ria da Vida Privada</i>: <i>do Imp&eacute;rio romano ao ano mil</i>, Vol. 1. Porto: Afrontamento (Obra originalmente publicada 1983).</p>     <!-- ref --><p>Bauman, Zygmunt (2002). <i>Modernidad Liquida</i>. (M. Rosenberg Trad.). Buenos Aires: Fondo de Cultura Econ&oacute;mica de Argentina (Obra originalmente publicada 2000).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000061&pid=S1646-5954201400030000100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Bauman, Zygmunt (2007). <i>Modernidade e Ambival&ecirc;ncia</i> (M. Penchel Trad.). Lisboa: Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua Editores (Obra originalmente publica em 1991).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000063&pid=S1646-5954201400030000100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Beck, Ulrich; Giddens, Anthony &amp; Lash, Scott (2000). <i>Moderniza&ccedil;&atilde;o Reflexiva: politica, tradi&ccedil;&atilde;o, e est&eacute;tica no mundo moderno</i> (M. A. Augusto Trad.). Oeiras: Celta Editora (Obra originalmente publicada em 1994).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000065&pid=S1646-5954201400030000100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Beck, Ulrich (2000). “A reinven&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica”. <i>in</i> Ulrich Beck; Anthony Giddens &amp; Scott Lash, (Orgs.). <i>Moderniza&ccedil;&atilde;o Reflexiva: pol&iacute;tica, tradi&ccedil;&atilde;o, e est&eacute;tica no mundo moderno </i>(pp. 1-51). Oeiras: Celta Editora (Obra originalmente publicada em 1994).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S1646-5954201400030000100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Beck, Ulrich (2003). <i>La Individualizaci&oacute;n. El individualismo institucionalizado y sus consecuencias sociales y pol&iacute;ticas</i> (B. MorenoTrad.). Barcelona: Edicones Paid&oacute;s Ib&eacute;rica (Obra originalmente publicada 2002).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S1646-5954201400030000100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Beck, Ulrich (2006). <i>La Sociedad del Riesgo Hacia una Nueva Modernidad</i> (J. Navarro; D. Jim&eacute;nez &amp; M. R. Borr&aacute;s Trad.). Paid&oacute;s Surcos 25: Barcelona (Obra originalmente publicada em 1986).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S1646-5954201400030000100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Bobbio, Norberto (2009). <i>Estado, Governo e Sociedade: para uma teoria geral da pol&iacute;tica</i>. Rio de Janeiro: Paz e Terra (Obra originalmente publicada em 2006).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S1646-5954201400030000100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bourdieu, Pierre (1989). <i>O poder Simb&oacute;lico</i> (2&ordf; Edi&ccedil;&atilde;o) (F. Portugal Trad.). Lisboa: Difel Difus&atilde;o Editorial Lda (Obra originalmente publicada 1977).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S1646-5954201400030000100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bourdieu, Pierre (2010). <i>A Distin&ccedil;&atilde;o. Uma Critica Social da Faculdade do Ju&iacute;zo</i> (P. E. Duarte Trad.) Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70 (Obra originalmente publicada 1979).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S1646-5954201400030000100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Carvalheiro, Jos&eacute; Ricardo, Prior, H&eacute;lder, Morais, Ricardo (2013). “P&uacute;blico, Privado e representa&ccedil;&atilde;o online: o caso do Facebook” in Ant&oacute;nio Fidalgo, Jo&atilde;o Canavilhas (Org), <i>Comunica&ccedil;&atilde;o Digital-10 anos de Investiga&ccedil;&atilde;o</i>, Coimbra, MinervaCoimbra Edi&ccedil;&otilde;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S1646-5954201400030000100012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Durkheim, &Eacute;mile (1977). <i>A Divis&atilde;o Social do Trabalho</i> (M. I. Mansinho &amp; E. Freitas Trad.) Lisboa: Editorial Presen&ccedil;a (Obra originalmente publicada 1893).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S1646-5954201400030000100013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Esteves, Jo&atilde;o Pissarra, P&uacute;blico/Privado, Dicion&aacute;rio de Filosofia Moral e Pol&iacute;tica, Instituto de Filosofia da Linguagem.Dispon&iacute;vel: <a href="http://www.ifl.pt/private/admin/ficheiros/uploads/4cd129f920df65b36c0c8672cb86dbfd.pdf" target="blank">http://www.ifl.pt/private/admin/ficheiros/uploads/4cd129f920df65b36c0c8672cb86dbfd.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S1646-5954201400030000100014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Giddens, Anthony (1994). <i>Modernidade e Identidade Pessoal </i>(M.V. Almeida Trad.). Oeiras: Celta Editora (Obra originalmente publicada 1991).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S1646-5954201400030000100015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Giddens, Anthony (1995). <i>Transforma&ccedil;&otilde;es da Intimidade</i>. Oeiras: Celta Editora (Obra originalmente publicada 1992).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1646-5954201400030000100016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Giddens, Anthony (2000). <i>Dualidade da Estrutura: Ag&ecirc;ncia e Estrutura</i>. Oeiras: Celta Editora (Obra originalmente publicada 1979).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1646-5954201400030000100017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Giddens, Anthony (2005). <i>As Consequ&ecirc;ncias da Modernidade </i>(4&ordf;Edi&ccedil;&atilde;o) (F. L. Machado &amp; M. M. Rocha Trad.). Oeiras: Celta Editora (Obra originalmente publicada 1990).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S1646-5954201400030000100018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Goffman, Erving (1993). <i>A Apresenta&ccedil;&atilde;o do eu na Vida de Todos os Dias</i> (M. S. Pereira Trad.). Lisboa: Rel&oacute;gio D’&Aacute;gua Editores (Obra originalmente publicada 1959).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S1646-5954201400030000100019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Habermas, J&uuml;rgen (2012). <i>A Transforma&ccedil;&atilde;o Estrutural da Esfera P&uacute;blica</i> (L. Nahodil Trad.). Lisboa: Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian (Obra originalmente publicada 1961).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S1646-5954201400030000100020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Inglehart, Ronald &amp; Wezel, Christian (2005). <i>Modernization Cultural Change, and Democra&ccedil;y: The Human Developmen Sequence</i>. Cambridge: University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S1646-5954201400030000100021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Innerarity, Daniel (2009). <i>A Sociedade Invis&iacute;vel</i> (M. Ruas Trad.). Lisboa: Teorema (Obra originalmente publicada 2004).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S1646-5954201400030000100022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Kant, Immanuel (2004) “Que &eacute; o Iluminismo?” in <i>A Paz Perp&eacute;tua e outros op&uacute;sculos</i>, Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es 70 (Obra originalmente publicada 1784).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S1646-5954201400030000100023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Luhmann, Niklas (1992). <i>A Improbabilidade da Comunica&ccedil;&atilde;o</i>. Lisboa: Veja (Obra originalmente publicada 1981).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S1646-5954201400030000100024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Marichal, Jos&eacute; (2012). <i>Facebook Democracy. The Architecture of Disclosure and the Threat to Public Life</i>. Burlington: Ashgate Publishing Company.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S1646-5954201400030000100025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Mateus, Samuel (2011). <i>Publicidade e Consuma&ccedil;&atilde;o nas Sociedades Contempor&acirc;neas</i>, Covilh&atilde;: Livros LabCom.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S1646-5954201400030000100026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Mattoso, Jos&eacute; (2011). <i>Hist&oacute;ria da vida privada em Portugal: a Idade M&eacute;dia</i>, Vol. 1. Lisboa: C&iacute;rculo de Leitores, Temas e Debates.</p>     <p>Mattoso, Jos&eacute; (2010/2011). <i>Hist&oacute;ria da vida privada em Portugal: a idade Moderna</i>, Vol. 2. Lisboa: C&iacute;rculo de Leitores, Temas e Debates.</p>     <p>Mattoso, Jos&eacute; (2010/2011). <i>Hist&oacute;ria da vida privada em Portugal: a &eacute;poca Contempor&acirc;nea</i>, Vol. 3. Lisboa: C&iacute;rculo de Leitores, Temas e Debates.</p>     <!-- ref --><p>Meinecke, Friedrich (1983). <i>La idea de la Raz&oacute;n de Estado en la Edad Moderna</i>. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales (Obra originalmente publicada 1924).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S1646-5954201400030000100030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
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