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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Construção Mediática da Corrupção Política. Opinião e Informação sobre os casos BPN, Freeport e Face Oculta nos noticiários televisivos portugueses]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Media Construction of Political Corruption. Opinion and News about BPN, Freeport and Face Oculta on the Portuguese TV Newscasts]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This research article aims at contributing to shad light on how television commentators address in prime-time TV newscasts three of the most well-known corruption cases in Portugal in the last years: BPN, Freeport and Face Oculta. Topics, actors, tones and the narrative style of the comments will be analyzed against the news narratives on the same cases. The study concluded that news coverage was the expected point of departure for comments, but the opinion narrative was quite different from the news story about the corruption cases analyzed. Comments were more adversarial, negative and judgmental against what commentators perceived as bad behavior of the actors involved. Commentators built a different version of facts and a personalized narrative about power struggle inside and between the heads of the Portuguese political, judicial and regulatory spheres.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Comentadores]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Political Corruption]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>A Constru&ccedil;&atilde;o Medi&aacute;tica da Corrup&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica. Opini&atilde;o e Informa&ccedil;&atilde;o sobre os casos BPN, Freeport e Face Oculta nos notici&aacute;rios televisivos portugueses</b></p>     <p><b>The Media Construction of Political Corruption. Opinion and News about BPN, Freeport and Face Oculta on the Portuguese TV Newscasts</b></p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>Rita Figueiras*</b></p>     <p>*Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Este artigo pretende contribuir para um melhor conhecimento acerca do modo como os comentadores abordaram nos notici&aacute;rios televisivos do prime-time dos canais generalistas portugueses tr&ecirc;s dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o mais mediatizados nos &uacute;ltimos anos em Portugal: os casos BPN, Freeport e Face Oculta. Analisamos os temas, atores, tom e estilo dos coment&aacute;rios sobre os casos de corrup&ccedil;&atilde;o e aferimos a conex&atilde;o entre a narrativa do coment&aacute;rio e a da cobertura jornal&iacute;stica sobre os mesmos casos.</p>     <p>O estudo permitiu concluir que a cobertura noticiosa foi o expect&aacute;vel ponto de partida dos coment&aacute;rios, mas em sede da opini&atilde;o identific&aacute;mos a produ&ccedil;&atilde;o de uma narrativa muito diferente da noticiosa. Os comentadores ordenaram e relevaram os factos de modo distinto e constru&iacute;ram uma narrativa conflitual, consubstanciada em tons negativos sobre o que entenderam ser o comportamento desadequado dos atores envolvidos. Propuseram uma vers&atilde;o dos acontecimentos em cuja narra&ccedil;&atilde;o encontramos hist&oacute;rias personificadas sobre a luta de poder nas e entre as mais altas inst&acirc;ncias das esferas pol&iacute;tica, judicial e de regula&ccedil;&atilde;o portuguesas.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Comentadores, Coment&aacute;rio, Notici&aacute;rios, Televis&atilde;o, Corrup&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This research article aims at contributing to shad light on how television commentators address in prime-time TV newscasts three of the most well-known corruption cases in Portugal in the last years: BPN, Freeport and Face Oculta. Topics, actors, tones and the narrative style of the comments will be analyzed against the news narratives on the same cases. The study concluded that news coverage was the expected point of departure for comments, but the opinion narrative was quite different from the news story about the corruption cases analyzed. Comments were more adversarial, negative and judgmental against what commentators perceived as bad behavior of the actors involved. Commentators built a different version of facts and a personalized narrative about power struggle inside and between the heads of the Portuguese political, judicial and regulatory spheres.</p>     <p><b>Keywords:</b> Commentators, Comments, Newscasts, News, Political Corruption</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A crescente presen&ccedil;a de esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o nos media ocidentais tem as suas ra&iacute;zes no decl&iacute;nio das ideologias, na regulamenta&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da vida pol&iacute;tica e na emerg&ecirc;ncia da pol&iacute;tica de confian&ccedil;a. Ou seja, os esc&acirc;ndalos ganharam maior protagonismo medi&aacute;tico a partir do momento em que o discurso pol&iacute;tico passou a colocar a &ecirc;nfase n&atilde;o em projetos e quest&otilde;es ideol&oacute;gico-partid&aacute;rias, mas no car&aacute;cter e na credibilidade dos pol&iacute;ticos.</p>     <p>Neste contexto, os partidos e os seus l&iacute;deres passaram a retirar dividendos das falhas de car&aacute;cter, reais ou presumidas, dos seus oponentes e a viola&ccedil;&atilde;o dos c&oacute;digos de conduta tornou-se uma arma eficaz na luta pela vantagem pol&iacute;tica, tornado os pol&iacute;ticos vulner&aacute;veis a qualquer tipo de publicidade negativa. A cultura do esc&acirc;ndalo em vigor nas sociedades ocidentais pode, assim, ser perspectivada como um dos reversos da medalha da pol&iacute;tica de confian&ccedil;a, uma vez que os esc&acirc;ndalos, ao destacarem transgress&otilde;es de c&oacute;digos e condutas que regulam o exerc&iacute;cio de cargos p&uacute;blicos, alimentam-se de um dos bens simb&oacute;licos mais relevantes para qualquer indiv&iacute;duo: a sua reputa&ccedil;&atilde;o (Thompson, 2002; Ekstr&ouml;m &amp; Johansson, 2008).</p>     <p>Este enquadramento ajuda a compreender por que &eacute; que os esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o ganharam tanta visibilidade nas democracias contempor&acirc;neas (Thompson, 2002 e 2005). De acordo com a <i>International Transparency</i> (2010, xxvi), a corrup&ccedil;&atilde;o caracteriza-se pelo abuso do poder (delegado) para ganhos privados. Este &eacute; um crime complexo que tende a articular diferentes campos de poder, nomeadamente a pol&iacute;tica (mau uso ou abuso de poder) e a economia (infra&ccedil;&atilde;o de leis que regulam a aquisi&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o de recursos econ&oacute;micos)<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>, mas tamb&eacute;m os media. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o imprescind&iacute;veis no processo de revela&ccedil;&atilde;o (Blankenburg, 2002) e constru&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios esc&acirc;ndalos que s&atilde;o, cada vez mais, indissoci&aacute;veis da sua mediatiza&ccedil;&atilde;o (Thompson, 2002; Ekstr&ouml;m &amp; Johansson, 2008).</p>     <p>Na mediatiza&ccedil;&atilde;o dos esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o, a par das not&iacute;cias, os coment&aacute;rios desempenham um papel relevante na constru&ccedil;&atilde;o da perce&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Os comentadores fazem parte do conjunto de atores que, numa hierarquia de influ&ecirc;ncias e rela&ccedil;&otilde;es distintas, contribuem para a configura&ccedil;&atilde;o dos temas em circula&ccedil;&atilde;o nos media e para moldar a perce&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os sobre as quest&otilde;es p&uacute;blicas, nomeadamente a corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.</p>     <p>Apesar de o espa&ccedil;o de opini&atilde;o ser um lugar de reconhecida influ&ecirc;ncia medi&aacute;tica, social e pol&iacute;tica em Portugal, o modo como os comentadores abordam os assuntos p&uacute;blicos, em particular quest&otilde;es de corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, tem tido escassa aten&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica. Em linha com estudos j&aacute; realizados sobre o tema (Figueiras, 2015), este artigo pretende contribuir para um melhor conhecimento acerca do modo como os comentadores abordaram nos notici&aacute;rios televisivos de <i>prime time</i> dos canais generalistas portugueses, tr&ecirc;s dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o mais mediatizados nos &uacute;ltimos anos em Portugal: os casos BPN, Freeport e Face Oculta. O estudo tem dois grandes objetivos: (1) analisar a narrativa do coment&aacute;rio e (2) aferir a rela&ccedil;&atilde;o entre esta e a narrativa das not&iacute;cias sobre os casos em an&aacute;lise. Estes objetivos decorrem da assun&ccedil;&atilde;o de que o coment&aacute;rio tem uma conex&atilde;o com as not&iacute;cias, porque a agenda do coment&aacute;rio &eacute; cada vez mais <i>presentificada</i> e parte das not&iacute;cias para debater os assuntos em agenda, mas tamb&eacute;m porque a constru&ccedil;&atilde;o social dos assuntos &eacute; fortemente determinada pelo modo como ambos os discursos &ndash; o jornal&iacute;stico e o de opini&atilde;o &ndash; abordam os temas p&uacute;blicos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>A Mediatiza&ccedil;&atilde;o da Corrup&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Nas sociedades ocidentais, a pol&iacute;tica &eacute; feita primordialmente com e atrav&eacute;s dos media, que s&atilde;o igualmente a principal fonte de informa&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os. Isto confere aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o um poder enorme na constru&ccedil;&atilde;o da realidade pol&iacute;tica e no moldar da cogni&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica (Altheide, 2004; Luhmann, 2005). A capacidade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o influenciarem as atitudes e as opini&otilde;es p&uacute;blicas &eacute; consider&aacute;vel, mesmo que seja sempre dif&iacute;cil encontrar provas claras de uma rela&ccedil;&atilde;o causal entre a constru&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica da realidade e a percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica dessa mesma realidade.</p>     <p>Os media constroem uma determinada realidade pol&iacute;tica atrav&eacute;s de um conjunto de quadros explicativos (enquadramentos) para retratar a atividade pol&iacute;tica que, por sua vez, s&atilde;o negociados com os atores pol&iacute;ticos (intera&ccedil;&atilde;o entre os media e a pol&iacute;tica) e que imp&otilde;em uma certa defini&ccedil;&atilde;o da realidade (defini&ccedil;&atilde;o da agenda p&uacute;blica). As regras envolvidas na cobertura pol&iacute;tica incluem, assim, tr&ecirc;s sistemas de regularidades interligados (Marcinkowski, 2014, 7): regularidades de sele&ccedil;&atilde;o &ndash; escolha consciente de eventos, situa&ccedil;&otilde;es e quest&otilde;es para informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica; regularidades de narra&ccedil;&atilde;o &ndash; forma de contar as est&oacute;rias que obedece a uma estrutura sequencial padronizada, e, regularidades de interpreta&ccedil;&atilde;o &ndash; constru&ccedil;&atilde;o padronizada de significados.</p>     <p>Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o usam estas rotinas para selecionar e apresentar os assuntos p&uacute;blicos em formatos familiares. Sob tais condi&ccedil;&otilde;es, a comunica&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica produzida pelos media tem frequentemente propriedades previs&iacute;veis, como o foco em imagens fortes, uma prefer&ecirc;ncia por eventos em vez de estruturas, tal como por pessoas em vez de institui&ccedil;&otilde;es ou ideias. Os media d&atilde;o ainda especial aten&ccedil;&atilde;o a conflitos e a interpreta&ccedil;&otilde;es da pol&iacute;tica como uma competi&ccedil;&atilde;o (Brants &amp; Voltmer, 2011; Aalberg &amp; Curran, 2012; Aalberg, Str&ouml;mb&auml;ck &amp; de Vreese, 2012; Figueiras, 2017).</p>     <p>No que diz respeito aos casos de corrup&ccedil;&atilde;o, o jornalismo desempenha um papel fundamental na revela&ccedil;&atilde;o de dados relacionados com este tipo de crime, mas n&atilde;o o fazem sozinhos. Num estudo de 2002, Erhard Blankenburg identificou uma alian&ccedil;a entre ju&iacute;zes e jornalistas com o objetivo de divulgarem informa&ccedil;&otilde;es cuidadosamente selecionadas e que alimentam a presen&ccedil;a de determinados casos de corrup&ccedil;&atilde;o nos media. Deste modo, a perce&ccedil;&atilde;o que o p&uacute;blico tem deste tipo de crimes &eacute; fortemente estruturada pela cobertura noticiosa, que tende a descontextualizar e a dramatizar os casos, enfatizando determinados fatos em detrimento de outros e ordenando-os em benef&iacute;cio de uma narrativa apelativa.</p>     <p>A perce&ccedil;&atilde;o que o p&uacute;blico tem dos crimes de corrup&ccedil;&atilde;o &eacute;, ent&atilde;o, fortemente estruturada pela cobertura noticiosa. Esta &eacute; um produto da l&oacute;gica comercial e concorrencial&nbsp;que transformou o setor dos media numa ind&uacute;stria baseada no esc&acirc;ndalo, mas &eacute; igualmente um produto da&nbsp;luta entre opositores pol&iacute;ticos partid&aacute;rios e n&atilde;o-partid&aacute;rios e da necessidade que os jornalistas t&ecirc;m de demonstrar que est&atilde;o a cumprir a sua fun&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de vigil&acirc;ncia e den&uacute;ncia dos abusos de poder (Thompson, 2002; Ekstr&ouml;m &amp; Johansson, 2008).</p>     <p>Neste processo, os comentadores tamb&eacute;m desempenham um papel significativo na constru&ccedil;&atilde;o da perce&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica dos temas em agenda, nomeadamente sobre a corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O espa&ccedil;o de opini&atilde;o &eacute; um elemento constitutivo do processo comunicativo democr&aacute;tico (Nimmo &amp; Combs, 1994; Figueiras, 2009; Jacobs &amp; Townsley, 2011), e, em linha com o &ldquo;cascading activation model&rdquo; de Robert Entman (2003), podemos considerar que os comentadores desempenham um papel relevante na ativa&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o e na forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica, num processo que combina mecanismos de <i>agenda-setting</i> (defini&ccedil;&atilde;o da agenda p&uacute;blica), <i>priming</i> (grau de destaque dado aos temas), <i>framing</i> (enquadramento dado aos temas) e <i>feedback</i> (rea&ccedil;&atilde;o aos temas). Os comentadores fazem, assim, parte do conjunto de atores que, numa hierarquia de influ&ecirc;ncias e rela&ccedil;&otilde;es distintas, condicionam o desenrolar dos assuntos no espa&ccedil;o p&uacute;blico e contribuem para moldar a perce&ccedil;&atilde;o que os cidad&atilde;os t&ecirc;m sobre variadas quest&otilde;es.</p>     <p>Em termos da tradi&ccedil;&atilde;o cultural ocidental, o coment&aacute;rio foi institu&iacute;do como um espa&ccedil;o de media&ccedil;&atilde;o social (Nimmo, &amp; Combs, (1992), como um lugar de esclarecimento das quest&otilde;es em destaque nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. O reconhecimento que os comentadores contribuem para a configura&ccedil;&atilde;o dos temas em circula&ccedil;&atilde;o nos media e para moldar a perce&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os justifica a pertin&ecirc;ncia deste estudo, que pretende contribuir para aprofundar o conhecimento sobre o coment&aacute;rio e os comentadores em Portugal, e tamb&eacute;m sobre o modo como contribuem para a constru&ccedil;&atilde;o social dos problemas p&uacute;blicos, e em particular da corrup&ccedil;&atilde;o, na sociedade portuguesa.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Metodologia</b></p>     <p>Este artigo pretende contribuir para um melhor conhecimento acerca do modo como os comentadores abordaram nos notici&aacute;rios televisivos de <i>prime time</i> dos canais generalistas portugueses, tr&ecirc;s dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o mais mediatizados nos &uacute;ltimos anos em Portugal: os casos BPN, Freeport e Face Oculta. Para tal, o estudo definiu dois grandes objetivos: (1) analisar a narrativa do coment&aacute;rio e (2) aferir a rela&ccedil;&atilde;o entre esta e a narrativa das not&iacute;cias sobre os casos em an&aacute;lise.</p>     <p>Os dados usados neste artigo foram recolhidos no &acirc;mbito do projeto FCT &ldquo;Corrup&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica nos Media: Uma Perspectiva Comparada&rdquo;<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. Na persecu&ccedil;&atilde;o do segundo objetivo do estudo, e no &acirc;mbito do projeto FCT referido, utilizamos dados secund&aacute;rios sobre a cobertura noticiosa dos casos e dispon&iacute;veis em Cunha &amp; Serrano, 2014 e 2015. &Eacute; ent&atilde;o poss&iacute;vel aferir a rela&ccedil;&atilde;o entre ambas as narrativas, porque foram utilizadas as mesmas vari&aacute;veis na an&aacute;lise das pe&ccedil;as noticiosas e dos espa&ccedil;os de coment&aacute;rio.</p>     <p>O estudo tem como unidade de contexto da an&aacute;lise os notici&aacute;rios televisivos de <i>prime time</i> (20 horas) dos canais generalistas portugueses: o <i>Telejornal</i> da RTP1, o <i>Jornal da Noite</i> da SIC e o <i>Jornal Nacional</i>/<i>Jornal de Sexta</i> da TVI. A unidade de registo &eacute; composta pelos segmentos de coment&aacute;rio emitidos nos notici&aacute;rios de 2009, ano em que os casos BPN, Freeport e Face Oculta tiveram maior incid&ecirc;ncia nos jornais televisivos. O corpus de an&aacute;lise &eacute; assim constitu&iacute;do por 64 coment&aacute;rios, perfazendo um total de quatro horas, vinte e oito minutos e cinquenta e nove segundos de opini&otilde;es emitidas nos notici&aacute;rios de <i>prime time</i> das televis&otilde;es generalistas portuguesas sobre os tr&ecirc;s casos de corrup&ccedil;&atilde;o referidos.</p>     <p>O estudo da narrativa da opini&atilde;o combina dois n&iacute;veis de an&aacute;lise. Em primeiro lugar, aferimos os temas (identifica&ccedil;&atilde;o dos t&oacute;picos associados a cada caso em an&aacute;lise), os atores (personalidades colocadas no centro de ambas as narrativas) e o tom, que nos permite conhecer a avalia&ccedil;&atilde;o dos comentadores sobre os casos em an&aacute;lise e dos seus principais protagonistas (modalidades: negativo, equilibrado, neutro e positivo). Ainda no &acirc;mbito da narrativa da opini&atilde;o, com o objetivo de explorar as complexidades, nuances e camadas contidas nos coment&aacute;rios, analisamos o estilo das opini&otilde;es a partir de um conjunto de indicadores sistematizados em estudos realizados sobre o coment&aacute;rio (Figueiras, 2009 e 2015; Jacobs &amp; Townsley, 2011) e consubstanciados em quatro modalidades: &ldquo;anal&iacute;tico-interpretativo/explicativo&rdquo; (explica&ccedil;&atilde;o do contexto e consequ&ecirc;ncias, bem como as rela&ccedil;&otilde;es entre os elementos que enformam temas, decis&otilde;es ou escolhas); &ldquo;tomada de posi&ccedil;&atilde;o&rdquo; (argumenta&ccedil;&atilde;o de apoio ou cr&iacute;tica, sendo a opini&atilde;o apresentada num formato a favor ou contra); &ldquo;reenquadramento&rdquo; (convite a reexaminar premissas b&aacute;sicas e/ou tentativa de reorientar a aten&ccedil;&atilde;o para outras dimens&otilde;es da quest&atilde;o em an&aacute;lise); &ldquo;informativo&rdquo; (apresenta&ccedil;&atilde;o de novos fatos, dados e elementos). A distin&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica entre os indicadores nem sempre &eacute; f&aacute;cil e simples e, por vezes, h&aacute; interven&ccedil;&otilde;es que congregam v&aacute;rios, sendo isso evidente nos excertos de opini&atilde;o apresentados neste estudo. Todavia, &eacute; poss&iacute;vel identificar um estilo dominante com vista a aferir a narrativa do coment&aacute;rio.</p>     <p>Compreender a rela&ccedil;&atilde;o entre as narrativas jornal&iacute;stica e da opini&atilde;o corresponde ao segundo objetivo deste estudo. Tal como referido, esta rela&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel de ser estabelecida, porque as categorias aplicadas na an&aacute;lise de conte&uacute;do quantitativa da opini&atilde;o s&atilde;o as mesmas que est&atilde;o na base da an&aacute;lise das not&iacute;cias sobre os casos BPN, Freeport e Face Oculta.</p>     <p>As narrativas jornal&iacute;stica e de opini&atilde;o obedecem a l&oacute;gicas particulares ainda que haja uma contiguidade entre ambas. A primeira est&aacute; subordinada a uma l&oacute;gica de produ&ccedil;&atilde;o de not&iacute;cias para informar o cidad&atilde;o, enquanto a segunda pressup&otilde;e um espa&ccedil;o de exposi&ccedil;&atilde;o de ideias suscitadas a prop&oacute;sito das not&iacute;cias do dia ou da semana. A conex&atilde;o entre o estilo dos coment&aacute;rios e o modo como a narrativa jornal&iacute;stica aborda os casos de corrup&ccedil;&atilde;o referidos permite-nos extrair ila&ccedil;&otilde;es sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre ambas e saber se os coment&aacute;rios complementam e aprofundam a narrativa jornal&iacute;stica ou se, pelo contr&aacute;rio, o espa&ccedil;o de opini&atilde;o produz uma narrativa distinta e aut&oacute;noma sobre os casos de corrup&ccedil;&atilde;o em avalia&ccedil;&atilde;o.&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Os casos BPN, Freeport e Face Oculta nos notici&aacute;rios televisivos</b></p>     <p>Tal como referido, este artigo pretende contribuir para um melhor conhecimento acerca do modo como os comentadores abordam nos notici&aacute;rios televisivos de <i>prime time</i> dos canais generalistas portugueses, tr&ecirc;s dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o mais mediatizados nos &uacute;ltimos anos em Portugal: os casos BPN, Freeport e Face Oculta.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A partir dos dados recolhidos no &acirc;mbito do projeto de investiga&ccedil;&atilde;o &ldquo;Corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica nos media: uma perspectiva comparada&rdquo;, e sistematizados na <a href="#t1">tabela 1</a>, &eacute; poss&iacute;vel acompanhar a evolu&ccedil;&atilde;o dos casos nos notici&aacute;rios de <i>prime time</i> entre 2005 e 2012. Todavia, antes de analisarmos a narrativa da opini&atilde;o e aferirmos a rela&ccedil;&atilde;o entre as narrativas do coment&aacute;rio e das not&iacute;cias, importa fazer uma breve apresenta&ccedil;&atilde;o dos casos em estudo.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t1"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06t1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>O caso BPN refere-se a um conjunto de processos relacionados com os crimes de corrup&ccedil;&atilde;o, lavagem de dinheiro e tr&aacute;fico de influ&ecirc;ncias que interligaram o Banco Portugu&ecirc;s de Neg&oacute;cios (BPN), a Sociedade Lusa de Neg&oacute;cios (SNL) e o Banco Insular, e que conduziram ao colapso e &agrave; nacionaliza&ccedil;&atilde;o do BPN. O caso envolve membros dos governos PSD, liderados por An&iacute;bal Cavaco Silva: Jos&eacute; Oliveira e Costa, Manuel Dias Loureiro, Domingos Duarte Lima, Miguel Cadilhe e Arlindo de Carvalho. Em novembro de 2008, Oliveira e Costa &eacute; detido por suspeitas de burla, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Em 2009,&nbsp;o Banco de Portugal&nbsp;acusa&nbsp;o banqueiro e mais 12 ex-respons&aacute;veis do BPN de terem fornecido informa&ccedil;&otilde;es falsas ao supervisor banc&aacute;rio e por terem falsificado a contabilidade do banco entre 2002 e 2007, ocultando a rela&ccedil;&atilde;o entre a SLN, o BPN e o Banco Insular. Em maio de 2015, a Comiss&atilde;o do Mercado de Valores Mobili&aacute;rios condena Oliveira Costa ao pagamento de uma multa avultada por viola&ccedil;&atilde;o do dever de prestar informa&ccedil;&atilde;o devida aos clientes do banco, entre outras infra&ccedil;&otilde;es. Por sua vez, a leitura da senten&ccedil;a do processo criminal est&aacute; prevista para 2017 e envolve Jos&eacute; Oliveira e Costa e outros arguidos que s&atilde;o acusados, entre outros crimes, de burla e fraude fiscal. Domingos Duarte Lima, advogado e ex-l&iacute;der parlamentar do PSD na d&eacute;cada de 1990, foi condenado em Novembro de 2014&nbsp;a dez anos de pris&atilde;o efetiva por burla qualificada e branqueamento de capitais.</p>     <p>Em termos de cobertura medi&aacute;tica, o caso BPN come&ccedil;ou por ser not&iacute;cia em 2005 (<a href="#t1">tabela 1</a>). Nesse ano foram emitidas duas pe&ccedil;as sobre poss&iacute;veis irregularidades no banco, uma na SIC e outra na TVI. No ano seguinte, o n&uacute;mero de pe&ccedil;as sobe para oito e, em 2007, apesar de ser o ano em que o Departamento Central de Investiga&ccedil;&atilde;o e A&ccedil;&atilde;o Penal (DCIAP) abriu inqu&eacute;ritos criminais relacionados com a gest&atilde;o do banco, n&atilde;o encontramos refer&ecirc;ncias ao caso nos notici&aacute;rios. Por sua vez, em 2008, ano da pris&atilde;o de Oliveira e Costa e em que &eacute; aprovado o inqu&eacute;rito parlamentar sobre a atua&ccedil;&atilde;o do BPN, o n&uacute;mero de pe&ccedil;as dispara para 226, aumentando para 546 em 2009. Nos dois anos seguintes, a quantidade de pe&ccedil;as desce consecutivamente para 132 (2010) e 118 (2011), voltando a alcan&ccedil;ar maior destaque em 2012, com 173 pe&ccedil;as, nomeadamente por causa da deten&ccedil;&atilde;o de Duarte Lima.</p>     <p>O Freeport teve na sua origem suspeitas de corrup&ccedil;&atilde;o (ativa e passiva) e tr&aacute;fico de influ&ecirc;ncias na altera&ccedil;&atilde;o &agrave; Zona de Prote&ccedil;&atilde;o Especial do Estu&aacute;rio do Tejo, no licenciamento do espa&ccedil;o comercial de Alcochete, quando Jos&eacute; S&oacute;crates era Ministro do Ambiente. A estes ind&iacute;cios juntaram-se outros de branqueamento de capitais e financiamento ilegal de partidos pol&iacute;ticos.</p>     <p>O caso come&ccedil;ou a ser mediatizado nas v&eacute;speras das elei&ccedil;&otilde;es legislativas de fevereiro de 2005, tornando-se Jos&eacute; S&oacute;crates &ndash; que era cabe&ccedil;a de lista pelo PS a essas elei&ccedil;&otilde;es &ndash; um dos suspeitos de corrup&ccedil;&atilde;o devido a ter subscrito o decreto-lei que aprovara a constru&ccedil;&atilde;o do <i>outlet</i> Freeport em Alcochete. O ex-Primeiro-Ministro n&atilde;o chegou, todavia, a ser ouvido na investiga&ccedil;&atilde;o do DCIAP, mas o tribunal considerou que do julgamento resultaram fortes ind&iacute;cios de que existiram pagamentos dentro do Minist&eacute;rio do Ambiente e da Administra&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica, tendo por base os depoimentos de tr&ecirc;s testemunhas que referiram que o ent&atilde;o Ministro do Ambiente Jos&eacute; S&oacute;crates recebera pagamentos em dinheiro para viabilizar o projeto. Todavia, o&nbsp;inqu&eacute;rito n&atilde;o resultou em nenhuma acusa&ccedil;&atilde;o e o processo culminou na&nbsp;absolvi&ccedil;&atilde;o, em 2012, dos dois arguidos, Manuel Pedro e Charles Smith, da pr&aacute;tica do crime de tentativa de extors&atilde;o aos promotores do centro comercial Freeport.</p>     <p>Ainda que este caso tenha sido objeto de aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica pela primeira vez em 2005, foi apenas quando Jos&eacute; S&oacute;crates se recandidatou nas elei&ccedil;&otilde;es legislativas de 2009 que o caso teve maior proje&ccedil;&atilde;o. A <a href="#t1">tabela 1</a> indica-nos o percurso medi&aacute;tico deste processo nos canais de televis&atilde;o generalista: no ano de 2005 registaram-se 27 pe&ccedil;as sobre o tema, nenhuma no ano seguinte, 17 not&iacute;cias em 2007, uma em 2008, 753 em 2009, 101 em 2010, 16 em 2011, e 82 pe&ccedil;as em 2012.</p>     <p>O processo Face Oculta foi noticiado pela primeira vez no fim de outubro de 2009 e a leitura da senten&ccedil;a ocorreu em setembro de 2014. Neste processo todos os arguidos foram condenados, tendo sido muito comentadas as penas de pris&atilde;o atribu&iacute;das aos envolvidos. Num primeiro n&iacute;vel, a noticiabilidade do caso decorreu do envolvimento de figuras cimeiras da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e privada em Portugal, mas o foco central foi o envolvimento de Armando Vara, &agrave; &eacute;poca vice-presidente do BCP, ex-ministro dos governos de Ant&oacute;nio Guterres e figura muito pr&oacute;xima do Primeiro-Ministro em fun&ccedil;&otilde;es. As acusa&ccedil;&otilde;es relacionavam-se com lavagem de dinheiro, corrup&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e evas&atilde;o fiscal. Algumas semanas depois de se conhecer este caso ficou-se a saber da exist&ecirc;ncia de escutas telef&oacute;nicas entre Armando Vara e Jos&eacute; S&oacute;crates, dando origem ao caso das escutas. Este segundo caso refere-se a um alegado conluio orquestrado pelo Primeiro-Ministro para a compra da TVI pela PT, constituindo esta conduta um poss&iacute;vel crime de atentado contra o estado de direito. Na base desta inten&ccedil;&atilde;o estaria o objetivo de p&ocirc;r termo a uma campanha jornal&iacute;stica negativa e prejudicial&nbsp;para o Primeiro-Ministro, bem ilustrada pela cobertura do processo Freeport pela TVI. Este caso trouxe novamente para o espa&ccedil;o p&uacute;blico a discuss&atilde;o sobre o segredo de justi&ccedil;a.</p>     <p>O caso Face Oculta foi, ent&atilde;o, objecto de aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica a partir de Outubro de 2009 e foi nesse per&iacute;odo eleitoral que o tema teve maior proje&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica. Nos &uacute;ltimos meses desse ano foram emitidas 367 pe&ccedil;as sobre o assunto, 213 em 2010, 113 em 2011, e 66 not&iacute;cias em 2012.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os dados coligidos na <a href="#t1">tabela 1</a> demonstram claramente a&nbsp; relev&acirc;ncia do ano de 2009 no ciclo noticioso dos tr&ecirc;s esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o. Este foi um ano com tr&ecirc;s atos eleitorais (Europeias, Legislativas e Aut&aacute;rquicas) e o ano em que os tr&ecirc;s casos atingiram o pico de maior aten&ccedil;&atilde;o nos notici&aacute;rios de <i>prime time</i> dos canais de televis&atilde;o generalistas portugueses. Por esta raz&atilde;o, este &eacute; o per&iacute;odo temporal de an&aacute;lise deste estudo sobre as narrativas dos coment&aacute;rios e das not&iacute;cias produzidos acerca dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o referidos.</p>     <p>Em 2009, os notici&aacute;rios de <i>prime time</i> da RTP1 e da TVI contam com a colabora&ccedil;&atilde;o de comentadores residentes num dia espec&iacute;fico da semana, enquanto, &agrave; &eacute;poca, a SIC n&atilde;o recorria a comentadores fixos no seu notici&aacute;rio. Nesse ano encontramos&nbsp;Marcelo Rebelo de Sousa num espa&ccedil;o de opini&atilde;o acoplado ao notici&aacute;rio de Domingo da RTP1, e Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente no notici&aacute;rio da noite na TVI. Todavia, este &uacute;ltimo deixou de colaborar com o canal de Queluz na sequ&ecirc;ncia do cancelamento do <i>Jornal de Sexta,</i> conduzido por&nbsp;Manuel Moura Guedes, em setembro de 2009. Ap&oacute;s estas mudan&ccedil;as editoriais, Ant&oacute;nio Peres Metello assume a fun&ccedil;&atilde;o de comentador fixo do canal.</p>     <p>Em 2009 foram produzidos 64 coment&aacute;rios sobre os tr&ecirc;s casos de corrup&ccedil;&atilde;o em an&aacute;lise: 32 sobre o Freeport, 21 sobre o BPN e 11 sobre o caso Face Oculta. Tendo os notici&aacute;rios uma periodicidade di&aacute;ria, compreende-se o n&uacute;mero substancialmente superior de pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas face aos coment&aacute;rios, cuja cad&ecirc;ncia obedece a periodicidades distintas, predominando a semanal. Deste modo, os dados apresentados na <a href="#t2">tabela 2</a> n&atilde;o devem ser analisados em termos de dias, mas de semanas. Isto significa que os tr&ecirc;s casos foram comentados, pelos menos, uma vez por semana, revelando, assim, uma presen&ccedil;a ass&iacute;dua e regular na agenda dos comentadores ao longo do ano. Neste contexto, importa destacar o caso Face Oculta. Este distingue-se dos outros dois, porque s&oacute; irrompeu no espa&ccedil;o p&uacute;blico no fim de outubro de 2009. Os 11 coment&aacute;rios registados foram ent&atilde;o produzidos entre os &uacute;ltimos dias desse m&ecirc;s e meados de dezembro, correspondendo a uma m&eacute;dia superior a um coment&aacute;rio por semana.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t2"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06t2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>O <a href="#g1">Gráfico 1</a> permite-nos acompanhar a evolu&ccedil;&atilde;o dos casos nos espa&ccedil;os de opini&atilde;o nos notici&aacute;rios televisivos. Em primeiro lugar, verificamos que a presen&ccedil;a dos casos no coment&aacute;rio &ndash; e, por maioria de raz&atilde;o, nos notici&aacute;rios &ndash; parece ter evolu&iacute;do em espelho. Ou seja, os meses em que o caso Freeport tem maior presen&ccedil;a na opini&atilde;o, corresponde aos meses em que o caso BPN tamb&eacute;m tem. A partir dos finais do m&ecirc;s de outubro, quando o caso Face Oculta ganha destaque medi&aacute;tico, o caso BPN regressa &agrave; agenda dos comentadores.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g1"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Para melhor compreendermos esta ila&ccedil;&atilde;o importa recordar que os tr&ecirc;s casos envolvem (ou est&atilde;o na &oacute;rbitra de) figuras cimeiras do pa&iacute;s no per&iacute;odo em que tiveram maior destaque medi&aacute;tico &ndash; o Primeiro-Ministro e o Presidente da Rep&uacute;blica &ndash; e os dois partidos mais votados em Portugal, o PS e o PSD. Os casos Freeport e Face Oculta envolvem o Primeiro-Ministro Jos&eacute; S&oacute;crates e individualidades pr&oacute;ximas do l&iacute;der do PS e o caso BPN est&aacute; associado a ex-ministros dos governos PSD, liderados por An&iacute;bal Cavaco Silva, Presidente da Rep&uacute;blica quando o esc&acirc;ndalo eclodiu.</p>     <p>Em segundo lugar, verificamos que a aten&ccedil;&atilde;o aos casos concentrou-se entre meados de abril e de junho, per&iacute;odo temporal que corresponde &agrave; fase da pr&eacute;-campanha eleitoral das Europeias (realizadas a 7 de julho) e das Legislativas (realizadas a 27 de setembro). A fase de campanha propriamente dita costuma incidir sobre as atividades de campanha, nomeadamente as visitas a v&aacute;rios pontos do pa&iacute;s, seguindo de perto a agenda dos candidatos (Cunha e Figueiras, 2013). Por sua vez, a fase de pr&eacute;-campanha corresponde ao per&iacute;odo em que se define o ambiente da contenda eleitoral, ou seja, o contexto narrativo em que a campanha se vai desenrolar. Esta &eacute; a fase em que os partidos prop&otilde;em uma determinada imagem de si e dos cabe&ccedil;as de lista, constru&iacute;da em articula&ccedil;&atilde;o com os seus temas de campanha, e, por contraposi&ccedil;&atilde;o, a uma determinada imagem do(s) candidato(s) diretamente oponente(s) (Cacciotto, 2015).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em terceiro lugar, decorrente das ila&ccedil;&otilde;es anteriores e da articula&ccedil;&atilde;o dos dados disponibilizados na <a href="#t1">tabela 1</a> e no <a href="#g1">Gráfico 1</a>, parece ser poss&iacute;vel considerar que se verificou um uso estrat&eacute;gico destes casos de corrup&ccedil;&atilde;o em momentos-chave da vida democr&aacute;tica portuguesa, nomeadamente a rentabiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica destes casos em per&iacute;odo de campanha eleitoral.</p>     <p>O <a href="#g2">Gráfico 2</a> revela-nos a aten&ccedil;&atilde;o que os comentadores deram aos tr&ecirc;s casos em cada canal de televis&atilde;o. Dos 64 coment&aacute;rios, 25 foram emitidos na RTP1, 24 na TVI e 15 na SIC. O canal p&uacute;blico foi o que deu maior destaque, mas estes dados devem, no entanto, ser contextualizados nas altera&ccedil;&otilde;es registadas na TVI em setembro de 2009, altura em que o <i>Jornal de Sexta</i>, conduzido por Manuela Moura Guedes, foi suspenso e se come&ccedil;ou a verificar uma suaviza&ccedil;&atilde;o da linha editorial do canal, cujo enfoque at&eacute; ent&atilde;o caracterizava-se por uma abordagem incisiva e cr&iacute;tica da pol&iacute;tica, em linha com uma rentabiliza&ccedil;&atilde;o comercial dos esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o. Esta hip&oacute;tese parece ser corroborada pelos dados do <a href="#g2">Gráfico 2</a>, nomeadamente a aten&ccedil;&atilde;o que o canal deu aos casos Freeport e BPN, cujo maior destaque ocorreu at&eacute; julho. Nos primeiros meses do ano de 2009, a TVI foi o canal que deu maior aten&ccedil;&atilde;o a ambos os casos. No entanto, quando o Face Oculta irrompeu no fim de outubro, o notici&aacute;rio da TVI foi o que deu um destaque menor a este caso.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g2"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>A partir da <a href="#t3">tabela 3</a> &eacute; tamb&eacute;m poss&iacute;vel verificar que o caso Freeport teve uma aten&ccedil;&atilde;o mais homog&eacute;nea nos tr&ecirc;s canais de televis&atilde;o &ndash; 12 coment&aacute;rios na TVI, 10 na RTP1 e outros 10 na SIC &ndash;, enquanto os outros dois casos tiveram uma presen&ccedil;a mais irregular nos espa&ccedil;os de opini&atilde;o. O caso BPN foi comentado 10 vezes na TVI, nove na RTP1 e duas vezes apenas na SIC, e o Face Oculta foi objeto de seis coment&aacute;rios na RTP1, tr&ecirc;s na SIC e dois no notici&aacute;rio de <i>prime time</i> da TVI. O <a href="#g2">Gráfico 2</a> permite-nos ainda concluir que a RTP1 deu uma aten&ccedil;&atilde;o relativamente equitativa aos tr&ecirc;s casos. O Freeport foi comentado 10 vezes, o BPN foi objecto de nove coment&aacute;rios e o Face Oculta de seis no canal p&uacute;blico de televis&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t3"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06t3.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>A <a href="#t3">tabela 3</a> fornece-nos tamb&eacute;m informa&ccedil;&atilde;o sobre os comentadores, o seu perfil e o n&uacute;mero de vezes que comentaram os casos em an&aacute;lise. Os t&oacute;picos foram debatidos com n&iacute;veis de complexidade distintos dependendo do comentador em espec&iacute;fico e o formato que enquadrou as suas possibilidades de express&atilde;o: poucos minutos no notici&aacute;rio, partilha da an&aacute;lise com outros comentadores em est&uacute;dio ou o controlo do tempo dedicado ao caso em espa&ccedil;o de opini&atilde;o em nome pr&oacute;prio.</p>     <p>A opini&atilde;o apresentou-se sob a forma de tr&ecirc;s modalidades nos notici&aacute;rios de prime-time: como um tema da agenda dos comentadores fixos, como uma forma de complementar a abordagem noticiosa, e como uma estrat&eacute;gia comercial e simb&oacute;lica dos grupos de comunica&ccedil;&atilde;o. Na primeira modalidade encontramos Marcelo Rebelo de Sousa (RTP1) e Miguel Sousa Tavares, Vasco Pulido Valente e Ant&oacute;nio Peres Metello (TVI). Na segunda, Eduardo D&acirc;maso e Pedro Santos Guerreiro (RTP1), Ant&oacute;nio Jos&eacute; Teixeira, Jos&eacute; Gomes Ferreira, Ricardo Costa, Lu&iacute;s Filipe Carvalho (SIC) e Rog&eacute;rio Alves (SIC e TVI). Encontramos a terceira modalidade em duas vezes apenas, na SIC e na TVI, onde em ambos os notici&aacute;rios foram emitidas pe&ccedil;as curtas com opini&otilde;es produzidas sobre o caso Freeport em programas de coment&aacute;rio nos canais de informa&ccedil;&atilde;o no cabo que pertencem aos mesmos grupos de comunica&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Quadratura do C&iacute;rculo&rdquo; na SIC Not&iacute;cias e &ldquo;A Torto e a Direito&rdquo; na TVI24. Ao mesmo tempo que estas opini&otilde;es ajudavam a refor&ccedil;ar uma determinada proposta de leitura sobre os casos, permitiam diversificar a abordagem jornal&iacute;stica nos notici&aacute;rios televisivos e promover programas de nicho emitidos nos canais de cabo junto dos audit&oacute;rios mais vastos dos canais generalistas dos grupos.</p>     <p>Esta estrat&eacute;gia &eacute; igualmente reveladora dos fluxos de conte&uacute;dos em circula&ccedil;&atilde;o dentro dos grupos de media. Este uso estrat&eacute;gico da opini&atilde;o refor&ccedil;a a legitimidade simb&oacute;lica dos comentadores. O espa&ccedil;o de opini&atilde;o &eacute;, j&aacute; por si, uma inst&acirc;ncia de legitima&ccedil;&atilde;o discursiva, pelo que este tipo de intertextualidade e recontextualiza&ccedil;&atilde;o contribui para refor&ccedil;ar o estatuto de comentador e para o que Pierre Bourdieu (1989, 1997) definiu como o &ldquo;c&iacute;rculo encantado da legitima&ccedil;&atilde;o&rdquo;. A cita&ccedil;&atilde;o adquire os contornos de uma inst&acirc;ncia de legitima&ccedil;&atilde;o discursiva de segundo grau.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A <a href="#t3">tabela 3</a> permite-nos, assim, concluir que dos 64 coment&aacute;rios emitidos, 2/3 &ndash; 43 coment&aacute;rios &ndash; foram produzidos por comentadores fixos dos canais de televis&atilde;o generalistas, nomeadamente da RTP1 e da TVI. O quadro esclarece-nos ent&atilde;o que a posi&ccedil;&atilde;o cimeira da RTP1 deve-se &agrave; aten&ccedil;&atilde;o que Marcelo Rebelo de Sousa deu aos tr&ecirc;s casos no seu programa de coment&aacute;rio semanal, &laquo;As Escolhas de Marcelo Rebelo de Sousa&raquo;. Das 25 opini&otilde;es registadas no canal p&uacute;blico, apenas duas foram proferidos no notici&aacute;rio por jornalistas de imprensa que pertenciam &agrave; carteira de comentadores do canal, mas cuja presen&ccedil;a em antena era definida pela agenda noticiosa. O caso Freeport foi analisado por Eduardo D&acirc;maso, &agrave; &eacute;poca vice-diretor do <i>Correio da Manh&atilde;</i>. O caso BPN foi comentado por Pedro Santos Guerreiro, na altura diretor do <i>Jornal de Neg&oacute;cios</i>. Se no primeiro caso a t&oacute;nica foi colocada no esc&acirc;ndalo de poder, no segundo, o destaque foi dado &agrave; dimens&atilde;o financeira do esc&acirc;ndalo.</p>     <p>Depois desta an&aacute;lise de conjunto, vamo-nos agora centrar em cada um dos casos em particular e detalhar o modo como cada um deles foi abordado pelos comentadores a partir dos indicadores j&aacute; referidos: temas, atores, tons e estilos dos coment&aacute;rios. Estes dados v&atilde;o depois permitir-nos aferir a rela&ccedil;&atilde;o entre a narrativa do coment&aacute;rio e das not&iacute;cias sobre os casos BPN, Freeport e Face Oculta.</p>     <p><i>O caso BPN </i></p>     <p>Integradas nas 546 pe&ccedil;as identificadas sobre o caso BPN em 2009 (<a href="#t2">tabela 2</a>), 21 correspondem a opini&otilde;es proferidas, que se traduziram em uma hora e dezanove minutos de coment&aacute;rio sobre o tema. Nesse ano, o primeiro coment&aacute;rio foi feito por Vasco Pulido Valente no <i>Jornal Nacional</i> da TVI, no dia 16 de janeiro, e o &uacute;ltimo do ano foi proferido por Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1, a 22 de novembro. A maior aten&ccedil;&atilde;o ao caso registou-se, todavia, at&eacute; julho desse ano, onde encontramos 16 das 21 opini&otilde;es emitidas sobre o BPN.</p>     <p>Os temas que mais se destacaram na abordagem dos comentadores foram (<a href="#g2">Gráfico 2</a>): &ldquo;Irregularidades da supervis&atilde;o do Banco de Portugal&rdquo; (sete coment&aacute;rios), &ldquo;Gest&atilde;o danosa de Oliveira e Costa&rdquo; (seis coment&aacute;rios), &ldquo;Declara&ccedil;&otilde;es de Oliveira e Costa&rdquo; (seis coment&aacute;rios) e &ldquo;Privatiza&ccedil;&atilde;o do BPN&rdquo; (cinco coment&aacute;rios).</p>     <p>Tal como os outros dois casos em an&aacute;lise, o caso BPN foi sendo comentado &agrave; medida que se iam conhecendo um conjunto vasto e variado de crimes associados ao Banco Privado de Neg&oacute;cios. Todavia, a opini&atilde;o canalizou as suas aten&ccedil;&otilde;es para as responsabilidades do regulador. Os comentadores elegeram as falhas da supervis&atilde;o como a principal causa explicativa do que se estava a descobrir. Por este motivo, a descredibiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e o apuramento das responsabilidades do regulador foram os t&oacute;picos dominantes na opini&atilde;o.</p>     <p>Esta perspetiva est&aacute; bem patente no coment&aacute;rio de Marcelo Rebelo de Sousa (RTP1: 15.02.2009): &ldquo;H&aacute; muito que digo que o Banco de Portugal n&atilde;o perguntou o que devia ter perguntado. (...) Acho que se deve fazer um apuramento da responsabilidade do regulador. (...) continuo cheio de d&uacute;vidas sobre a interven&ccedil;&atilde;o do regulador.&rdquo; Na mesma linha, Miguel Sousa Tavares questiona (TVI: 26.03.2009): &ldquo;Como &eacute; que este banco pode acabar a dever 2 mil milh&otilde;es de euros? (...). E isto acontece nas barbas do Banco de Portugal, que nunca deu por nada, que nunca desconfiou de nada, que nunca percebeu a rela&ccedil;&atilde;o entre o Banco Insular e o BPN. E s&oacute;, de facto, com a casa a arder &eacute; que d&aacute; por alguma coisa. (...). Fic&aacute;mos a saber que um banco privado, que ainda por cima j&aacute; n&atilde;o tinha bom nome no mercado na altura, faz desaparecer 6 mil milh&otilde;es de euros e o Banco de Portugal n&atilde;o tem uma suspeita?&rdquo;.</p>     <p>A &ldquo;Gest&atilde;o danosa de Oliveira e Costa&rdquo; foi o segundo grande tema discutido pelos comentadores, por coincidir com o per&iacute;odo em que o banqueiro foi interrogado na Comiss&atilde;o de Inqu&eacute;rito parlamentar e que, posteriormente, enviou uma carta &agrave; Comiss&atilde;o enquanto estava em pris&atilde;o preventiva. Os comentadores destacaram a aus&ecirc;ncia de respostas concretas sobre a gest&atilde;o do banco, nomeadamente Miguel Sousa Tavares: &ldquo;O que &eacute; que eles est&atilde;o ali a fazer? (...) &Eacute; extraordin&aacute;rio, entre os administradores ningu&eacute;m sabia de nada. Qualquer incompetente teria feito melhor do que fez a administra&ccedil;&atilde;o do BPN&rdquo; (TVI: 26.03.2009).</p>     <p>Estes temas foram ainda interligados com as &ldquo;Declara&ccedil;&otilde;es de Oliveira e Costa&rdquo; proferidas ao longo do ano, tal como se percebe no coment&aacute;rio de Jos&eacute; Gomes Ferreira (SIC: 26.05.2009): &ldquo;O Dr. Oliveira e Costa n&atilde;o explicou o que teve na origem do desequil&iacute;brio enorme do banco. Portanto, andou sempre &agrave; volta desta quest&atilde;o. Depois vai mais longe. Acusa o Dr. Miguel Cadilhe de ter recebido muito dinheiro. (...). Depois diz que das tr&ecirc;s hip&oacute;teses de venda do grupo (...), p&ocirc;s sempre a informa&ccedil;&atilde;o disponibilizada para o Banco de Portugal ver quem queria comprar e diz tamb&eacute;m que os compradores sabiam que havia um banco, o Banco Insular, que embora n&atilde;o estivesse consolidado, fazia parte da compra. Isto levanta muitas quest&otilde;es, nomeadamente o regulador sabia ou n&atilde;o sabia disto tudo?&rdquo;. Pedro Santos Guerreiro tamb&eacute;m comentou as declara&ccedil;&otilde;es de Oliveira e Costa, alertando para a incompatibilidade entre a sua vers&atilde;o e a de Dias Loureiro: &ldquo;&Eacute; palavra contra palavra. H&aacute; um mentiroso, pelo menos, ou dois&rdquo; (RTP1: 26.05.2009).</p>     <p>A &ldquo;Privatiza&ccedil;&atilde;o do BPN&rdquo; foi o quarto tema mais abordado no coment&aacute;rio e o que gerou uma maior polariza&ccedil;&atilde;o entre os comentadores. A opini&atilde;o sobre a conduta do Governador do Banco de Portugal e as declara&ccedil;&otilde;es de Oliveira e Costa foi significativamente homog&eacute;nea, mas a privatiza&ccedil;&atilde;o do banco ap&oacute;s a sua nacionaliza&ccedil;&atilde;o, foi o t&oacute;pico em que regist&aacute;mos uma maior diverg&ecirc;ncia de opini&otilde;es entre os comentadores. Enquanto uns consideraram a nacionaliza&ccedil;&atilde;o inevit&aacute;vel no contexto da crise econ&oacute;mica que se abateu na Europa, ap&oacute;s a queda do Lehman Brothers nos Estados Unidos, outros interpretaram-na como um aproveitamento pol&iacute;tico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em defesa da nacionaliza&ccedil;&atilde;o, Ant&oacute;nio Peres Metello justificou (TVI: 03.02.2009): &ldquo;Porventura n&atilde;o &eacute; muito popular dizer isto, mas h&aacute; uma import&acirc;ncia crucial no sistema financeiro. Sem o sistema financeiro a funcionar como deve ser, a irrigar todos os sectores da economia&rdquo;. Por sua vez, Jos&eacute; Gomes Ferreira assume claramente que &ldquo;&eacute; bom que o ministro das finan&ccedil;as v&aacute; explicar ao parlamento e aos portugueses, (...) que vamos reprivatizar (...). E eu pergunto-me como &eacute; que um ministro que tem uma imagem de rigor constru&iacute;da ao longo dos anos, agora vem dizer aos portugueses n&atilde;o se preocupem que ningu&eacute;m p&ocirc;s l&aacute; um tost&atilde;o. Por amor de Deus&rdquo; (SIC: 20.11.2009). Avan&ccedil;ando nesta linha de argumentos encontramos Vasco Pulido Valente (TVI: 16.01.2009): &ldquo;O que o Dr. Cadilhe disse &eacute; que a nacionaliza&ccedil;&atilde;o do Banco de Neg&oacute;cios tinha sido um ato pol&iacute;tico e n&atilde;o um ato financeiro (...). O Dr. Cadilhe disse que quando se estava quase a descobrir, quando ele tinha indicadores seguros que permitiam identificar os respons&aacute;veis pelo buraco e fraudes do banco, foi nessa altura que o estado resolveu nacionalizar o dito banco&rdquo;.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Apesar de elencarem um conjunto elevado de nomes relacionados com o caso (<a href="#g3">Gráfico 3</a>), os comentadores centraram as aten&ccedil;&otilde;es em tr&ecirc;s individualidades: V&iacute;tor Const&acirc;ncio (10 coment&aacute;rios), Oliveira e Costa (nove coment&aacute;rios) e Dias Loureiro (sete coment&aacute;rios). Estes s&atilde;o os protagonistas dos temas dominantes na opini&atilde;o, permitindo-nos constatar que a narrativa do coment&aacute;rio adotou uma concep&ccedil;&atilde;o orientada para a personifica&ccedil;&atilde;o assente na conduta das personalidades envolvidas.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g3"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g3.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>De acordo com o <a href="#g4">Gráfico 4</a>, o tom negativo dominou a opini&atilde;o (18 coment&aacute;rios), seguido do tom equilibrado (14 coment&aacute;rios), ou seja, de coment&aacute;rios que ponderaram aprecia&ccedil;&otilde;es positivas com negativas. Os coment&aacute;rios positivos registaram-se apenas por tr&ecirc;s vezes.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g4"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g4.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Quando cruzamos as vari&aacute;veis atores e tons (<a href="#g5">Gráfico 5</a>) verificamos, em linha com o que j&aacute; foi dito, que os comentadores avaliaram de forma depreciativa o desempenho de Victor Const&acirc;ncio. O Governador do Banco de Portugal colheu sete coment&aacute;rios negativos e dois equilibrados. Esta aprecia&ccedil;&atilde;o destaca-se tamb&eacute;m por contraste ao modo como os comentadores avaliaram o desempenho de Oliveira e Costa &ndash; equilibrado (seis coment&aacute;rios) &ndash; e de Dias Loureiro, sobre o qual as opini&otilde;es se dividiram entre tr&ecirc;s negativas e tr&ecirc;s equilibradas.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g5"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g5.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>E de que modo &eacute; que os comentadores abordaram o caso BPN? A vari&aacute;vel &ldquo;estilo&rdquo; pretende definir a estrutura da argumenta&ccedil;&atilde;o do coment&aacute;rio, ou seja, a forma como as ideias s&atilde;o apresentadas. Tradicionalmente, o coment&aacute;rio foi institu&iacute;do como um espa&ccedil;o de interpreta&ccedil;&atilde;o e esclarecimento dos assuntos p&uacute;blicos, refletindo sobre causas, contextos e consequ&ecirc;ncias, complementando, assim, as not&iacute;cias naquilo que, pelas suas caracter&iacute;sticas, estas n&atilde;o podiam oferecer ao audit&oacute;rio. Deste modo, importa conhecer como os comentadores debateram o caso BPN e perceber se a narrativa da opini&atilde;o contribuiu para o esclarecimento p&uacute;blico.</p>     <p>A estrat&eacute;gia ret&oacute;rica dos comentadores desenvolveu-se em duas etapas. Num primeiro momento, os comentadores come&ccedil;avam por analisar e interpretar sumariamente os novos dados sobre o caso, para, de seguida, tomarem posi&ccedil;&atilde;o sobre o assunto, tal como ilustra bem este excerto da opini&atilde;o de Miguel Sousa Tavares (TVI: 5.11.2009): &ldquo;Eu sou contra a op&ccedil;&atilde;o da nacionaliza&ccedil;&atilde;o e mais inje&ccedil;&atilde;o de capital vindo do estado. N&atilde;o me interessa o tal risco sist&eacute;mico. Para mim n&atilde;o havia risco sist&eacute;mico nenhum&rdquo;. Apenas por tr&ecirc;s vezes foram registados coment&aacute;rios a propor um reenquadramento da est&oacute;ria. Ou seja, que convidaram o audit&oacute;rio a reexaminar premissas b&aacute;sicas do modo como o caso estava a ser enquadrado no espa&ccedil;o p&uacute;blico ou a reorientar a aten&ccedil;&atilde;o dos espetadores para outras dimens&otilde;es da quest&atilde;o em an&aacute;lise.</p>     <p>E de que modo &eacute; que podemos relacionar esta narrativa com a informa&ccedil;&atilde;o? A <a href="#t4">tabela 4</a> revela-nos que houve tr&ecirc;s grandes temas que se destacaram na cobertura jornal&iacute;stica ao caso BPN. A &ldquo;Gest&atilde;o danosa de Oliveira e Costa&rdquo; foi o tema dominante (9.2%, 43 pe&ccedil;as), seguida da &ldquo;Gest&atilde;o danosa da Sociedade Lusa de Neg&oacute;cios&rdquo; (8.1%, 38 pe&ccedil;as) e das &ldquo;Irregularidades da supervis&atilde;o do Banco de Portugal&rdquo; (6.6%, 31 pe&ccedil;as).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t4"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06t4.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Os tr&ecirc;s atores principais (<a href="#t5">tabela 5</a>) foram Oliveira e Costa, protagonista em 19.5% das not&iacute;cias (91 pe&ccedil;as), seguido de Dias Loureiro, em 12.6% das est&oacute;rias (59 pe&ccedil;as), e de Victor Const&acirc;ncio, presente em 7.7% das pe&ccedil;as sobre o BPN (36 not&iacute;cias).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t5"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06t5.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Em termos de avalia&ccedil;&atilde;o (<a href="#t6">tabela 6</a>), o tom neutro dominou em 92.1% (430 pe&ccedil;as) da cobertura noticiosa, seguido de muito longe do tom tendencialmente negativo, presente em 6.4% do total das pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas sobre este caso (30 not&iacute;cias). Ainda em menor presen&ccedil;a encontramos o tom equilibrado, identificado apenas em 0.6% das pe&ccedil;as (tr&ecirc;s not&iacute;cias).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="t6"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06t6.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Quando cruzamos as vari&aacute;veis atores e tons (<a href="#g6">Gráfico 6</a>) verificamos que o tom neutro dominou em 93.4% das pe&ccedil;as sobre Oliveira e Costa (85 not&iacute;cias), em 79.7% das pe&ccedil;as sobre Dias Loureiro (47 not&iacute;cias) e em 91.7% das not&iacute;cias sobre Victor Const&acirc;ncio (33 not&iacute;cias).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g6"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g6.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Estes dados permitem-nos afirmar que as not&iacute;cias e os coment&aacute;rios destacaram dimens&otilde;es distintas do caso. A t&iacute;tulo ilustrativo salientamos que, enquanto a gest&atilde;o danosa e o buraco financeiro foram analisados separadamente, os comentadores interligaram ambos os temas. Por outro lado, os media noticiosos abordaram o caso com cautela, ou seja, de modo neutro e centrando-se nas declara&ccedil;&otilde;es dos protagonistas. Por sua vez, os coment&aacute;rios foram muito cr&iacute;ticos e negativos.</p>     <p>Se as not&iacute;cias e a opini&atilde;o colocaram no centro das suas narrativas os mesmos atores, o destaque dado a cada um deles foi diferente. O notici&aacute;rio abordou os atores principais de modo maioritariamente neutro, nomeadamente Oliveira e Costa. A opini&atilde;o elegeu o Banco de Portugal, na pessoa do seu Governador, como o foco central da sua cr&iacute;tica, que foi o protagonista em apenas 7.7% das pe&ccedil;as noticiosas</p>     <p><i>O caso Freeport</i></p>     <p>Integradas nas 753 pe&ccedil;as emitidas pelos notici&aacute;rios televisivos em 2009, encontramos 32 coment&aacute;rios sobre o caso Freeport (<a href="#t2">tabela 2</a>): 10 na RTP1, 10 na SIC e 12 na TVI, correspondendo a um total de duas horas, seis minutos e cinquenta e seis segundos de opini&otilde;es emitidas nos notici&aacute;rios de <i>prime time</i> das televis&otilde;es generalistas portuguesas. O caso foi amplamente comentado no espa&ccedil;o de opini&atilde;o entre janeiro e maio. Durante estes cinco meses foram produzidos 30 dos 32 coment&aacute;rios sobre o processo em an&aacute;lise, significando tamb&eacute;m que o tema foi objeto regular de aten&ccedil;&atilde;o, numa m&eacute;dia de duas opini&otilde;es por semana. Os outros dois coment&aacute;rios foram feitos aquando do espoletar do caso Face Oculta.&nbsp;</p>     <p>De que modo &eacute; que os comentadores abordaram o caso Freeport? Houve tr&ecirc;s grandes temas que se destacaram (<a href="#g7">Gráfico 7</a>): &ldquo;Investiga&ccedil;&otilde;es sobre Licenciamento/Corrup&ccedil;&atilde;o&rdquo; (10 coment&aacute;rios), &ldquo;Conduta de Jos&eacute; S&oacute;crates&rdquo; (10 coment&aacute;rios) e &ldquo;Conduta da Justi&ccedil;a&rdquo; (sete coment&aacute;rios). Relacionado com o primeiro tema, debateram-se quest&otilde;es como procedimentos de licenciamento, pr&aacute;ticas l&iacute;citas e il&iacute;citas de aprova&ccedil;&atilde;o de neg&oacute;cios, e d&uacute;vidas sobre eventuais envolvidos no caso. As palavras de Vasco Pulido Valente (TVI: 22.05.2009) ilustram bem a tend&ecirc;ncia dominante: &ldquo;As pessoas n&atilde;o s&atilde;o claras quanto aos seus atos. Continua a haver aqui uma s&eacute;rie de ambiguidades. Deveria haver maior clareza e h&aacute; a maior confus&atilde;o que inspira a maior desconfian&ccedil;a a toda a gente&rdquo;. Neste &acirc;mbito foram ainda vastamente analisadas as diferen&ccedil;as entre as molduras legais portuguesa e inglesa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="g7"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g7.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>As rea&ccedil;&otilde;es de Jos&eacute; S&oacute;crates &agrave; cobertura jornal&iacute;stica do seu envolvimento no caso e ao que entendeu ser uma estrat&eacute;gia pol&iacute;tica para o derrubar foram dimens&otilde;es do outro tema mais focado pelos comentadores, bem ilustrado no coment&aacute;rio de Jos&eacute; Pacheco Pereira (SIC: 02.02.2009): &ldquo;Um Primeiro-Ministro n&atilde;o pode dizer isto sem dizer mais alguma coisa (...). Estou a ver um homem que tem um comportamento, face &agrave; verdade, el&aacute;stico&rdquo;.</p>     <p>Em terceiro lugar debateu-se o Minist&eacute;rio P&uacute;blico, nomeadamente, putativos usos, interesses e objetivos pol&iacute;ticos dos magistrados no caso, bem como declara&ccedil;&otilde;es e atitudes das altas figuras do aparelho judicial, reveladoras das tens&otilde;es internas nos campos sociais envolvidos. No entender de Marcelo Rebelo de Sousa (RTP1: 01.02.2009): &ldquo;A investiga&ccedil;&atilde;o deve avan&ccedil;ar, portanto, os investigadores, em vez de darem tantas entrevistas, devem trabalhar. O importante &eacute; que a C&acirc;ndida Almeida chegue rapidamente a conclus&otilde;es (...). E que se apure rapidamente isto&rdquo;.</p>     <p>Os atores (<a href="#g8">Gráfico 8</a>) mais comentados foram Jos&eacute; S&oacute;crates (18 cita&ccedil;&otilde;es), seguido de Ant&oacute;nio Pinto Monteiro, (nove cita&ccedil;&otilde;es) e Lopes da Mota e C&acirc;ndida Almeida, ambos citados quatro vezes. Enquanto o tom dominante foi o negativo, em 22 coment&aacute;rios (<a href="#g9">Gráfico 9</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g8"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g8.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g9"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g9.jpg">     
<p>No cruzamento das vari&aacute;veis (<a href="#g10">Gráfico 10</a>) verificamos que a aprecia&ccedil;&atilde;o geral destes atores foi predominantemente negativa. Jos&eacute; S&oacute;crates foi objeto de nove coment&aacute;rios negativos e cinco positivos, o Procurador-Geral da Rep&uacute;blica de cinco negativos e dois equilibrados, enquanto Lopes da Mota contou com dois negativos e C&acirc;ndida Almeida, tr&ecirc;s negativos e um equilibrado. Estas varia&ccedil;&otilde;es decorreram do facto de as opini&otilde;es oscilarem entre uma certa cautela decorrente da escassez de dados concretos, e de informa&ccedil;&atilde;o confirmada sobre o caso, e uma tomada de posi&ccedil;&atilde;o clara contra a conduta das individualidades envolvidas, quest&atilde;o central na abordagem dos comentadores ao caso Freeport.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g10"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g10.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>A maioria dos comentadores tomou uma posi&ccedil;&atilde;o face ao caso, tendo sido maioritariamente contra a forma como o Primeiro-Ministro, por um lado, e o Minist&eacute;rio P&uacute;blico, por outro, lidaram com o assunto. De entre os comentadores que se posicionaram contra a conduta de Jos&eacute; S&oacute;crates, destaca-se Vasco Pulido Valente (TVI: 23.01.2009): &ldquo;O Primeiro-Ministro n&atilde;o pode p&ocirc;r em causa a Procuradoria-Geral da Rep&uacute;blica, o juiz de instru&ccedil;&atilde;o e a pol&iacute;cia. O que ele insinuou que est&aacute; por detr&aacute;s disto &eacute; a velha cabala. (...) Que isso seja dito por um deputado, v&aacute; l&aacute;, que seja dito por um militante, at&eacute; se desculpa, agora ser dito pelo Primeiro-Ministro, porque ele esquece-se que &eacute; Primeiro-Ministro e os Primeiros-Ministros n&atilde;o podem dizer certas coisas&rdquo;. De forma mais contida, Marcelo Rebelo de Sousa (RTP1: 25.01.2009) afirmou: &ldquo;Isto &eacute; mau para Portugal&rdquo;.</p>     <p>Paralelamente, os comentadores posicionaram-se contra a conduta da justi&ccedil;a. O jurista e ex-Baston&aacute;rio da Ordem dos Advogados Rog&eacute;rio Alves afirmou (TVI: 29.03.2009): &ldquo;Compete ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico denunciar a situa&ccedil;&atilde;o &ndash; press&otilde;es para arquivamento &ndash; e investig&aacute;-la. (...). Esta bruma sobre bruma, n&eacute;voa sobre n&eacute;voa, &eacute; o Minist&eacute;rio P&uacute;blico quem tem de dissipar. Neste momento come&ccedil;a a ser um imperativo patri&oacute;tico ter de a dissipar&rdquo;. De forma ainda mais incisiva, Miguel Sousa Tavares (TVI: 14.05.2009) tomou uma clara posi&ccedil;&atilde;o contra o Minist&eacute;rio P&uacute;blico: &ldquo;Espero que o objetivo final n&atilde;o seja criar a ideia nas pessoas de que cada vez que h&aacute; um processo que mete pol&iacute;ticos, que h&aacute; press&otilde;es sobre os magistrados, porque isso poderia servir como pretexto para que os magistrados do Minist&eacute;rio P&uacute;blico exigissem ainda mais autonomia. (...). O Ministro da Justi&ccedil;a n&atilde;o tem quaisquer poderes sobre o funcionamento do Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Eu espero que n&atilde;o seja isso&rdquo;.</p>     <p>De modo a analisarmos a conex&atilde;o entre as narrativas noticiosas e dos coment&aacute;rios, come&ccedil;amos por identificar os temas principais, os atores mais referidos e o tom dominante nas pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas. Das 974 not&iacute;cias emitidas sobre o caso, 721 (74%) foram em 2009 (<a href="#t2">tabela 2</a>). Ao longo de todo esse ano o caso dominou a agenda pol&iacute;tico-medi&aacute;tica com 247 pe&ccedil;as na TVI, 270 na SIC e 204 na RTP1. Os temas mais noticiados (<a href="#t4">tabela 4</a>) foram as &ldquo;Declara&ccedil;&otilde;es&rdquo; dos principais intervenientes (186 pe&ccedil;as), as &ldquo;Investiga&ccedil;&otilde;es e Buscas do Minist&eacute;rio P&uacute;blico&rdquo; (70 pe&ccedil;as) e o &ldquo;Caso <i>Eurojust</i>&ldquo; (55 pe&ccedil;as).</p>     <p>A <a href="#t5">tabela 5</a> informa-nos que os atores principais nas not&iacute;cias foram o Primeiro-Ministro Jos&eacute; S&oacute;crates (136 pe&ccedil;as), o Presidente do <i>Eurojust</i> Lopes da Mota (63 pe&ccedil;as), e o Procurador Geral da Rep&uacute;blica Ant&oacute;nio Pinto Monteiro (53 pe&ccedil;as). A partir da <a href="#t6">tabela 6</a> apercebemo-nos que o tom que claramente se destacou foi o neutro (503 pe&ccedil;as), distanciando-se da cobertura negativa (131 pe&ccedil;as) e equilibrada (40 pe&ccedil;as). Ao associarmos ator e tom (<a href="#g11">Gráfico 11</a>), verificamos que as not&iacute;cias que envolveram Jos&eacute; S&oacute;crates abordaram o Primeiro-Ministro maioritariamente de forma neutra (85 pe&ccedil;as) e tendencialmente negativa (42 pe&ccedil;as), tal como Lopes da Mota, cuja cobertura foi maioritariamente neutra (40 pe&ccedil;as), seguida de negativa (20 pe&ccedil;as). Na maioria das pe&ccedil;as sobre o PGR predominou tamb&eacute;m o tom neutro (41 pe&ccedil;as), contra seis com um tom tendencialmente negativo e outras seis com um tom equilibrado.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g11"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g11.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>As narrativas jornal&iacute;stica e de opini&atilde;o obedecem a l&oacute;gicas particulares, ainda que haja uma contiguidade entre ambas. A primeira est&aacute; subordinada a uma l&oacute;gica de informar o cidad&atilde;o, enquanto a segunda pressup&otilde;e um espa&ccedil;o de exposi&ccedil;&atilde;o de ideias suscitadas a prop&oacute;sito das not&iacute;cias do dia ou da semana. No que diz respeito ao caso Freeport, verificamos que as not&iacute;cias foram um expect&aacute;vel ponto de partida dos coment&aacute;rios. A contiguidade confirmou-se na agenda da opini&atilde;o, cada vez mais <i>presentificada</i> e com os acontecimentos do dia e da semana a darem o mote para a an&aacute;lise dos temas. Todavia, a&nbsp;opini&atilde;o n&atilde;o trabalha diretamente sobre fatos, mas comenta a partir deles. No contexto do notici&aacute;rio, os coment&aacute;rios, por um lado, particularizaram determinadas quest&otilde;es &ndash; como o comportamento de intervenientes concretos &ndash; e, por outro, extrapolaram para quest&otilde;es mais amplas, como a rela&ccedil;&atilde;o entre os neg&oacute;cios e a pol&iacute;tica. O destaque dado ao caso <i>Eurojust</i> &eacute; um bom exemplo das diferen&ccedil;as entre as narrativas da opini&atilde;o e do jornalismo sobre o caso Freeport. Na informa&ccedil;&atilde;o foi um t&oacute;pico que se destacou nas not&iacute;cias, enquanto na narrativa da opini&atilde;o n&atilde;o ganhou verdadeiro protagonismo por si s&oacute;, sendo abordado de forma integrada nas aprecia&ccedil;&otilde;es sobre a atua&ccedil;&atilde;o de figuras de proa de institui&ccedil;&otilde;es-chave no caso ou como exemplo de redes informais de interesses institu&iacute;dos. Outra nota diferenciadora verificou-se no cruzamento das vari&aacute;veis atores e tom. Os comentadores foram muito mais cr&iacute;ticos e negativos para com Jos&eacute; S&oacute;crates, Pinto Monteiro e Lopes da Mota do que as pe&ccedil;as noticiosas, que se mantiveram maioritariamente neutras face a estas personalidades.</p>     <p>Tal como evidenciado no caso BPN, e contrariamente tamb&eacute;m aos media noticiosos, que abordaram o caso com cautela, os comentadores foram muito cr&iacute;ticos e adotaram uma postura maioritariamente conflitual. A an&aacute;lise permitiu identificar opini&otilde;es com n&iacute;veis de animosidade elevada acerca do caso Freeport e dos seus principais protagonistas.</p>     <p><i>O caso Face Oculta </i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Face Oculta emergiu a 29 de outubro de 2009 e &eacute; nos &uacute;ltimos meses desse ano que atinge maior aten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica no notici&aacute;rio de <i>prime time</i> das televis&otilde;es generalistas portuguesas. De entre 367 pe&ccedil;as emitidas em 2009, encontramos 11 coment&aacute;rios (<a href="#t2">tabela 2</a>): seis na RTP, tr&ecirc;s na SIC e dois na TVI, num total de uma hora, tr&ecirc;s minutos e tr&ecirc;s segundos de opini&otilde;es emitidas. A despropor&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de coment&aacute;rios face ao total das pe&ccedil;as sobre o assunto explica-se pelo fato de a maioria desses coment&aacute;rios ocorrer dentro de espa&ccedil;os de opini&atilde;o de periodicidade semanal fixa. Deste modo, os dados adquirem uma leitura distinta se em vez de os enquadrarmos em termos de dias, os perspetivarmos em termos de semanas, nomeadamente as cerca de 9 semanas entre o espoletar do caso, no fim de outubro, e os dias que antecedem as festas no m&ecirc;s de dezembro. De entre todos os comentadores, Marcelo Rebelo de Sousa (na RTP1) foi o que mais abordou o tema (seis vezes), seguido de Miguel Sousa Tavares (TVI) com dois coment&aacute;rios.</p>     <p>Nesse ano de 2009, a SIC n&atilde;o tinha comentadores fixos no notici&aacute;rio da noite e, por isso, o caso foi tratado por tr&ecirc;s colaboradores distintos que fazem parte da carteira de comentadores do canal e cuja presen&ccedil;a no <i>Jornal da Noite</i> decorre dos temas em agenda. Deste modo, no dia em que se ficou a saber das buscas a v&aacute;rias empresas, a SIC inaugurou o coment&aacute;rio sobre o Face Oculta com o jornalista da esta&ccedil;&atilde;o Jos&eacute; Gomes Ferreira. Cinco dias depois, a 4 de novembro, a componente pol&iacute;tica tornou-se o &acirc;ngulo dominante, e a inaugur&aacute;-la esteve Ricardo Costa, &agrave; &eacute;poca diretor do <i>Expresso</i>, seman&aacute;rio do mesmo grupo propriet&aacute;rio do canal de televis&atilde;o; duas semanas depois (a 24 de novembro), o &acirc;ngulo privilegiado foi o jur&iacute;dico, num coment&aacute;rio de Lu&iacute;s Filipe Carvalho, advogado e comentador do canal. Na TVI, Miguel Sousa Tavares comentou este caso durante duas semanas consecutivas e apenas regressou ao tema quando as escutas emergiram na terceira semana de novembro.</p>     <p>De que modo &eacute; que os comentadores abordaram o caso Face Oculta? Em sede da opini&atilde;o destacaram-se dois grandes temas em dois momentos distintos da evolu&ccedil;&atilde;o do caso (<a href="#g12">Gráfico 12</a>). Nas primeiras semanas, foi o tema &ldquo;Crimes de corrup&ccedil;&atilde;o&rdquo; (quatro coment&aacute;rios) que dominou, e, a partir de meados do m&ecirc;s de novembro, a quest&atilde;o central passou a ser as &ldquo;Escutas&rdquo; (seis coment&aacute;rios). Inicialmente, a quest&atilde;o dominante na opini&atilde;o foi o il&iacute;cito que estava na base da investiga&ccedil;&atilde;o, o crime de corrup&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g12"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g12.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>As an&aacute;lises debru&ccedil;aram-se sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre o poder pol&iacute;tico e o tecido empresarial, a circula&ccedil;&atilde;o de lugares de um setor para o outro, e a cadeia de favores e favorecimentos entre ambos os setores. Neste &acirc;mbito, emergiu um debate sobre poss&iacute;veis impulsos legislativos que os coment&aacute;rios repudiaram pelo seu car&aacute;ter reativo e casu&iacute;stico, levando Ricardo Costa a afirmar (SIC: 04.11.2009): &ldquo;Quase que aposto que v&atilde;o cair na f&uacute;ria legislativa de legislar contra a corrup&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um erro&rdquo;.&nbsp;Ainda na primeira fase do processo, os comentadores debateram a (n&atilde;o) suspens&atilde;o de fun&ccedil;&otilde;es dos principais envolvidos, o ex-ministro Armando Vara e Jos&eacute; Penedos, considerando que a sa&iacute;da de ambos seria ben&eacute;fica para a imagem dos cargos de poder e das institui&ccedil;&otilde;es que lideravam, tal como ficou evidente nas palavras de Jos&eacute; Gomes Ferreira (SIC: 30.10.2009): &ldquo;Ningu&eacute;m pode ser demitido nestas circunst&acirc;ncias, mas eu pergunto o seguinte ao Governador do Banco de Portugal, ao Ministro da Economia, aos presidentes destas empresas: (...) olhem para si pr&oacute;prios, olhem para o pa&iacute;s e perguntem-se se isto pode continuar assim? Se estas pessoas podem continuar nos lugares?&rdquo; Na mesma linha, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou (RTP1: 01.11.2009): &ldquo;Se as pessoas est&atilde;o constitu&iacute;das arguidas devem suspender-se das fun&ccedil;&otilde;es (....)&rdquo;.</p>     <p>Numa segunda fase do caso, a partir da segunda metade do m&ecirc;s de novembro, as escutas tornaram-se o tema dominante, relegando o Face Oculta para segundo plano das aten&ccedil;&otilde;es, como notou Marcelo Rebelo de Sousa (RTP1: 15.11.2009): &ldquo;Isto das escutas afastou do essencial, que &eacute; a Face Oculta&rdquo;. Nesta segunda parte da hist&oacute;ria, os atores principais (<a href="#g13">Gráfico 13</a>) foram Ant&oacute;nio Pinto Monteiro (destacado em sete coment&aacute;rios), Jos&eacute; S&oacute;crates (destacado em seis coment&aacute;rios), e Armando Vara (destacado em cinco coment&aacute;rios). O <a href="#g14">Gráfico 14</a> d&aacute;-nos conta que o tom dos coment&aacute;rios foi maioritariamente negativo (sete coment&aacute;rios), acompanhado em menor grau por tons equilibrados (quatro coment&aacute;rios), i.e., em opini&otilde;es que conjugaram aprecia&ccedil;&otilde;es negativas e positivas.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g13"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g13.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g14"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g14.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>No cruzamento das vari&aacute;veis (<a href="#g15">Gráfico 15</a>), Ant&oacute;nio Pinto Monteiro surgiu associado &agrave;s escutas num tom dominantemente negativo (cinco em sete coment&aacute;rios). Por sua vez, Jos&eacute; S&oacute;crates foi ligado aos dois grandes temas, salientando-se as escutas por ter sido essa tamb&eacute;m a quest&atilde;o dominante na an&aacute;lise ao caso: quatro aprecia&ccedil;&otilde;es negativas e duas equilibradas. O Primeiro-Ministro surgiu de forma latente como o grande ator do Face Oculta, mas a partir do momento em que emergiu o tema das escutas foi trazido para o centro do coment&aacute;rio. Interpreta&ccedil;&otilde;es sobre as conversas gravadas, a legalidade das escutas, o segredo de justi&ccedil;a e a revela&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do nos media foram temas apenas superados pela an&aacute;lise &agrave; conduta do Procurador Geral da Rep&uacute;blica e &agrave; forma como geriu o processo.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g15"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g15.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Deste modo, podemos afirmar que o caso Face Oculta foi abordado pelos comentadores principalmente pelo &acirc;ngulo da conduta e das consequ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas para os atores mais referidos pelos comentadores: o Primeiro-Ministro e o Procurador-Geral da Rep&uacute;blica. O primeiro por insistir nas teses da cabala e o segundo pela forma como demorou a decidir sobre a legalidade das escutas e por ter comentado publicamente o processo, ficando no ar sugest&otilde;es de benef&iacute;cios ao governo e de prote&ccedil;&atilde;o a Jos&eacute; S&oacute;crates durante o per&iacute;odo de campanha eleitoral. As palavras de Marcelo Rebelo de Sousa s&atilde;o bem ilustrativas sobre ambos (RTP1: 22.11.2009): &ldquo;O Procurador atuou duma forma t&atilde;o atabalhoada, com tantos pontap&eacute;s no direito, na maneira como agiu, que n&atilde;o acabou por credibilizar e acabou por n&atilde;o dar for&ccedil;a &agrave; decis&atilde;o&rdquo;. No sentido oposto, Miguel Sousa Tavares (TVI: 26.11.2009) insurgiu-se contra os que acusavam Jos&eacute; S&oacute;crates de estar a preparar um crime contra o estado de direito: &ldquo;Como &eacute; que uma suposta compra da TVI pela PT pode ser um crime contra o estado de direito? Vamos admitir que de facto Jos&eacute; S&oacute;crates queria que a TVI fosse comprada para acabar com o Jornal de Sexta; da&iacute; para se dar o salto de crime contra o estado de direito parece-me demasiado f&aacute;cil&rdquo;.</p>     <p>Em termos de estrat&eacute;gia ret&oacute;rica, a maioria dos comentadores tomou uma posi&ccedil;&atilde;o clara, nomeadamente contra as suspeitas de corrup&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Tem que se tirar ila&ccedil;&otilde;es. Isto n&atilde;o pode mesmo ficar assim&rdquo;, considerou Jos&eacute; Gomes Ferreira (SIC: 30.10.2009), enquanto Marcelo definiu este como um &ldquo;caso muito grave&rdquo; (01.11.2009). A conduta dos arguidos envolvidos e, principalmente, a forma como os principais protagonistas conduziram o caso foi outro &acirc;ngulo sobre o qual os comentadores se posicionaram claramente: &ldquo;Eu acho que a divulga&ccedil;&atilde;o &eacute; corrigir um erro com outro erro&rdquo; (RTP1: 29.11.2009) e &ldquo;os magistrados t&ecirc;m de ter a no&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o podem falar&rdquo; voltou a afirmar Marcelo (RTP1: 13.12.2009), enquanto para Miguel Sousa Tavares (03.12.2009) &ldquo;o Procurador-Geral da Rep&uacute;blica deveria ter despachado imediatamente (...) n&atilde;o &eacute; aceit&aacute;vel que um l&iacute;der pol&iacute;tico fa&ccedil;a um aproveitamento pol&iacute;tico&rdquo;.</p>     <p>A distin&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica nem sempre foi f&aacute;cil e simples e, por vezes, como estrat&eacute;gia argumentativa para justificar a tomada de posi&ccedil;&atilde;o, os comentadores fizeram uma introdu&ccedil;&atilde;o mais contextualizadora. Todavia, foi poss&iacute;vel identificar um estilo dominante que nos permite afirmar que a maioria dos coment&aacute;rios foram cr&iacute;ticos, tendo a opini&atilde;o sido principalmente orientada contra a atua&ccedil;&atilde;o dos que entenderam ser os principais protagonistas. Os comentadores reproduziram, assim, no espa&ccedil;o opini&atilde;o os conflitos entre os campos envolvidos no caso. Com muito menor express&atilde;o encontramos coment&aacute;rios que se detivessem na explica&ccedil;&atilde;o do contexto e nas consequ&ecirc;ncias deste caso t&atilde;o intrincado, bem como no esclarecimento das rela&ccedil;&otilde;es ou nas consequ&ecirc;ncias de determinadas condutas.</p>     <p>A narrativa das not&iacute;cias abordou o caso Face Oculta de modo distinto da opini&atilde;o. Em termos de temas principais (<a href="#t4">tabela 4</a>), destacam-se nas not&iacute;cias televisivas as &ldquo;Escutas&rdquo; a envolver o Primeiro-Ministro Jos&eacute; S&oacute;crates (100 pe&ccedil;as), seguida de longe pelas pe&ccedil;as sobre as &ldquo;Investiga&ccedil;&otilde;es/Buscas&rdquo; (56 pe&ccedil;as). Em termos de atores (<a href="#t5">tabela 5</a>), Armando Vara foi a personalidade mais evocada pelos jornalistas (69 vezes), seguida do Primeiro-Ministro Jos&eacute; S&oacute;crates (42 vezes) e do empres&aacute;rio Manuel Godinho (42 vezes). Por sua vez, a <a href="#t6">tabela 6</a> permite-nos observar que a maioria das pe&ccedil;as noticiosas oscilou entre os tons negativo (147) e neutro (129 vezes).</p>     <p>No cruzamento das vari&aacute;veis tema e ator (<a href="#g16">Gráfico 16</a>) constatamos que Armando Vara foi citado principalmente no in&iacute;cio do caso, quando as quest&otilde;es dominantes eram as investiga&ccedil;&otilde;es e as buscas (24 vezes) e o debate sobre a suspens&atilde;o de fun&ccedil;&otilde;es (16 vezes). O fato de os suspeitos se manterem nos seus cargos foi objeto de ampla cobertura noticiosa.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="g16"></a> <img src="/img/revistas/obs/v11n3/11n3a06g16.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O tom maioritariamente associado a Armando Vara foi o equilibrado (27 vezes), seguido do tendencialmente negativo (25 vezes). No caso de Jos&eacute; S&oacute;crates, a segunda personalidade mais evocada no caso Face Oculta, o cruzamento das vari&aacute;veis permite-nos constatar que o PM foi primordialmente associado ao tema das escutas (30 vezes). Este dado evidencia-se mais se tivermos em conta que o segundo tema que lhe foi associado, &ldquo;Declara&ccedil;&otilde;es&rdquo;, surgiu apenas em sete pe&ccedil;as. A cobertura de Jos&eacute; S&oacute;crates foi tendencialmente negativa (23 vezes).</p>     <p>Em ambas as componentes informativa e de opini&atilde;o, a quest&atilde;o das escutas foi o t&oacute;pico mais debatido. Enquanto nas not&iacute;cias este tema foi secundado pelas investiga&ccedil;&otilde;es e pelas buscas judiciais, na opini&atilde;o esteve ligado ao crime da corrup&ccedil;&atilde;o (que em termos informativos foi o quinto tema mais registado na cobertura ao caso Face Oculta). Assinalamos tamb&eacute;m algumas diferen&ccedil;as nos atores mais evidenciados pelos comentadores. Estes centraram-se prioritariamente nas personalidades de maior poder real e simb&oacute;lico citadas nas pe&ccedil;as: Jos&eacute; S&oacute;crates e Ant&oacute;nio Pinto Monteiro, o Primeiro-Ministro e o Procurador-Geral da Rep&uacute;blica. As personalidades que estavam a ser investigadas e que foram mais focadas nas not&iacute;cias &ndash; Armando Vara, Jos&eacute; Penedos e Manuel Godinho &ndash; tiveram menor interesse para os comentadores. Por sua vez, o Procurador Geral da Rep&uacute;blica surgiu em quarto lugar nas not&iacute;cias (referido 29 vezes), atr&aacute;s de Manuel Godinho, o terceiro ator mais referenciado (42 vezes).</p>     <p>&Agrave; imagem do que identific&aacute;mos nos casos BPN e Freeport, a narrativa da opini&atilde;o sobre o caso Face Oculta tamb&eacute;m construiu uma vers&atilde;o dos acontecimentos distinta da narrativa jornal&iacute;stica. Para os comentadores esta foi uma hist&oacute;ria sobre a luta de poder dentro das, e entre, as esferas pol&iacute;tica e judicial, personificada nas mais altas inst&acirc;ncias.</p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>Discuss&atilde;o dos resultados</b></p>     <p>Os media desempenham uma fun&ccedil;&atilde;o primordial de informar os cidad&atilde;os, bem como de organizar o debate p&uacute;blico, num processo de ativa&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o e de participa&ccedil;&atilde;o na forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica que inclui os comentadores. Em linha com o <i>cascading activation model</i> de Robert Entman (2003), podemos afirmar que, em conjunto com os not&iacute;cias, os comentadores desempenham um papel relevante na ativa&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o e na forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o, num processo que combina mecanismos de defini&ccedil;&atilde;o da agenda p&uacute;blica, grau de destaque e enquadramento dado aos temas, e de rea&ccedil;&atilde;o da sociedade. Os comentadores fazem, assim, parte do conjunto de atores que, numa hierarquia de influ&ecirc;ncias e de rela&ccedil;&otilde;es distintas, condicionam o desenrolar dos temas no espa&ccedil;o p&uacute;blico e contribuem para moldar a perce&ccedil;&atilde;o que os cidad&atilde;os t&ecirc;m sobre variados temas em debate.</p>     <p>O estudo que aqui se apresentou sobre tr&ecirc;s dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o de maior proje&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica nos &uacute;ltimos anos em Portugal &ndash; os casos BPN, Freeport e Face Oculta &ndash;, tinha dois grandes objetivos: conhecer a forma como os comentadores debateram os tr&ecirc;s casos nos notici&aacute;rios de <i>prime time</i> das televis&otilde;es generalistas. Para tal, identific&aacute;mos os temas principais, os atores mais referidos e o tom dos coment&aacute;rios. Analis&aacute;mos ainda o estilo dos coment&aacute;rios, ou seja, o modo como abordaram os casos de corrup&ccedil;&atilde;o em aprecia&ccedil;&atilde;o. Esta primeira etapa forneceu os elementos necess&aacute;rios para cumprirmos o segundo objetivo do estudo e avaliar a contiguidade entre ambas as narrativas que, em conjunto, t&ecirc;m um papel preponderante na defini&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o dos problemas p&uacute;blicos.&nbsp;&nbsp;</p>     <p>O estudo emp&iacute;rico permitiu constatar que a cobertura noticiosa foi o expect&aacute;vel ponto de partida dos coment&aacute;rios, mas em sede da opini&atilde;o identific&aacute;mos a produ&ccedil;&atilde;o de uma narrativa pr&oacute;pria sobre os casos, que se traduziu em muito mais do que num destaque distinto a certos temas e atores. Os comentadores ordenaram e relevaram os factos &agrave; sua maneira e constru&iacute;ram uma vers&atilde;o dos acontecimentos em cuja narra&ccedil;&atilde;o encontramos hist&oacute;rias sobre a luta de poder dentro das, e entre, as esferas pol&iacute;tica, judicial e de regula&ccedil;&atilde;o, personificadas nas mais altas inst&acirc;ncias.</p>     <p>A an&aacute;lise realizada aos coment&aacute;rios confirma tend&ecirc;ncias j&aacute; identificadas noutros estudos (Figueiras, 2009 e 2015). O espa&ccedil;o de opini&atilde;o foi menos perspetivado como um lugar de explica&ccedil;&atilde;o das dimens&otilde;es estruturais do problema da corrup&ccedil;&atilde;o, tendo sido prioritariamente utilizado para os comentadores assumirem uma posi&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao que definiram como o conflito central e os protagonistas e antagonistas dos tr&ecirc;s esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o analisados. Assim, no centro da narrativa do caso BPN encontr&aacute;mos o Governador do Banco de Portugal Victor Const&acirc;ncio; o Primeiro-Ministro Jos&eacute; S&oacute;crates e os Magistrados do Minist&eacute;rio P&uacute;blico foram os atores principais no caso Freeport e, novamente, o Primeiro-Ministro Jos&eacute; S&oacute;crates e o Procurador-Geral da Rep&uacute;blica Ant&oacute;nio Pinto Monteiro foram os protagonistas no caso Face Oculta. Para os comentadores estas tr&ecirc;s hist&oacute;rias foram mais sobre o desempenho e a estrat&eacute;gia destes atores do que sobre os crimes de corrup&ccedil;&atilde;o propriamente ditos.</p>     <p>Constat&aacute;mos tamb&eacute;m que os comentadores adotaram uma postura conflitual, consubstanciada em abordagens muito cr&iacute;ticas e em tons negativos sobre o que entenderam ser o comportamento desadequado dos atores envolvidos. Em 64 coment&aacute;rios, 47 foram negativos, indo estes resultados ao encontro de outros estudos j&aacute; realizados sobre o coment&aacute;rio pol&iacute;tico em Portugal (Figueiras, 2009 e 2015). Por sua vez, em 1470 pe&ccedil;as noticiosas relacionadas com os tr&ecirc;s casos analisados, 1053 foram neutras e &ldquo;apenas&rdquo; 308 tendencialmente negativas. A cobertura jornal&iacute;stica foi ainda dependente do discurso oficial, patente no predom&iacute;nio do tema &ldquo;declara&ccedil;&otilde;es&rdquo;, e caracterizou-se pelo uso do tom neutro com que abordou as personalidades envolvidas nos casos, e cujo destaque foi distinto do dos comentadores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estes resultados suscitam quest&otilde;es sobre as diferen&ccedil;as entre a abordagem da opini&atilde;o e da cobertura noticiosa aos casos em an&aacute;lise, mas tamb&eacute;m sobre a cobertura noticiosa aos casos em an&aacute;lise e os padr&otilde;es de cobertura jornal&iacute;stica dos temas relacionados com a pol&iacute;tica, e com os esc&acirc;ndalos em particular.</p>     <p>Ao contr&aacute;rio do que os trabalhos sobre a cobertura noticiosa da pol&iacute;tica revelam h&aacute; anos (Patterson, 2003; Aalberg &amp; Curran, 2012; Cunha &amp; Figueiras, 2013), o criticismo registado na opini&atilde;o n&atilde;o se verificou na narrativa jornal&iacute;stica. A cobertura jornal&iacute;stica dos casos de corrup&ccedil;&atilde;o em an&aacute;lise foi mais cautelosa, dando a palavra aos protagonistas e privilegiando uma abordagem neutra. Esta narrativa aproximou os notici&aacute;rios da tradi&ccedil;&atilde;o descritiva, onde a voz do jornalista tende a ser passiva e neutral (Patterson, 2003) e afastou-os da tend&ecirc;ncia comercial contempor&acirc;nea, que se caracteriza pelo predom&iacute;nio de um jornalismo interpretativo, especulativo e negativo, e onde os pol&iacute;ticos crescentemente perdem protagonismo devido ao predom&iacute;nio dos jornalistas nas pe&ccedil;as noticiosas (Aalberg, Str&ouml;mb&auml;ck &amp; de Vreese, 2012). Este padr&atilde;o de abordagem foi, todavia, identificado na narrativa do coment&aacute;rio, escudando a produ&ccedil;&atilde;o noticiosa nestes casos de elevada sensibilidade pol&iacute;tica e judicial.&nbsp;&nbsp;</p>     <p>No contexto atual, qualquer esc&acirc;ndalo pol&iacute;tico &eacute; o produto da intera&ccedil;&atilde;o entre o campo pol&iacute;tico, judicial e medi&aacute;tico (Thompson, 2002). Se atentarmos no perfil dos comentadores que produziram opini&atilde;o sobre os casos em an&aacute;lise, verificamos que a grande maioria prov&eacute;m exatamente destes tr&ecirc;s campos de poder. Isto significa que o coment&aacute;rio produzido se cingiu a interpreta&ccedil;&otilde;es feitas a partir de cada uma dessas esferas de poder e que para o espa&ccedil;o de coment&aacute;rio foram transpostas as lutas internas de cada uma dessas esferas e os conflitos entre os v&aacute;rios campos implicados. Significa tamb&eacute;m que o coment&aacute;rio circunscreveu as perspetivas aos interesses dos campos envolvidos, tendo sido exclu&iacute;dos outros &acirc;ngulos de leitura sobre os casos.&nbsp;O coment&aacute;rio dos notici&aacute;rios televisivos n&atilde;o contou com a presen&ccedil;a de argumentos de vozes alternativas externas aos campos implicados, como especialistas no tema da corrup&ccedil;&atilde;o, por exemplo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Reflex&otilde;es finais</b></p>     <p>Contribuir para o esclarecimento p&uacute;blico e a forma&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o s&atilde;o dois atributos fundamentais do jornalismo ocidental e que est&atilde;o na base da vis&atilde;o da imprensa enquanto institui&ccedil;&atilde;o basilar dos regimes democr&aacute;ticos (Habermas, 1984; Thompson, 2002; Norris, 2000). Neste &acirc;mbito, em termos da tradi&ccedil;&atilde;o cultural ocidental, o coment&aacute;rio foi institu&iacute;do como uma inst&acirc;ncia que ajudaria a pensar o mundo, constituindo-se como um elemento do processo comunicativo democr&aacute;tico (Nimmo e Combs, 1994; Jacobs e Townsley, 2011). O coment&aacute;rio foi, assim, institu&iacute;do como um espa&ccedil;o de interpreta&ccedil;&atilde;o e esclarecimento, complementando as not&iacute;cias naquilo que, pelas suas caracter&iacute;sticas, elas n&atilde;o podiam oferecer ao audit&oacute;rio.</p>     <p>Ainda que as narrativas jornal&iacute;stica e de opini&atilde;o obede&ccedil;am a l&oacute;gicas particulares, existe uma crescente contiguidade entre ambas. O coment&aacute;rio tem-se vindo a tornar progressivamente dependente da atualidade, n&atilde;o s&oacute; porque a sua agenda &eacute; hoje muito presentificada e parte das not&iacute;cias para comentar, mas tamb&eacute;m porque a constru&ccedil;&atilde;o social dos assuntos &eacute; fortemente determinada pelo modo como ambos os discursos &ndash; o jornal&iacute;stico e o de opini&atilde;o &ndash; abordam os temas p&uacute;blicos.</p>     <p>A opini&atilde;o produzida sobre os casos em an&aacute;lise parece indiciar que a l&oacute;gica dos media, nomeadamente da televis&atilde;o regida pelas regras do mercado, est&aacute; a transformar o coment&aacute;rio, enquanto espa&ccedil;o espec&iacute;fico de explica&ccedil;&atilde;o. As diferen&ccedil;as temporais t&ecirc;m vindo a ser dissipadas pela compress&atilde;o do tempo do coment&aacute;rio, que se tem aproximado crescentemente do tempo medi&aacute;tico.</p>     <p>A dramatiza&ccedil;&atilde;o tornou-se, assim, um recurso que facilita a an&aacute;lise em est&uacute;dio, permitindo coment&aacute;rios mais sucintos e r&aacute;pidos. Esta abordagem implica ainda a personifica&ccedil;&atilde;o e a fragmenta&ccedil;&atilde;o dos problemas sociais, condicionando o n&iacute;vel de profundidade da opini&atilde;o. Induzidos pela l&oacute;gica dos media, esta estrat&eacute;gia narrativa tem conduzido os comentadores a adoptarem uma concep&ccedil;&atilde;o &laquo;fulanizada&raquo; dos problemas sociais. Tal foi evidente na narrativa do coment&aacute;rio ao transformar os casos de corrup&ccedil;&atilde;o analisados em esc&acirc;ndalos de conduta individual.</p>     <p>Todavia, qualquer explica&ccedil;&atilde;o fundamentada requer tempo e a explica&ccedil;&atilde;o de casos complexos &ndash; como os de corrup&ccedil;&atilde;o &ndash; requer um horizonte temporal mais extenso do que aquele que os notici&aacute;rios tendem a permitir. A televis&atilde;o privilegia o ritmo, dificultando a possibilidade de os comentadores se deterem em cada tema em an&aacute;lise; privilegia tamb&eacute;m abordagens r&aacute;pidas, sucintas e acess&iacute;veis ao maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de espetadores. Deste modo, condicionados pela l&oacute;gica da televis&atilde;o, os comentadores produziram pouco mais do que observa&ccedil;&otilde;es compostas por frases breves e de efeito. Deste modo, o espa&ccedil;o de coment&aacute;rio nos notici&aacute;rios de <i>prime time</i> privilegiou menos uma discuss&atilde;o substancial dos problemas em an&aacute;lise e instigou mais a produ&ccedil;&atilde;o de opini&otilde;es <i>sound bites</i> sobre a corrup&ccedil;&atilde;o em Portugal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Bibliografia</b></p>     <!-- ref --><p>Aalberg, T. &amp; Curran, J. (2012). <i>How Media Inform Democracy. A Comparative Approach</i>. New York: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939454&pid=S1646-5954201700030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Aalberg, T., Str&ouml;mb&auml;ck, J. &amp; de Vreese, C. (2012). &ldquo;The Framing of Politics as Strategy and Game: A Review of Concepts, Operationalizations and Key Findings&rdquo;. <i>Journalism</i>, 13(2), pp. 162&ndash;178.</p>     <p>Altheide, D. (2004). &ldquo;Media Logic and Political Communication&rdquo;. <i>Political Communication, 21</i>(3), pp. 293-296.</p>     <p>Blankenburg, E. (2002), &ldquo;From Political Clientelism to Outrighy Corruption - The Rise of the Scandal Industry&rdquo; in Kotkin, S. &amp; Saj&oacute;, A. (Eds.). <i>Political Corruption in Transition: a Sceptic&rsquo;s Handbook.</i> Budapest, Central European University Press.</p>     <!-- ref --><p>Bourdieu, P. (1989). <i>O Poder Simb&oacute;lico</i>. Lisboa: Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939459&pid=S1646-5954201700030000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bourdieu, P. (1997). <i>Sobre a Televis&atilde;o</i>. Oeiras: Celta Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939461&pid=S1646-5954201700030000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Brants, K. &amp;Voltmer, K. (2011). <i>Political Communication in Postmodern Democracy</i>. New York: Palgrave.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939463&pid=S1646-5954201700030000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cacciotto, M. (2015). <i>Marketing Pol&iacute;tico</i>. Coimbra: Actual.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939465&pid=S1646-5954201700030000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Cunha, I. &amp; Figueiras, R. (2013). &ldquo;Os Media e as Elei&ccedil;&otilde;es em Portugal: Representa&ccedil;&otilde;es de Partidos, Candidatos e Candidata&rdquo; in Telles, H. &amp; Moreno, A. <i>Comportamento Eleitoral e Comunica&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica na Am&eacute;rica Latina</i>. Belo Horizonte: Editora UFMG, pp. 531-565.</p>     <p>Cunha, I. &amp; Serrano, E. (Coord.) (2015). &ldquo;Corrup&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica, Media e Democracia&rdquo;. <i>Media e Jornalismo</i>, 26, 14(1).</p>     <!-- ref --><p>Cunha, I. &amp; Serrano, E. (Coords.) (2014). <i>Cobertura Jornal&iacute;stica da Cor&shy;rup&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica</i>. Lisboa: Al&ecirc;theia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939469&pid=S1646-5954201700030000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Ekstr&ouml;m, M. &amp; Johansson, B. (2008). &ldquo;Talk scandals&rdquo;. Media, Culture &amp; Society, 30(1): 61-79.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entman, R. (2003). &ldquo;Cascading Activation: Contesting the White House&rsquo;s Frame After 9/11&rdquo;. <i>Political Communication</i>, 20, pp. 415&ndash;432.</p>     <!-- ref --><p>Figueiras, R. (2017). <i>A mediatiza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica na era das redes sociais</i>. Lisboa: Al&ecirc;theia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939473&pid=S1646-5954201700030000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Figueiras, R. (2015). &ldquo;Anatomia do Coment&aacute;rio: Corrup&ccedil;&atilde;o, Notici&aacute;rios e Destinat&aacute;rios&rdquo;. <i>Media e Jornalismo</i> &ndash; Corrup&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica, Media e Democracia, 26, 14(1), pp. 111-132.</p>     <!-- ref --><p>Figueiras, R. (2009). <i>O Coment&aacute;rio Pol&iacute;tico e a Pol&iacute;tica do Coment&aacute;rio</i>, Lisboa, Paulus Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939476&pid=S1646-5954201700030000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Habermas, J. (1984). Mudan&ccedil;a Estrutural da Esfera P&uacute;blica. Rio de janeiro: Tempo Brasileiro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939478&pid=S1646-5954201700030000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>International Transparency Corruption Global Report (2010). &nbsp;(<a href="http://www.transparency.org/policy_research/surveys_indices/cpi" target="_blank">http://www.transparency.org/policy_research/surveys_indices/cpi</a>) acedido a 31 de janeiro de 2016.</p>     <!-- ref --><p>Jacobs, R. &amp; Townsley, E. (2011). <i>The Space of Opinion: Media Intellectuals and the Public Sphere,</i> New York, Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939481&pid=S1646-5954201700030000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Luhmann, N. (2005). <i>A Realidade dos Meios de Comunica&ccedil;&atilde;o</i>. S&atilde;o Paulo: Paulus Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939483&pid=S1646-5954201700030000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Marcinkowski, F. (2014). &ldquo;Mediatization of Politics: Reflections on the State of the Concept&rdquo;. <i>Javnost</i>, 21(2), pp. 5-22.</p>     <!-- ref --><p>Nimmo, D. &amp; Combs, J. E. (1992). <i>The Political Pundits. </i>New York: Praeger.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939486&pid=S1646-5954201700030000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Norris, P. (2000) <i>A Virtuous Circle</i>: <i>Political Communication in Post-Industrial Societies</i>. Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939488&pid=S1646-5954201700030000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Patterson, T. (2003). &ldquo;Tend&ecirc;ncias do Jornalismo Contempor&acirc;neo&rdquo;. <i>Media &amp; Jornalismo</i>, 2, pp. 19-47.</p>     <!-- ref --><p>Thompson, J. (2002). <i>O Esc&acirc;ndalo Pol&iacute;tico</i>. Petr&oacute;polis: Editora Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=939491&pid=S1646-5954201700030000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Thompson, J. (2005). &ldquo;The New Visibility&rdquo;. <i>Theory, Culture &amp; Society</i>, 22(6), pp. 31-51.</p>      ]]></body><back>
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