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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Elementos sobre a ideia de audiência nos inícios da TV portuguesa]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Contribution for the idea of audience in early Portuguese TV]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The process of making an audience for television involves also the representations and the discourses published about such audience. Trying to understand which ideas prevailed about the audience during the dictatorship led by Salazar, this paper examines the early period of Portuguese television. It draws on the coeval press dedicated to television, from which it gathered discourses from diverse origins: the official milieu; TV professionals; newspapers journalists; intellectual elites; and members of the public which for a while were quite interventive. Two different conceptions compete about the television audience and a negotiation process takes place within the dictatorial context]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><B>Elementos sobre a ideia de audi&ecirc;ncia nos in&iacute;cios da TV portuguesa</B> </p>     <p><B>Contribution for the idea of audience in early Portuguese TV</B> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Jos&eacute; Ricardo Carvalheiro*</B> </p>     <p>* Universidade da Beira Interior, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>RESUMO</B> </p>     <p>O processo hist&oacute;rico de constru&ccedil;&atilde;o de uma audi&ecirc;ncia televisiva inclui as representa&ccedil;&otilde;es e os discursos que sobre ela se publicam. Este artigo observa o per&iacute;odo inicial da televis&atilde;o portuguesa, em busca de compreender qual a concep&ccedil;&atilde;o de audi&ecirc;ncia que vigorava no salazarismo. Com base na imprensa televisiva da &eacute;poca, cruzamos discursos com origens diversas: nos c&iacute;rculos oficiais e na RTP; nos observadores jornal&iacute;sticos; nas elites intelectuais; nos pr&oacute;prios telespectadores, que por um momento emergem como p&uacute;blico interventivo. Num cen&aacute;rio em que os profissionais dos <i> media</i> tendem a dizer aos espectadores como se deviam comportar e os espectadores tendem a dizer aos produtores como a televis&atilde;o devia ser, assiste-se a uma competi&ccedil;&atilde;o e a uma negocia&ccedil;&atilde;o entre duas concep&ccedil;&otilde;es de audi&ecirc;ncia.</p>     <p><B>Palavras-chave</B> : Audi&ecirc;ncia televisiva; Estado Novo; RTP; Debate p&uacute;blico; Imprensa</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>ABSTRACT</B> </p>     <p>The process of making an audience for television involves also the representations and the discourses published about such audience. Trying to understand which ideas prevailed about the audience during the dictatorship led by Salazar, this paper examines the early period of Portuguese television. It draws on the coeval press dedicated to television, from which it gathered discourses from diverse origins: the official milieu; TV professionals; newspapers journalists; intellectual elites; and members of the public which for a while were quite interventive. Two different conceptions compete about the television audience and a negotiation process takes place within the dictatorial context.&nbsp;</p>     <p><B>Keywords:</B> Television audience; New State regime; RTP; Public debate; Press</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>A audi&ecirc;ncia como ideia</B> </p>     <p>A constitui&ccedil;&atilde;o de um novo meio de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o implica apenas a cria&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas profissionais capazes de gerar conte&uacute;dos, mas tamb&eacute;m envolve a produ&ccedil;&atilde;o de uma audi&ecirc;ncia, e n&atilde;o apenas na sua forma&ccedil;&atilde;o objectiva. Quando a televis&atilde;o portuguesa come&ccedil;ou a emitir, em 1957, estava em causa tamb&eacute;m a concep&ccedil;&atilde;o subjectiva da audi&ecirc;ncia, ou seja, um processo de significa&ccedil;&atilde;o em que um conjunto de discursos e representa&ccedil;&otilde;es procuravam defini-la de um certo modo: onde e como utilizar o novo meio; quem e em que circunst&acirc;ncias a compunha; o que ela pr&oacute;pria esperava, desejava ou exigia.</p>     <p>Sendo certo que n&atilde;o se deve confundir as representa&ccedil;&otilde;es das audi&ecirc;ncias com a sua experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica real (Bourdon, 2015), um acervo de discursos delas e sobre elas d&aacute; acesso a no&ccedil;&otilde;es, valores e pr&aacute;ticas preponderantes numa dada &eacute;poca, inscrevendo-se as pr&oacute;prias representa&ccedil;&otilde;es no processo social que &eacute; a experi&ecirc;ncia de recep&ccedil;&atilde;o e contribuindo para a forma como as audi&ecirc;ncias acabam por se fazer a si pr&oacute;prias (Butsch, 2000).</p>     <p>Uma base conceptual fecunda, embora pouco usada, para abordar o processo socio-hist&oacute;rico de adop&ccedil;&atilde;o de um novo meio de comunica&ccedil;&atilde;o e a constru&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia reside nas premissas cl&aacute;ssicas do interaccionismo simb&oacute;lico (Blumer, 1969). Estas premissas sustentam que os indiv&iacute;duos n&atilde;o reagem meramente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s coisas, mas agem, sim, em rela&ccedil;&atilde;o aos sentidos que atribuem a essas coisas, o que implica encarar o surgimento da televis&atilde;o n&atilde;o simplesmente como uma nova tecnologia a que as pessoas se adaptaram, mas sim como alvo de um processo interpretativo acerca do que era aquele novo dispositivo e do que significava us&aacute;-lo. Por outro lado, os indiv&iacute;duos v&atilde;o dando sentido &agrave;s coisas, n&atilde;o atrav&eacute;s de meros actos ps&iacute;quicos, mas sim no seio de interac&ccedil;&otilde;es sociais onde os significados emergem, s&atilde;o geridos e modificados. &Eacute; neste sentido que a ac&ccedil;&atilde;o humana constitui um &ldquo;processo comunicativo em movimento&rdquo; (Blumer, 1969: XX) e que as pr&oacute;prias audi&ecirc;ncias podem ser perspectivadas tamb&eacute;m como uma ideia (Mihelj, 2015), uma ideia constru&iacute;da ou negociada entre jornalistas, actores pol&iacute;ticos, produtores dos <i> media</i> e os membros do p&uacute;blico.</p>     <p>Em contextos democr&aacute;ticos, as ideias sobre a audi&ecirc;ncia de televis&atilde;o tendem a emergir em p&uacute;blico sob forma discursiva e, de certo modo, revelam uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as sociopol&iacute;ticas num dado momento hist&oacute;rico &ndash;, tornando-se claramente, elas pr&oacute;prias, elementos constitutivos das din&acirc;micas culturais de produ&ccedil;&atilde;o e de apropria&ccedil;&atilde;o televisiva, como foi proposto por Lynn Spigel acerca do processo de populariza&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o nos Estados Unidos (Spigel, 1992).</p>     <p>Contextos autorit&aacute;rios, como o Portugal salazarista dos anos 1950 e 60, colocam condi&ccedil;&otilde;es distintas &agrave; constru&ccedil;&atilde;o discursiva das audi&ecirc;ncias, a come&ccedil;ar pelo facto de o espa&ccedil;o p&uacute;blico ser fortemente capturado para comunica&ccedil;&atilde;o vertical a partir do Estado ou de actores sociais adjacentes, sendo conhecido o dirigismo do Estado na forma&ccedil;&atilde;o da RTP e o absoluto predom&iacute;nio das vis&otilde;es oficiais naquilo que ela veiculava (C&aacute;dima, 1996; Sousa &amp; Santos, 2003).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma ret&oacute;rica invocadora dos interesses dos cidad&atilde;os estava presente, por&eacute;m, na rela&ccedil;&atilde;o do Estado Novo com os <i> media</i> desde o in&iacute;cio da ditadura. Era em nome do p&uacute;blico que o regime salazarista se propunha, na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1933, &ldquo;impedir preventiva ou repressivamente a pervers&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica (&hellip;) e salvaguardar a integridade moral dos cidad&atilde;os&rdquo;.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> No caso dos novos meios <i> broadcast</i> , esse desejo de o regime formar e moldar uma audi&ecirc;ncia &agrave; sua imagem atravessou as d&eacute;cadas de 1930 e 40, em especial com a experi&ecirc;ncia radiof&oacute;nica da Emissora Nacional, onde &ndash; sob a &eacute;gide de Ant&oacute;nio Ferro e, depois, directamente do Secretariado de Propaganda Nacional &ndash; se declarava que &ldquo;as exig&ecirc;ncias med&iacute;ocres de certas camadas da popula&ccedil;&atilde;o (&hellip;) precisam de ser orientadas, ensinadas&rdquo; e onde se tomava &ldquo;a pesada responsabilidade da educa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica, moral e art&iacute;stica do nosso povo&rdquo;.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a></p>     <p>Actuar em nome do p&uacute;blico, mas sem seguir a vontade deste era, portanto, uma marca gen&eacute;tica do regime, consent&acirc;nea com a sua matriz antidemocr&aacute;tica. Nas exemplares palavras de Ferro em 1941, a pol&iacute;tica do Estado Novo para os meios de comunica&ccedil;&atilde;o existia, precisamente, &ldquo;para combater ou converter&rdquo; esse p&uacute;blico com apetites adversos.<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a></p>     <p>Assim, quando se tratou de criar a televis&atilde;o portuguesa, as necessidades da audi&ecirc;ncia foram, desde logo, antecipadas pelos documentos oficiais do regime. O decreto-lei de 1955 que definiu a concess&atilde;o do servi&ccedil;o televisivo estipulou a obriga&ccedil;&atilde;o de produzir &ldquo;programas de n&iacute;vel elevado (&hellip;) de modo a preencher (&hellip;) <i> as necessidades do p&uacute;blico</i> &rdquo;.<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> A redac&ccedil;&atilde;o da lei mostra uma concep&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o prioritariamente como instrumento para incutir na popula&ccedil;&atilde;o determinados conte&uacute;dos formativos: &ldquo;os programas dever&atilde;o ter car&aacute;cter essencialmente educativo, recreativo, cultural e de informa&ccedil;&atilde;o, dentro dos princ&iacute;pios morais e sociais institu&iacute;dos pela Constitui&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a></p>     <p>Note-se que falar em educa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico no contexto salazarista significa sobretudo um desejo de doutrin&aacute;-lo dentro de um apertado crivo ideol&oacute;gico, est&eacute;tico e moral, bem patente naquilo que Ferro definiu como uma &ldquo;pol&iacute;tica do esp&iacute;rito&rdquo;, projecto que ambicionava disseminar um sistema de valores por todos os meios e g&eacute;neros culturais de forma mais ou menos subtil (&Oacute;, 1999; Ribeiro, 2005).</p>     <p>&Eacute; preciso ter em conta, no entanto, que a introdu&ccedil;&atilde;o de televisores no tecido social portugu&ecirc;s foi demorada, tal como aconteceu em outros pa&iacute;ses da Europa do sul, nomeadamente em It&aacute;lia e Espanha, onde a televis&atilde;o foi um fen&oacute;meno inicialmente confinado a algumas regi&otilde;es (Penati, 2013; Lozano, 2014). No final do primeiro ano de emiss&otilde;es, o territ&oacute;rio portugu&ecirc;s abrangido pelas transmiss&otilde;es correspondia a 45% da popula&ccedil;&atilde;o e s&oacute; dez anos mais tarde a cobertura atingiria 95% (Silva &amp; Teves, 1971). Mas o ritmo de aquisi&ccedil;&atilde;o de televisores foi ainda muito mais demorado, como a <a href="#t1">tabela 1</a> mostra.<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a></p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t1"></a> <img src="/img/revistas/obs/v12n1/12n1a02t1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>O n&uacute;mero de pessoas com efectivo acesso &agrave; televis&atilde;o durante o salazarismo foi bastante reduzido ou condicionado, com o aparelho televisivo a ser um relativo privil&eacute;gio e a requerer estrat&eacute;gias de visionamento colectivo no seio das classes populares.<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Objectivos </B> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tendo em conta a posi&ccedil;&atilde;o oficial do regime e a lenta penetra&ccedil;&atilde;o do televisor na realidade dom&eacute;stica, este artigo procura pistas que permitam detectar e compreender a eventual exist&ecirc;ncia de v&aacute;rios discursos preconizados em torno da ideia de audi&ecirc;ncia televisiva na fase inicial da sua forma&ccedil;&atilde;o em Portugal, que tomamos aqui como o per&iacute;odo em que a RTP coincidiu com o governo de Salazar (1957-1968).<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a></p>     <p>Na verdade, as ideias acerca da audi&ecirc;ncia n&atilde;o s&atilde;o simplesmente opini&otilde;es. S&atilde;o ideias socialmente situadas, pontos de vista de determinados actores a partir de certos lugares e que, neste caso, conteriam um conjunto de interesses e aspira&ccedil;&otilde;es relativamente &agrave; televis&atilde;o nas d&eacute;cadas de 1950 e 1960.</p>     <p>A primeira quest&atilde;o que colocamos &eacute; se &ndash; no seio de um regime oficialmente monol&iacute;tico e de um sistema medi&aacute;tico controlado e vigiado &ndash; a televis&atilde;o e a constitui&ccedil;&atilde;o da sua audi&ecirc;ncia ter&atilde;o provocado alguma manifesta&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&otilde;es diversas que correspondessem a diferentes vis&otilde;es do mundo e a clivagens existentes na sociedade portuguesa. Aspectos como a programa&ccedil;&atilde;o televisiva, em grande medida encarados como pertencendo ao dom&iacute;nio dos gostos e das prefer&ecirc;ncias, prestam-se a uma atitude n&atilde;o necessariamente vista como pol&iacute;tica e seriam por isso suscept&iacute;veis de alguma toler&acirc;ncia da censura sobre o espa&ccedil;o p&uacute;blico, podendo por essa via relevarem-se discursos que, em sentido amplo, tenham um fundo realmente sociopol&iacute;tico.</p>     <p>A segunda quest&atilde;o relaciona-se com a busca de din&acirc;micas diacr&oacute;nicas, ou seja, com a hip&oacute;tese de que a(s) ideia(s) de audi&ecirc;ncia se possa(m) ter modificado ao longo do per&iacute;odo em causa ou de que poder&atilde;o ter coexistido diversas perspectivas cuja interac&ccedil;&atilde;o ter&aacute; eventualmente resultado numa concep&ccedil;&atilde;o predominante.</p>     <p>Uma das componentes que procuramos apreender &eacute; a capacidade, ou n&atilde;o, que a pr&oacute;pria audi&ecirc;ncia teve para participar na ideia que de si mesma se projectava e, por consequ&ecirc;ncia, na representa&ccedil;&atilde;o das suas caracter&iacute;sticas, dos efeitos da televis&atilde;o sobre si e das suas aspira&ccedil;&otilde;es acerca dela. Neste sentido, interessa-nos averiguar, afinal, se as audi&ecirc;ncias iniciais da TV portuguesa puderam em algum momento afirmar-se como p&uacute;blicos, no preciso sentido de se constitu&iacute;rem como grupos dispostos a agir discursivamente sobre um assunto comum que lhes diz respeito (Dahlgren, 1995).</p>     <p>Por outro lado, n&atilde;o desprezaremos, ao longo do artigo, indica&ccedil;&otilde;es sobre as efectivas pr&aacute;ticas de recep&ccedil;&atilde;o, mas esse aspecto &eacute; lateral &agrave; nossa pesquisa e apenas funcionar&aacute; como elemento de contextualiza&ccedil;&atilde;o dos discursos, uma vez que se trata sobretudo de compreender quais eram as concep&ccedil;&otilde;es, as aspira&ccedil;&otilde;es ou os receios acerca da audi&ecirc;ncia televisiva que se estava a formar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>M&eacute;todo</B> </p>     <p>Uma vez que a constru&ccedil;&atilde;o subjectiva da audi&ecirc;ncia tende a fazer-se numa negocia&ccedil;&atilde;o entre produtores, espectadores e outros actores sociais &ndash; negocia&ccedil;&atilde;o que faz parte da hist&oacute;ria de um meio de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash;, esse processo &eacute; pass&iacute;vel de deixar registos sob a forma de discursos em que se representa, se aconselha, se interpela ou se verbaliza a audi&ecirc;ncia.</p>     <p>Tais registos devem ser procurados, evidentemente, em fontes coevas, mas &eacute; sabido como as refer&ecirc;ncias &agrave;s audi&ecirc;ncias s&atilde;o, por regra, esparsas. A imprensa da &eacute;poca e os arquivos dos &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o costumam conter mais do que ligeiras pistas acerca das audi&ecirc;ncias no meio dos dados sobre conte&uacute;dos, a org&acirc;nica dos <i> media</i> ou a actividade dos profissionais. Pesquisadores da &aacute;rea t&ecirc;m frisado o paciente trabalho que &eacute; necess&aacute;rio para extrair dados significativos sobre uma audi&ecirc;ncia do passado, geralmente obtidos pela acumula&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncias dispersas, intermitentes e marginais numa vasta quantidade de documentos (Bird, 2008; Mihelj &amp; Bourdon, 2015).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por outro lado, nem todas as fontes se equivalem e o risco de prevalecerem apenas fontes institucionais e representa&ccedil;&otilde;es emanadas das elites &ndash; risco acrescido num regime ditatorial e cens&oacute;rio &ndash; aconselha a um mapeamento criterioso do material a pesquisar. Neste sentido, inspir&aacute;mo-nos na proposta de J&eacute;r&ocirc;me Bourdon (2015) para uma tipologia das fontes hist&oacute;ricas acerca das audi&ecirc;ncias, que sistematiza os materiais emp&iacute;ricos segundo tr&ecirc;s tipos de origens: (i) &ldquo;fontes de cima&rdquo;, (ii) &ldquo;fontes laterais&rdquo; e (iii) &ldquo;fontes de baixo&rdquo;, consoante se trate de representa&ccedil;&otilde;es e discursos sobre as audi&ecirc;ncias (i) emanados do poder pol&iacute;tico ou medi&aacute;tico, (ii) produzidos por testemunhas n&atilde;o pertencentes &agrave;s elites nem ao meio em causa ou (iii) expressas pelos pr&oacute;prios membros da audi&ecirc;ncia (Bourdon, 2015, p. 12).</p>     <p>Mas onde encontrar, com alguma probabilidade, esta diversidade de fontes? Por um lado, v&iacute;amo-nos confrontados com um dif&iacute;cil acesso directo a fontes de baixo, que poderiam obter-se caso existisse um arquivo com a correspond&ecirc;ncia de telespectadores nos primeiros anos da RTP.<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> Eleger a imprensa como potencial conflu&ecirc;ncia de fontes diversas, confrontava-nos, por outro lado, com a necessidade de evitar uma excessiva dispers&atilde;o que era expect&aacute;vel em jornais generalistas, onde a televis&atilde;o e a sua audi&ecirc;ncia surgiriam como temas muito espor&aacute;dicos, sen&atilde;o praticamente ausentes no notici&aacute;rio quotidiano.</p>     <p>Pelo contr&aacute;rio, a &ldquo;imprensa televisiva&rdquo; &ndash; conjunto de publica&ccedil;&otilde;es peri&oacute;dicas cujo principal objecto de aten&ccedil;&atilde;o era o novo meio de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash;, pautava-se por uma &oacute;bvia concentra&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica e afigurava-se capaz de proporcionar dados relevantes acerca da audi&ecirc;ncia num universo de dimens&otilde;es pesquis&aacute;veis. O seu cariz p&uacute;blico potenciava o acesso &agrave;queles discursos que ter&atilde;o efectivamente participado na constru&ccedil;&atilde;o social da audi&ecirc;ncia, assim como a sua natureza diacr&oacute;nica permitia apreender eventuais padr&otilde;es de repeti&ccedil;&atilde;o, negocia&ccedil;&atilde;o ou mudan&ccedil;a.</p>     <p>Entre o lan&ccedil;amento da RTP e o fim do governo de Salazar, identific&aacute;mos a publica&ccedil;&atilde;o de quatro &oacute;rg&atilde;os e com eles constitu&iacute;mos um universo emp&iacute;rico que corresponde &agrave; totalidade da imprensa televisiva existente na &eacute;poca.<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a> Essas publica&ccedil;&otilde;es (que n&atilde;o coincidiram todas no tempo) s&atilde;o: a revista semanal <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> <sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>; a revista semanal <i> TV &ndash; Seman&aacute;rio da RTP</i> <sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>; o quinzen&aacute;rio <i> TV Magazine</i> <sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>     <p>O corpus da pesquisa foi constitu&iacute;do pela totalidade das edi&ccedil;&otilde;es publicadas entre Setembro de 1956 (in&iacute;cio das emiss&otilde;es experimentais da RTP) e Dezembro de 1958, numa explora&ccedil;&atilde;o exaustiva dos dois anos iniciais de televis&atilde;o em Portugal<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>; e por amostras posteriores que visaram alargar a dimens&atilde;o diacr&oacute;nica atrav&eacute;s dos anos de 1963 (ano em que surgiu o seman&aacute;rio da RTP) e 1966 (ano em que se deu um aumento not&aacute;vel do n&uacute;mero de televisores).<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a></p>     <p>Apesar de ser um &uacute;nico tipo de fonte documental, em termos metodol&oacute;gicos encaramos o conjunto da imprensa televisiva como um acervo composto por uma pluralidade de fontes, onde a natureza diversa dos &oacute;rg&atilde;os e dos conte&uacute;dos fornece de facto uma variedade de fontes originais: jornalistas, colaboradores, membros do governo, representantes oficiais da RTP, leitores-telespectadores. No interior da imprensa &eacute; necess&aacute;rio, pois, distinguir entre os discursos sobre as audi&ecirc;ncias feitos pelo regime, a RTP e as vozes que os amplificam, relativamente aos discursos de outros observadores e &agrave;s interven&ccedil;&otilde;es do pr&oacute;prio p&uacute;blico.&nbsp;</p>     <p>A proposta de Bourdon, que noutras pesquisas dicotomiza entre fontes documentais &ldquo;de cima e do lado&rdquo; e hist&oacute;rias de vida &ldquo;de baixo&rdquo; (Brennan, 2016), &eacute; por n&oacute;s adaptada de forma a confrontar actores sociais distintos no interior da imprensa, mantendo como crit&eacute;rio uniforme o recurso a fontes coevas. Assim, consideramos como &ldquo;fontes de cima&rdquo; as representa&ccedil;&otilde;es da audi&ecirc;ncia na revista da RTP, bem como as interven&ccedil;&otilde;es de actores pol&iacute;ticos e membros da esta&ccedil;&atilde;o televisiva nas outras publica&ccedil;&otilde;es; como &ldquo;fontes laterais&rdquo; outras refer&ecirc;ncias &agrave; audi&ecirc;ncia na imprensa televisiva n&atilde;o directamente ligada aos produtores e dirigentes de televis&atilde;o, nem tutelada directamente pelo Estado; como &ldquo;fontes de baixo&rdquo; os discursos do pr&oacute;prio p&uacute;blico, nomeadamente a correspond&ecirc;ncia reproduzida nesses mesmos jornais, bem como as vozes de telespectadores publicadas em reportagens ou entrevistas.</p>     <p>Assim, na abordagem do corpus fizemos uma triagem de todos os materiais que continham refer&ecirc;ncias expl&iacute;citas ou impl&iacute;citas &agrave; audi&ecirc;ncia, reunindo um acervo com cerca de 180 pe&ccedil;as que inclui editoriais, artigos, textos de opini&atilde;o, entrevistas, reportagens e <i> cartoons</i> &ndash; confirmando-se que, mesmo na imprensa televisiva, o p&uacute;blico &eacute; aludido numa minoria de textos. A estes junta-se, no entanto, um conjunto muito significativo de cartas de leitores (aproximadamente 200 no conjunto do corpus) que acabou por nos fornecer um manancial de pontos de vista das &ldquo;fontes de baixo&rdquo;. Neste caso, procurou-se, tamb&eacute;m, situar socialmente os autores dos textos sempre que havia indicadores para tal (relativos a g&eacute;nero, classe, meio urbano/rural).</p>     <p>A an&aacute;lise teve em considera&ccedil;&atilde;o a exist&ecirc;ncia de tr&ecirc;s categorias textuais fundamentalmente distintas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; audi&ecirc;ncia: os enunciados que a representam, os enunciados que a interpelam e os enunciados que lhe d&atilde;o voz. Mas o principal prop&oacute;sito da an&aacute;lise foi mapear os discursos quanto ao seu sentido, o que foi feito de forma indutiva atrav&eacute;s da identifica&ccedil;&atilde;o de tem&aacute;ticas, recorr&ecirc;ncia de ideias e surgimento de padr&otilde;es que permitem apontar a exist&ecirc;ncia de determinadas <i> ideias de audi&ecirc;ncia</i> .</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>Uma audi&ecirc;ncia a educar</B> </p>     <p>Apesar de a audi&ecirc;ncia inicial n&atilde;o incluir as grandes &ldquo;massas&rdquo;, o discurso p&uacute;blico predominante ao longo dos dois primeiros anos recorre com frequ&ecirc;ncia a um tom paternalista em que os respons&aacute;veis da esta&ccedil;&atilde;o ou figuras pr&oacute;ximas exprimem no seman&aacute;rio <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> a ideia de uma audi&ecirc;ncia que necessita de ser educada e doutrinada. O &ldquo;programa&rdquo; foi, ali&aacute;s, tra&ccedil;ado logo no primeiro n&uacute;mero deste seman&aacute;rio, onde se alertava para &ldquo;os perigos inerentes a uma programa&ccedil;&atilde;o mal encaminhada (&hellip;) que em todo o mundo vem criando uma &laquo;standardiza&ccedil;&atilde;o&raquo; da cultura que tende a diluir, desfazer e destruir uma escola de valores para a substituir por um tipo &uacute;nico de entretenimento pseudo cultural que leva ao nivelamento &eacute;tico e est&eacute;tico&rdquo;.<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a></p>     <p>Esta ideia, muito saliente, de orienta&ccedil;&atilde;o &lsquo;cultural&rsquo; mesclada com voluntarismo nacionalista, ecoava a posi&ccedil;&atilde;o oficial da pr&oacute;pria RTP, cujo programa politicamente determinado se anunciava na mesma altura atrav&eacute;s da primeira brochura distribu&iacute;da ao p&uacute;blico: &ldquo;A Radiotelevis&atilde;o Portuguesa foi criada em obedi&ecirc;ncia a um imperativo de progresso e valoriza&ccedil;&atilde;o nacional. (&hellip;) Trata-se (&hellip;) de aumentar a cultura dos homens, de educar distraindo, de satisfazer as necessidades espirituais de toda a ordem, para toda a gente (&hellip;). Ao servi&ccedil;o da Arte, da Ci&ecirc;ncia, da T&eacute;cnica, da Cultura, a televis&atilde;o &eacute; (&hellip;) um instrumento de educa&ccedil;&atilde;o.&rdquo;<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a></p>     <p>Este tipo de discurso vai desdobrar-se a partir &ldquo;de cima&rdquo; n&atilde;o apenas no sentido de emanar do poder pol&iacute;tico ou da RTP, mas tamb&eacute;m por vir de um topo &ldquo;social&rdquo;, uma vez que ele &eacute; apan&aacute;gio das elites intelectuais de forma ampla, incluindo as menos alinhadas com o salazarismo e que n&atilde;o pertencem ao <i> establishment</i> pol&iacute;tico ou televisivo.<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a> A concep&ccedil;&atilde;o, por parte das elites, de que a audi&ecirc;ncia precisa de ser educada surge, nos c&iacute;rculos tradicionalistas e nacionalistas do regime, em liga&ccedil;&atilde;o com os valores conservadores e a promo&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica de uma &lsquo;cultura portuguesa&rsquo;; mas noutros sectores intelectuais parece alimentar-se da avers&atilde;o &agrave; &lsquo;vulgaridade&rsquo; do entretenimento popular ligeiro e a uma deteriora&ccedil;&atilde;o vislumbrada na cultura para as massas.<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a></p>     <p>O discurso que insistia na &ldquo;cultura&rdquo; e na educa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico continha, em si mesmo, aquele contraponto acerca da concep&ccedil;&atilde;o de audi&ecirc;ncia com &ldquo;apetites adversos&rdquo; que j&aacute; Ant&oacute;nio Ferro prometera combater, nos anos 40, atrav&eacute;s da r&aacute;dio. No caso da televis&atilde;o, a ideia de audi&ecirc;ncia alvo-a-instruir voltava a fazer sentido, n&atilde;o simplesmente por se tratar de uma audi&ecirc;ncia inculta, mas (e sobretudo) por nela se reconhecer apet&ecirc;ncias de outra &iacute;ndole, nomeadamente para a frui&ccedil;&atilde;o de distrac&ccedil;&atilde;o ligeira. Tal sensa&ccedil;&atilde;o ter-se-&aacute; intensificado no decorrer dos primeiros dois anos de emiss&otilde;es, como sugere o seguinte excerto: &ldquo;N&atilde;o pomos d&uacute;vidas que existem muitos outros espect&aacute;culos de agrado geral. Cremos por&eacute;m que &agrave; televis&atilde;o n&atilde;o compete apenas distrair o p&uacute;blico, levando at&eacute; junto dele &laquo;programas para rir&raquo; ou para agradar &agrave; &laquo;rapaziada da leitaria&raquo;, que a sua miss&atilde;o ultrapassa em muito o med&iacute;ocre cartaz revisteiro; a ela compete difundir a cultura, educar, orientar e aperfei&ccedil;oar o gosto e os interesses da grande massa.&rdquo; <sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Uma audi&ecirc;ncia seduzida</B> </p>     <p>Na fase inicial, uma outra forma de a imprensa televisiva representar a audi&ecirc;ncia &eacute; como benefici&aacute;ria de extraordin&aacute;rios progressos t&eacute;cnicos, de um maravilhamento que apela &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o das pessoas comuns. Sobretudo a audi&ecirc;ncia popular &eacute; mostrada como um alvo de poderosa sedu&ccedil;&atilde;o, como nas emiss&otilde;es experimentais, em que &ldquo;programas inteiros de televis&atilde;o s&atilde;o admirados pelos feirantes que boquiabertos se espantam de ver nos pequenos &eacute;crans figuras conhecidas, tornadas an&atilde;s, e que fazem as del&iacute;cias dos seus olhos esbugalhados&rdquo;.<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a></p>     <p>Seja pela fascina&ccedil;&atilde;o e o maravilhamento t&eacute;cnico ou seja pela oferta de divers&atilde;o e espect&aacute;culo, a audi&ecirc;ncia que os discursos interpelam e prop&otilde;em desde o in&iacute;cio &eacute; uma audi&ecirc;ncia imaginada como dom&eacute;stica e familiar que &eacute; incapaz de resistir aos encantos do novo meio. Em v&eacute;speras de come&ccedil;arem as emiss&otilde;es regulares, <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> dirige-se ao leitor nos seguintes termos: &ldquo;J&aacute; comprou o seu receptor de televis&atilde;o? (&hellip;) escusa de dizer-nos que n&atilde;o o far&aacute; (&hellip;) porque o senhor disse o mesmo quando a r&aacute;dio apareceu entre n&oacute;s (&hellip;) a televis&atilde;o &eacute; inevit&aacute;vel. Basta que um dia o seu vizinho do lado, numa tarde de chuva e em pantufas, a assistir &agrave; final da ta&ccedil;a de Inglaterra em futebol (&hellip;) para que o senhor corra a comprar um receptor&rdquo;.<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a></p>     <p>Este discurso, que parece emanar sobretudo de fontes &ldquo;laterais&rdquo; (os jornalistas da imprensa), introduz desde o in&iacute;cio uma boa dose de ambival&ecirc;ncia na ideia de audi&ecirc;ncia. Verifica-se que esta nem sempre segue a vers&atilde;o oficial de um p&uacute;blico a quem a televis&atilde;o iria instruir e enquadrar no gosto cultural preconizado pelo regime e pelas elites. Ali&aacute;s, um modo recorrente de a imprensa interpelar a audi&ecirc;ncia nos primeiros anos &eacute; classificar a televis&atilde;o como um novo &ldquo;espect&aacute;culo&rdquo;, colocando-a assim, implicitamente, mais no terreno do lazer e do consumo do que no da educa&ccedil;&atilde;o e da forma&ccedil;&atilde;o cultural.<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a> Imagina-se o &lsquo;chefe de fam&iacute;lia&rsquo; seduzido pelo espect&aacute;culo popular e pelo conforto dom&eacute;stico: &ldquo;S&oacute; quem (n&atilde;o) viu em sua casa, no seu &laquo;cantinho de repouso&raquo; calmamente instalado, a &laquo;nossa&raquo; TV, n&atilde;o sabe nem calcula o que est&aacute; a perder&rdquo;.<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><B>A ambival&ecirc;ncia das fontes &ldquo;laterais&rdquo;</B> </p>     <p>O car&aacute;cter da imprensa televisiva enquanto &ldquo;fonte de fontes&rdquo; merece um breve enquadramento. Com excep&ccedil;&atilde;o da revista da RTP (que s&oacute; nascer&aacute; em 1963), esta imprensa era relativamente ambivalente na sua abordagem jornal&iacute;stica: n&atilde;o deixava de ser obviamente pr&oacute;xima da esta&ccedil;&atilde;o televisiva nem se furtava &agrave; vigil&acirc;ncia pol&iacute;tica, mas tamb&eacute;m n&atilde;o funcionava como mera correia de transmiss&atilde;o ao servi&ccedil;o de produtores e dirigentes televisivos.</p>     <p>Al&eacute;m disso, no caso do seman&aacute;rio <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> (de particular import&acirc;ncia por ser a &uacute;nica publica&ccedil;&atilde;o perene em todo o per&iacute;odo em causa) &eacute; poss&iacute;vel perceber claras oscila&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m correla&ccedil;&atilde;o com mudan&ccedil;as de director e que se traduzem em maior ou menor abertura a vozes diversas. Em alguns per&iacute;odos predomina o tom oficial e o discurso consonante com a RTP, nomeadamente nos primeiros sete meses (a partir de Setembro de 1956), em que a revista &eacute; dirigida por Diniz Bordallo-Pinheiro, que foi membro da C&acirc;mara Corporativa do Estado Novo; assim como no in&iacute;cio de 1963, altura em que o seman&aacute;rio vinha sendo dirigido, havia quatro anos, por Caetano de Carvalho, que antes fora conselheiro cultural da RTP e era claramente um &ldquo;homem do sistema&rdquo;.</p>     <p>Mas h&aacute; uma fase em que &eacute; evidente a vontade de independ&ecirc;ncia, especialmente patente na publica&ccedil;&atilde;o de abundante correspond&ecirc;ncia de leitores cr&iacute;ticos &ndash; abrindo amplo espa&ccedil;o para &ldquo;fontes de baixo&rdquo; &ndash;, bem como de textos de colaboradores que s&atilde;o pouco abonat&oacute;rios para a esta&ccedil;&atilde;o televisiva. Isso acontece num per&iacute;odo que come&ccedil;a em Abril de 1957, quando a direc&ccedil;&atilde;o da revista &eacute; entregue a Fausto Lopo de Carvalho, escritor e figura mais tarde identificada com c&iacute;rculos da oposi&ccedil;&atilde;o ao regime.</p>     <p>Isto confirma que a distin&ccedil;&atilde;o entre &ldquo;fontes de cima&rdquo; e &ldquo;fontes laterais&rdquo; na imprensa n&atilde;o &eacute; completamente linear e que jornalistas e colaboradores da imprensa televisiva n&atilde;o ter&atilde;o tido necessariamente o estatuto de elites medi&aacute;ticas no &acirc;mbito da televis&atilde;o, podendo ter assumido parcialmente um papel de actores n&atilde;o colados &agrave; produ&ccedil;&atilde;o televisiva e &agrave; sua direc&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, embora em certas circunst&acirc;ncias tamb&eacute;m pudessem actuar como difusores do discurso oficial.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Um p&uacute;blico surpreendente</B> </p>     <p>Neste contexto, a cria&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o para cartas de leitores no seman&aacute;rio <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> proporciona-nos informa&ccedil;&atilde;o valiosa de &ldquo;fontes de baixo&rdquo;, quer acerca de algumas caracter&iacute;sticas da audi&ecirc;ncia em forma&ccedil;&atilde;o, quer sobretudo das concep&ccedil;&otilde;es que a audi&ecirc;ncia tinha de si pr&oacute;pria e do seu lugar face ao novo dispositivo comunicacional.</p>     <p>O espa&ccedil;o &ldquo;Tenha Opini&atilde;o&rdquo; foi criado cinco semanas ap&oacute;s o in&iacute;cio das emiss&otilde;es regulares, coincidindo com a posse de Fausto Lopo de Carvalho como director do seman&aacute;rio, mas vai ser intermitente ao longo de 1957. Em Janeiro seguinte, por&eacute;m, a rubrica &eacute; rebaptizada com a designa&ccedil;&atilde;o &ldquo;Seja um cr&iacute;tico&rdquo;, o seu espa&ccedil;o aumenta e, ao longo de 1958, a revista ir&aacute; publicar ao todo 183 cartas de telespectadores, quase exclusivamente dedicadas a quest&otilde;es televisivas.<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a> As p&aacute;ginas que a revista dedica &agrave; correspond&ecirc;ncia funcionam frequentemente como uma aut&ecirc;ntica tribuna dos telespectadores, instala-se o di&aacute;logo e da <i> audi&ecirc;ncia</i> televisiva vai emanar um <i> p&uacute;blico</i> interveniente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cabe notar como a revista d&aacute; um car&aacute;cter interpelante &agrave; designa&ccedil;&atilde;o das rubricas, indicador da disposi&ccedil;&atilde;o, e talvez da necessidade, de estimular a emerg&ecirc;ncia de um p&uacute;blico activo. Esta atitude, juntamente com o leque de abordagens que v&atilde;o surgindo nas p&aacute;ginas da revista refor&ccedil;a a ideia de que ela funcionava, nesta fase, como uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as entre uma s&eacute;rie de actores com interesse em influenciar o rumo da televis&atilde;o e sugere que tentou juntar a essas for&ccedil;as a pr&oacute;pria audi&ecirc;ncia (numa estrat&eacute;gia, possivelmente, de afirmar a pr&oacute;prio seman&aacute;rio).</p>     <p>O tema que enquadrou as primeiras vozes do p&uacute;blico foi o da tutela moral e educativa por parte das entidades oficiais, com a proibi&ccedil;&atilde;o de a televis&atilde;o exibir programas classificados para maiores de 12 anos. Na primeira carta, nove espectadores de Lisboa, incluindo um &ldquo;doutor&rdquo; e um &ldquo;engenheiro&rdquo;, reivindicam que o p&uacute;blico seja tratado como adulto: &ldquo;um aparelho &eacute; suficientemente caro para que uma pessoa se limite a ver espect&aacute;culos infantis&rdquo;.<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a> Outro leitor, adoptando a &oacute;ptica de uma audi&ecirc;ncia dom&eacute;stica, argumenta que &ldquo;a televis&atilde;o n&atilde;o &eacute; espect&aacute;culo p&uacute;blico. Pode parec&ecirc;-lo, mas n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil ver que se trata de um espect&aacute;culo caseiro, privado! E, em nossas casas, mal dos pais que n&atilde;o sabem educar os filhos&rdquo;.<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a> Uma &ldquo;m&atilde;e de fam&iacute;lia&rdquo; defende que &ldquo;num lar de um certo n&iacute;vel moral e mental deve haver sempre uma pessoa, pai ou m&atilde;e, quando n&atilde;o ambos, que sabe e pode exercer a sua autoridade&rdquo; e insurge-se contra &ldquo;esta intromiss&atilde;o da lei nas nossas casas&rdquo;.<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a></p>     <p>Outra faceta da audi&ecirc;ncia se manifestou rapidamente nas cartas: os telespectadores afirmavam-se como p&uacute;blico cr&iacute;tico da programa&ccedil;&atilde;o, com opini&otilde;es para todos os gostos e propens&atilde;o para os discutir acerbamente. Esta audi&ecirc;ncia n&atilde;o se mostrava humilde e reconhecida por haver televis&atilde;o em Portugal, revelando-se antes reivindicativa, incluindo acerca do direito de cada um exprimir os seus pontos de vista: &ldquo;Tenha-se em conta o respeito que como cidad&atilde;os livres de um pa&iacute;s livre como Portugal devem pela opini&atilde;o dos outros. N&atilde;o gosta de bola, outros poder&aacute; haver que n&atilde;o gostem de outros programas (&hellip;) de contr&aacute;rio, seremos ego&iacute;stas e queremos s&oacute; do que gostamos&rdquo;.<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a> Dentro do quadro ditatorial, a televis&atilde;o tornava-se um tema sobre o qual alguma discuss&atilde;o era tolerada em p&uacute;blico.</p>     <p>A introdu&ccedil;&atilde;o deste espa&ccedil;o na revista veio mostrar claramente a aus&ecirc;ncia de um consenso sobre a forma como a audi&ecirc;ncia se via e se dava a ver, as suas &lsquo;necessidades&rsquo; e aspira&ccedil;&otilde;es. Entre os colunistas mais sintonizados com a RTP, os ecos de insatisfa&ccedil;&atilde;o ensombram os de entusiasmo e passa-se a representar o p&uacute;blico tamb&eacute;m como impaciente, ou mesmo como impertinente: &ldquo;Diz-se por toda a parte, especialmente por aqueles que ainda n&atilde;o t&ecirc;m receptor, que a TV n&atilde;o presta, que os receptores est&atilde;o caros, que as l&acirc;mpadas se fundem muito, que os programas s&atilde;o ordin&aacute;rios (&hellip;) &eacute; f&aacute;cil pensar assim quando se est&aacute; de fora e se presta pouca aten&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Representa&ccedil;&otilde;es da recep&ccedil;&atilde;o colectiva</B> </p>     <p>A audi&ecirc;ncia popular ia, entretanto, ganhando os seus pr&oacute;prios contornos. Oito meses depois de terem come&ccedil;ado as emiss&otilde;es regulares da RTP, a revista <i> TV Magazine</i> tra&ccedil;a o seguinte retrato da audi&ecirc;ncia lisboeta numa reportagem intitulada &ldquo;Telespectadores aos milhares &ndash; Por toda a cidade de l&eacute;s-a-l&eacute;s a televis&atilde;o ganha numeroso p&uacute;blico&rdquo;: &ldquo;Em todos os lugares onde se encontra um tele-receptor ligado, vamos encontrar tamb&eacute;m centenas de pessoas (&hellip;) Gente de todas as condi&ccedil;&otilde;es sociais procura a maneira de assistir aos programas, quer em caf&eacute;s mais ou menos confort&aacute;veis, quer nas ruas contra as montras dos revendedores&rdquo;.<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a></p>     <p>Se a televis&atilde;o havia sido apresentada, em primeiro lugar, como ve&iacute;culo &ldquo;do conforto e distrac&ccedil;&atilde;o que nos pode proporcionar em nossas casas&rdquo;,<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a> a verdade &eacute; que a ideia dominante de recep&ccedil;&atilde;o televisiva como acto dom&eacute;stico se via confrontada com as pr&aacute;ticas reais de outras audi&ecirc;ncias em forma&ccedil;&atilde;o. O que prova que tamb&eacute;m em Portugal desde cedo coexistiram &ldquo;v&aacute;rias culturas de visionamento&rdquo; (Penati, 2013, p. XII), estendendo-se o consumo televisivo paralelamente como dom&eacute;stico e como p&uacute;blico, como familiar e como colectivo, numa cartografia de pr&aacute;ticas em que se articulavam v&aacute;rios factores, nomeadamente a classe social e o eixo urbano-rural (assim como o g&eacute;nero, que deixamos de fora desta an&aacute;lise).</p>     <p>Neste processo, as cartas dos leitores v&ecirc;m revelar que a emerg&ecirc;ncia de reivindica&ccedil;&otilde;es por parte da audi&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; exclusiva das classes altas e urbanas, desdobrando-se pelo p&uacute;blico popular e mesmo pelo p&uacute;blico rural que tamb&eacute;m desponta.</p>     <p>Em meados de 1957, a <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> faz eco de um leitor de Montemor-o-Novo que se queixa de existirem, espalhados pelas localidades portuguesas, &ldquo;dezenas de aparelhos de televis&atilde;o fechados nas salas dos seus possuidores, sem que o grande p&uacute;blico possa assistir, &agrave;s sextas-feiras, &agrave; emiss&atilde;o do concurso Veja se Adivinha&rdquo;, rubrica atrav&eacute;s da qual a RTP oferecia televisores. &ldquo;Quem comprou um aparelho n&atilde;o &eacute; obrigado a abrir as portas da sala a toda a gente da sua terra&rdquo;, respondia a revista, que propunha que se instalasse &ldquo;um tele-receptor para assist&ecirc;ncia colectiva&rdquo; numa das associa&ccedil;&otilde;es da localidade e se criar o &ldquo;primeiro tele-clube portugu&ecirc;s!&rdquo; <sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a> Passado um m&ecirc;s, o jornal mostrava fotos do primeiro tele-clube, fundado pelo prior da par&oacute;quia de Benfica, em Lisboa, e considerava &ldquo;as possibilidades desta iniciativa se alargar a todo o pa&iacute;s para benef&iacute;cio da popula&ccedil;&atilde;o menos favorecida por distrac&ccedil;&otilde;es e espect&aacute;culos dignos&rdquo;.<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar de &ldquo;fonte lateral&rdquo;, a imprensa televisiva &eacute; um actor interessado na expans&atilde;o da audi&ecirc;ncia e na amplia&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno televisivo em Portugal, raz&otilde;es da sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia. O seman&aacute;rio encara, por isso, a audi&ecirc;ncia popular pelo &acirc;ngulo da sua forma&ccedil;&atilde;o, propondo a capta&ccedil;&atilde;o desses espectadores com &ldquo;distrac&ccedil;&otilde;es e espect&aacute;culos&rdquo; (e n&atilde;o pela educa&ccedil;&atilde;o cultural) e a organiza&ccedil;&atilde;o de formas de recep&ccedil;&atilde;o colectiva capazes de p&ocirc;r em pr&aacute;tica um visionamento alargado e regular (que n&atilde;o deixam de ser, tamb&eacute;m, formas de enquadramento consonantes com o corporativismo do Estado Novo).</p>     <p>&Agrave; medida que o n&uacute;mero de televisores foi crescendo, as formas de recep&ccedil;&atilde;o colectiva ter-se-&atilde;o desdobrado em m&uacute;ltiplas variantes, com destaque para os estabelecimentos comerciais e as sess&otilde;es caseiras que congregavam vizinhos e conhecidos. A certa altura, um leitor lisboeta pedia medidas para se travar o &ldquo;com&eacute;rcio il&iacute;cito que muitas pessoas exercem em suas casas (&hellip;) dando diariamente sess&otilde;es de televis&atilde;o e cobrando pelas mesmas um determinado X escudos por presen&ccedil;a&rdquo;. <sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Direito &agrave; televis&atilde;o</B> </p>     <p>Se muitos discursos sobre a audi&ecirc;ncia popular continuaram a ser atravessados pela tens&atilde;o entre a ideia de instru&ccedil;&atilde;o e a ideia de divers&atilde;o, os discursos &ldquo;de baixo&rdquo; tendiam, por sua vez, a reivindicar a televis&atilde;o como algo prosaico, mas importante.</p>     <p>Um espectador do Ribatejo rural defendia a televis&atilde;o, esp&eacute;cie de b&aacute;lsamo numa vida ingrata, como um direito que doravante j&aacute; n&atilde;o podia ser sonegado: &ldquo;Pela uni&atilde;o de todos construiu-se um sal&atilde;o para o qual cada um contribuiu, conforme as suas posses, com trabalho, materiais ou dinheiro, e comprou-se um grande aparelho de 61 cm de &eacute;cran. (&hellip;) &Eacute; in&uacute;til tentar descrever o entusiasmo que a televis&atilde;o tem suscitado em quem n&atilde;o podia ter outra distrac&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; realmente indescrit&iacute;vel. (&hellip;) Em face disto, sr. Director, contrariar a televis&atilde;o em Portugal &eacute; querer negar &agrave; maioria dos portugueses uma distrac&ccedil;&atilde;o instrutiva que at&eacute; agora a sua menor sorte lhes tem negado.&rdquo; <sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a></p>     <p>Se &eacute; surpreendente verificar que, num pa&iacute;s &lsquo;amorda&ccedil;ado&rsquo;, a televis&atilde;o se tornou num t&oacute;pico de aceso debate com o contributo do p&uacute;blico, ainda mais inesperada &eacute; a rapidez como entre a audi&ecirc;ncia se formou a ideia de um p&uacute;bico com direitos. Esta concep&ccedil;&atilde;o est&aacute; presente no p&uacute;blico popular, urbano ou rural, &agrave; medida que ele emerge, e tanto abrange o acesso &agrave; televis&atilde;o como o tipo de programas.</p>     <p>Num dos v&aacute;rios testemunhos de reuni&otilde;es dom&eacute;sticas para se ver televis&atilde;o, um leitor de Cascais apresenta-se humildemente &ldquo;com o exame da 4&ordf; classe&rdquo; e reporta a tens&atilde;o que existe entre uma audi&ecirc;ncia cultivada e uma audi&ecirc;ncia que se quer divertir: &ldquo;Todas as noites se juntam em minha casa 10 a 15 pessoas dos dois sexos a ver as emiss&otilde;es, incluindo fam&iacute;lia e vizinhos. (&hellip;) Seria imposs&iacute;vel agradar a todas as camadas de espectadores e isso deriva do desn&iacute;vel cultural dos mesmos. A RTP foi criada para os portugueses, mas talvez 70% dos mesmos n&atilde;o teve forma&ccedil;&atilde;o para compreender esses programas de cultura liter&aacute;ria e musical e acabam, uns ap&oacute;s outros, por dizerem boa noite, at&eacute; amanh&atilde;, est&aacute;-me a dar o sono&rdquo;.<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a></p>     <p>De facto, a carta deste espectador &lsquo;humilde&rsquo; n&atilde;o se destina meramente a defender um certo tipo de programa&ccedil;&atilde;o &ndash; v&aacute;rios espectadores de classes altas tamb&eacute;m defendem conte&uacute;dos ligeiros &ndash;, mas a invocar a desigualdade sociocultural da audi&ecirc;ncia para afirmar que a RTP deve &ldquo;encher as emiss&otilde;es&rdquo; com programas populares e, &ldquo;quanto &agrave; hora em que devem ser transmitidos&rdquo;, apresenta novas raz&otilde;es classistas: &ldquo;julgo ser melhor a seguir ao notici&aacute;rio (&hellip;) e deixar os mais pesados para o fim, visto que a maioria &eacute; tudo gente que trabalha e tem que se levantar no dia seguinte, muitos &agrave;s 6 horas da manh&atilde; (&hellip;) Ao passo que os telespectadores mais cultos t&ecirc;m outro hor&aacute;rio de entrada no servi&ccedil;o e outros h&aacute; que nem t&ecirc;m empregos&rdquo;.<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a></p>     <p>N&atilde;o existindo uma sobreposi&ccedil;&atilde;o entre classe social e concep&ccedil;&atilde;o de audi&ecirc;ncia, a verdade &eacute; que o aceso debate entre a ideia de p&uacute;blico a cultivar e p&uacute;blico a entreter, remete frequentemente, de forma expl&iacute;cita ou impl&iacute;cita, para a condi&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica e o <i> status</i> social. Enquanto, os que defendem uma audi&ecirc;ncia &lsquo;bem-disposta&rsquo; argumentam contra a exclus&atilde;o popular, j&aacute; os defensores da cultiva&ccedil;&atilde;o usam estrat&eacute;gias discursivas de desqualifica&ccedil;&atilde;o dos opositores, sugerindo o baixo n&iacute;vel dos seus gostos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; o que se passa no seguinte di&aacute;logo. Uma leitora reivindica a inclus&atilde;o dos n&atilde;o &lsquo;intelectuais&rsquo; na audi&ecirc;ncia: &ldquo;Comprei um aparelho de televis&atilde;o na esperan&ccedil;a de passar umas noites agrad&aacute;veis com a fam&iacute;lia e amigas. O que encontro?! (&hellip;) N&atilde;o h&aacute; s&oacute; &lsquo;intelectuais&rsquo; no nosso pa&iacute;s! Coisas simples, alegres, divertidas. &Eacute; t&atilde;o bom rir. Nos caf&eacute;s? &Eacute; tudo a falar e a dizer o que eu aqui estou escrevendo&rdquo;.<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a></p>     <p>Na semana seguinte, um espectador vem defender o p&uacute;blico &lsquo;cultural&rsquo;, desqualificando a ideia de &lsquo;divers&atilde;o&rsquo; da leitora anterior: &ldquo;Ora, sendo a televis&atilde;o um meio cultural para aumentar o n&iacute;vel de um povo, os programas culturais ou &lsquo;intelectuais&rsquo;, como queira, seriam dados, no seu parecer&hellip; a rir! (&hellip;) Deixe os &lsquo;intelectuais&rsquo;, compre um &lsquo;divertido&rsquo; livro duma colec&ccedil;&atilde;o azul ou cor-de-rosa, sente-se confortavelmente num sof&aacute;, leia o livro se desejar&hellip; e n&atilde;o abra o aparelho.&rdquo; <sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Democracia do p&uacute;blico</B> </p>     <p>&Eacute; interessante que o debate em torno de uma programa&ccedil;&atilde;o educativa ou da adop&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos mais ligeiros e populares, dilema herdado da &laquo;pol&iacute;tica do esp&iacute;rito&raquo; de Ant&oacute;nio Ferro, j&aacute; n&atilde;o se resuma a uma discuss&atilde;o entre diferentes sensibilidades do regime e dos <i> media</i> , mas seja tomado em m&atilde;os pelo pr&oacute;prio p&uacute;blico. E mais: a contundente troca p&uacute;blica de argumentos entre espectadores j&aacute; n&atilde;o se limita a desacordos com base no gosto; em v&aacute;rias ocasi&otilde;es a quest&atilde;o &eacute; funda, pondo em confronto distintas condi&ccedil;&otilde;es sociais, p&uacute;blicos diferentes que disputam entre si o poder de dar uma determinada fei&ccedil;&atilde;o &agrave; audi&ecirc;ncia imaginada pela RTP.</p>     <p>Um leitor do Porto reage &agrave; proposta de um espectador lisboeta para mudan&ccedil;a de hor&aacute;rios, apontando os privil&eacute;gios de uma minoria: &ldquo;Eu, al&eacute;m de n&atilde;o ter autom&oacute;vel, tamb&eacute;m n&atilde;o tenho aparelho de televis&atilde;o, o que ali&aacute;s sucede a 999 de cada mil habitantes desta Invicta Cidade, denominada Metr&oacute;pole do Trabalho (&hellip;) nem o meu ordenado me permite que utilize t&aacute;xi (&hellip;) Como o invejo! (&hellip;) sou obrigado a deslocar-me com o &uacute;nico motor de que disponho, as pernas, at&eacute; casa de uma pessoa de fam&iacute;lia (&hellip;) que possui o &laquo;quase&raquo; imprescind&iacute;vel aparelho (...). Confiando que (sobre a mudan&ccedil;a de hor&aacute;rio) V. n&atilde;o permitiria esta ofensa &agrave; pobreza, privando-nos deste prazer &ndash; um dos poucos acess&iacute;veis.&rdquo; <sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a></p>     <p>O leitor lisboeta contra-ataca com argumentos meritocr&aacute;ticos aplicados &agrave; frui&ccedil;&atilde;o televisiva: &ldquo;Nunca me passou pela cabe&ccedil;a ofender as gentes (do Porto), especialmente as classes mais pobres, que n&atilde;o possuem meios para comprar um aparelho de TV. Eu j&aacute; fui oper&aacute;rio e sou filho de oper&aacute;rios, e se hoje possuo um curso superior, que me permite exercer uma profiss&atilde;o liberal (&hellip;) n&atilde;o esque&ccedil;o que tirei esse curso atrav&eacute;s de 12 anos de sacrif&iacute;cios, estudando de dia e trabalhando de noite, talvez em horas a que o meu contraditor dormia sossegadamente. Portanto, se possuo um carro e aparelho de TV, o que parece arreliar o sr. (&hellip;), n&atilde;o recebi benesses de ningu&eacute;m para o efeito&rdquo;.<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a></p>     <p>Este tipo de discuss&otilde;es evidencia como o p&uacute;blico televisivo disputava a constru&ccedil;&atilde;o de uma imagem de si pr&oacute;prio e como em torno da televis&atilde;o se podia lutar por quest&otilde;es de acesso ao lazer, ao consumo e &agrave; cultura, pelo m&eacute;rito individual ou contra a desigualdade social, e pela defini&ccedil;&atilde;o de qual devia ser a audi&ecirc;ncia destinat&aacute;ria da programa&ccedil;&atilde;o. Algumas cartas cont&ecirc;m proposi&ccedil;&otilde;es claramente pol&iacute;ticas: &ldquo;Pena &eacute; que a RTP n&atilde;o opte, mais vezes, por programas leves e alegres, pois s&atilde;o esses, <i> incontestavelmente</i> , os que mais agradam. A TV n&atilde;o &eacute;, evidentemente, um espect&aacute;culo para classes privilegiadas&rdquo; (it&aacute;lico no original).<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a></p>     <p>Este discurso democratizador dirige-se a um duplo alvo: por um lado, os &lsquo;intelectuais&rsquo; e as &lsquo;classes privilegiadas&rsquo;; por outro, a lideran&ccedil;a da RTP e os seus directores de programas. A criatividade popular chega a oferecer a estes &uacute;ltimos alguns versos sat&iacute;ricos: &ldquo;Lisboa &agrave; noite &ndash; que enfado/Por que n&atilde;o cortam o Fado/O Caf&eacute; e os Pintores?/Toiradas&hellip; que estucha/O Miradoiro outra bucha/Que s&oacute; interessa aos doutores. (&hellip;) Quem sabe, n&atilde;o sabe nada/Por isso nos desagrada/Tanta falta de ci&ecirc;ncia;/A T&ecirc;V&ecirc; &eacute; um canudo,/Da T&ecirc;V&ecirc; quem sabe tudo/Somos n&oacute;s&hellip; e n&atilde;o Voc&ecirc;ncia&hellip;&rdquo;.<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a> Subjacente a este discurso est&aacute; nada menos do que a ideia de um p&uacute;blico soberano e uma democracia dos espectadores acima dos directores da televis&atilde;o. Volta a ser surpreendente como, em torno da televis&atilde;o e do seu car&aacute;cter popularizante, pudesse brotar tal ideia radical no seio do venerando Portugal salazarista.</p>     <p>O que &eacute; um facto &eacute; que existiu, pelo menos, um arremedo de democracia discursiva durante um ano nas p&aacute;ginas da revista <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> , at&eacute; a discuss&atilde;o se rarefazer no final de 1958. A partir dessa altura, as p&aacute;ginas dos leitores escassearam no jornal, passando a privilegiar-se os enfoques jornal&iacute;sticos sobre os bastidores da televis&atilde;o onde se veicula, essencialmente, pontos de vista de profissionais e dirigentes da RTP.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><B>O discurso da RTP rumo &agrave; audi&ecirc;ncia m&eacute;dia </B> </p>     <p>As esperan&ccedil;as educativas ou democratizadoras caracterizaram a hist&oacute;ria inicial de sucessivos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e, no caso da televis&atilde;o, as disputas entre incrementar a forma&ccedil;&atilde;o cultural ou privilegiar o entretenimento de massas ocorreram mesmo em pa&iacute;ses pautados pela hegemonia do mercado no sistema de <i> media</i> , como os Estados Unidos. Tamb&eacute;m a&iacute;, a imprensa de prest&iacute;gio deplorou a forma como se defraudou a expectativa de a televis&atilde;o tornar a (&lsquo;alta&rsquo;) cultura mais acess&iacute;vel &agrave;s massas. Ao mesmo tempo, as prefer&ecirc;ncias populares e o argumento democr&aacute;tico da maioria eram usados pelas esta&ccedil;&otilde;es no sentido populista de legitimar como &ldquo;interesse p&uacute;blico&rdquo; o entretenimento mais apto a captar audi&ecirc;ncias para os patroc&iacute;nios comerciais (Welch, 1999).</p>     <p>Portugal tinha uma situa&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tica particular e a rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as em torno da televis&atilde;o n&atilde;o era dominada por interesses comerciais.<sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a> Nesse contexto, os discursos acerca da cultiva&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia resistiram durante bastante tempo. Mas, ap&oacute;s dois anos de emiss&otilde;es, a forma como alguns jornalistas explicavam o cariz da televis&atilde;o portuguesa era um sinal de eros&atilde;o da ideia de audi&ecirc;ncia a cultivar: &ldquo;A TV conta hist&oacute;rias e anedotas sem exigir que se saiba ler. (&hellip;) A impressionante despropor&ccedil;&atilde;o entre letrados e iletrados est&aacute; na base da vit&oacute;ria popular da TV em Portugal&rdquo;.<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a></p>     <p>Numa carta contra mudan&ccedil;as de hor&aacute;rio de programas culturais, <i> a R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> hesitava entre ver uma prova de &ldquo;que <i> ainda</i> h&aacute; p&uacute;blico <i> ou</i> que, <i> finalmente</i> h&aacute; p&uacute;blico capaz de discernir a diferen&ccedil;a&rdquo; (it&aacute;lico nosso).<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a> Adeptos da cultiva&ccedil;&atilde;o enfrentavam, pois, este dilema de saber se a insist&ecirc;ncia da RTP na &lsquo;cultura&rsquo; come&ccedil;ava por fim a ter efeitos na audi&ecirc;ncia ou se, pelo contr&aacute;rio, o p&uacute;blico culto era um resqu&iacute;cio de algo que a televis&atilde;o tendia a destruir.</p>     <p>A inexist&ecirc;ncia de um peri&oacute;dico da RTP antes de 1963 n&atilde;o nos permite saber de forma sistem&aacute;tica qual a sua ideia de p&uacute;blico na fase mais inicial, mas &eacute; poss&iacute;vel indag&aacute;-lo quando &eacute; lan&ccedil;ado o seman&aacute;rio <i> TV</i> , &oacute;rg&atilde;o oficial da esta&ccedil;&atilde;o, numa altura em que o pa&iacute;s superara os 100 mil televisores.</p>     <p>O discurso mais presente na revista da RTP &eacute;, nesse momento, um reiterar da heterogeneidade da audi&ecirc;ncia e dos gostos, que constitui tamb&eacute;m um discurso de <i> constru&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia m&eacute;dia</i> . Repare-se num dos primeiros editoriais: &ldquo;Os programas correntes de televis&atilde;o, posto que devam sempre visar a eleva&ccedil;&atilde;o cultural dos espectadores, &agrave;s vezes muito dif&iacute;cil de atingir em certas rubricas de agrado geral mesmo nos pa&iacute;ses com &iacute;ndices de cultura mais elevados, t&ecirc;m finalidade essencialmente recreativa ou informativa&rdquo;.<sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a> Instala-se uma ambival&ecirc;ncia entre o pendor formativo, mantido como proclama&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica televisiva do regime, e o argumento de que a televis&atilde;o existe para satisfazer os <i> interesses</i> dos espectadores.</p>     <p>A heterogeneidade do p&uacute;blico e a dificuldade de um meio de massas corresponder &agrave;s v&aacute;rias correntes passam a ser as t&oacute;nicas na forma como, no caso da RTP, o discurso &ldquo;de cima&rdquo; representa a audi&ecirc;ncia. Essa concep&ccedil;&atilde;o pode ser encontrada de forma mais enf&aacute;tica com o decorrer dos anos. Nas edi&ccedil;&otilde;es de 1966 podemos encontrar assun&ccedil;&otilde;es claras da audi&ecirc;ncia como popula&ccedil;&atilde;o <i> a captar</i> atrav&eacute;s de uma oferta mediana: &ldquo;A televis&atilde;o &eacute; dirigida a todas as esp&eacute;cies de p&uacute;blico e deve compreender os denominadores comuns do interesse das grandes massas. (&hellip;) A estrutura total da programa&ccedil;&atilde;o deve ser concebida para alcan&ccedil;ar a maior audi&ecirc;ncia poss&iacute;vel. (&hellip;) Os motivos de atrac&ccedil;&atilde;o dos programas n&atilde;o devem ser excessivamente selectivos ou especializados&rdquo;. <sup><a href="#49">49</a></sup><a name="top49"></a></p>     <p>Uma an&aacute;lise &agrave; programa&ccedil;&atilde;o efectiva da RTP (<a href="#t2">tabela 2</a>) mostra uma tend&ecirc;ncia para a redu&ccedil;&atilde;o do tempo dedicado a conte&uacute;dos &ldquo;culturais&rdquo; e um crescimento de conte&uacute;dos ligeiros importados, sob forma de s&eacute;ries e filmes.<sup><a href="#50">50</a></sup><a name="top50"></a></p>     <p>&nbsp;</p> <a name="t2"></a> <img src="/img/revistas/obs/v12n1/12n1a02t2.jpg">     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>A certa altura, a revista da RTP faz mesmo uma curiosa invers&atilde;o do discurso oficial e, em vez de apelar &agrave; audi&ecirc;ncia vulgar para se cultivar, passa a apelar aos cultivados para tolerarem a divers&atilde;o ligeira: &ldquo;Meu caro telespectador: imagine a indigest&atilde;o que n&atilde;o teria vendo nos &eacute;crans s&oacute; obras-primas interpretadas pelos melhores. A TV tem de ser espect&aacute;culo para a multid&atilde;o dos telespectadores. N&atilde;o pode contentar apenas uma reduzid&iacute;ssima elite. N&atilde;o &eacute; s&oacute;, portanto, a TV que &eacute; preciso melhorar, mas tamb&eacute;m os indiv&iacute;duos que a v&ecirc;em e a criticam&rdquo;.<sup><a href="#51">51</a></sup><a name="top51"></a></p>     <p>Contudo, as p&aacute;ginas criadas pela RTP para o &ldquo;di&aacute;logo&rdquo; com o p&uacute;blico nunca chegam a ser espa&ccedil;os de debate. Por um lado, esse espa&ccedil;o torna-se predominantemente uma transcri&ccedil;&atilde;o de excertos da imprensa seguidos de coment&aacute;rios em que a revista responde &agrave;s aprecia&ccedil;&otilde;es negativas, frequentemente com acinte.</p>     <p>Logo um m&ecirc;s ap&oacute;s o lan&ccedil;amento, o seman&aacute;rio oficial cria uma outra rubrica a que chama &laquo;Leg&iacute;tima defesa&raquo;, onde come&ccedil;a por deslegitimar os cr&iacute;ticos, cuja prosa &ldquo;mal-intencionada e leviana (&hellip;) desconhece por completo (&hellip;) a pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia da mat&eacute;ria&rdquo;.<sup><a href="#52">52</a></sup><a name="top52"></a> Um par de meses depois, o editorial dirigia-se aos telespectadores do seguinte modo: &ldquo;N&atilde;o se deve censurar o que se ignora. Para mais amplo conhecimento dos seus servi&ccedil;os e informa&ccedil;&otilde;es dos seus programas, existe na RTP o servi&ccedil;o de Rela&ccedil;&otilde;es P&uacute;blicas (&hellip;) Pomo-lo &agrave; vossa disposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<sup><a href="#53">53</a></sup><a name="top53"></a> A RTP n&atilde;o estava, obviamente, interessada num debate p&uacute;blico e cr&iacute;tico com os telespectadores. Preferia dissuadi-lo ou encaminhar as quest&otilde;es da audi&ecirc;ncia para o interior silencioso da organiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Conclus&otilde;es</B> </p>     <p>Apesar do regime ditatorial, da doutrina dirigista e dos entraves ao debate, a constru&ccedil;&atilde;o inicial de uma audi&ecirc;ncia televisiva em Portugal n&atilde;o ter&aacute; deixado de ser um processo influenciado pela interac&ccedil;&atilde;o entre a RTP e o p&uacute;blico, bem como entre v&aacute;rios sectores deste. Os dados recolhidos na imprensa televisiva da &eacute;poca sugerem que existiu uma din&acirc;mica rec&iacute;proca entre os significados que foram sendo conferidos &agrave; televis&atilde;o, por um lado, e &agrave; audi&ecirc;ncia, por outro, numa negocia&ccedil;&atilde;o entre diferentes aspira&ccedil;&otilde;es e estrat&eacute;gias, protagonizados por diversos actores sociais. Pode apontar-se, especificamente, uma s&eacute;rie de aspectos relevantes nesse processo.</p>     <p>O primeiro aspecto &eacute; que o ponto de partida da RTP e o modo oficial de conceber a audi&ecirc;ncia televisiva foi consonante com a vis&atilde;o salazarista dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e com a &ldquo;pol&iacute;tica do esp&iacute;rito&rdquo;: as massas deviam ser alvo de cultiva&ccedil;&atilde;o por parte de uma televis&atilde;o did&aacute;ctica, capaz de educar o gosto, a moral e a ideologia. Nesse sentido, era um projecto antipopular, cuja concep&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia era a de um corpo pass&iacute;vel de ser progressivamente inoculado com determinadas mensagens, dentro um processo &lsquo;vertical&rsquo; de comunica&ccedil;&atilde;o. Na fase de arranque da RTP, predominou esta vertente discursiva sobre a TV, que era emanada dos c&iacute;rculos profissionais e interpelava a audi&ecirc;ncia inicial oferecendo-lhe formas de se imaginar enquanto objecto.</p>     <p>Em segundo lugar, sublinhe-se que n&atilde;o deixaram de se formar duas ideias paralelas de audi&ecirc;ncia, em competi&ccedil;&atilde;o entre si. A predominante, concebida sob orienta&ccedil;&atilde;o program&aacute;tica do regime, mas tamb&eacute;m alimentada por meios art&iacute;sticos e intelectuais que ter&atilde;o visto na televis&atilde;o uma oportunidade de alargar a sua influ&ecirc;ncia na sociedade portuguesa, era uma audi&ecirc;ncia a construir &agrave; for&ccedil;a, &agrave; revelia da sua pr&oacute;pria vontade. Mas uma segunda concep&ccedil;&atilde;o foi emergindo, pautada pelos vectores da aten&ccedil;&atilde;o, do interesse e do gosto, dentro da ideia de que a audi&ecirc;ncia se ia construindo no interior de din&acirc;micas rec&iacute;procas da emiss&atilde;o e da recep&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>O terceiro aspecto &eacute; que esta segunda concep&ccedil;&atilde;o foi alimentada, tamb&eacute;m desde cedo, pela introdu&ccedil;&atilde;o de uma ideia igualit&aacute;ria, democratizadora ou niveladora do p&uacute;blico televisivo, que passou a acompanhar os discursos sobre a audi&ecirc;ncia e o papel da televis&atilde;o, em competi&ccedil;&atilde;o com a concep&ccedil;&atilde;o oficial e elitista. Mais do que nos jornalistas e cr&iacute;ticos de televis&atilde;o, ou nos produtores e artistas, a ideia de uma televis&atilde;o que correspondesse aos desejos do p&uacute;blico come&ccedil;ou por surgir com origem nos pr&oacute;prios espectadores, atrav&eacute;s do correio do leitor na imprensa televisiva. &Eacute; a&iacute; que se d&aacute; a irrup&ccedil;&atilde;o desse discurso &ndash; permitido pelos editores e pelo regime, note-se &ndash;, que emerge no seio de um debate entre membros do p&uacute;blico e interpela tamb&eacute;m os respons&aacute;veis pela televis&atilde;o e as elites intelectuais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como quarto aspecto note-se que, apesar da lenta forma&ccedil;&atilde;o de uma real audi&ecirc;ncia e da incipi&ecirc;ncia t&eacute;cnica dos primeiros anos, o car&aacute;cter de novidade da televis&atilde;o proporcionou discursos apaixonados desde o in&iacute;cio. Como tema aparentemente &lsquo;apol&iacute;tico&rsquo;, foi poss&iacute;vel a emerg&ecirc;ncia de um p&uacute;blico que, em certa medida, contrariou temporariamente o clima de quietude e unanimidade e revelou a exist&ecirc;ncia de uma audi&ecirc;ncia heterog&eacute;nea, expondo fracturas de gosto cultural e classe social. No seio de uma audi&ecirc;ncia ainda muito limitada, emergiu, mesmo que transitoriamente, <i> um p&uacute;blico</i> que, contradit&oacute;rio e plurifacetado, tomou o novo meio como objecto de direitos e chegou a constituir a televis&atilde;o como tema com laivos de discuss&atilde;o cr&iacute;tica na pra&ccedil;a p&uacute;blica. Aquilo que os espectadores discutem nesse processo vai al&eacute;m do mero gosto de espectadores face aos conte&uacute;dos televisivos: discutem as diferen&ccedil;as sociais, os recursos materiais e o papel &ndash; realmente pol&iacute;tico &ndash; da televis&atilde;o enquanto forma de acesso a espect&aacute;culos, cultura ou divers&atilde;o.</p>     <p>Um &uacute;ltimo aspecto prende-se com os sinais de que as din&acirc;micas internas da RTP, em conjuga&ccedil;&atilde;o com o ambiente discursivo que a envolveu a partir do p&uacute;blico, ter&atilde;o levado a esta&ccedil;&atilde;o a inflectir a sua vis&atilde;o da audi&ecirc;ncia. Sem rejeitar o discurso &lsquo;cultural&rsquo; e formativo, a RTP foi diluindo o peso da concep&ccedil;&atilde;o oficial e passou a perspectivar a audi&ecirc;ncia como uma massa heterog&eacute;nea cujos interesses medianos era priorit&aacute;rio contemplar. Mesmo numa situa&ccedil;&atilde;o de monop&oacute;lio, a esta&ccedil;&atilde;o foi sens&iacute;vel &agrave; necessidade de captar telespectadores, n&atilde;o ao ponto de usar as prefer&ecirc;ncias populares para adoptar um discurso populista, mas instalando-se de forma ambivalente no seio da disputa entre as duas concep&ccedil;&otilde;es da audi&ecirc;ncia televisiva que se estava a constituir.</p>     <p>A an&aacute;lise da imprensa televisiva em Portugal sugere que no contexto salazarista ter&aacute; sido a alian&ccedil;a entre o pr&oacute;prio discurso popular &ndash; que de alguma maneira se fez ouvir &ndash; e a necessidade de a RTP consolidar a audi&ecirc;ncia nas classes m&eacute;dias e baixas &ndash; &uacute;nica forma de servir os objectivos &lsquo;formativos&rsquo; e propagand&iacute;sticos do regime &ndash;, a fazer com que a ideia de audi&ecirc;ncia nivelada pela mediania fosse abrindo caminho.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B>Refer&ecirc;ncias</B> </p>     <!-- ref --><p>Bird, E. S. (2008). Seeking the historical audience. In B. Zelizer (ed.), <i> Explorations in Communication and History </i> (pp. 90-106). Londres: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944237&pid=S1646-5954201800010000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Blumer, H. (1969). <i> Symbolic Interaccionism: perspective and method</i> . Berkeley: University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944239&pid=S1646-5954201800010000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Bourdon, J. (2015). Detextualizing: How to write a history of audiences. <i> European Journal of Communication</i> , vol. 30 (1), 7-21.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Brennan, E. (2016). Television in Ireland before Irish Television: Nationalist Rhetoric and International Programming.&nbsp;<i> ECREA Conference</i> , Prague.</p>     <!-- ref --><p>Butsch, R. (2000). <i> The Making of American Audiences: From stage to television, 1750-1990</i> . Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944243&pid=S1646-5954201800010000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>C&aacute;dima, F. R. (1996). <i> Salazar, Caetano e a Televis&atilde;o Portuguesa</i> . Lisboa: Presen&ccedil;a.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944245&pid=S1646-5954201800010000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dahlgren, P. (1995). <i> Television and the Public Sphere: Citizenship, democracy and the media</i> . Londres: Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944247&pid=S1646-5954201800010000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Galhardo, A. (2008). A publicidade ao televisor na imprensa nacional entre 1956 e 1960 nos suportes Jornal de Not&iacute;cias e Flama. In <i> Actas do 5&ordm; Congresso da Associa&ccedil;&atilde;o Portuguesa de Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o</i> . Braga: Centro de Estudos Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade. Dispon&iacute;vel online em: <a href="http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/5sopcom/article/view/81/81" target="_blank">http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/5sopcom/article/view/81/81</a></p>     <!-- ref --><p>Lozano, J. F. G. (2014). <i> El Encendido Anal&oacute;gico: Los in&iacute;cios de la televisi&oacute;n en Andal&uacute;cia a trav&eacute;s de la prensa</i> . Sevilha: Alfar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944250&pid=S1646-5954201800010000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mihelj, S. (2015). Audience history as a history of ideas: Towards a transnational history. <i> European Journal of Communication</i> , vol. 30 (1), 22-35.</p>     <p>Mihelj, S. &amp; Bourdon, J. (2015). Doing audience history. Questions, sources, methods. <i> European Journal of Communication</i> , vol. 30 (1), 3-6.</p>     <p>&Oacute;, J. R. do (1999). <i> Os Anos de Ferro: O dispositivo cultural durante a &ldquo;Pol&iacute;tica do Esp&iacute;rito&rdquo;</i> . Lisboa: Estampa.</p>     <!-- ref --><p>Penati, C. (2013). <i> Il focolare elettronico: Televisione italiana delle origine e culture di visione</i> . Mil&atilde;o: Vita e Pensiero.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944255&pid=S1646-5954201800010000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Pintado, X. (1967). N&iacute;veis e estruturas de sal&aacute;rios comparados: os sal&aacute;rios portugueses e os europeus. <i> An&aacute;lise Social</i> , v. 17, 57-89. Dispon&iacute;vel online em: <a href="http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1224172603W2bWJ8if0Bg04QN6.pdf" target="_blank">http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1224172603W2bWJ8if0Bg04QN6.pdf</a></p>     <!-- ref --><p>Ribeiro, N. (2005). <i> A Emissora Nacional nos Primeiros Anos do Estado Novo</i> . Porto: Quimera.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944258&pid=S1646-5954201800010000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Rodrigues, U. T. (1999). Vicissitudes e atropelos no caso da extin&ccedil;&atilde;o da Sociedade Portuguesa de Escritores. <i> Cam&otilde;es &ndash; Revista de Letras e Culturas Lus&oacute;fonas</i> , 5, 35-38.</p>     <!-- ref --><p>Silva, M. L. &amp; Teves, V. H. (1971). <i> Vamos Falar de Televis&atilde;o</i> . Lisboa: Verbo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944261&pid=S1646-5954201800010000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Sousa, H. e Santos, L. (2005). RTP e Servi&ccedil;o P&uacute;blico: Um percurso de inultrapass&aacute;vel depend&ecirc;ncia e contradi&ccedil;&atilde;o. In M. Pinto (org.), <i> A Televis&atilde;o e a Cidadania, Contributos para o Debate sobre o Servi&ccedil;o P&uacute;blico </i> (pp. 61-80). Porto: Campo das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944263&pid=S1646-5954201800010000200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Spigel, L. (1992). <i> Make Room for TV: Television and the Family Ideal in Postwar America</i> . Chicago: University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944265&pid=S1646-5954201800010000200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Torres, E. C. (2011). <i> Televis&atilde;o e Servi&ccedil;o P&uacute;blico</i> . Lisboa: Funda&ccedil;&atilde;o Francisco Manuel dos Santos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944267&pid=S1646-5954201800010000200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Welch, J. (1999). Shaping the box: The cultural construction of American television, 1948-1952. <i> Continuum: Journal of Media and Cultural Studies</i> , 13:1, 97-117.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=944269&pid=S1646-5954201800010000200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><B>NOTAS</B> </p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Constitui&ccedil;&atilde;o do Estado Novo, artigo 8&ordm;, par&aacute;grafo 20&ordm;, al&iacute;nea 2&ordf;.</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Discurso de tomada de posse de Ant&oacute;nio Ferro na Emissora Nacional, publicado no seman&aacute;rio <i> R&aacute;dio Nacional</i> , 22/06/1941, p. 5. Ant&oacute;nio Ferro, influente intelectual salazarista, dirigiu o Secretariado de Propaganda Nacional (mais tarde Secretariado Nacional de Informa&ccedil;&atilde;o, SNI) entre 1933 e 1950, e esteve &agrave; frente da pr&oacute;pria r&aacute;dio p&uacute;blica entre 1941 e o final do seu mandato no SNI.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Idem, ibidem, p. 5.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Decreto-lei n&ordm; 40 341, de 18 de Outubro de 1955, base X, ponto 1. It&aacute;lico nosso.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Ibidem, base X, ponto 2.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Os dados acerca do n&uacute;mero de televisores baseiam-se nas publica&ccedil;&otilde;es do Instituto Nacional de Estat&iacute;stica, que durante o per&iacute;odo analisado foi contabilizando nos volumes anuais das &ldquo;Estat&iacute;sticas da Educa&ccedil;&atilde;o&rdquo; o n&uacute;mero de televisores registados no pa&iacute;s.</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> No in&iacute;cio dos anos 60, os modelos mais baratos de televisor oscilavam entre os 4 e os 6 mil escudos, a avaliar pela publicidade na imprensa (ver A. Galhardo, 2008). Os ordenados m&eacute;dios mensais na ind&uacute;stria portuguesa oscilavam, em 1962, entre os cerca de 2 mil escudos no sector t&ecirc;xtil e os 6 mil escudos no sector cervejeiro (ver Pintado, 1967).</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Quanto &agrave; pol&iacute;tica televisiva, o governo de Marcello Caetano, a partir de 1968, abriu uma &eacute;poca relativamente distinta (C&aacute;dima, 1996; Sousa &amp; Santos, 2003).</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Este material, com car&aacute;cter n&atilde;o p&uacute;blico, teria tamb&eacute;m a vantagem de n&atilde;o ter sido sujeito ao crivo da censura. Mas, segundo os servi&ccedil;os da RTP, a correspond&ecirc;ncia n&atilde;o foi guardada nos arquivos da esta&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> De fora deix&aacute;mos publica&ccedil;&otilde;es genericamente dedicadas a &ldquo;espect&aacute;culos&rdquo;, como a revista Plateia, que inclu&iacute;am textos regulares sobre televis&atilde;o mas n&atilde;o a tinham como tema principal.</p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Propriedade da empresa do Jornal do Com&eacute;rcio e das Col&oacute;nias, surgiu autodesignada como &ldquo;revista semanal de espect&aacute;culos&rdquo;, mas com papel e formato de jornal (tabl&oacute;ide). O pre&ccedil;o inicial era 1$50. Come&ccedil;ou a publicar-se em Setembro de 1956 e existiu durante todo o per&iacute;odo considerado.</p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> O primeiro n&uacute;mero publicou-se em 2 de Maio de 1963, com pre&ccedil;o de capa de 3$50. Dirigido por Eduardo Freitas da Costa, que se notabilizou na RTP como salazarista indefect&iacute;vel (ver C&aacute;dima, 1996). Publicou-se durante todo o restante per&iacute;odo do governo de Salazar.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Propriedade da firma Aguiar &amp; Silva. Publicou-se entre Outubro de 1957 e Maio de 1958, dirigido por V&iacute;tor Direito. Publica&ccedil;&atilde;o a cores, com pre&ccedil;o de 3$00.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> O corpus referente a este per&iacute;odo foi exactamente o seguinte: os primeiros 121 n&uacute;meros do seman&aacute;rio <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> (de Setembro de 1956 a Dezembro de 1958); os primeiros e &uacute;nicos 15 n&uacute;meros do quinzen&aacute;rio <i> TV Magazine</i> (de Outubro de 1957 a Maio de 1958).</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Relativamente a 1963, a pesquisa examinou seis meses de cada uma das duas publica&ccedil;&otilde;es ent&atilde;o existentes: de Maio (m&ecirc;s do lan&ccedil;amento) a Outubro no caso do seman&aacute;rio <i> TV</i> , da RTP; de Janeiro a Junho no caso de <i> R&aacute;dio e Televis&atilde;o</i> . A pesquisa foi complementada com uma amostra de 1966, apenas para o seman&aacute;rio da RTP (meses de Janeiro a Mar&ccedil;o).</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Artigo que, na altura das emiss&otilde;es experimentais, antev&ecirc; os destinat&aacute;rios da televis&atilde;o na mesma linha das preocupa&ccedil;&otilde;es que j&aacute; existiam nas elites do regime em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; audi&ecirc;ncia da r&aacute;dio, em conson&acirc;ncia com a concep&ccedil;&atilde;o desenvolvida por Ant&oacute;nio Ferro. O texto &eacute;, assinado pela Comiss&atilde;o Organizadora de um anunciado &lsquo;Centro de Estudos da R&aacute;dio e Televis&atilde;o&rsquo;, identificada como um conjunto de intelectuais, artistas, produtores e autores. (R&aacute;dio e Televis&atilde;o, n&ordm;1, 8/9/1956, p.3)</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> Brochura distribu&iacute;da pela RTP no arranque das emiss&otilde;es experimentais, em Setembro de 1956, citada em Silva e Teves (1971), p. 127.</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> Na imprensa televisiva, a defesa da promo&ccedil;&atilde;o cultural do p&uacute;blico surge com frequ&ecirc;ncia pela voz de intelectuais, independentemente da sua maior ou menor sintonia com o regime.</p>     <p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> &Eacute; o caso da jornalista Etelvina Lopes de Almeida, que em 1948 fora afastada da Emissora Nacional por defender a cria&ccedil;&atilde;o de partidos pol&iacute;ticos e elei&ccedil;&otilde;es livres: &ldquo;Sendo uma miniatura do cinema e uma reprodu&ccedil;&atilde;o m&iacute;nima do teatro, (a televis&atilde;o) n&atilde;o me satisfaz.&rdquo; (TV Magazine, n&ordm; 5, 15/12/1957, p. 9).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> R&aacute;dio e Televis&atilde;o (doravante RT), n&ordm; 116, 22/11/58, p. 2.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> RT, n&ordm; 2, 15/09/1956, p. 16.</p>     <p><Sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></Sup> RT, n&ordm; 24, 16/02/1957, p. 9</p>     <p><Sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></Sup> &Eacute; o caso, tamb&eacute;m, da revista <i> TV Magazine</i> , que no primeiro n&uacute;mero se dirige aos leitores-telespectadores enquanto p&uacute;blico que se insere &ldquo;no quadro dos espect&aacute;culos em Portugal&rdquo; (15/10/1957, p. 3).</p>     <p><Sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></Sup> RT, n&ordm; 69, 28/12/1957, p. 10.</p>     <p><Sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></Sup> Em m&eacute;dia, s&atilde;o publicadas mais de tr&ecirc;s cartas por cada uma das 52 edi&ccedil;&otilde;es desse ano e trata-se, maioritariamente, de textos com alguma dimens&atilde;o, ocupando a rubrica frequentemente duas p&aacute;ginas completas do seman&aacute;rio.</p>     <p><Sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></Sup> RT, n&ordm; 36, 18/5/1957, p. 9.</p>     <p><Sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></Sup> RT, n&ordm; 37, 18/5/1957, p. 9.</p>     <p><Sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></Sup> RT, n&ordm; 38, 25/5/1957, p. 10.</p>     <p><Sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></Sup> RT, n&ordm; 40, 8/6/1957, p.4.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></Sup> RT, n&ordm; 69, 28/12/1957, p. 10.</p>     <p><Sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></Sup> TV Magazine, n&ordm; 3, 15/11/1957, p. 10.</p>     <p><Sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></Sup> RT, n&ordm; 9, 3/11/1956, p. 16.</p>     <p><Sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></Sup> RT, n&ordm; 48, 3/8/1957, p. 3.</p>     <p><Sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></Sup> RT, n&ordm; 61, 2/11/1957, p. 2</p>     <p><Sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></Sup> RT, n&ordm; 101, 9/08/1958, p. 6.</p>     <p><Sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></Sup> RT n&ordm; 83, 5/4/1958, pp. 6-7.</p>     <p><Sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></Sup> RT n&ordm; 89, 17/5/1958, p. 6.</p>     <p><Sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></Sup> Ibidem.</p>     <p><Sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></Sup> RT, n&ordm; 73, 25/01/1958, p. 6.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></Sup> RT, n&ordm; 74, 1/02/1958, pp. 4-5.</p>     <p><Sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></Sup> RT n&ordm; 97, 12/7/1958, p. 6.</p>     <p><Sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></Sup> RT n&ordm; 99, 26/7/1958, p. 6.</p>     <p><Sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></Sup> RT n&ordm; 73, 25/1/1958, p. 14.</p>     <p><Sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></Sup> RT n&ordm; 98, 16/7/1958, p. 6.</p>     <p><Sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></Sup> Al&eacute;m da esta&ccedil;&atilde;o de televis&atilde;o n&atilde;o ter concorr&ecirc;ncia e ser tutelada por um estado ditatorial, a &lsquo;ind&uacute;stria&rsquo; televisiva tamb&eacute;m demorou a desenvolver-se por outros factores, entre os quais o baixo poder de compra, de cujo efeito se pode ter uma ideia comparando o ritmo de aquisi&ccedil;&atilde;o de televisores com o dos Estados Unidos. Ap&oacute;s quatro anos de emiss&otilde;es regulares, existia um televisor por cada 7 norte-americanos (1952), mas apenas um por cada 130 portugueses (1961). A cobertura incompleta do territ&oacute;rio e a m&aacute; recep&ccedil;&atilde;o em muitas zonas tamb&eacute;m ter&atilde;o contribu&iacute;do para uma lenta dissemina&ccedil;&atilde;o da televis&atilde;o.</p>     <p><Sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></Sup> RT, 11/10/1958, p. 15.</p>     <p><Sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></Sup> RT, n&ordm; 116, 22/11/1958, p.2.</p>     <p><Sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></Sup> TV/RTP, n&ordm; 3, 16/5/1963, p. 5.</p>     <p><Sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></Sup> TV/RTP, 24/2/1966, pp. 28-29.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></Sup> An&aacute;lise pr&oacute;pria a partir de amostras dos quatro anos considerados. A categoria definida como de cultiva&ccedil;&atilde;o agrega os programas de &ldquo;cultura erudita&rdquo; (literatura, artes pl&aacute;sticas, m&uacute;sica e dan&ccedil;a cl&aacute;ssicas, teatro dram&aacute;tico) e os de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica ou hist&oacute;rica.</p>     <p><Sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></Sup> TV/RTP, n&ordm; 141, 6/1/1966, p. 14.</p>     <p><Sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></Sup> TV/RTP, n&ordm; 5, 30/5/1963, p. 10.</p>     <p><Sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></Sup> TV/RTP, n&ordm; 24, 10/10/1963, p. 5.</p>      ]]></body><back>
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